37. A Rosa e o Dinossauro

Nota:

Existem duas maneiras de ler esse capítulo:

Se você nunca assistiu Jurassic Park/ assistiu há muito tempo: recomendo seguir essa playlist ( www . youtube playlist?list=PLKwDQVQoLsJYMqtAr0z-se0EZKX4tWUi5 - retire os espaços) com as cenas do filme. Mas é claro que elas tem spoiler, é a vida. (Ou você pode apenas dar uma paradinha para ver o filme completo).

Se você assistiu Jurassic Park (o de 1993, o primeirão, veja bem) há pouco tempo: só ir lendo e sendo feliz, você vai lembrar das cenas ao que o cap. faz referencia fácil, fácil.

Algumas cenas de conteúdo adulto estão presentes no cap.

Os números que antecedem as cenas (ex: 46:44") são do momento em que elas acontecem no filme.

Boa Leitura!


"Todas as vezes que vou ao cinema é mágico, e não interessa que filme é que é."

(Steven Spielberg)

Oliver Wood era uma pessoa otimista. Isso significava que, na maioria das situações em que outros estariam ansiosos e roendo as unhas, ele tendia a se encontrar calmo, confiante e certo do melhor desfecho possível.

Curiosamente, essa predisposição otimista e tranquila não se encaixava em nenhuma situação onde Bervely Black estivesse envolvida.

"Esse vai ser um novo bolo. Nenhuma surpresa nisso. Não é como se você já não desconfiasse", era o que dizia para si mesmo, enquanto pateticamente parado perto da entrada do Cinema Century em Exeter, tentando ficar fora do caminho das pessoas e ao mesmo tempo equilibrar dois enormes sacos de pipoca em suas mãos.

Eu devia ter comprado um saco só, pelo menos assim dava pra fingir que vim sozinho. O que também seria patético, mas um pouco menos do que estar levando um bolo.

Algumas pessoas passavam por ele e lhe olhavam com certa pena. Um grupo de meninas mais ou menos da sua idade à alguma distância cochichavam e olhavam em sua direção, e ele achou que uma delas estava se preparando para se aproximar e tentar tomar o lugar do seu encontro faltoso. Desviou o olhar rapidamente antes que acabasse encorajando a ideia inadvertidamente.

Havia outra garota entrando pelas portas de vidro duplas naquele momento, mas desta ele não poderia desviar o olhar nem se quisesse. Não quando frio e calor tomaram seu interior ao finalmente reconhecê-la, e ele quase derrubou os sacos de pipoca quando ela se aproximava.

– Wood! – exclamou Bervely Black. O choque por ela ter realmente vindo não era nada comparado ao seu embasbacamento frente à sua aparência. Ele que pensara que ela não tinha como ficar mais bonita do que na noite da formatura de Tonks em Hogwarts, com aquele vestido verde colado.

– Black, você está…

– Atrasada, eu sei. – disse, um pouco irritada, afastando a franja que caía nos olhos maquiados de preto. – Você sabia que a sua coruja se recusou a entregar a minha última carta? Eu precisei pegar o Noitibus. Juro por Slytherin que ele passou por sete diferentes condados antes de Devon! Eu suponho que seja tarde demais, agora? Wood, você perdeu sua língua?

Ele se aprumou, lembrando-se de sorrir. Na verdade, Bervely Black em roupas trouxas devia ser uma situação engraçada, mas ela acabara com toda a comicidade ao escolher um vestido que deixava a maior parte de suas longas pernas de fora. Ele pigarreou.

– Não é tarde demais, só vamos perder uns trailers. E eu não ia dizer atrasada.

– O que você ia dizer?

– Linda.

Bervely estreitou os olhos perigosamente.

– Não me tapeie, Wood, eu ainda não decidi se você merece perdão por me chantagear à vir nesse lugar completamente troux…

Ele se inclinou e estalou seus lábios no dela, tão rápido que Bervely mal teve tempo de evitar o assalto.

– Vai ter que segurar sua língua em relação à certos termos, enquanto estiver aqui, se é que me entende. – ele lhe avisou, divertido. – Pode segurar a pipoca? Vou pegar alguma bebida.

Ele lhe passou os sacos de pipoca, que Bervely aceitou desajeitadamente. Ela ainda estava confusa pela quantidade de informação do lugar; muito vermelho, azul e luzes, letreiros luminosos de filmes e também de produtos trouxas. Filas nos caixas e pessoas empolgadas. Virou em seus saltos para seguí-lo, não querendo dar ao destino a chance de se perder de Wood no meio dos trouxas, chegou a tempo de vê-lo colocar moedas trouxas numa grande caixa com painel de vidro cheio de latas cilíndricas.

– O que quer beber?

– Eu acho que cerveja amanteigada não é uma opção? – zombou, olhando as latas através do painel.

– Não, mas se nunca bebeu refrigerante, acho que é uma boa idéia começar com Coca-Cola.

– Não parece o nome de algo comestível. – observou com desconfiança, que só aumentou quando duas latas vermelhas rolaram para uma gaveta na extremidade da caixa, sem que ninguém a estivesse controlando. Parecia mágica, mas sabia que era impossível que fosse, o que só tornava tudo mais espantoso.

– Então você nunca assistiu um filme? – ele perguntou, enquanto seguiam as placas que apontavam para a sala de número cinco.

– Eu vou tentar não me ofender com a sua pergunta. – ela retrucou – É claro que não.

– Mas Tonks me disse que vocês tem uma televisão em casa.

Ted tem uma televisão no chalé, mas não é como se eu ficasse na sala enquanto ele a usa. Eu fico tão longe daquela coisa quanto possível, se quer saber.

– Ok. – ele tentou ocultar um risinho. – Isso vai ser mais divertido do que eu pensei.

– É bem consolador saber que pretende passar a noite se divertindo às minhas custas. – ironizou. Então parou de andar, quando se deparou com a escada mais estranha que já vira na vida. Primeiro, porque ela se erguia entre os andares sem aparentemente nada para sustentá-la; segundo, porque estava viva.

– Nos vamos ter que subir nisso? – perguntou para ele, que também tinha parado, tentando entender porque ela franzia o cenho tão profundamente.

– Não necessariamente. Podemos pegar o elevador se você quiser. – e apontou para a parede ao lado, onde havia um par de portas de metal.

– Elevador? – sondou, incerta.

– É basicamente uma caixa de metal que transporta pessoas para cima e para baixo pelo interior das paredes. Nós temos alguns no mundo mágico, mas os daqui são controlados por energia elétrica e sustentados por cabos.

Bervely sentiu seu estômago embrulhar com a descrição.

– Escadas vivas, então. – declarou corajosamente. – E pare de se divertir às minhas custas, Wood.

– Eu não posso evitar – desculpou-se, ainda rindo, seguindo logo atrás dela.

– BD –

Quando finalmente conseguiram entrar na sala do cinema, encontraram as luzes ainda acesas, o que foi bom, porque Bervely não conseguia parar de olhar ao redor da disposição de cadeiras como se alguma coisa ameaçadora fosse pular de entre uma das fileiras para atacá-la.

– Esses são os nossos lugares – apontou para dois assentos no centro de uma fila relativamente vazia. Por muitos motivos, Oliver escolhera o Century 8 para aquele encontro, mas o principal era que se tratava de um cinema de bairro, relativamente pequeno, e que raramente enchia. Além do mais, Jurassic Park tivera seu lançamento há quase um mês, o que significava que a horda de crianças ansiosas para ver dinossauros tinha cumprido o seu desejo já há algum tempo.

Ele soube que tomara a decisão certa ao vê-la se sentar na cadeira de forma completamente tensa e desconfiada. Uma sala de cinema cheia não ia fazer nenhum bem para um momento de adaptação tão delicado.

– Então os trouxas pagam para sentar numa sala cheia de cadeiras e assistirem à uma televisão gigante quando podem fazer isso em casa sozinhos e de graça? Estranho.

– Aqui, beba um pouco de Coca. – ele lhe entregou uma das latas e um canudo, para os quais ela ficou olhando de uma maneira perdida. – Nossa, você não sobreviveria um dia nesse mundo sem uma varinha, hein? Aqui, basta girar e puxar esse anel. Assim. – Ela deu um pequeno salto quando o lacre estalou e o gás assobiou ao sair da sala. – Agora é só colocar o canudo dentro e beber.

– Você não espera que eu beba algo que vem de dentro de uma lata, a qual veio de dentro de uma caixa?

– Acho que você está muito tensa. – pontuou, deixando o refrigerante no local apropriado no braço da cadeira dela, e abrindo o seu próprio com uma habilidade que ela considerou espantosa. Ele deu um gole e lhe abriu um sorriso – Cinema é tudo sobre relaxar e curtir o momento, sabe?

As luzes começaram a se apagar e ele viu alarme nos olhos dela enquanto tentava entender o que estava acontecendo.

– Então é suposto que eu relaxe presa numa sala escura repleta de trouxas? Oh, faça-me o favor, Wood!

A tela se acendeu, dando-lhe a real dimensão do seu tamanho, e calando qualquer reclamação que estivesse formulando em seguida. Bervely afundou na cadeira, absorvida pela potência da imagem e dos sons, esquecendo-se completamente de estar numa sala repleta de trouxas assim que a logomarca da Universal começou a girar…

˜ Jurassic Park com Bervely Black ˜

Cena 1

"Shoot Her"

1:22"

Os olhos dela estão arregalados para o filme, e as mãos apertando cada encosto da cadeira como se, caso não os segure com força o suficiente, possa ser engolida pela tela do cinema.

– O que os trouxas tem dentro dessa jaula? – pergunta, sem virar a cabeça para isso.

– O que você acha? – ele devolve, achando graça do jeito que ela se prende à cadeira. Ele se lembra da primeira vez que foi ao cinema, quando tinha onze anos, e da sensação arrebatadora que não é explicada de forma racional.

– Algum monstro verde como o da foto?

– Acho que é um bom palpite.

2:59"

– Oh, merda!

– Eu provavelmente devia ter te avisado que é esperado um nível razoável de silêncio dentro da sala de cinema. – ele a previne em voz baixa, preocupado, quando na fileira da frente um homem olha para trás de cara feia.

Oh, merda. – ela repete num sussurro baixo, mas igualmente tenso. O funcionário do parque, na tela, continua a ser arrastado através das grades da gaiola. – Ele vai ser comido?

– Oh, sim, ele vai. – ela abre um sorriso que só pode ser descrito como sádico. – Toma aí, seu trouxa.

Cena 2

"Annoying Kid"

7:08"

– Então eles conseguem ver os ossos do bicho de debaixo da terra? – Bervely pergunta com desconfiança. Por outro lado, ela finalmente conseguiu recostar na cadeira, o que Oliver considera um bom sinal.

– Sim. Com máquinas realmente tecnológicas.

– Hum.

– Quer pipoca?

Ela olha cética para o saco de guloseima trouxa estranha que Oliver lhe oferece e balança a cabeça.

– Não, obrigada.

7:29"

No filme, a criança irritante interrompe a explicação do paleontólogo, o que chama a atenção de Bervely e Oliver para a tela novamente.

"Isso não parece muito assustador. Parece mais um peru gigante.", diz o garoto gordinho.

"Claro. Imagine-se no período cretáceo, onde se depara com um desses perus gigantes.", o cientista lhe responde, atravessando a multidão para se agachar diante dele. "Você fica imóvel porque acha que ele só enxerga se você se mexere pensa que assim, ele não vai te ver. Mas não o Velociraptor. Se você o encarar, ele te encara de volta. É quando vem o ataque. Pelo lado, não pela frente. Pelos outros velociraptors que você não sabia que estavam ali. Velociraptors atacam em bando, de forma organizadae há muitos deles nesse dia. Rasga você com isso uma garra retrátil de 15 cm, como uma navalha. Não morde sua jugular, como o leão. Nãote dilacera, aqui ou aquiou talvez através da barriga, derramando seus intestinosa questão é que você fica vivo, enquanto eles te devoram. Então, sabetente mostrar um pouco de respeito."

Oliver vê, pelo canto do olho, Bervely armar outro sorriso amplo.

– Eu gosto dele. – ela comenta, solene.

– Quem, o paleontólogo? – pergunta, pronto para concordar.

– O o quê? Não. – descarta, rolando os olhos. – O peru gigante com a garra de quinze centímetros.

Cena 3

"Helicopter Arriving"

16:51"

O helicóptero de John Hammond sobrevoa o mar e depois a ilha Nubla, ao som de Welcome to the Island, e Bervely cruza os braços, o semblante aborrecido.

– O que foi? – Oliver sussurra, preocupado que alguma coisa a esteja incomodando.

– Eu apenas não entendo os transportes trouxas. O que raios é isso?

– Um helicóptero.

– E como consegue ficar no ar sem magia?

– Eu poderia te explicar isso agora, mas provavelmente perderíamos metade do filme no processo.

Ela nega com a cabeça.

– Você poderia tentar me explicar e perderíamos metade da vida, e ainda assim eu não entenderia. Não faz o menor sentido.

– Você devia pegar Estudo dos Trouxas esse ano, se está tão curiosa.

– Eu não estou curiosa. – retruca ofendida, empinando o seu nariz de volta para a tela.

Cena 4

"Welcome to Jurassic Park"

20:22"

– É agora. – Oliver ofega, cutucando o braço de Bervely ao mesmo tempo em que se apruma na cadeira. Ela franze as sobrancelhas, afinal os trouxas do filme estão apenas andando com um automóvel num gramado verde, e a música de fundo é tranquila.

Isso até o primeiro Braquiossauro aparecer na tela.

– O que diabos…?

– Perfeito, não é? – ele se admira, extasiado com a qualidade dos efeitos especiais de Steven Spielberg.

Para Bervely é mais do que isso, afinal, ela não sabe o que são efeitos especiais. Até onde entende, tudo que aparece na tela dos trouxas existe em algum lugar no mundo.

– O que é essa coisa? – pergunta, tendo um impulso de pegar a sua varinha na bolsa, só para o caso.

um dinossauro", diz Alan Grant no filme, tão embasbacado quanto ela se sente nesse momento.

– Eles são… eles…

O dinossauro de pescoço longo faz um ruído perturbador, e ela prende a respiração. Nunca viu algo tão real e tão perto, e não pode evitar que o queixo caia.

"Bem vindos ao Jurassic Park", diz Hammond, com um sorriso que vai de uma orelha à outra.

– Bem vinda ao Jurassic Park, Rose. – diz Oliver ao seu lado, com o mesmo tamanho de sorriso estampando a sua face.

Cena 5
"Nature Will Find a Way
"

28:00"

Enquanto os cientistas interrompem o passeio para olhar o laboratório do parque, Oliver arrisca desviar os olhos da tela para observar Bervely. Ela está absorta na tela, e começou a mordiscar uma ou outra pipoca a esmo. Seus lábios se abrem vagarosamente para receber uma nova pipoca presa entre os seus dedos, e ele sente um aperto familiar no baixo ventre. Ele pensa que talvez a escolha do filme não tenha sido a mais inteligente; obviamente, é magnético o bastante para que ela não preste qualquer atenção nele pelas próximas uma hora e meia.

E por mais que ele ame dinossauros, a sua fase de completa obsessão já passou, e agora ele está obcecado em outra coisa.

– Gosta da pipoca?

– É. – ela dá de ombros, sem descolar os olhos da tela em absoluto. – O ovo está se movendo, Wood. – avisa com alarme.

– É, aparentemente. – ele suspira e volta seus olhos à tela, resignado.

O pequeno dinossauro abre seu caminho através da casca, mas Oliver é incapaz de apreciar o milagre da vida cretácea como se deve. Ao invés disso ele está, pelo canto de olho, observando os lábios entreabertos de Bervely e almejando o milagre de conseguir colocá-los entre os seus o quanto antes.

– Ah, olha! – ela sussurra com encantamento, completamente alheia – É um bebê peru gigante!

Cena 6

"Raptor Feeding"

32:00"

– Nojento. – ela murmura para a vaca que está sendo suspensa por cabos, torcendo seu nariz. – Oh… eu sei o que eles estão fazendo.

O cara que está sentando na frente deles olha para trás novamente, enfezado, e Oliver dá de ombros como quem pede desculpas. Na verdade, ele não se importa com o fato de Bervely ser incapaz de assistir o filme em silencio – adora saber que ela está tão envolvida no "programa de trouxas" que não consegue segurar a língua.

Bervely encolhe os ombros quando a vaca é lançada na jaula.

– Tudo bem ai? – ele se inclina para perguntar.

– Sim, é apenas… esse barulho é irritante. – Justifica, travando os dentes.

"São mortíferas aos oito meses. Letais. A rapidez com que se movem…"
"
São velozes?"
"
Como um leopardo. Vão de 80 à 100km por hora. E saltam de modo espantoso. Por isso estamos tomando precauções extras…"

Aquele sorriso de identificação volta a crescer no rosto de Bervely, e ela está hipnotizada pelo filme mais uma vez.

Cena 7

"Teoria do Caos"

46:44"

– Onde estão os malditos monstros verdes afinal? Por que eles ficam enrolando para mostrar? – Bervely resmunga ao seu lado.

– Você não é a mais paciente das pessoas, é?

– Não me diga que isso é novidade para você.

Ele ri, sacudindo os ombros.

– Beba seu refrigerante, Rose.

"Eventualmente pretende ter dinossauros no passeio, não é?"

– Viu aí? – ela aponta para a tela com triunfo – Não sou só eu!

Oliver suspira, tira a lata de refrigerante dela do suporte de braço e o empurra para cima, e Bervely observa o movimento com o canto do olho.

– O que está fazendo?

– Assim você pode chegar mais perto do meu ouvido e falar mais baixo, o cinema inteiro pode ouvir seu descontentamento.

– Trouxas implicantes. – resmunga, mas obedece a sugestão de modo automático (está prestando atenção na teoria do caos, explicada por Ian Malcom). Quando volta a falar, está tão perto do ouvido dele que Oliver pode sentir seu hálito na pele da bochecha – Esse trouxa de jaqueta está completamente dando em cima da trouxa loira.

– A Teoria do Caos é uma coisa de verdade. – ele responde, seus lábios quase tocando a orelha dela, mas Bervely não parece se dar conta da proximidade.

– O fato de que ele está interessado nela também é de verdade. Ah, não, o que esse idiota vai fazer fora do carro… isso não vai prestar, já estou vendo. Trouxas

Cena 8

"Planta Tóxica"

50:17"

– Eles meio que lembram dragões, se você olhar de um certo ângulo. – Bevy analisa, inclinando a sua cabeça e estreitando seus olhos para o dinossauro deitado.

– Sabe quem ia gostar deles? O guarda caças de Hogwarts, Hagrid… uh, ouvi dizer que ele vai ser nosso professor de Trato das Criaturas esse ano.

– Esse é o boato mais ridículo que eu já ouvi.– dispensa com um ruído de descrença. Então ela percebe onde ele quer chegar, e fez uma cara engraçada de espanto – Ah, Merlin, já pensou se ele consegue com os trouxas uns dinossauros para colocar em Hogwarts? É bem a cara dele.

– Ainda bem que estão extintos. – Oliver rebate, rindo da ideia também.

– Como assim extintos? Os trouxas conseguiram fazer cópias com DN não sei o que de mosquitos! Oliver, presta atenção no filme! – reclama.

Ele abra a boca para contestar a lógica falha, mas a fecha logo em seguida. Ela acabou de chamá-lo pelo primeiro nome; além do mais, sua confusão em separar realidade e ficção é adorável.

– Tem razão. – murmura – Vamos garantir que Hagrid nunca assista esse filme. Ohhh… olha essa pilha de cocô! Dá pra esconder outro dinossauro aí dentro!

– Ok, Wood, isso foi apenas nojento.

Cena 9

"TRex Breakout"

"Tiranossauro Rex"

1:01:04"

– Olha, eles tem onióculos.

– São mais como binóculos de visão noturna, eu acho.

– Parecem um bocado com onióculos.

Ela está relaxada, mas Oliver começa a ficar um pouco tenso, afinal, ele viu o trailer e ela não. Está escuro, no meio da tempestade, e é certo que após uma hora de filme algo precisa acontecer.

Passos massivos.

"

Talvez seja a energia voltando."

– Aposto que não é a energia voltando. – ela comenta baixinho em seu ouvido. O tom de certeza e o termo trouxa na ponta da língua, ambos, são interessantes de jeitos diferentes, mas ele não consegue decidir se está mais tenso pelo que está prestes a acontecer no filme ou se pelos efeitos que o sussurro dela causam em seu corpo.

"Onde está a cabra?"

Uma das pernas da cabra cai sobre o vidro do carro.

– Oww. – Bervely exclama, se sentando melhor na cadeira. – Aí está ele. Ah, trouxa covarde! – reclama quando o advogado careta sai correndo do carro e se esconde no banheiro. – Ele saiu. Ele saiu!

Uma mão se fecha em garra em torno do seu pulso, e Oliver se surpreende de que ela o está tocando, e não de um jeito gentil. O tiranossauro está caminhando entre os carros, e o cinema inteiro está absorvido em suspense.

O tiranossauro ruge, e Bervely aperta mais forte o seu pulso, suas unhas se cravando na pele. Mas o momento é tão cheio de tensão que ele não se importa.

O tiranossauro tenta comer as crianças dentro do carro, e Bervely e Oliver – bem como o resto do cinema inteiro – seguram a respiração. Não parece haver qualquer possibilidade de as crianças escaparem vivas da fera.

Os adultos no filme começam a acenar sinalizadores para distrair o T–Rex, mas ele encontra o advogado covarde no banheiro e o devora.

– Filho de uma… – ela grita. Outras pessoas no cinema também exclamaram coisas, enquanto o tiranossauro sacode sua presa entre as mandíbulas e mastiga.

Quando os personagens precisam ficar imóveis para não serem vistos, eles também ficam, é inevitável. Nenhum músculo se move quando as enormes presas passeiam por tão perto deles que a qualquer momento poderiam arrancar as suas cabeças.

Quando a cena finalmente muda para o interior da sala de comando, Bervely se joga contra o encosto da cadeira respirando forte e procura o olhar de Oliver. Ele a olha de volta com divertimento e admiração, e ela rola os olhos, balança a cabeça negativamente e dá um sorriso mínimo e cúmplice.

Ele escorrega o braço do aperto que ela relaxou, e tem a chance de entrelaçar os seus dedos nos dela.

Cena 9

"Back in the Car"

1:16:06"

Eles ainda não estão completamente relaxados quando Alan precisa tirar Tim do carro enganchado na árvore. E enquanto eles descem e o carro vai desabando atrás dele, Bervely aperta a mão de Oliver com força e resmunga baixinho.

– Eles vão morrer tão completamente. – Oliver consegue entender entre a torrente de resmungos.

O carro termina de cair, e sua profecia não se confirma. Ela se vira para ele, relativamente pálida e zangada.

– Essas crianças são imortais, ou o quê?

Ele dá uma risada baixa.

– Aqui, beba um pouco.

Ela enfim aceita a Coca-Cola, que a essa altura já está mais quente do que fria. Franze as sobrancelhas para a lata, e bebe mais um pouco, se permitindo um suspiro profundo.

– Isso meio que me lembra o carro que Weasley e Potter conseguiram aterrisar no Salgueiro Lutador ano passado. – lembra com uma pontada de humor. – Mas a situação deles seria um pouco mais interessante se estivessem sendo perseguidos por um dinossauro.

– Tudo fica mais interessante com dinossauros. – ele lhe dá uma piscadela, antes de voltar a prestar atenção ao filme.

Cena 10

"Remembering Richard"

Oliver aproveita o momento de calmaria no para pegar de Bervely a lata de Coca vazia.

– Quem mais uma?

– Humm. Ok.

– Volto já. – ele começa a se levantar, pegando a sua própria lata vazia, mas ela o puxa pelo braço de volta à cadeira. – O quê foi?

– Mudei de ideia.

Ele se senta a fitando levemente intrigado.

– Então o quê…?

Bervely agarra a gola da sua camisa e tem a tração perfeita para puxá-lo em direção à ela, e beijá-lo. Ela exige um beijo tão intenso como o que ele lhe deu da última vez, no pomar, com a dança de línguas, as mordidas e os suspiros. A mão dela vai se embaraçar nos cabelos da nuca dele, e ambas as mãos de Oliver encontram os lados da sua cintura, e lhe puxam em direção ao seu corpo.

É inapropriado o modo como se beijam em um lugar público, mas ela acha que está escuro o suficiente para não importar e ele, que mal sabe seu nome no exato momento, não poderia ligar menos para possível audiência. Não quando os lábios dela são tão macios, e a língua, tão exigente. As costas dela fazem um arco quando ele puxa mais um pouco, querendo sentí-la apesar da disposição das cadeiras dificultar o processo.

Uma mão dele desce pelo caminho do seu quadril, tateando o pano maleável do vestido, que sobre facilmente revelando a coxa. A pele ali é ainda mais macia, seu toque é quente e ela geme em sua boca. A outra mão dela, que está em seu ombro, lhe dá um aperto de encorajamento.

Ele sente em seu coração (e calças) que se não pararemo espetáculo se tornará atentando ao pudor, mas seu corpo não obedece à lógica e ele faz mais uma tentativa de puxá-la ao invés disso; quer ela em seu colo, quer sentir seu peso e seu corpo e que se danem os dinossauros.

– Oliver… – ela geme em seu ouvido, quando ele separa os lábios para que possam respirar, e aproveita para mordiscar o pescoço macio e cheiroso ao seu alcance.

– Hum?

– Isso é bom…

– Muito. – a mão dele está tão alta em sua coxa que quase encontra a linha do quadril.

– Nós temos que…

– Eu sei.

Ele se afasta de uma vez, como quem arranca um band-aid, e recosta de volta ao seu assento, ofegando em profundos arquejos e encarado a tela, o corpo todo queimando. Por uns bons minutos, nada que os personagens dizem fazia sentido, há um zumbido em seu cérebro, uma urgência física de terminar o que começou.

A próxima coisa que Oliver ouve é um impressionado Alan: "Os dinossauros estão procriandoA vida encontrou um caminho." (1:30:48")

– Wood? – Bervely chama tentativamente ao seu lado, a voz meio rouca.

– Oi?

– Acho que vou querer mais refrigerador, pensando bem.

Cena 11

"Raptors in The Kitchen"

1:49:46"

"Timmy, qual é esse?"
um velociraptor."
"
Está aqui dentro…"

A tensão na sala de cinema pode ser cortada com uma faca. Enquanto os netos de Tim e Lex são perseguidos por dois velociraptors, ninguém se atreve a tirar os olhos da tela.

A não ser Oliver que, pelo canto do olho, percebe que um sorriso torto marca a boca de Bervely novamente. É óbvio para quem ela está torcendo, e não é para as crianças trouxas.

– O quê? – ela mal vira para ele para retrucar – Eles vão ser comidos com toda a certeza agora. Não é possível!

Ele não pode conter uma gargalhada silenciosa.

1:54:22"

– Há, qual é! Agora a menina conseguiu fazer com os calculadores o que ninguém conseguiu o filme todo? – exclama, revoltada.

– Computadores. Ela é uma hacker.

– Ela podia ser a neta de Merlin! – cruza os braços, inconformada. Ele não consegue parar de rir, o suspense e tensão pretendidos pelo filme completamente arruinados.

Cena 12

"When Dinosaurs Ruled The Earth"

1:55:19"

– Uau, melhor cena de todas! – Oliver vibra quando o Tiranossauro Rex surge do nada, salvando o grupo de ser devorado pelos velociraptors.

Bervely se contorce na cadeira, claramente sentida pelo velociraptor que T-Rex sacode entre suas mandíbulas. A faixa que diz "When The Dinossaurs Ruled The Earth" cai ondulado em torno no monstro verde, rei absoluto do salão principal do parque.

Os sobreviventes entram no carro e escapam da ilha. Na próxima cena eles estão em um helicóptero, Alan observa aves sobrevoando o oceano e as palavras "Dirigido por Steven Spilberg" aparecem na tela.

Oliver está extasiado. Esse é possivelmente o melhor filme que ele já assistiu em sua vida, a espera e expectativa para o seu lançamento valeram totalmente a pena e ele não se arrepende da sua companhia, mesmo que ela tenha sido uma grande distratora do processo de prestar atenção nos detalhes.

Ele ainda não esqueceu a força do desejo que lhe arrebatou quando se beijaram há algumas cenas atrás, mas prefere não pensar nisso, afinal quer sair da sala com alguma dignidade e sem uma tenda entre as suas pernas.

As luzes vão se ascendendo, e Bervely ajeita a saia do vestido. Em seu rosto, uma expressão confusa.

– E então? – ele pergunta, ainda sentado enquanto as outras pessoas vão levantando e saindo da sala.

– O que acontece agora? – ela imediatamente retruca.

– Não entendi… o que vamos fazer agora, você quer dizer?

– Não! O que acontece com… os velociraptors, a ilha, o Tiranossauro Rex!

– Ah – ele abre um sorriso amplo – Só vamos saber se lançarem um próximo filme.

Os olhos dela crescem de preocupação.

– Não tem ninguém pra perguntar? Ou então um livro? Isso é ridículo, Merlin sabe quanto tempo os trouxas vão levar pra fazer outro desses!

– É, eles podem demorar alguns anos. – o rapaz se levanta, antes que a sala fique vazia e eles atrapalhem a limpeza para a próxima sessão. – Mas prometo que se fizerem, você será a primeira pessoa que vou pensar em chamar para assistir comigo.

Se eu aceitar vir com você, Wood. – levantou-se dignamente, sacudindo alguma pipoca que tinha caído em sua saia. – Não fique assim tão convencido de que vai acontecer de novo.

– É claro. – ele ri, pegando a mão dela para irem embora.

– BD –

Na saída do cinema, Oliver sugeriu que passassem em sua lanchonete favorita. Bervely pensou em resistir ("Mais coisas trouxas?"), mas o vácuo em sua barriga lhe lembrou de que ela não comera nada o dia inteiro a não ser o café da manhã e a barra de chocolate ao chegar em casa.

– Já comeu cachorro-quente alguma vez na sua vida?

– Trouxas comem cachorro?– exclamou, completamente enojada. Ele deu uma gargalhada, passando um braço pelo seu ombro e a guiando pela calçada, surpreso por ela não resistir à proximidade. Talvez estivesse se acostumando com ele… talvez não desse a mínima para o que os trouxas pensassem.

Se inclinou para sentir o cheiro do seu cabelo, que era fresco e tinha alguma coisa a ver com ervas. Fazia uma noite quase quente, novidade para Devon, e ninguém na rua olhava para eles duas vezes. Eram apenas um casal saindo do cinema e indo fazer um lanche, mais normal impossível. A ideia lhe dava vontade de rir, de tão improvável. Se tivessem lhe dito, há alguns meses, que essa cena estaria acontecendo…

– Wood?

– Oliver. – ele a corrigiu, lembrando-se de como ela gemera seu nome no escuro, a lembrança lhe trazendo uma imediata pontada de excitação.

Wood. Bevy teimou – Trouxas fazem muito isso? Irem ao cinema?

– Alguns sim. – ele considerou. – É uma forma de lazer bastante popular.

– É um tanto… – mas as palavras para definir a experiência ainda lhe faltavam.

– Um tanto o quê? – a hesitação o deixou curioso. Será que ela odiara? Parecia bastante empolgada lá dentro, mas poderia ter reavaliado a experiência, afinal era Bervely, imprevisibilidade era seu modus operandi.

– Complicado. Todos os… sustos, e… a musica, é apenas… é opressivo¹. – ela finalmente encontrou um bom adjetivo.

– Existem vários tipos de filmes. Esse foi um pouco, mesmo, mas outros são calmos. Românticos… chatos, até.

– Eu suponho que esse não seria uma escolha clássica para um encontro, então? – ela deu um sorriso torto.

– Não. – admitiu. – Mas com você não é um "encontro clássico", né?

Ela expandiu os lábios num sorriso completo, e ele soube que tinha dado a resposta certa.

– Eu estou desconfiando que você escolheu Jurassic Park para me impressionar, Wood.

– Consegui?

Eles pararam na frente de um pequeno trailer pintado de preto com um cão amarelo e as palavras "Fancy Franks" pintadas numa letra vintage. Mesas de piquenique amarelas estavam montadas na área externa, a maioria ocupada, mas Oliver conseguiu avistar uma em que pudessem sentar, e puxou um cardápio.

– Me deixe fazer o pedido pra você.

– Vá em frente, eu não leio "trouxês" de qualquer maneira.

Ele rolou os olhos e fez o pedido para uma garçonete de avental amarelo mostarda e um cap com orelhas caídas de cachorro. Bervely olhava ao redor com disfarçada curiosidade, reparando nos trouxas. Pensava em como os postes de luz poderiam se acender sem nenhum feitiço ser lançado. Em como os trouxas conseguiam tirar fotos perfeitamente paradas, mas colocavam histórias inteiras em uma caixa gigante (estava supondo que o restante da caixa estava dentro da parede da sala de cinema, porque o conceito de projeção lhe era desconhecido) e combinavam com musica de tal forma que conseguiam gerar medo e alegria, alívio e nervosismo em uma sucessão de minutos.

Eles eram poderosos e perigosos à sua própria maneira. Como saber o quão longe poderiam ir se algum dia pusessem as suas mãos na magia? Talvez o que os bruxos sentissem a respeito dos trouxas tivesse muito mais a ver com medo, do que com desprezo.

– Você está anormalmente quieta. – Oliver pontuou, observando o olhar dela vagar.

– Apenas pensando.

– Em dinossauros?

– Também. – fez uma careta. – Como pode ter certeza de que um deles não vai chegar ao continente e fazer um estrago? Já ficou bastante óbvio que os trouxas não conseguem controlá-los, imagina o que fariam em Londres?

– Posso imaginar o que fariam em Tóquio². – ele brincou, mas ela é claro não entendeu a referência. – Se bem que aquele lá se originou de um acidente nuclear… deixa pra lá, não é importante.

– Você não está me levando à serio. – ela reclamou, olhando ao redor, se certificando de que não havia nenhum indício de que iam ser atacados por uma fera pré-histórica dali a pouco. O seu lado racional lhe avisava que estava sendo ridícula, mas o seu instinto recomendava a não ficar com a varinha muito fora de alcance.

– Então eu estou certo em dizer que você apreciou a experiência? – ele sondou, lhe dando um longo olhar significativo. Ela torceu os lábios ligeiramente.

– Você nunca vai me deixar em paz até conseguir essa admissão, não é? – reclamou, e ele negou apologeticamente. – Ok. Não foi uma perda total de tempo.

– Vou me contentar com isso, vindo de você é quase uma declaração de amor ao cinema. Além do mais, eu vi a sua cara, torcendo para os velociraptors. Aquilo sim foi amor à primeira vista.

Ela deu de ombros.

– Eles são os mais fodas dos dinossauros, o que eu posso fazer?

– Vou precisar discordar, o T-Rex é um milhão de vezes mais incrível.

– O quê, aquele monstrão desajeitado e tonto? Faça-me o favor, Wood. Tão tipicamente grifinório escolher o brutamontes…

A garçonete voltou com os pedidos. Ela colocou na frente de Bervely um pão partido no meio com uma salsicha vermelha grelhada comprida, o que a fez erguer uma sobrancelha, desconfiada da refeição.

– Wood… só uma dúvida: qual parte do cachorro, exatamente, é essa aqui que você pediu?

– BD –

Eles gastaram um bocado de tempo no Fancy Franks mesmo depois de Oliver explicar – e Bervely entender, ainda relutante – a proveniência exata de uma salsicha de cachorro quente.

Ela lhe fez explicar também o que eram eras geológicas, escavações, DNA, rede de computadores, cercas elétricas e diversos outros pormenores trouxas referentes ao filme de que pode se lembrar. Ele deu o seu melhor usando os seus conhecimentos do senso comum; como a maioria dos bruxos puro-sangue, não fora à escola primária antes de começar Hogwarts.

Só passou a entender pormenores do mundo trouxa depois que os seus pais se separaram. Sua mãe se casou com um trouxa, e a rotina de Oliver mudou radicalmente; para começar, nas primeiras férias de verão da escola de bruxaria, ele retornara não para o cottage ventilado nas charnecas, mas à um apartamento de três quartos na cidade, onde a mãe passara a morar com o novo marido.

– Foi um pouco louco no inicio – explicou para ela, dando continuidade à história da sua infância, que Bervely ouvia silenciosamente enquanto bebia sua terceira lata de refrigerante do dia. – Eu não sabia o que eram interruptores, televisão, elevadores, máquina de lavar. Eu não queria me habituar à uma vida na qual precisávamos esfregar as janelas com um pano uma vez por semana, ao invés de usar a varinha. Parecia uma perda de tempo.

– Por que não ficou com seu pai, então?

Ele deu de ombros.

– Não acho que daria certo. Meu pai trabalha viajando, não haveria uma estabilidade pra mim nas férias. Além do mais, minha mãe não queria abrir mão de mim.

– Então ela te obrigoua viver como um trouxa?

– Não foi nada como isso. Ela foi paciente, e meu padrasto também. Várias vezes recebemos notificações do departamento de sigilo por causa das minhas emissões mágicas involuntárias… que nem eram tão involuntárias assim. – sorriu, travesso.

– Eu não entendo, você é maior de idade, agora. Não precisa ficar levando uma vida trouxa, é só ir embora.

– Eles são a minha família. – explicou. – Eu sou feliz com eles. Além do mais, uma vida trouxa tem seu lado interessante.

Bervely mordeu seu lábio, impedindo uma opinião contrária automática àquela afirmação. Havia devoção no modo como ele falava que eram a sua família, e um brilho especial em seus olhos ao se referir à eles, que a deixou sem palavras. Sem palavras que valessem a pena, pelo menos.

Familiae omnibus supereminet fora o lema da família Black há muito tempo, antes de Toujours Pur tomar o seu lugar. Família sobre todas as coisas. As palavras já não estampavam os brasões, mas a ideia permanecia como primordial da sua ascendência.

– Com licença, vocês vão pedir mais alguma coisa? A nossa cozinha está fechando. – a garçonete se aproximou, em um tom de desculpas simpático.

– Não, eu acho que é tudo… a não ser que você queira mais uma Coca-Cola, Rose?

– Eu estou bem. – negou.

– Pode fechar a conta então. – ele sorriu para a garçonete, que assentiu e retirou o restante dos guardanapos, pratos e latas da mesa. – Eu estive pensando, você poderia ir comigo até minha casa e de lá pegar o flú. Uma hora dessas, o Noitibus vai estar cheio de gente esquisita.

– Mais gente esquisita que agora ao nosso redor? – brincou, mas assentiu. – Tudo bem. Sua casa está perto?

– Em algumas quadras, dá pra ir andando. A não ser que queira pegar um táxi…

– Eu estou bem com ir andando. – afirmou rapidamente. Só conseguia pensar naqueles carros trouxas sendo revirados pelo Tiranossauro Rex como se fossem latas de refrigerante.

– BD –

O exterior do apartamento de Oliver era um prédio de cinco andares marrom, com portas de vidro e um único elevador no qual ela relutou em entrar.

– E se desligarem a energia? – cogitou, preocupada. – Ficamos presos aí dentro?

– A energia não é uma coisa que fica desligando. – lhe prometeu, achando graça do seu novo uso e raciocínio em torno das coisas trouxas.

– Me pareceu bastante instável no filme.

– Apenas confie em mim, ok? Se acabar a energia, nos acendemos as nossas varinhas. E em último caso, sempre podemos aparatar para o lado de fora.

Achando os argumentos razoáveis, ela aceitou seguí-lo para dentro da caixa de ferro, onde se deparou com um espelho. Com toda a movimentação da noite, quase tinha se esquecido o quão arrumada estava; desde o vestido preto estilo gótico com um trançado de fitas de cetim na frente, até o seu cabelo trançado ao lado e o batom, que agora era uma apenas uma lembrança rosada em sua boca. Os olhos ainda destacados pela maquiagem escura que usara de Tonks, e os ombros nus e o busto destacados pelo decote em coração e as alças grossas.

Pelo reflexo, Oliver lhe deu um sorriso tranquilo. Ele estava como sempre despojado, de jeans e camisa, a não ser pelo fato de que a camisa também era escura e tinha uma fileira de botões, uma gola mais social e mangas. Ele dobrara as mangas na altura dos cotovelos, então os seus antebraços estavam à mostra, e eram uma parte do seu corpo que Bervely particularmente apreciava.

– Chegamos. – anunciou quando o elevador parou no quarto andar. – Vamos entrar em silencio, com sorte minha mãe já colocou Megs pra dormir e já foi deitar também.

Ela concordou, querendo escapar de uma cena parental constrangedora. Da forma como imaginava a mãe de Oliver (aquela do macarrão com queijo na páscoa), ela era uma versão ainda mais maternal de Andrômeda, e não hesitaria em arrastá-la para interrogatório simpático sobre "o que achou do filme".

E ela só queria se esgueirar silenciosamente para a lareira e voltar ao chalé. Certo?

– E aqui estamos. – disse Oliver baixinho, após abrir a porta com uma chave e deixá-la entrar na sala trouxa que vira um dia através da lareira. Estava numa semi-penumbra quebrada apenas pela luz que vinha da rua, filtrada por cortinas brancas. Era simples, mas arrumada, a não ser por brinquedos espalhados aqui e ali, deixando claro a existência de uma criança na casa. – Eu vou pegar um pouco de flú, a não ser… você quer beber alguma coisa? Talvez outro tipo de refrigerante, para experimentar?

Ela deu de ombros.

– Vou tomar isso como um sim, espera um pouco, já volto.

Bervely o viu sumir para o que devia ser a cozinha, mas não ousou se sentar. Olhou para o relógio, já era quase meia noite. Como o tempo tinha passado tão rápido? Quando chegara em casa do seu "trabalho" se sentia exausta, mas agora estava enérgica, pronta para enfrentar uma maratona mesmo se envolvesse dementadores.

Diabos, talvez ela até mesmo pudesse conjurar um patrono corpóreo para aqueles miseráveis. Se sentiu tentada a testar, mas o quão estranho seria se Oliver voltasse ela estivesse com a varinha em punho? Ou se a mãe dele entrasse pela sala no exato momento?

– Aqui. – Oliver retornou com duas latas cor de laranja, e lhe entregou uma. – Se importa de beber no meu quarto? Alguém vai acabar nos ouvindo se ficarmos aqui.

– Eu conheço esse movimento, Wood. – ela lhe avisou, arrogante. – Soa como se você estivesse tentando me atrair para a sua cama.

No escuro, os olhos dele brilharam travessos.

– E seu eu estiver, o que há de tão errado nisso?

Ela sentiu o corpo esquentar, como se ele tivesse apertado um botão para a sua lembrança dos amassos no cinema escuro. Disfarçou olhando para a lata, e tentando lembrar como fazia para abrí-la.

– Eu só quero te mostrar a minha coleção de dinossauros. – ele disse inocentemente.

– Você não tem uma coleção de dinoss… você tem uma coleção de dinossauros?

Ele assentiu energicamente. Bervely rolou os olhos, sem acreditar que estava se deixando levar por aquela conversa absurda.

– Wood, se você estiver mentindo…

– BD –

Oliver tinha uma coleção de dinossauros.

E isso não era, nem de longe, a coisa mais surpreendente sobre o seu quarto. Afora prateleiras com livros, uma televisão trouxa, uma cama de solteiro encostada na parede oposta, e um calculador (era assim que se chamava?) sobre uma mesa espaçosa, o que capturava a sua atenção eram as três vassouras em suportes na parede, com bastante destaque, e as bandeirolas do time da Grifinória – uma com o leão, outra com o brasão completo – penduradas sobre a cama.

Onde uma pessoa normal teria um cabideiro para pendurar casacos ou chapéus, Oliver instalara três aros grandes, uma réplica dos aros de gol, e para completar, mas talvez não de propósito, o tapete no chão era felpudo e verde escuro, lembrando um gramado. Ao lado do calculador na mesa estava uma espécie de maquete em construção que era a réplica exata do campo de quadribol de Hogwarts, com as arquibancadas e tudo… e acima disto, na parede, um quadro branco cheio de anotações e desenhos que só podiam ser esquemas e táticas de jogo.

– Você é uma pessoa doente. – ela lhe avisou, para o caso de ele não saber ainda.

Oliver só riu, fechando a porta atrás de si, ou ao menos tentando, pois naquele momento uma fera branca e gigantesca irrompeu pelo quarto e avançou em Bervely, toda língua para fora e rabo abanando.

– Argh, Sartre! Desculpe, esse cachorro é um mal educado!

Era um dos maiores cães que ela já vira, mas também parecia completamente inofensivo. No momento em que pôs as mãos nele, o cachorro caiu no tapete de barriga para cima aceitando uma oferta de carinho.

– Desculpe garoto, mas hoje seremos só eu e ela. Quem sabe na próxima. Fora. – ele expulsou o cão, que saiu de cabeça baixa; ela teve certeza que ele estaria fazendo hora do lado de fora do quarto, esperando um vacilo para entrar de novo.

– Você falou sobre ele. – Bervely comentou, enquanto ainda absorvia os detalhes do quarto distraidamente – Na festa do Halloween…

– Não sabia que você lembrava da festa do Halloween. – ele provocou – Você sempre age como se ela não tivesse existido.

– Eu me lembro de um bocado de coisas sobre a festa do Halloween. – afirmou, num tom significativo. Eles trocaram um longo olhar, e Oliver deu um salto de onde estava parado.

– Melhor abrir um pouco a janela, está meio abafado, né?

Ela riu.

– Alguém me prometeu dinossauros, mas tudo que eu vejo são vassouras.

– Ah, bem lembrado. – Oliver se adiantou até o lado oposto do quarto, onde ficava um guarda roupa de madeira avermelhado, e procurou até tirar uma caixa lá de dentro, trazendo-a até a cama. – Pode sentar… – a encorajou, sentando-se também, e despejando o conteúdo da caixa entre eles.

Uma infinidade de modelos de borracha de dinossauros se espalhou pelo colchão: de varias espécies, de varias cores, todas pequenas o suficiente para caber na palma da sua mão. Ela facilmente identificou o Braquiossauro pelo seu pescoço longo e o Triceratops pela crista e chifres. O T-Rex também foi fácil, e Oliver lhe indicou o favorito dela, o velociraptor, consideravelmente menor que os outros.

Bervely precisou admitir que era uma coleção adorável.

– Comecei a colecionar quando me mudei aqui para Exeter. Havia uma banca na esquina de casa, e uma das revistas para crianças entregava um brinde em cada exemplar… eu infernizava minha mãe para comprar uma nova à cada semana.

– Você não ficou desapontado quando descobriu que não se mexiam? Quero dizer, já que os brinquedos para crianças bruxas são sempre encantados.

– Oh, mas eles se mexiam. – disse num tom de criança arteira, um brilho juvenil em seus olhos cor de chocolate – Minha mãe os enfeitiçava, escondido do meu padrasto, é claro. Não acho que ele se importaria de verdade se descobrisse, mas por um tempo foi o nosso segredo. Hum, deixa eu ver se o feitiço ainda funciona. – Oliver pegou a varinha de cima da escrivaninha e apontou para as peças na cama. – Mobilus Anima!

Os brinquedos, um a um, começaram a tomar vida, pastando pela colcha mostarda de Oliver. O braquiossauro veio morder a renda do seu vestido, e o T-Rex atacou o pescoço de um galimimo. Ela olhou maravilhada para o velociraptor que abocanhou a ponta da fita do seu vestido e tentava escalar a sua perna.

– Então antes de ser aficionado por quadribol, você teve a sua fase de monstros verdes – ela concluiu, pegando o dinossauro na palma da sua mão. Ele prontamente tentou dilacerar a pulseira em seu braço.

– É… eu até tive uma fase de transição onde você teria visto os dinossauros jogando quadribol em pequenas vassouras. – confessou, suas bochechas se tingindo do mais adorável tom de rosa.

– Soa absurdo, mas por alguma razão eu consigo imaginar perfeitamente. – riu, soltando o dinossauro para que ele voltasse à caixa.

– Não, fique com ele.

– Quê? Não mesmo. Quem vai infernizar a vida do tiranossauro se eu o levar comigo?

Oliver rolou os olhos frente à teimosia dela.

Fique com ele. Vocês são como almas gêmeas.

– Obrigada, então. – Bervely levantou para guardar o brinquedo em sua bolsa, que deixara sobre a escrivaninha. Ela aproveitou para dar uma volta pelo pequeno quarto e parar à janela. Dava para a rua principal por onde tinham chegado, vazia àquela hora. Respirou profundamente o ar puro, sua cabeça um pouco mais clara do que quando tinha chegado ali. Sabia que precisavam definir algumas coisas, antes que um deles se arrependesse do que estavam fazendo.

– Oliver…

Ele franziu ligeiramente os lábios; sabia que a conversa ia ficar séria em algum momento.

– Hum?

– Eu não posso fazer isso. – ela disse muito calmamente, parando de olhar a rua e se virando pra ele. – Não posso ser essa garota.

– Há uma garota específica que você precisa ser? – questionou, num lugar entre o divertido e sério.

– Você me entendeu. Essa… essa garota da qual você sabe o que esperar. Olha, você é uma pessoa relativamente legal…

– Eu sou uma pessoa muito legal. – ele a corrigiu, patinando pelo perigoso caminho da piada, sem querer entender onde ela estava querendo chegar.

– É, um pouco convencido, também, mas não é a questão. Sabe, essa coisa de… encontros. Trocas de cartas. Deixar você me apresentar "a magia do mundo" ou sei lá. Ser legal no fim da noite. Isso é só uma encenação, Wood. Essa não sou eu.

Ele assentiu.

– Eu sei exatamente quem você é.

Ela sorriu pelo tamanho da ilusão que ele alimentava. Afinal, como ele poderia saber tudo que estava dentro dela? O porquê de ela não poder ser aquela garota? De não conseguir olhar para ele e ver qualquer futuro, porque o futuro que ela ousou sonhar um dia foi roubado e ela nunca se recuperaria do golpe?

– Se nós vamos fazer isso – continuou, firmando a voz. Não pense no passado, disse duramente a si mesma, erguendo aqueles muros que deveriam ser firmes à esse ponto, mas que ao menor sinal de progresso emocional em sua vida facilmente desmoronavam. – Tem de ser sem expectativas.

– Sem expectativas?

– Isso. Você não pode esperar que eu te responda as cartas, ou que apareça aos encontros. Nem que eu seja… essa garota, de alguma forma. Você não pode esperar que haja exclusividade, ou seja lá qual expectativa você tem em relação à nós. Não vai acontecer.

Ele ergueu lentamente as suas sobrancelhas, absorvendo as condições.

– Por quê? – perguntou, por fim, achando que estava no direito de saber.

– Por que para qualquer expectativa que você alimentar ao meu respeito, eu certamente te desapontarei. – disse com muita seriedade, olhando nos olhos dele. Achou que nunca tinha sido tão sincera com alguém.

– Bervely Rose Black… – Oliver perguntou, um tanto surpreso – Você por caso está com receio de ferir meus sentimentos?

Ela sustentou o olhar brilhante e esperançoso dele, sabendo que era errado alimentar a ideia, não era com os sentimentos dele que ela se importava.

– Você ficaria surpreso em saber o quanto algumas decepções podem ser destrutivas.

Oliver assentiu. Talvez entendesse mesmo – Bervely não sabia. Ele fez um aceno com a sua mão.

– Será que você pode vir até aqui?

Não era a reação que ela esperava. Ele repetiu.

– Rose, vem aqui, por favor?

Ela suspirou, andando até ele, que pousou as duas mãos em seus quadris e inclinou a sua cabeça para trás de forma a olhá-la em seu rosto.

– O que você espera de mim?

Era uma pergunta para a qual Bervely absolutamente não tinha resposta. Ela não o incluía como parte da sua vida, e nunca formara qualquer expectativa sobre ele. Oliver era o escape, a aventura proibida, e na maioria das vezes, a distração para as questões perturbadoras da sua vida.

– Nada, né? – ele não pareceu ofendido. – Sabe o quê? Isso é bom. Significa que eu posso te surpreender, mesmo sendo um grifinório raso e previsível. Então sim, nós vamos fazer isso.

– Nós vamos?

– Vamos. Sem expectativas. Onde é que eu assino?

– BD –

A cama de Oliver Wood era muito macia e confortável. E Bervely sabia bem disso, já que estava sobre ela na última – o quê – hora? Ela não fazia ideia de quanto tempo se passara. Tinha suas costas apoiadas no encosto da cama – as bandeiras heréticas da Grifinória logo acima da sua cabeça, e as pernas sobre no colo dele. Oliver estava sentado com as costas apoiadas na parede em que a cama se encostava, e desembalava mais um doce.

– Feche os olhos. – mandou, e quando ela obedeceu, ele colocou a guloseima em seus lábios. Era elástica e escorregadia como um molusco, e Bervely fez uma careta.

– Eu sou suposta a mastigar isso?

– Se você quiser. Algumas pessoas ficam chupando até dissolver.

Ela mordeu, não tinha paciência. A coisa grudou em seus dentes de trás e foi, decidiu, reprovada.

– Não, eca. O que é isso? Me diga o nome, para eu passar bem longe.

Ele riu e lhe mostrou a embalagem. Era Gelly Beans e vinha em todas as cores.

Após a conversa seria sobre expectativas, Oliver lhe sugerira uma degustação de doces trouxas; assim, da próxima vez que fossem ao cinema ela saberia exatamente o que escolher para levar para dentro da sala. Ele ignorou o comentário dela de que talvez nem houvesse uma próxima vez, e foi uma vez até a cozinha para procurar todos os tipos de doces que guardavam nas dispensa. Pela variedade encontrada, era suposto que sua família fosse composta por um batalhão de formigas.

– Esses são os favoritos de Megs. Veja o que acha.

Ela automaticamente fechou os olhos, e Oliver colocou entre seus lábios um MM vermelho. Ela deu uma leve e proposital mordida na ponta dos seus dedos antes de aceitá-lo, provocando um arrepio involuntário em sua coluna.

– Mastigo?

– Sim.

– É chocolate!

– Sim. – ele riu.

– Quantos tipos de chocolate os trouxas tem, afinal? – perguntou, abrindo os olhos.

– Centenas. Em todos os formatos e combinações. Os meus preferidos são os que envolvem caramelo. Como esse aqui… se você odiar esse chocolate, provavelmente teremos que terminar o nosso Isso agora mesmo.

– O nosso "Isso"? – ela estranhou, enquanto assistia ele desembalar o próximo.

– Sim. Você não quer dar um nome ao que temos, e não acho que já inventaram um rótulo para um não-relacionamento sem expectativas, então me parece certo chamar de "Isso". Olhos?

Ela cerrou os olhos, ainda sorrindo para a lógica dele, e abriu a boca para receber um pedaço do chocolate. Não podia fazer qualquer ideia do quão erótica a cena do ponto de vista de Oliver, nem como o corpo dele reagiu ao vê-la envolver os lábios carinhosamente em torno da barra e morder vagarosamente.

Ela está fazendo de propósito, pensou, porque era a única explicação para alguém ser tão sensual mordendo um chocolate.

Ela estava. Mastigou com os olhos fechados e sorrindo, e só os abriu quando tinha engolido tudo.

– Nome?

– Twix. – ele disse, rouco.

– Twix não é uma espécie de fada selvagem que vive em bosques? – ela disse pensativa. Ele deu de ombros. – Então esse é o seu preferido?

– Sim. O que achou?

– Vou ter que provar de novo para dar um veredicto.

Ela entreabriu a boca e fechou os olhos de novo. Oliver se inclinou, e ao invés de aproximar o chocolate, ele mordeu o lábio inferior e macio de Bervely, em seguida o sugando vagarosamente entre os seus, sentindo o gosto vestigial adocicado que havia neles.

Como se estivesse esperando exatamente por aquilo, Bervely envolveu seus braços em torno do pescoço dele e transformou a mordida em um beijo lento e profundo com toda a dança de línguas que podia exigir. Estava se sentindo particularmente viciada na fricção da boca do capitão da Grifinória contra a sua desde aquele beijo no pomar, mas ela só admitira isso à si mesma naquele dia, após repetir a experiência no cinema.

Quando ele lhe tocava, ela se sentia curiosa para conhecer as sensações que proporcionaria. Os calafrios, as contrações em seu ventre, a urgência, eram tão novos e tão primordiais que lhe deixavam em êxtase. A realidade vinha se mostrando bem mais interessante que sua prévia imaginação.

As mãos dele alcançaram as suas coxas, as palmas quentes incendiando a sua pele enquanto avançavam. Sentia que ele de alguma forma se continha em seus movimentos, e achou que deveria encorajá-lo, afinal, hesitar parecia o errado a se fazer, quando a promessa de sensações era tão promissora.

Bervely impulsionou o corpo para frente e passou uma perna de cada lado dele, conseguindo montar em seu colo. O efeito disso foi Oliver aprofundar ainda mais seu beijo, e as mãos fortes se fechando em cada lado de sua bunda, por debaixo do vestido, enquanto ele a trazia contra seu corpo. Sua área íntima protegida apenas pela calcinha foi friccionada contra a ereção dele dentro da calça jeans. Bervely gemeu com o contato inesperado, apertando as pernas em torno de Oliver à medida que as paredes de sua vagina também se apertavam.

Rose ele pediu, descolando os lábios. Espera um segundo.

Que foi?ela ironizou, apesar de estar ofegante também. Estamos indo muito rápido pra você?

É só que você disse sem expectativas. ele explicou, excitado demais para levar em conta as gracinhas dela E eu estou tendo um monte de expectativas pervertidas com você em meu colo nesse momento. Se a gente não parar agora, quero dizer, tem certeza?

Bervely pegou uma das mãos dele e pressionou contra um de seus seios. Oliver arregalou os olhos ligeiramente, mas eles foram logo em seguida nublados quando ela fechou os dedos sobre os dele, fazendo ambas as mãos envolverem-no.

Você vai me deixar maluco. avisou, massageando os seios dela agora com ambas as mãos.

Ela gostava do brilho lascivo impresso nos olhos dele, e da fome com a qual lhe olhava. Como a colocou de volta na cama, se inclinando sobre ela, como se os seus movimentos fossem guiados por uma força que não podia controlarOliver colocou um dedo por baixo de uma alça do seu vestido, procurando seu consentimento.

Posso?

Ela assentiu. Vá em frente, dizia seus olhos de gata, marcados de preto, levemente cerrados, Sim, você pode.

Oliver descobriu um seio branco, cujo mamilo cor de rosa claro já estava endurecido, e passou sua língua carinhosamente sobre ele. Bervely se contorceu embaixo do seu corpo, soltando outro gemido rouco que para os ouvidos dele era delicioso, e ele tentou não se apressar. Ela era uma jóia, e queria apreciar cada segundo daquela maravilhosa oportunidade.

Você gosta assim?perguntou baixo, mordiscando e depois lambendo o mamilo, o outro seio sendo estimulado em seus dedos vagarosamente.

SimWood, isso é…

Ele parou de tocá-la, subindo na altura do seu ouvido.

Nem agora você pára de me chamar pelo sobrenome?

Ela lhe olhou, surpresa, por um momento, e depois rebelde, estreitando os olhos desafiadoramente.

Posso usar seu título se quiser… capitão.

Sua ereção pulsou mais dolorosa dentro da calça, e ele deu um suspiro estrangulado, cerrando os olhos. Ela sorriu satisfeita ao perceber o efeito que causara.

Você tem alguma ideia do que está fazendo comigo?

Uma vaga ideia

Ele subiu a saia do seu vestido e esfregou a ereção entre as pernas dela, para que tivesse uma ideia mais clara. Bervely sorriu lascivamente.

Parece incomodo preso dentro dessas calças.

Você não faz ideia.

Me deixa te ajudar… – pediu, sentando-se e puxando a barra da camisa dele para cima. Oliver não foi de muita ajuda, já que estava hipnotizado pela visão dos seios dela empinados em sua direção e avermelhados, enquanto ela abria os botões de sua calça.

Uma vez sem calças, ele tentou desfazer as fitas de cetim que prendiam o vestido, mas ela segurou as suas mãos, com uma expressão divertida no rosto.

O que pensa que está fazendo, Wood?

Pensei que fosse óbvio. ele retrucou, no fundo preocupado que ela tivesse caído em si e desistido.

Bervely rolou os olhos para ele.

Tem um zíper lateral. explicou, indicando o fecho ao lado do corpo Nem os trouxas seriam tão estúpidos

– Psiu. Você ouviu isso?

Ela parou o movimento, ficando perfeitamente calada para tentar escutar… estalos. E vozes.

– O que é isso? À essa hora? – ela estranhou, tentando imaginar que bruxo poderia chamar na casa trouxa da família de Oliver – Será que é o seu pai?

– Não, meu pai nunca chama da lareira, ele aprendeu a usar o telefone. – mais um pouco de silencio. Passos no corredor. Ele lhe deu um olhar alarmado, e Bervely rapidamente ajeitou o vestido para o local original, e ajeitou os cordões.

Quando alguém bateu na porta, Oliver saltou da cama, se enfiando em suas calças novamente. Abriu só uma fresta, por onde enfiou a cabeça.

– Oi, mãe. O que foi? – Bervely lhe ouviu dizer, e a resposta do lado de fora que não era clara. – Sim… é ela quem está aqui. Por que… Ah, sério?

A mãe de Oliver repetiu a informação, e ele colocou a cabeça para dentro do quarto. Sua expressão era de confusão.

– É a sua tia na lareira, disse que precisa falar com você com urgência.

– Andrômeda? – espantou-se, saltando da cama e ajeitando o cabelo que já se perdera da trança há muito tempo. – Mas eu nem disse a ela que estava com você.

– Ela deve ter deduzido. Você vai?

Bervely nem conseguia imaginar o que Andrômeda teria para lhe dizer no meio da madrugada, e que era tão urgente que lhe levara procurá-la ali na casa de Oliver. Ela não era suposto a estar de plantão no hospital hoje? Talvez tivesse chegado em casa mais cedo e não a encontrara, e fora acometida por um surto maternal de preocupação completamente desnecessário?

Se fosse isso, Bervely já se sentia na predisposição de reclamar, afinal ela interrompera algo muito importante.

– Olá, Bervely, podemos deixar as apresentações para mais tarde, sua tia parece muito nervosa. – disse a mãe de Oliver, quando Bevy passou por ela em direção à sala.

Assentiu, o coração na mão. Algo tinha acontecido com Tonks? Mil coisas terríveis podiam dar errado em uma reserva de dragões, e ser comida por um dragão estava no topo da lista. Em sua cabeça, tudo que podia pensar era em uma cena onde a prima era devorada por um Tiranossauro Rex.

Se ajoelhou em frente à lareira, encontrando o rosto pálido e urgente de Andrômeda lhe encarando de volta.

– Bervely! Finalmente! Fiquei tão preocupada quando chamei e não te achei em casa!

– Apenas diga o que aconteceu. – disse friamente. – Alguém está morto?

A expressão da medibruxa se agravou.

– Você conhece… uma garotinha chamada Johanne Loren?

– Sim. Sim, ela é… ela estuda em Hogwarts.

– Ela clama ser sua irmã. Ou pelo menos foi o que ela disse quando deu entrada no hospital, antes de perder a consciência.

– Entrada no hospital? – seu sangue gelou, causando uma instantânea tontura – Por que, o que aconteceu com ela?

– Ninguém sabe muito bem, ainda. Mas ela não está nada bem, Bervely. Se ela é quem eu estou pensando, talvez você queira vir até aqui, antes que seja tarde.

(Continua)


Nota:

¹A palavra que Bervely usa é Overwhelming. Significa impressionante, arrebatador, emocionante, irrestível; um arraso, de arrasar, demais; arrasador, acachapante, avassalador, descomunal, devastador, estrondoso, fortíssimo, fragoroso, insuportável, intenso, irresistível, maciço, massacrante, opressivo, poderoso, sufocante, tremendo. É uma ótima palavra, mas sem equivalente em português, uma tradução boa o bastante que exprima todo esse conceito.

²Oliver se refere ao filme "Godzilla".