Capítulo 38 – Decisão – Sachiko Kurogawa

Agora as coisas foram longe demais. Ficar estressada por causa de uma porcaria de xícara de chá? Esconder uma coisa que parece superimportante da suposta melhor amiga? Acho que a Thompson-san e eu nunca fomos amigas de verdade...

Enfim, com essa história de sair uma para cada lado, eu me dei mal. A Thompson-san pegou o lado do corredor que leva para as escadas, e eu acabei dando de cara com a janela do fim do corredor... Eu não posso simplesmente voltar pelo corredor agora, então decidi ficar um tempo encarando a paisagem lá fora.

- O que você está fazendo aí, Sachiko?

Levei um susto tão grande que achei que fosse cair da janela. Virei para ver quem era.

- Marie-chan! Caramba, não me assusta assim!

Eu suspirei e deixei minhas costas deslizarem pela parede, sentando no chão logo abaixo da janela.

- Você parece que viu um fantasma, sabia?

- Não começa você também com esse negócio de ver o que não existe, Marie-chan!

Embora eu tenha falado um pouco alto demais, e assustado a Marie-chan, ela simplesmente se ajoelhou na minha frente e segurou a minha mão com as dela.

- Tudo bem, Sachiko. O que foi que aconteceu?

- Como você sabe que aconteceu alguma coisa?

- Primeiro, você estava parada e olhando fixamente para um lugar, isso nunca acontece. Segundo, você está falando tudo berrando. Terceiro-

- Pode parar. Você me conhece tão bem assim, Marie-chan?

- Terceiro – ela continuou, me ignorando. – Eu ouvi a batida de porta vindo do quarto de vocês. Duh.

- Ah – eu ri, sem graça.

- Você quer me contar o que aconteceu?

Por um instante, eu pensei em contar tudo para a Marie-chan. Explicar como a briga começou, e porque eu agora não queria mais olhar na cara da Thompson-san. Mas o instante passou, e eu decidi que era melhor não envolver a Marie-chan nisso.

- Obrigada, Marie-chan, mas acho que eu prefiro ficar sozinha agora.


Aproveitei que eu havia colocado meu conjunto de calça e moletom azul marinho e meu tênis branco e resolvi fingir que ia apenas correr por aí, como se nada fosse nada. Afinal, já que a Liechtenstein não havia falado nada até agora, se nem eu nem a Thompson-san estivéssemos por perto ninguém saberia de nada e logo esqueceriam tudo.

Perto da escola, há uma colina, não muito alta, nem muito baixa. Parecia um ótimo lugar para correr, principalmente porque correr colina acima gasta mais calorias do que o normal, e vou precisar queimar muita caloria se eu quiser encher a cara de sorvete depois.

- Fala, Kurogawa-san!

- Tarou-kun! Ohayou!

O Tarou-kun teve a mesma ideia que eu: correr para as colinas para fugir das outras pessoas. Após um longo bate-papo em japonês sobre coisas sem importância, descobrimos que nem um dos dois tinha um par para o trabalho de Artes, então nós formamos uma dupla. Quando percebi que o assunto ia acabar e nós provavelmente chegaríamos na parte em que cada um conta seus problemas, inventei que tinha outro compromisso e saí correndo colina abaixo.


- Garçom! – eu berrei. – Traz mais um sundae de morango! Com chantilly extra!

Sim, eu parecia uma bêbada enchendo a cara em um bar. Eu me importava? Nem um pouco.

- Hey, Sachiko! O que aconteceu?

- Nada, América-kun, por quê?

É sério, quanto mais você quer ficar sozinha, mais pessoas brotam na sua frente. O América-kun estava vestindo uma camisa social de manga curta verde musgo, calças jeans e um mocassim marrom.

- Se não fosse nada, você estaria em uma sorveteria tomando... – o América-kun contou as taças de sundae na minha mesa. – Sete taças de sundae?

- Sete não, oito; acabei de pedir mais uma.

- Isso não é nada bom! – o América-kun puxou a cadeira na frente da minha e sentou-se na minha mesa. – Se ainda fossem milk-shakes, até dava para aceitar!

Em outro dia, eu teria rido. Naquele sábado de manhã, eu só consegui pegar a nova taça que o garçom trouxe e começar a comer mais um sundae.

- Sabe quem você está me lembrando? – Como eu não respondi, o América-kun continuou. – O Inglaterra, quando ele começa a beber todas em algum pub por aí.

Eu congelei na mesma hora. Bati com a mão esquerda na mesa e com a direita apontei minha colher para o América-kun.

- Nessa mesa não se fala de nada que envolva o Reino Unido, especialmente a Inglaterra.

- Mas e a sua amiga, a Eli-

Bati de novo na mesa e me aproximei do América-kun, para enfatizar minhas palavras.

- Muito menos do povo inglês. E eu não tenho nenhuma amiga com esse nome. Entendeu?

Recostei-me na minha cadeira e voltei a devorar meu sundae.

- Ah! Entendi!

- Sério? – Fiquei realmente surpresa por ter sido compreendida, antes de perceber que talvez eu e o América-kun estivéssemos pensando em coisas diferentes.

- Você e a- Você e ela brigaram, não foi? Como a Guerra Americana de Independência de 1776! O mesmo inimigo e tudo!

... E não é que eu realmente tinha sido compreendida?

- Não se preocupe! O Super-América está aqui para resolver todos os seus problemas! Posso ouvir qualquer coisa que você tiver para dizer, e então podemos falar mal do Inglaterra e de seus conterrâneos até o amanhecer! Haha, você não poderia encontrar ninguém melhor para conversar!

Ao menos uma vez, eu pensei que não havia problema em o América-kun se gabar, até porque dessa vez era verdade.

Sem pensar muito no que estava fazendo, me levantei, dei a volta na mesa e abracei o América-kun com todas as minhas forças.

- Obrigada, América-kun – eu disse, antes de as lágrimas começarem a rolar pelo meu rosto. Após alguns segundos, o América-kun levantou-se e retribuiu o abraço. – Você está totalmente certo.

- Eu sempre estou certo, não é? – o América-kun se desvencilhou do abraço e me alcançou um guardanapo para secar os olhos. – Mas sobre qual parte você está falando?

- Sobre a Independência... Já tomei minha decisão. – Respirei fundo. – Eu vou sair daquele quarto.