História Trinta e Seis: O homem justo
A luz era ferida na alma dos que aguardavam.
A Casa de Leão tornou-se luz. Uma explosão que se ergueu aos céus anunciava a total destruição de tudo que ali estivesse. Em conseqüência, o impacto causou um grande tremor, abalando outras estruturas. Nas redondezas, fortes rajadas de vento impediam a aproximação de quem fosse. "Que Cosmo… colossal!", pensava Delfos em sua morada, resistindo às rajadas que recebia. No fim, permaneceu intacto, assim como sua morada. Nada sobreviveria àquilo.
No lugar da Casa de Leão agora jazia uma cova imensa. Boa parta das escadarias que saiam e entravam na morada haviam sido destruídas. Muita poeira e destroços para todos os lados. Não se sentia presença alguma. Tudo retornou a paz.
Por todo Santuário diversas pessoas analisavam o acontecimento. A batalha havia chegado ao seu fim. Ninguém possuía forças para continuar depois disso. O medo e a dúvida por várias coisas faziam todos rezarem para que tudo estivesse bem. Para que nenhum dos lados tenha sido penalizado por tal destruição. Foi então que, após toda a destruição, surgiu um brilho. A esperança voltava aos corações aflitos, mas nem todos.
Levantando-se, Geord observou o pequeno brilho que ainda radiava da longínqua Casa de Leão. Ele sentia algo, uma presença conhecida muita fraca. Entendendo o que era, um sorriso cobriu seu rosto. Estava radiante, pois sabia que por mais inacreditável que fosse seu mestre estava vivo.
- Orrin… ainda vive! – falou Timeus sem acreditar – Sim! Ainda posso sentir sua fraca presença irradiando bravamente de Leão. Ele sobreviveu a Ira Divina.
- O quê? – perguntou-se Remo – Mas como isso é possível? Meu pai não pode ter errado. Ele nunca errou, e não cometeria tal erro justamente agora. O que poderá ter ocorrido?
Repentinamente, o conhecimento surgiu aos olhos de Remo. Não conseguia acreditar como aquilo seria possível. Tinha certeza que só poderia ser engano. A idéia era absurda. "Não pode ser que…".
Ao longe, pode-se avistar um brilho dourado que caia na direção de Leão. Não era uma estrela cadente. "Aquele Cosmo é de Sagitário", pensou Timeus. "Então tomou a iniciativa de ir ver o que houve. Espero que esclareça nossas dúvidas".
Escombros da Casa de Leão.
O Cavaleiro de asas douradas pousou. Desde que sentiu a fraca presença de Orrin já havia tomado sua decisão, mesmo representando deixar sua morada desprotegida. Correndo em busca de alguém vivo, Ícaros apenas se deparava com escombros. Toda a belíssima Casa de Leão havia sucumbido ao impacto. Não imagina como algo poderia ter sobrevivido a tudo aquilo.
Então, avistou o brilho ali próximo. Deslocando-se rapidamente, tomou como foco a luz que ali irradiava. Ao se aproximar, viu uma cena inacreditável. Fixada ao chão, a lança de Ares tremulava ao vento. Ela havia acertado algo. Trespassado exatamente no coração, estava um quase falecido Liath. A única coisa que o mantinha de pé era o apoio da lança fincada. Muito sangue já havia escorrido, assim como a vida do General. Não entendo o porquê de tudo aquilo, Ícaros se aproximou gradativamente. O filho havia sido morto pela Lança do Destino.
- Mas… por quê? – perguntou incrédulo o triste Ícaros – Qual o motivo de tal ato?
A cabeça baixa de Liath ganhou vida. Com um grande esforço, tentou observar quem estava ali. Analisou fracamente os contornos turvos do Cavaleiro de Ouro. Viu o brilho das asas que caiam ao chão, e confundiu o cavaleiro com outra entidade.
- É tu, tão temido anjo da morte? Viestes… levar-me? – sua voz era fraca e triste.
Sentindo a dor e o desespero do General, Ícaros consentiu com a cabeça. Daria o último desejo àquele que salvou a vida de um irmão, mesmo sendo este seu inimigo.
- Pode falar o que desejas – respondeu –, pois a ti darei em gratidão ao teu ato de nobreza. Mil honras àquele que morre em pró dos outros. Porém, diga-me antes: o que houve em tua alma para que isto acontecesse?
Com um grande esforço, Liath olhou para frente. Sua visão focava o vazio, a beleza da morte.
- Fiz isto porque já era um corpo sem alma. Vendi minha existência a uma causa vaga, onde fui cego em não ouvir os alardes de minha amada. Quando meu coração foi arrancado apenas pensava em matar àquele que o fez. Pensava que no dia de sua morte meu coração roubado seria recuperado. Mas as sombras de meu título apenas me iludiram. Meu coração nunca me abandonou. Ela sempre esteve comigo. Como fui… tolo.
- Não se culpe em tal hora. Sábio são aqueles que percebem seus erros, e se arrependem. Nunca é tarde para pedir por perdão.
- Anjo mensageiro, por favor, ti imploro: deixe-me ficar no mesmo inferno que minha amada. Deixe-me encontrá-la assim como um dia fez Orfeu. Oh, minha amada. Como a ti desejo. Este é o meu último desejo.
- Por ter salvado àquele que um dia foi seu inimigo, por ter aprendido a perdoar, mesmo que no último segundo, confiro-o o teu desejo. – uma lágrima correu por seu rosto – Por ter visto que o amor é eterno, e que nunca nos abandona, confiro-o o teu desejo. E mesmo que não o consiga, descerei mais uma vez ao Inferno e implorarei ao próprio Hades por sua alma, pois é filho de um deus, e acima de todas as coisas é um homem de valor e amor. Agora descanse em paz…
- Diga ao… Cavaleiro de Ouro de Leão que foi uma honra… ter lutado e perdido para ele. Sinto-me bem de morre pelas mãos do mortal que matou a minha amada. Diga isso a ele… e obrigado por ter sido meu mensageiro particular… Cavaleiro de Ouro e de Atena… Ícaros de Sagitário…
A chuva voltou a cair. Ícaros apenas observou o rosto de Liath falecer. Sorrindo ao mesmo que chorava, olhou para trás do mártir. Lá estava Orrin, desmaiado e muito ferido. Seu Cosmo ainda brilhava incansavelmente. Sua felicidade e tristeza aumentaram. Ouviu passos em meio à chuva. Olhando rapidamente para trás, percebeu que Delfos também estava ali. Trocaram um breve olhar. Desviando-se até Orrin, o Oráculo tomou-o pelos braços. Não houve palavras a serem trocadas. Ícaros compreendeu o que tinha que fazer.
Escombros da Casa de Áries.
Finalmente ele se ergueu. Estava cansado de chorar. A chuva que havia retornado a pouco lavava todos os ferimentos, inclusive os da alma. Em fúria, Remo tomou seu arco rapidamente. Mirou bruscamente na direção de Áries. Pegos de surpresa, o Cavaleiro de Ouro ainda desprotegido e os dois acompanhantes ficaram encurralados. A fúria de Remo alimentava o seu arco. Atacaria sem piedade.
- Pare Remo! – disse Timeus – Nossa luta já cessou. Não há mais o que se disputar. Retorne a Esparta e se recomponha! De nada isso adiantará…
- Cale-se! – gritou em resposta – Eu destruirei a todos os Cavaleiros de Atena com minhas próprias mãos, em nome de tudo que representam. Não há justiça em seus corações, só medo e ódio. Destruirei a todos com meu arco, mesmo que…
- Não mais está noite!
Olhando para trás, Remo contemplou tal figura. Um anjo de asas douradas trazia em seus braços o falecido General da Derrota e a lança que havia selado seu destino. Ofereceu-nos ao irmão, que diminuía sua fúria. Baixando o arco, Remo olhou para as profundezas da alma de Ícaros. Este estava tranqüilo, de olhos bem abertos e ainda oferecia o corpo e a lança.
- Toma-te o que és teu e retorne à tua morada, General. Aqui não há mais adversários, por hora. Siga em paz.
Consentindo, Remo guardou seu arco nas costas e pegou Liath e a lança do pai. Olhou mais uma vez para Ícaros, que continuava o mesmo. Virou-se rapidamente e ignorou os outros mais a frente. Trocou um olhar ameaçador com Áries, "Até um próximo confronto", e seguiu adiante. Cruzou todo o Santuário, recrutando a todos os guerreiros que ainda restavam de Esparta. Mais uma vez o Santuário repousou em paz.
- Timeus e jovens Cavaleiros. – disse, inesperadamente, Ícaros – Orrin está vivo, mas não posso garantir seu total restabelecimento. Está sob os cuidados do Oráculo, mestre de Serafim, seu antigo amigo. Peço para que descansem em paz esta noite, pois tomarei as medidas necessárias juntamente com aqueles que não lutaram. Não será incomodo para mim que durma em minha morada, Timeus. – finalizou.
- Em muito agradeço. – respondeu. Depois, voltando-se para os dois cavaleiros ali presentes, falou – Vocês dois ouviram bem. Descansem tranqüilamente e não se preocupem com nada. Pela manhã tudo estará bem.
Áries começou a seguir na direção das escadarias, deixando sua amadura para trás. Ícaros tomou impulso e voou até os arredores do Santuário. Geord e Alena trocaram um olhar por um instante. Então, decidiram acatar as ordens sem hesitar, mesmo sabendo que não dormiriam esta noite. Não mais.
