Capítulo XXXV

~Sakura e a pequena notável~

Em mais uma de suas cirurgias, Sakura desperta dentro de si um poder que jamais imaginou possuir…

Sem perder tempo, o dia da cirurgia de Janaína chegou. Sakura estava ao seu lado na cama, segurando sua mão. Jussara, sua mãe, apenas observava e segurava o terço em suas mãos. A mulher tinha fé, mas em alguns casos, era necessário mais do que fé para que tudo desse certo em uma cirurgia.

– Doutora, vai ficar tudo bem comigo?

– Vai sim, Jana, eu vou estar do seu lado, na mesa de cirurgia.

Jana foi posta em uma maca pelos enfermeiros, Sakura e Jussara acompanharam. A cardcaptor participava da operação como parte de sua residência. Tudo estava em suas mãos, ela seria a futura cirurgiã a fazer esse tipo de operação que envolve tanto o sistema circulatório. O senhor Shuichiro apenas acompanharia, uma coisa que ele fazia cada vez mais. Antes de iniciar os procedimentos médicos, Sakura tentava compreender a fé daquela mulher:

– Jussara, minha amiga, Meiling, me contou que quando uma pessoa morre vocês costumam falar "Deus levou". Você não ia se sentir frustrada se soubesse que suas orações não deram em nada?

– Doutora, tudo tem seu tempo. Se chegar a hora de a Jana partir, eu só posso pedir a ele que cuide bem dela. Ela é tão inocente ainda, sei que ela vai ficar bem.

Sakura pode constatar que, independente de religião, a gente sempre vai querer bem nossos parentes mortos, seja na mão de Deus, de Buda ou de Guan Yin.

Sakura e o Shuichiro lembravam o passo a passo da operação: abrir um corte no osso, extrair a medula doente e implantar a nova. Os procedimentos deveriam ser feitos com calma, a saúde da paciente em primeiro lugar. Depois de tanto abrir corpos vivos e mortos, Sakura se pensava se havia um jeito mais fácil de fazer essa tarefa dolorosa. Mesmo que o paciente estivesse anestesiado, o médico sentiria a dor por ele, a dor do erro, das cisões. Deixou de pensar nisso e se concentrou na última lição de manipulação de elementos que Kero lhe passara.

As lições eram sempre a mesma coisa, imaginar um elemento, sentir suas propriedades na mão pra ajudar a imaginar, focalizar e esperar, até a magia acontecer. O que restava disso tudo era o cansaço, a energia gasta com o treinamento, que sempre cobrava sua conta.

– Sakura, matéria não é gerada do nada. Mesmo com essa bolota de pedra nas mãos, a terra veio de algum lugar…

– Será que não veio do ar não, Kero-chan?

– Sim, no ar tem partículas de terra, mas não é tudo…

– Kero-chan, dá pra curar alguém com essas aulas que você me passou? Na primeira vez eu queimei a mão e agora eu me furei toda materializando essa bolota de ferro; não tem como eu dar um jeito nisso, não?

Kero parou um pouco para responder para Sakura e trouxe a resposta depois de um longo tempo de suspense.

– Essa é a primeira coisa que todo mundo deseja, curar, funciona do mesmo jeito que com os elementos, você cria tecido com o seu ectoplasma, é isso…

– E o resto?

– Você tem que descobrir sozinha, Sakura! – Disse Kero, fazendo não com a cabeça, de olhos fechados, com as palmas das mãos levantadas para o céu.

– Kero-chan, seu malvado! Nem me explica nada!

A pergunta que Sakura fez era o desafio que enfrentava agora. Se Kero tivesse falado como se cura com magia tudo seria mais fácil. Mas ele nunca dava o peixe e esperava que Sakura pescasse sozinha e, se possível, construísse a rede, a vara e o barco para pescar. Como seria tudo tão fácil se a cada incisão, a cada queda de pressão e adrenalina que ela enfrentava naquela sala, a cada vez que Janaína dava a impressão que não resistiria àquela operação, Sakura pudesse curá-la com um simples toque gentil, evitando o mar de traumas, furos na veia e cortes que ela passava agora!

Como Sakura desejava ardentemente que aquelas incisões que ela fazia trouxesse a pressão de Janaína de volta, a adrenalina, a alegria. Desejou tanto que, quando começou o transplante propriamente dito, Sakura viu que a cada corte que fazia, Janaína não mais sangrava, sua pressão voltava ao normal e sua respiração se normalizava.

Tem certas vezes que é bom tomar cuidado com o que se deseja, principalmente quando se é um cardcaptor e se tem muita magia dentro de si, pois ele pode virar realidade, causando uma grande surpresa e estranhamento da equipe médica que te rodeia.

– E eu que pensava que ela não ia resistir! – Comentou Shuichiro.

Não tinha pessoa melhor para comentar sobre fatos estranhos do que Kero. Ele sempre tinha a melhor resposta para aquele tipo de acontecimento.

– Daí, Kero, ela melhorou e nem ficou muito tempo internada. Agora ela já vai sair de alta. Todo mundo lá na clínica estranhou o tempo de melhora dela.

Kero sorria da situação toda e soltava um ar de estupefação.

– Foi tudo culpa sua, Sakura. Bom saber que o nosso treinamento tem dado certo. Você quis tanto que ela melhorasse que ela melhorou; você colocou energia vital no bisturi. Diria até que ela nem precisava de transplante mais, só foi feito aquilo por puro protocolo…

– Eu fiz tudo só com o bisturi, é isso?

– Se você treinasse mais um pouquinho, diria até que você poderia só ter curado ela com o bisturi, como eu vejo muitos médicos por aí fazendo…

– Kero-chan, você falando assim me assusta… – Sakura baixou a cabeça temendo fazer algum mal com seu poder.

– Sakura, o que eu quero dizer é: toma cuidado com o que você mentaliza, onde você mentaliza, com quem mentaliza… eles vão virar realidade!