Resumo: Eu tinha sete anos quando o conheci. E nem eu nem ele sabíamos como nossas vidas iam mudar a partir daquele momento. AU, B/B.

N/a: Dessa vez, está no final do capítulo.

Thayn, prometo não deixar de lado a pergunta não feita do Booth, no momento certo ela vai surgir. Bones versão teen, gostei! Hahaha mary-gwg, obrigada, garota. Mas tenho de me orgulhar, mesmo essa semana, com o natal, consegui me planejar para não deixar de postar. :) NBones314, obrigada! Que bom que tomou seu tempo pra deixar um comentário! E bom, é minha primeira aventura em um AU, e foi a primeira fic de Bones que comecei a escrever, então fico feliz que tenha acertado. Olive-san, sua intuição é muito boa. Leia e descubra por quê. ;) Paulinha, "romântico demais pra eles" - eu ri. Mas o Booth, como bom gentleman que é, tem que fazer essas coisas... Barbara, acho que não vou ser assim tão radical, apesar de que, se fosse fazer uma pesquisa, muita gente ia concordar com você... Manuelina, obrigada, sweetie!


Brennan's Song

38. Sem saída

Nas semanas que se passaram eu me dividia entre aguentar os ocasionais ataques de fúria de Michael, que ficavam mais constantes, e tentar passar para Booth a ideia de que tudo estava bem. Por que, quando eu estava com ele, as coisas realmente estavam bem. Meu medo inicial ao ter um relacionamento com ele eram os riscos. Se eu não me arriscasse, nunca perderíamos a amizade que tínhamos. Se eu me arriscasse e perdesse, ficaria sem nada. Mas estávamos namorando há quase três meses, e eu ainda me espantava com as pequenas coisas que descobria diariamente sobre ele, sobre nós. Estávamos mais próximos que nunca.

Certo final de semana Michael e Lauren viajaram, para visitar os pais dela em Chicago. Aproveitando que o domingo de verão estava tão quente quanto poderia, combinei de encontrar Booth no parque e avisei que levaria os meninos junto. Era difícil vê-los só brincar, sem preocupações, mesmo que fossem duas crianças.

Quando chegamos lá encontramos não só Booth, mas também Hodgins e Angela. Passamos uma tarde agradável, eu e Booth discutindo algo e os meninos perguntando por que brigávamos tanto.

-Não estamos brigando. – disse Booth, erguendo os olhos para Arthur – Estamos discutindo.

-Não é a mesma coisa?

Com certeza não era... eu e Booth discutíamos variados assuntos, o tempo todo. Tínhamos visões diferentes a respeito de muitas coisas, mas isso não fazia com que brigássemos... não na maior parte das vezes. Mas uma discussão acirrada, cada um defendendo seu próprio ponto de vista, isso era normal.

Booth e Hodgins jogaram um pouco de bola com os dois meninos, e ficamos no parque o máximo que conseguimos, até que o calor e o mormaço trouxessem uma chuva repentina. Angela e Hodgins correram para o estacionamento do parque, e nós voltamos correndo para casa. Os meninos entraram para disputar pelo chuveiro, mas eu fiquei para me despedir de Booth.

-O que foi? – perguntei, vendo que ele me observava com atenção.

Ele ergueu a mão, afastando meu cabelo molhado que caía pelo rosto.

-Isso me traz algumas lembranças... – disse ele baixinho, antes de me beijar.

Eu me deixei ser beijada, sentindo o calor que a proximidade transmitia à minha pele fria. Com o corpo, empurrei a porta entreaberta. Dei um passo para trás, e Booth se afastou levemente de mim. Podia-se ouvir, no andar de cima, as gargalhadas de Arthur e Leon.

-Melhor não, melhor eu ir embora... – disse Booth, os olhos tão escuros que mal conseguia ver sua íris.

-Eles não estão em casa, Booth, por que...

Ele se mexeu, inquieto.

-Eu vou enquanto eu consigo ir embora, está bem? Ligo amanhã pra saber como as coisas estão. E arrume um plano para o próximo final de semana.

Dizendo isso ele me deu um beijo muito rápido nos lábios e saiu para a chuva.

Eu esperei até que os dois garotos liberassem o banheiro para tirar minhas roupas molhadas e me deitar para ler um livro. Ainda havia uma garoa fina do lado de fora, e isso acabou por embalar meu sono. E por alguns segundos antes de adormecer eu me permiti sentir a tranquilidade do momento.

Mas ela não durou a semana inteira.

Michael e Lauren voltaram irritados um com o outro da viagem. Pelo pouco que pude ouvir, Michael teve um desentendimento com os sogros que deixou Lauren irada. E a tranquilidade do final de semana sumiu no mesmo instante que eles adentraram pela porta. Eu e os garotos estávamos suportando a situação até chegar o meio da semana.

E então tudo aconteceu.

Um escorregar, e o fato que me marcou pelo resto da vida.

Para variar, eu estava lavando a louça e Michael estava às minhas costas, soltando recomendações e ameaças. Ele havia insistido para eu usar água quente, para tirar totalmente a gordura nos pratos. Não vi nada de gordura, mas achei melhor ignorar o fato e fazer o que ele pedia. Eu tentava por tudo evitar conflitos, para poupar a mim e aos meninos de tensões desnecessárias e, na esperança de que, se fizesse tudo como ele pedia, Michael ficaria de bom humor e eu poderia dar uma ou outra escapada para passar mais tempo com Booth.

Mas nada do meu esforço parecia ter tido algum efeito, pensei eu, enquanto ouvia Michael reclamar em quão ineficiente eu era para fazer as coisas. Eu havia enchido a esponja de sabão, para fazer o serviço direito, mas isso deixou o prato extremamente escorregadio. E, num segundo de distração, puxando a mão rápido para afastá-la da água quente, um dos pratos escapou.

Eu fechei os olhos ao ouvir o ruído de porcelana se quebrando. Como se isso fizesse alguma diferença no que estava para acontecer. O prato caiu sobre a pilha no fundo da pia, partindo outro no processo.

Da última vez que eu havia quebrado um prato, Michael me trancou no porão. E ali estava ele, tão perto que podia ouvir sua respiração em meu pescoço, e dois pratos partidos no fundo da pia.

-Ah, sua idiota! Eu avisei! Será que não consegue fazer nada sem quebrar as coisas? - ele berrou, agarrando meus cabelos.

Involuntariamente eu me senti tremer. Estava aterrorizada.

-Não me tranque no porão... - pedi com um fio de voz. Quando encarei o rosto dele, pude ver um sorriso de triunfo.

-Ora, você tem que aprender a lição, mocinha...

E me vi sendo arrastada, não para o porão, mas para a garagem. Por um instante imaginei que Michael iria simplesmente me mandar embora. Mas ele pegou a chave do carro no molho, ainda sorrindo. Eu esperneei, pedindo pra ele me soltar, mas ele segurou meu pulso tão forte que não sentia o sangue circular. Me empurrou com o corpo, me fazendo andar à sua frente.

-Você vai se arrepender pelo que me fez, vadiazinha. Pela humilhação que aquele seu namorado idiota me fez passar, pelo chute que você me deu.

Ele parou à frente do porta-malas, as chaves balançando na mão.

-Ele falou que ia me denunciar, quero ver fazer isso se ninguém te encontrar.

Ele parou de balançar as chaves e eu ergui os olhos, ainda tremendo de medo.

De repente o alvo de atenção dele mudou para o fundo da garagem, o sorriso triunfante ainda brincando em seu rosto. Me vi ser arrastada para lá, e só percebi o porquê quando ele parou de andar.

Estávamos à frente de um freezer horizontal coberto com uma camada de pó. Ele planejava me trancar no porta-malas do carro, mas aparentemente achara uma jaula melhor.

Michael ergueu a porta com esforço, e vi o interior vazio do freezer, alguns lugares cheios de ferrugem. Senti minha cabeça ser empurrada para dentro, mas agarrei as bordas metálicas, não me entregando sem lutar. Ele tentou fazer minhas mãos soltarem, mas me agarrei como se minha vida dependesse disso. Então ouvi um ruído de vários objetos caindo, mas não tive tempo de ver o que acontecera. Mais tarde, deduzi que Michael devia ter puxado alguma ferramenta de uma das prateleiras de madeira que cobria a parede da garagem, pois a pancada que senti na mão fez eu abrí-la instantaneamente. Se aproveitando da fraqueza, ele me empurrou com tudo pra dentro.

Eu caí, e ainda joguei a mão por sobre a borda, em uma tentativa patética de fazê-lo não descer a porta. Mas recebi outra pancada, e a porta foi fechada.

Bati na porta, mesmo sem saber que isso não resolveria, que não faria o homem simplesmente mudar de opinião. Não me atrevi a gritar. As lágrimas desciam livres pelo meu rosto, mas eu não daria a ele aquilo, eu não iria implorar.

Do lado de fora, ouvi algo ser arrastado. Imagino que ele tenha colocado algum objeto pesado sobre a porta, pois por mais força que fizesse não conseguia erguê-la.

Eu estava aterrorizada. Depois de algum tempo, só ouvi o silêncio e isso foi pior que na hora que ainda havia ruídos. Minha mão latejava no lugar onde ele havia batido e, deitada no fundo do freezer, apalpei ela. Não estava quebrada ou sangrando, para minha sorte. Mas a dor era intensa.

Eu apalpei cada uma das bordas do freezer, tentando pensar em uma forma de escapar daquela vez. Ao menos no porão, eu tinha por onde andar. Ao menos no porão, eu podia planejar uma fuga. Mas ali era praticamente impossível.

Não sei bem quanto tempo se passou até que ouvisse uma voz vir do lado externo. Sei que foi tempo o suficiente para constatar que o isolamento de borracha da porta ainda tinha algum efeito, e que meu ar estava aos poucos se rarefazendo.

-Tempe? – veio a voz baixa e amedrontada.

-Leon?

-Tempe, ainda bem! Eu e o Arthur, a gente tava preocupado, a gente viu o Michael bravo e você sumiu... você tá legal?

-Me ajude a sair daqui.

Ouvi ruídos acima de mim, e então a voz do menino novamente.

-Não consigo tirar essa coisa daqui, é muito pesada!

-Chame o Arthur - pedi, me controlando para não me desesperar.

-Ele foi distrair o Michael pra eu vir aqui!

Mais ruídos sobre o freezer. Parecia que o menino havia subido em cima e tentado empurrar com os pés, o que quer que fosse que segurava a porta.

-Não adianta, Tempe, eu não consigo. Acho que nem eu e o Arthur juntos. – a voz dele tinha uma nota de desespero. – Precisamos de alguém mais... o seu namorado! Onde ele mora?

Ouvi a empolgação na voz dele, e por um momento eu também me senti reconfortada ao pensar em Booth. Mas ele não morava tão perto, eram alguns bons minutos de caminhada, e levaria muito tempo até que eu explicasse para a criança como chegar lá.

- Ligue para ele! – disse eu por fim, minha última jogada.

-Diga o número.

-Tem onde anotar?

-Eu decoro! Diga!

Eu disse pausadamente o número que havia decorado, e Leon repetiu três vezes até que se sentisse confiante o suficiente.

-Eu volto logo, Tempe. - disse ele perto da porta, e isso me deu esperanças.

Mas não consegui me manter consciente pelos minutos seguintes. Acho que finalmente a diminuição da oxigenação estava me afetando, e lutei para me manter calma e com a respiração compassada, para que pudesse ficar mais tempo consciente. Uma vez que o ar acabasse, três minutos e meu cérebro começaria a ser afetado. Me forcei a não pensar nisso. Me forcei a pensar em Booth e no número de vezes que ele já havia me salvado, mesmo contra minha vontade. Eu não tinha fé em Deus ou em santos. Mas eu tinha fé nele.


N/a2: Ok, desculpem pelo cliffhanger, mas às vezes ele é inevitável. Joguei a nota para o final para poder comentar com mais liberdade o capítulo.
Eu gosto de pensar que um AU é a vida do personagem que conhecemos, influenciada por algum fato, algum momento em que algo aconteceu de diferente. Então, queria retratar o evento, que Brennan conta para Sweets, quando a deixaram presa no porta-malas de um carro por dois dias. Mas quando estava escrevendo a cena, achei que isso não seria suficiente para Michael, não depois da intervenção de Booth. E acabou me saindo isso. Vamos ver quais vão ser as consequências...
Nina, obrigada pela correção e dicas.