Capítulo Trinta e Oito

Ripples

(Repercussões)

- Quando foi a última vez que fez a barba? – Harry quis saber.

James ergueu os olhos, surpreso.

- Uh... Semana passada, eu acho. Sexta-feira passada? – ele disse, esfregando uma mão pela barba rala em seu maxilar.

Harry ajeitou o braço esquerdo, pendurado em uma tipoia para que ele não o mexesse muito.

- Você está parecendo seu tio Ron, quando ele tentou deixar crescer um bigode, depois da guerra. – Harry riu. – Cresceu em tufos esparsos. Ficou cansado do tio George o zombando todos os dias, e finalmente fez a barba. Ainda bem.

O aprendiz designado à Harry entrou com cinco frascos alinhados em uma bandeja.

- 'Tarde, senhor. – ele disse.

Harry piscou para James. Ergueu a mão direita, com o dedo indicador, médio e anelar erguidos.

- Quantos? – ele perguntou.

O aprendiz colocou a bandeja na mesa.

- Três. – ele suspirou. – Eu realmente sinto muito sobre isso, senhor. Eu entrei em pânico...

Harry dispensou a preocupação do aprendiz.

- Não se preocupe, Jonathon. Na próxima vez, apenas leia o prontuário com um pouco mais de atenção. – torceu o nariz, ajeitando os óculos no nariz. – Eu realmente não vejo muito sem os óculos. Apenas vários borrões em formas de pessoas, se há pessoas no cômodo. – Harry estudou os frascos desconfiadamente. – Suponho que queira que eu beba essas misturas vis?

- Infelizmente, sim. – Jonathon passou um frasco para Harry. – Você tem minha compreensão, senhor. Fazer essa poção me fez chorar.

Zombeteiramente, Harry fez um movimento de brinde para James e jogou a poção no fundo de sua garganta, para que conseguisse engolir sem querer vomitar.

- Maldição. – ofegou. – O que tem nela?

Jonathon pegou a seguinte, girando-a gentilmente.

– Eu preferia não lhe dizer. É como perguntar do que as salsichas são feitas.

- Tem razão. – Harry cedeu, aceitando o segundo frasco. Fazendo uma careta quando o líquido grosso e viscoso desceu por sua garganta, ele engasgou: - Quando posso ir para casa?

- Quando o curandeiro Leighton liberar. – Jonathon trocou o frasco vazio por um cheio. – Mas suponho que em alguns dias, quando ele se convencer que seu ombro está se curando.

Harry fechou os olhos perante o gosto ardente da poção.

- Brilhante. – correu a língua pelos dentes. – Ugh. Essa aí faz parecer que tem cabelo crescendo na minha língua.

- Não pode deixar o gosto melhor? – James perguntou curiosamente.

- Não. – Jonathon respondeu. – Nós tentamos na minha aula, mas tudo o que um adoçante faz, é tornar a poção menos efetiva. E alguns aromatizantes reagem com os ingredientes.

- É de se pensar que, com tudo o que podemos fazer... – James refletiu. – E não podemos fazer uma maldita poção não ter o gosto da bota velha de alguém. – ele fez uma careta quando Harry engoliu o conteúdo do quarto frasco.

- De onde você acha que os trouxas tiraram a ideia de dar doces depois de uma visita ao curandeiro deles? – Jonathon sorriu.

Harry sorriu um pouco. Ele se lembrava de ganhar aqueles pequenos pirulitos no consultório do médico, depois de ir tomar suas vacinas para o primário. Ele esperara até ir para a cama, e se deitara no armário apertado, deixando o doce de sabor de fruta derreter em sua língua.

- Última. – ele murmurou, pegando o último frasco. – Quanto mais disso? – ele perguntou, virando o frasco em sua boca.

- Depende. Talvez uns dois meses até terminar com todas elas. – Jonathon juntou os frascos vazios e começou a ir embora. – Eu volto com as próximas doses em algumas horas. – ele disse.

- Estarei esperando. – Harry retorquiu secamente. Olhou para James, sentado na cadeira. – Então, por que não fez a barba? – ele perguntou, abruptamente voltando ao tópico anterior.

- Apenas não fiz. – James murmurou, dando de ombros. – Por que faz isso?

- Faço o quê?

- Se coloca em perigo dessa maneira. – James disse. – Você podia ter morrido. Teria deixado a mamãe, Al e Lily realmente chateados. – ele acusou.

- James... – Harry começou suavemente. – É o meu trabalho, filho.

- Mas é perigoso. – James insistiu teimosamente, o maxilar se apertando de uma maneira muito parecida com Ginny.

Resmungando um pouco quando o movimento incomodou seu ombro, Harry esticou a mão direita e a colocou levemente no joelho de James.

- Não é como costumava ser. – se afundou mais um pouco nos travesseiros. – Quando eu tinha sua idade, era terrivelmente perigoso. A maioria dos Aurores nem se davam ao trabalho de se casar, menos ainda de ter uma família. Era muito arriscado.

James brincou com o fio solto no joelho de seu jeans.

- Mas alguém o atacou...

Harry suspirou.

- Talvez devêssemos ter sido mais abertos com você e seus irmãos sobre como era para nós.

- Eu li sobre o assunto. – James murmurou.

- Então, você tem uma ideia de como era. – Harry repreendeu gentilmente. – Isso... – ele indicou seu ombro coberto de curativos. – Isso não é nada. Isso poderia ter acontecido com qualquer um. – Harry brincou com a borda do lençol. – Se você quiser, eu posso... – Harry engoliu, sua boca subitamente seca. – Eu te conto sobre algumas das coisas que você leu. Preencher algumas lacunas...

- Por que eu finalmente sou velho o bastante? – James zombou.

- Não. – Harry disse, balançando a cabeça. – Por que se sua mãe e eu tivéssemos sido mais abertos sobre como as coisas eram quando estávamos crescendo, isso não pareceria tão ruim. – Harry olhou para James pelo canto dos olhos. James estava esfregando o dedão no indicador e no dedo médio. – Além do mais, - Harry adicionou. – eu já morri uma vez. Não planejo fazer isso novamente por um longo tempo.

-x-

Ron olhou para seu relógio, esperando Hugo decidir seu próximo movimento no jogo de xadrez. Seus dedos tamborilaram impacientemente na mesa e ele suspirou. Hugo olhou para seu pai com as sobrancelhas franzidas.

- Não faz tanto tempo. – ele bufou, apontando para o cronômetro ao lado do tabuleiro.

Ron piscou.

- Huh? – balançou a cabeça levemente, tentando limpá-la. – Oh, não é isso.

Hugo mordeu seu lábio inferior, e moveu um bispo, e apertou o botão do cronômetro.

- Você está agindo como a vovó na semana passada.

Ron cerrou levemente os olhos para seu filho, mas Hugo apenas sorriu para ele.

- E isso seria como, exatamente?

Hugo deu de ombros, os olhos correndo pelo tabuleiro, calculando os possíveis movimentos que podia fazer, baseando-se no que Ron podia fazer.

- Você fica distraído.

- Você está louco. – Ron comentou, descuidadamente movendo uma de suas peças.

- Estou? – Hugo rapidamente moveu sua rainha. – Xeque-mate. – ele olhou para Ron. – Se você não estivesse distraído, nunca teria feito isso.

Os dedos de Ron derrubaram seu rei.

- Touché. – ele murmurou. – Sua mãe já devia estar em casa. – distraidamente, Ron começou a colocar as peças no tabuleiro. Olhou para Hugo e Rose, que estava aninhada no sofá com um livro. – Vocês estão com fome? – eles balançaram a cabeça. Metodicamente, Ron estalou os dedos, observando os segundos passarem em um relógio. – Certo. – ele se ergueu e andou até a porta, apalpando seu bolso traseiro para se garantir de que sua varinha estava lá. – Eu vou tentar achar sua mãe. – ele disse. – Volto daqui a pouco. – ele começou a abrir a porta, mas se virou abruptamente e correu para o quarto.

Ron abriu a gaveta da cômoda, fuçando na bagunça de meias até seus dedos encontrarem um objeto pequeno, duro e prateado. Sua mão se fechou ao redor do objeto e Ron o colocou no bolso do jeans. Ele não tinha certeza de onde Hermione estaria, mas ele tinha algumas ideias, e se essas ideias se provassem erradas, ele precisaria de ajuda extra. Afinal, tinha funcionado uma vez antes. Ele foi até a porta e foi para o patamar, aparatando para o muro que marcava a divisa do estábulo atrás d'A Toca.

Pulou o muro com facilidade e foi até o carvalho, subindo os degraus pregados ao tronco até a casa escondida pelos ramos.

- Hermione? – chamou quando sua cabeça passou pela porta no chão. Ela não estava lá. – Mais um lugar... – ele murmurou, voltando até o muro e aparatando para Oxford. O jardim de rosas estava ainda pior do que no começo do mês, quando ele fora conversar com Hermione, depois de falar com as crianças. Ron deixou sua mão emoldurar algumas rosas murchas, sua boca se virando tristemente para baixo, quando o mais leve dos toques fez as pétalas caírem. Inalando lentamente, ele se virou para a casa e caminhou para a porta, batendo hesitantemente.

- Hermione?

Não houve resposta.

Ron girou a maçaneta, suas sobrancelhas se erguendo em surpresa quando virou sob sua mão.

- Mione? – ele espiou na escuridão da sala de estar, o nariz se torcendo perante o cheiro de bolor e de um cômodo permanentemente fechado. Apontou a varinha para a janela, e a ergueu, fazendo as janelas abrirem, deixando a brisa de fim de verão entrar.

O som de um fungar chamou sua atenção, e Ron se virou na direção do som. Vinha da cozinha. Curiosamente, ele seguiu o som até a cozinha e encontrou Hermione olhando para o fundo de uma xícara de chá. Ron conseguia ver a espuma de leite que se formara nas bordas do chá gelado. Sem falar nada, ele se sentou na cadeira ao lado da dela e entrelaçou seus dedos. Suas bochechas rosadas lhe diziam que ela estivera chorando há algum tempo.

- Eu me sinto horrível. – ela murmurou. – Como se eu a houvesse abandonado.

- Mas não abandonou. – Ron insistiu.

- Ela achou que eu estava indo para Hogwarts, para o meu primeiro, quando eu estava indo embora. – Hermione esfregou uma toalha de chá de seu rosto. – Ela estava até cantando... – ela escondeu o rosto no ombro de Ron. – Ela estava cantando como ela fazia quando eu estava empacotando minhas coisas. – ela se engasgou. – E aí, a mamãe estava me confortando quando eu fui embora, por que ela achou que eu tinha onze anos e estava aterrorizada de que não faria nenhum amigo na escola...

Ron não sabia o que dizer. O problema era que não havia algo que ele pudesse dizer no momento para não piorar as coisas. Hermione já estava se sentindo extremamente culpada por não conseguir cuidar de Jane. Dizer que isso era o melhor a ser feito, era a pior coisa que ele poderia dizer. Ao invés disso, ele passou os braços ao redor dela e apenas a deixou chorar até o tecido de sua camiseta estar encharcado.

Eventualmente, os sons do choro de Hermione se transformaram em respirações longas e trêmulas.

- Quer ir para casa? – Ron murmurou.

- Ainda não... – Hermione se sentou, secando as bochechas com uma mão. – Eu preciso... – ela parou de falar, incerta. – Eu preciso... – ela fez um gesto vago para a casa.

- Quer que eu fique? – Ron perguntou.

Hermione assentiu, cruzando os braços sobre a mesa e descansando a cabeça neles.

- Por favor...

Gentilmente, Ron afastou os cachos do rosto dela.

- Tudo bem. Não precisamos voltar imediatamente, mulher. Imagino que Rose e Hugo conseguem cuidas das coisas por algumas horas, eh? – ele esperou Hermione responder, antes de perceber que ela tinha adormecido. – É melhor avisá-los de que vamos demorar um pouco. – ele murmurou, afastando a cadeira silenciosamente. Foi até o jardim dos fundos, incapaz de continuar dentro da casa.

Ele parou no meio do jardim mal cuidado, a varinha segura frouxamente em sua mão, tentando bloquear a imagem do jardim e tudo o que ela representava. Ele quase nunca usava um Patrono, mas supôs que podia enviar uma mensagem para Rose e Hugo, considerando que não deixara seu celular com eles. Ele conseguia sentir o aparelho em seu bolso direito.

- Certo... Pense em algo feliz... – ele murmurou para si mesmo, fechando os olhos. A brisa mudou, e a imagem de Hermione no dia de seu casamento apareceu em sua mente, nascida em meio à fragrância de rosas que o circulava. – Expecto Patronum. – ele disse suave, mas firmemente. Os olhos de Ron se abriram lentamente e o cachorro prateado estava sentado aos seus pés, a pata erguida em súplica. Ele quase riu desde que o animal tinha a mania de correr quando era mais novo. Acho que em algum momento todos envelhecemos, pensou. – Vá avisar Rose e Hugo que chegaremos tarde. – ele pediu. O cachorro pulou a cerca e desapareceu. Ron olhou para a casa por sobre o ombro e decidiu que Hermione ainda iria dormir por uma hora ou duas, e foi até a barraca recolher algumas ferramentas.

Ajoelhando-se na ponta do antigo canteiro que circulava o jardim sob o pôr do sol, Ron sentiu um pouco da tensão, que residia em seus ombros, sumir quando começou a aparar as antigas roseiras que enfeitavam a casa. Ele estava cansado. Entre se preocupar com Hermione e passar a semana se preocupando com Harry, ele não dormira muito nos últimos dois meses.

Ron jogou um punhado de folhas em uma pequena pilha e foi para a próxima roseira. Ele se perguntou o que fariam com a casa. Ele não conseguia imaginar vendê-la, não com as valiosas rosas de Richard lá. Engraçado, ele se foi há catorze anos e ainda penso nas rosas como sendo dele... Era algo que teriam de discutir. Mais tarde. Muito mais tarde.

Quando Ginny tinha ido à área de espera, na tarde anterior, trêmula e pálida, Ron temeu pelo pior, não apenas por si mesmo, que perderia seu melhor amigo, mas ele não conseguia imaginar ter de contar a Hermione que ela perdera outro membro de sua família. Ele se sentira aliviado por poder ligar para Hermione e lhe dizer que Harry ia ficar bem. Ainda assim... Isso tudo tinha feito Ron se lembrar, desagradavelmente, de seu primeiro ano, depois de encontrarem a Pedra Filosofal, e ver Harry deitado naquela cama de hospital totalmente branca, vários cortes e arranhões se destacando em seu rosto pálido. Ele ficara desacordado por dias também, na época.

Sua respiração falhou, e Ron deixou a pequena tesoura de poda cair ao chão, sentando-se sobre seus calcanhares. Lentamente, esfregou uma mão pelo rosto, deixando marcas de sujeira em suas bochechas. Respirando fundo várias vezes, tentou estabilizar o tremor em suas mãos. Por vezes demais, ele precisara ser aquele que não entrara em pânico, deixando todos seus medos e preocupações de lado para lidar com as de outra pessoa, quando tudo o que queria fazer era entrar em pânico. Seus dedos se fecharam ao redor do punhal da tesoura de poda e ele a jogou do outro lado do jardim, fazendo uma careta quando ela acertou a cerca com um thump metálico.

Ele ficou sentado sobre a grama, se sentindo como o adolescente rabugento que tinha sido.

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Ginny fuçou no cesto de roupa suja no canto do quarto, até encontrar a camisa que Harry usara para trabalhar na segunda-feira passada. Ela a levou até o rosto, inalando a leve fragrância de Harry, que ainda estava na camiseta. Ela tirou a própria roupa, e passou os braços pelas mangas, abotoando a camisa, enquanto caminhava até a cama. Ginny ergueu a ponta do cobertor e se deitou sob ele, pegando o travesseiro de Harry, puxando-o para si, e passou os braços ao redor dele. Ele ia voltar para casa em uns dois dias. O corte no ombro dele finalmente estava dando sinais de estar sarando — ela já não conseguia ver o osso tão claramente quanto há uma semana, quando eles mudaram os curativos.

O celular do lado de Harry da cama apitou uma vez, sinalizando uma mensagem, e ficou em silêncio. Franzindo o cenho, Ginny o pegou e olhou para a tela.

- Oh... – em toda a confusão, ela tinha se esquecido de entrar em contato com uma pessoa. Nervosamente, Ginny pressionou o botão que retornaria a ligação de Dudley.

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Dudley colocou Sarah em seu berço e esticou o cobertor sobre ela. O celular em seu bolso começou a tocar, assustando Sarah. Ela acordou e começou a chorar.

- Maldição... – Dudley tentou equilibrar o celular e Sarah, mas só conseguira derrubar o celular no chão, e torcer o pijama de Sarah ao redor de seu corpo. Apoiando Sarah no quadril com um braço, Dudley conseguiu pegar o celular – Alô?

- Oi... É Ginny... – uma pequena ruga apareceu entre as sobrancelhas de Ginny. – É um mau momento?

Dudley caminhou pelo corredor até a sala de estar, onde Aaron estava cercado por livros e papéis.

- Não, está tudo bem. Sarah tem o sono leve. – ele passou sua filha chorosa para Aaron e disse para ele apenas com o movimento dos lábios: - Ajuda!

- É de se pensar que você colocaria essa maldita coisa no silencioso. – Aaron resmungou, aninhando Sarah contra seu peito.

- Não percebo que está tocando quando corro. – Dudley suspirou. – Desculpe. – disse para Ginny.

- Não se preocupe. – Ginny puxou a manga da camisa de Harry sobre sua mão livre e começou a brincar com os botões.

Dudley foi até a cozinha e puxou uma cadeira da mesa, se sentando.

- Está tudo bem? Eu liguei algumas vezes na última semana para tentar marcar um jantar, mas acho que Harry não recebeu as mensagens.

- Não. Acabei de vê-las. – Ginny disse. – Na verdade, estou ligando sobre Harry.

- Ele não vai cancelar, vai? – Dudley perguntou cautelosamente.

- Oh, não. É só que ele esteve no hospital essa última semana.

- Ele está bem?

- Ele vai ficar. – Ginny começou a tagarelar. – Eu realmente sinto muito. Eu apenas não pensei em te ligar e ele estava inconsciente...

- Eu quero vê-lo. – Dudley disse, interrompendo a fala de Ginny.

- O quê?

- Eu quero vê-lo. Se é que posso. – ele adicionou, se lembrando de que o mundo de Harry era um segredo muito bem guardado.

- Oh. – Ginny piscou algumas vezes. – É claro que pode. Mas eu vou ter que te levar até lá. Caso contrário, você não vai conseguir encontrar a entrada. – ela respondeu simplesmente.

- Oh, certo. Por que é escondida, naturalmente.

- Bem, sim. É. – Ginny sorriu um pouco. – Elas todas são.

- Então, onde...?

- É em Londres. Perto da estação Holborn.

Dudley bufou zombeteiramente.

- Bem, isso é conveniente.

- Às dez da manhã, amanhã, é muito cedo?

- Nah. Está bem. – Dudley pausou, desenhando na superfície da mesa com um dedo. – Quão ruim é...? – ele perguntou hesitantemente.

Ginny soltou o ar lentamente.

- Foi muito ruim. Ele está melhorando, mas vai demorar. Vão deixá-lo vir para casa em alguns dias.

- Isso é bom. – Dudley suspirou em alívio.

- Então, amanha às dez, em frente à Holborn?

- Sim. Boa noite, Ginny. E... Obrigado por ligar.

- De nada. – Ginny se acomodou contra os travesseiros e desligou o celular. Ela se perguntou brevemente, enquanto adormecia, se Dudley se lembraria de George e o doce incha língua. Ela esperava que não. Caso contrário, as coisas podiam ficar feias.

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Aaron observou Dudley desaparecer pelas portas duplas, seguindo Ginny, deixando-o na área de espera com Sarah. Vários membros da família de Ginny estavam sentados em grupos, alegremente ignorando o sinal na parede, que pedia aos visitantes que fizessem silêncio. Ele olhou o amontado de ruivos, com alguns cabelos loiros e castanhos e negros. Voltou sua atenção para Sarah.

- Então, acha que podemos dar conta deles? – ele perguntou. Sarah bocejou e mordeu o punho. Seus dentes estavam começando a nascer e uma linha de baba escorreu por seu braço. – É, foi o que pensei... – Aaron olhou ao redor do cômodo, tentando descobrir se conseguia identificá-los pelas descrições. O homem calado sentado a sua frente, com um lápis e um pequeno caderno em suas mãos, parecia vagamente familiar. Quase como Ginny, se Ginny fosse homem. Mas os olhos... Aaron tinha certeza de que os vira antes. De fato, tinha certeza de que os vira àquela manhã. – Charlie! – exclamou.

O homem piscou confusamente.

- Eu te conheço?

- Você é Charlie. O irmão de Ginny. Bem, um deles... – Aaron terminou pateticamente.

- E você é...?

- Aaron Bernstein. Sou o parceiro de Dudley.

- Como você me conhece? – Charlie perguntou em confusão.

- Oh, bem, é só que Harry fala sobre todos vocês, e ele disse que James tinha os olhos do avô. Como Ron e Charlie. Mas Ron é alto... – Aaron percebeu que estava tagarelando e mordeu o lábio.

- Posso? – uma mulher gordinha e baixinha ergueu os braços. – Todos os meus bebês já estão grandes. – quando Aaron olhou desconfiadamente para ela, ela continuou. – Sou Molly. Mãe de Ginny.

Aaron olhou para Sarah, que resmungou alegremente para Molly e ergueu um pulso gordinho e molhado.

- Se tem certeza...

Outro homem bufou zombeteiramente em descrença.

- Mamãe sempre precisa de um bebê na casa. Ela já começou a querer casar os netos mais velhos para que eles possam aumentar o caos. – ele olhou feio para Molly. – Como se precisássemos de mais.

Os olhos de Aaron se cerraram para o homem que falara. Seu cabelo estava cortado em um estilo curioso, que era um pouco curto, mas ainda grande o bastante para cobrir suas orelhas. Exceto que, onde no lado esquerdo era possível ver a ponta da orelha, o lado direito era estranhamente chato.

- George! – Aaron deixou escapar.

- Sim... – George se recostou em sua cadeira, os braços cruzados sobre o peito. – Então... Você está com Dudley... – ele nunca acreditara na história mal contada de Ginny de que Dudley tinha mudado.

- Dez anos. – Aaron confirmou timidamente. – Acabamos de adotar Sarah, em março.

- O que você faz, querido? – Molly perguntou com interesse.

- Sou advogado. Cuido mais de direitos humanos.

- Como Hermione. – alguém explicou quando o rosto de Molly ficou confuso.

- Oh, tudo bem, então. – ela carregou Sarah até um amontoado de mulheres, deixando Aaron desconfortavelmente sozinho com Charlie e George.

George estudou Aaron como se ele fosse um tipo anormal de fungo mágico a ser usado em um dos doces da loja.

- Que tipo de direitos humanos? – ele perguntou abruptamente.

Aaron inclinou a cabeça, considerando George.

- Eu me garanto de que as pessoas não sofram discriminação por sua sexualidade. – ele disse secamente. – Eu ajudo a tornar possível para que pessoas, como eu, possam casar e ter famílias. E tenham trabalhos, para que possam comer e manter um teto sobre suas cabeças. – ele correu uma mão pelo cabelo. – Olhe, eu sei que Dudley era meio que um idiota, quando era mais novo. Mas você honestamente acha que alguém que faz o que eu faço, estaria com um sadista? – ele rosnou suavemente.

Antes que George pudesse responder, Dudley passou pelas portas, parecendo um pouco trêmulo. Seus olhos se arregalaram quando ele viu George sentado em frente a Aaron.

- Você! – ele exclamou. – Você derrubou aquele doce!

- Sim. – George admitiu, uma pitada de desafio em sua voz.

- Minha língua ficou com um metro! – Dudley olhou feio para George. – E você tinha que saber que eu estava em uma maldita dieta!

George pareceu desconfortável.

- Sim. – a ponta da única orelha ficou corada. – Você judiava de um amigo.

Dudley ficou pálido.

- Eu me desculpei com Harry. – ele disse, tenso. – Ele aceitou e seguiu em frente. Eu me recuso a ser julgado pelo meu passado pelo resto da minha vida. – ele encontrou Sarah e a tirou dos braços de Molly com um pedido de desculpas pelo barulho com George.

Ginny cutucou Teddy, que estivera no quarto de Harry.

- Pode levar Dudley e Aaron para saída? Eu preciso discutir algo com George. – ela disse em uma voz ameaçadoramente baixa.

- Claro. – Teddy chamou Dudley e Aaron rapidamente e eles desceram as escadas até o térreo.

Ginny foi até George e cutucou suas costelas.

- O que foi isso? – ela sibilou.

- Ele que começou. – George protestou.

- E você tem quantos anos? Dois? – Ginny disse exasperadamente. Ela ergueu uma mão para impedir qualquer protesto de George. – Primeiro, Harry e Dudley demoraram anos para chegar nesse ponto e Deus me ajude se você arruinar tudo. Segundo, se Harry é capaz de deixar o rancor de lado, você também deveria. Terceiro, se isso afetar de qualquer maneira a relação de Harry com seu primo, alguém me ajude, eu vou deixar você explicar para ele o que aconteceu. – seus olhos se cerraram, fazendo George se encolher levemente sob o olhar dela. – Está claro? – ela cuspiu suavemente. George assentiu e Ginny virou sobre os calcanhares, deixando-o parado no meio da área de espera.

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Harry ajeitou a tipoia com irritação. Ela afundava em seu pescoço e, não importava o que ele fizesse ela voltava para a pior posição possível.

- Pronto? – perguntou. James assentiu e escorregou para fora da cama bagunçada. – Pensei em irmos para a barraca de ferramentas. Mexer no motor da moto para termos o que fazer, enquanto conversamos.

- Certo. – James desceu as escadas na frente de Harry e abriu a porta da barraca de ferramentas, puxando o fio pendurado na única lâmpada. Pegou uma pequena chave e a virou em suas mãos.

Harry fechou a porta atrás deles e se escorou na bancada. Estava em casa há alguns dias, mas ainda se cansava facilmente. Colocou a mão para trás e pegou uma caixa de sapo de chocolate, jogando-a para James.

- Então, por onde quer começar? – perguntou casualmente.

Continua...

N/T: Obrigada pelos comentários no capítulo anterior e comentem o que acharam desse!

Até semana que vem.