Capítulo 39
"Bom dia," Dr. Greene disse animadamente, entrando no quarto de Temperance. "E como estamos nos sentindo hoje?"
Ela suspirou, distraidamente mexendo no cereal da tigela, torcendo o nariz ao cheiro. "Estou bem. Nem sei por que estou aqui."
"Bem, Temperance," Dr. Greene ofereceu. "Normalmente, mulheres grávidas não desmaiam e caem de escadas. Tudo o que posso dizer é que teve sorte de seu parceiro estar lá para te pegar, ou estaríamos em uma situação mais séria. Alguém te explicou por que você desmaiou?"
"Sim, a enfermeira disse que estou anêmica e preciso tomar suplementos de ferro e de vitamina C."
"De acordo com os registros, está com gravidez mais avançada do que esperava. E, neste estágio da gravidez, é bem comum a pressão da mulher cair de repente. Deve começar a subir, voltando ao normal até perto da data do parto. Mas pode te dar tontura e leve dor de cabeça. Então, terá que pegar leve. Não faça exercício excessivo ou movimentos bruscos."
"Entendo."
"E vamos monitorá-la freqüentemente," Dr. Greene acrescentou, dando uma olhada no prontuário dela.
"Booth deve estar chegando aqui," ela acrescentou impaciente, olhando para a janela, certificando-se que o mundo estava ativo, mesmo sem ela. "Geralmente, quando um de nós é internado por alguma razão, tentamos fazer companhia um ao outro. Está entorpecentemente desestimulador aqui."
"Sinto muito, Temperance. O hospital tem regras muito específicas com relação a horas de visitas. Temo que Agente Booth terá que seguir essas regras, como qualquer amigo ou parente."
Sua expressão caiu em desapontamento. "Suponho que já que são as regras …" ela suspirou, "Terei que aceitar isso, mas é frustrante quando tenho outras coisas a fazer com meu tempo."
"Eu me sentiria melhor, Tempe," Dr. Greene ofereceu, sentando-se na cama, "se pudesse tirar um tempo para se recuperar. Não quero ter que prescrever descanso, mas …" ele deu de ombros. "…se não me der outra chance, não vejo como evitar fazer isso."
Ela franziu as sobrancelhas à sugestão dele. "Eu realmente não toleraria ficar confinada numa cama. Preciso ser capaz de ficar ativa. Pelo menos, me ajuda a manter a náusea tolerável."
"Talvez, Tempe, mas precisa se certificar que você e esse bebê estejam saudáveis. Pense um pouco sobre como se sentiria se alguma coisa acontecesse, porque se arriscou desnecessariamente."
"Nunca pensei que ficar grávida teria um grande impacto sobre como vivo minha vida diária." Ela sorriu de lado. "Sim, eu sei que quando um bebê nasce, grandes ajustes devem ser feitos, mas presumo que posso facilmente continuar sem a inconveniência dessas mudanças."
Ele imitou a expressão dela. "A triste verdade é que algumas mulheres velejam pela gravidez, e, para outras, é uma experiência nada agradável."
"As estatísticas foram favoráveis a mim," ela reclamou. "Tenho menos de trinta e cinco anos, me alimento de forma saudável, faço exercícios regularmente e não fumo. Não sei o que poderia ter feito para prevenir isso."
"Absolutamente nada," ele disse. "Não se pode predizer como uma mulher vai reagir. Mais para frente, você pode se sentir muito bem numa futura gravidez."
"Não tenho planos de ter mais filhos," ela disse rapidamente. "Estou ciente que ter irmãos tem uma influência positiva, mas Booth já tem um filho de um relacionamento anterior, então estou satisfeita que esse aspecto está coberto."
As sobrancelhas do Dr. Greene franziram em pensamento. "Tempe, percebi que está um pouco distante do conceito de maternidade. Por favor, não se sinta ofendida pelo que vou sugerir. Acho que se beneficiará de algumas sessões com um orientador. Só… concentrar sua mente no estado gravídico."
"Se esse é um modo educado de dizer psicólogo, então, terei que recusar," ela disse, relutante.
"Posso sugerir um excelente profissional. E seria confidencial," ele reassegurou. "Não há nada que se envergonhar."
"Como eu disse, realmente não é necessário." Temperance se virou e olhou para fora da janela. "Não é uma ciência válida. Não há base empírica e usa de métodos confiáveis. Além disso," ela acrescentou baixo, "Eu já tenho um psicólogo."
"Hey, Bones," Booth sussurrou, metendo a cabeça pela porta, exatamente um minuto após as onze horas.
Ela sorriu largo para ele, finalmente feliz por ter companhia.
"Estou tão feliz que esteja bem," ele disse animado, entrando no quarto. "Sabe, me deixou com muito medo por algum tempo."
"Sinto muito, Booth."
"Não sinta. Não é como se tivesse feito de propósito."
"Eu deveria ter percebido que tenho limitações."
"Bem, mesmo assim, Bones, eu poderia ter cuidado melhor de você, como ter certeza de que estava se alimentando corretamente, para impedir que isso acontecesse de novo."
"Sou bem capaz de me responsabilizar por minhas próprias ações. Não é seu trabalho cuidar de mim, Booth."
"Sim, Bones, é, sim."
Temperance fez cara feia, estreitando os olhos para ele. "Sou uma mulher crescida."
"Que está carregando nosso bebê. Com certeza, isso me dá algum direito?"
"Tecnicamente, ainda é um feto. Não deveríamos nos referir como um bebê, até que tenham se passado …"
"Whoa, pode parar bem aí," Booth exclamou, levantando-se. "Nem pense em terminar essa declaração. É um bebê. Nosso bebê. Fim da história."
Ela encarou o comportamento severo dele por um momento. "Eu posso …"
"Não."
Booth sentou-se numa cadeira ao lado da janela e cruzou os braços, agitado. Segundos depois, ele se levantou e ligou a TV, antes de sentar novamente.
Temperance assistia-o, atentamente. "Há algo em particular que gostaria de assistir? Fui levada a crer que a programação diária é de qualidade extremamente pobre."
"Só preenchendo o tempo, Bones," ele suspirou. "Não é como se houvesse algo mais para fazer."
"Poderíamos conversar," ela sugeriu, sentando-se na cama. "Não pediu minha assistência em nenhum caso, desde que voltei. Tem trabalhado em alguma coisa interessante?"
Booth a encarou, a boca aberta. "De todas as coisas, é sobre isso que quer falar? Nenhum pensamento sobre o que precisamos comprar ou por quanto tempo pretende ficar de licença, ou Deus proíba, como isso tudo dará certo! Foi por trabalhar demais que te colocou aqui, para começar."
"Na verdade, foi uma baixa contagem de ferro e pressão sanguínea que me fizeram desmaiar," ela o corrigiu.
Ele rolou os olhos, frustrado. "Para um gênio, você pode ser bem evasiva."
Ele finalmente encontrou um documentário que ambos apreciariam, e sentou-se de costas para ela, lançando-lhe olhadas rápidas, enquanto os minutos passavam. Eventualmente, suas mãos acharam o caminho de volta para as dela, e, quando o almoço chegou, a cabeça dela descansava no ombro dele.
"Booth?"
"Mmn?" ele perguntou, examinando a refeição que trouxeram para ela.
"Por quanto tempo poderá ficar aqui?"
"Tirei um dia por motivos pessoais, então, poderei ficar por quanto tempo quiser. Lasanha de espinafre e iogurte, e é melhor comer. Ou terá problemas."
"É isso que diz ao Parker quando ele se recusa a comer legumes?"
"Chama-se ser pai, Bones," Booth disse secamente.
O lábio dela tremeu e não respondeu ao comentário petulante dele.
Booth ficou preocupado com a reação nervosa dela. "Angela virá aqui esta tarde e acho que terá umas surpresas hoje também," ele acrescentou, para distraí-la.
"Oh?" Ela olhou para ele, intrigada. "Quem?"
"Max não queria que eu dissesse, mas Russ e Amy virão e trarão as meninas." Booth sorriu. "Acho que Max pensou que já que Amy está na terceira gravidez, ela seria uma boa pessoa para você conversar."
"Isso... faz sentido. Ela obviamente tem experiência neste campo."
Ele sorriu para ela. "Estou feliz que aprova. Ainda levarão umas duas horas para eles chegarem aqui, imagino. Então, provavelmente, no final da tarde."
Ela deitou de volta na cama. "Sinto como se só visse o Russ quando coisas ruins acontecem."
Booth deu de ombros. "Todos somos pessoas ocupadas. É fácil deixar a família de lado." Ele pegou o garfo dela e encheu-o de lasanha. "Abra a boca. Ou vou começar a fazer barulhos de avião."
"Booth! De novo, não sou uma criança. Eu posso … gumph"
Booth sorriu, quando ela aceitou que ele lhe desse de comer. "Difícil esquecer velhos hábitos."
"Hey, Angela." A voz de Booth era pouco mais que um sussurro. "Pode entrar."
Temperance abriu os olhos, imediatamente consciente de Booth ao seu lado, olhando na direção da porta. Ela se virou para ver uma muito aliviada artista sorrindo amplamente para ela.
"Bren, como você está? Eu estava tão preocupada."
"Estou bem," ela disse, sentando-se. "Eu só …"
Angela se virou para o homem protetor, relutante em deixar a parceira. "Booth, descanse um pouco."
"Prefiro ficar."
"Nu-uh." Angela balançou a cabeça, e indicou para ele sair. "Vá polir sua auréola ou algo assim. Bren e eu precisamos conversar."
Sabendo que ela estaria em boas mãos, Booth concordou. "Claro. Sei quando não sou querido."
Angela assistiu-o sair, antes de se virar para Brennan. "Sabe que nos deixou preocupados por muito tempo."
Ela assentiu, concordando. "Entendo que foi difícil para você. Depois que sua mãe …"
"Sim, bem, querida. Só estou feliz por estar bem. Então, por quanto tempo precisará ficar aqui?"
"Bem, me disseram que querem me manter em observação por 48 horas, e então, se eu estiver bem e estável, poderei ir para casa."
"Ótimo, e enquanto isso, estamos exercendo nosso direito de te fazer companhia."
"Só queria que as horas de visita não fossem tão curtas. Eu estava mesmo cansada ontem à noite, aqui sozinha. E não tenho nada vagamente interessante para ler. Tudo o que havia eram algumas revistas sobre celebridades, da mulher do quarto ao lado." Temperance franziu as sobrancelhas. "Eu digo uma mulher, mas está mais para uma adolescente com problemas com dependência de drogas, mas suponho que todas têm direito de ter um filho."
"Veja," Angela sorriu, puxando da mala um monte de livros e jornais. "É por isso que melhores amigas são realmente úteis."
"Hey, cara, como ela está?"
Booth se mexeu inconfortável na cadeira, enquanto Jack Hodgins sentou-se ao lado dele, no corredor. "Não muito fantástica, na verdade. Ela está fazendo cara de corajosa, mas até os níveis de ferro elevarem, ela está bastante cansada. Angela está com ela lá dentro, mas honestamente, queria que ela dormisse um pouco mais."
Jack assentiu, compreensivo. "Bem, você está com sorte, porque vim aqui para levar Angela de volta comigo. Ela me pediu para pegá-la após uma hora."
Booth olhou para o relógio e se levantou. "Ok, hora de voltar, então."
"Hey. Dra. B." Hodgins sorriu às duas mulheres, quando entrou no quarto, logo atrás de Booth.
"Já se passou uma hora?" Angela perguntou, incrédula.
"Sim. Mas tenho certeza que a Dra. B voltará antes que perceba. Em alguns dias, terão muita coisa para fofocar."
"Está nadado entre tubarões aqui," Booth advertiu às insinuações de Hodgins.
"Nadei com golfinhos, uma vez," Temperance interrompeu, entusiasmada.
"Na verdade, foi o modo de Booth me dizer que ficará afastada por muito mais tempo. O que é uma pena, porque a Agente Perotta nos mandou a vítima mais nojenta desde Sachi Nakamura." Hodgins pegou o olhar negro que Angela lançou. "O que é totalmente inapropriado da minha parte, em tantos níveis," ele acrescentou, rapidamente.
"Quer o outro braço tatuado também?" Booth disse. "Porque da minha parte, não será nada tão educado quanto 'Angie Para Sempre!'"
O silêncio desconfortável que se seguiu foi interrompido por uma muito irada enfermeira, que voltou para checar a pressão de Temperance. "Somente dois visitantes por vez, por favor," ela enfatizou, os dentes cerrados.
"Estamos de saída," Hodgins respondeu, levando Angela embora. Este não era um bom dia para contrariar Booth.
"Tempe?" Russ pôs a cabeça para dentro do quarto, antes de entrar totalmente, seguido por uma muito grávida Amy. "Booth." Ele acenou respeitosamente à companhia da irmã. "Achei que fosse brincadeira, quando disseram Obstetrícia."
"Não entendo por que isso é engraçado," ela respondeu, confusa.
"Inacreditável." Russ balançou a cabeça, olhando o prontuário medico dela. "Papai disse que foi internada, mas eu tinha que perguntar pessoalmente por que. Você deixou algum canalha te engravidar!"
"Hey, olha quem está chamando de canalha," Booth retorquiu, ficando em pé para sair.
"Booth? Não precisa sair por minha causa." Russ gaguejou, olhando para os dois, incrédulo. "Verdade? Quero dizer, eu sempre presumi que sim, mas Papai dizia que não."
"Nah, tenho que ir. Só são permitidos dois visitantes por vez." Booth confirmou. "Eu deveria comer alguma coisa, de qualquer forma."
"Tempe?" Russ continuou, após Booth sair. "Há quanto tempo estão … você sabe."
"Copulando? Não muito, e somente pelo propósito de reprodução."
"Aposto que se divertiram muito tentando," Amy acrescentou, com um sorriso. "Então, está de quantos meses?"
Temperance olhou a barriga de Amy com interesse. "Não tantos quanto você, posso ver. Disseram que estou com doze semanas."
"Só tenho mais oito pela frente."
"Sim, eu sei." Temperance estava insegura quanto a relevância do comentário de Amy. "Fui informada da data do seu parto há alguns meses."
Amy olhou nervosa para Russ, enquanto considerava o que deveriam discutir.
Temperance continuou. "Meu pai e Booth pensam que conversar com você, Amy, me ajudaria a entender melhor as mudanças que devo esperar pelos próximos meses. Já teve deficiência de ferro?"
"Não."
"Oh. E enjôo? Ou tontura? Estou sofrendo bastante disso."
"Não."
"Oh. Teve alguma indisposição durante a gravidez?"
"Desejos." Amy sorriu para Russ. "Eu não tenho os piores desejos?"
"Oh, sim," ele acrescentou, entusiasmado. "Aspargo e sorvete."
"Parece ser bem normal," Temperance observou.
Russ franziu o cenho. "Mas para comer junto?"
"Oh! Eu... não tenho tido desejo de comer nada."
"Ainda há tempo," Amy acrescentou.
"E sobre o parto? Tenho ciência de precisar estabelecer o nível de dor que terei que suportar. É mais doloroso do que… levar um tiro, por exemplo?"
Amy olhou para ela, chocada. "Nunca levei um tiro …"
"Ah, então, é inapropriado para você comparar. A que você compararia a sensação?"
Amy e Russ se olharam, buscando apoio, enquanto Temperance esperava, ansiosa, por uma resposta. Esta seria uma longa tarde.
Enquanto a tarde virava noite, uma turma de visitantes ofereceu um leve alívio aos parceiros, mas não ofereceu nenhuma privacidade para discutirem assuntos mais sérios.
"São nove horas. Hora de visitas acabou, Dra. Brennan. Seus amigos terão que sair." A enfermeira foi educada mas firme, em seu pedido.
"Entendo." O coração de Temperance afundou, ao prospecto de passar outra noite sozinha.
"Acho que teremos que ir, então." Booth e Max eram os últimos ali, e ambos se levantaram, pegando suas coisas. "Te vejo amanhã, Bones," Booth acrescentou.
Max se inclinou e beijou a filha. "Até mais, querida."
Booth assistiu a isso, lambendo os lábios nervoso, debatendo consigo mesmo se seria apropriado abraçá-la. Desde o retorno dela, ele cuidadosamente deixou-a ditar o que era ou não aceitável. Hoje havia sido agradável, apesar das circunstâncias.
"Vamos, Booth," Max disse, saindo. "Vou sair com você. Antes de aquela enfermeira insistente voltar. Não iria querer discordar dela, vou te dizer."
Decisão feita. Ele andou na direção da porta, seguindo Max.
"Booth?" Sua voz suplicante o parou no ultimo momento, e ele se virou para olhá-la.
"Sim?"
Quando ela não disse nada, ele andou até a cama e sentou-se ao seu lado. Booth tomou-lhe as mãos, os olhos buscando esclarecimento do chamado dela. Finalmente, ela soltou as palavras que se debatiam em sua consciência.
"Você disse que esperou. Quando fui para o Peru. Por quanto tempo?" ela perguntou, com lágrimas nos olhos. "Por quanto tempo esperou eu voltar para casa?"
Booth se aproximou e levou os lábios até a orelha dela. "Ainda estou esperando," ele sussurrou, respirando o cheiro dela.
Eles ficaram nesta proximidade, nenhum disposto a se afastar, até uma tossida sutil da enfermeira interrompeu o momento.
Booth se afastou. "Eu tenho que ir …"
Ela assentiu, relutante. Booth se levantou e andou até a porta, lançando-lhe um olhar final.
Então, uma vez mais, ela estava sozinha com seus pensamentos. Enquanto a noite passava, ela se deitou, lutando para dormir, apesar da iluminação florescente. Os sons perturbadores do hospital como sua única companhia, enquanto um choro doloroso de parto ecoou pelos corredores.
Desde os quinze anos, a Dra. Temperance Brennan rapidamente havia aprendido que, para ter sucesso na vida, você precisava ser auto-eficiente, independente, e capaz de se adaptar rapidamente a novas situações.
Mais recentemente, ela aprendeu mais uma importante lição de vida. Que 'nenhum homem é uma ilha'. Como criança adotiva, ela não tinha ninguém. Sem família, sem confidentes ou alguém que se importasse se ela vivesse ou morresse. Os laços que ela criou, primeiro com Angela, então com Booth, resultaram com ela criando, primeiro de forma substituta, mas agora real, família. O grupo de visitantes que lhe fez companhia no dia de hoje era prova evidente dessa mudança.
Mesmo assim, ela nunca se sentiu tão sozinha; tão apavorada e vulnerável como agora.
TBC
