CAPÍTULO 38
Não conseguia entender como as coisas tinham acabado tão mal.
Ainda ontem eles estavam tão felizes, partilhando uma vitória e agora... isso!
Kate se jogou no sofá, sem forças.
Aquele embate emocional com Sawyer a deixara exaurida... triste...de coração partido... e furiosa!
Tinha ficado impressionada com o ar sombrio e angustiado dele. Mesmo quando se descontrolara e gritara, nada tivera de catártico, ao contrário, sua reação tinha sido interiorizada e dolorosa.
Também ficara horrorizada e enojada com a carta que Sawyer lhe mostrara.
Não era à toa que se martirizava com ela: era a prova viva de seu crime!
Provocara uma tragédia, destruíra uma família, acabara com a vida de uma criança!
Sawyer usara friamente uma mulher, a depenara e fizera com que um homem assassinasse a esposa e se matasse-
Espere aí!
Ela se sentou no sofá como se tivesse uma mola nas costas, lembrando-se de repente de onde conhecia essa estória: ora, era estória de Sawyer!
Correu para seus papeis em busca da ficha que tinha puxado dele, logo que se conheceram, só para confirmar ela estava: a carta que Sawyer a obrigara a ler, era a sua estória trágica.
Na hora estava tão alterada, tão histérica, que não se dera conta.
Mas o que significava isso?
Ele tinha escrito uma carta para si mesmo, contando sua própria tragédia? E a esfregara na cara dela, só para afastá-la? E ela tinha caído direitinho, ponto para o vigarista!
Se levantou e se serviu de uma boa talagada de uísque para firmar os nervos, estava precisando!
Aquilo tudo parecia muita loucura.
Ele estava se flagelando com sua própria estória, jurando vingança e relendo aquela determinação sem parar... desde quando?
E agora, de uma hora para outra, parecia fazer questão de se afastar dela, de Hurley, dos vizinhos e amigos que conquistara e que se importavam com ele, pensou intrigada.
Bom, ela ia mostrar para ele que não seria tão fácil assim!
Tomando uma última golada, saiu disposta a confrontá-lo.
Sawyer tentava fechar a mala, inutilmente.
Sem prestar atenção ao que estava fazendo, tinha enfiado, automaticamente, tudo que a mão alcançara dentro de uma mala só, que agora, toda inchada, não fechava de jeito nenhum.
Desistindo, jogou a porcaria da mala no chão e a chutou, espalhando suas coisas por todo o quarto. Se sentando na beirada da cama, tentou, pela primeira vez naquela noite, refletir sobre toda aquela crise.
E a única coisa que lhe ocorreu foi se perguntar para onde iria, o que faria dali, o que faria de si mesmo...
Se sentiu solitário, encurralado e sem opções.
Sufocado, saiu angustiado para o pátio, em busca de ar. Inspirou profundamente.
O vento frio da noite lhe fez bem.
Olhou em volta detalhadamente, como se estivesse vendo tudo ali pela primeira vez.
A quem estava enganando? Não queria ir embora, não queria que nada mudasse, gostava das coisas do jeito que estavam.
E esse era o problema. E se mudasse? E se Kate resolvesse ir embora com o Jackass e Hurley não quisesse mais ser seu amigo? Ia fazer o quê?
Sentar e chorar?
Percebeu que se eles decidissem assim, não lhe restaria nada a fazer além de respeitar as escolhas deles, por mais que isso doesse.
Por muito tempo, tivera tanto medo de ser rejeitado que passara a rejeitar a todos antes, para se defender.
Sobrevivera graças a isso.
Mas agora, essa solução não estava mais dando certo. Se continuasse assim, ia acabar morrendo. Ia morrer sozinho e não queria ficar sozinho.
Cometera uma estupidez sem nome ao mostrar sua carta para Kate. Tinha sido mesquinho e covarde, porque no fundo, queria testá-la.
Agora, ela devia estar pensando o pior dele, porque ele a conduzira a esse erro.
O vento balançou as folhas das árvores gentilmente. O barulhinho suave fez bem a seus nervos.
Não tinha a menor idéia de como ia consertar tudo isso – nem se conseguiria – mas que droga, ele ia tentar!
Se Kate e Hurley não o perdoassem, pelo menos seria por alguma coisa que ele tinha feito e não por ele estar usando os dois para se castigar.
Quem sabe tudo não acabava se ajeitando?
Podia muito bem dar certo.
Afinal, ele estava se saindo muito bem, não estava?
O próprio Gordy tinha reconhecido isso.
E daí que ele queria ter uma vida normal e uma namorada, como todo mundo?
E daí que ele estivesse contente?
E daí que ele (talvez) goste das pessoas e as pessoas (talvez) gostem dele?
E se ele ficar? E se ele... sei lá... quiser ser feliz?
Ele fechou os olhos, tentando se conciliar com essa nova vida que parecia ao alcance de suas mãos e sentiu medo e antecipação.
De repente, ouviu um barulho de alguém se aproximando, mas os passos lhe soaram estranhos.
Alerta, se virou rapidamente e viu Kate parada na porta, observando-o.
Os dois se olharam interrogativamente, como se se perguntassem sem palavras, se estava tudo bem.
Pareciam cansados, mas tranqüilos, como se toda aquela emoção tivesse alcançado um nível tão elevado, que depois disso, só pudesse baixar, deixando-os zerados, e assim, mais calmos, e talvez mais sábios, pudessem então, conversar em paz.
No olhar dela havia tolerância e um toque de humor, enquanto ele esboçou um sorriso, meio de desculpas, meio a contra-gosto.
Mas já se conheciam o bastante para saber que aquilo já era uma reconciliação.
Ele caminhou até ela, mas antes que pudesse falar alguma coisa, Sawyer teve, de novo, a sensação de alguém estranho vigiando-os e soube quem era.
Foi quando os disparos começaram. Sem pensar duas vezes, ele se jogou sobre Kate, empurrando-a para o chão, com as balas zunindo sobre suas cabeças.
- Sardenta, entra e liga pro Locke, diz pra ele vir armado.
Mas não foi necessário, o barulho dos tiros chamou a atenção de todos os moradores.
- Fiquem onde estão! Locke, ele tá no portão, cuidado! – gritou Sawyer.
Kate engatinhou para dentro de casa e alcançou sua arma. Saindo com cuidado, ouviu sons de alguém correndo para a rua.
Locke, que descera para o pátio com seu rifle de caçada, acenou para Kate com a cabeça e os dois foram até o portão, chegando a ver um carro descendo a avenida a toda velocidade.
- Está tudo bem, ele já foi! – assegurou Locke.
Sun, Jin, Charlie, Hurley e os Hume começaram a falar ao mesmo tempo, quando Kate percebeu que Sawyer ainda estava no chão.
Ele segurava o ombro direito e de seus dedos escorria muito sangue.
Dando um grito ela correu até ele:
- Sawyer! Você está ferido!
- Foi só de raspão, não é nada... – disse ele com a voz rouca.
Os outros se aproximaram apavorados.
Locke examinou o ferimento e improvisou um curativo com grande presteza, enquanto Desmond chamava a emergência.
Sawyer deu o contra, gemendo de dor:
- Não preciso de emergência, isso não é nada! Gordy é um imbecil, nem pra atirar a dez metros ele serve!
Hurley fez um som de surpresa, mas não falou nada.
- Você tem que ir para o hospital, James – disse Locke – a hemorragia está muito forte.
- Eu não vou pra nenhum hospital – insistiu ele coma respiração curta.
- Você VAI sim! – sentenciou Kate, autoritária.
Ele olhou para ela como um menino repreendido.
- Uou, calma aí...
Ele quis chamá-la de algum apelido engraçado para varrer aquele olhar de pavor do rosto dela, mas por algum motivo, sua língua fico enrolada e tudo ficou escuro de repente.
Os para-médicos chegaram segundos depois de Sawyer desmaiar e ele foi rapidamente transportado para o hospital.
Dentro da ambulância, Kate tentava entender o que comentavam sobre o estado dele, mas paralisada de aflição, não conseguia tirar sentido de uma só palavra.
Em todo caso, a hemorragia parecia ter diminuído e os profissionais não estavam frenéticos como nos seriados de TV, quando os pacientes estavam em risco de morte, o que a deixou mais tranqüila.
Ele ainda estava desacordado quando chegaram ao hospital e tudo que ela pôde fazer foi ficar parada na recepção enquanto o conduziam para a sala de emergência.
O tempo não parecia passar para Kate.
Andando pelo corredor de alto a baixo, ela se perguntava porque tudo de ruim sempre acabava acontecendo com Sawyer e porque a vda não se cansava de maltratá-lo tanto. Será que ele mereceria uma trégua?
Ninguém aparecia com alguma noticia e a essa altura, Kate já se encostava na parede para esconder as lágrimas.
Para sua surpresa foi avistada por Juliet e Sayid.
Os dois estavam muito bem vestidos, como para um encontro. Ao saber do acontecido, Juliet se ofereceu para saber do estado de Sawyer.
Hurley, Locke, Charlie e os Kwons já haviam chegado, Desmond havia ficado no condomínio com o rifle de Locke para tomar conta.
Kate estava com muita pena de Hurley, o pobre rapaz estava morrendo de culpa por ter trazido para casa quem ele julgava ser um ladrão que acabar ferindo Sawyer.
- Bem que ele me avisou – disse Hurley, amuado – Sawyer me disse que o cara não prestava... eu trouxe um bandido pra dentro de casa e isso quase matou Sawyer. E eu ainda briguei, quando ele tentou me avisar.
Locke endereçou a Hurley um de seus olhares significativos que sempre intrigavam Kate, porque provavam que ele sabia muito mais do que dizia.
- Não fique assim, Hurley. Tenho certeza de que as coisas não são como está pensando – aconselhou o síndico.
- Hurley, esse cara já conhecia Sawyer, eles são inimigos de muitos anos. Não tem nada a ver com você – explicou Kate.
Esperançado, Hugo indagou:
- Tem certeza?
- Tenho sim.
Charlie, pragmático como sempre, apoiou o amigo do seu jeito:
- Viu, Hurley, você não tem culpa do cara ser chave de cadeia. Relaxa...
- Pôxa, Charlie, não fala assim dele...
Os dois começaram a discutir vagamente, enquanto Kate se prometia ter uma conversa séria com Locke ainda hoje. Estava farta de segredos e dubiedades.
Juliet voltou enfim, com boas noticias.
- Sawyer está bem, a bala tinha rompido uma artéria, daí a hemorragia, mas ela já foi reconstruída e a bala foi retirada com sucesso. O estado dele é estável e já vai ser levado para o quarto. Daqui a pouco um de vocês vai poder falar com ele por alguns minutos. Deu tudo certo, podem relaxar.
Kate sentiu como se pudesse respirar outra vez. Os amigos se confraternizaram e até Charlie exclamou, disfarçando a satisfação:
- Eu disse, esse cara é casca grossa, não morre fácil!
Apesar de ser meio maldosa da parte de Charlie, Kate achou essa, uma definição singularmente apropriada de Sawyer.
Kate viu Juliet e Sayid conversando discretamente. A paquera do outro dia tinha progredido bastante.
Juliet se veio conversar com ela.
- Você e Sayid estão saindo juntos?
- Esse é o primeiro encontro – disse ela, dando uma de suas risadas soltas, que sempre chocavam Kate – Mas vamos esperar um pouco, até Sawyer ser levado para o quarto.
- Ele está bem mesmo? – Kate quis confirmar.
- Está mesmo, se passar bem a noite, amanhã já vai pra casa – e observando Kate, a médica indagou – Você gosta muito dele, não é?
Kate abaixou a cabeça, sorrindo.
- Então, deduzo que não vai pra Boston com Jack.
- Não, não vou.
- Por causa dele?
Kate balançou a cabeça:
- Por minha causa.
- Melhor assim – concluiu Juliet.
Autorizada pelo médico a esperar no quarto até que Sawyer acordasse, Kate folheava a carta que ele a obrigara a ler.
Tinha achado dentro do bolso da calça que a enfermeira lhe entregou, junto com a camisa e os sapatos que tiraram dele na emergência.
Relendo a carta com mais atenção, pode então, ver que o papel já era meio amarelado e amassado e o envelope, datado – tudo que ela não tivera condições de perceber antes.
Sawyer começou a se mexer e a abrir os olhos lentamente.
Estranhando o lugar, ele franziu a testa até relembrar o acontecido.
- Você está bem – disse Kate suavemente – removeram a bala e suturaram sua artéria, está tudo bem.
- E os outros? Alguém mais se feriu? Hurley?
- Estão todos bem. Gordy fugiu, você acha que ele vai voltar?
Ele suspirou contrafeito.
- Agora aquele filho da puta vai sumir. Ele tem complexo de Poderoso Chefão, só que traz a arma e esquece o canoli. Faz a merda e depois foge.
- Bem, o BO do atentando contra você foi feito de qualquer jeito. Talvez peguem ele.
- Espero que não... não quero ver aquele cara nunca mais na vida- e se interrompeu ao ver a carta nas mãos de Kate.
Suavemente, ela começou:
- Eu li, li e reli. Queria entender o que significava tudo isso e aí eu entendi: você quer ser odiado! Mas faltava saber porquê. Então, eu reparei na data do envelope – Bicentenario da América, Knoxville, Tennessee.
Os olhos dele imploravam,
- Kate...
- Você era um menino, o quê? Oito, nove anos? Essa carta não foi escrita pra você, você escreveu ela. Como eu pude me esquecer? Seu nome é James Ford, não Sawyer.
Ele fechou os olhos, franzindo o rosto, cansado.
- Era o nome dele, era um vigarista. Seduziu minha mãe pra pegar o dinheiro. Deixou os dois na miséria, fez um estrago danado. Aí eu escrevi essa carta, achando que um dia, eu ia achar e matar ele!
Ele fez uma pausa, se sentindo ridículo por mais essa ironia da vida.
- Mas sabe o que é mais triste? Quando eu tinha dezenove anos, precisei de seis mil pra pagar uns caras que tavam me ameaçando. Aí achei uma mulher bonita, com um marido otário. Peguei tudo que era deles pra mim. Foi assim que eu comecei. Que acha dessa tragédia? Eu virei o homem que queria matar. Eu virei Sawyer!
E tudo fez sentido.
O ódio por si mesmo, suas inseguranças sobre quem era de verdade e o tipo de pessoa que podia ser, tudo!
Lembrou a Kate sua própria repulsa por ter, para sempre dentro dela, uma parte de Wayne.
E entendeu, por fim, o motivo dela se sentir tão atraida por Sawyer, desde sempre: eram duas almas sombrias e perdidas, procurando por luz, mas nem sempre conseguindo reconhecê-la.
Eles eram tão iguais...
Se olharam e não foi necessário dizer ou explicar mais nada.
Sawyer suspirou profundamente, se sentindo idiota por Kate estar segurando aquela carta inútil.
Querendo mudar de assunto, comentou cansado:
- Você acabou mesmo me arrastando pra um hospital, heim?
- Pois é, sou uma maluca, com mania de trazer doentes e feridos para ver um médico.
Ele virou os olhos.
- Tá, mas se eles cortaram alguma coisa que não deviam, vou te processar!
- Arrã, - ela fez, contente pela tirada dele, no velho estilo.
- Hurley tá arrasado – lembrou ela.
- Por quê? – indagou ele, meio lento.
- Porque ele tá achando que que é o culpado por você ter sido ferido.
Sawyer gemeu.
- E é pra eu fazer o quê?
Ela se levantou e recomendou:
- Seja bonzinho!
Ele rosnou, tentando se preparar para ser engolfado num mar de sentimentalismo chamado Hugo Reyes.
Mas, vá lá, talvez não fosse tão ruim assim, pensou enquanto via Kate sair para chamar Hurley.
