Disclaimer: Twilight não me pertence, mas essa história sim, assim como a filha da Bella e do Edward, portanto respeitem!
Sabe aquele momento dessa fic que vocês pediram e esperaram MUITO? Aí está um deles... Mais ou menos. hahahah Leiam até o fim, vocês vão entender.
VAI TER EXTRA DE NOVO SIM, estou adorando essas ceninhas que não tem espaço no capítulo, mas tem no meu coração! S2
Capítulo 37: Dois e dois são quatro
Bella
Para minha agonia, Edward só conseguiu marcar um horário com Joaquin seis dias depois da nossa fatídica conversa – o que era ridículo para um breve encontro que não era de negócios. Eu sabia que Joaquin tinha uma agenda cheia, mas algo me dizia que ele estava apenas tentando evitar o ex-genro e dificultar ainda mais as nossas vidas.
Enquanto dobrava roupas tiradas da secadora na área de serviço, na noite de uma quarta-feira cansativa, eu ouvia calmamente por telefone o que Edward tinha a dizer sobre sua conversa.
– Eu sei que errei com ele também, não sou hipócrita. Quando eu entrei lá, com a certeza que ele estava sabendo de tudo, eu senti um pouco de vergonha, não pude evitar...
– E o que você disse?
– Falei que estava decepcionado com essa atitude dele, que não era certo invadir minha privacidade assim. Disse que sentia muito que as coisas tivessem acabado desse jeito, expliquei que me sentia grato por tudo o que ele havia feito por mim, mas que eu não tinha mais nenhuma obrigação com Tanya, embora ainda sinta muito carinho por ela. Foi basicamente isso.
Eu fiquei em silêncio digerindo aquilo. Ciúmes não faziam parte da minha personalidade, mas ouvir daquele jeito era estranho.
– Bella? Está aí? – Ele chamou depois de um tempo.
– Sim... É só que... Eu estava pensando no que você falou.
– Qual parte?
– Você ainda sente muito carinho por ela.
– Bella, não desse jeito. – ele suspirou. – A gente dividiu uma história muito intensa... É quase um instinto de humanidade, de compaixão, entende?
Eu assenti, me achando tola por ter dúvidas que eram puro reflexo de preservação.
– Eu sei, você está certo. Desculpa, não é que eu tenha ciúmes dela, é só um receio irracional que eu tenho às vezes, coisa boba.
– Que tipo de receio?
Respirei, refletindo sobre o que sentia.
– Sei lá, que você vai achar que a nossa história está complicada demais e decidir ir pro caminho mais fácil.
– Bella... Eu não deixei claro o suficiente o quanto quero, amo e preciso de você? Nunca, nunca mais vou te deixar. A não ser que você me dê um pé na bunda, claro.
Eu tive que rir.
– Sem chances. – expliquei. – Então... Joaquin pediu desculpas?
– Sim, disse que não iria se repetir. Mas também disse que estava muito decepcionado comigo.
– Imaginei que ele diria algo assim.
– O que me deixou preocupado é como ele não pareceu ter remorso nenhum por ter feito aquilo. Ele realmente acha que estava fazendo a coisa certa.
– Eu até entendo o lado dele como pai, querer proteger a filha. Estou tentando ter empatia... Mas não consigo entender em que mundo seria aceitável subornar pessoas assim. Talvez no mundo dos milionários.
Edward riu, enquanto eu terminava minha tarefa.
– Ah, o mundo dos milionários. Eu já vi tanta coisa, você nem imagina...
Subi as escadas para levar as roupas de Claire, que estava no quarto com o som ligado nas alturas, às nove e meia da noite.
– Só um minuto. – falei para o telefone, colocando-o sobre uma estante no nosso corredor do andar de cima e abri a porta dela. – Claire, abaixa essa música e vem pegar suas roupas.
Ela estava no computador jogando qualquer coisa e me ignorou. Eu tive que entrar pra deixar as roupas sobre a cama, e aparecer na sua frente para que eu fosse notada. Aproveitei para abaixar o som eu mesma.
– Ai que susto, mãe! – ela se desviou de mim, sem tirar os olhos da tela.
– Estou te chamando e você não ouve. Já viu a hora, com esse som ligado?
– Desculpa. Espera só um pouquinho... – falou, e eu esperei de braços cruzados por dez segundos até que ela terminou de matar zumbis e virou-se para mim. – Pois não?
Eu revirei os olhos.
– O som, Claire. O que a gente conversou? Depois das sete da noite só com fone de ouvido.
– Eu sei, eu sei. Perdi a hora.
– Tá... Deixei suas roupas limpas na cama. Guarde antes de dormir. E vai dormir logo, são quase dez.
– Sim senhora. – ela assentiu exageradamente.
– Eu vou deitar, estou exausta. – falei me inclinando para beijar sua cabeça.
– Boa noite! – falou e voltou ao jogo, colocando seus fones dessa vez.
– Boa noite. – fechei sua porta e voltei a pegar o telefone sem fio que ainda estava com a ligação. – Desculpa, onde paramos?
– Uau, adolescentes... – Edward falou meio estupefato e meio entretido.
– Ugh, nem me fala.
– Consegui ouvir daqui. Esqueci que era assim.
– O quê, ela não fica ouvindo música nas alturas quando está na sua casa? – perguntei, entrando no meu quarto e indo direto deitar na cama, pois já estava de pijama e já tinha escovado os dentes.
– Não, ela é bem mais reservada. Acho que ela sente muito mais liberdade com você pra fazer besteira, eu só fico com a parte boazinha.
– É, deveria ser ao contrário. Acho que ela não quer gastar os momentos que tem com você levando bronca. – falei, me aconchegando nas cobertas e travesseiros fofos. – Bom, voltando ao assunto... Como você ficou depois de sair de lá?
– Pra ser sincero, me senti um pouco culpado, com medo de errar outra vez. Por bem ou por mal, eu tinha a confiança total dele, e agora...
– Você acha que vai se refletir no seu emprego? – perguntei suavemente.
– Não posso garantir nada, mas ele é bem profissional quanto a isso. A maioria dos empregados estão lá há anos e ficam até o fim da carreira. Você sabe como é, Joaquin gosta de preservar esse lado tradicional.
– Entendo. Espero que seja isso mesmo.
– Mas chega de falar dos meus problemas. Como foi seu dia?
– Esse problema é nosso, mas tudo bem... Meu dia foi longuíssimo. Reunião de pauta, reunião com diretores pra traçar as metas do ano, casting de novos fotógrafos. Ah, e ainda teve o aniversário de uma colega.
– Meu Deus, tudo num dia só?
– Sim. Acho que meu cérebro consumiu toda a energia do meu corpo hoje. – falei, deixando escapar um bocejo só de pensar no meu cansaço.
– Isso foi um bocejo?
– Uhum.
– Que fofa. – ele riu, e eu não entendi o motivo. – Está cansada. Vou te liberar.
– Não, tudo bem. Eu gosto de conversar com você antes de dormir, me acalma.
– Sério?
Esses telefonemas eram cada vez mais frequentes. Falávamos sobre tudo e nada, por uma hora antes de pegarmos no sono, sempre que eu estava deitada na cama.
– É, não é só pela conversa, é porque sua voz me deixa mais relaxada.
– Hmm...
– Que foi? – perguntei, sentindo que ele estava aprontado alguma.
– Eu sei de outras formas que eu posso te deixar bastante relaxada com minha voz. – falou com um tom mais baixo, a voz grave e quase rouca que ele só usava quando estava perto do meu ouvido. Um arrepio passou por mim com uma pontada em meu centro, mas eu segui firme e forte.
– Edward! – eu ri baixo, fingindo afrontamento pela proposta indecente.
– O que é que tem? Deve ser divertido. Nunca fizemos isso antes.
– Era só o que me faltava, sexo por telefone nessa idade.
– Não me diga que não gosta da ideia? Eu ia adorar te ouvir usando aqueles brinquedos todos, posso até ouvir o barulhinho... – disse, novamente com a voz deliciosa. Eu sorri, apesar de tudo.
– Ok, parece realmente excitante, mas a realidade é que eu estou morrendo de sono, não tenho forças pra nada. Vamos brincar outro dia.
– Eu sei. – ele suspirou. – É que eu gosto de mexer com você. E saiba que nossos telefonemas também me acalmam.
Eu apaguei o abajur e sorri para o escuro do meu quarto, quando tive a ideia de atiçá-lo um pouco.
– Edward?
– Hm?
– De vez em quando eu me toco antes de dormir pensando em você, na gente juntos... Me faz dormir tão gostoso.
– Porra.
– Só queria que você soubesse.
– Sério, Bella, eu preciso de você. Estou com saudades.
– Estou bem aqui, Edward.
– Do seu corpo.
Sorri, adorando ouvir aquilo.
– Eu também. – falei, uma nova ideia vindo à mente. – Vamos marcar amanhã à noite?
– Tão longe. – brincou. – Mas posso aguentar.
– Claire me avisou que vai ficar ensaiando até mais tarde, porque tem uma apresentação mês que vem. E eu posso sair mais cedo da redação, depois dessas reuniões todas, a semana vai ser mais tranquila.
– Tudo bem. Onde?
– Pode ser aí no seu apartamento.
– Achei que não queria mais pisar nesse apart-hotel.
– Eu estava com medo de ir até sua casa, mas quer saber? Que se dane! Quem não podia descobrir já está sabendo de tudo, mesmo.
Ele riu, provocando.
– Hm, que agressiva. Gosto assim.
– É, eu gosto de sair por cima.
– Aham, eu também adoro você por cima. – retrucou com malícia. Eu podia visualizar seu rosto falando aquilo. – Ok, vou desligar. Você está morrendo de sono, que eu sei, e eu ainda tenho que terminar de lavar uma louça aqui...
Dessa vez, eu ri.
– Não sei porquê, mas ainda é difícil te imaginar sendo tão... doméstico.
– Por quê?
– Quando morávamos juntos, a sua bagunça só não era maior que a de Claire. Eu precisava implorar pra você lavar um prato.
– Graças a deus a gente amadurece, né? Morar sozinho me fez aprender a ter responsabilidade.
– Ainda bem. Gosto dessa nova versão de Edward Cullen.
– Fico feliz. – falou, agora com um bocejo seu. – Te vejo no almoço?
– Vou tentar, eu te ligo.
– Tudo bem. Boa noite, amor.
– Te amo. – sussurrei. – Boa noite.
Desligamos na mesma hora e meu sono foi pesado até a manhã seguinte.
Apesar da aparente resolução com Joaquin, nós concordamos em deixar a poeira baixar. Assim, passamos a seguir uma rotina própria, dentro das nossas limitações.
Almoçávamos juntos quase todos os dias, e às quintas-feiras, enquanto Claire estava no ensaio da banda, Edward e eu nos encontrávamos depois do trabalho por algumas horas que passavam voando, rápidas demais para satisfazer nosso desejo que só aumentava. Às vezes íamos jantar, ou íamos direto para sua casa, mas sempre aproveitávamos ao máximo nosso tempo.
O receio de topar com conhecidos nas ruas – principalmente da família Denali – ainda existia, mas eu me tranquilizava ao relembrar que estávamos na maior cidade do mundo, éramos discretos quando eu ia para seu apartamento e buscávamos lugares públicos que nenhum deles frequentava.
Foi num desses nossos encontros de quinta-feira, logo no início de fevereiro, que ele me trouxe a novidade.
– Então, estou vendo um apartamento pra alugar...
– Pra você? – perguntei com a boca cheia de cheesecake mesmo. Eu tinha decidido dar um tempo nos doces. Era o primeiro em três semanas e eu estava aproveitando. Me processe.
– Sim. Fica a uns dez minutos a pé da casa de vocês, tem uma estação de metrô em frente. Me pareceu decente.
– Isso é ótimo, Edward.
– É sim. Eu quero ficar mais perto de vocês. E quanto mais longe dos Denali eu puder estar, melhor.
Sorri.
– Acho que Claire vai adorar.
– É... – falou, sorrindo esquisito.
– É?
– Bom, é que esse lugar só tem um quarto. Na verdade, é o que eu posso pagar no momento. – ele pausou. Eu assenti ao lembrar que ele pagava apenas uma parcela do aluguel no apart-hotel, um bônus por ser gerente do Le Printemps. – Será que Claire vai ficar muito chateada de perder o quarto dela? Ela ama aquele que eu montei na minha casa. Eu queria muito arranjar um lugar melhor. Meu salário é bom, mas morar sozinho em Nova York é caro, e ainda tem a pensão de Claire, as despesas com mudança, móveis novos...
Peguei em sua mão tentando tranquilizá-lo, e me virei ligeiramente para ele. Estávamos no nosso costumeiro Café, sentados lado a lado.
– Edward, está tudo bem, se isso é o que você pode oferecer, então que seja... Olha, eu sei que ela adora todos os pequenos luxos daquele apartamento, e o tanto que você mima essa garota! – eu brinquei rindo, embora estivesse falando a verdade. – Mas ela gosta mesmo é de passar o tempo com você. Estando tão perto de casa, ela vai poder dormir no próprio quarto. Além do mais, Claire está crescendo rápido. Daqui a pouco ela vai querer usar os fins de semana pra sair com o namorado, com os amigos, ir a festas...
– Festas? Ela está indo a festas de ensino médio?
– Ainda não.
– Está querendo me contar alguma coisa? – com o cenho franzido, ele perguntou.
– Não é nada demais... Tá, eu ia deixar pra falar quando ela estivesse presente. Mas essa semana Claire veio conversar comigo sobre mudar os dias que vocês se veem, pra ela aproveitar mais o fim de semana.
Perante a lei, nós ainda éramos pais divorciados, e ele compartilhava comigo a guarda da nossa filha durante os finais de semana, como havíamos decidido há anos. Nunca paramos para pensar, porém, o que faríamos quando ela já estivesse madura o suficiente para decidir com quem e como passar seu tempo.
Para minha surpresa, Edward aceitou a novidade melhor do que eu previa.
– Parece razoável. Podemos pensar em domingo, segunda e terça... Assim ela fica com a sexta à noite e sábado livres.
– Tudo bem. Vamos conversar amanhã. – confirmei.
– Ok... Mas não gosto nada dessa história de festas. Ela é muito nova.
– Eu sei, eu também não. Vou tentar barrar e negociar até quando puder. Ela só pediu para ir uma vez e eu deixei porque conhecia a família, mas não quero ficar proibindo. É pior. Você não lembra? A gente ficava saindo escondido da casa dos nossos pais, e foi numa dessas que a pirralha nasceu.
Por um segundo, Edward pareceu surpreso, e então seu semblante relaxou.
– Porra, foi mesmo, não foi?
– Sim. E eu lembro até hoje. Era dia dos namorados, 1995.
Ele sorriu, pegando meus dedos para brincar.
– A gente era doido. Mas se você quer saber... Foi um dos melhores dias da minha vida. Faria tudo de novo.
– Foi um dia lindo. – respondi com a voz presa, meu peito se comprimindo pela lembrança.
Eu ainda podia sentir a adrenalina, o frisson, a loucura, a liberdade de ter 17 anos e estar completamente apaixonada, fazendo de tudo sem pensar nas consequências, vivendo só pelo momento. Os tempos eram mais fáceis.
– Mas a gente só fugia porque você me atiçava demais. – ele provocou.
– Eu? Você é que sempre me levava pro mau caminho. Eu era muito boba e ia atrás.
– O que eu podia fazer se eu queria você o tempo todo?
Ele se aproximou, pegando atrás do meu pescoço e sutilmente virando meu rosto. Me arrepiei ao sentir seus dedos grandes me acariciando e seu olhar intenso.
– Você era um típico adolescente cheio de hormônios que não conseguia se controlar, e ainda coloca a culpa em mim? – respondi, distraída.
– Você amava e queria tanto quanto eu, não minta. – inclinou-se e me beijou lentamente por longos segundos, sua língua suave tirando meu fôlego, me dando vontade de subir em seu colo e me enroscar nele. Quando terminou, ele riu baixinho, mordiscando minha boca. – Continua a mesma coisa.
Meio desnorteada, eu lambi meus lábios e encostei minha testa na dele.
– Ok, nem vamos começar, eu preciso ir embora. Claire já mandou mensagem.
Dei um beijo de despedida, e me levantei. A conta já havia sido paga e dividida entre nós. Eu preferia assim, e ele aceitava. Edward me levou até o carro, certificando-se de que eu tinha colocado meu cinto, e me esperou sair para entrar em seu carro.
Havia nevado o dia inteiro e as ruas estavam caóticas, pintadas de branco e cinza. Apesar da casa dos Black ser no caminho da nossa, nós demoramos mais que o normal para chegar em casa. Assim que abri a porta, Claire jogou o casaco e a mochila imensa no sofá e saiu correndo para o banheiro do andar de baixo.
– Cate suas coisas e leve essa bagunça pro quarto, hein. – eu ordenei, pendurando meu casaco no closet da entrada e aumentando a temperatura do aquecedor na sala.
– Tá bom! – gritou de dentro do banheiro.
Sentei na bancada da cozinha para checar as cartas do dia que enchiam minhas mãos, e no meio de contas e catálogos de compras, o cartão postal de uma praia cristalina chamou minha atenção. Deixei o resto da correspondência e virei para ler.
"Quando fecho os olhos, é assim que eu imagino o paraíso.
Você adoraria conhecer, Bella. Pensou na minha proposta?
Eu realmente gostaria de vê-la. Ao menos conversar.
Me ligue. Saudades, Renee."
Ela estava em Cancún, no México, e a data era de duas semanas atrás. Estranhei o fato de ela estar de férias logo agora – até onde eu sabia, ela lecionava num ensino médio de Phoenix, e o ano letivo já havia voltado da pausa das festas de fim de ano há um tempo.
Não era o primeiro cartão que ela mandava – eu recebia sempre cartões de Natal. Mas esse sobre suas férias era, no mínimo, inusitado. O texto era o mais caloroso que eu ouvi dela em anos, sua rispidez costumeira não se fez presente através do papel, e eu me perguntei se ela tinha sido apenas influenciada pelo lugar onde escrevera aquilo.
– Tô morrendo de fome! – Claire falou ao entrar na cozinha. Eu ainda estava perdida, analisando o postal, quando ela apareceu na minha frente, estalando os dedos. – Alô? Terra chamando Mãe.
– Ahm?
– Perguntei se sobrou aquele frango xadrez que você fez ontem.
– Acho que sim, está na geladeira.
– Não achei.
– Você nunca acha nada, garota! – eu sacudi a cabeça. – Pote com tampa roxa na prateleira de baixo.
Claire voltou a abrir a geladeira, e deu um sorriso sem graça quando achou o que queria.
– Vai querer? – inquiriu.
– Não... Tô sem fome.
– Então tá. – disse e se inclinou para ver o que eu segurava. – Que isso?
– Cartão postal das férias da sua avó Renee.
– Hmm. Estranho. Posso ler?
Eu lhe entreguei. Ao me devolver, ela fez uma careta.
– Que proposta é essa?
– Ela ligou no dia do seu aniversário, queria falar com você, mas você estava no banho, então nós conversamos um pouco... – expliquei. – Ela disse que estava com saudades e queria ver a gente.
– Queria ver a gente? Sério? Minha avó Renee?
– Eu também estranhei.
– O que ela tá aprontando? – ela franziu o cenho.
– Não sei, flor. Não sei...
Claire me olhou por alguns segundos, certamente enxergando a confusão em meu rosto.
– Tá, mas... Você quer que ela veja a gente? – perguntou, com cautela.
– Você gostaria?
Ela deu de ombros antes de responder.
– Eu... sei lá. Faz o quê, uns oito anos desde a última vez? É meio estranho.
– Por quê? – Perguntei, genuinamente curiosa. Nós quase não falávamos sobre Renee, e eu achava que já tínhamos dito tudo o que havia para se dizer. O que não era dito estava implícito nas ações dela.
Claire lançou um olhar acanhado.
– Bom, porque... Eu sei que ela é sua mãe e tal, mas pra ser sincera, eu não gosto muito dela e acho que ela não gosta muito de mim. Quer dizer, eu nem a conheço direito, na verdade. Mas se você realmente quiser que eu vá...
– Eu entendo. Tudo bem, eu não vou te obrigar a nada.
Claire assentiu e voltou à tarefa de esquentar seu jantar, me deixando perdida em pensamentos.
No momento, eu não fazia ideia do que responder à minha mãe. Me sentia dividida entre o medo e a esperança. Eu era como um animal cheio de cicatrizes – tomando cuidado para não cair em armadilhas já conhecidas e me machucar novamente. Minha mãe era imprevisível e poderia estar querendo qualquer coisa, essa era sua personalidade. Ao mesmo tempo, reestabelecer um contato pacífico com ela era um dos meus desejos mais profundos. Eu só não sabia se seríamos capazes disso.
– Tem certeza que não vai querer comer? – Claire me chamou de volta a superfície, sentando-se na nossa bancada. Me virei para ficarmos frente a frente.
– Já comi na rua.
– Saiu pra jantar, de novo? – perguntou, soprando a comida retirada do microondas.
– Não saí pra jantar, eu saí do trabalho e depois fui comer alguma coisa.
– Semana passada você disse a mesma coisa.
– Claro que não. – eu menti. Claro que sim, estava sendo assim há um mês.
– Tá. E foi com quem dessa vez?
Ela mastigava enquanto aguardava minha resposta.
– Pessoal do trabalho.
– Sei...
– Que foi? Eu tenho amigos também, não é só você. – eu aproveitei para lembrá-la, porque afinal eu tinha saído com amigos no fim de semana passado.
Claire abriu a boca e pareceu querer falar mais alguma coisa, porém abocanhou mais uma garfada.
– Enfim. – continuei. – Quero tomar um banho e cair na cama. Se importa se eu for subindo?
– Tudo bem.
– Depois que acabar, lava a louça, hein.
Mais tarde, quando eu estava quase pegando no sono apesar do meu livro aberto e do abajur aceso, minha filha veio até meu quarto, batendo timidamente.
– Oi. – falei, e ela sentou-se perto dos meus pés. – Que foi?
– Eu tava pensando...
– Fala.
– Eu acho que... Acho que você tá querendo ir visitar a vó Renee, mas só não vai por minha causa.
Coloquei meu livro de lado, e peguei sua mão.
– Você sabe que eu ouço e levo a sério os seus sentimentos e suas opiniões. – disse, penteando uma mecha de seu cabelo e colocando para trás de sua orelha. – Mas dessa vez não é só por sua causa, filha. A minha relação com ela sempre foi estranha, cheia de conflitos. Tem várias razões. Um dia você vai entender.
– Primeiro, eu odeio essa frase. – ela sussurrou e riu. – Segundo, eu acho que você devia tentar falar com ela sim, ver o que ela quer. Sei lá, se ela procurou, talvez seja algo importante mesmo.
– Pode ser que sim. – eu respirei fundo.
– Se você quiser ir, ou se ela vier para cá, eu não tenho problema em estar presente. É sério, eu não ligo. Vou até me segurar pra não ser grossa se ela ficar enchendo muito o meu saco, se esse é seu medo...
Eu sacudi a cabeça, rindo.
– Ai dela, se ela encher o seu saco! Eu é que vou ser grossa. Minha cria vem primeiro.
– Justo. – ela riu.
– Prometo que vou pensar com calma sobre o que fazer, ok?
– Ok. Só quero te ver bem... Sem arrependimentos. – Claire se esticou para me abraçar. – Boa noite, mãe.
– Boa noite, meu amor. Durma bem.
No dia seguinte, antes de entrar na redação, passei em uma casa de correio e escolhi um cartão postal do Jardim Botânico de Nova York, colorido de tons de verde e rosa que surgiam na primavera. Era um lugar mágico que eu adorava ir quando criança.
Em pé numa bancada, escrevi a data e o endereço da casa da minha mãe em Phoenix e deixei minha mão guiar aquilo o que meu coração gostaria de dizer.
"Obrigada pela lembrança. Parece mesmo incrível, me deixou com inveja. Estamos debaixo de neve nesse momento. Ser nova-iorquina é complicado. Lembra desse jardim botânico? Era o meu próprio paraíso na infância. Adorava quando íamos com o papai fazer piqueniques, e eu corria entre os corredores floridos. Ainda lembro do cheiro da terra na primavera e de todos os tombos que tomei.
Beijos, Bella."
Por enquanto, era tudo o que eu podia oferecer, e esperava ser suficiente. Selei e submeti o postal nos correios, e fui trabalhar com sentimentos de nostalgia e apreensão pelo futuro – que não eram exatamente ruins.
xxxx
Claire
Eu estava congelando. Acordar todo dia era um esforço sobrenatural, e andar nessa cidade sob a neve era ridículo. Eu ficava o ano todo torcendo para que o outono chegasse, pois era minha estação favorita, mas quando ele acabava e o inverno tomava conta, eu me xingava por ter desejado tanto uma estação fria. Todo ano eu me esquecia disso, e o ciclo se repetia.
Por isso, agora estávamos amontoados sob cobertores na sala da casa dos Black, todos desmotivados e segurando canecas de chocolate quente, na tentativa de nos aquecer ao invés de ensaiar para a apresentação do baile de primavera da escola mês que vem. O aquecedor da garagem que tinha sido transformada em estúdio não estava funcionando direito, e descobrimos isso da pior maneira mais cedo.
– Você disse que seu pai chamou o cara essa semana. Ele não consertou aquele maldito aquecedor? – perguntei a Jake, que estava ao meu lado.
– Achei que tivesse, não sei o que houve.
– A gente precisa ensaiar. Jake, você não consegue dar um jeito? – Rachel pediu ao irmão.
– Não faço ideia como funciona. É melhor eu nem tentar.
– Ok, pra mim já deu. – Leah levantou-se de repente. – Eu vou lá consertar essa merda. Podia estar estudando pra prova, não quero ter vindo à toa.
– Como você vai consertar? – Kim perguntou o que eu pensava.
– Faço Engenharia Elétrica, esqueceu?
– Você está no primeiro período. – Kim apertou os olhos, duvidando dela, afinal Leah tinha acabado de entrar na faculdade e ainda nem tinha matérias específicas de Elétrica.
– É, mas tenho PhD de uma vida inteira consertando eletrodomésticos pra minha mãe! Só vou dar uma olhada. Vem comigo, Jake?
– Não. – eu e ele resmungamos juntos. Jake me abraçou mais forte.
Foi a vez de Leah rolar os olhos.
– Eu preciso de alguém pra me ajudar a abrir a caixa e segurar uma lanterna pra mim.
– Tá, eu vou... – suspirando, Kim se ergueu, deixando sua caneca na mesinha.
– Ah, então eu vou também. – Rachel falou, levantando-se e fechando o casaco. – Não mereço ficar de vela com esses dois aqui não.
Ela tinha nos pegado aos beijos na cozinha enquanto preparávamos as bebidas. Rachel era a nossa maior incentivadora, mas ela ainda não sabia lidar muito bem com as demonstrações de afeto entre o irmão dela e eu. Eu diria que ela estava exagerando, mas eu também me sentiria estranha no lugar dela.
– Ainda está com frio? – Jake perguntou assim que elas saíram, puxando nosso cobertor mais para cima.
– Estou melhor agora. – falei, apoiando minha cabeça em seu ombro. – Você é tão quentinho.
– Os homens costumam ter a temperatura maior, sabia?
– Isso explica porque vocês conseguem sair seminus numa temperatura de dez graus.
– Eu nunca fiz isso.
– Ah, mas meu pai praticamente faz. Eu já vi ele indo correr de manhã só de camiseta no frio. E ainda ficou suado.
– Credo. Sr. Cullen é corajoso. – ele riu.
– Sr. Cullen. – eu rolei os olhos, sacudindo a cabeça. – Eu sei que você o chama assim só de sacanagem, mas vai que isso pega...
– É só brincadeira. Mas até que eu gosto, meio que parece personagem de James Bond.
Eu sorri, lembrando de quando levei Jake para a casa do meu pai num domingo após o Natal, e ficamos o dia todo jogando videogame e comendo pizza. Apesar de ter sido meio estranho no início, com o passar do tempo os dois foram se abrindo e eu me diverti bastante. Era ótimo jogar com pessoas tão competitivas quanto eu.
– Vocês se deram bem mesmo, né? – perguntei, honestamente curiosa.
– Claro, Edward é maneiro. A gente podia marcar de jogar de novo. Aquele home theater que ele tem lá é foda.
Eu assenti.
– Posso ver se ele topa esse domingo.
– Beleza. – ele sorriu.
Ficamos em silêncio depois disso, e Jake começou a me fazer cafuné, me arrepiando e relaxando ao mesmo tempo. Sorri e senti vontade de beijá-lo como agradecimento, então ergui meu rosto e capturei seus lábios.
Eu fiquei tão distraída com nosso beijo lento, que só percebi que ele havia me inclinado para trás do sofá quando senti sua mão sob meu cardigã, alisando minha cintura languidamente.
Estiquei as pernas, mudando nossa posição – o que acabou sendo a pior ideia possível, porque assim ele ficava diretamente sobre mim. E de repente, eu conseguia senti-lo pressionando em meu quadril.
Sim, lá.
Eu tremi, mas não de frio dessa vez. Interrompi o beijo e arfei, porém ele continuou a beijar lentamente meu pescoço. Me permiti sentir só mais um arrepio para que eu recobrasse a consciência e empurrasse seu peito levemente.
Jake se afastou na mesma hora, sentando-se.
– Fiz alguma coisa errada? – ele pareceu sinceramente preocupado.
– Não. É só que... – eu desviei o olhar, sem saber como dizer. Estar na horizontal com ele fazia o alarme vermelho da minha ansiedade piscar. E isso era novo. Geralmente, a última coisa que eu sentia em sua presença era ansiedade. Mas ficar desse jeito me fazia sentir coisas que na maioria das vezes eu não sabia lidar.
Meu Deus, eu parecia até uma garotinha puritana e careta. Será que eu era isso mesmo? Nós não estávamos fazendo nada de errado.
Ainda...
– Só o quê, Claire?
Jake me salvou da minha batalha interna, e eu liberei a bochecha que eu mordia sem pensar.
– Elas podem voltar a qualquer minuto, e seu pai está lá no escritório trabalhando, é melhor a gente parar. – inventei, ajeitando meu cabelo.
– Ah, verdade... – ele assentiu. – Foi mal.
– Tudo bem. – eu sorri.
Voltamos a nossa posição anterior, mas dessa vez um pouco menos grudados. A essa altura eu estava com calor.
– Quais são nossos planos pro Dia dos Namorados? – perguntou, preenchendo o silêncio esquisito que tinha tomado conta.
Pensei um pouco. Eu não era lá muito de gostar dessas coisas clichês, mas seria legal fazer algo especial para marcar a data. Estava juntando dinheiro da minha mesada há um tempo para comprar alguma coisa para Jake, mas ainda não sabia o que seria. Fiz uma nota mental de colher informações mais tarde.
– Acho que deveria ser especial, é nosso primeiro... – respondi. – Pena que cai numa segunda-feira. Você vai estar na faculdade, não é?
– Posso tentar matar uma aula. A gente pode ir ao cinema e depois comer alguma coisa. Se sua mãe deixar, claro. Eu sei que ela não gosta que você saia em dia de semana.
– Ah, não se preocupe com ela. Ela deve fazer alguma coisa também, vai estar bem ocupada pra me dar esporro.
– Como assim?
– Ela deve sair com o namorado.
– Sua mãe está namorando? Não lembro de você ter contado.
– É... Na verdade, eu não sei.
Ele me olhou confuso, e eu tive que explicar.
– Eu tenho quase certeza que ela está, mas está escondendo. Já tem um tempo que ela anda toda estranha, ficando fora de casa por mais tempo que o normal, uns telefonemas cochichados...
– E isso significa que ela tá escondendo um cara de você?
– Tenho quase certeza que sim. Toda hora eu pego ela com aquela cara de apaixonada. Uma cara meio idiota, abobalhada, sabe?
– Uhum, tipo a sua.
– Babaca! – eu ri, empurrando seu ombro.
– Por que Bella faria isso? Eu achei que vocês tinham uma relação super legal, as garotas sempre comentam.
– Eu também não sei, Jake. Fico pensando mil besteiras, achando que ela tá com um cara sinistro, um bandido, ou tá sendo amante de alguém casado... Só por isso ela não me contaria. – eu suspirei. – Sei lá, desde o ano passado ela tá assim. Fica me escondendo as coisas. Começou com o fato de ela ter feito as pazes com meu pai e nem me disse nada. Eu te contei.
– Aham. Ela tinha o perdoado, mas não te explicou muito do que você queria saber sobre a separação deles.
– Pois é. Eu tô meio magoada com tudo, sabe. Já dei dicas, mas eu não sei como dizer isso sem começar um drama. Toda hora que eu toco no assunto, a gente se estressa. Eu odeio ficar brigando com minha mãe. – falei, sentindo um nó na garganta. – É como se ela estivesse se afastando de mim. Queria ter minha mãe de volta como éramos até pouco tempo atrás, ela era minha melhor amiga. Mas sinto que é cada vez mais impossível.
– Queria saber o que te dizer, mas... Você sabe, eu só tenho meu pai, e nossa relação é boa, mas ele é muito fechado.
Eu respirei fundo e enxuguei uma lágrima boba que tinha escorrido.
– Eu sei. Desculpa, fico reclamando da minha vida como se fosse muito ruim, e você aí com problemas muito maiores.
– Ei! Corta essa, você sabe que odeio que sintam pena de mim. E você tem todo direito de se sentir chateada, eu concordo. Se quer saber, acho que você deveria conversar com a Bella. Ela é a mãe mais legal que eu já conheci, vai entender seu lado.
– Eu já tentei. Mil vezes. Acabei desistindo.
– Bom... Ela não pode esconder um namorado pra sempre, ainda mais se a coisa for séria. Ela deve ter um bom motivo pra não querer expor. Relaxa, quando for a hora, você vai saber.
– Espero que seja logo. Não aguento mais ser trouxa.
– Vocês estão vestidos ou eu preciso queimar o sofá? Meu pai vai ficar puto hein! – a voz de Rachel soou alto da porta de trás que dava acesso ao jardim e a garagem. Ela não tinha entrado ainda.
– Deixa de ser ridícula, garota. – eu berrei. – Entra logo.
Ela entrou e foi até a cozinha pegar um copo d'água. Suas mãos estavam sujas de fuligem. Deve ter ficado segurando coisas para Leah.
– Pronto, aquecedor consertado. Levanta a bunda daí, já são seis horas. – ela falou, vindo me puxar, mas Jake se levantou também e me roubou dela.
– Vou aproveitar pra ir até o dormitório. – avisou. – Tenho que lavar roupa, e esqueci de trazer pra casa.
– Achei que você ia ficar pra assistir. – eu fiz um biquinho incontrolável.
– Semana que vem eu fico. – Jake se inclinou e me beijou, se despedindo. Eu estava no meio do abraço quando Rachel nos interrompeu, desgrudando os braços do meu namorado.
– Tá bom, já se despediu, agora tira as patas de cima da minha baterista, ela precisa ir ensaiar.
– Sempre tão agradável, irmãzinha.
– Escroto. – Rachel ralhou, mas o envolveu num abraço também. – Vai com cuidado. Te amo.
– Idem. – ele beijou a testa dela, e com um último selinho em mim, pegou a mochila e saiu pela porta da frente.
Rachel virou os olhos nos entreolhando, e saiu em direção à garagem murmurando "odeio casais", ou algo assim.
Eu ri discretamente, pensando que talvez ela só entenderia os casais quando tivesse um namorado próprio. Ou namorada. Há uns meses, ela me contou que pensava em experimentar com garotas também, e eu dei total apoio. Só queria ver minha melhor amiga feliz.
Pensando bem, tinha uma menina na escola, Lucy, que sempre me perguntava sobre a Rachel, e eu via as duas conversando no recreio. Eu sabia que Lucy já teve uma namorada do primeiro ano e eu via a forma como ela olhava para a minha amiga. Até que ela era bem bonitinha. Talvez eu pudesse dar uma ajuda...
– O que deu em você? – ela perguntou, pois eu estava sorrindo e encarando enquanto íamos para a garagem-estúdio.
– Nada. Você sabe que pode contar comigo pra tudo. E que eu te amo, né?
– Tá...?
– Só isso mesmo.
– Esquisita.
De surpresa, dei uma semi chave de braço em seu pescoço e tasquei um beijo em sua bochecha.
– Urgh, me babou toda. – ela reclamou, rindo, limpando a bochecha.
– Tem baba do seu irmão aí também.
– Você sabe ser tão nojenta! – disse, entrando para ensaiarmos.
Quando voltei para casa, estava exausta e faminta. Não que isso fosse novidade – era basicamente meu estado normal -, mas no inverno tudo piorava.
Entrei na cozinha e minha mãe me mostrou o cartão postal que minha avó mandou, e eu me peguei pensando sobre aquilo, enquanto terminava de comer.
Eu não sabia realmente o que sentir sobre visitá-la. Às vezes eu não sentia... nada. Fiquei imaginando o que poderia ter dado em sua cabeça para mandar isso logo agora. Será que ela estava doente, querendo dinheiro ou ajuda? Não tinha como eu saber, porque eu não sabia como era a avó Renee, na realidade. Todas as informações que eu tinha dela eram através da minha mãe e do meu avô.
Talvez minha mãe, esses anos todos, tenha evitado seu contato só por minha causa. Eu sabia de todo o drama envolvido com meu nascimento. No entanto, eu não queria que ela perdesse essa chance só por medo de me magoar. Quer dizer, fala sério, como eu poderia me magoar com alguém que eu mal conhecia?
Quando fui ao quarto da minha mãe e disse tudo o que eu tinha pensado, ela torceu o nariz para a ideia, como eu esperava. Minha mãe era a rainha de colocar as coisas para debaixo do tapete, e essa era, sem dúvidas, a sujeirinha que mais a incomodava. Eu podia ver a tristeza e confusão em seus olhos ao tocar no assunto, e isso me doía muito.
Entretanto, fiquei feliz por ela ter dito que iria pensar melhor sobre isso, pois eu sabia que ela iria. Tudo o que eu mais queria era vê-la feliz e livre de pesos nas costas.
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Na semana seguinte, a neve deu uma trégua, porém a temperatura não passava dos cinco graus. Minha boca ressecava fácil, e por isso meu vício em protetor labial estava virando uma coisa séria. Em cada canto da casa e das minhas bolsas e mochilas havia um tubinho. O de cereja era o meu favorito e também o de Jake – o que me motivava ainda mais a usar. Ele realmente adorava prová-lo em mim. Eu não tinha do que reclamar.
Na quinta, ele me buscou na escola para irmos ao ensaio. No meio do caminho, porém, eu reparei que tinha esquecido minhas baquetas em casa. Eram novas e eu queria treinar umas acrobacias com elas.
Jake ficou no carro, e eu prometi ser rápida. Subi correndo, mentalmente ouvindo a voz da minha mãe berrando para que eu não corresse nas escadas, o que me fez desacelerar um pouco.
Peguei as baquetas no meu quarto, colocando no bolso de trás da calça. O telefone começou a tocar enquanto descia as escadas. Eu odiava atender quando sabia que não era para mim, mas se eu ignorasse seria pior, então me joguei no sofá para pegar o aparelho.
Após anotar um recado do banco para minha mãe, avistei um protetor labial novinho esquecido em nosso pote de tralhas da mesinha de centro. Havia um tubo na minha mochila que estava quase no fim, então me estiquei para pegá-lo, enquanto levantava com pressa, querendo ir embora logo.
E aí, tudo aconteceu muito rápido.
Meu pé prendeu no tapete assim que me lancei para frente, e eu precisei me segurar entre o sofá e a mesinha, fazendo o tubinho voar da minha mão, indo parar embaixo do sofá.
Ótimo.
Essas coisas sempre aconteciam quando eu estava com pressa. Maldita Lei de Murphy. Me pus de joelhos xingando, e meti a mão sob o sofá para tatear entre poeira, bola de pelos, grampos, clipes e tranqueiras.
Caramba, há quanto tempo a gente não limpa isso aqui?
Quer dizer que minha mãe era a rainha de varrer as coisas para debaixo do tapete no sentido literal, também. Teria que convocar a dona Isabella para uma faxina de arrastar móveis imediatamente.
Minha mão acabou achando o tubinho, mas junto também veio um pedaço de papel texturizado. Puxei, limpei a mão na calça e virei o papel, curiosa.
Na mesma hora, reconheci a foto de cabine instantânea que meu pai e eu tiramos no fim de semana anterior ao meu aniversário, pouco mais de dois meses atrás. Ele tinha me convencido a ir ao parque de diversões de Coney Island, sob a desculpa de que eu estava ficando velha e logo ele não poderia mais me levar em passeios como esse.
Foi divertido e nostálgico. Porém, eu tinha certeza que essa não era uma das fotos desse dia que eu havia pregado no mural do meu quarto. Assoprei a poeira e analisei, confusa. Como isso veio parar aqui?
Nossas caretas em preto e branco me olhavam de volta. A borda de baixo tinha o rasgo onde meu pai havia separado essa foto das outras duas, antes de me entregá-las.
– Quero essa primeira. Você está fofa. – ele tinha dito, rasgando a tirinha de fotos com cuidado.
– Estou vesga, nem é uma careta bonitinha! – eu reclamei, pegando o resto da tira e jogando na mochila. – Não mostre isso pra ninguém.
– Pode deixar. – ele riu, pegando sua carteira para abrir e colocar a foto instantânea dentro.
Com a lembrança daquele momento, eu congelei. Essa definitivamente era a foto que ficou com ele. Mas como?
A última vez que meu pai havia entrado aqui em casa tinha sido justamente nesse dia, há dois meses, antes de irmos para o parque. Desde então, ele esperava no carro quando vinha me buscar e trazer nos fins de semana, ou eu tinha ido direto da escola para a sua casa. Mesmo quando falamos sobre mudar meus dias de visita, na sexta passada, minha mãe saiu comigo para falar com ele no carro, porque seria uma conversa rápida.
Tentei vasculhar minha memória, buscando alguma brecha, algum momento em que ele pudesse ter estado na nossa sala entre o final do ano passado e o início desse ano, para que essa foto caísse de sua carteira. Mas nada vinha.
A curiosidade para resolver esse mistério tinha aumentado tanto que se tornou ansiedade. Eu provavelmente estava dando importância demais ao meu achado, mas de repente, eu pressentia que algo muito, muito estranho estava acontecendo aqui.
Talvez meu pai tenha estado em nossa casa quando eu não estava aqui, por algum motivo. Lembrava de ver meus pais juntos nessa sala, em raras ocasiões ao longo dos anos, conversando sobre mim, quase sempre sobre dinheiro e questões da escola. Mas agora, nem ele, nem a minha mãe haviam mencionado nenhuma visita sua – e as vindas dele à nossa casa eram um acontecimento tão fora do comum, que minha mãe com certeza não deixaria de me contar.
Ele esteve aqui sim. Essa era a única resposta possível. Meu pai esteve aqui quando eu não estava em casa, e nenhum dos dois me contou. Isso só podia significar que estavam escondendo de mim algo muito ruim, ou...
Espere aí.
Eu só conseguia pensar em uma coisa que a minha mãe estava escondendo ultimamente.
Mas... Não era possível!
Ou era?
Meu coração acelerou, indo parar na garganta, enquanto uma enxurrada de informações e lembranças começaram a voar pela minha cabeça.
Todos os telefonemas em cochichos... As ausências da minha mãe... A civilidade repentina entre meus pais... Nós três num piquenique ano passado... O moletom masculino esquecido aqui em casa... Os olhares e sorrisos na minha festa... O colar com a pérola.
Meu Deus, o bendito colar que ele deu de aniversário à mamãe e ela não tirava de jeito nenhum!
Porracaralhoputamerda.
Um arquejo saiu da minha boca, que permaneceu aberta.
As peças que estavam faltando todos esses meses num instante se encaixaram, caindo na minha cabeça com o peso de cinco elefantes.
Como eu pude ser tão cega?
Eu tinha certeza que estava a ponto de hiperventilar, porque de repente meu coração pareceu um tambor frenético. Minhas pernas ficaram bambas e eu sentei no sofá atrás de mim. Ouvi a porta batendo, e Jake se materializou na minha frente.
– Que demora, não achou as baquetas? – perguntou, antes de ver meu rosto. – Claire, tá tudo bem? Você está pálida.
– É porque eu acabei de ter um mini enfarte.
– Quê? – ele riu, sentando-se.
– Eu acho que descobri uma coisa muito grande. Ou endoidei de vez.
– É bem provável, você já não bate muito bem...
– Para, Jake! Não tá vendo que eu tô tendo um colapso emocional aqui?
– Um o quê? Ok, agora você tá me assustando de verdade. Diz o que houve.
Eu respirei uma. Duas. Três vezes. Profundamente.
– Tá. Eu vou te contar, mas você deve prometer não rir de mim.
– Prometo.
Engoli em seco.
– Acho que descobri quem é o namorado misterioso da mamãe...
– Jura? – ele prendeu o riso, quebrando a promessa. – E quem é?
– Meu pai.
N/A: ...Suspense...
...Respira...
Pronto. Agora posso berrar: TEM EXTRA DE NOVO! BASTA COMENTAR PRA LER! A cena é o sexo por telefone, claro, pq Edward adorou a ideia e não desistiu hahah (emails devem ser escritos em forma de frase "assim underline exemplo arroba gmail ponto com")
Eu AMEI escrever esse capítulo. Vocês gostaram?
Uma correção: no capítulo 33, eu escrevi que Jake tinha 18 anos. Na verdade ele pulou 1 ano na escola, tem 17, nasceu em 1993 e Claire em 1995. Eles já falaram no cap 35 que tem apenas 2 anos de diferença, fiquei com agonia de deixar info errada. hahaha
Beijos, até breve!
