Capítulo 38

- Ora, ora, ora... se não é Draco Malfoy.

Nem bem havia chegado naquele fim de mundo que era a região da sede da maldita Parkinson e Draco já estava arrependido. Só de ver sua antiga colega de Casa, Emilia Bulstrode, sentia a náusea iniciar. Odiava muito lembrar de Hogwarts e aquela menina era a memória viva de tudo que lutava com unhas e dentes para esquecer. Mantinha-se escorada ao batente da porta de forma prepotente, como todo sonserino se orgulhava de ser. Então resolveu acabar um pouquinho com a alegria dela.

- Quem diria que você viria a ser a recepcionista da Parkinson, hã?

O sorriso irônico de Emília diminuiu, e Draco não pôde evitar o sentimento de "missão completa" que cresceu em seu peito. Mesmo assim, a garota permaneceu imóvel, analisando-o da cabeça aos pés, aparentemente calculando seu tamanho. Se a Bulstrode estava pensando em enfrentá-lo ou dá-lo de comer às cobras, o Malfoy não sabia.

- Melhor controlar sua língua. A herdeira não é mais a mesma garota que conheceu em Hogwarts.

- "A herdeira"?

Sem conseguir segurar o riso, Draco deixou até a cabeça pender para trás, demonstrando seu deboche e o pouco caso que fazia de Pansy. Será que todos haviam convenientemente se esquecido sobre a origem da garota e estavam realmente acreditando que os Parkinson, de repente, eram as estrelas mais brilhantes do céu? Por que não fazia o menor sentido para o Malfoy, especialmente levando em conta todo o lado histórico e como aquela família conseguia ser ainda mais covarde que a sua.

- Você está ciente de que Parkinson não era o sobrenome de Voldemort e que a única coisa que Pansy pode herdar é um terreno velho, certo?

- Não esteja tão certo disto. Ela é mais próxima do Lorde do que você jamais será.

Então o sorriso de Draco aumentou ainda mais, enquanto olhava para Emília com seu costumeiro deboche. Chegou a erguer uma das mãos e apoiar no próprio peito, indicando uma falsa alegria em ouvir aquelas palavras. Bulstrode revirou os olhos, já esperando alguma idiotice.

- Ah, por favor, não me elogie desta forma.

- O que disse?!

De todas as idiotices que esperava, aquela jamais estaria em sua lista de Top 10. Por mais que Draco Malfoy fosse um desertor, em nenhum universo alternativo possível conseguia imaginá-lo falando mal de Lorde Voldemort. Como se atrevia? Era esse o tipo de posicionamento daquela família devastada, zombar até mesmo daquele que costumava ser seu Senhor? Não. Definitivamente Narcisa não se comportaria da mesma forma que o idiota do filho.

- Que fico feliz em não ser parecido com alguém que morreu pelas mãos de Harry Potter.

Com um movimento frenético de negação com a cabeça, a Bulstrode saiu da frente e deu passagem ao rapaz, que sorriu de forma irônica enquanto atravessava pela porta. Emília indicou com um gesto que ele devia ir até o andar inferior, e Draco assim fez. Já estava descendo as escadas quando ouviu a voz da garota ressaltando, como se na verdade estivesse lhe amaldiçoando.

- Pode entrar, Malfoy. Aposto que assim que puser os olhos nela, engolirá cada palavra que me disse.

- Aposto que não.

Era estranho como aqueles quadros que se moviam de forma automática e medonha não lhe faziam sentir o menor resquício de espanto. Era, na verdade, bem a cara de Pansy enfeitar um local com uma porção de adereços aterrorizantes, uma vez que ela própria não daria medo nem mesmo em um ratinho. Lembrava-se de como Voldemort impunha medo já na porta de entrada da Mansão Malfoy (além do fato de estar em uma propriedade enorme e não em um castelinho nos fundos do terreno) e não conseguia de frear o gesto de desaprovação que seu semblante assumia.

Assim que o corredor terminava, havia uma enorme sala, cheia de cadeiras vazias e apenas Pansy, sentada em um enorme trono prateado bem à frente de todos os assentos, inclusive daquela entrada. E, pelo brilho irritante do móvel, podia julgar que não estava lá há muito tempo.

Realmente, Pansy estava diferente. Usava os cabelos negros presos em um coque cheio e bem no alto de sua cabeça, completamente alinhado e sem um fio fora do lugar e aquilo, para Draco, era apenas mais um traço do maldito perfeccionismo que ela simplesmente não podia evitar. Além disso, a blusa social e a calça preta que vestia apenas demonstravam como a Parkinson havia dedicado galeões na renovação de seu guarda-roupa.

- Olá Draco.

Mesmo que estivesse diferente, ainda não parecia uma figura ameaçadora, digna de filmes de ficção cientifica, que faz chover cobras e afins. Era somente a velha Pansy sentada em um trono que, agora que estava mais próximo, podia ver que era todo trabalhado de uma forma a aparentar haver uma cobra de prata contornando todo o apoio para as costas. Mais galeões jogados fora, pensou.

Parou de frente para Pansy, cumprimentando-a com um aceno da cabeça. Ela parecia tão confortável que sequer levantou-se para recebe-lo. Talvez quisesse mostrar alguma superioridade, mas Draco achou apenas falta de educação. No entanto, a Parkinson parecia empolgada em falar aquela tarde. Como nos dias em que estava feliz, e ficou se questionando de onde vinha aquela alegria toda.

- Eu suponho que tenha recebido meu convite.

- Pode apostar que sim.

Já familiarizado com toda aquela encenação, Draco cruzou os braços para demonstrar sua impaciência. Quer dizer, queria ir logo ao que interessava e não ficar perdendo tempo com perguntas óbvias. Por Merlin, aquilo era uma convocação ou um chá da tarde? E, pior, constatou que ainda estava de pé. Será que a ordinária lhe esperaria criar raízes para oferecer uma cadeira?

- Sua mãe não pôde vir?

Os olhos cinzentos rolaram nas órbitas. Mesmo diante de sua clara demonstração de impaciência, Pansy parecia realmente divertida, o que era bem peculiar, pois lembrava sempre de como ficava irritada quando via traços de desinteresse habitando pelo rosto do Malfoy.

- Eu achei melhor que ela não viesse.

- Que pena, minhas crianças estão com tanta fome...

Pansy fez um aceno com a cabeça e uma das cadeiras da plateia veio arrastando pelo chão até bem à frente dela. Draco não conseguiu disfarçar a surpresa de vê-la suceder em tal ato, o que aumentou ainda mais o sorriso da Parkinson. Onde diabos aquela menina havia aprendido aquilo? Com certeza que em Hogwarts que não fora, considerando que seu único desempenho satisfatório era em poções, por razões óbvias.

Ao notar que Draco continuava olhando para a cadeira sem esboçar o mínimo ímpeto de se sentar, completamente imerso nos próprios pensamentos, Pansy girou a mão no ar e indicou a cadeira para o Malfoy, como se demonstrasse a uma criança para que aquele objeto servia.

- Bem, sente-se. Não precisa ter medo, se você for mordido, com certeza não será por mim.

Entre um suspiro, Draco sentou-se na cadeira que Pansy indicara. Sabia que precisava fazê-la falar, mas nem mesmo sabia por onde começar e o que perguntar para que ela não percebesse suas reais intenções. Então passou os dedos pelos cabelos loiros e suspirou, voltando a olhar para a morena que mantinha um semblante divertido, aparentemente gostando muito de toda aquela situação.

- O que quer comigo, Pansy? Por que essa maldita insistência, já não há muitos idiotas seguindo você?

Somos idiotas agora, Pansy concluiu ainda sem perder o ar divertido e cruzando as pernas, ao mesmo tempo em que escorava as costas no apoio da cadeira e ajeitada os braços de forma majestosa, como se estivesse completamente aberta a conversar. E, por mais pose que ela fizesse, Draco sabia que não era esse o caso. A garota devia querer tanto alguma coisa que estava fazendo aquele papel de amiguinha (que, diga-se de passagem, não combinava em nada com ela).

- Estou reconsiderando você em memória de nossos tempos de escola. Dos bons tempos, na verdade.

- Reconsiderando?

A palavra saiu com muito mais desdém do que Draco pretendia, porém acreditou que era melhor soar natural do que forçado. O problema é que, durante todo o tempo que estava ali, era como se nunca houvesse se afastado. A forma como Pansy lhe falava de forma natural e as automáticas comparações que fazia entre ela e Voldemort eram tão enraizadas em sua essência que se perguntava se, algum dia, se veria livre disso.

- Sim. Veja bem, como você mesmo disse, há muitos idiotas me seguindo. Então, se eu estalar os dedos, você, sua mãe e aqueles malditos pavões daquela porcaria de mansão serão totalmente destruídos.

Fingiu pensar por um tempo diante da frase de Pansy, encarando o vazio enquanto esfregava a mão no queixo. Então, ergueu o dedo indicador, como se houvesse subitamente lembrado de algo muito importante, fazendo com que Pansy até mesmo se inclinasse na cadeira para prestar mais atenção na informação que iria a seguir.

- Você está meio atrasada sobre os pavões, na verdade, o lobisomem comeu todos eles.

Silêncio. Os dois seguiram trocando um longo olhar, onde Pansy tentava demonstrar que estava profundamente insatisfeita com o péssimo senso de humor do Malfoy. Draco, entretanto, se espreguiçou e descansou as costas na cadeira. Assim que estava mais relaxado, foi quando a Parkinson arqueou suavemente sua sobrancelha, num gesto quase imperceptível.

- Eu não tenho medo de você, Pansy. Você pode falar com cobras, voar, soltar fogo pelos olhos, pouco me importa, no fundo é e sempre será só você.

- "Só eu"?

A pergunta veio de Pansy com um leve tom de amargura. Pôde dizer então que ela ia começar a falar e achou melhor prestar atenção, pois quando disparava as palavras, a Parkinson sempre acabava falando o que não devia e, naquela ocasião, poderia lhe ser muito útil. O que Draco não percebeu foi que uma pequena cobra, com menos de quinze centímetros de comprimento, veio rastejando rapidamente e se esgueirando pelas sombras da sala, diretamente em sua direção.

- Aqui vai algo que eu aprendi, Draco Malfoy. As pessoas te dão o valor que você se dá. Eu costumava não ser mais que só uma menina por que me via desta forma.

Se Draco não estivesse prestando realmente atenção no que Pansy dizia, teria sentido a pequena cobra que subiu dos pés da cadeira pelo encosto até a gola de sua camisa. Porém, a Parkinson mantinha o olhar fixo e as palavras foram guiando a percepção dele para outro rumo. Bem acomodada no tecido, a pequena cobra escondeu-se dentro da gola e seria praticamente impossível que ele a detectasse ali. Se tudo sair conforme o planejado, acrescentou mentalmente sem parar de conversar nem por um segundo.

- Quer dizer, olhe para mim agora. Comando todos os comensais e sou para eles a luz que o Lorde deixou para guia-los. Eles adoram me chamar de Luz, herdeira, rainha das trevas...

Gestos começaram a escapar pelas mãos de Pansy, que esqueceu, por um momento, de manter-se fria e inabalável. Em seguida se recompôs e ajeitou-se em seu confortável trono, ainda com ar de superioridade, como se realmente estivesse ensinando uma lição para Draco.

- E como você acha que consegui isso? Acreditando em mim mesma.

- E alimentando suas serpentes com alguns deles, certo?

O incomodo comentário de Draco lhe fez torcer o nariz. Detestava alimentar suas serpentes de carne humana, porém, achava bem divertido ver seus inimigos completamente rasgados, destroçados e reduzidos a carniça, como fora o caso de muitos (e, se tudo corresse bem, Harry Potter seria o próximo da lista). Porém, não quis falar toda a verdade sobre seu sadismo e fez um gesto de descaso com a mão direita.

- Eu realmente não aprecio isso, detesto dar carne de segunda para minhas crianças, mas, você sabe como elas podem ser insistentes e, ás vezes, acabo cedendo.

Draco ajeitou-se na cadeira e apoiou os cotovelos nos joelhos enquanto cruzava os dedos e olhava para Pansy como se ainda fosse mesmo a simples garota que costumava ser em Hogwarts. E nada no mundo lhe fazia se sentir mais humilhada que isso. Se não fosse tão boa em oclumência, estaria preocupada sobre o Malfoy vasculhando coisas em sua cabeça. Porém, sabia que era fato que ele apenas lhe conhecia bem demais e sabia perfeitamente suas fraquezas. Maldito moleque mimado, pensou.

- É um caminho perigoso este que está seguindo, Pansy. Medo é um bom mecanismo para manter seguidores, mas não perdura.

- Foi eficaz com seu pai. E com você.

A hostilidade na frase de Pansy não passou despercebida. Draco respirou fundo para não a mandar a merda ali mesmo e voltou a encarar seus olhos vazios com certa paciência. Talvez, se ela realmente acreditasse que não eram inimigos, Parkinson abrisse a guarda e acabasse lhe contando qualquer porcaria que fosse além dos rumores que já conhecia.

- Não disse que não funciona. Disse que não perdura. Vai ter sempre que fazer algo catastrófico para mantê-los com você, e não sei se suas cobras são tão aterrorizantes assim.

Diante da insistência de Draco, Pansy riu e relaxou um pouco mais na cadeira enquanto dobrava as mangas da blusa social chumbo que usava. Por apenas aquele gesto, o Malfoy soube que ela deveria ter um trunfo muito maior que as minhocas que andava jogando nos comensais.

- Ah, eu tenho meus truques.

- Eu não duvido disto.

Respirou fundo mais uma vez, tentando conter a incrível vontade de se levantar e simplesmente ir embora. Porém, após desviar o olhar por um momento rumo à cobra esculpida na cadeira (que parecia sorrir, diga-se de passagem) Draco bateu as palmas das mãos nos joelhos e voltou a encarar Pansy de forma despretensiosa.

- De qualquer forma, pouco me importa o que vai fazer com esses idiotas, só me deixe fora disto.

- Não posso.

E essa foi a segunda surpresa daquela tarde. "Não posso". Mais um erro para a herdeira de Salazar. Se tivesse mesmo convivido com Voldemort, pelo mínimo que fosse, aprenderia que essa é uma frase que jamais se pode dizer em voz alta. Acaba com toda a sensação de soberania e cria uma dependência desnecessária para um líder que está tentando imprimir medo.

Mas não esperava mesmo que ela tivesse esse tipo de concepção das coisas. Levando em conta o tipo de gente que a estava orientando, talvez tivesse se saindo até bem demais pelas próprias pernas. Especialmente por ter passado grande parte da guerra enfurnada em seu quartinho luxuoso, sem torturar, ser torturada ou sofrer por qualquer uma das vidas levadas por Voldemort.

- Para que diabos você precisa de mim? Você, assim como todo o mundo bruxo, já deve saber que toda minha fortuna está retida e não consigo usar um galeão sequer.

Pela primeira vez, Pansy bufou. Também parecia já um pouco impaciente com a teimosia de Draco em questionar o motivo do convite, mas julgou ser melhor aguardar apenas mais um pouco para poder enrolar perfeitamente o Malfoy e, assim como uma boa serpente, dar o bote quando não estivesse esperando.

- Eu não disse que precisava de dinheiro. Embora pudesse ser muito útil, claro.

- Então o que é?

Ela gesticulou de forma longa de forma que o fazia remeter ao passado, enquanto a expressão de desinteresse crescia. Draco cruzou os braços, já esperando que nada útil viria em sua próxima frase e não se espantou quando descobriu que estava absolutamente certo em relação aos enrolos de Pansy Parkinson.

- Bom, nunca na história da magia os Malfoy se prestaram a não se aliar ao lado das trevas em quaisquer situações. Achei que ficaria lisonjeado em receber um convite meu.

- Não me enrole, Pansy. O motivo. O que quer de mim?

Com mais um gesto com a cabeça, Pansy fez a cadeira se mexer para frente com Draco e tudo. O Malfoy segurou firme com as mãos no assento e ficou visivelmente incomodado com a falta de controle que exercia sobre a mobília daquele lugar. A morena se aproximou, como se fossem partilhar um segredo tão importante que nem mesmo as paredes pudessem ouvir.

- Eu soube sobre da Weasley.

Terceira surpresa da tarde, Draco enumerou completamente pasmo constatando que essa certamente era a maior de todas. Realmente não esperava por isso, mas tentou se manter o mais inabalável possível. Porém, já era tarde. Pansy estava muito próxima e pôde ver de camarote todas as sutis mudanças que ocorreram em seu semblante. Deste ângulo realmente lhe pareceu uma predadora.

- O que há para saber sobre a Weasley?

- Sua mãe sabe que está se envolvendo com aquela maldita pobretona amadora de trouxas e fã de Harry Potter?

Desconsiderando totalmente a pergunta de Draco, já completamente convencida da veracidade das informações que recebeu de Goyle, Pansy continuou tentando mexer com a cabeça dele da forma que fazia no colégio. E, o Malfoy nem soube explicar como conseguiu não cair em seus contornos, evitando dizer qualquer palavra incriminadora. Sobretudo, permaneceu imóvel na cadeira, sem recuar nem mesmo um centímetro.

- Sabe que está saindo com a garota que matou sua tia?

- Eu não estou saindo com a Weasley, o que diabos andou bebendo?

As sobrancelhas bem desenhadas de Pansy se ergueram juntas enquanto seu olhar assumia um brilho nunca antes isto. Foi só então que ela disse a frase que fez Draco Malfoy perceber que, definitivamente, estava perdido.

- Então qual o motivo de termos visto você ao lado dela, mão a mão, entrando na Ordem da Fênix?

Merda, ele pensou. Pensa rápido, Draco! Ordenou a si mesmo enquanto se levantava bruscamente da cadeira e passava os dedos com velocidade dentre os cabelos loiros. Deu uma volta quase completa ao redor de Pansy enquanto suspirava. Até que, de repente, parou e a olhou de canto de olho, numa tentativa de convencê-la da veracidade daquilo que iria a dizer.

- Eu preciso disto, está bem? Eu preciso da minha vingança.

Subitamente Pansy cruzou as pernas e entrelaçou os dedos em volta do joelho, olhando para Draco com um interesse renovado e um sorriso de lado de quem está aprovando o que está ouvindo. Pena o Malfoy não ter percebido que ela apenas se divertia, vendo até onde ia a mentira nova que acabara de inventar.

- O que está planejando?

- Você mesma disse, ela matou minha tia e se não fosse por todos aqueles malditos traidores de sangue, meu pai também estaria vivo.

Draco ergueu o olhar para Pansy, que parecia realmente interessada no que ele teria a lhe dizer. Então inclinou a cabeça para o lado e assentiu suavemente, dando a entender que agora conseguia compreender a situação. O Malfoy nutriu em si a chama da esperança de tê-la convencido, e tudo que a Parkinson precisava fazer era alimentar essa chama.

- Você está enganando a Weasley. E pretende acabar com todos eles sozinho?

- Não me acha capaz?

Tentou fingir um certo tom de mágoa, ao que Pansy respondeu apenas erguendo as mãos, indicando que o intuito não era ofender. Por mais que soubesse que Draco mentia, admirava ver o empenho para sustentar a historinha e agora estava realmente determinada a fazer com que as coisas tomassem o rumo que havia planejado.

- Acho que poderia contar com minha ajuda.

- E por que você me ajudaria?

Quando perguntou, ela pareceu procurar no ar a resposta perfeita. Logo as palavras lhe vieram à boca, como se desde o início já soubesse que Draco lhe faria essa pergunta. Se surpreendeu positivamente consigo mesma e a agilidade de pensamento que havia desenvolvido nos últimos meses. Era bom colocar em prática suas habilidades, pois sabia que em breve precisaria muito de todas elas.

- Seria bom para nós dois. Eu te ajudo a destruí-los, minha visibilidade vai aumentar. E eu calaria a boca de uma vez por todas dos malditos comensais que me cobram sua presença.

As sobrancelhas de Draco se arquearam de uma forma desconfiada, sem desgrudar os olhos cinzentos da figura de Pansy, que se mantinha sentada, sem qualquer sinal de exaltação. Decidiu então assegurar-se do motivo que fizera a Herdeira de Salazar lhe encaminhar o tão indesejável convite para aquela tarde.

- É por isso que me queria aqui?

Mais uma vez, Pansy respirou fundo e maneou a cabeça suavemente, como se dissesse que "mais ou menos". Diante do silêncio de Draco, ela decidiu que seria melhor explicar um pouco melhor, e começou a verbalizar as palavras certas para obter o que queria. E, sim, esta parte da conversa havia mesmo sido prevista com antecedência.

- Todas as famílias não acham justo se esforçar para seguirmos com os planos do Lorde e os Malfoy simplesmente se afastarem. Desta forma, vim lhe propor gentilmente que viesse me apoiar.

Agora ou nunca, Draco concluiu olhando para a morena com o mesmo ar de desconfiança que queria transmitir. Arriscou mais um passo em direção a ela antes de questionar.

- E se eu não quiser?

- Eu vou parar de controlar os ânimos e permitir que todas as famílias irritadas comparecem àquela maldita mansão e depenem sua mãe.

Antes mesmo que Draco pudesse pensar em uma resposta, Pansy finalmente colocou-se de pé e atreveu-se a apoiar uma das mãos no ombro do Malfoy, que permanecia duro como uma pedra. Ela chegou bem ao pé do ouvido para sussurrar da forma mais discreta do mundo aquele que julgava ser o argumento mais convincente que tinha de convencer o sonserino sobre o encontro daquela tarde.

- Ouvi que ela ficou bem debilitada após o fim da guerra, não acho que ainda tenha o mesmo vigor de antes, estou correta?

Não tinha ideia de como Pansy ficara sabendo sobre o estado de saúde de sua mãe, e por isso, prendera até mesmo a respiração, mantendo um silêncio desconfortável entre os dois. Já um pouco mais distante, a morena aguardou por uma reação que não veio, o que tornou seu sorriso sarcástico ainda maior.

- Seu silêncio é revelador.

- O que vai querer que eu faça?

Draco já havia obtido informações o suficiente e achou melhor encontrar uma forma de sair logo dali, antes que Pansy se animasse em dá-lo de comida para as cobras. Ela coçou suavemente a testa e ergueu os ombros, como se não soubesse ao certo o que faria com a aliança que acabara de conquistar.

- Bem, a princípio, siga com seu plano de ganhar a confiança deles, vai ser bem útil. Depois eu lhe envio mais instruções. Posso contar com você na próxima reunião?

A resposta de Draco veio um pouco carregada e demorou consideravelmente para sair de seus lábios, mas acabou vindo. E, pela forma como veio, Pansy animou-se de que seus objetivos pudessem ser concluídos ainda antes do que imaginava.

- Pode.

- Excelente. Eu vou ordenar a Goyle que lhe auxilie nisto, mas em outra ocasião. Você pode se retirar agora.

O loiro acenou com a cabeça novamente e virou-se de costas. Talvez fosse a agilidade com que tinha realizado o gesto, ou tivesse ouvido falar muito de serpentes aquela tarde, mas teve a nítida impressão de ver algo realmente gigantesco rastejando ao seu lado, na direção contrária da qual caminhava. Chegou até mesmo a pensar em olhar para trás e parou no meio do caminho. Entretanto, ao ouvir a voz de Pansy, seguiu andando.

- Ótimo fazer acordos com você, Malfoy.

Assim que viu a silhueta de Draco sumir nas sombras do corredor, ela sorriu completamente satisfeita com os resultados que obtivera. Vários comensais começaram a apartar, um a um, com suas enormes vestes pretas e as máscaras perturbadoras. Foram formando um círculo ao redor da Parkinson enquanto a reverenciavam se curvando aos seus pés.

Porém, nada era tão assustador quanto o sorriso que ganhava espaço nos lábios pintados de vermelho da morena.

- Certo, rapazes. Vocês podem seguir com os nossos planos.