7VERSE : REALIDADE 5

EPILOGO VIDA 5: SOBREVIVENDO AO INFERNO

CAPÍTULO 35

PARA CIMA NENHUM SANTO AJUDA

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FORTALEZA DO ARQUIDUQUE ALASTAIR, IRONWHEEL

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O gigante de armadura seguia determinado pelos movimentados corredores internos da fortaleza arrastando Autólico, que lutava para se libertar do punho de ferro que o prendia pelo braço. O status de oficial da guarda senhorial era facilmente reconhecível pelo formato do elmo e pelo brasão em relevo na placa peitoral da armadura do gigante. Tanto que, em nenhum momento, foram parados por guardas. E todos com quem cruzaram se apressaram a abrir caminho para que passassem. Ninguém ali queria atrair a ira do capitão da guarda.

A construção era um imenso labirinto de corredores largos, pé direito alto e paredes de pedra iluminadas por archotes. Corredores e mais corredores, sem qualquer sinalização. Milhares de portas absolutamente iguais, todas de estrutura reforçada. O gigante parecia saber exatamente para onde ia, não diminuindo o passo em momento algum.

Autólico, se debatia desesperado, buscando algo que pudesse usar para atacar o gigante e, ao mesmo tempo, tentando memorizar o caminho com vistas a uma futura rota de fuga. Se fosse jogado numa masmorra, ao invés de resgatar Adam, seriam dois a terem que ser resgatados. Notou que, à medida que avançavam, os corredores tornavam-se menos movimentados. E também menos silenciosos. As portas não eram pesadas o suficiente para abafar completamente os pavorosos gritos de seus ocupantes.

Então, sem aviso, pouco antes de saírem em uma grande câmara central, o gigante muda de direção e se oculta nas sombras, trazendo Autólico junto. Com surpresa, Autólico vê o gigante levar o dedo indicador à frente dos lábios, o clássico sinal para que fizesse silêncio. Em seguida, com surpresa ainda maior, vê a armadura se transformar, perdendo o elmo, os braços e a maior parte da placa peitoral. Ao final, o gigante tem sua altura reduzida em um terço.

– PALEMON?

– Bom reencontrá-lo, Autólico. Bom ver que sobreviveu e chegou até aqui.

– Não graças a você. Eu acreditei de verdade que tinha sido capturado por alguém da guarda. Você quase me matou do coração.

– Sem drama, por favor. Somos imortais. Não morremos do coração. E, além disso, você é invulnerável. Mesmo que eu tenha exagerado um pouco na representação, sei que não se machucou. E só chegamos aqui sem sermos parados porque seu medo era real. Acha que demônios não farejam o verdadeiro medo? Não farejam nosso cheiro meio-humano.

– Garanto que ser arrastado até aqui imaginando que logo estaria sendo submetido a todo tipo de torturas não foi nada divertido. Agora, de cabeça fria, entendo que foi necessário.

– Mas, também não nego que me diverti um pouquinho assustando você. Estou perdoado?

– Está. Mas, isso não significa que não vai ter troco. Nem que leve mil anos. Mas, isso é papo para quando sairmos daqui. É melhor nos apressarmos. Estamos perdendo tempo e arriscando sermos descobertos.

– Com dois de nós, nossas chances duplicam.

– Então, acabam de triplicar.

– IDMON! Como chegou aqui sem que o percebêssemos?

– Eu já estava aqui. Um feitiço simples de camuflagem. Estava esperando vocês. Minha visão profética me conduziu através da cidade até essa fortaleza. Os portões principais estavam fechados. Usei uma entrada lateral em um momento de distração dos guardas. Na verdade, eu providenciei a distração. Ao entrar na fortaleza, uma visão me alertou de que os encontraria exatamente aqui. Foi uma surpresa e um grande alívio. Não sabíamos o destino de vocês. Chegamos a pensar que os tivéssemos perdido para sempre. Mesmo que não estivessem mortos, que talvez não conseguíssemos rastreá-los e que acabassem presos aqui.

– Então, você nos subestimou, bruxo. E, se não sabia que conseguiríamos, sua propalada 'visão profética' não é tudo o que você diz ser.

– Minha visão profética tem uma lógica própria. Mostra somente o que realmente preciso saber para minha própria segurança. Não o que ACHO que preciso saber e, muito menos, o que QUERO saber.

– Idmon, quando disse 'não sabíamos' estava se referindo a quem? Onde estão os outros? Vimos Zetes e Eufemo morrerem. Mas, onde estão Jasão e Gabriel?

– Zetes não morreu. Ao menos, não que eu saiba. O que viram foi uma farsa que precisei levar em frente para salvar Jasão de Medeia. Acreditam que a maldita nos seguiu até aqui, assumiu a forma de um dragão e quase me fritou?

– Medeia está aqui?

– Numa das minhas visões, ela queimava. Acredito que já tenha acontecido, mas não tenho a confirmação. Quando ela me atacou, eu recobri meu corpo com pedra. Zetes e Gabriel devem ter acreditado que morri e seguiram em frente. Ou isso, ou talvez Gabriel não tenha escapado da armadilha da bruxa. Era para já terem chegado.

– Suas visões não deram nenhuma pista sobre aonde possam estar?

– Nada sobre o arcanjo, mas Jasão está vivo. Minha visão profética me garante que nos reencontraremos e que esse momento está próximo.

– Uma coisa está me intrigando, Palemon. Pude ver que controla a forma do exoesqueleto que criou no Hades. Mas, como conseguiu se orientar aqui dentro? É um verdadeiro labirinto e chegamos aqui sem que você mostrasse um pingo de hesitação.

– Exatamente por ser um labirinto, foi fácil. Uma vez que o padrão seja reconhecido, é fácil chegar ao centro de um labirinto. Torna-se óbvio também que aquilo que se pretende proteger esteja no centro do labirinto e, portanto, esse passou a ser o meu alvo. Admira-me que o homem mais esperto do mundo não tenha descoberto o padrão. Esperava mais de você, Autólico.

– A única coisa que passava pela MINHA cabeça era como partir SUA cabeça ao meio e fugir.

– Enquanto esperava vocês, explorei o ambiente. Estão vendo as escadas? Dão acesso à torre circular que podemos ver de fora. A torre vai afunilando. Parecem ser mais de dez níveis, mas não creio que Adam esteja num dos níveis mais elevados. A torre é muito vulnerável a um ataque externo, principalmente aéreo. O ponto mais seguro deve ser o segundo ou o terceiro nível da estrutura em que estamos.

– Estranho as escadas estarem desprotegidas.

– Talvez não estejam. Talvez só não estejamos vendo o que as protege.

– Bem, o que estamos esperando? Daqui, não vamos descobrir nada. O melhor a fazer é libertar de uma vez o tal Adam Winchester e dar o fora daqui o mais rápido possível.

– Espera. Quanto a isso estamos de acordo. Mas, e depois? Mesmo que deixemos a cidade, como saímos do Inferno? Precisamos de Gabriel para nos tirar daqui.

– Não, não precisamos. Não esqueçam que ainda estamos vivos. Estamos conectados ao plano material através de nossos corpos físicos. O chamado 'fio de prata'. Precisamos de Gabriel apenas para retirar Adam Winchester do Inferno. Não podemos esquecer que ele é a razão de estarmos aqui.

– Como não precisamos de Gabriel? Sabe como sair daqui por conta própria?

– Estamos sob a proteção da Deusa da Noite. Ela vai agir como facilitadora. Mas, respondendo objetivamente a sua pergunta: quem pode nos tirar daqui somos nós mesmos. No momento em que acreditarmos que nossa missão está concluída, ou que não há absolutamente mais nada que possamos fazer para o sucesso da missão, seremos automaticamente transportados para fora.

– Quer dizer que basta qualquer um de nós desistir de lutar que será transportado para fora.

– Sim. Mas, desistir não faz parte da nossa natureza. Nós sempre vamos escolher lutar, mesmo que em desvantagem. Veja o caso de vocês. Vocês foram afastados do grupo. Mas, não se entregaram. Lutaram e chegaram até aqui. E vamos todos continuar lutando até o fim. Até sairmos vitoriosos. Ou, não seríamos quem somos. Não seríamos Argonautas.

§

Idmon estava certo ao dizer que apenas podiam não estar vendo o que protegia as escadas. Eram quatro escadas e eles eram três. A lógica dizia que havia um pátio semelhante àquele no piso acima. Um pátio que podia ser acessado por qualquer das quatro escadas. Mesmo que se separassem e subissem por escadas diferentes, em menos de um minuto novamente estariam reunidos.

Mas, a lógica comum não se aplica ao Inferno.

A escada em caracol, apesar de relativamente estreita, tinha degraus de bom tamanho. Era também razoavelmente bem iluminada pelas chamas de archotes, presentes a cada quarto de volta da escada. Autólico começa a suspeitar que há algo errado quando constata que continua subindo e subindo, mas não chega a lugar algum.

A escada parecia ter infinitos degraus.

Autólico pára, indeciso sobre fazer ou não o caminho de volta. Quando finalmente faz menção de retroceder, sente uma ondulação, uma vertigem e a perturbadora sensação de que as coisas não eram o que pareciam ser. Ele se sente observado, como se cada uma das pedras que formavam as paredes tivesse olhos e esses olhos estivessem fixos nele. Imediatamente, escuta risos vindos de todos os lados.

Os risos, inicialmente divertidos, tornavam-se cada vez mais assustadores. Os risos, que inicialmente pareciam vir de poucas pessoas (bem, com certeza não eram propriamente .. pessoas), logo tornaram-se uma cacofonia apavorante vinda de centenas de bocas.

E, então, subitamente, os risos cessam e um silêncio sepulcral o envolve. O silêncio faz que ressoem alto em suas têmporas as batidas aceleradas de seu coração e o som de sua respiração ofegante.

O alívio é curto. Os risos recomeçam, acompanhados de rosnados e outros sons que evocavam algo grande e desajeitado em movimento. Só que agora os sons vinham de longe, de um ponto da escada bem abaixo de onde se encontrava. Ainda distantes, mas se aproximando rápido. O que quer que fosse, vinha em sua direção.

Autólico começa a correr escada acima. Nota, então, que os archotes vão se apagando pouco depois dele passar. Os rosnados e a escuridão, que ameaçam alcançá-lo, o forçam a acelerar ainda mais o passo. O esforço continuado faz com que sinta dor nas panturrilhas. E não só nelas. Outros músculos também começam a se ressentir do esforço prolongado. Logo, dores insuportáveis tomam conta de todo seu corpo. Seu corpo implorava para que parasse de lutar contra o inevitável, mas sua mente insistia para que continuasse a qualquer custo. Se parasse, estaria perdido.

Não sabia mais há quanto tempo estava correndo escada acima. Sabia apenas que era impossível prosseguir no ritmo acelerado que tentava impor a seu corpo. Estava no seu limite. Suas pernas fraquejam, mas ele segue em frente, mesmo que um passo por vez. A escuridão o envolve, mas isso não o detém. Ele sabe que tem que continuar. Até que os rosnados parecem vir de um ponto imediatamente atrás dele, a uma distância de pouco mais de um braço. As criaturas não mais corriam, caminhavam no seu ritmo. Elas o haviam alcançado. Um bafo quente, de cheiro desagradável, traz à sua mente imagens de cães raivosos babando. O pânico começa a dominá-lo.

Ele tropeça e cai. E ali fica. Escuta os rosnados baixos à sua volta. À sua frente. Atrás dele. Duas, talvez três feras. O hálito repugnante. O calor da respiração da fera tão próximo ao seu rosto. Algo gosmento pingando sobre sua pele. Algo áspero que apenas roça seu ventre, sem realmente tocá-lo. Autólico se encolhe, numa horrível sensação de desamparo. Esquecera-se que era invulnerável. Sentia-se indefeso, a mercê de criaturas que logo o destroçariam. Que só estavam adiando o momento porque estavam se divertindo farejando seu medo.

E, então, a sensação de estar sozinho. Absolutamente sozinho. As criaturas não estavam mais lá.

Autólico, as pernas ainda bambas, se põe de pé. É quando sente toda a escada estremecer violentamente, como se fosse desabar. E, as paredes realmente começam a desabar. A total escuridão começa a ser quebrada pela crescente luminosidade vermelha vinda de fora a medida que mais e mais pedaços de parede desmoronam.

E, então, não há mais paredes, não há mais fortaleza. Apenas um mar de lava se estendendo de horizonte a horizonte. Autólico se vê no alto de uma escada espiral gigantesca formada por degraus que flutuavam sem apoio sobre o mar de lava. Ele vê que os degraus inferiores, sem sustentação, desabarem e a serem engolidos pela lava. Um a um, de baixo para cima, os degraus de pedra vão caindo e desaparecendo na lava.

§

Palemon tinha recriado a armadura de oficial da guarda e acabara de pisar no andar acima quando vê doze garotas lindíssimas vindo em sua direção. Era impossível ser homem e ficar indiferente a elas. Tudo nelas era suave e belo. Tudo nelas trazia uma promessa de amor. A forma como o olhavam, como sorriam, como gesticulavam. Eram perfeitas. Doces e sensuais. Exibiam um tipo de sensualidade tão natural que passava por inocência e recato, como se não tivessem consciência do poderoso efeito que sua simples presença causava na libido masculina.

Cada uma parecia a representante máxima de uma etnia. A sua mais perfeita tradução. Escandinava, eslava, mediterrânea, árabe, celta, polinésia, indiana, chinesa, japonesa, africana, aborígene e indígena norte-americana. Eram maravilhosamente diversas nos detalhes e, ao mesmo tempo, iguais na perfeição de suas medidas. Buscar as diferenças entre elas era somente uma das formas de prazer que a visão daquele conjunto harmonioso lhe causava. Olhar para elas era tudo que conseguia fazer.

Não era possível apontar uma como a mais bela. Eram todas absolutamente perfeitas. Palemon se perdia, fascinado, na visão de cada uma delas. Sentia sua mente racional esvaziada de pensamentos. Voluntariamente entregava-se às sensações que a proximidade delas trazia a seu corpo. Veio à sua mente que aquela teria sido a reação de seu pai Hefestos à visão do corpo perfeito de Afrodite.

Estavam vestidas com elementos que remetiam às suas culturas, mas os tecidos que as cobriam eram quase etéreos. Assim como seus cabelos, os vestidos ondulavam a cada movimento que faziam e mesmo na ausência de movimentos. Ondulavam como se ao vento, mesmo com o ar absolutamente parado.

Delas emanava uma sensação de frescor, como se sua mera presença alterasse a temperatura ambiente e a composição do ar. O pesado ar do Inferno, impregnado de enxofre, seco e quente, não as tocava. O ar em torno delas era agradavelmente úmido e cheirava a flores silvestres e frutos maduros. Os cheiros se misturavam e se harmonizavam de forma inebriante.

Elas cercam Palemon, cheias de olhares e sorrisos, e começam a despi-lo da armadura. Ele se deixa despir, envolvido pelos beijos, toques e carinhos das donzelas. Uma sensação embriagante de prazer o envolve.

Uma voz distante tenta alertá-lo de que ele não deve desfazer-se da armadura. Que precisa resistir ao encanto das súcubos. Que, uma vez separado do exoesqueleto gerado no Hades, ele estará indefeso no Inferno.

Mas, ele ignora aquela voz incômoda e se entrega ao beijo da linda garota chinesa.

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22.03.2015