CAPÍTULO 37 – ESPÓLIO
Ao ver a mão de Kuon suspensa no ar, Kyoko se cobriu imediatamente, soltando as peças de roupa que ela deslocou e cruzando os braços sobre os seios como se estivesse se protegendo de um pervertido.
"Parece que ela finalmente entendeu o que eu sou", ele pensou.
A ele, ela parecia uma donzela irritada que fora flagrada em pleno banho e o olhava acusadoramente, o que o intrigava, considerando-se que foi ela a mentora da proposta escandalosa.
"Eu vou poder tocar em você, também?"
Oh, então era isso. Ele devia ter imaginado.
A expressão dela se tornou desafiadora, e ele trazia o inegável semblante de "adulto prestes a dar uma bronca em uma criança mimada".
"Que tipo de barganha é esta que você pretende fazer comigo?"
"Uma barganha justa! Por que você tem que ser o único a ver e a tocar?"
Encaravam-se, desafiadores.
"Sua virgenzinha petulante! Não satisfeita em me levar à loucura, agora quer ditar regras?"
Como Kuon previa, ela ergueu ainda mais o queixo, desafiadoramente. Havia algo dolorosamente sensual em vê-la de pé, olhando-o de cima, com a blusa parcialmente aberta e os seios precariamente escondidos, em uma postura que combinava perfeitamente força e vulnerabilidade.
"Eu deveria deitar você sobre os meus joelhos e lhe dar uns bons tapas no traseiro, para que assim você aprenda a não brincar com o que desconhece!"
Kuon viu o momento exato em que as palavras dele foram compreendidas, já que o arquejo e o rubor que se seguiram foram indisfarçáveis, mas o mais delicioso e surpreendente para ele foi perceber, pela maneira como os olhos dela buscaram a visível protuberância na calça dele, que a ideia a excitava. Uma barreira invisível se rompeu dentro dele, sendo substituída pela constatação de que talvez, talvez ele pudesse se revelar a ela. Afinal, manter a si mesmo sob rédeas curtas era cansativo e frustrante. Quem sabe, se ele deixasse o animal selvagem que existia dentro dele correr solto por alguns instantes, ele voltasse para a jaula um pouco mais apaziguado?
"Quem é você?", Kyoko se perguntou no instante em que ele simplesmente relaxou e adicionou confiança ao olhar ardente que destinava a ela. Tudo nele a alertava para o fato de que ela estava encrencada. Deliciosamente encrencada. Ele parecia ter perdido completamente qualquer temor sobre o que ela poderia sugerir ou fazer, o que tirava dela qualquer poder ou vaga noção de controle que ela julgava possuir sobre ele. Kuon tinha a postura de um jogador experiente, e ela havia acabado de ser descoberta no blefe.
Ela, que pensava já ter conhecido todos os níveis da própria excitação, agora era apresentada a mais um: sentia os seios pesados, a calcinha estava encharcada e um calor arrebatador que a fazia ver tudo em câmera lenta se abatia sobre ela. Ela também pensava, pobrezinha, que não se surpreenderia mais com o "Imperador da Noite", mas agora descobria que o que ela julgava ser o nível máximo de provocação, para ele não passava de um flerte sensual. Kuon era capaz de mais, muito mais: ele a submeteu apenas à versão contida de si mesmo. Uma gentileza, uma cortesia, um gesto cavalheiresco de um homem que tentava demonstrar os próprios sentimentos sem sobrecarrega-la com mais do que ela poderia suportar.
Aparentemente, não mais.
"Deve ter sido muito difícil para ele", ela constatava, "achar a dosagem adequada". Kyoko se indagava sobre o que aconteceria a ela se ele tivesse total liberdade para agir como bem entendesse, sem se preocupar nem com a modéstia, nem com a inexperiência dela, e se a imagem que ele era no momento fosse algum indicativo, Kyoko concluía que ela provavelmente seria devorada por completo.
No segundo em que ela chegou a esta conclusão, Kuon interrompeu a silenciosa avaliação mútua. "Mas que tipo de punição seria levar alguns tapas no traseiro, se a ideia parece agrada-la tanto?"
Foi o golpe final para a bravata de Kyoko virar pó. Assim que ela deu um passo para trás para fugir da situação, que em termos de sensualidade excedia em muito o que ela se sentia confiante para lidar, ele estendeu novamente o braço e a puxou para si.
Antes dela conseguir perceber que estava de bruços sobre as pernas de Kuon, o primeiro tapa a fez ofegar. No segundo tapa, ela se deu conta do que estava acontecendo e passou a se debater, indignada. Mas no terceiro, ela percebeu que ele não estava sequer usando força, portanto não a estava machucando, e sim...
Kyoko sentiu a mão dele subindo pela saia que ela usava e apalpando a nádega que ele atingiu sem ferir. As três palmadas no traseiro pareciam, agora, um mero pretexto para acaricia-la ao final da "surra". Ela arfava como se houvesse acabado de competir em uma maratona, enquanto ele produzia alguns sons baixos e roucos de aprovação que pareciam vir de um animal ainda não catalogado.
Em uma espécie de transe, ela não conseguiu esboçar reação quando ele enganchou os dedos nas laterais da calcinha e lentamente desceu a peça, primeiro pelos quadris, depois pelas coxas, joelhos, panturrilhas, tornozelos, e finalmente para fora do corpo dela. Ouviu-o inspirar profundamente, expirar um gemido rouco e murmurar "delicioso". Ela ruborizou violentamente ao cogitar que ele tivesse cheirado a calcinha dela e se esforçou arduamente para tentar convencer a si mesma que ele não era tão pervertido assim.
Certo?
Ele a sobressaltou mais uma vez quando a endireitou no colo dele, acomodando-a sentada e abraçando-a com um suspiro satisfeito. Ela podia senti-lo duro como pedra, portanto não compreendia como ele, após remover a calcinha, estava se limitando a segura-la junto ao peito. Confusa, ela levantou a cabeça e olhou para Kuon.
Kuon estava com a expressão faminta, mas não olhava para o rosto dela, o que a fez acompanhar os olhos dele e constatar que ele estava absolutamente concentrado em examinar, mais uma vez, os seios dela, ou pelo menos o que a blusa parcialmente aberta e o sutiã ligeiramente deslocado o permitiam ver.
Ela parecia ter algum controle sobre ele quando exibia os seios, quase como se o hipnotizasse, portanto, a fim de checar se tal teoria era verdadeira, Kyoko descobriu totalmente o seio esquerdo e se afastou ligeiramente do peito de Kuon. Em uma pergunta muda, ela moveu as mãos trêmulas ao cinto da calça que ele usava, e como não obteve qualquer reação, ela lentamente começou a despi-lo.
Kyoko teve um breve pensamento sobre ele estar petrificado, já que somente respirava ruidosamente, mas quando ela percebeu que não conseguiria fazer muito mais na posição em que eles estavam e se perguntava como resolver a situação, ele a surpreendeu deitando-se e fazendo-a escorregar do colo dele para o sofá, mostrando a ela que ele, apesar de não tirar os olhos do corpo dela, estava ciente de tudo que acontecia ao redor.
Ele exibia um sorriso devasso enquanto a observava e cruzava os braços atrás da cabeça como apoio, fazendo a camisa subir alguns centímetros e expor parte do abdômen. Ela parecia uma gazela assustada e indefesa, porém curiosa demais para desistir ou correr na direção contrária. Os olhos ansiosos dela pousavam ora no rosto dele, ora no abdômen, ora na óbvia ereção confinada, e era uma boa coisa que ele tivesse prendido os próprios braços atrás da cabeça, porque a combinação entre as bochechas ruborizadas, o seio descoberto e os enormes olhos reluzentes faziam um enorme estrago no autocontrole dele.
Percebendo pelo semblante pervertido que ele a autorizava a prosseguir, Kyoko abriu o zíper e afastou as lapelas da calça, ficando frente a frente com a cueca de Kuon e a inegável excitação que não parecia envergonha-lo. As mãos dela tinham vida própria, movendo-se incontroláveis para o trecho de abdômen exposto, e depois um pouco mais acima, em consideração ao gemido apreciativo que ele soltou e à súplica silenciosa dos músculos que pareciam implorar para serem tocados a cada contração.
Após alguns momentos apenas delineando a musculatura abdominal de Kuon e observando-o saborear a carícia de olhos fechados, as mãos de Kyoko foram descendo lentamente até a faixa elástica da boxer, onde pararam tempo suficiente para que ele abrisse os olhos enevoados e a observasse, muito vermelha, mordiscar o lábio inferior antes de descer ligeiramente a cueca e... parar, com a expressão mais deslumbrada que Kuon já a tinha visto fazer na vida.
Ele poderia se gabar, se fosse o tipo de homem que se gaba, de ter presenciado uma boa variedade de reações femininas àquela parte da anatomia, mas nunca algo parecido com a reação de Kyoko, o que o fez ruborizar e se erguer nos cotovelos. Talvez, se ele visse o mesmo que ela, ele conseguiria entender a razão para a inusitada expressão que ela trazia no rosto.
Surpreendeu-se ao ver que ele permanecia coberto, contudo...
"Você... você é loiro!"
"Oh. Claro"
"Você realmente é loiro!"
A voz dela não passava de um sussurro fascinado e soava como se ela não usasse a garganta há séculos. Algo naquela situação era estranhamente terno: talvez fossem os olhos dela, arregalados de espanto, ou o fato de que ela agia como se não estivesse com a cabeça a poucos centímetros do pênis dele, encarando muito próxima os pelos pubianos que gritavam ao mundo a linhagem que ele tinha.
"Bem, sim. Mas isso você já sabia, não?"
"Não, eu não sabia!"
Ele estava prestes a perguntar como era possível que ela não soubesse disso, já que ela sabia que ele era Corn, quando os dedos dela o tocam, interrompendo completamente qualquer pensamento coerente que ele pudesse ter.
Ela sequer refletiu sobre o que estava fazendo: aqueles pelos dourados e fascinantes imploravam para serem tocados. Era uma completa surpresa para ela, que jamais pensou sobre regiões pubianas, menos ainda que fosse possível um loiro ter pelos pubianos loiros, ainda que os de Kuon fossem alguns tons mais escuros que o dos cabelos.
Acariciando os pequenos cachos, Kyoko inevitavelmente tocou algo quente, úmido e sedoso, e foi fácil concluir o que era. Ela permanecia tomada de tal fascínio, que a despeito da mortificação que sentia pela própria ousadia ela foi incapaz de controlar a curiosidade e abaixou a boxer um pouco mais.
À satisfação por ter sido tocado seguiu-se o alívio por se ver livre do confinamento da última peça de roupa. Depois... nada. Lembrando-se de Kyoko, ergueu-se novamente nos cotovelos e olhou para ela, encontrando-a com um esgar entre medo e incredulidade.
"Finalmente uma expressão eu já vi antes", pensou sardonicamente. "Kyoko?"
"Não não não não não não não não não"
"Meu amor, calma, não há motivo para pânico!"
"Não há motivo... não há motivo para pânico?" Ok, talvez ele fosse um homem cruel, por ver o desespero nos olhos lacrimosos dela e ainda assim ter vontade de rir. "É fácil para você dizer isso, não será em você que essa monstruosidade vai entrar!"
Quando ele explodiu em uma gargalhada, ela tentou se levantar, indignada, mas foi impedida mais uma vez pelos reflexos rápidos de Kuon, que se sentou e a trouxe para mais perto dele.
"Ora vamos, não é tão grande assim!"
"É enorme! De jeito nenhum vai caber!"
Ela ficava mais perplexa e irritada a cada instante, já que ele somente ria e dispensava as palavras dela como se fossem absurdas. Kuon, pressentindo que o humor dela azedava, esforçou-se para se controlar e para apaziguá-la.
"Meu amor, por mais que seu medo seja lisonjeiro, há algo que eu preciso lhe esclarecer"
Ela o olhava desconfiada e com o lábio inferior ligeiramente projetado, como ela sempre fazia quando ele ria dela e que sempre o deixava ávido por beija-la. Pigarreando para ganhar tempo e desviar a atenção dos próprios pensamentos libidinosos, Kuon se lembrou de um acontecimento daquela mesma noite que poderia contribuir para faze-la compreender o que ele pretendia dizer.
"Façamos um exercício de suposição, sim? Digamos que Aiko-chan seja filha de Naomi-san" Ele precisava conceder que Kyoko conseguiu manter a expressão absolutamente neutra, o que por um momento o fez ter dúvidas a respeito da própria suposição. Kyoko atuou tão bem, que se a semelhança física entre Aiko e Naomi não fosse tão óbvia e a diferença de idade tão gritante, ele mudaria a suposição para cogitar que elas eram irmãs. "E vamos supor que Aiko-chan tenha nascido de parto normal. Ora, você e Naomi-san tem uma estrutura física bastante parecida, e ainda assim ela conseguiu expelir um bebê de... digamos... cerca de 45 centímetros de comprimento e 3 quilogramas de peso?"
Kyoko, percebendo que não adiantaria continuar fingindo, apenas acenou com a cabeça. Sorrindo satisfeito, Kuon prosseguiu. "Então, se ela conseguiu este verdadeiro feito tendo uma estrutura parecida com a sua, eu não vejo motivos para a minha destemida namorada não conseguir acomodar o meu injustiçado pênis!"
Ela arquejou indignada. Kuon era terrível, absolutamente terrível! Ele estava conseguindo dobra-la com o tom calmo e sussurrado de voz enquanto depositava suaves beijos no rosto e no pescoço dela, mas aquela frase final foi totalmente constrangedora e desnecessária!
Ela se debatia e o recriminava pela falta de vergonha, enquanto ele ria e a beijava com mais ímpeto, dizendo algo sobre aquela ser a retribuição por ela ter rido às custas dele no jantar. Todas as forças que ela tinha para tentar empurra-lo a deixaram quando a mão dele subiu pela coxa, fazendo-a ofegar.
"Você ainda quer toca-lo?", foi a vez dele perguntar. Como a expressão dela estava indecisa, ele decidiu pressionar. "Vamos, eu tenho certeza que vocês podem se tornar bons amigos, se se conhecerem melhor!"
Ela tentou não pensar sobre como era estranho que ele se referisse a uma parte do próprio corpo na terceira pessoa e arriscou olhar para baixo, mais para fugir do olhar dele do que para analisar a proposta. Receosamente, ela aproximou a mão, e quando o tocou sentiu Kuon apertar a coxa que ele ainda segurava e soltar um longo silvo.
Os dois olhavam para baixo: ela observava atentamente os movimentos da própria mão enquanto analisava, apesar da timidez e da incerteza, o membro, e Kuon a observava, muito curiosa, toca-lo meticulosamente. Aquilo estava mesmo acontecendo, ou era só mais um sonho erótico?
Ele somente se convenceu de que não era um sonho quando percebeu que ela calculava o tamanho usando os próprios dedos como régua e balbuciava as medidas. Nem em sonhos ele conseguiria conjurar um comportamento tão exótico, o que o fez sorrir apesar da quase dolorosa excitação. Quando ela o segurou para sentir o peso – por que raios ela haveria de querer saber o peso do pênis dele era algo que ele não pretendia descobrir – Kuon não conseguiu evitar o gemido rouco de prazer, nem a gota translúcida que o membro já úmido expelia.
Quando ela arregalou os olhos e murmurou admirada que aquilo também acontecia com ela, Kuon não pôde mais se conter: ele apertou a mão dela em volta do membro pulsante e a beijou avidamente.
No frenesi das línguas, com uma mão ele a ensinava a estimula-lo e a com a outra mão ele procurou os lábios que ele repreensivelmente ignorou a noite toda. Logo ele já não precisava guia-la, pois o desejo e as ondas de prazer que os dedos dele provocavam nela naturalmente a faziam apertar e massagear o membro. Com uma mão livre, ele conseguiu posicionar a cabeça dela para ter melhor acesso, e depois de se fartar com o pescoço de Kyoko, Kuon tocou reverencialmente o seio desnudo.
Kyoko já gemia em staccato. O que quer que ele estivesse fazendo com ela, era muito melhor do que a primeira aula que ele deu e nem se comparava às desajeitadas incursões que ela fez sozinha depois disso. Ele a tocava como um musicista genial, extraindo dela sons e notas que ela não se julgava capaz de produzir. De alguma forma, aquela coisa que ela acariciava já não era tão assustadora quanto antes, e ela cogitava até que fosse o remédio exato ao desconforto que ela sentia.
Por olhos entreabertos, eles se observavam ofegantes e desalinhados. Por lábios entreabertos, sussurravam o nome um do outro. Quando Kyoko viu a reverência com a qual ele apalpou o seio dela, ela instintivamente o apertou com mais força e o massageou com mais rapidez, deixando-o mais ofegante e fazendo-o retribuir com carícias mais intensas.
Incapaz de resistir à tentação, ele pôs a boca no seio nu e empertigado de Kyoko, dando especial atenção ao mamilo que o enlouquecia. Gozaram juntos, não muito tempo depois, na mão um do outro, caindo exaustos e saciados no sofá, onde abraçados se entregaram ao sono.
###
Durante a madrugada, Kuon despertou. Foi com muita dificuldade que ele se desvencilhou de Kyoko, não apenas por ela estar enroscada nele, mas principalmente porque ele não queria ir embora. Com todo o cuidado, tomou-a nos braços e a levou para a cama, sorrindo quando ela murmurou o nome dele.
No estacionamento, retribuiu sem jeito o cumprimento de Dimitri, sem saber que o segurança agradecia aos céus que o casal estivesse reservando ao quarto o que quer que eles tivessem feito naquela noite para deixar Ren constrangido.
Quando ele colocou a mão no bolso da calça a procura da chave do carro, sorriu ao sentir a calcinha que ele guardou como espólio daquela noite memorável.
Na manhã seguinte, os funcionários do condomínio de Ren comentariam discretamente como era a primeira vez que eles viam o ator assobiar pelos corredores do prédio.
N/A – Ah, e com isso eu liberei pelo menos um ano de frustração com o progresso lento do mangá! XD
Por algum motivo eu tenho a convicção de que Kyoko e Kuon são o tipo de casal que trafega livremente entre a sensualidade tórrida e o humor. Eu simplesmente não consigo visualizar uma única cena sensual entre os dois que não envolva Kyoko falando ou fazendo alguma coisa absolutamente cômica, e tenho a impressão de que Kuon é do tipo que gosta de provocar com os comentários mais inusitados! XD
Como sempre, obrigada por me acompanharem! Beijos!
