37.

Termos e condições

Thorin pede formalmente a mão de Anna a Bilbo

Pode-se dizer que Anna foi apanhada de surpresa na negociação dos termos do contrato de corte entre ela e Thorin Oakenshield. Na verdade, os únicos surpresos ali pareciam ser ela e Bilbo. Os demais pareciam estar bem confortáveis.

Primeiro Glóin a deixou a par do que um contrato de casamento normalmente implicava: disposição de bens, posição de cada um, títulos, deveres e obrigações. Anna achou muito razoável, em se tratando de um rei.

O filho de Gróin deixou claro:

— Lamento, moça, mas você não poderá ser chamada de rainha depois de se casar com Thorin.

— Por quê?

— Você não é uma anã — explicou Glóin. — É uma estrangeira. Isso poderia afetar o poder do rei, se houver insatisfação no povo. Mas não acho que deveria ter título menor do que consorte. Você poderia ser chamada consorte do rei, ou consorte real.

Anna garantiu, sem se impressionar:

— Parece bom para mim. Títulos pouco me interessam, e eu não quero prejudicar Thorin de maneira nenhuma.

— Consorte será o melhor. E outra coisa: uma vez que você não foi contratada para esta busca, mas está participando dela, acho justo estabelecer uma recompensa a ser retirada do tesouro de Erebor. E também...

As negociações sobre o rascunho do contrato se prolongaram por praticamente o dia inteiro. Thorin deveria estar fazendo o mesmo, pois Anna mal o viu. Após o jantar, porém, todos se reuniram à volta da mesa. Balin apresentou o contrato a Anna.

— Aqui está, senhorita.

Anna desenrolou o papel (era extenso) e olhou a primeira lista de obrigações. Leu em voz alta.

— "Deve servir como Consorte do Rei e desempenhar todas as funções do cargo. Deve usar as cores do Rei, no casamento e na corte. Deve usar contas do rei em suas tranças, feitas pelas mãos do rei". — Anna ergueu os olhos. — Meu cabelo é curto demais para fazer tranças.

Balin lembrou, espirituoso:

— Vai ter que deixá-lo comprido de novo, senhorita, para que o rei possa trançá-lo.

Atrás dele, Thorin sorria de maneira convencida. Glóin ofereceu a sugestão, citando seu próprio papel:

— "Deve desempenhar as funções e ficar ao lado do Rei, barrando emergência, necessidade médica ou ausência negociada."

Balin assentiu. Glóin citou novamente suas anotações:

— "Os deveres da Consorte do Rei estão estipulados como os seguintes: servir como conselheira no Conselho Real, comparecer às reuniões do Conselho e providenciar conselhos sinceros e sem malícia com discricionariedade do Rei. A consorte deverá assumir as responsabilidades do Rei em caso de indisposição por ferimento ou doença, com a ajuda do Conselho Real."

Thorin e Balin se consultaram, antes de assentir. Anna franziu o cenho e continuou a ler. Mas ficou indignada com o próximo termo:

— "Deve manter-se distante de elfos"? Que raio de contrato é esse?

Balin encarou Thorin com uma cara de "eu avisei" e disse, sem graça:

— Bem, podemos negociar isso mais tarde.

Glóin voltou à sua própria lista:

— Também faz parte dos deveres da Consorte sentar-se ao lado do Rei na Sala do Trono, comparecer a jantares de Estado e ajudar a entreter visitantes e dignitários de outros reinos.

Balin já ia concordar, mas Thorin o deteve.

— Exceto elfos.

Foi Anna quem insistiu:

Todos os dignitários.

Thorin estreitou os olhos, e Balin interveio:

— Todos os dignitários, com discrição do Rei.

Anna bateu pé:

— Não! Isso só significa que ele dará a palavra final!

Balin lembrou:

— Sua Majestade não tem um bom histórico com elfos, como sabe.

Anna insistiu:

— Mais uma razão pela qual eu devo tratar com eles. Todos os dignitários.

Balin propôs:

— "Ajudar a entreter todos os dignitários e visitantes, exceto aqueles a quem a Consorte tenha previamente concordado em evitar, com a palavra da Consorte considerada final no assunto."

Fez-se silêncio na mesa. Balin encarou Thorin, ainda de cara amarrada. Após um minuto, ele concordou. Depois Glóin consultou Anna, que também concordou. Glóin continuou:

— "Servir como diplomata e representante do rei quando necessário, com poderes para negociar no lugar do rei, assinar tratados, contratos e outras negociações de disputa".

— "Sujeito à aprovação do rei" – ressaltou Balin.

Glóin concordou. Anna sorriu e voltou a ler.

— "Deve viver ao lado do Rei, em Erebor, mas tem permissão para viajar para fora do reino não mais do que duas estações por ano." — Anna sorriu. — Eu poderia visitar o Shire, Bilbo! Eu adoraria.

Bilbo também sorriu.

— Será um prazer recebê-la, Anna.

As demais condições continuaram a ser negociadas sem disputa entre Balin e Glóin. O tempo foi passando. Contudo, eles chegaram a um ponto que Anna ficou desconfortável.

— "Deve atender às necessidades carnais do Rei o melhor que puder, e não procurar outro para satisfazer suas necessidades de conforto físico que não o Rei."

Anna não podia sequer encarar Thorin, de tão vermelha que estava. Ele, porém, encarava Anna com um sorriso nos lábios e fogo nos olhos. Glóin veio com um texto diferente.

— "Deve atender às necessidades carnais do Rei como previamente negociado e concordado entre as duas partes, com direito a recusar a qualquer momento, sendo proibido qualquer tipo de dano ao corpo da Consorte, e não procurar outro para satisfazer suas necessidades de conforto físico que não o Rei."

Anna ficou ainda mais vermelha, e Thorin protestou:

— Eu jamais faria qualquer dano nela; eu nunca a machucaria!

Glóin argumentou:

— A Consorte é pequena e frágil. O contrato deve protegê-la.

Balin sugeriu:

— Podemos mudar o texto para "abster-se de tocar a consorte quando enraivecido por qualquer motivo e vice-versa".

Glóin consultou Anna com os olhos, ela assentiu. Balin fez o mesmo com Thorin, que também assentiu.

— Então esse texto é aceitável? — indagou Glóin.

Balin completou:

— "A Consorte tem direito de recusar a qualquer momento, seguindo a estipulação de que relações maritais devem acontecer ao menos uma vez por semana".

— Uma vez por dia — corrigiu Thorin, deixando Anna vermelha.

Glóin se virou para ela.

— Não discutimos isso. Peço perdão. Foi uma distração de minha parte. Quais são suas sugestões?

Embora vermelha, Anna garantiu:

— Não penso em negar a ele tais relações, uma vez que estivermos casados, mas podíamos deixar duas vezes por semana, só por precaução?

— Cinco vezes por semana — regateou Thorin.

— Três vezes por semana no mínimo — negociou Glóin, olhando Anna. Ela concordou. Glóin emendou: — E a Consorte também deve ter o direito de requisitar tais relações se desejar.

Os olhos de Thorin se transformaram em puro fogo, um azul tão profundo que parecia mudar de cor. Ele garantiu, numa voz grave que fez Anna estremecer de paixão:

— O Rei estará disponível para os pedidos da Consorte em qualquer ocasião.

Anna enrubesceu, e Balin limpou a garganta, com um gesto sutil para Thorin, que emendou, relutante:

— À exceção de uma eventual responsabilidade do trono.

Glóin voltou para seus papeis e leu:

— "Herdeiros, se houver, deverão ter o título de príncipes e tratamento de Sua Alteza, e devem entrar na linha sucessória apenas atrás de Fíli e Kíli, à discricionariedade do rei".

De novo, fez-se um silêncio respeitoso na sala. Anna observou os rostos boquiabertos em toda mesa. Thorin a encarou e repetiu, em voz baixa:

— Herdeiros…?

Ao ver a reação dos demais, Anna deu de ombros, constrangida, e explicou:

— Bem, achei que seria bom estar ao menos preparada para a possibilidade. Nem sei se será possível termos filhos, mas se for, não quero ameaçar o trono de Fíli, nem Kíli.

Kíli parecia maravilhado:

— Primos… Nunca pensei em ter primos!

— Um bebê real — concordou Fíli, abismado. — Isso seria uma bênção de Mahal.

Thorin era o mais embevecido. Ele indagou:

— Tem certeza que quer isso, minha ghivashel? Você é muito pequena, pode ser perigoso.

Anna foi sincera.

— Não vou dizer que não ficarei com medo. Mas eu gostaria muito de ter um filho, especialmente um filho seu, meu amor. Acho que vai valer a pena correr o risco. Se vamos nos casar, essa é uma possibilidade que devemos pensar, não? — Ela encarou os demais, intrigada. — Vocês não tinham pensado nisso? É por isso que estão todos parecendo tão espantados? Fiz algo errado?

Balin sorria como um avô orgulhoso quando explicou:

— Senhorita, filhos são a maior bênção de Mahal para um anão. Não temos muitos filhos, e cada pequenino é celebrado como um tesouro maior do que qualquer quantidade de ouro.

Thorin suspirou, reverente:

— Mais valioso do que todo o ouro de Erebor…

Mais prático, Glóin arrumou a papelada e quis saber:

— Este texto é aceito, então? Podemos prosseguir? "A Consorte deverá reter toda a propriedade que tiver antes do casamento para dela dispor como lhe aprouver, incluindo sua parte no contrato da reconquistar de Erebor bem como..."

As negociações prosseguiram mais algum tempo, depois todos se recolheram, exaustos. Anna notou que Ori a seguiu até o seu quarto, postando-se na porta com o grande martelo que usava como arma. Ela desejou:

— Er… boa noite, Ori.

— Boa noite, dona Anna — respondeu ele. — Fique tranquila, estarei guardando sua virtude.

— Tem certeza que isso é necessário?

Solene, ele disse:

— Sim, senhora. Pode ficar descansada.

Anna sorriu:

— Só quero ter certeza de que você não está exagerando, Ori. Vá descansar.

— Boa noite, dona Anna.

Com um sorriso, Anna entrou no quarto. Ela ainda estava sob o impacto da negociação que durara quase dois dias. Parecia uma coisa um tanto surreal, pensar que ela estaria ao lado de Thorin no trono de Erebor.

Anna procurou não pensar que eram grandes as chances de isso nunca acontecer. Ela concentrou seus pensamentos em descansar, pois na manhã seguinte, todos estariam rumo a Erebor, última etapa da viagem.

Rumo a Smaug.

Palavras em Khuzdul:

ghivashel = tesouro de todos os tesouros