A Substituta
Autora: Érika
"Saint Seiya" é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.
Capítulo 11 - Parte 4
Misty era extremamente pobre. Desde criança, trabalhava incansavelmente, pois seus pais o exploravam sem piedade. Ele odiava ambos, e seu ressentimento não conhecia limites. Diversas vezes tentava se rebelar e enfrentá-los, mas sempre recebia castigos homéricos. Aliás, sua revolta era ainda maior quando pensava que, entre tantas pessoas abastadas na França (quase todas na verdade, já que a maioria dos franceses gozava de boa situação financeira), justamente a família dele pertencia a uma classe social inferior. "Por que nós? Por quê?", pensava ele, iracundo.
No decorrer dos anos, sua ira e inconformismo foram crescendo com ele. Contudo, uma profunda reviravolta ocorreu em sua vida quando ele tinha acabado de completar dezoito anos. Nesta época, começara a trabalhar em uma loja cuja proprietária era uma mulher de cinqüenta anos chamada Isabelle, a qual era razoavelmente rica. Ela viajava constantemente e quase nunca aparecia por lá. Mas um dia, após mais uma longa ausência, finalmente ela resolveu verificar como estava seu negócio. E foi neste exato momento que ela se deparou com Misty. Foi instantâneo: apaixonou-se por ele. Com a boca aberta e a respiração acelerada, aproximou-se dele e perguntou:
- Desde... desde quando trabalha aqui?
- Há poucas semanas. Por quê? - ele perguntou com expressão desconfiada.
- É que eu... eu nunca tinha te visto por aqui. Mas não é de se admirar, pois eu quase nunca venho - disse ela com uma indisfarçável admiração estampada em seu semblante.
- Bom, em que posso servi-la, senhora? - indagou o jovem, curioso com o comportamento dela.
- Bem... eu... eu... bom... - ela hesitou, colocando as mãos sobre o balcão.
Misty notou que tremiam e olhou para ela, confuso.
- Sente-se bem? - perguntou ele.
Isabelle não respondeu, pondo-se a estudá-lo com expressão enlevada. Sempre apreciara jovens, mas geralmente seu interesse por eles era fugaz. Mesmo assim, estava gostando muito de conhecer aquele.
Um pouco embaraçado com a insistência dela em contemplá-lo com expressão claramente admirativa, Misty murmurou:
- Desculpe-me, mas tenho muito trabalho. Se não deseja nada, eu...
Isabelle o interrompeu com voz suave:
- Como você se chama?
- Misty Truffaut. Mas agora me perdoe, senhora, realmente estou muito ocupado - ia dizendo ele, quando ela o interrompeu novamente:
- Sou a dona desta loja.
- Oh, é mesmo? Perdoe-me, não sabia - disse ele desconcertado.
- Claro, não se preocupe, nunca tinha me visto. Como poderia saber? - disse ela, tranqüilizando-o.
- E então, em que posso ajudá-la, senhora? - perguntou ele, solícito.
- Chame-me de você. Ou pareço tão velha assim? - perguntou ela, olhando-o fixamente.
- Oh, não, claro que não. Eu a chamo desta maneira por uma questão de respeito - respondeu Misty, um pouco constrangido.
- Não estará me desrespeitando se me chamar por meu nome - ela se apressou em contestar.
- Sim, mas é que... eu nem sei o seu nome - disse ele em tom de desculpa.
- Isabelle Maligrasse - disse ela, e ao fazê-lo sorriu.
E neste instante, apesar de todas as rugas que ela possuía, embora estivessem bem dissimuladas pela maquiagem cara e sofisticada, Misty pôde divisar a jovem que ela deveria ter sido. "Belo sorriso", pensou ele com algum interesse. E sem perceber, também sorriu.
- Lindo nome - comentou ele, observando-a atentamente enquanto pensava: "Afinal, não parece tão velha realmente. E sem dúvida, rejuvenesce consideravelmente quando sorri."
- O seu também é bonito. Bastante incomum - disse ela, e seu sorriso se alargou.
Ao invés de agradecer como seria o esperado, ele disse:
- Deveria sorrir sempre. A senhora... perdão, você... você tem um sorriso formoso.
- Oh, que gentil! Obrigada! - disse ela encantada.
Isabelle o convidou para jantar e ele aceitou prontamente. Naquela mesma noite, iniciaram um caso que, com o passar dos meses, foi se aprofundando, até que por fim se casaram. Os pais de Misty ficaram horrorizados por verem o filho com uma mulher que tinha idade para ser a mãe dele.
- Nos dias de hoje, neste século, quem ainda se importa com isso? - perguntou Misty, escarnecedor.
Mas como detestava os pais e aquele sentimento sempre fora recíproco, sentiu-se contente por finalmente ter os meios para poder se afastar deles. E nunca mais tornou a vê-los. Todavia, o casamento não foi muito longo, posto que um ano depois Isabelle teve um infarto e morreu. Misty jamais sentira amor por ela, mas a estimava e era-lhe muito agradecido porque, graças a ela, tinha podido escapar da vida miserável que tivera anteriormente. Por esta razão, experimentou um grande pesar por sua morte. No testamento, Isabelle deixou metade de seus bens para Misty e a outra metade para seu filho Jérôme. Misty não o conhecia, pois ele era um cavaleiro de Athena e vivia longe da França, treinando vários alunos. Quando soube que a mãe havia falecido, ele retornou ao país.
Ao conhecer Misty, ele se sentiu atraído, exatamente como acontecera à sua mãe. E novamente Misty também experimentou a mesma sensação. Mas o fato de sentir atração por outro homem não o abalou, já que não era a primeira vez que acontecia; ele recordava perfeitamente bem que sentira o mesmo por alguns rapazes quando tinha entre quatorze e dezesseis anos. Jérôme porém jamais havia nutrido quaisquer sentimentos de natureza romântica por outro ser do seu sexo, e se surpreendeu muito consigo próprio. "Além disso, ele era o esposo da minha mãe", pensou ele.
- Quantos anos você tem? - indagou Misty bruscamente.
- Oh, eu... eu... trinta - balbuciou Jérôme.
- Ah, é mais velho do que eu - disse Misty, sorrindo maliciosamente.
Jérôme ficou absolutamente deslumbrado com o sorriso dele, e viu-se perguntando:
- Que planos você tem agora que ficou viúvo? Pretende se casar de novo, daqui a algum tempo?
- Não sei. Não tenho nenhum projeto em mente por enquanto - respondeu Misty, com expressão sedutora.
O outro não disse nada. Mas estava claro que ficara impressionado com o viúvo de sua mãe. Tão forte era esta evidência, que Misty disse:
- Pensa em retornar à Grécia logo? Gostaria que nos conhecêssemos melhor... já que sua mãe e eu fomos marido e mulher, e eu sou seu padrasto.
- Oh... é mesmo. Eu não tinha pensado nisso - disse Jérôme, desviando o olhar.
- É difícil mesmo, porque eu sou bem mais novo do que você - disse Misty, sempre sorrindo.
Jérôme voltou a olhá-lo e, não resistindo, sorriu também.
Duas semanas depois, Jérôme partiu de volta à Grécia, mas levando Misty consigo. E logo os dois iniciaram um romance, do qual todos no Santuário tomaram conhecimento rapidamente, porque eles não ocultavam nada, embora Jérôme se sentisse bastante embaraçado. E se não escondiam sua relação, era basicamente por causa de Misty, que não sentia vergonha alguma e também gostava de escandalizar as pessoas conservadoras que porventura eles pudessem encontrar. E como Jérôme fazia tudo para agradá-lo, aceitava submissamente.
Misty destacou-se enormemente nos treinamentos, tornando-se cavaleiro em menos de três anos. Sua fatuidade cresceu imensamente com o tempo, e ele se converteu em uma pessoa arrogante e faroleira. As pessoas que o conheciam, e também ao cavaleiro de ouro de Peixes, muitas vezes faziam comparações entre os dois, perguntando-se quem seria o mais insuportável. Misty sempre se aborrecia com esses comentários, dizendo que ele era "único". Aliás, Afrodite costumava ter a mesma reação. Os dois se conheciam superficialmente e se detestavam.
Não muito tempo depois, Jérôme veio a falecer, vítima de um infarto, exatamente como sua mãe Isabelle. Misty ficou desolado. O Santuário vestiu-se de luto, pois Jérôme era uma pessoa querida por muitos. Sem embargo, o cavaleiro de Lagarto não era um homem de natureza depressiva, logo, não demorou muito tempo para se refazer da morte de seu mestre e amante.
Oito meses mais tarde, ele teve uma luta que viria a marcá-lo definitivamente: seu confronto contra o cavaleiro de Pégasus. O fato de ter sido ferido pela primeira vez na vida poderia parecer algo irrelevante e frívolo, mas para ele era uma afronta não apenas à sua lendária vaidade. Na verdade, ele se achava tão acima do bem e do mal que em tempo algum poderia imaginar que alguém conseguiria machucá-lo e destrui-lo. Mas no final, não tinha morrido e encontrava-se uma vez mais no Santuário, apesar de que desta vez servia à verdadeira deusa Athena. Então notou que, diferentemente do que se poderia esperar, não nutria nenhum ressentimento por Seiya. Na realidade, antes mesmo de ter entrado em khoma, tinha reconhecido que o cavaleiro de Pégasus estava com a razão.
"Acho até que poderíamos ser amigos. Que ironia. Isto anteriormente seria algo impensável, eu, Misty Truffaut, com vontade de ser amigo de um cavaleiro que me derrotou. Mas agora eu não sei... realmente senti admiração por ele na nossa luta. Além do que, se eu for sincero comigo mesmo, não posso deixar de me lembrar que não era bem verdade que eu nunca tinha sido ferido antes daquela luta, já que meus pais me machucavam muito com as bofetadas que me davam. Mas isso já faz parte do passado e muitas vezes eu nem me lembro... ou pelo menos penso que não me lembro", Misty conjecturou com uma expressão soturna.
