Capítulo 37 – Em nome da amizade
Os demônios fizeram uma barreira física, impedindo que os irmãos, Bobby e Azrael se aproximassem de Kasbeel, de Cass e de Samael. Enquanto que os Winchester's e Singer atiravam nos malignos seres, o anjo que os auxiliava foi aconselhado por Dean a voar e a ir em frente. Foi o que fez: em poucos instantes ajudava o ex-rebelde a se levantar.
– Não devia ter vindo para cá – comentou o mais novo dos seres alados. – Afinal de contas, não pretendo aniquilar minha família por completo.
– Você não vai encostar um só dedo neles – disse, em um tom ameaçador, Castiel, após ficar de pé.
– É mesmo? E quem vai me deter? ... Não me diga que é você, idiota – Kasbeel se preparava para dar um golpe certeiro em Cass, quando Azrael se interpôs; a espada atravessou o ombro direito do anjo; em seguida, com agilidade, foi cravada na barriga dele, que desapareceu no ar.
O estrondo provocado pelo sumiço do anjo foi tão forte, que a possibilidade de que estivesse gravemente ferido era enorme.
– Não! O que fez com nosso irmão, seu maldito? – o tom firme de Castiel fez o ser rebelde recuar alguns passos.
– O que acha, espertinho? O maninho já era – comentou, a expressão de satisfação lhe dava um aspecto lúgubre o bastante.
– Desgraçado! – bradou, enquanto tentava atingir o inimigo. Assim, a luta entre os irmãos recomeçou.
Quanto a Lúcifer, se recuperava da forte pancada que recebera na cabeça. Já estava de pé, analisava o duelo que se desenrolava à sua frente; pensava em um modo eficaz de matar Kasbeel sem machucar Castiel. Mas devido à rapidez da batalha, considerou arriscado fazê-lo. Voltou-se para verificar como os Winchester's e Bobby estavam, e para sua surpresa a situação ia de mal a pior. As balas da Colt acabaram; a munição com sal também; e eles tentavam, em um combate corpo a corpo, deter os demônios que os atingiam.
Ao ver aquilo, Samael achou por bem ir auxiliá-los, sem saber que as conseqüências seriam inevitáveis ao tomar tal decisão.
– ONDE. ESTÁ. MEU. IRMÃO – a fala de Castiel era lenta; encurralara o oponente a uma parede. – Devolva-o!
– Morto, ora! Não acredito que não aceita tal resposta... Seu imbecil!
– Não está! Eu sei... Você mente!
Pela primeira vez desde que iniciaram a luta Kasbeel sorriu, o que fez o mais velho se recordar do pequeno ser que deveria cuidar. Após recitar algumas palavras em um idioma desconhecido, o buraco de onde Sam e Lúcifer saíram se abriu. Uma enorme jaula de fogo e de sangue se mostrou por inteiro.
Miguel, o comandante das hostes angelicais, fazia um esforço incomum para se livrar das chamas que o impediam de permanecer de pé; ao vislumbrar uma saída, o poderoso Arcanjo – que ocupava o físico de Adam –, ganhava a oportunidade de aniquilar todos que ousassem desafiá-lo.
– E então, me entregue o receptáculo que ocupa, caso contrário vocês terão um inimigo e tanto, que matará seu inestimável amigo Samael Estrela da Manhã.
– Você sabe bem que não farei isso – assustado, Castiel recuou alguns passos; aquela reviravolta não era esperada.
– Ótimo, então Miguel começará por quem... Deixe-me ver... Por Sam, talvez? – a maldade emanada pelo rebelde podia ser captada ao longe. Tanto que, lá fora, uma chuva torrencial inundava as ruas.
Um exército angelical, perfilado logo atrás dos irmãos alados, aguardava as ordens de Kasbeel. Ao vê-los, Castiel entendeu que deveria agir o quanto antes, a fim de salvar a pele de seus amigos. Se havia perdido Azrael de maneira estúpida, não permitiria que sua família – os Winchester's, Bobby e Samael –, também fossem trucidados em uma batalha que tinha solução, e ela se apresentava logo à frente dele.
Dean, Sam, Lúcifer e Singer, por outro lado, aniquilavam os últimos demônios. Para tanto, contavam com o auxílio de Lilith, que acabara de chegar. Ao perceberem que ninguém mais se aproximava, caminharam alguns passos. Vislumbraram, atônitos, a jaula de fogo aberta.
– Vieram nos buscar antes do prazo determinado, Sammy – resmungou o ex-rebelde.
– Não se preocupe; ninguém vai levar vocês. Terão de passar por nós antes – Dean tentava demonstrar segurança, embora não soubesse como proceder para ajudar o irmão e o novo aliado.
Notaram, então, com maior espanto, que Castiel pulara no buraco flamejante. Kasbeel tentava detê-lo, mas era inútil.
– Quer o físico de Jimmy Novak? Pois então venha buscar! Sabe por que faço isso? – questionou, enquanto cravava a espada no ombro do mais novo. – Porque tenho família! – gritou. – E não permitirei que eles sofram mais com essa droga toda... Meus irmãos de verdade merecem ter uma vida normal, e é isso que lhes darei! – o anjo maligno desmaiou, após ser atingido por Cass com um violento golpe na cabeça.
O desespero tomou os Winchesters e Bobby, que tentavam chegar perto da gaiola. Mas como o fogo era intenso, os corpos físicos dos caçadores não agüentavam tamanho calor, mesmo que Lilith conseguisse conter parcialmente as chamas.
– Por que... Eu... Não consigo ir até lá? – perguntou Sam, que já pulara ali antes.
– Porque você tinha bebido sangue demoníaco para saltar na jaula – explicou Lúcifer.
– Então faça alguma coisa, não podemos deixar o Cass ir assim! – gritou Dean.
Em um voo rasante, o ex-rebelde o segurava pelos ombros, na beira do abismo. Tentava fazê-lo se virar, queria olhar nos olhos dele; ainda que estivesse no corpo de Jimmy Novak, a aparência dos dois – anjo e homem –, era idêntica, talvez por isso Castiel optara pelo receptáculo que vestia. O outro, porém, não o atendia.
– Ei, olhe, não faça isso, por favor... Você tem que ficar conosco... – as palavras saíam carregadas de emoção.
– Não posso, Lúcifer. Eu não imaginava que meu irmão sabia o encanto para abrir, sem os anéis, a prisão que Sam e que você estavam... Desculpe. Preciso fazer isso. Concentrem-se em matar Kasbeel; agora será mais fácil, porque Jimmy está aqui comigo. Perdoe-me, não posso ficar; Miguel precisa ser detido, ele não pode abandonar esse buraco... Seria perigoso. E Sam poderá ficar ao lado de Dean... Eles continuarão caçando, ou sei lá...
– Cass, ei cara, não faz isso! – os Winchester's gritaram. Bobby, sem saber o que fazer, também começou a pedir, em alto e bom som, para que o anjo não tomasse tal atitude.
Miguel, entretanto, já estava próximo da beira do abismo. Era necessário fechá-lo o quanto antes. Com extremo pesar, Cass recitou as palavras que trancariam a jaula e, em um leve empurrão, tirou Samael de perto de si.
– Faço isso por você! – berrou a plenos pulmões, para que o ex-rebelde o escutasse. Ainda foi possível que o anjo acenasse para os Winchester's e para Bobby, em um adeus melancólico.
– Desculpe-me, Jimmy. Essa não é a eternidade que pretendi proporcionar ao seu corpo e muito menos a sua alma – balbuciou, enquanto encarava Miguel com um ar solene. – Agora somos só nós dois, Arcanjo – desafiou, como se aquilo fosse garantir a liberdade do sobrevivente.
Mas Castiel era um soldado. Embora estivesse preso, precisava agir como tal. E como sabia que Miguel não lhe permitiria que vivesse, decidiu encará-lo a se acovardar.
O buraco se fechou. Nada mais restava. Os irmãos, tomados de um sentimento de revolta, se aproximaram de Kasbeel, que continuava desmaiado, enquanto que Lúcifer matava os soldados perfilados ao fundo do casarão. Bobby, por sua vez, procurava Azrael; queria encontrá-lo o quanto antes; pois precisavam de ajuda.
Quando Sam estava prestes a matar o rebelde, uma força o tirou do local. Os irmãos perceberam, então, que se tratava de uma junção energética dos anjos que Lúcifer enfrentava.
– São uns idiotas; preferem morrer para salvar o líder a viver e garantirem algo lá na frente – Dean falou, espantado com o que acabara de assistir.
A batalha havia acabado. Os anjos estavam mortos. Os quatro homens sentaram no chão do lugar, que estava destruído pelas lutas. De pé, em frente a eles, Lilith os observava.
– Vamos dar o fora dessa bosta – o loiro demonstrou a inconformidade que sentia.
Todos se levantaram, entraram no Impala, enquanto que a mulher seguia outro caminho. Mesmo que insistissem para que os acompanhasse, ela não quis aceitar. Nada foi dito por nenhum deles no início do percurso. Mas Sam tomou coragem:
– Vai ficar tudo bem, nós vamos arranjar um modo de abrir o buraco – procurava, assim, tranqüilizar os amigos.
– Como é que o desgraçado do Kasbeel sabia abri-lo sem os anéis? Por que Cass teve de se atirar lá? – Samael falava em um tom lânguido, mas não era difícil de perceber que estava nervoso.
– Para salvar você, ora! – comentou Bobby. – Afinal de contas, Miguel deixaria a jaula; Sam e você teriam de retornar para lá... Não é? – o outro assentiu.
– E Azrael, onde diabos aquele turrão foi parar? – perguntou Dean.
– Essa é uma questão que eu adoraria responder – disse o mais novo dos Winchester's.
– Ele foi atingido... Não sei se mortalmente – explicou o ex-rebelde. – Tentou me ajudar e, com a força do golpe desferido por Kasbeel, sumiu no ar.
– Por falar nisso, para onde levaram o cretino? – Bobby queria encontrar o inimigo o quanto antes.
– Não faço a mínima idéia, mas esse é o menor dos problemas – argumentou Samael. – Temos de pensar em trazer Cass de volta – Dean o olhou pelo retrovisor. Era evidente o desespero nos olhos do anjo, que tentava conter as lágrimas.
– Nós vamos, acredite. Temos trabalho a fazer. E esse é muito importante: salvar um amigo. Se Cass fez isso por nós, vamos até o inferno se for necessário, mas o traremos de volta!
Após a fala do loiro, seguiram a estrada em silêncio. Cada um pensava em uma maneira de tirar Castiel da jaula. Essa era uma prioridade para os irmãos, para Bobby e para Lúcifer, que prometera, em reflexões profundas, sentado no banco de trás do Chevy Impala 67 de Dean, livrar quem tanto amava do sofrimento que significava estar na prisão de sangue e de fogo a qual Cass se enclausurara.
