Capítulo
38 - Traduzido por Nata
Sawyer desligou o motor e agarrou a pequena bolsa que estava ao seu lado no assento. A traseira da caminhonete estava cheia de sacos de papeis grandes, mas decidiu deixá-los lá por enquanto. Ele ainda não acreditava que ela o havia feito comprar mantimentos após aquele anúncio. Como diabos ele devia escolher o detergente para lavagem de roupa ou optar entre diferentes marcas de tempero para macarrão quando tinha uma porcaria de teste para gravidez esperando na caminhonete? Kate havia argumentado que seria estupidez fazer duas viagens e ele ainda estava muito abalado e desconcertado para discutir com ela. Ela obviamente já estava convivendo com essa crescente suspeita há algumas semanas, mas para ele, ainda ecoava e reverberava como um estrondoso relampejar em sua mente.
Sua primeira reação, não surpreendentemente, havia sido o de entrar em pânico. Era como se uma placa luminosa, em vermelho, com luzes de aviso tivesse sido ligada, sinalizando em letras gigantes, "CORRA!" Mas assim que o choque inicial se desfez, e ele pôde ver o quão assustada e miserável e apologética ela parecia, outros impulsos o dominaram. Eles não disseram muito no caminho de volta à casa, mas ele manteve o braço ao redor dela. Antes de sair, deram-se um longo e silencioso abraço, como duas vítimas se afogando, agarrando-se uma à outra apesar do fato de que isso apenas os fará afundar mais rápido.
Mas durante a viagem e a volta para casa, uma coisa engraçada ocorreu. Quanto mais tempo tinha para se acostumar à idéia, mais passou a aceitá-la como algo natural, até mesmo normal. Ainda era assustador demais e ele, claro, não se podia permitir imaginar nada concretamente – não havia imagens mentais, nenhuma fantasia sobre o futuro. Era apenas que a idéia em si começava a parecer menos alienígena. A idéia de que algo tangível poderia uni-los... Havia alguma estranha coisa encaixando-se nisso, mesmo que ele estivesse tentando seu melhor para manter sua mente longe de detalhes. Ao sair da caminhonete e andar em direção a casa com a bolsa experimentou certa antecipação ansiosa que não poderia exatamente ser rotulada como temor.
Entretanto, ficou imediatamente claro que Kate não experimentava outra coisa a não ser pavor. Ela se ergueu, limpando a bancada com uma esponja, fazendo um círculo atrás do outro, e sem levantar o olhar imediatamente quando ele passou pela porta. A expressão dela era distante e triste e seus olhos pareciam olhar através do topo da bancada, não para ela. Seus ombros estavam tensos e deixou seu cabelo cair-lhe pelo rosto, sem ao menos se importar em arrumá-lo. Ela obviamente andara pensando também. Mas seus pensamentos pareciam tê-la levado por um caminho totalmente diferente.
Finalmente, ela levantou o olhar, registrando sua presença. Ela lhe dirigiu um fraco sorriso não convincente. Ele segurou a bolsa, mostrando-a para ela. "Foi isso que você pediu?" O sorriso desapareceu e ela parou por um Segundo, depois adiantou-se para pegá-la. Ele observou-a cuidadosamente enquanto ela pegava a bolsa e examinava a etiqueta.
Balançando de leve a cabeça, ela resmungou, "Você tinha de pegar o mais barato, não?"
Irritado por ela ter percebido, ele respondeu, "Que diferença faz?"
"Ele apenas… demora mais. Teremos de esperar dez minutos. Com os outros tipos é instantâneo." Ela levantou os olhos rapidamente, sentindo-se mal. "Não importa… Está bem. Digo, o que são mais dez minutos, não? Podemos lidar com isso."
Ela pegou um cronômetro fora de uma gaveta perto do refrigerador. Ele nunca o havia visto em sua vida.
"Você vai fazer o exame agora?" Ele perguntou de repente, desejando adiar isso mais um pouco.
"Porque esperar?" Disse ela, parecendo confusa.
Ele não tinha uma resposta para isso. Olharam-se por mais alguns segundos, então Kate sussurrou, "Vamos."
Enquanto ele a seguia escada acima, ele perguntou, "Há quanto tempo você sabe?"
"Eu não sei de nada," ela disse rispidamente, olhando de volta para ele.
"Tá, suspeitava, então,", ele se corrigiu.
Ela suspirou, entrando no quarto dele ao invés de ir direto para o banheiro. "Eu não sei… Tenho evitado pensar nisso há tanto tempo, que nem sequer posso recordar quando comecei a me preocupar. Algumas semanas, creio."
"Algumas semanas?" Ele repetiu, chocado. "Porque diabos você não disse nada?"
"Quando?" Ela perguntou, quase rindo; "Quando você estava tirando o metal do meu braço com uma faca de cozinha? Quando Jack estava dormindo no quarto ao lado? Ou então quando estávamos jogando o corpo no lago?"
"Tiveram outras oportunidades,"ele disse com desdém.
Ela esperou um segundo, parecendo estar em outro lugar. "Eu sei," ela disse baixinho. "Mas como eu disse, eu nem ao menos admiti isso para mim mesma até hoje. Você não faz idéia de como eu sou boa em negar as coisas. É engraçado... de todos os problemas que nos imaginei arranjando, este não estava no meio. Nunca sequer considerei..." Ela parou. "Deveríamos ter sido mais cuidadosos."
"Como? Eu tenho gastado uma fortuna com camisinhas, não tenho?"
"Não é o suficiente." Ela sorriu de leve. "Especialmente quando você transa cinco vezes por dia. E pare de se mostrar orgulhoso," ela disse em resposta à expressão dele, revirando os olhos.
Ele tentou seu melhor para manter um comportamento sério.
"Ao menos eu tenho pílulas anticoncepcionais agora... se não for tarde demais, quer dizer."
"De onde?", ele perguntou, confuso.
Ela agiu como se não quisesse dizer. "De Jack," ela, enfim, respondeu, sem encontrar os olhos dele. "Ele me deu algumas quando esteve aqui."
"Ele o quê?" Sawyer pareceu imerso em aflição.
"Ele tentou fazer algo legal, Sawyer. Ele sabia que eu não tinha outro jeito como arranjar," ela explicou pacientemente.
"Esse filho da p..." ele resmungou, se interrompendo, "Eu sei exatamente o que ele estava tentando fazer... ele estava apenas querendo ter certeza de que você não engravidasse de mim. Tentando ter certeza de que por nada neste mundo nós pudéssemos de alguma forma procriar."
Kate suspirou pesadamente. "E isso é exatamente porque eu não te contei antes."
Ela balançou a cabeça, enojado. "Inacreditável." Examinado-a, ele disse, "Sabe, eu poderia te trazer essas pílulas se você quisesse-as. Você só tinha de pedir."
"Como você teria feito isso? Não é o tipo de coisa que você pode comprar no mercado negro ou enganar alguém para conseguir." Ela parecia achar graça na situação.
"Eu teria dado um jeito," ele disse amargamente.
"Bom, ele deve haver suposto que você ainda não tinha arranjado, ou ele não teria escrito a receita."
Um brilho astuto surgiu nos olhos de Sawyer e seus lábios se contraíram levemente nos cantos. "Diabos, supor não teve nada a ver com isto, Freckles. Ele sabia que você não as tinha.
"O que faz você achar isso?" Ela perguntou, sem entender. Então, parecendo preocupada, ela exigiu, "Você contou para ele?"
O sorriso dele tornou-se maior, mas ele pareceu irritantemente cheio de segredos. "Eu não disse nada para ele… você disse."
Kate ficou assombrada. "Do que você está falando?"
"Esquece," disse Sawyer, parecendo distante, sabendo que ela não esqueceria disso.
"Não! Diga-me o que você quis dizer com isso." Ela esperou, os braços cruzados frente ao corpo, esquecendo momentaneamente o porquê de eles terem subido.
"Você não vai querer saber, confie em mim."
"Sawyer," Ela disse, ameaçadoramente.
"Tudo bem, mas não diga que não a avisei." Ele olhou-a. " Quando você estava apagando após a anestesia, você me mandou comprar algumas camisinhas e me disse que eu nunca comprava o suficiente, já que aparentemente o estoque simplesmente não consegue suprir a demanda." Ele lhe dirigiu um gracejo maroto, erguendo a cabeça de leve.
Ela o encarou em descrença. "Você está inventando," ela disse devagar, esperançosa.
"Temo que não, querida," ele contestou, apreciando demais a situação. "Quer ligar para ele e perguntar?"
Kate afundou sobre a beirada da cama, baixando o rosto ruborizado em suas mãos. "Oh, meu Deus…" ela gemeu.
Sawyer deu-lhe um tapinha de leve nas costas. "Acho que isso coloca o presentinho do Doc sob uma nova luz, não?"
Finalmente, ela baixou as mãos e dedicou-lhe um sorriso rancoroso. "Você se sente melhor agora?"
"Estaria mentindo se dissesse que não," ele respondeu. Mas a expressão dele parecia mais suave agora, não tão perversa. Ela ficava linda quando ruborizava.
Olhando pensativa para o teste de gravidez em suas mãos, ela disse, "Acho que não há motivo para adiar mais isso." Ela levantou. Já na porta, ela se virou, olhando para ele nervosamente. "Já volto."
Ele esperou, contemplando um ponto lascado no chão de madeira maciça, perguntando-se vagamente quanto lhe custaria para concertar isso. Uma criança poderia se machucar com um chão nessa situação. O fato de que um pensamento dessa natureza pudesse passar em sua mente atingiu-o tão fortemente que ele estava a ponto de descer e sair pelo jardim para pegar um pouco de ar fresco quando Kate retornou para a sala.
"Lembrou de ligar o cronômetro?" Ele não conseguia pensar e mais nada à ser dito.
Ela dirigiu-lhe um olhar que podia ser interpretado com Sim, eu lembrei, seu idiota.
"O que você acha que vai ser?" Ele perguntou, cautelosamente.
Ela quase riu. "Porquê? Você quer quer apostar alguma coisa, para tornar isso mais interessante?"
"Só estava curioso," ele disse, irritado. "Pensei que você talvez tivesse suas suspeitas."
"Provavelmente será negativo," ela disse, não soando nem um pouco convincente. "Tem de ser. Se não for..." sua voz morreu, miseravelmente.
"Bom, nesse momento, isso seria a pior coisa do mundo, não seria? Se não for?" ele perguntou,observando-a, cuidadosamente.
Ela virou-se para ele, surpresa. "Claro que seria! Você tem dúvidas? Quer dizer, mesmo deixando de lado por um segundo todas nossas circunstâncias, não estamos prontos para algo assim. Mesmo que fôssemos pessoas seguras e normais... Eu só tenho vinte e seis anos. Quero dizer, de certa forma me sinto muito jovem para isso. E você," ela adicionou, olhando para ele. "Você acabou de dizer noutro dia que odeia crianças." Ele desviou o olhar, arrependido. "E com o tipo de humor que você tem? Crianças podem ser irritantes, Sawyer. O que você fará se as coisas saírem de controle, tacar uma garrafa de whiskey nela?"
"Eu não a taquei em você!" Ele disse na defensiva. Então, sereno, "Você sabe que eu nunca te machucaria… ou a uma criança."
"Eu sei que você não acha que seria capaz," ela disse, triste. "Mas eu tenho visto quanto esforço você tem de fazer às vezes para não me bater... e você talvez não consiga se conter todas as vezes. Por mim, eu não ligo. Eu sei de onde essa raiva vem e ela não me assusta. Mas seria diferente para uma criança."
Ele trincou o maxilar em agonia. Ouvi-la proferir seus maiores temores era mais do que ele poderia agüentar. Ela teria alguma idéia do quanto o machucava ouvi-la dizer isso? Ele procurou seu bolso e acendeu mais um cigarro de propósito, mas então lhe ocorreu que se ela estava grávida, ele não deveria fumar perto dela. Chateado, ele jogou-o fora e arremessou com raiva o pacote inteiro na direção do lixo. Então, percebendo que seus movimentos violentos apenas corroboravam com o ponto de vista dela, ficou ainda mais irritado, sentindo a necessidade de revidar de alguma forma.
"Você pode dizer o que quiser sobre mim, querida, mas eu sei a verdadeira razão para que essa idéia te faça morrer de medo." Ele olhou-a explicitamente. "Isso faria tudo isto ser um pouco oficial demais, não? Você estaria presa à mim para sempre, então, não estaria? Sem fugas para pastos verdejantes quando de repente você sentisse que é hora de ir embora." Ele sorriu amargamente. "Não importa o quanto você diga sobre você não planejar ir a lugar algum, seria só um pouco diferente se você não tivesse escolha, certo?" Ele praticamente cuspiu a última palavra na cara dela.
Ela encarou-o, quase como se não pudesse compreender o que ele disse. "Você ficou louco?" Ela praticamente sussurrou. "Como é possível alguém ser tão egoísta e inseguro ao mesmo tempo? Era de se pensar que uma coisa anularia a outra. Não posso crer que você sequer pensaria alguma coisa assim."
Ela olhou ao redor em espanto, balançando
a cabeça. "Porque estamos brigando?
Fato é,
tudo isso é em vão. Pois nós dois sabemos porque
isso nunca daria certo. Quero dizer, olhe para nós, Sawyer!
Olhe para nossas vidas! Que tipo de pais nós poderíamos
ser? Mal podemos tomar conta de nós mesmos! Poderíamos
ter sido mortos na outra noite," ela terminou suavemente.
"Mas não fomos." Sua voz soou insosa, cansada.
"Mas poderíamos ter sido," ela reiterou. "Facilmente. O fato de estarmos vivos agora é apenas sorte. Ele veio aqui para nos matar. E se não tivéssemos feito-o mudar de idéia? Ou então se já tivesse um bebê aqui em cima?"
"Não sou um grande fã dos e se, Freckles. Você está nessa sozinha," ele disse, parecendo um tanto aborrecido. Isso não é o que ele queria estar pensando nesse momento.
"Você sabe o que teria acontecido," ela insistiu. "Por Deus, Sawyer, não conseguimos sequer manter um cachorro vivo!" Ela parecia estar contendo as lágrimas. "O que te faz pensar que poderíamos fazer algo melhor por uma criança O que acontecerá na próxima vez que um marido ensandecido te localizar... ou mesmo alguém do meu passado? Você gostaria de entrar e descobrir seus filho morto no corredor?" Ela parou, atormentada. "Quem irá cavar esse túmulo?"
"Cala a boca," ele disse com selvageria, sem querer ouvir mais.
"E mesmo que consigamos mantê-lo a salvo, que tipo de vida poderia uma criança ter conosco como pais?" ela continuou, ignorando-o. "Sempre tendo de se esconder ou fugindo... Você sabe tão bem quanto eu que não daria certo. Já é difícil demais para duas pessoas conseguir fugir juntos... com uma família não teria chance."
Ela se deteve por um segundo enquanto uma nova idéia lhe ocorria, demarcando suas feições com tormento. "Você pode imaginar que tipo de mãe eu seria? Como você explica para uma criança de seis anos que a mãe dele não pode ir para o recital ou para a partida de futebol por que ela é procurada pelo FBI?" Sem perceber, Kate deixou o cabelo cair sobre seu rosto outra vez, suas mãos tremiam.
Sawyer a assistiu. Ainda que a tivesse tentado ferir com suas palavras há apenas uns minutos atrás, agora ele de bom grado cortaria o próprio braço fora se isso a fizesse parar de parecer assim.
"Sem falar sobre a própria gravidez," ela continuou, cada novo ponto fazendo-a ficar mais e mais desesperada. "Como isso funcionaria? Eu não posso ir a um médico... Não teríamos nenhuma pista se as coisas estariam ou não. Quem iria fazer o parto?" Ela se voltou para ele. "E não ouse sugerir o Jack."
"Eu não disse nada," ele replicou com tristeza.
"Você adoraria isso, não? Que ele fizesse o parto... para nós. Bem, pode esquecer isso. Eu mesma faria o parto, antes de pedir para ele fazê-lo.
Sawyer suspirou. "Você poderia se sentar, por favor?" Você agindo como um maldito viciado em crack!"
Ela obedeceu, baixando-se para o canto da cama com relutância. Após alguns segundos, seu rosto pareceu acalmar-se, suas mãos assentaram-se calmas em seu colo. Ela olhou para ele, tentando se esvaziar de qualquer emoção. Com voz calma, ela falou. "Se for positivo, você sabe o que termos de fazer."
Ele amargou, depois disse num tom baixo, "Você espera que eu experimente isso com uma faca de cozinha também?"
Ela fechou os olhos, cerrando os dentes e tentando não chorar. "você pode encontrar alguém... Com o tipo de pessoa que você conhece deve haver alguém que faça isso."
"Espero que você não espere que eu pague por isso, ao menos," ele disse, quase sussurrando. "Porque eu não vou pagar. Acho que você terá de arranjar essa grana sozinha de algum jeito."
Ela olhou direto pra ele, surpresa e sentindo-se traída, mas finalmente começando a entender o quão forte eram os sentimentos dele sobre isso. De alguma forma, isso doeu-lhe ainda mais.
Com voz trêmula, ela tentou manter um semblante de racionalidade. "Então teremos de dar-nos por vencidos. Não há outro jeito. Você não consegue entender isso? Se eu for para a prisão... " Sua feição enrugou-se perigosamente e ela parou, olhando ao redor do quarto e tentando recompor-se. Ela respirou profundamente e tentou de novo. "Se eu for para a prisão, ele o levarão embora... eles o tirarão de mim. E mesmo que você consiga evitar ser sentenciado, você ainda tem uma ficha criminosa. Mais, você está ajudando uma fugitiva. Você acha que há alguma maldita maneira de conseguir a custódia? Porque se fixar à algo que você não pode manter! Eu preferiria nunca pôr os olhos nele à tê-lo arrancado de nós."
Sawyer, miserável, correu os dedos sobre os olhos e fronte. Tudo o que ela disse fazia sentido, mas em seu íntimo, ele se rebelou contra as palavras dela, instintivamente.
"Se pudéssemos encontrar um lugar seguro..." ele começou.
"Não há lugar seguro!" Ela interrompeu. "Não para mim. Acha que eu não tentei? Estive por tudo que é canto do mundo, procurando por um lugar. Quero dizer, se uma ilha deserta não é segura o suficiente, então o que será? E mesmo que percam nosso rastro... mesmo que eu tinja meu cabelo, faça cirurgia reconstrutora... use um sotaque falso, nome falso... Não importa o quê, eu ainda vou ficar olhando por sobre meu ombro constantemente. Nunca me sentirei segura. Se fosse apenas eu, poderia fingir, algumas vezes. Mas não com uma criança," ela balançou a cabeça enfaticamente. "Eu não poderia me enganar assim."
Ele continuou a encará-la. Seus argumentos tinham acabado no momento. Ela claramente tinha uma resposta para tudo que ele pudesse dizer. Seus olhos diziam muita coisa, no entanto. Ela era forçada a não olhar para ele.
"Sawyer," ela disse, docemente. Desistiu de lutar contra as lágrimas. Era uma batalha que ela claramente não poderia ganhar. "Você acha que não me parte o coração saber que nunca poderei ter isso? Que não importa quanto tempo eu viva, eu nunca poderei ter uma vida normal, com um marido e filhos e uma casa na qual eu possa viver de verdade? Eu tento não pensar sobre isso, porque isso me mata. Ma mata saber que... que eu nunca trocarei uma fralda ou empurrarei um balanço ou... ou erguerei alguém para colocar o anjo do topo da árvore de Natal." Sua voz falhou e ela baixou a cabeça em direção às mãos até que pudesse ter certeza de que não surtaria. Sawyer a observou, horrorizado, com medo de tocá-la, não querendo admitir a verdade d suas palavras. Se ele a confortasse, significaria que ele estava desistindo deles.
Finalmente, ela ergueu a cabeça outra vez, aparentemente mais calma. Em um tom triste e exausto ela disse. "Sabe, quando eu fiz o paro do bebê da Claire... Mesmo estando tão feliz por ela... Eu lembro de pensar este é o mais perto que você jamais chegará. E mais tarde, quando o trouxemos para a praia e todo mundo veio olhá-lo... Até você tinha esse olhar no rosto, como... Como se fosse a coisa mais incrível que jamais havia visto. E por apenas uma fração de segundo eu a odiei." Ela olhou para Sawyer, surpresa consigo mesma. "Pode acreditar nisso? Deve ter sido o momento mais feliz da vida dela e uma pequena parte de mim a odiou por causa disso. Que tipo de pessoa eu sou?" Seu fôlego prendeu na garganta.
"Kate," Ele sussurrou, quase fraco com o esforço de ouvi-la derramar toda esse desgosto doloroso. Ele estava a beira de puxá-la para seu braços apesar de sua necessidade de se colocar contra a lógica dela quando ambos ouviram o cronômetro tocar.
Ela olhou em direção a porta, sem se mover, como se o resultado fosse magicamente flutuar até eles, sem mais esforços. Após alguns segundos, ela se levantou.
"Quer que eu verifique?" Sawyer ofereceu, rezando para que ela dissesse não.
"Tudo bem." Ela sorriu parcamente. "Você não leria as instruções, de qualquer jeito."
Sem olhar para ele, ela deixou o quarto. Ele esperou, sem se mexer, sentindo as batidas secas em seu peito. Porque estava demorando tanto? Ele finalmente se ergueu, mas assim que o fez, ele ouviu-a voltando pelo corredor.
Ela parou junto a porta, segurando o teste. Sua cara estava mortalmente pálida. Ela tomou um fôlego profundo e instável e deixou-a sair todo antes de falar.
"Deu negativo."
Então cerrando os olha, adicionou, "Graças à Deus."
Os músculos tensos dele lentamente começaram o processo de relaxarem. Todas as possibilidades que ele evitava ponderar evaporaram em fino ar. A casa retomou o ar de sempre, como se um convidado cuja presença era esperada, instaurado nos cômodos uma aura brilhante de antecipação, tivesse repentinamente cancelado a visita, desfazendo e ilusão, fazendo o dia arrastar-se adiante em seu triste e costumeiro jeito.
"Parabéns." Ele soou cansado.
Ela olhou para o chão e ele pôde quase senti-la distanciar-se, recuando para seu dentro de si, como ela sempre fazia quando revelava muito de si mesma. O fato de a barreira entre eles ser invisível não tornava-a mais fácil de se transpassada.
Ele suspirou. "Eu vou descarregar o resto das compras... colocá-las no freezer antes que estraguem."
Ela acenou suavemente, evitando os olhos dele. Roçando nela de leve, ele deixou o quarto e dirigiu-se escada abaixo.
Kate continuou parada ali, imóvel. Ela olhou novamente para o teste, checando pela vigésima vez. Ainda era um sinal negativo – uma pequena e irrelevante linha púrpura. Encará-la não tornava isso mais fácil de assimilar. Ela estava tão certa. A certeza vinha crescendo há tanto tempo, embora subconscientemente, que ela já começava a aceitar isso como um fato sem ao menos deixar sua consciência lutar contra isso. O teste havia sido uma formalidade. Ela já sabia da verdade e seus argumentos tinham sido uma maneira de convencer-se tanto quanto convencer a Sawyer da impossibilidade de deixarem isso acontecer. Como ele pôde estar tão errada? Era como se seu próprio corpo a houvesse traído.
Quando ela ouviu os passos de Sawyer na varanda ela vagarosamente, com deliberada calma, fechou a porta do quarto virando antes a maçaneta pro inteiro para que fizesse menos barulho ao fechar. Como em um deslumbramento, ela cruzou os poucos passos até a cama e cuidadosamente engatinhou sobre ela, deitando-se de lado e puxando os joelhos em direção ao peito.
Por alguns segundos ela permaneceu completamente imóvel, quase congelada. Então, sem quase som algum, ela começou a chorar.
