Olá. Espero que todos estejam bem.
Como eu havia prevenido (eu suponho) no capítulo anterior, teremos uma leve guinada nos acontecimentos...
Guinada... não seria o termo exato.
Bem. O capítulo 38 é o que vem depois de um salto temporal (o primeiro... já adianto) de um espaço de tempo um tanto quanto razoável... eu presumo. Espero que tudo fique bem claro, porque de coisas obscurecidas já basta minha outra fic. Uff...
Acho que muitos talvez não gostem... esperavam decerto outro caminho, ver uma ou outra cena muito aguardada. Só posso pedir mais paciência, pois o rumo dos acontecimentos infelizmente tem que ser esse. Mais tarde (espero) as coisas farão sentido...
Queria agradecer a Nanda, Aine, Leka, Kaori (deixe email!), Myri, Lele, Larwen, Giby, Liny (email?), PhoenixEldar (Layla), Isa, Denise, Ranique (Ariana), Gaby, Be, Nim, Nininha e Kiannah que deixaram reviews para o capítulo 37 e também aos que leram e não tiveram tempo de deixar review.
Muito obrigada. Espero que gostem dessa bagunça aqui.
Beijos
Sadie
Por que caminhos chega esta quietude
se me sei só na vaga alterosa
no ruído surdo do mundo ?
A.SANTOS
38 – DESCAMINHOS – PARTE I
O som de um gotejar contínuo ao longe era o que a noite fria lhe propiciara como companhia. Se eram pingos de chuva, ele não sabia. Se de fato chovia, nevava, se era noite ou dia ele há muito não conseguia dizer. Os sons que sua audição, mesmo favorecida como era a dos de sua espécie, lhe trazia, não eram distintos o bastante para se converterem em imagens esclarecedoras.
Pendeu a cabeça para a esquerda, depois para a direita, tentando apoiar-se nos braços erguidos e dormentes, já aprendera a esvaziar a mente em momentos como aquele, momentos em que a angústia parecia querer dominá-lo.
Estava frio. Já era inverno mais uma vez...
Quanto ainda até que este inverno terminasse?
Quanto até que tudo terminasse?
Não podia terminar... Ele havia feito uma promessa...
O ranger da velha porta do topo da escada despertou-o. Já estavam de volta? Não fazia muito tempo que estiveram ali, fazia?
A luz se acendeu. Por Elbereth como estava cada vez mais difícil encarar qualquer luz que fosse. Dias incontáveis naquele lugar úmido e escuro começavam a transformar o que antes era temor em um triste hábito.
Estava claro demais.
Claro demais.
"Juro que não sei como ele consegue dormir nesta posição." Uma voz soou, mas ele fingiu não ouvir. Quem sabe se pensassem que estava de fato dormindo fossem embora. "Todos os santos dias ele dorme assim, nesta posição, não sei como ainda está vivo, que resistência!"
"É uma diabrura. Sem dúvida." Respondeu o outro recém-chegado. "Nem gosto de entrar aqui. Dou graças que esteja dormindo ou desacordado. Queria que estivesse morto. Mil vezes assim do que nos olhando daquele jeito que nos olha às vezes."
"É verdade. Não sei o que Drago ainda quer com esse infeliz. O desgraçado não responde pergunta alguma, não importa o que façam a ele."
"Responder? Meu pai do céu. Pra que você quer que ele fale? Já o ouviu falar?"
"Não... Você já ouviu?"
"Uma vez. Ele só fala com Drago e em raras circunstâncias pelo que sei."
"E como é?"
"Como é o quê?"
"Como é, homem! O que tem demais quando fala?"
"Cruzes, Hemming. Nem queira saber... Ele parece... Sei lá... Drago tem razão. Ele não é humano..."
A afirmação pareceu intrigar o outro homem e o som de seus passos se tornou mais grave, mais próximo.
"Nem precisava me dizer que ele não é humano... Essas orelhas dele me intrigam. O que será que ele é?"
"Isso não é nada perto do que Drago disse que ele pode fazer."
"Não sei não." A voz do outro soou desdenhosa. "Se é tão poderoso, por que está todo esse tempo aqui? Por que não fez nenhuma de suas magias para escapar?"
Um silêncio preencheu o espaço da resposta por alguns instantes. Depois o outro suspirou forçadamente.
"Drago disse que é porque está aqui trancado, sem a luz das estrelas. Por isso não pode haver janelas."
"Que bobagem!"
"Bobagem uma ova, Hemming! Lembra do que disseram Ales e Kamil? Lembra do receio que tinham dele? E eles nunca mais foram vistos depois que o perseguiram naquela noite do incêndio, lembra-se?"
"Os desgraçados devem ter fugido, isso sim. Deixe que o general vai cuidar deles pessoalmente quando os encontrar. Foi o que Kakius disse."
"Sei sei... Mas Kakius nunca desce aqui. Muito menos o tal general, que nunca vimos, aparece por aqui. Se ele não oferece nenhum perigo, porque só o louco do Drago fala com essa diabrura aí?"
"Ah... Sei lá, Anders! Pare de me fazer pensar bobagens. Sabe que somos responsáveis por ele e fica me fazendo ter medo dessa criatura. Você ajuda muito."
"Medo nada!" O outro disfarçou. "Eu só me intrigo com ele... Na verdade me incomoda ter que ficar pajeando esse infeliz. Não sei porque Drago não deixa sempre os mesmos encarregados. Esse rodízio me faz sentir ódio de mim mesmo quando chega a minha vez. Não gosto de conviver com essa... essa coisa aí... Ainda bem que está dormindo."
"Estou louco para tudo isso acabar. É pouco mais de um ano até a eleição e tudo vai ter fim."
"É o que Drago e Kakius dizem, mas eu não entendo. No que a eleição do tal chanceler vai nos ajudar? Ouvi dizer que o homem é a favor da reunificação."
"Isso eu também me pergunto. Sempre pensei que essa fosse a função que o general queria para si."
"Talvez o general e o tal chanceler sejam a mesma pessoa."
"De onde tirou essa idéia idiota?"
"Sei lá. A gente não conhece a figura mesmo."
"O general não estaria por aí instigando o povo a pedir a reunificação, Anders! Que ignorância! Esse chanceler está querendo mesmo é tomar um tiro no meio da testa. Isso não vai demorar. Na certo o general está apenas esperando o infeliz tomar o poder e..."
Hemming sentiu um estranho mal estar ao perceber o amigo sobressaltar-se a seu lado, a atenção de Anders fora tomada por outra circunstância. Ele subitamente tinha se afastado alguns passos, olhos pregados na figura presa em fortes correntes.
"Acordou." Informou em voz trêmula, ignorando a continuidade do assunto que tratavam, e tal informação fez com que o amigo repetisse o mesmo movimento instantaneamente. Estavam agora quase na escada, olhos atentos no prisioneiro do porão.
Parecia realmente difícil encarar aquele olhar que a eles era dirigido. Anders e Hemming moveram-se incomodados alguns poucos centímetros sem quase sair do lugar, até que o primeiro, parecendo encontrar algum vestígio de coragem, deu dois passos à frente. O par de olhos azulíssimos o seguiu, não acompanhava propriamente o movimento de seu opressor, fixava-se sim nos olhos dele, olhos que o evitavam agora, como se temessem que aquela figura, mesmo debilitada como estava, mesmo presa em correntes pelos pulsos e tornozelos, pudesse lhe fazer algum mal.
"Droga, Hemming. Ele está me olhando daquele jeito."
"Cale a boca, Anders! Não dê a impressão de que temos medo dele porque não temos." Mentiu o outro, embora a palidez e o leve temor de seu rosto fossem denunciativos o bastante.
Anders respirou fundo, fechando os punhos com o vigor de quem quer na verdade agarrar-se a algo para não cair, ele enfim retribuiu o olhar que recebia.
Se arrependimento fosse condenação...
Agora era escravo daqueles olhos claros e tristes, que sondavam-no preocupados, ansiosos por uma informação. Eram de um brilho estranho que não podia despertar outro sentimento em quem os olhasse que não a mais pura aflição, ou consternação... Anders sentiu sua mente se abrir, não pôde evitar e, estranhamente, não quis. Não sabia o porquê, mas quase ansiava por aquela invasão, tal qual vendaval que lhe rompia janelas e portas, trazendo uma luz incômoda a tudo o que alcançava.
Foram momentos breves, até uma lágrima rolar pelo rosto do prisioneiro.
E Anders despertar de seu transe.
"Que foi?" A voz de Hemming e a mão forte em seu ombro, foram as garantias de sanidade que o amigo agora buscava.
Mas a expressão das idéias ainda lhe fugia, seu raciocínio entorpecido como se houvesse acabado de despertar.
"Que foi, homem dos céus?" Insistiu o outro, sacudindo agora o ombro que ainda segurava.
"Não... Não sei..." Anders respondeu confuso, observando agora outra lágrima escorrer pelo rosto do prisioneiro. Ele deu um passo a frente e ensaiou uma pergunta, uma estrutura de pergunta que ainda mal se formulava em sua mente e que parecia precisar cumprir um grande trajeto até conseguir alcançar a liberdade por sua boca.
Mas não houve tempo.
"Um tiro acidental..." A voz que eles temiam soou, trazendo o efeito que também temiam com ela. Os dois amigos não puderam conter o tremor que sacudiu seus corpos, mas que foi ignorado por aquele que ali estava, ainda preso, ainda pálido e ainda olhando fixamente para Anders. "Um tiro acidental..." Ele repetiu. "Não faria de você um assassino..."
O queixo de Anders caiu e suas sobrancelhas se envergaram profundamente.
"Do que... do que ele está falando?" Ele ouviu Hemming indagar a seu lado, mas sequer pôde responder, seus olhos ainda estavam fixos no prisioneiro, o maxilar ainda solto pela incredulidade. "Anders!" O tom de voz então o despertou e sua atenção enfim foi desviada pelo sacudir que o amigo lhe dava agora. "Olhe para mim, homem dos céus!"
Anders obedeceu enfim, movendo seus ainda assustados olhos para o amigo a seu lado. Hemming intrigou-se.
"Que diabos..." Ele ensaiou uma pergunta.
"Ele viu meu passado, Hemming." Mas o outro respondeu perplexo. "A cena montou-se em minha mente... como se ele pudesse organizar meus pensamentos mesmo sem meu consentimento... Eu..."
"Hemming! Anders!" Uma voz austera soou do topo da escada e ambos se voltaram sobressaltados. "Que diabos estão fazendo aí parados? Já disse que não devem conversar com a criatura!"
"Não estamos conversando, Drago." Hemming defendeu-se, dando uma leve cotovelada em Anders. "Apenas viemos trazer comida e água. É a alimentação do dia. Íamos soltá-lo para que comesse algo."
"Sabe que não devem soltá-lo quando não estou aqui." O outro respondeu rispidamente, enquanto descia com dificuldades os degraus.
"Pensávamos que não viria. Ontem não veio e ele ficou sem alimentação."
"O desgraçado vai ficar sem comida e água por quanto tempo eu quiser." A voz de Drago ergueu-se mais, entrecortada pelos espaços em que ele se concentrava para vencer os degraus. "Maldito seja. É por causa dessa criatura infeliz que ando como ando agora."
"Mas não foi o Escolhido quem atirou em você, Drago?" Hemming indagou inocentemente e se as palavras pudessem ser recuperadas depois de ditas, ele as resgataria de imediato ao perceber o ar de insatisfação que a pergunta fizera brotar no rosto do chefe.
Drago ainda resmungou algumas coisas para si mesmo, até aproximar-se, mas não respondeu o questionamento recebido. Seus olhos enfim voltaram-se para o prisioneiro, ainda atado às fortes correntes que o mantinham quase imóvel.
"O que ele disse?" Indagou, olhando o corpo erguido pelos braços. A cabeça pendida para frente trazia um mar de cabelos claros que quase escondia-lhe completamente o rosto.
"Na... Nada... Drago." Hemming apressou-se em responder, segurando agora o antebraço de Anders com força. "Ele nunca fala com ninguém..."
"Porque não deve haver ninguém aqui." Reforçou o chefe enraivecido. "Já disse a vocês que ninguém deve descer aqui sem que eu esteja presente, entenderam?" Ele completou, olhando para os dois empregados pausadamente. Hemming baixou os olhos, mas Anders ainda não conseguira afastar seu olhar do prisioneiro, que agora baixara a cabeça e voltara a fechar os olhos.
"Sim, senhor." Hemming respondeu rapidamente, em seguida cutucou o amigo para que este se lembrasse de que lhe fora feita uma pergunta. Mas Anders, apesar do tom insatisfeito do chefe, não conseguia romper o elo que se formara, ele queria ouvir mais, ouvir o que a criatura quisera dizer com a afirmação que fizera.
Drago pareceu notar, na expressão ainda perplexa do homem que algo havia acontecido. Ele então ergueu a bengala e com ela acertou um forte golpe no abdômen do prisioneiro. A surpresa arrancou deste um gemido de dor, mas o rosto não se ergueu e os olhos não se abriram.
"Vê!" Drago disse por detrás de um sorriso irado, repetindo o movimento com mais força e recebendo um gemido um pouco mais alto como resposta. "Ele não é nada! Sente dor como nós! Não tem poder algum aqui e aqui vai ficar e vai morrer. Entenderam?"
Anders enfim olhou para o chefe, como se desperto tivesse sido pela cena cruel. Drago agarrou-o pela gola da camisa.
"Ele é um ilusionista, Anders. Não deve lhe dar atenção. Sua fala é mentirosa e seu olhar enganador. Nunca olhe para ele ou ouça o que tem a dizer. Compreendeu?"
Os olhos do empregado arregalaram-se e, depois de levemente sacudido pelo chefe, ele enfim balançou a cabeça em concordância. Drago soltou-o então, após empurrá-lo brutalmente alguns passos para trás.
"Suma daqui, inútil." Ele gesticulou impaciente e mais insatisfeito ficou ao ver o homem olhar mais uma vez para o prisioneiro antes de subir receoso os degraus.
Quando enfim sentiu que o empregado estava distante, Drago voltou-se para Hemming. O homem estremeceu no mesmo instante.
"Não quero mais Anders aqui. Tire-o dos turnos. Deixe-o apenas na guarda lá em cima, compreendeu?"
"Sim, senhor." O outro respondeu de imediato, um forte aceno de cabeça reforçando a concordância.
Mas Drago não parecia satisfeito. Ele voltou-se mais uma vez para a vítima e fez um movimento inconformado com a cabeça. Como podiam temê-lo assim? Estava preso naquele lugar escuro há tanto tempo. Tudo o que faziam eram libertá-lo uma vez por dia para que comesse e pudesse se movimentar. Estava cada dia mais magro e pálido, definhava visivelmente como qualquer criatura definharia na posição na qual estava. Não era poderoso. Não era nada.
Então.
Por que mesmo ele custava a acreditar?
"Solte-o." Ele ordenou ao empregado. "Depois saia."
Hemming engoliu em seco. Depois apanhou as chaves e obedeceu. Não custou nem mesmo um segundo para o corpo cair brutalmente de joelhos. Hemming apertou os lábios desgostoso. Não podia evitar sentir pena daquela criatura. No início mantinha-se em pé com mais facilidade.
"Saia." Drago ordenou, ao perceber o ar consternado do empregado. Hemming ainda manteve seus olhos no prisioneiro por mais alguns instantes, depois obedeceu, subindo os degraus e ficando de costas na porta aberta, como sempre foram as instruções do chefe.
Drago suspirou, a mão segurando fortemente a bengala, como sempre fazia quando estava ali, apertava aquele cabo de madeira para que nunca se esquecesse de porque estava naquele estado.
"Vamos diabrura. Erga-se e cuide um pouco de si ou vou prendê-lo novamente sem que tenha comido ou se lavado".
Mas o prisioneiro não respondeu, manteve-se no chão, as palmas servindo-lhe de apoio, o peito arfando levemente. Drago esperou mais alguns instantes, depois o golpeou implacavelmente com a bengala. Os braços, ainda dormentes, não sustentaram o golpe e o corpo frágil caiu completamente no chão úmido.
Drago olhou-o desgostoso.
"Inútil." Ele aplicou-lhe outro golpe, desta vez sequer um gemido foi ouvido. "Vai levantar-se ou vou ter que prendê-lo?"
O rosto voltou-se então meros segundos para ele e Drago guardou o ar no peito como se quisesse fazer dele uma couraça. Apesar de tudo ainda era difícil demais encarar aquele olhar. Tanto tempo se passara, mas ainda não conseguira criar a defesa que precisava para enfrentar aquele que parecia ser o melhor truque de seu prisioneiro.
"Vamos." Ele apenas disse, afastando-se um passo instintivamente.
Por fim, o corpo ergueu-se devagar, sem olhá-lo mais e cambaleou para o pequeno cubículo sem porta que ficava no canto esquerdo do porão. Ele apanhou as roupas que Hemming tinha trazido e entrou. Em instantes o barulho do chuveiro frio foi ouvido.
Drago suspirou. Era um alívio tê-lo longe por um tempo. Nunca imaginara que fazer mal a alguém pudesse causar-lhe tamanho desconforto. Mas causava-lhe. Queria ser capaz de semear ódio tremendo por aquele infeliz, queria odiá-lo do fundo de sua alma se é que tinha de fato uma, mas tudo o que conseguia sentir era uma sensação de repulsa, de repulsa ao que se via fazendo, ao mundo no qual vivia, a ter que se levantar e ir até lá. Chegava a desejar encontrá-lo morto um dia.
Então. Por que não providenciava o passamento daquela criatura de uma vez por todas? Por que ele mesmo não dava cabo daquele tormento?
Aquela era uma questão sem resposta. Uma questão que Drago repetia a si mesmo todos os dias que estava ali, naquela mesma posição, olhando para aquele cubículo entreaberto e escuro no qual desaparecia aquela figura todos os dias, para voltar em instantes, parecia não apreciar ficar ali mais do que o necessário.
Já estava de volta. Os cabelos molhados e mal enxugados; decerto não tinha forças para fazer melhor do que isso. Ele se arrastava agora em seu passo vagaroso e sentava-se em um caixote ao lado da bandeja de comida. Nunca comia comida normal, já haviam desistido de trazê-la, apenas apanhava as frutas e, na ausência delas, sequer se aproximava da bandeja. Agora mordiscava silenciosamente uma maça. Com o tempo Drago percebera que ele tinha predileção por essa fruta em especial, por isso nunca deixava de trazê-la.
Por quê?
Porque queria que ele comesse algo...
Havia silêncio agora.
Assim era melhor.
Já fazia muito tempo que não conversavam.
Muito tempo sem ouvir aquela voz atordoante.
Melhor assim...
Ele deixou então a maçã pela metade por sobre a bandeja e ignorou o resto do conteúdo. Comia cada vez menos.
Drago franziu insatisfeito os lábios e mais insatisfeito ficou ao vê-lo erguer os olhos em sua direção.
Raramente fazia aquilo.
Apenas quando...
"Que dia é hoje?"
Quando queria dirigir-lhe a palavra. O que era muito raro.
O mercenário estremeceu, apertando muito o maxilar.
"Que importa?" Ele respondeu irritado e sua irritação aumentou ainda mais ao ver que a criatura não parecia disposta a deixar de dar-lhe a atenção oferecida. "Por que não come essa porcaria que te deram? Se eu continuar jogando fora o que trago vou deixar de fazê-lo."
O prisioneiro ainda ficou mais alguns instantes encarando seu opressor, depois se voltou e apanhou a mesma maçã que comia, dando-lhe mais algumas mordidas pequenas para depois abandonar o que restava por sobre a bandeja.
"Vejo que vou poupar dinheiro se só te trouxer maçãs." Ele torceu os lábios ao dizê-lo. Criatura estranha era aquela. Como ficava em pé comendo só uma fruta tão insípida?
O prisioneiro baixou os olhos, parecia pensar no que viria a seguir. A rotina talvez já o condicionara aos rumos do hábito imposto. Ele teria que se levantar e caminhar de volta àquela parede úmida e se deixar prender, até que o dia seguinte chegasse e pudesse ganhar a oportunidade de se mover novamente.
"Deveria aproveitar a chance que te dou de ficar um pouco solto." Drago reclamou. "Podia fingir que come ao menos, ou se demorar mais no banho. Que tipo estúpido você é! Não acredito que preciso até te dar noções de esperteza. O que Eleazar vê em você?"
Ele caminhou mais alguns passos, dando as costas a vítima que enclausurava e olhando novamente as fortes correntes que a mantinham presa, agora penduradas vazias naquela parede. Realmente era inacreditável o nível de tolerância daquela criatura.
"Que pergunta tola a minha." Ele disse ainda de costas. "É claro que Eleazar vê algo em você. Ele está sempre cercado dos tipos mais incompetentes possíveis. Da escória, dos restos do mundo. Gente que se ilude com facilidade. Gente que acha que vai ser alguém apenas porque ele diz que existe futuro para eles. Pobres coitados que vão levar o tombo de suas vidas quando se virem sem liderança, de volta e enterrados até os pescoços em suas rotinas miseráveis."
"Esperança e afeto caminham juntos..." A voz do prisioneiro soou mais uma vez e Drago voltou-se de imediato para ele.
"Afeto?" Ele riu com sarcasmo. "É o que move você? Move sua fidelidade?"
Legolas franziu os olhos.
"Você o ama?"
Por que aquela pergunta tinha um tom tão estranho?
"Eu o amo." Legolas respondeu, sentindo estranhamente que aquelas palavras seriam parte de sua condenação.
Drago pendeu a cabeça levemente e seu olhar ganhou uma malícia que não agradou ao arqueiro. Ele aproximou-se um pouco mais.
"Que tipo de amor sente por ele, criatura?"
Era uma estranha armadilha e o príncipe quase podia senti-la por debaixo de seus pés.
"Que tipo de ódio sente por ele?" Ele indagou, emprestando um pouco de suas incertezas a seu interlocutor.
"Como assim?"
"Como é o ódio que sente."
"Absoluto."
"E como mais?"
"Sem qualquer fronteira." Drago sentiu um prazer imenso em descrever tal sentimento que preenchia completamente sua vida. "Nada me dá mais prazer do que imaginá-lo morto da pior forma possível. Nada me trás um sorriso mais sincero do que imaginar sua dor e seu sofrimento e que eu possa vê-lo de camarote."
Legolas empalideceu devagar, quase cedendo a provocação que sabia estar implícita naquelas palavras.
"Então... entende como é o meu amor."
Drago franziu o cenho.
"E por que haveria de entender?"
"Porque é o contrário exato de todas as suas palavras. Meu amor é o oposto preciso de seu ódio."
E inverteram-se as posições. Agora Drago perdia a cor e a paciência. Entretanto, Legolas estranhou a sensação que leu no rosto do mercenário. Era um sentimento a mais que se estruturava, embora fosse devidamente escondido. Era como se Drago sentisse por Eleazar algo além de puro ódio.
Poderia ser verdade? Poderia ele também se sentir semeado pela...
Inveja.
"Porque são devotos estúpidos que julgam que esse desgraçado é uma espécie de Messias ou algo mais estúpido ainda." Drago explodiu em repulsa, sacudindo o braço livre e voltando a caminhar com dificuldades pelo recinto. "Gente de fé tola que vai morrer nesta ilusão."
"Gente feliz..." Legolas quase sussurrou, mas Drago pôde ouvi-lo claramente. Ele tornou a olhá-lo intrigado. Queria irritar-se, mas seu sentimento pelo elfo sempre se transformava em curiosidade e...
Admiração.
"Mas você não é de Nova Cillian." Concluiu o mercenário, voltando a se aproximar. "É uma aberração da natureza decerto, por isso tem essas orelhas de duendes e brilha na luz da lua, não é?"
Legolas baixou os olhos. Ele não responderia nada sobre si e Drago sabia disso.
Entretanto...
O que seriam duendes?
Hora imprópria para questionar sobre vocabulário.
"De onde você vem? Disseram que vem do oeste. Kamil me disse que aqueles dois gêmeos também têm orelhas de duendes como as suas e que brilham sob a luz das estrelas... Mas eles não são iguais a você são? Pelo que entendi o gêmeo mecânico só conseguiu esse feito porque estava a seu lado... Foi o que o idiota do Kamil conseguiu me explicar dentro de toda aquela ignorância que compunha seu ser... Mas... Me diga. É verdade que eles foram deformados porque você lançou neles uma feitiçaria?"
Legolas a princípio franziu muito a testa, depois sentiu um impróprio desejo de rir. Se a situação fosse outra talvez riria. Ele não podia deixar de imaginar como Elrohir receberia tal informação.
Elrohir. O gêmeo mecânico...
Como Drago sabia disso?
"Tem... tem razão... é apenas um truque... Eles não têm o menor poder... Nenhum deles..." Legolas apressou-se em responder, ainda com o ecoar daquela estranha interrogação a badalar incomodamente em sua cabeça.
Drago encurvou as sobrancelhas. Ele não seria um líder eficaz se seus sentidos não fossem aguçados.
"Quanta avidez em defendê-los." Ele sorriu com ironia além das palavras. "Também os... ama..."
Foi então que Legolas percebeu que, decididamente ele e Drago não estavam atribuindo ao verbo amar a mesma conotação.
Vocabulário estranho.
"Eu os amo..." Legolas respondeu mesmo assim, ansiando sem entender porque que o assunto não morresse. Ele tinha esperanças de saber alguma notícia de Elrond e sua família.
Os lábios de Drago curvaram-se em um sorriso maldoso.
"Ama? Pois vou gostar de vê-los morrer..." Ele disse e deliciou-se ao ver a mistura de tons que tomou o rosto do prisioneiro. Legolas primeiro empalideceu, depois se avermelhou, para enfim conter-se como podia. De certa forma, a provocação de Drago lhe oferecia a informação que buscava.
Afinal, só se pode ameaçar quem ainda vive.
E, pela primeira vez em muito tempo, seu coração alcançou alguma paz.
"Eu poderia lhe fazer uma proposta, mas com certeza não aceitaria, não é mesmo diabrura? Já lhe fiz outras e se negou a colaborar..."
Legolas não respondeu. A pior parte de suas conversas com Drago eram sempre estas, quando o mercenário começava a querer estipular um preço por sua devoção, por sua amizade, por seu afeto.
Quando o mercenário queria comprar sua alma.
"Posso oferecer-lhe coisas que não teria em mundo algum." Ele brincou, voltando a se aproximar e Legolas uniu as mãos por sobre o colo, apertando os dedos com força para concentrar-se em outra coisa qualquer que não fossem aquelas palavras. Sabia que não iria gostar do que ouviria.
Drago parou no meio do trajeto, porém, parecendo pressentir a perturbação no prisioneiro. O tempo estava fazendo deles velhos conhecidos, alguns trejeitos, alguns sinais, mostravam-se mais esclarecedores do que eram no início.
"Não vou perder meu tempo. Não se preocupe." Ele disse, contendo o tom de desgosto de sua voz. O desejo que tinha de comprar aquela fidelidade em especial era diferente de todos os outros. Ele já recebera outros nãos, tentara comprar Ami e se lembrava bem do quão categórica fora a negação do guerrilheiro. Entretanto, embora seu coração negasse sempre, ele sabia que, no fundo, o que mais gostaria era comprar mais do que fidelidade. Queria ter algo que apenas Eleazar tinha. Queria ter o que aquele ser estranho chamava de amor. Queria saber que aquela criatura guardava por ele tal sentimento.
Queria ter o que Eleazar tinha e que dinheiro algum poderia comprar. Algo que talvez nem a morte dele pudesse trazer.
E isso era incômodo demais.
"Se não vai mais comer venha para cá." Drago ordenou ao ver que o prisioneiro parecia perdido em seus pensamentos, pouco disposto a oferecer-lhe qualquer resposta. Isso o irritava, saber que sua presença não despertava qualquer perturbação.
Legolas ainda olhou mais uma vez para as frutas, parecia agora mais triste do que de costume. Ele ergueu-se então com dificuldades e obedeceu. Drago afastou-se mais, acompanhando o caminhar daquele estranho. Queria que tivesse comido mais, não acreditava que conseguia manter-se com tão pouco.
Na verdade não conseguia, por mais que tentasse provar o contrário. Foram apenas dois passos e o corpo desequilibrou sem aviso. Drago soltou a bengala e segurou-o em um instinto.
Inútil. Foram ambos ao chão.
"Chefe?" Hemming gritou do topo da escada. "O senhor está bem?"
"Estou." Resmungou o ruivo, puxando um pouco o corpo do prisioneiro para que pudesse ver o seu rosto. Estava ainda mais pálido e os olhos agora estavam fechados.
"Precisa de ajuda? Quer que eu vá aí?"
"Não." Drago respondeu rispidamente, batendo agora de leve no rosto desacordado para que retomasse consciência. "Vamos, inútil! Não pense que não vou amarrá-lo desacordado mesmo. Se comesse mais conseguiria se manter em pé."
Abriram-se os olhos e pestanejaram mais um pouco, para então perceberem onde estavam. Logo se fixavam novamente nos de seu opressor.
Drago engoliu em seco, apertando com força os lábios trancados. Aquele olhar triste era demais para qualquer criatura suportar, tivesse o espírito preparado que fosse. Ele afastou então um pouco os cabelos do rosto da vítima e estalou os lábios.
"Por que não come criatura?" Disse em um tom baixo, como se não desejasse ser ouvido. "Vai me fazer enterrá-lo antes do tempo assim."
"Estou... Estou com frio..." Respondeu o outro, sem sequer tentar se erguer ou afastar-se.
"É claro que está, maldição!" Drago resmungou, ajudando-o a se sentar naquele chão. "Só pode sentir frio assim, sem nenhuma reserva em seu corpo. A culpa é sua. Se fosse de confiança poderia deixá-lo livre aqui. Mas sei que vai tentar fugir."
"Não vou tentar..." Legolas balançou a cabeça, cruzando as pernas sob si e baixando o rosto como se estivesse evitando que outra vertigem o assolasse.
"Claro que vai. Seria estúpido de sua parte se não o fizesse. Eu não confio em você. Não confio nem um pouco." Informou indignado o líder mercenário, olhando agora atentamente o rapaz envolver o corpo com ambos os braços. "Criatura inútil. Porque não morre de uma vez." Ele reclamou, retirando o próprio casaco que usava. "Se morresse não me daria mais dor de cabeça." Completou, jogando a vestimenta sobre as costas do elfo. "Venha, vamos." Ele pediu, erguendo-se e puxando o outro para acompanhá-lo, em seguida o fez sentar-se novamente no caixote que tinha abandonado.
Legolas esticou os braços, vestindo o casaco e voltando a envolver o próprio corpo e esfregar os braços ainda um pouco dormentes.
"Obrigado." Ele disse.
"Não me agradeça." Drago enervou-se. "Não vai conquistar minha simpatia como conquistou a de alguns. Eu sei muito bem que espécie de diabrura você é."
O elfo ergueu a cabeça e olhou-o com atenção, seus olhos ainda brilhavam de dor e tristeza. Era doloroso ver aquele homem. Sentir o peso que ele carregava. O peso de um passado de violência e ódio, de rancor e desespero. Drago caminhou alguns passos com dificuldades, recuperou a bengala que deixara e voltou-se então para o prisioneiro.
"Diabrura..." Ele repetiu. "Chega de olhar para mim."
"O que é uma diabrura?" Legolas indagou inocentemente, seu olhar cansado parecia fazer um grande esforço para se manter fixo no mercenário.
Drago curvou as sobrancelhas, um ar desconfiado adornou-lhe a face.
"Não sabe o que é?"
"Não."
O ruivo não pôde conter uma risada de sarcasmo que incomodou ainda mais o jovem elfo. Legolas suspirou, imaginando que outras maldades estariam povoando aquela mente confusa.
"Você não é desse mundo mesmo." Ele disse reaproximando-se. "Vou te dizer o que é uma diabrura." Ele comentou, agarrando o braço de Legolas e colocando-o de pé. "Uma diabrura é um ser das trevas, alguém criado pelo próprio príncipe das sombras apenas para fazer o mal. Para levar o mal a tudo a sua volta, para assombrar as pessoas, fazê-las infelizes. Ela o faz e diverte-se com isso."
O rosto de Legolas contorceu-se de dúvida.
"Drago..."
"O que é?"
"Então você é uma diabrura?"
Mesmo que Legolas tivesse tido tempo para observar melhor a expressão que seu questionamento criara na face do oponente, ele não conseguiria transcrevê-la ou traduzi-la. Mas não teve tal tempo, pois Drago golpeou-o firmemente com a bengala, acertando-lhe em cheio no rosto e levando-o ao chão.
Não ocorrera ao mercenário, é claro, que o tom de inocência usado por sua vítima traduzia exatamente o que transparecia. Legolas ainda não compreendia certas convicções do mundo, certas estruturas sociais, certos dogmas.
Ele não compreendia muita coisa.
Mas pagava por elas mesmo assim.
"Vou lhe mostrar o que é uma diabrura. Criatura dos infernos." Ele disse chutando o corpo caído como podia, fazendo com que o elfo se encolhesse para conter os golpes, para defender-se. "Vocês todos são diabruras. Seres dos infernos mais profundos que vêm trazer ilusão e esperança. Quer algo pior do que acreditar para depois se desiludir? Quer algo mais vil do que dar e depois retirar? Do que prometer e não conceder? Você e aquele seu Escolhido não são diabruras, são a própria encarnação do senhor das trevas. São o próprio mal. Criaturas dos infernos. Malditos sejam todos vocês!"
Hemming voltou-se de onde estava, apertando os olhos ao presenciar cada pancada. Há tempos Drago não torturava mais seu prisioneiro, era uma lástima que tivesse decidido retomar a rotina. Ele não podia deixar de sentir pena do rapaz, fosse o que fosse, pois ele não parecia alguém capaz das atrocidades descritas pelo chefe. Alguém que valesse todo aquele ódio.
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Ele acordou sentindo um pano úmido cobrir-lhe o corte exposto. Parecia conter uma medicação qualquer, pois fez com que seu ferimento ardesse muito, roubando-lhe um indesejado gemido de dor.
"Shh... Faça silêncio ou vão saber que estou aqui."
Legolas abriu os olhos. Estava escuro, apenas uma lanterna acesa no chão provia alguma claridade. Estava preso novamente e não se lembrava do que acontecera.
"Drago te deu uma surra e tanto. O que disse a ele?" A figura a sua frente perguntou e Legolas forçou os olhos para reconhecê-la. Era Anders, o homem que estivera diante dele antes, o homem que carregava uma triste imagem em sua mente.
"Diabrura..." Legolas forçou-se a repetir, a cabeça latejava e o corpo todo doía muito.
Anders lançou-lhe um olhar intrigado, parecendo não compreender.
"Ele o chamou de diabrura e você respondeu?" Indagou por fim, ainda sem entender, mas suspirou incomodado ao ver o prisioneiro soltar mais alguns gemidos de dor com o tratamento ministrado, incapaz de responder. Ele então voltou ao que estava fazendo, abrindo vagarosamente a camisa do ferido para colocar um pouco de medicação nos outros cortes e hematomas.
"De pouco adiantou o banho que você tomou e as roupas limpas que te demos." Ele comentou transtornado. Já vira pessoas torturadas antes, por isso não compreendia porque ver aquela em especial lhe causava tamanha consternação. "Não posso fazer muito para te ajudar. Ainda bem que você se recupera rápido." Ele disse em tom de desculpas. "Pelo menos se recuperava..."
"Agra... agradeço..." Legolas respondeu, franzindo o rosto de dor ao sentir as costelas sendo levemente pressionadas pelo curativo.
"Acha que quebrou alguma?" Ele indagou preocupado, mas o elfo apenas sacudiu a cabeça, dando a entender que aquela preocupação não era necessária.
Anders suspirou inconformado, mas afastou-se, sabia que não podia ficar muito tempo ali. Ele apanhou a lanterna, mas quando estava já a poucos passos da escada, não conseguiu vencer o desejo que o trouxera até ali. Ele se voltou e encontrou o olhar de Legolas preso ao dele, como se o elfo estivesse esperando sua reação.
Anders engoliu em seco.
"Sabe o que quero perguntar, não sabe?"
Legolas sacudiu a cabeça em concordância.
"E vai me responder?"
"Não sei se tenho a resposta que você precisa..."
Anders pressionou os lábios, caminhando devagar para perto do prisioneiro mais uma vez.
"Você viu, não viu?"
"Eu não sei o que vi."
"Viu... me viu... matando meu próprio irmão... me viu dando um tiro certeiro bem no coração dele... Você viu, não viu?"
Legolas soltou o ar dos pulmões vagarosamente.
"Não... não foi o que vi..."
Anders intrigou-se.
"Então o que viu?"
"Vi um menino... muito pequeno... com uma arma que mal cabia em sua mão... vi a arma disparar e... outro menino um pouco maior cair no chão."
O rosto de Anders se contorceu.
"Pois então viu a verdade." Ele sacudiu a cabeça, impressionado. "Como faz essas coisas? Como pode ver nosso passado assim? Nossos piores atos? Nossas vilezas?"
Legolas fechou os olhos, cansado, mas logo os reabriu.
"Eu só vejo o que você... o que o incomoda... o pensamento que não deixa sua mente por um instante sequer... Eu só vejo o que... o que você quer esquecer..."
"E por quê?" Havia um tom inconformado em sua voz agora.
"Eu não sei." Legolas disse em um suspiro. "Talvez..."
"Talvez?"
"Talvez porque você precise saber..."
"Saber o quê?"
"Saber de suas culpas."
"Eu sei de minhas culpas." O outro se enervou enfim, dando as costas e caminhando até a escada.
"Não sabe..." A voz de Legolas ganhou tom inverso, baixando ainda mais o seu volume e roubando a atenção do mercenário mais uma vez.
"O quê? Por que diz que não sei? O que quer dizer?" Indignou-se Anders, caminhando novamente para perto do arqueiro.
"Porque julga sua culpa... e não foi."
"É claro que foi. Peguei a arma, escondido de nosso pai. Apontei-a para o Vincent, bem no peito e disparei."
"Não sabia que estava carregada."
"E isso importa?"
"Importa se se tem idade insuficiente até para determinar o que a expressão "estar carregada" quer dizer..."
Anders sacudiu a cabeça.
"Não... nada disso. Eu sou um assassino nato... Como todos dizem... Fiz isso porque estava no meu espírito matar e... e sou bom nisso... mato todos os dias... e não... não sinto nada com isso..."
Legolas fechou os olhos.
"Então porque tem a imagem de seu irmão à frente de todas as outras?"
"O que quer dizer?"
"Por que vê seu irmão todas as vezes que aponta para alguém?"
"Como sabe disso?" O outro voltou a afastar-se e Legolas tombou cansado a cabeça por sobre o braço estendido e fechou os olhos. Não valia a pena tomar uma discussão daquelas.
Ou valia?
A mão de Anders em seu ombro o fez reerguer as pálpebras e reencontrar o olhar angustiado do mercenário.
"Eu o vejo em todos os rostos. Em todas as vítimas..." Ele disse, bastante sério. "Até no seu."
"Eu sei..." Legolas suspirou. "Por isso quer me matar..."
Anders afastou a mão trêmula, depois deu um passo para trás.
"Quero..." Ele disse.
"Então faça." Legolas reencontrou o olhar do mercenário e segurou-o fixamente no seu. "Faça."
"Fazer o quê? É louco? Quer que eu te mate?"
"Quero... quero que erga a arma... e olhe para mim como olhou para seu irmão..."
Anders deu mais um passo para trás, seu rosto transformado pela agonia daquele instante.
"Você é louco... ou... ou está fazendo algum truque... Drago tem razão."
E dizendo isso ele afastou-se, subindo rapidamente os degraus da escada. Entretanto, quando já segurava a maçaneta fria sentiu o ímpeto de voltar. Era magia. Drago tinha razão. Aquela diabrura era uma espécie de feiticeiro ou coisa assim. Só podia ser.
"Pois bem." Ele disse para si mesmo, sacando o revolver com vigor e descendo rapidamente pelo rumo que tomara. Legolas não acompanhou seus passos. Apenas fechou os olhos, esperando pelo que estava por vir. Ele sabia o que seria e que seria pior do que o tiro que receberia, se de fato fosse receber algum.
"Então..." Anders quase gritou, quase se esqueceu de onde estava. "Ao menos olhe para mim. É tudo o que eu peço das minhas vítimas antes de mandá-las aos quintos dos infernos."
Anders esperou ser atendido, esperou com implacável impaciência. Era um matador frio, o melhor do grupo de Drago, roubava as vidas sem qualquer problema, guardava os rostos um a um em sua memória, empilhados com outras velhas lembranças.
Entretanto, se imaginasse o quanto aquele olhar seria diferente dos demais, talvez tivesse pensado melhor.
Ou talvez não.
"Vem Andy... Vamos pegar a bola e jogar no jardim! Corre antes que o papai chegue!"
"Espera! Espera, Vinny... Eu achei... vê só! Eu achei uma coisa..."
"O quê?"
"Isso aqui, olha! Igual do filme!"
"Que bacana! Deixa eu ver!"
"Não! Fui eu que achei! Mãos pra cima."
"Deixa eu ver, Andy!"
"Não, eu vou apontar pra você. Mãos para cima, Vinny!"
"Tá certo! Tá certo! Mas pára de rir senão não fica convincente. Pára de rir, Andy."
"Pára você de rir, Vinny. Se não eu vou te matar."
"Mata então. Aí a polícia leva você. Você vira bandido."
"Não viro."
"Vira sim!"
"Não viro não!"
"Vira! Vira bandido!"
"NÃO!------- Vinny? Vinny? Que foi? Que foi?"
"Tá doendo... Tá doendo muito..."
"Não... não era de verdade... não era..."
"Mas... mas tá... tá doendo muito... Me... me ajuda, Andy"
"Eu... eu não fiz de propósito, Vinny..."
"Eu sei... eu sei que não fez... Me... me ajuda, Andy..."
"O que eu faço?"
"Tá escuro... tá frio..."
"Vinny... Vinny, abre os olhos... Não dorme agora..."
"Tá doendo..."
"Vinny... Vinny, eu sou bandido? A polícia vai me pegar?"
"Não... não Andy... você... você não teve culpa... você não é bandido..."
... não é...
... não é bandido...
... você não teve culpa...
Anders abriu subitamente os olhos, sua mão trêmula ainda segurava a arma, enquanto o rosto do irmão ensangüentado convertia-se na estranha e misteriosa figura a sua frente.
"Você... não teve culpa..." Legolas disse, depois pendeu a cabeça para o lado e fechou os olhos.
"Anders! Anders que diabos! Que diabos você fez? Que inferno é esse? Você enlouqueceu, homem? Quer morrer? Quer que o Drago te mate?"
O mercenário olhou confuso a sua volta. Hemming tomava de súbito a arma de sua mão, enquanto procurava desesperadamente a chave certa em seu molho.
"Hemming..." Ele tentou indagar, procurando compreender o que se passava.
"Por que fez isso, seu miserável?"
"Fiz... fiz o quê?"
"Por que atirou nele?"
"Eu... Eu não..." Ele baixou os olhos para sua própria mão trêmula, depois os ergueu devagar, como se temesse o que estava por vir. Só então percebeu a nódoa vermelha que se criava no ombro esquerdo da vítima.
"Pelo redentor... Eu... Eu não... Eu não fiz isso... Eu..." Ele tentou dizer, enquanto Hemming abria as algemas e trancas e descia vagarosamente o corpo de Legolas para o chão.
"Seu idiota! Como foi capaz? O que cargas d'água esse infeliz te disse para que você o acertasse assim a queima roupa? Eu não acredito! Drago não o matou para você fazê-lo, Anders? O que te deu? O quê, Anders! Pelos céus, o que essa criatura te fez para..."
Um golpe seco veio interromper o incessante e inconformado questionamento, e o corpo de Hemming caiu desacordado no chão.
"Não... Não acredito... Não acredito..." Anders balbuciou, segurando o cabo da outra arma que possuía. Seus olhos pareciam dois grandes cristais. Ele então se agachou rapidamente, tomando Legolas nos braços.
"Calma, Vinny." Ele disse afagando os cabelos do elfo. "Eu vou levar você daqui... Eu... Eu vou te salvar..."
Legolas reabriu os olhos e franziu levemente as sobrancelhas tentando entender.
"Eu... Eu não fiz de propósito, Vinny... Diga que me perdoa, por favor..."
"Vincent... Vincent já... já o perdoou, Anders..."
"Não! Não!" O mercenário sacudiu fortemente a cabeça, completamente fora de si. "Diga, Vinny. Diga, por favor, que me perdoa."
Legolas suspirou e uma lágrima correu por seu rosto. Não tinha energia para tamanha dor. A tristeza humana era decididamente das mais implacáveis. Talvez por isso a existência dos edain fosse tão curta.
"Eu... Eu te perdôo... Eu te perdôo, Andy..." Ele disse e o mercenário empalideceu, os lábios entreabertos, os olhos fixos na pessoa que julgava ter junto a si. Uma a uma as lágrimas foram descendo por seu rosto até que ele abraçou o elfo com vigor e passou a soluçar inconsolável.
"Obrigado... Obrigado, Vinny..." Ele dizia por entre os fios dourados do elfo. Legolas fechou os olhos, deixando-se incorporar por tão bizarro papel agora, fazendo parte daquele estranho circo de horrores.
"Está... está tudo bem..." Ele disse por fim. Sentindo a consciência querer faltar-lhe e temeroso do que estava por vir. O que seria quando Hemming acordasse? O que seria quando Drago descobrisse o que o ensandecido empregado fizera? Pobre Anders! O quanto uma incerteza lhe roubara! Era uma pena. Um grande desperdício de vida e felicidade. Legolas ainda pensou enquanto seus olhos voltavam a se fechar pela dor do ferimento, somada a outras muitas dores, sem medicamento algum que as aplacasse.
Mas a voz de Anders voltou a soar e com ela a idéia de que o pesadelo não estivesse tão próximo do fim quanto pensava o jovem elfo.
"Eu... vou te salvar... Eu vou te salvar..." Ele reergueu a cabeça, olhando tudo a sua volta. Legolas chegou a pensar que ele havia despertado de seu transe. Mas o que se deu a seguir não foi muito conclusivo. O mercenário se levantou, trazendo o príncipe consigo, em seguida pôs-se a subir os degraus da escada com ele, puxando-o e quase o carregando, pois o elfo estava sem forças para andar sozinho.
"Vamos, Vinny. A polícia não vai nos pegar... Nós... Nós não somos bandidos..."
