Sereia
Todos os que convivem com a Aria sabem que ela é sereia, mas ninguém sabe que ela também é humana. Ela pode caminha entre os humanos, mas sempre que entra em contacto com qualquer liquido a cauda de sereia aparece. Essa foi a maldição da bruxa a quem ela pagou o serviço sujo para poder ser humana. O pai dela proibiu-a de ver humanos… mas o amor que a pequena Aria sentia pela criaturas humanas de duas pernas era mais forte.
Ela passava maior parte do tempo atrás de grandes naus, acompanhando os marinheiros sem ser vista. Ela considerava-se até uma pequena guardiã para eles, mas o sucesso da sua missão só resultaria se ela ficasse escondida.
Ela passava meses atrás da mesma embarcação, observando os seus tripulantes procurando perceber o que eles faziam, o que falavam e como viviam longe de terra. Foi assim que ela "conheceu" o D. Ezra e o Sr. Smith, eram os nomes mais gritados no meio dos tripulantes. Ela até tinha na mente as suas características. O Sr. Smith tinha cabelo claro e olhos escuros, uma estrutura média e pesado e já com alguma idade. O D. Ezra tinha cabelo escuro em ondas, olhos azuis claros como o céu, músculos fortes e era jovem. Ele tinha a atenção da Aria, ela gostou dele, parecia um príncipe para ela. Durante a noite ele olhava para as estrelas, entanto a Aria se podia aproximar e olhar para ele. Ela tentava ter coragem para falar com ele inúmeras vezes, mas como sereia era um grande risco. Ela tinha de ir a terra e falar com ele, talvez… fosse agradável.
Os marinheiros avistaram terra e fizeram a aproximação, enviando outro barco mais pequeno a terra. Eu nadei para outra parte da praia onde haviam casas. Com a transformação eu fico nua, eu não tenho vergonha, mas os humanos nunca se mostram principalmente as mulheres. Avistei um grande tecido num cordel por sorte, seria o material para me cobrir.
Sequei um pouco ao sol e cobri-me antes de caminhar pela praia. Ainda é difícil andar para mim, eu balanço bastante e andar na areia é particularmente difícil. Senti as minhas pernas fracas e cai algumas vezes indo mais perto do lugar onde eles chegariam. Eles entraram na baía para a praia pouco depois, sei que posso ser vista por eles agora. Uma sensação estranha aparece no meu estômago, eu tenho algum medo que eles façam algo mau comigo como o meu pai dizia.
Olhei para o caminho da praia para o interior da mata, haviam vozes barulho para lá de algumas casas de madeira. Eu fui escondida para o interior. Vi uma mulher muito bonita com uma roupa muito melhor que a minha, claro que tinha de ter algo assim para falar com os homens do navio. Eu peguei o seu braço. "Posso ter uma roupa como a sua?" Ela olhou para mim com um olhar estranho e afastando-se. Falou alguma coisa que eu não percebi. Talvez… alguma coisa em troca… Tirei o tecido que tinha à minha volta, dei-lho e apontei para a sua roupa. Ela voltou a cobrir-me rapidamente e pegou a minha mão levando-me para algum sitio.
Ela levou-me para uma casa de madeira, sento-me presa cá dentro, mas a mulher parecia mais simpática comigo agora. Ela abriu uma arca de onde saíram bichos voadores e pó lá de dentro. Ela mostrou-me uma roupa branca que ainda parecia intacta no meio de todos os outros tecidos coloridos com buracos. Eu deixei cair o tecido que me cobria e aceitei o seu vestindo-o. Cobria o meu corpo até as minhas pernas, mas apenas pela metade como o seu ao contrario das longas roupas que usavam na terra dos marinheiros.
Eu sorri para a mulher entreguei-me o tecido que me tapava. "Obrigada." E sai da casa voltando de onde vim.
Os homens já estavam na praia puxando o barco. Eu aproximei-me agora mais hábil a andar. Eu suspirei e parei quando um deles olhou para mim, então ele gritou e apontou para mim.
"MENINA! PERCEBE O QUE DIGO?" Outro gritou.
Eu concordei.
Então o D. Ezra aproximou-se de mim, mas manteve uma distância e curvou-se. "Somos amigos e procuramos mantimentos para continuar a nossa viagem, podemos trocar alguns objectos?" Ele voltou a olhar para mim, os detalhes do seu rosto eram mais bonitos de perto.
"Eu não tenho mantimentos, eu não sou daqui, mas pessoas trocam coisas lá." Eu apontei para a mata.
"Talvez nos possa levar até lá." Ele diz.
Eu concordei caminhando com ele.
"Se não é daqui de onde vem?"
"Do mar, sou filha do mar." Ele olhou de forma estranha e eu calei-me. Era muito cedo para contar.
"O seu nome é?" Ele perguntou.
"Aria."
"Apenas Aria?"
"Sim." Ela diz com uma voz melodiosa.
"Sou o Ezra." Ela concordou como se soubesse. Ela tinha uma beleza invulgar, pele branca como as pessoas no Norte, porém o seu cabelo era castanho escuro e os seus olhos verdes. Uma mistura exótica. "Onde vive? A sua casa?"
"Não tenho uma casa." Ela diz. "O meu pai não aceitou os meus desejos."
"Ele deixou-a aqui sozinha? Sem casa?" Nunca nenhuma mulher me suscitou tanta curiosidade.
"Eu vim até aqui sozinha e não tenho casa agora." Ela diz. "As casas fazem-me sentir fechada."
Ela é uma sem abrigo... "Mas tem de ter um lugar para dormir."
"Eu quase não durmo."
Pobre mulher… ela parecia solitária à espera de ajuda de alguma alma caridosa. Também parece um pouco louca, não dizia coisa com coisa.
Instruí os marujos para fazerem as trocas com os residentes e carregar o barco. A mulher seguiu os passos de todos observando tudo o que fazemos. "Vamos partir."
Ela olhou para mim. "Já?" Eu concordei. "Talvez nos voltemos a ver." Ela diz com esperança.
A nossa viagem não planeava uma nova paragem neste local, eu sentia pena de a deixar ali sozinha. "Há quanto tempo está aqui."
"Há pouco tempo."
"Não gostaria de se juntar a nós?" A pergunta saiu mais rápido do que eu próprio esperei.
"Eu posso?" Ela pergunta com algum brilho no olhar.
"Sim, porque não." Eu digo.
Comecei a andar para o barco, mas ela parou assim que chegou à fronteira entre a areia seca e a areia molhada. "Tenho medo de me molhar."
Ela é mesmo louca… "Se tem medo do mar como pode pensar ir para um barco?"
"Eu não tenho medo do mar, apenas de me molhar." Ela diz com um suspiro. "Poderia me carregar?" Ela pede envergonhada.
"Se me permitir." Digo-lhe e ela concorda, então peguei-a ao colo e levei-a para o bote poupando as questões de todos. "A Srª Aria é minha convidada nesta viagem a partir de agora, quero respeito." Digo.
"Os navios são invenções engenhosas, pena que alguns deles estão no fundo do mar." A Aria diz.
Ninguém disse nada… será que ela foi vítima de um naufrágio perto deste local, isso pode explicar a conversa sem sentido. Os homens continuaram a remar e logo chegámos à nau. "Senhoras primeiro, suba pela rede." Digo-lhe cavalheiro.
Ela pegou a rede e começou a subir. Os homens assobiaram enquanto ela subiu e então olhei para cima vendo o seu progresso, mas o que podia ver era o que faltava por baixo do seu vestido. "Meus senhores, por favor." Alguns calaram-se, mas outros nem piscaram os olhos enquanto a olhavam.
"Aquilo é uma visão do paraíso." Eles começaram a dizer.
"Não quero ouvir mais nenhuma insinuação." Digo. Claramente a rapariga é inocente, não sabe os costumes e estes marinheiros são perversos para as lindas mulheres. "Ela está sobre os meus cuidados." Digo.
"A nova favorita do infante." Um deles diz.
"Quem disse isso?" Peço zangado. "Alguém se acuse ou vão todos pagar caro por estas palavras."
"Foi ele." Alguém acusou.
"Quero o convés a brilhar." Digo antes de subir a rede e me juntar à Aria. "Venha comigo, por favor." Digo-lhe e ela segue-me para a minha sala e compartimento.
"Do que os homens estavam a falar? Porque estavam eles a fazer aqueles sons?" Ela pergunta curiosa.
Fiquei chocado com a sua inocência. Ela não faz ideia… será que perdeu a memória? "Terei de lhe arranjar uma roupa mais adequada do que esse vestido."
Ela olhou para baixo. "Não gosta?"
Oh Deus… eu adoro… eu e todos os outros homens lá fora, mas eu não quero que nenhum homem toque sequer num dos fios do seu cabelo. "Eu gosto, mas não é o adequado para navegar com uma tripulação."
Ela apenas concordou. "Quero aprender a viver como vocês." Ela diz.
Eu sorri. "Sabe de onde vem mesmo?" Ela pareceu com medo. "Eu não lhe quero fazer mal. Podíamos ter uma oportunidade de encontrar a sua família ou o seu país?"
Ela negou. "Não me pode levar à minha família, é impossível." Ela diz.
"Sinto muito." Supus que eles morreram. "Talvez me possa falar mais de si."
Ela ficou nervosa e eu afastei-me para encontrar um par de calças e uma camisa para ela. "Eu não quero mentir, tenho medo… eu acho que não vai acreditar e depois acho que me vai querer matar ou vender. Era o que me diziam." Ela diz com medo.
"Eu não quero fazer nada disso." Eu tento dar-lhe confiança.
"Eu sinto que posso confiar em si D. Ezra." Ela diz andando pela sala.
"Como sabe o meu título?" Ela é uma bruxa?
"Eu já o observo há alguns meses, todo este tempo no mar." Ela diz. "Eu tenho viajado convosco."
"Como? Isso é impossível…" Eu fiquei sem palavras quando ela tirou o fino vestido que a cobria e ficou nua na minha frente.
"Não para mim." Ela diz antes de se sentar numa cadeira e derramar alguma água sobre as pernas. No lugar delas formou-se uma cauda com barbatana. Ela… ela é uma sereia.
"Como?" Eu afastei-me pegando a faca que tinha no cinto temendo que as histórias de encantamento fossem verdade.
Ela encolheu-se com medo, mas ainda assim falou. "Eu fiz uma oferta a uma bruxa e ela deu-me a capacidade de andar, ter as minhas próprias pernas como os humanos. O meu pai, Rei dos Mares, proibiu-me e eu fugi. Eu não me sentia uma sereia como as outras, eles não gostam de vocês por entrarem no mar e invadir o nosso espaço, mas eu sou curiosa, eu queria ver o vosso mundo. Mesmo que isso custe a minha vida." A sua voz treme com medo.
"Como sei que não nos quer matar a todos?" Ela olhou para mim com medo.
"Não quero nada disso." Ela tremeu. "Sereias apenas podem desorientar os marinheiros e eu perdi essa capacidade depois do feitiço."
Guardei a navalha depois de ver a sua vulnerabilidade. "Isto é impressionante… o seu pai é Rei?" Ela concorda. "Então é uma princesa?" Ela concorda novamente.
As suas pernas voltaram a aparecer e ela estava nua novamente. Olhei para o lado, um homem não pode ser de ferro mesmo quando na verdade a mulher é metade peixe… Dei-lhe a roupa que reuni. "Isso vai servir até encontrar algo adequado para uma mulher." Digo.
"Vai contar aos outros?"
"Não, claro que não." Ela suspirou em alivio. Eu não podia dizer senão ela estaria morta.
Ela começou a vestir tudo. "É muito grande." Ela diz. As calças estavam a arrastar e muito largar. Peguei em corda e atei na sua cintura prendendo as calças e dobrei o fundo para cima. "Obrigado." Ela diz num sussurro, olhando-me nos olhos perigosamente perto. Ela deixou cair as suas mãos no meu peito, mas uma delas subiu para o meu rosto inspeccionando cada detalhe.
"Eu tenho de instruir os marinheiros." Digo.
Ela retirou as mãos de mim. "Posso ir consigo?"
"É melhor ficar aqui, sinta-se livre para ver o que quiser. Penso que é melhor acalmar os homens antes de sair daqui."
"Eu não me gosto de sentir tão fechada." Ela olha em volta.
Eu sorri. "Nos oceanos não tem paredes, mas vai gostar da privacidade. Não vai ficar aqui o tempo todo é apenas temporário."
"Obrigado." Ela sorri.
Era tão impressionante estar no meio de todos estes objectos humanos, era tudo tão bonito e estranho. Talvez o Ezra me possa explicar a utilidade de cada um deles. Sentei-me junto a algumas janelas observando o mar, o céu e o rasto que o navio deixava na água. Podia ouvir passos e vozes no exterior proveniente de toda a tripulação.
A porta abre e ele entra, eu fiquei de pé. "Podes ficar sentada." Ele diz-me antes de se sentar e ver alguma coisa num papel à sua frente.
"O que é isso?"
"Um mapa." Diz ele. "Isto é terra e isto o mar de todo o mundo." Ele moveu uns instrumentos sobre o mapa. "Nós estamos aqui." Ele indicou.
"Isso é maravilhoso."
Ele ri. "Não é nada de especial, comparando contigo." Ele diz olhando para mim.
Senti-me corar. Porque estava ele a dizer-me coisas bonitas? "Os vossos comportamentos e objectos são curiosos."
Ele sorri. "A sério?"
Eu concordei. "Vocês usam roupas, usam palavras estranhas e fazer muitos elogios. Eu nem sei o que são estas coisas. Para que serve isto?" Apontei para uma coisa suspensa no tecto.
"Isso é um candeeiro, colocamos fogo para ver à noite." Ele explica com um sorriso.
"Isto tem fogo? Posso ver? Eu nunca vi fogo tão perto."
"Tem calma, tu vais ver à noite." Ele diz. "Estás a pensar ficar muito tempo?"
"Até não conseguir ficar mais." Eu andei pela sala e cai novamente.
Ele correu para me socorrer. "Estás bem?" Ele pergunta olhando-me.
"Sim, eu não tenho muita prática a andar com duas pernas."
"És como um bebé." Ele diz pegando-me ao colo e deitou-me sobre uma superfície macia. "Fica na cama e tenta dormir, tens um olhar cansado." Ele diz.
Eu concordei e ele puxou uma cortina sobre a cama. As almofadas eram suaves e eu deitei-me nelas tinha o cheiro dele, mas eu não conseguia dormi com aquela roupa desconfortável. Removi tudo, voltei a deitar-me e desta vez cobri-me com o tecido delicado e adormeci.
Eu podia ouvi-la movimentar, depois o silêncio e mais tarde a respiração mais pesada de quem adormeceu profundamente.
Quando acordei parecia mais escuro para lá da cortina que o Ezra puxou. Não havia sinal do Ezra na sala, mas vários candeeiros com fogo estavam suspensos no tecto. Saltei da cama com o tecido enrolado ao meu corpo, eu quero tocar na chama. "Não toques nisso." O Ezra diz entrando, mas foi tarde demais. Afastei a mão de repente quando senti o ardor. "Queres te queimar?" Ele pergunta-me aproximando-se de mim e pegando a minha mão examinando-a, então ele beijou a ponta dos meus dedos. "Vais ficar bem." Ele diz sem deixar a minha mão e olhando para mim.
Eu senti-me indefesa no seu mundo, não me posso proteger sem saber os perigos que corro.
"Tens fome?" Ele pergunta.
"Sim."
Bateram na porta. "Vai para a cama." Ele pede e eu voltei ficando atrás da cortina onde não me podiam ver. Foi alguém que deixou comida e saiu.
Peguei na taça com sopa quente com produtos frescos que trocamos em terra. "O que comes quando estás no mar?" Pergunto dirigindo-me para a cama.
Ela afasta a cortina. "Alguns peixes pequenos, algas e pouco mais." Ela diz.
"Sabes eu também gostava de aprender sobre o teu mundo, mas acho que teremos tempo para tudo isso." Digo entregando-lhe a taça e uma colher. Ela olhou maravilhada para a colher antes de a deixar na cama e inclinou a taça para beber o conteúdo. Eu sorri para a simplicidade dos seus gestos. "É bom?" Ela concordou. "Queres mais?" Ela concordou novamente. Juntei pão e queijo para ela e mais um pouco de sopa. Ela comeu tudo avidamente deixando ocasionalmente o lençol mostrar um pouco mais do que era suposto.
"Obrigada." Ela sorri. "Tu não vais comer?" Ela pergunta.
"Eu já comi. Já quase todos foram dormir." Digo-lhe.
"Também vais dormir?" Ela pergunta.
"Sim, bem…" Olhei em volta, tinha a opção de dormir no chão ou no banco longo na janela. O banco é melhor. Tirei uma almoçada e uma manta do armário e deixei apenas um candeeiro ligado. Tirei o casaco, a camisa e as botas antes de me deitar no banco. "Boa noite Aria."
"Boa noite Ezra." Ela responde.
Eu olhei pela janela, o banco era desconfortável e rijo, mas a vista para o céu estrelado é linda.
"Ezra?"
"Alguma coisa errada?" Pergunto olhando para ela.
"Porque não ficas aqui comigo? É a tua cama, não é? Cheira como tu."
Porque não me devo deitar com a mulher metade peixe? A mais linda à face da Terra… Ainda por cima nua por baixo de um fino lençol no mesmo quarto que eu. Ela não estava a fazer nada, mas a sua beleza enfeitiçou-me, estou perdidamente apaixonado por ela. A sua simplicidade e à vontade deixavam-me louco, eu tinha ciúmes de ouvir os marujos falar dela e com é bonita. Eu não quero partilhar a Aria… eu quero-a apenas para mim. Guardar o seu precioso segredo e quem sabe fazer dela minha princesa.
"Eu não acho uma boa ideia."
"Porquê?"
"Homens não se deitam com mulheres antes de estarem casados." Na verdade, alguns deitam, mas ela não tem de saber isso.
"Eu não sou apenas uma mulher." Ela mordeu o lábio. "O que é estar casado?"
"Casar é quando um homem e uma mulher se unem para a vida depois de uma cerimónia. Eles compartilham tudo a partir desse dia e mesmo quando não estão juntos, sabem que se amam e que pertencem um ao outro."
"Parece importante e bonito."
"E é."
"Achas que… que homens e sereias podem casar?" Ela pergunta.
"Eu acho que se todos acharem que a sereia é uma mulher, ninguém notará a diferença." Ela estava de pé ao meu lado sem o lençol para a cobrir. "O que estás a fazer?"
"Esse lugar é desconfortável, não tenhas vergonha de te deitares comigo."
"Aria…"
"Ezra, por favor…" Eu fiquei de pé, então ela removeu as minhas calças. Eu não tive forma de a impedir, o seu toque na minha pele parecia seda. Estamos ambos nus, parecia natural para ela ficar assim na frente de um estranho. Lembrei-me da sua aparência como sereia, seria praticamente igual. Ela levou-me para a cama em silêncio e deitei-me depois dela. Tapei-me até à cintura com o lençol. Ela fez o mesmo deitando-se de bruços e abraçando a almofada.
Suspirei e fechei os olhos. Ela é muito sensual sem querer, tenho de me controlar perto dela… não posso agir por impulsos. Senti-me observado e abri os olhos.
Ela estava sentada a olhar para mim. "O que se passa agora?"
"Eu não tenho sono."
"Mas já é tarde."
Ela concordou, inclinou-se fechou a cortina e deitou-se olhando para o tecto de tecido. Consegui ver os seus contornos com a pouca claridade. Eu inclinei-me para ela e beijei a sua testa. "Dorme bem."
Ela virou-se para mim depois disso e tocou no meu rosto antes de me beijar na bochecha com uma ternura extra. "Dorme bem."
Num primeiro momento com a Aria aprendi que as sereias adoram tocar em tudo, ou pelo menos, ela adora. Acordei com a mão dela no meu peito e leves beijos por baixo da minha orelha. Podia dizer que é um dos meus pontos fracos, mas a verdade é que todos os pontos são fracos quando ela os toca.
"O que estás a fazer?" Pergunto ainda com voz rouca antes de pegar na sua cintura nua e me voltar para ver os olhos dela mesmo ao meu lado. Ela deu-me um sorriso em provocação.
"Tenho fome." Ela diz aproximando-se mais de mim novamente, colocando as mãos no meu peito e a cabeça mesmo por baixo de meu queixo beijando o meu peito enquanto as suas pernas brincavam com as minhas por baixo do lençol. Ainda não posso acreditar que ela não tem nem um pouco de vergonha de mostrar os seus sentimentos ou o seu corpo. Ela é transparente como a água…
"Em breve entraram para deixar comida para nós." Digo-lhe mantendo as minhas mãos na sua cintura prendendo-a perto de mim como ela desejava.
"O que vamos fazer até lá?" Ela pergunta.
"O que queres fazer?" Passei a mão ao longo das suas costas.
Ela afasta-se de mim e olha-me nos olhos. "Eu… eu gostava de fazer algo que eu uma vez vi."
"O quê?"
Ela aproximou-se do meu rosto. "Eu acho que chamam beijar... aqui." Ela diz num sussurro tocando nos meus lábios com o indicador.
Eu não consegui tirar os olhos dos dela enquanto humedecia os meus lábios secos na antecipação da sensação dos meus lábios com os dela.
"Onde viste isso?"
"Num porto há muito tempo, um homem e uma mulher juntos." Ela diz.
"O que sentiste quando os viste beijar-se? Como eles pareciam?"
"Eles pareciam felizes quando o fizeram, eu queria sentir-me assim feliz como eles."
Eu subi para uma posição sentado para a poder encarar melhor. "Esse tipo de beijos quer dizer que estão apaixonados." Eu explico-lhe.
"Hum…" Ela olhou para as próprias mãos, é a primeira vez que a vejo hesitante.
"O que estás a pensar?" Peguei na sua mão, eu próprio tenho de tomar coragem para algo assim. Se estou apaixonado por ela tenho de o admitir, mas… ela sente o mesmo ou é apenas curiosidade?
"Eu vi-te todo este tempo e sempre imaginei poder ser humana contigo. Tu és tão simpático comigo… eu quero retribuir isso e fazer-te feliz." Ela diz.
Eu sorri com as suas palavras. "Queres fazer-me feliz com um beijo?"
"Eu não tenho mais nada… mas, tu não estás apaixonado por mim." Ela olha para mim depois de dizer isso. Ela ainda estava insegura.
Peguei no queixo dela para a fazer olhar para mim. "Quem te disse que não estou apaixonado?"
"Eu pensei…" Ela não completa o seu pensamento, mas já não era necessário. Eu afastei o seu cabelo e fui ao encontro dos seus sedosos lábios que beijaram os meus com desejo.
Afastamo-nos apenas por alguns segundos em que brinquei com o seu nariz antes de a beijar novamente. Ela abriu ligeiramente a boca permitindo-me duelar com a sua língua pela dominância. Apesar de inexperiente ela estava a ganhar pois durante o beijo o seu corpo avançou ao encontro do meu tornando-me ainda mais consciente dos nossos corpos juntos sem qualquer barreira física. Os seus dedos entrelaçaram nos meus e a outra mão na minha nuca fazendo-me sentir nas mãos dela. Ela tinha-me nas suas mãos, sou prisioneiro do seu coração e do seu corpo esbelto em cima do meu.
Afastamo-nos apenas quando alguém bateu na porta. Eu permiti a entrada e quem quer que fosse deixou o comer na mesa e saiu. "Está na hora de comermos."
Ela sorri para mim enquanto eu me levanto para lhe trazer algo para ela comer. "Cheira bem." Ela comeu mais uma vez com gosto, mas observou-me fazendo os mesmos gestos que eu.
Peguei nas minhas roupas que estavam esquecidas em cima da cadeira e do chão. "Vamos ter de nos vestir."
"Pensei que não seria mais necessário." Ela diz.
"Se queres sair desta sala e estar com outras pessoas vais ter de usar." Ele diz passando as mãos pelo cabelo na esperança de pentear as ondas desarrumadas. Eu perdi-me olhando o seu corpo novamente e voltando ao seu rosto que ainda me olhava.
Caí na cama sobre as almofadas. "És bonito Ezra."
Ele sorri e sobe na cama inclinando-se sobre mim. "Tu és linda, nunca vi uma mulher mais bonita na minha vida. Talvez por isso seja tão fácil me apaixonar por ti." Ele beijou-me novamente e eu sorri para ele.
O meu coração bateu mais forte, ele considera-me mais bonita que mulheres da sua espécie e diz que está apaixonado por mim. Eu amo-o, desde o primeiro dia que o vi ao longe no navio sabia que ele seria especial, eu contemplei e tentei esquecer a minha obsessão por meses, mas a cada dia o meu coração pedia mais para me aproximar dele.
Ambos saímos da sala e lá fora os marinheiros faziam os seus trabalhos, com cordas, redes e limpeza nas armas. Ele levou-me até a um leme, usou uma bússola, um monóculo e explicou-me algumas coisas. A cada palavra dele ia ficando mais encantada pelo seu conhecimento.
"És tão inteligente." Disse-lhe. Ele sorri beijando a minha testa e inspeccionou novamente a bússola. O meu coração bateu um pouco mais rápido. "Eu amo-te Ezra!" Ele olhou para mim espantado com as minhas palavras. "Tu não sabias, mas eu estive por meses atrás do navio, observando-te e sonhando como seria falar contigo." Peguei as mãos dele. "Quando ofereceste para me trazer até aqui eu fiquei radiante. Viver sozinha atrás de um navio que se move todo o dia e noite é duro." Eu ri de nervoso, eu quero que ele me aceite na sua vida. "Tu ofereceste-me tanto, nunca terei forma de recompensar."
Ele beijou a minha testa novamente. "Não tens de agradecer, eu tenho um grande carinho por ti Aria. Não posso dizer que é puro amor quando estamos apenas há um dia juntos, mas eu sinto-me muito bem quando estou contigo, sei que posso confiar em ti e o meu coração é absolutamente teu neste momento. Apenas o tempo pode dizer o quanto te amarei." Ele diz.
"A verdade significa muito para mim. Obrigado."
Ele abraçou-me, não havia lugar mais seguro para estar. A nossa afinidade é forte e a nossa atracção foi rápida. Não sentirei falta de ser sereia enquanto tiver o meu lindo príncipe ao meu lado.
Obrigada pelos comentários EzriaBeauty! Eu dei uma bela volta à história da Pequena Sereia... eu nem sei se posso dizer que foi inspirado nela porque dei-lhe uma volta tão grande que fui à China e voltei xD Deixem-me saber o que pensam disto!
Obrigado por lerem! Espero que tenham gostado!
Próxima actualização 20 de março (terça-feira) A Última Dentada OU O Meu Refúgio?
