Frigga andava de um lado para o outro, levando a todo instante uma das mãos à testa, tentando organizar os pensamentos. Iduna e Mara sem acreditar no que ouviam.
- Devemos levar tal assunto ao rei! – sugeriu Mara.
- Fora de questão – disse Frigga – seu estado não lhe permite lidar com uma situação de tamanha gravidade.
- Se souber que o neto foi feito prisioneiro em Mirkwood – contemporizou Balin – é capaz de ordenar um ataque ao reino da floresta.
- Talvez essa fosse a atitude mais condizente com a situação! – expressou-se Dwalin.
- Cale-se irmão. Pensa apenas como um guerreiro e tanto sua ira imprudente como a de Thórin já nos renderam problemas demais! – disse Balin, usando de sua autoridade de irmão mais velho.
- Minha ira imprudente? – irritou-se ainda mais o comandante – caso não tenha compreendido o ocorrido, irmão, não foi nem a minha ira nem a justa ira de Thórin que causaram danos a uma caravana khazâd pacífica!
- Deveriam ter buscado uma solução diplomática para o conflito – expressou-se o mais velho, também ele tendo o ânimo alterado pela situação – Tenho certeza de que Thranduil deve ter sido razoável.
- Razoável? É nisso que resulta envolver-se com elfos! – disse um Dwalin quase insano de ódio.
- Chega! – gritou Frigga, pondo fim à discussão de uma forma que em nada se assemelhava a seus modos costumeiramente ponderados – não é buscando culpados que iremos resolver essa situação.
- E poderia nos dizer, alteza – questionou o soldado ainda com os olhos faiscando – já que Thórin a deixou como responsável pelo reino, como esse impasse poderá ser solucionado?
O tom desafiador do khuzd não passou despercebido à filha de Mahal. Frigga tomou ar, buscando dentro de si a segurança que esperavam dela, recordando-se das palavras do marido e da confiança que ele depositara nela.
- Onde está meu sogro? – arguiu a princesa, tentando um raciocínio que pudesse responder ao questionamento de Dwalin.
- Foi chamado às pressas as Colinas de Ferro.
Frigga estranhou o fato, inquirindo Dwalin com o olhar.
- Algo sobre a saúde de algum parente. Não ficou certo de quem realmente se tratava.
A cabeça da princesa rodou ante as possibilidades que se descortinaram. 'Meu pai? Meus avós? Dain? Por Mahal!'
Friga quis perder o equilíbrio. Balin a segurou.
- E só agora você me diz isso? – ela indagou.
Dwalin engoliu seco. Em meio a tantas providência, havia de fato esquecido de mencionar o fato. Balin veio em socorro de Frigga.
- Precisa manter a calma, alteza. Foram as instruções de Thórin que, em sua ausência, o governo da cidade estivesse em suas mãos.
A jovem sentou-se na cadeira mais próxima.
- Meu marido prisioneiro em Mirkwood, um membro de minha família enfermo à quilômetros de distância e a ameaça de um colapso em Erebor. Como, Balin, em nome de Dúrin, eu posso me manter calma? – concluiu, cobrindo o rosto.
- Como assim um colapso? – indagou Dwalin.
- Há dois dias – principiou Balin – recebemos a notícia de que os fornecedores de madeira do norte desejam dobrar o preço praticado. Exigem a presença de um membro da família real para que seja lavrado um novo contrato e até que tal ocorra, o fornecimento será interrompido temporariamente.
- Sem madeira não há como alimentar o sistema de calefação, essencial durante à noite, nem como preparar a comida, ou aquecer água, ou... enfim. Tudo para em Erebor – completou a princesa.
- Dois dias? – indagou Dwalin – o rei não tomou nenhuma providência?
- Thrór mal ouve o que dizemos. Está imerso em si mesmo. Parece não compreender nada – explicou Balin – não tem a mínima condição de realizar uma viagem de tal monta.
- E se chamarmos Frerin? – sugeriu Dwalin – pelo que sei, vem se saindo bem em Esgaroth. Vai saber como lidar com esses aproveitadores.
- São dias de viagem daqui até a Cidade Lago – comentou o mais velho – somando-se ao tempo necessário para que chegue a Erebor e se encaminhe às montanhas, mais de uma semana já se terá passado. Até lá, estaremos morrendo de fome e frio. As crianças serão as principais afetadas. A madeira estocada já está no limite. Calcularam o momento certo, aqueles abutres.
- A comida não poderia ser providenciada em Valle? – sugeriu a princesa.
- Não na quantidade necessária para se alimentar um povo inteiro, alteza – explicou Balin – A cidade dos homens não está preparada para tal. Ainda nos resta algo em estoque, porém, minha principal preocupação é com o frio que tomará Erebor sem o sistema de calefação.
- Não há como conseguirmos madeira por perto? – sugeriu Dwalin
- As alternativas que temos nos possibilitariam apenas alguns poucos dias de fôlego – analisou o conselheiro passando a mão pela longa barba – a que vem do norte já chega devidamente preparada para ir para as fornalhas. Aqui precisaríamos cortar, tratar... é impraticável a médio e longo prazo.
Os olhos da esposa de Thórin marejaram. O povo iria morrer de frio e fome. Seu marido no cativeiro e uma grave enfermidade na casa paterna.
- O que devemos fazer, Frigga? – indagou Balin, mandando às favas o protocolo.
- É uma decisão dura demais para ela – comentou Dwalin, lembrando-se do alerta que fizera a Thórin antes da partida da caravana.
Frigga fitou o soldado. Sim, estava com os olhos marejados, porém não choraria. O marido confiara-lhe o bem estar de seu povo. Seria digna de sua confiança. Levantou-se. Correu os olhos pelos presentes. Iduna e Mara apenas choravam e Dwalin estava cansado da longa viagem. Balin, contudo, encontrava-se totalmente imerso nas providências emergenciais. Era o mais indicado a permanecer e responsabilizar-se pelo reino. Não poderia contar com ele para o que sua mente planejava realizar. Alguns criados observavam de longe. Os rumores percorrendo os corredores da fortaleza. O pânico se instalaria se alguma providência não fosse tomada.
Thórin sempre colocara o bem-estar de seu povo em primeiro lugar. Seria assim que Frigga agiria. Esqueceria por algum tempo que o marido jazia prisioneiro. Esqueceria que um ente querido seu estava enfermo. Não havia muito o que fazer por nenhum dos dois. Não no momento. Dispôs-se a fazer o que a ocasião exigia. Não havia outro caminho a ser tomado que não o das montanhas.
- Dwalin! – chamou pelo soldado.
- Sim, alteza.
- Sei que deve estar exausto diante dos últimos acontecimentos...
- Não tanto quanto deve estar pensando, minha senhora – interrompeu o orgulhoso comandante, erguendo o queixo.
- Bom saber – prosseguiu Frigga – conhece o caminho para as montanhas ao norte? Sabe onde fica o vilarejo sede dos fornecedores da madeira?
- Sei – respondeu o soldado, sem conseguir vislumbrar as intenções da esposa de Thórin.
- Pois bem, se é com um representante da família real que esses abutres querem conversar, tal lhes será concedido sem mais delonga – declarou a filha de Nain, antes de chamar pela criada – Hilga!
- Sim, minha princesa.
- Traga minha capa e me prepare uma leve bolsa de viagem. Somente o essencial.
- Imediatamente – respondeu Hilga em tom de incredulidade antes de se retirar.
- Dwalin – chamou novamente a princesa.
- Sim, alteza – respondeu o soldado.
- Prepare uma comitiva. Partiremos imediatamente.
- Partiremos? – indagou o anão, sem conseguir acreditar.
- Sim, você e eu, juntamente com uma escolta.
- Está certa disso, alteza? – perguntou Dwalin, ainda hesitando.
- Se Thórin estivesse aqui, o que ele faria? – indagou, percorrendo os olhos por todos os presentes. O silêncio que se seguiu confirmou a decisão de Frigga.
- Balin – chamou pelo conselheiro.
- Sim, minha princesa.
- Em minha ausência, faça o que puder a fim de manter o bem estar de todos. Voltaremos o quanto antes com a situação restabelecida e então pensaremos em um meio de trazer nosso Thórin de volta – concluiu, com a mão no ombro do amigo.
Frerin retornara a Esgaroth. A notícia de mais um ataque aos Khazâd correndo a boca solta. E o pior, os comentários a respeito da 'estadia' de seu irmão em Mirkwood em nada contribuindo para melhorar o humor do jovem khuzd. Obviamente ninguém se atrevia a comentar diretamente os fatos com o ele. Pouco mais que uma criança, Frerin já fazia jus ao respeito devido aos senhores do povo de Dúrin, além de ser portador de um temperamento igualmente característico. O pai intentava deixá-lo responsável por Esgaroth dentro em breve a fim de assumir definitivamente o governo ao lado do combalido pai em Erebor e dividir com Thórin as obrigações militares e negociações comerciais.
- Meu pai ainda não retornou? – indagou o filho de Thráin ao capitão.
- Não, meu senhor.
- Nem sequer uma mensagem?
- Infelizmente não.
Frerin coçou a jovem barba. Havia algo de muito errado naquilo tudo. A emboscada ocorrendo simultaneamente a partida repentina do pai. As flechas do povo da floresta. A troco de que os elfos atacariam uma caravana khuzd? Não questionara o julgamento do irmão diante de provas tão contundentes, contudo algo parecia não se encaixar como deveria naquele espetáculo grotesco.
- Algum problema, jovem senhor? – indagou o ancião que se acercara sem que Frerin percebesse.
- Quem deseja saber? – retorquiu o anão, aborrecido por haver tido seu raciocínio interrompido.
- Não me compreenda mal – respondeu o velho encapuzado – nutro grande simpatia por seu povo e os últimos acontecimentos já não são segredo.
- Diga a que veio, homem – disparou Frerin, sem paciência com o falatório característico do povo daquela cidade de comerciantes.
- Gostaria apenas de me colocar a sua disposição, mestre anão. No que lhe puder ser útil...
- Que utilidade poderia ter para mim?
- Ouvi sobre o transtorno pelo qual sua família está passando e gostaria de saber se poderia ajudar de alguma forma.
Frerin balançou a cabeça, inconformado com mais esse estorvo.
- Se está em busca de alguma recompensa ou coisa que o valha, trate que procurar outro rumo, senhor. Minha tolerância com mercenários é bastante limitada.
- Vejo que a prisão de seu inconsequente irmão o afetou muito se não consegue reconhecer um legítimo e sincero oferecimento quando lhe é proposto – comentou o ancião com uma sutil dose de veneno.
- Como se atreve a referir-se ao futuro rei de Erebor dessa maneira? – respondeu o khuzd levando a mão à espada.
O adan se viu satisfeito com o efeito que suas palavras estavam exercendo sobre o jovem anão. Tão poderosos e tão facilmente manipuláveis eram...
- Sua reação é totalmente desprovida de propósito, meu senhor, todavia estou disposto a revelar, pois sei que deve estar bastante abalado já que seu pai se encontra distante...
- Suma daqui, velho! – disse, apontando a espada para o homem – antes que minha curta paciência não consiga mais deter meu braço.
- Sinto se o aborreci, jovem senhor – disse o adan, retirando-se satisfeito por haver tido a confirmação dos felizes acontecimentos que haviam chegado até sua pessoa.
Dwalin e Frigga cavalgavam em direção às montanhas do norte. Muito estava em jogo e os Khazâd não poderiam prescindir do mínimo tempo que fosse.
- Está certa de que não deseja parar para se alimentar, alteza? – indagou o irmão de Balin.
- Alimentei-me pela manhã – declarou a esposa de Thórin – tomaremos outra refeição à noite, a menos que o senhor ache que não consegue aguardar pelo entardecer – insinuou Frigga, sorrindo no intuito de conquistar a simpatia do tão fechado chefe militar.
Dwalin olhou-a com ar de poucos amigos. A princesa suspirou. Tão diferente do irmão. Igualavam-se apenas em sua lealdade a família do esposo.
- O senhor não me aprova, não é verdade? – indagou diretamente.
- Não confio em quem se associa a elfos – disse franca e honestamente sem dar-se ao trabalho de olhá-la.
Frigga admirou a sinceridade do khuzd. Custava-lhe aceitar, todavia, a veracidade do ataque do povo de Mirkwood. Balançou a cabeça. Não poderia desviar sua atenção de seu objetivo. Se mantivesse na lembrança a imagem de Thórin trancafiado no reino da floresta jamais haveria chance de êxito para sua comitiva. Entretanto, não conseguiu conter a demonstração de pesar pela sorte do marido.
- Espero que esteja bem – pensou em voz alta.
Dwalin olhou se soslaio. Embora possuísse sérias restrições a filha de Nain, não poderia negar que, desde que a desposara, Thórin superara o momento difícil pelo qual vinha passando e reencontrara o ânimo perdido.
