- Parte 38 -
Christine acordou sentindo mais dor de cabeça que teria Amy em qualquer ressaca. Olhou à sua volta e viu aqueles onze homens adormecidos por todos os cantos.
— Mas o que estou fazendo aqui? — indagou a garota olhando para cada um dos amantes — Que dor de cabeça, nem parece que dormi! Parece-me que todos os meus pensamentos me somem! Eu, trancada nessa sala cheia de homem? Sinto pelo meu corpo inteiro essa latejante dor… Onde é que anda o meu amor? Mas que porra! Eu não paro de rimar, será que só assim consigo falar? Ei, caras, acordem! Ai, Merlin, será que eles não podem?
De repente, cada um dos amantes de Christine foram sumindo como fumaça, um a um. A garota olhou horrorizada para aquilo, e só então se deu conta de que tudo o que acontecera não passara de uma ilusão ou de um feitiço muito poderoso.
— Puta que pariu! — exclamou — Pela varinha íntima do Dumbledore que não faz nada! Eu transei com um monte de alma penada? Eu quero sair daqui! — as lágrimas da garota começaram a cair — Porra, essa vida não me serve! Eu quero o Sev!
Christine saiu correndo da sala, deixando para trás toda aquela história lúgubre. Correu pelo corredor vazio, vencendo todos os lances de escadas até chegar às masmorras. Em todo aquele furor, a garota nem viu quando esbarrou em alguém que vinha no sentido oposto. Esse alguém era quem ela mais queria — e ao mesmo tempo não queria — ver naquele momento.
— Snape — ela disse ofegante — você por aqui?
— Eu estava indo ali — respondeu — mas estou sentindo perfume de homem, com quem você estava nesse instante?
— Com ninguém importante — a garota deu de ombros — mas você não tem nada a ver com a minha vida.
— É que sem você a minha alma fica perdida.
— Quer parar de rimar?
— Se você me acompanhar e também parar…
— Esqueça-me, Snape, você é um sangue-ruim.
— Eu sei, mas você ainda mora em mim. Eu nunca fui tão suscetível a alguém, mas você me faz esquecer minha dignidade e ir além.
— Nem por Lily, aquela filha-de-ninguém?
— Não fale dela…
— Ora, aquela cadela! E ainda defende a sua amada…
— Ela para mim não é mais nada. Eu amo você, e você sabe disso.
— Jogue o seu amor no cortiço!
— Cortiço? O que é isso?
— Aquele livro de literatura trouxa, não sei por que falei dele, não sei o que me deu…
— Está sabendo mais de assuntos trouxas do que eu.
Christine hesitou por alguns segundos, tentando se manter firme.
— Ai, o seu meio sorriso é irresistível, mas eu preciso me manter impassível!
— Meu amor, esqueça isso.
— Não posso, você é um mestiço — suspirou — a minha mãe jamais aceitaria.
— Esqueça — enlaçou-a — a vida é uma poesia.
Christine se deixou levar pelo beijo, sentindo que toda a sordidez da noite passada esvanecia como fumaça. A partir daquele momento, ela tinha certeza absoluta de que não era mais a mesma, e aquela Christine obcecada por homens morrera, dando lugar a uma nova, eternamente apaixonada pelo único que sabia fazer o seu coração bater mais forte.
— Eu não desistirei — ela disse, com os lábios ainda muito próximos dos dele, as lágrimas caindo insistentemente pelo seu rosto — eles podem até tentar me matar ou coisa assim…
— …Ninguém vai tirar você de mim. — ele concluiu, beijando-a novamente.
Anne aproveitava a manhã de sábado passeando pelos jardins. Cantarolava, feliz com o resultado de seu pedido à fonte. Foi quando reparou que havia uma briga um pouco mais além.
— Pelo delicioso traseiro de Sam Winchester, o que está acontecendo? — exclamou — É treta e eu estou perdendo?
A garota correu para o lugar da briga e percebeu que os dois garotos que se engalfinhavam não eram ninguém mais e ninguém menos que Jake e Cedric.
— Por Merlin, por que vocês estão se atacando assim? — gritou a garota — Não me digam que é por causa de mim…
— Esse folgado tá dando em cima de você, coelhinha! — disse Jake ofegante, segurando Cedric pelo colarinho da blusa.
— Eu não, você está perdendo a linha! — rebateu Cedric quase sem ar.
— Cala a boca, fuinha!
— Gente, eu não estou entendendo nada… — confessou Anne.
— Disseram que ele foi atrás de você de madrugada — disse Jake.
— É mentira! — gritou Cedric — Esse cara é um animal!
— Ah, pega no meu...
— NÃO CONTINUA! — exclamou Anne — Solta ele agora, Jacó!
— Ah, tem dó! — reclamou o garoto, jogando ao chão um Cedric assustado — Por que você está me chamando assim?
— Por que esse é um nome muito ruim, e o seu é parecido.
— Você sabe que eu fico fodido…
— E por isso soltou a fuinha.
— Suma daqui! — Jacob exclamou quando Cedric já corria — Ou da próxima vez te transformo em uma galinha!
Jake respirou fundo, tentando se recompor. Anne, então beijou-o nos lábios e se aninhou no seu peito.
— Meu lobo bobo — falou carinhosamente — por que é ciumento assim?
— Porque não gosto que mexam com o que é mais importante para mim. Porra, Anne, por que estamos a rimar?
— Não sei, mas não consigo parar.
— Isso pra mim é um feitiço poderoso.
— Esquece o feitiço, você está tão gostoso!
E o casal mais animado da escola se jogou na relva. Eles não se importavam muito se alguém poderia passar e ver, simplesmente não conseguiam controlar aquele fogo.
E por falar em fogo, alguém andava de fogo à beira do Lago Negro, com a companheira garrafa sempre em mãos.
— Que dia lindo! — exclamou a alcoólatra — Até parece que o céu está sorrindo! Cadê minha fuinha? Ele tá me deixando sozinha?
Como se tivesse feito um feitiço convocatório, Jasper apareceu às costas de Amy, pregando-lhe um susto. A garota desequilibrou e teria caído, mas ele a segurou.
— Bebendo de novo, minha caninha?
— E eu faço outra coisa, fuinha?
Jasper olhou fixamente para Amy e meneou a cabeça negativamente.
— Que foi, tô cagada? — ela perguntou, ficando nervosa.
— Olha como a sua voz está embargada! — ele respondeu com desgosto — Vem, vou te dar um banho frio!
— Nem vem, que eu te jogo no rio!
— Isso não é um rio, é um lago!
— Que é que tem o lado?
— Quatro lados formam um quadrado.
— Que é isso, Jasper, você bebeu?
— Quem tá com a garrafa na mão não sou eu…
— Ah, me deixa, vampiro!
— Não fica assim bravinha, que eu piro.
Jasper agarrou a namorada, que se esquivou.
— Sai, Jazz, você não me aceita.
— Eu só quero que você seja ainda mais perfeita!
Amy cruzou os braços, assumindo uma expressão emburrada.
— Qual é, amor? — disse Jasper — A vida é um morango!
Ela olhou-o de soslaio e deu um sorrisinho.
— Então, vem, vamos dançar um tango!
E começaram a dançar no meio do jardim. Ninguém sabia dizer qual dos dois poderia ser o verdadeiro bêbado.
Hogwarts ficou quase uma semana dessa maneira. Ninguém sabia dizer por que, mas as rimas estavam presentes em todas as conversas, e até nas aulas. Snape, entretanto, seguia o curso de sua aula parecendo indiferente àqueles fatos estranhos.
— E com esses pedaços de açafrão — ele dizia — você pode obter uma bela poção. Mas mantenha-se por perto, você precisa atingir o ponto certo. Se cozinhar demais, estraga.
— Ai, ele sabe atingir o ponto certo com destreza — suspirava Christine — e faz de um jeito delicioso, com certeza.
Anne, na cadeira da frente, virou-se para a amiga com uma expressão de susto e indignação.
— Srta. Hale — chamou Snape — vire-se para frente e ensine o seu lobisomem a se comportar como gente.
Jake estava imerso em sua tarefa de farejar a mesa, a pena, os pergaminhos e o caldeirão.
— Que é isso, Jake? — Anne cutucou-o, indignada — Pare de agir como um cão!
— É a força do hábito — respondeu — você não tem noção.
— Vocês podem parar de latir? — disse Snape rispidamente — Ou eu vou ter que começar a agir?
— Você tá me chamando de cadela? — indagou Anne se levantando.
— A mulher do cão é o que, uma donzela?
— Ah, se liga, professor, fica aí rimando que nem o Chapéu Seletor!
— Todos nós estamos rimando — Christine também ergueu-se da cadeira — isso é obra de algum impostor!
— Mas quem você acha que fez uma coisa assim? — indagou Snape.
— A fonte que está no jardim! — exclamou Anne.
— Quem faria um pedido tão sem noção, sem utilidade nem nada?
— Alguém que vive encachaçada! — concluiu Christine.
— Amy Sparrow — Snape falou com a voz arrastada — a senhorita não tem o que fazer?
— Eu só queria um mundo lindo de se viver — respondeu a garota em tom choroso.
— Pois vá agora mesmo desfazer! Se rimar mais um pouco, vou enlouquecer!
— E como fazer?
— Eu sei como proceder! — exclamou uma menina ao fundo da sala, uma sonserina que Christine sempre odiara porque tinha certeza de que ela gostava de Snape.
— Ah, Julieta! — exclamou a garota — Cale a boca e vá dar a sua…
— Chris conhece as regras desse jogo — interrompeu Jake — então por que não diz logo?
— Não sobre as ordens de um sangue-ruim…
— Chris, não seja assim — ponderou Snape.
— Olha, que conto o que sei e quero ver o que você faz…
— Simplesmente não te traço mais.
— É, aí não dá. Vou fazer com quem e onde? Certo, eu conto tudo o que sei sobre a fonte. Pra desfazer o pedido, você tem que se conscientizar de que tudo está perdido, e quer reverter, mas às vezes, é algo impossível de se fazer. Deve-se tirar a moeda dada, assim como quem não quer nada, e correr sem olhar para trás. Rápido, Amy, ou pode ser tarde demais!
— E se eu não conseguir? — indagou a bêbada chorosa.
— A moeda não vai sair. Mas depois eu falo o resto, só expliquei por cima, porque não aguento mais falar fazendo rima!
Amy concordou e saiu da sala em busca da fonte. Reconhecia que seu desejo havia sido um erro, e estava pronta para retirá-lo. Entretanto, já pensava em outro, um totalmente relacionado à pinga e ao Lago Negro.
