Capítulo 38: O Fim de Semana – Parte V

Mesmo após chegarmos à casa de Milo e Camus, os donos da casa e Afrodite continuaram a discutir os detalhes sobre a cerimônia de amanhã. Num determinado momento, meu cansaço era tão visível que os três se apiedaram de mim e sugeriram que eu me retirasse para o quarto, pois merecia descansar. Eu me retirei, mas preferi não dormir. Em vez disso, tomei uma ducha demorada e resolvi ler um livro enquanto esperava por Ikki. Acabei adormecendo e não sei quanto tempo se passou até que ouvi a voz dele me chamando. — Oi, frango. – sorri e esfreguei os olhos, ainda sonolento.

- Oi, loiro. – aproximo-me da cama, em meio à penumbra em que se encontra o quarto – Me desculpe, eu não queria acordar você. – sento-me na beirada do leito e pronto, foi o bastante para que o filhote, até então incrivelmente obediente, saltasse dos meus braços e avançasse para cima do russo.

Não tem problema. Eu estava esperando por você, mas acabei pegando no sono. Oi, mocinho! – acariciei o saltitante filhote, que parecia incapaz de ficar quieto. – Seja bem vindo à família!

- Ele dá trabalho. O pouco tempo que passamos juntos já me deixou isso muito claro. – sorrio e faço um afago na cabeça do filhote, enquanto me inclino sobre o loiro e beijo-o na boca, saudoso de um dia inteiro longe dele. Então me sento mais confortavelmente na cama, e logo dou início à minha parte de um certo acordo – Pronto. Massagem nos pés. – digo risonho, fitando os olhos claros de Hyoga, enquanto brindo o russo com algo em que provei ser excelente: massagens – Sou ou não o melhor marido desse mundo?

Mais do que isso, você é o meu herói! – deixei escapar um gemido de apreciação. - Perfeito, amor!

Enquanto massageava Hyoga, percebi que o filhote nos observava curioso: - Esse pequenino deve estar com fome... O senhor Kimura me deu um pouco da ração que eles tinham para os filhotinhos, então vou colocar um pouco para ele comer ali na varanda, ok? - sorri para o loiro, que tinha uma expressão de relaxamento, e me levantei da cama. Chamei o cachorrinho que veio animado atrás de mim.

Coloquei um pouco de ração para ele comer e também água para ele beber, já que estava uma noite um tanto quente. Então, fechei a porta da varanda e voltei para o quarto: - E então? Onde paramos? - sorri de canto, com um olhar sugestivo para o russo.

Eu conheço muito bem esse olhar, frango! Pode ir sossegando, porque eu sou um noivo muito recatado, ouviu? Ou quase isso... – ri. – Embora as suas mãos sejam mágicas, você não vai se dar bem hoje, marido!

- Recatado, você? Desde quando, meu querido esposo? – brinquei de volta e voltei para a cama, como uma fera que cerca a presa, sem desviar meu olhar faminto do loiro à minha frente - Até onde eu sei, o seduzido dessa história sou eu. Foi você quem apareceu na minha vida como um furacão e me deixou nesse estado... - rio de leve e me aproximo para beijar Hyoga sem pressa.

Retribuí ao beijo, ainda acreditando que, se quisesse, poderia vencer a aposta. – Ok, é a minha vez de retribuir. Tira a camisa e deita de bruços, vou te fazer uma massagem. – eu disse quando findamos o beijo.

Retiro a camisa devagar, sentindo um pouco do cansaço do dia. Preguiçosamente, eu me deito sobre a cama na posição indicada. Fecho os olhos momentaneamente, esperando sentir meu corpo relaxar um pouco. - No final das contas, você gostou do seu dia hoje?

Peguei um óleo de massagem que havia em minha mala e me sentei sobre o corpo de Ikki, pondo-me a deslizar minhas mãos por suas costas em seguida. Espalhei o óleo na pele morena, apertando pontos estratégicos e desfazendo os poucos nós que havia ali. Em outros tempos, pensei, os músculos do meu moreno estariam tão tensos que só mesmo alguém muito forte seria capaz de relaxá-los. Hoje, no entanto,vejo que não há nenhum sinal de tensão nele e isso me faz sorrir. Pode parecer presunção da minha parte, mas eu me sinto diretamente responsável por isso.

Foi um dia divertido, exatamente como a preparação de uma cerimônia tão especial deve ser. Apesar de aqueles dois quase terem me enlouquecido, sei que não poderia ter companhias melhores.

Eu ri divertido com o comentário: - Nem mesmo eu...? - perguntei brincando e, antes que meu Cisne pudesse responder, virei meu corpo, invertendo nossas posições muito rápido. Agora eu me via deitado, com o corpo parcialmente sobre o do russo, aproveitando para apreciar mais do rosto do qual, eu tinha certeza, jamais me cansaria de adorar. Deslizei o dorso da minha mão pela face branca e falei, em tom baixo: - Como eu pude ter tanta sorte?...

Eu me faço a mesma pergunta sempre que olho pra você. Como eu pude ter tanta sorte? – sorrio e o puxo para um beijo apaixonado. Quanto à aposta, eu nunca acreditei realmente que pudesse vencer. Como eu poderia?...

ooOooOoo

Não há pressa. Nós dois já passamos por tanta coisa; vimos e vivemos tantas situações impressionantes que aprendemos a nos amar assim, como se o mundo lá fora não existisse e a eternidade nos pertencesse. Nos tocamos, ao mesmo tempo, com o fascínio de dois amantes se conhecendo e a necessidade de duas almas se despedindo. Os beijos inebriantes que Ikki exige de minha boca me fazem sorrir e sinto todo o meu corpo vibrar, respondendo obedientemente ao nosso contato.

Os beijos dele descem deliciosamente pelo meu maxilar e pescoço, até se concentrarem em meu tórax agora despido. Minhas mãos se embrenham em seus cabelos e eu o puxo para mim; ele mordisca minha pele, deixando marcas vermelhas em volta de meus mamilos rijos. – Ikki... – o nome sai de minha boca num gemido sussurrado, quando ele decide sugá-lo.

Estamos os dois completamente nus, mas ele ignora a dureza de minha ereção contra sua barriga para se concentrar em sua exploração no meu peito. Ikki lambe, morde, suga, assopra e beija, arrancando ofegos, gemidos e sorrisos de mim.

Ele se senta na cama e me observa, contemplando meu corpo marcado e minha total entrega. Meus olhos estão fechados, mas eu sinto a vista dele em mim, ouço sua respiração ofegante e me sinto tão quente que me toco, acariciando-me onde Ikki havia estado antes e onde quero senti-lo agora. Eu olho para cima e meus olhos encontram os dele, escurecidos de desejo. Continuo a me tocar enquanto miro o sorriso safado e provocante dele. Nossos olhares se encontram novamente e eu paro, esperando o próximo movimento dele. O meu Fênix então me estende a mão, que eu tomo sem pestanejar. Sou puxado para seu colo e, quando me dou conta, sou novamente tragado num beijo indescritível.

Ikki volta a distribuir beijos pelo meu corpo e logo eu estou novamente deitado na cama, totalmente entregue a gemidos enrouquecidos quando ele me toma em sua boca. Como sempre, agora o meu marido tem total controle sobre mim e faz um bom uso disso. Ikki me leva a beira do ápice para recomeçar lentamente sua carícia deliciosa; ele se diverte nessa provocante brincadeira e eu nada faço, apenas me deixo levar pelas sensações e, a todo o momento, lanço olhares e sorrisos luxuriosos para o homem que amo.

Quando finalmente sou libertado da excitante tortura, eu ainda não cheguei ao clímax. Ele gosta que o façamos juntos. Sentindo um tesão incontrolável, faço questão de retribuir todo o carinho e prazer que me foi dado, passando a explorar o corpo dele com verdadeira adoração. A pele morena, molhada de suor, me deixa totalmente alucinado. Perco-me em seu corpo musculoso, suas formas duras, firmes e tentadoras... Os olhos dele estão sobre mim enquanto eu lambo todo o seu corpo, literalmente da cabeça aos pés. Toco e mordo o corpo delicioso e, ao ter seu membro abrigado em minha boca, quase chego ao orgasmo apenas com o som de seus gemidos.

Nós não podemos dizer que temos uma posição favorita, mas, em dias como esse em que o romantismo nos toma e tudo o que queremos é fazer amor apaixonadamente, o olho no olho é fundamental. Assim, quando ele se deita entre minhas pernas e me penetra devagar, meus olhos buscam imediatamente os ônix escurecidos de desejo. Vejo ali uma declaração de amor silenciosa, junto ao sorriso mais lindo que já vi. Cada sorriso dele é sempre mais belo que o anterior... Sorrio de volta e minha boca busca a dele automaticamente, num beijo necessitado e entrecortado por ofegos de ambos. Ikki segura a minha mão e aumenta a velocidade de suas investidas, gemendo meu nome, beijando e mordendo meus lábios cada vez que entra fundo e nos torna um só. Ele diz o quanto me ama, o quanto eu sou maravilhoso e como ele gostaria de estar assim, dentro de mim, para sempre. - Eu também. - é o que digo. - Vem, vem pra mim... - aperto-o de encontro ao meu corpo, seguro-o e puxo seu quadril de encontro ao meu. Quero-o assim, dentro, fundo, todo em mim. Ficamos parados assim, nessa fusão perfeita, até que nossos corpos pedem mais; mais rápido, mais forte, mais gemidos e sons de nossos corpos se movendo um contra o outro.

O ritmo se torna perfeito e o prazer que domina nossos corpos é incontrolável. Com sons guturais e despudorados, chegamos ao orgasmo juntos, novamente. E enquanto ele recolhe os resquícios do meu prazer com sua língua, eu sinto o gozo dele escorrendo de dentro de mim e fecho os olhos, agradecendo aos deuses por permitirem que eu conhecesse a felicidade completa e, a meu ver, infinita.

ooOooOoo

Na manhã seguinte, eu acordei me sentindo realmente revigorado. Tinha dormido bem, tido sonhos maravilhosos, todos de alguma forma relacionados a esse futuro incrível que vem se desenhando perante nós dois. Olho para Ikki e sorrio, satisfeito. Ele dorme profundamente e me parece tão sereno, tão em paz... Fazemos isso um para o outro, penso comigo. Fomos feitos um para o outro, não há dúvidas disso. Nossa felicidade está escrita nas estrelas e nada nem ninguém poderá nos impedir de sermos felizes para sempre.

Pouco me importa se pareço um tolo com pensamentos românticos assim. Hoje é o dia do meu casamento. E eu vou me permitir ser um tolo apaixonado...

De repente, escuto um barulho vindo da porta da varanda do quarto. E logo me recordo! O filhotinho! Deixo a cama e abro a porta, para então ver um sapeca e saltitante filhote de labrador, animado e irrequieto, que pula animado sobre mim:

- Bom dia, amiguinho! Dormiu bem? – pergunto em voz baixa. Ikki está dormindo tão gostoso, não quero acordá-lo.

Vejo o cachorrinho se remexer no meu colo e percebo que ele está querendo sair. Pela coloração do céu, ainda é cedo. Todos ainda devem estar dormindo. – Ótimo. – penso comigo. Vou levar o filhote para passear e, quando voltar, começo a ajudar na preparação da festa, que está marcada para acontecer à noite. Mesmo assim, segundo palavras do Afrodite, devemos começar a arrumar tudo desde cedo, para que tudo saia impecável.

Deixo o pequenino no chão e vou ao banheiro, para rapidamente fazer a minha higiene pessoal. Em seguida, visto-me de forma casual, com uma calça cáqui e uma camisa e tênis brancos. Nesse curto espaço de tempo, o filhote encontrou um meio de subir sozinho na cama e logo estava lambendo o rosto de Ikki.

- Não, seu levado! Vamos deixá-lo dormir... – eu rio, me divertindo com a cena.

- ... Hyoga? – Ikki, extremamente sonolento, desperta e abre um pouco os olhos escuros e ainda nublados pelo sono, parecendo estranhar o fato de me ver vestido, pronto para sair.

- Estou indo levar esse menino levado para um passeio. Ele está agitado, precisa sair um pouco. Mas eu não queria ter te acordado, amor... – eu me aproximo e beijo o rosto do meu moreno, que me sorri e depois faz um carinho desajeitado sobre a cabeça do filhote, para logo voltar a agarrar-se ao travesseiro, visivelmente necessitado de regressar ao seu sono reparador.

Estava com o filhote nos meus braços e já me preparava para abrir a porta do quarto, quando escuto:

- Não demore para voltar... – Ikki diz, quase adormecido – Já estou sentindo sua falta...

Sorrio com esse comentário. E, sem dizer mais nada, deixo o quarto.

A casa estava silenciosa, indicando que realmente estavam todos ainda adormecidos. Felizmente, nosso pequenino filhote não era tão barulhento, então consegui deixar a residência do meu mestre sem que qualquer pessoa percebesse.

Na rua, eu andava satisfeito, respirando o ar puro da manhã, permitindo que aquela brisa matutina escorresse pelos meus cabelos e me deixasse aquela deliciosa sensação de que um belo dia se iniciava.

Eu estava feliz. Absurdamente feliz.

Olhei para o filhote que caminhava ao meu lado. Era realmente uma graça, ele brincava, corria, mas sempre voltava para perto de mim. Ele não estava preso por uma correia e eu tinha até mesmo me perguntado se isso seria um problema, mas, por enquanto, ele estava tranquilamente seguindo ao meu lado.

Caminhamos assim, juntos, por algum tempo; ele se divertindo com qualquer borboleta ou pequeno inseto que cruzasse seu caminho, enquanto eu seguia com a mente leve, o corpo bem desperto, o rosto sorridente. Eu explodia em felicidade. E sabia que isso era visível, mas sequer me preocupava em esconder.

Então, quando viramos uma esquina, eu vi um mendigo, maltrapilho, sentado e escorado à parede. Mantinha a cabeça baixa e a mão erguida, à espera de alguma ajuda.

Não pude fingir que não via aquela triste miséria à minha frente. Eu sempre gostei de ajudar às pessoas, mas hoje, em especial, eu queria ver o máximo de sorrisos possível. Por isso, tirei uma generosa quantia da minha carteira e coloquei na mão do pobre homem.

Ele, assim que percebeu o que eu fazia, ergueu o rosto, assustado. Eu apenas sorri de volta e ia continuar meu caminho, quando o homem me chamou:

- Senhor, muito obrigado, mas... é muito. Eu não posso aceitar.

- Por favor, aceite. – eu respondi, com a voz serena – Faça bom proveito, é o que desejo para você.

- Mas... não precisa tanto, senhor. – o homem falava, com a voz humilde – Eu... eu só queria um copo com café quente, mais nada.

Vi como esse homem me parecia tão sofrido e novamente senti aquele impulso de fazer algo de bom, sempre tão latente em mim e hoje, ainda mais:

- Não seja por isso. Fique com o dinheiro e, além disso, eu vou lhe pagar um café. Por favor, venha comigo. – fiz a ele um sinal para que me seguisse. O pobre homem nada disse, apenas me seguiu até uma padaria que havia ali perto.

Lá dentro, eu pedi um copo com café e também um pedaço de bolo, para que o homem pudesse se alimentar um pouco. Ele me agradeceu e nós nos sentamos à uma mesa que havia ali, enquanto aguardávamos que o atendente nos trouxesse o que fora pedido. O local estava vazio, por conta do horário, já que era mesmo bastante cedo.

- O senhor é muito bom.

Sorri, agradecido: - Eu apenas sigo o que meu coração me manda fazer.

- Então, tem um coração muito bom.

Eu ri de leve, um pouco mais abobado. Não conseguia tirar aquele sorriso bobo da cara.

- O senhor me parece muito feliz, também.

- Estou mesmo.

- Algum motivo em especial? – e logo o homem se emendou – Perdão, não queria ser indiscreto...

- Imagine. Sem problemas. É que hoje é o dia do meu casamento. – como foi gostoso dizer essa frase. O dia do meu casamento. Céus, eu estava realmente muito feliz...

- Ah, que maravilha. Meus parabéns. Desejo-lhe muita felicidade.

- Obrigado.

O café e o bolo chegaram à mesa. O atendente olhou um pouco torto para o meu convidado, que baixou o rosto diante disso, e depois voltou a nos deixar a sós. Aproveitei para dizer:

- Não se preocupe se as pessoas olham para você deste ou daquele jeito. As pessoas julgam em excesso, mas só você pode saber seu real valor. Nunca desista de ser o melhor que puder. E nunca se deixe sentir menos do que é por causa de pessoas que mal o conhecem. Ok?

O homem voltou a levantar o rosto e parecia desconfiado do que eu dizia. Ou então analisava a fundo minhas palavras.

Não sei dizer ao certo. O fato é que, naqueles poucos segundos em que ele me fitou intensamente, tive a impressão de que esse homem lia minha alma. Senti-me um pouco desconfortável com isso, por isso fiz menção de que iria me levantar para ir embora, quando o homem disse:

- Por favor. Não vá embora ainda.

- Eu... Preciso ir. – eu respondi, um pouco sem-graça – Meu cachorrinho está impaciente, me esperando; veja. – apontei para o filhote que estava sentado ao lado da nossa mesa, que ficava do lado de fora da padaria.

- Eu quero retribuir o que fez por mim. – o homem disse, agora com a voz mais grave.

- Não há necessidade. Eu já disse que apenas sigo meu coração, e ele me mandou ajudá-lo, portanto...

- O senhor disse que se casa hoje. Posso lhe oferecer um presente de casamento?

- Imagine! Não há qualquer necessidade de...

- Posso lhe mostrar como será seu futuro.

- Como? – não pude segurar um riso incrédulo – Olha, eu... Agradeço a intenção, mas agora preciso ir mesmo embora.

- Não quer saber o que lhe aguarda para depois do seu casamento?

- Desculpe-me, mas eu não acredito nessas coisas. – fui mais incisivo.

- Deveria. Eu não sou um vidente qualquer... Sou descendente de grandes oráculos. Nunca leu ou ouviu falar sobre aqueles que eram capazes de prever o futuro na Antiguidade? Muitas histórias mitológicas, muitas lendas gregas contavam histórias sobre esses homens...

Nesse ponto, eu não respondi tão prontamente. Tais mitos e lendas tinham muito de verdade... Afinal, eu e tantos outros cavaleiros sofremos na pele a verdade dessas histórias lendárias...

- Se quiser, posso lhe mostrar seu futuro. Isso não é algo que eu costume fazer para qualquer um. Mas percebo no senhor uma alma boa, um coração gentil. Acredito que mereça o que meu dom pode lhe oferecer.

Pensei um pouco. Ora, eu não tinha nada a perder. Mesmo que tudo isso fosse uma grande mentira, não é como se eu fosse perder qualquer coisa com essa mera previsão. E, sendo bem sincero, por mais que não passasse de uma grande conversa fiada, podia ser divertido. Esse homem parecia querer me agradar de algum modo, então era bem provável que ele me fizesse uma bonita previsão, de um futuro feliz e pleno. Aliás, esse é o futuro que eu enxergo para mim e Ikki, sem dúvidas. É o nosso futuro e essa é a mais pura verdade.

Seremos felizes. Não há qualquer dúvida disso.

- Está bem. Mas não posso me demorar. Tenho de voltar para casa...

- Claro, claro. O senhor se casa hoje, certamente tem muito a fazer. Mas isso não tomará tempo algum do senhor.

- Certo. E... Como fazemos então? – perguntei, sentindo-me até mesmo um pouco ansioso.

- Feche os olhos.

Só isso? Bom, fiz o que ele me disse e imaginei que, assim que os abrisse de volta, haveria uma bola de cristal à minha frente. Ou cartas de algum baralho místico...

Porém...

Abri os meus olhos e, surpreso, vi que já não estava mais na padaria. Olhei em volta e reconheci o lugar, embora os móveis estejam mais gastos e a pintura desbotada. Estou em meu apartamento, ou melhor, meu antigo apartamento, onde eu vivia antes de Ikki e eu resolvermos morar juntos. Eu havia abandonado este apartamento nos últimos meses, ainda estava tentando decidir se deveria vendê-lo ou apenas alugá-lo... Ouço uma tosse ao meu lado e então volto meu olhar para o responsável por eu estar ali. O homem alto, magro, careca, sem barba ou bigode em nada lembra aquele mendigo maltrapilho que eu ajudei. Não pude deixar de reparar no elegante terno preto que ele agora está usando, embora sua seriedade pudesse me intimidar quanto a isso. Olhei então para mim mesmo. Minhas roupas casuais haviam desaparecido e, no lugar delas, eu vestia uma bonita camisa de seda cinza e uma calça social preta, além de sapatos notavelmente caros - Então, você não estava mentindo. - concluo, falando mais comigo mesmo do que com ele. E me sentia perdido. Atordoado. Olhava para os lados, tentava encontrar algum indicativo de que não estivesse sonhando. Só podia ser um sonho. Mas eu sentia, com cada centímetro do meu corpo, que aquilo era real. E, de algum modo, eu sentia... Aquilo era aterradoramente real. Não sabia explicar, mas algo dentro de mim começava a me dizer que aceitar estar ali não tinha sido boa ideia. Algo dentro de mim me gritava: Isso tinha sido um erro. - Estamos mesmo no futuro? No meu futuro? – perguntei, sentindo a garganta seca, tomado por um nervosismo crescente.

- Sim, meu caro. No futuro que se desenrolará após o seu casamento, mais precisamente, 6 anos depois. Aliás, hoje seria seu aniversário de 6 anos de casamento, se... - o homem hesitou um breve instante, em ar enigmático, mas então prosseguiu - Se você e seu marido, ou melhor, ex-marido, não houvessem se separado.

Choque.

Puro choque.

Essa foi a minha reação às palavras dele. Por alguns segundos, toda a minha vida com Ikki passou em minha mente e uma separação não fazia o menor sentido depois de tudo pelo que tínhamos passado juntos. - É impossível! - esbravejei. – Impossível! Por que está mentindo para mim? O que quer? - confrontei-o, confuso. Por que aquele homem me dizia aquelas palavras?

- Sinto muito se lhe trago tão desagradável notícia. Entretanto, é preciso que fique claro. O que digo não é mentira. É a realidade, a mais pura, concreta e palpável realidade. E eu não quero nada, ou melhor... Quero sim. Quero retribuir. É como eu lhe disse na padaria. Você foi bom para um desconhecido, demonstrou ter um bom coração. Eu acredito que mereça uma recompensa e essa recompensa é conhecer seu futuro. Independente de ele ser ou não o que desejamos, conhecê-lo é algo incrível, e que nem todos têm a chance de ver antes da hora. Se ele não é exatamente o que imaginava, bem... Eu realmente sinto muito por isso, mas não havia passado pela sua cabeça que seu futuro pudesse não ser tão bonito quanto esperava? Tinha assim tanta certeza do seu final "feliz para sempre"?

Seu questionamento me fez pensar. Boa parte da minha vida, eu lutei e abri mão de minha vida para defender os outros. Fui um cavaleiro e fiz o impossível para me manter honrado enquanto estive nessa condição. Então, veio a outra parte, a parte do recomeço, o momento em que eu vivia por mim, sem a obrigação de morrer por ninguém; e, ainda assim, eu acabei sacrificando a mim e ao amor que sentia para que outros pudessem ser felizes. Eu vi a morte muito de perto por uma quantidade significativa de vezes e quando finalmente tudo fica bem, quando as coisas finalmente se encaixam, a felicidade escapará de mim. Não faz o menor sentido, é totalmente injusto. Eu não apenas tinha certeza do meu final feliz, como sei que é exatamente isso que mereço. - Eu e Ikki nos amamos demais, o que você diz não faz sentido. Não pode fazer sentido. – eu me negava a ouvir e sentia certo desespero. Eu precisava despertar. O que estava havendo afinal, onde eu estava? Aquilo não podia ser real... – Se... Se o que diz é verdade, me explique como pode ser possível! O que aconteceu? Se isso for real, eu... Deve haver algum modo de... Eu preciso corrigir isso! Não é justo. Eu mereço ser feliz, preciso fazer alguma coisa! – eu acreditava e não acreditava, estava confuso e perdido naquele momento – Então, me diga! Como uma coisa dessas pode ter acontecido?

- Essa parte, meu caro... Eu não posso lhe explicar. Não inteiramente. É algo que você terá de descobrir por conta própria. Compreenda; conhecer o futuro pode-lhe ser vantajoso, basta que saiba como lidar com as informações que forem chegando até você. Eu disse que queria lhe retribuir a ajuda, e ainda quero. Você tem um bom coração, como ficou claro para mim, e merece realmente encontrar a felicidade. Contudo, esse é um caminho que apenas você poderá percorrer. Eis então o que lhe ofereço... Neste futuro em que nos encontramos agora, seis anos após o seu casamento, você poderá permanecer por um mês. Um mês é o tempo que terá para conhecer sua vida aqui, saber que caminho ela seguiu e por quê... Ao término desse tempo, regressaremos exatamente ao nosso ponto de partida, ou seja, àquela mesa, na padaria, no dia do seu casamento. Todavia, enquanto estivermos nessa breve viagem, aqui no seu futuro, eu estarei a seu lado todo o tempo, como um guia. Quero dizer, não todo o tempo, literalmente. Mas, sempre que precisar, poderá me chamar que eu aparecerei. Obviamente, não poderei lhe dar todas as respostas que busca, mas poderei auxiliá-lo a encontrar o caminho até elas. Isso, é claro, com a ressalva de que você não poderá comentar sobre ter vindo do passado com ninguém, sob pena de regressar ao seu tempo no momento em que o fizer e, desse modo, perder a chance de descobrir o que houve com sua vida. - o homem caminhou alguns passos pelo apartamento, observando analiticamente o lugar - Algumas informações que posso lhe dar agora são... a de que você teria vindo hoje aqui para se despedir em definitivo desse apartamento, por exemplo. Seu casamento com Ikki estava já em crise explícita há dois anos, embora os motivos para tanto viessem de antes disso. Ele abandonou a casa em que viviam há um ano e, para o final deste mês, está agendada uma audiência na qual vocês deverão finalmente assinar os papéis do divórcio, depois de uma briga judicial longa e desgastante. Porém, mesmo em meio a tantas brigas e discussões, você manteve esse apartamento, possivelmente uma das únicas partes restantes de uma época já muito distante. No entanto, você deve enfim ter percebido que essa lembrança também deve ser deixada para trás. Você veio aqui hoje dar uma última olhada no lugar, ver se está tudo em ordem, se não esqueceu nada... Porque você anunciou recentemente que este apartamento está à venda. E já recebeu uma proposta de compra. Daqui a pouco, os compradores interessados deverão aparecer. Você marcou de encontrar com eles aqui, hoje, talvez para fechar logo o negócio. Ao menos, foi essa a impressão que você passou a eles; a de que quer se ver livre logo desse apartamento. Está cobrando até barato... Se bem que dinheiro hoje não é problema para você. - o homem olha para mim, que estou visivelmente bastante atordoado diante de tantas informações inusitadas - Senhor Hyoga, tanto você quanto Ikki se tornaram pessoas bem diferentes do que eram. Você hoje trabalha em uma grande empresa de informática, não lida mais com clientes que não sabem o que querem... Hoje, o senhor tem uma carreira profissional bem consolidada e cada vez mais promissora. Ganha muito bem, é um profissional respeitado e muito requisitado em sua área... – o misterioso homem faz um pausa e depois continua a falar - Quanto ao seu marido, ou melhor, ex-marido... Ikki hoje é rico, aliás, milionário. - ao notar como eu arregalo muito os olhos, mal conseguindo acreditar em tudo o que ouço, o homem prossegue, com a voz sempre calma e pausada - Não creio que lhe será tão difícil de imaginar como isso aconteceu. O senhor se recorda de quando Ikki fez uma sessão de fotos para um famoso casal, os Murakami? Aquele foi o início, o importante e decisivo ponto de partida para uma carreira meteórica, que impulsionou seu ex-marido e o transformou em um importante, poderoso e influente empresário hoje. Com a ajuda do site que você mesmo construiu para ele, Ikki tornou-se logo muito conhecido. Ele tinha talento e visibilidade, não havia nada que pudesse segurá-lo. Além de tudo, ele parecia ter uma sede muito grande em crescer, em se tornar um profissional conhecido e, no final das contas, foi o que aconteceu. Ele começou com um estúdio próprio, um pequeno estúdio de fotografias que, graças novamente à sua ajuda, e ao site que ajudou a torná-lo mais conhecido ainda, esse estúdio cresceu, criou parcerias, tornou-se mais abrangente... Ah, como a tecnologia pode ser útil nessas horas. Seu auxílio, senhor Hyoga, foi fundamental. As parcerias com outros estúdios, a iniciativa de novos projetos... Nada disso teria sido possível se não fossem pelos seus conhecimentos da área. E quem poderia imaginar como isso terminaria? Hoje, Ikki é dono de um império, as empresas Amamiya, que englobam muito mais que apenas fotografias. As empresas de seu ex-marido estão ligadas a toda forma de imagem e marketing atualmente, trabalhando em conjunto com empresas que variam, desde as mais fúteis, que lidam com moda, desfiles, tendências... quanto as mais sérias, como empresas que lidam com o meio ambiente. Ele mexe com grandes corporações, lida com homens igualmente poderosos, circula nos meios mais ricos e sofisticados... De qualquer jeito, sejam supérfluas ou não, as empresas Amamiya lucram muito com os diversos tipos de parceria e consórcio que criaram ao longo dos últimos anos...

Eu não conseguia absorver tudo aquilo. Não; aquilo era demais, que mundo era aquele? Não tinha como ser verdade.

Súbito, eu escuto um latido forte e, no instante seguinte, vejo correndo para mim, vindo do corredor do meu apartamento, um bonito labrador.

E logo reconheço. É o nosso filhote, já crescido...

- Neste futuro, você e seu cachorro são inseparáveis. Ele o acompanha aonde quer que você vá, senhor Hyoga.

Faço uma carícia no não mais pequenino filhote e penso triste... Será tudo verdade? Eu não consigo nem imaginar o que fazer agora, estou precisando de tempo para descobrir o que fazer. Não estou preparado para nada disso...

Eu ia me sentar sobre o sofá, mas nesse mesmo segundo, ouço a campainha tocar. E o oráculo me dirige olhos negros muito sérios:

- Abra a porta, senhor Hyoga. É o seu futuro. Está na hora de começar a vivê-lo.

- Mas... E se... Eu não quiser?...

- Bem, a escolha é sua. Não quero prendê-lo aqui contra sua vontade. Se for de seu desejo, basta que diga. Apenas fale que quer regressar ao seu presente e voltaremos para aquela padaria, para o dia do seu casamento. E então poderá continuar vivendo sua vida, como se nada disso tivesse acontecido.

A tentação foi grande. Meu primeiro impulso foi dizer que sim, que eu queria voltar para o meu tempo, para o meu lar, para o meu Ikki. Queria esquecer, queria que tudo isso fosse apenas um sonho, ou melhor, pesadelo.

Queria deixar todos os absurdos que eu acabava de ouvir para trás.

Entretanto...

E se fosse verdade? E se esse fosse realmente o futuro que me aguardava? Será que Ikki e eu realmente iríamos nos separar? Mas por quê? Nosso amor sempre foi tão forte, sempre atravessou os piores obstáculos, não consigo imaginar por que poderia dar errado.

Agora mesmo, sou ainda capaz de ver o sorriso bonito que ele me ofereceu antes que eu deixasse nosso quarto. Nos últimos tempos, temos sido perfeitos juntos. Bem, é claro, Ikki tem trabalhado demais, esse tem sido o único detalhe que poderia ser digno de uma reclamação, mas eu compreendo que...

Subitamente, eu tenho um estalo. E pareço me tocar de algo.

Sim, havia já um problema entre nós. Pequeno, mísero, se comparado ao nosso amor. Mas... poderia ser um embrião de algo maior e que, pelo visto, poderia crescer a ponto de se tornar o motivo da nossa separação.

Eu não tinha ideia de como isso ocorreria exatamente. E é então que eu percebo, para valer...

Se quiser salvar meu casamento, se quiser salvar o que tenho com Ikki... Eu vou precisar enfrentar isso. Vou precisar mergulhar de cabeça nesse futuro horrível e descobrir onde foi que nós erramos.

Afinal, só posso lutar contra aquilo que eu conheço.

Pois bem. Vamos viver esse futuro. Vamos conhecer esse futuro, para que eu possa salvar o meu presente.


Continua...