Capítulo 38 – Vida
-Eu odeio você, odeio você seu intrometido. Por que você foi mexer nas minhas coisas? Quem deu permissão para você abrir uma carta minha? Seu estúpido, eu odeio você!
-Helena chega! – disse me aproximando da sala.
-Mas mãe, ele abriu uma carta minha! – ela resmungou olhando feio para o irmão – Esse idiota!
-Idiota é você. – atacou Brian – Por isso o John está com a Penny, você é insuportável.
Eu vi Helena mudar de cor e sabia que a coisa ia ficar pior ainda.
-Vocês estão brigando de novo? – disse um toquinho de gente descendo as escadas correndo.
-Sabe Brian – começou Helena olhando a irmã caçula – eu preferia que você não existisse. Eu preferia ter só a Olívia como irmã, eu odeio você!
James estava entrando em casa quando Helena subiu as escadas correndo e bateu a porta do quarto. Vi Brian ficar com os olhos úmidos, mas ele não ia chorar assim, eu sabia disso, ele piscou várias vezes e fechou a cara.
-Helana volta aqui! – ela não me obedeceu, me virei para meu filh – Bry, sua irmã não falou sério. – disse chegando perto dele.
-Eu não me importo, não gosto dela mesmo. – e ele também saiu correndo escada a cima.
-O que foi isso? – perguntou James dando um beijo na nossa filha caçula e em seguida me beijando.
-Brian queria mandar uma carta para o Adam e quando foi procurar a coruja, ela estava chegando com uma carta. Ele leu, só que era uma carta da Holly dizendo a Helie que John estava namorando com a Penny. Algo assim. – respondi.
-Quem é John? – perguntou James desconfiando.
-John Wood, irmão da Holly. – disse.
-Porque eles brigam tanto? – perguntou Olívia indo para a cozinha de mãos dadas com o pai e fazendo uma careta.
-E o que o John tem haver com a Helena? – James indagou fechando a cara.
-Helena não é mais um bebê Jay. – respondi sorrindo e servindo Olívia.
-Ora, ela não tem idade para ficar se preocupando com garotos. – ele resmungou se sentando – Além do mais, John é bem mais velho que ela.
-Ele é só um ano mais velho que ela. – lembrei-lhe.
-Que seja. – eu ri.
Nem Helena, nem Brian quiseram descer para jantar. Eu suspirei resignada, os dois viviam em pé de guerra desde sempre. James tinha colocado Olívia para dormir e eu estava olhando os cômodos para ver se nenhum dos dois tinha esquecido alguma coisa largada por ai. Helena iria embarcar para o sexto ano em Hogwarts e Brian ia começar o primeiro ano. A casa ia ficar estranha apenas com Olívia, se bem que ela em matéria de bagunça estava lado a lado com Brian e Helena.
Quando estava subindo as escadas ouvi vozes no quarto de Brian.
-Sabe que não odeio você de verdade – estava dizendo Helena – não sabe?
A porta estava entreaberta e eu observei meus dois filhos, Helena estava sentada na beirada da cama e Brian deitado olhando para o teto.
-Bry...
-Droga Helena, eu não ia contar para ninguém – ele resmungou.
-Eu sei, mas eu... – Helena se deitou também – eu gosto dele.
-Por quê? – Brian perguntou como se isso fosse impossível.
-Eu não sei, eu gosto de como ele anda e como ele se veste – Bry fez uma careta, mas Helena não notou – gosto da forma como ele fala e gosto do sorriso dele.
-Eu não sou a Holly – meu filho resmungou.
-Mas você é meu irmão. – disse Helena – Eu confio em você Bry.
-Isso é nojento! – disse meu menino e eu sorri.
-O que? – perguntou Helie sem entender nada e eu me segurei para não rir. Quer dizer, eu sabia que não deveria estar escutando escondido, mas não pude resistir. Meus bebês iriam embora no dia seguinte, eu tinha todo o direito de escutar atrás da porta.
-Você e John.
-Quando você estiver apaixonado vai me dizer se é nojento ou não.
-Eu não vou me apaixonar – disse Brian fazendo uma careta como se aquilo fosse a pior ofensa possível – e duvido que uma garota vá me fazer mudar de ideia.
-Eu aposto que vai.
-Eu aposto que não vai.
-Nem se essa garota for a Jane? – perguntou Helena e apesar de não ver eu tinha certeza que Brian estava corando.
-Não sei do que você está falando, eu não gosto dela.
-Ah então está bem, eu não vou contar o que ela me falou de você. – disse Helie e eu podia jurar que ela estava jogando verde.
-Ela falou de mim? – perguntou meu menininho esperançoso, o pobrezinho caiu direitinho!
-Não – Helena riu – mas agora eu tenho certeza que você gosta dela!
-Eu não...
-Brian gosta da Jane... Bry gosta da Jane! – Helena começou a cantarolar e Brian a empurrou da cama.
-Cala a boca Helena. – ele resmungou quando ela voltou para a cama.
-Admiti que você da Jane Zabine? – ela pressionou.
-Não. – ele disse decidido.
-Ouvi ela dizendo que quer ir para Slytherin. – comentou Helena.
-Eu...
-Se você também for, vocês vão ficar bem próximos. – Helena ria.
-Eu não vou para Slytherin.
-Você não pode ter certeza. – disse Helie.
-Eu só sei que não vou para a mesma casa que você e a mamãe. – ele disse parecendo contrariado.
-Vai para a casa do papai, então?
-Não sei. – ele murmurou, quase não consegui ouvir.
-Você está com medo Bry? – Helena perguntou, a gozação já esquecida.
-Não... e se eu não for para nenhuma casa? – ele perguntou com um suspiro – E se eu tiver que voltar por que eu não sirvo para nenhuma das casas? Eu não sou corajoso, nem inteligente, não sirvo para a Lufa-Lufa e nem para a Slytherin.
-Não seja bobo Brian. – ela resmungou – Você é um bruxo!
-Mas talvez eu não sirva para...
-Tenho certeza que serve para alguma das casas.
-Como você pode ter certeza?
-Por que você é meu irmão! – disse Helena como se fosse óbvio.
Eu fui para meu quarto sorrindo. Esses dois sempre foram assim, bate e assopra! Brigam e fazem as pazes, mas eu tinha que admitir que estava pensando no que Helena tinha falado. Como assim Brian gostava da Jane? Eles foram criados juntos, Amy e Ian viviam em casa, assim como nós na casa deles. Como assim Brian gostava da Jane?
Quando cheguei no quarto parei a porta olhando James que estava deitado na nossa cama. Ele não era mais um jovem bruxo, era um homem maduro, experiente, pai de família. E deitado, com os olhos fechados, parecendo imensamente sereno eu não podia deixar de achá-lo perfeito. Não apenas força de expressão, mas inteira e completamente perfeito. Meu homem! Meu James!
-Vem para cama. – ele chamou abrindo os olhos e me vendo em pé na porta.
-Estava te olhando. – disse subindo na nossa cama – Olívia já dormiu?
-Estava inconsolável por que vai ficar sozinha, mas consegui convencê-la a dormir.
-O que você prometeu a ela? – perguntei arqueando uma sobrancelha.
-Que compraria uma vassoura nova – ele riu.
-James...
-Não brigue. – ele me puxou para si – Aliais o que você estava me olhando?
-Primeiro, você não vai comprar uma vassoura nova para Olívia – respondi me afastando dele – Segundo, nós vamos juntos com os Wood para King´s Cross amanhã e você não vai fazer cara feia para o John. Terceiro, desde quando Brian gosta da Jane?, ele tem 11 anos, não tem idade para ficar atrás de meninas e... para de rir!
-Hex meu amor, tem noção do que acabou de falar?
-Helena tem 16 anos James, é completamente diferente. – respondi entendendo na hora a que ele se referia – Além do mais, Jane e Brian foram criados juntos.
-Bem, Lily e Hugo também foram e veja só no que deu. – disse James fazendo uma careta muito parecida com a que Brian estava fazendo – Eles se reproduzem mais que coelhos!
Eu comecei a rir.
-Quarto...
-A lista é grande hein!? – ele comentou rindo.
-Quarto – continuei, ignorando-o – eu estava te olhando porque estava me lembrando de tudo que nós passamos. Hogwarts, Olívia, Helena, nosso casamento... Nós não somos mais dois jovens.
-Não, não somos, mas você continua linda.
-Eu estou entrando na meia idade James, certamente não estou mais uma beldade. – resmunguei.
-Já se olhou no espelho nos últimos anos? – ele perguntou balançando a cabeça incrédulo – A cada ano você fica mais bela... mesmo com cabelos brancos.
-Eu não tenho cabelos brancos. – respondi dando um tapa em seu braço.
-Porque você uma aquele feitiço de...
-Cala a boca Potter. – disse rindo.
-Sabe de uma coisa? – ele perguntou.
-Saberei quando você me contar.
-Eu te amo cada dia mais. – ele sorriu.
-Eu sei, eu também te amo. – comecei a beija-lo calmamente, lentamente. Eu nunca me cansava dele, mesmo em dias que o que eu mais queria era algumas horas para mim mesma sozinha, sem filhos e marido, eu o queria perto de mim. Antes, porém que eu ou James avançássemos um pouco mais Olívia abriu a porta do quarto correndo e pulou na nossa cama.
-Eu tive um pesadelo. – ela contou se aninhando entre nós dois.
-O que foi meu amor? – perguntei a embrulhando.
-Eu não quero ficar aqui sozinha, quero ir com o Bry e a Helie. – ela resmungou chorosa.
-Quando você tiver idade você também vai para Hogwarts. – disse James me olhando meio frustrado.
-Eu quero ir amanhã – ela disse teimosa.
-Pelo que eu sei você tem uma vassoura para comprar amanhã. – disse e de repente os olhinhos dela se iluminaram.
-Eu vou ser a melhor artilheira do time. – ela disse contente. Eu sorri.
-Mãe, pai... – chamou outra vozinha vindo da porta.
-Entra filho. – respondi, eu, James e Olívia nos apertamos um pouco e Bry se deitou ao meu lado – Não devia estar dormindo?
-Não consegui – ele respondeu, levantando a cabeça e olhando para a irmã caçula – o que faz aqui Liv?
-Tive um pesadelo, quero ir com você. – disse minha pequena, olhando pidona para o irmão.
-Eu estou com medo de ir. – sussurrou Brian somente para mim.
-Hogwarts é maravilhosa, tenho certeza que você vai amar Bry e quando chegar a hora você também vai amar Liv. – disse tentando acalmar os dois.
-O que vocês estão fazendo ai? – perguntou outra voz entrando impetuosa no quarto e se jogando entre James e Olívia.
-Ai Helie. – resmungou Olívia se contorcendo para sair de baixo da irmã.
-Desculpa – ela pediu automaticamente – o que vocês estão fazendo aqui?
-Nada em particular. – respondi.
-E por que não me chamaram para fazer 'nada em particular'? – perguntou contrariada.
-Por que pensamos que você estava dormindo. – respondeu James que só não estava no chão por que nossa cama era maior do que o tamanho padrão.
-Eu não consegui – ela respondeu espelhando a resposta de Brian.
-Esta com medo de encontrar o John? – alfinetou Bry.
-Cala a boca Brian, seu idiota...
-Hei, hei, hei. – disse James – sem brigas, ou todo mundo vai voltar para suas camas.
-Mãe, fala para o Brian parar de me provocar. – disse Helena.
-Só se ela parar de me chamar de idiota. – resmungou Bry.
-Papai, compra uma vassoura adulta para mim? – perguntou Olívia.
-Por que o senhor vai comprar uma vassoura para ela? – protestou Helena – Eu sou a melhor artilheira do time, eu mereço uma vassoura nova!
-Você ganhou uma vassoura nova no seu aniversário. – disse James.
-Quando eu puder entrar no time vou comprar uma Quickness 2.0. – comentou Brian sonhador.
-Quem disse que você vai entrar no time? – provocou Helena.
-Aposto que vou ser melhor que você. – ele se defendeu.
-Aposto que não vai. – disse Helena sorrindo.
-Mas quem vai ganhar uma vassoura nova sou eu, não vocês. – disse Liv.
-Só por que você é uma chorona.
-Aposto como chantageou a mamãe.
-É o papai que vai me dar a vassoura nova.
-Pai, não é justo.
-Se a Olívia pode ter, eu também quero uma.
-Você não pode levar uma vassoura para Hogwarts, seu idiota.
-Mãe, olha ela. – resmungou Bry.
-Helena... – alertei, ela fez uma careta para o irmão.
-O vovô foi do time no primeiro ano.
-Você não é tão bom quando o vovô, eu sou boa.
-Não é não.
-Sou sim.
Olhei para James e sorri enquanto nossos filhos continuavam a falar e falar e falar. Nossa noite romântica tinha ido para o ralo, mas em compensação ali estavam nossos filhos, não podia ser melhor do que isso. Eu não podia pedir mais do que isso, por que para mim aquilo era a perfeição, era o paraíso, era a felicidade...
Conforme a noite avançava, as crianças finalmente adormeceram – ainda na nossa cama. Me levantei, ajeitando Brian o lado de Olívia para não tem perigo dele cair da cama. Olhei o quadro a minha frente: James, Helena, Olívia e Brian. Minha família, minha vida. Eu nunca imaginei que pudesse ser tão feliz, então veio o casamento com James, nesse dia eu tive certeza que estava realizada, mas então veio Brian e então eu sabia que era a pessoa mais feliz do mundo com meu marido e meus dois filhos. Contudo, foi só quando peguei Olívia nos braços que eu soube que estava completa a minha felicidade.
Quando Olívia nasceu eu me lembrei do sonho que tive quando Helena estava entre a vida e a morte. Até hoje me arrepio quando penso que poderia ter perdido a minha Helena! Quando olhei o rostinho da Olívia, eu soube que não poderia ser outro nome, por que eu finalmente tinha entendido tudo.
Voltei ao presente vendo-os dormindo serenamente. Me sentei numa poltrona após pegar em um velho baú meu antigo diário e uma pena na mesa de cabeceira. Respirei fundo e comecei a escrever...
01/09/ 2047 – 02h15min
A minha historia foi igual a tantas outas que existem por ai. Não houve uma vilã não minha história... a não ser eu mesma. Ninguém fez planos engenhosos para acabar com a minha felicidade... a não ser eu mesma. Eu não fui a princesa dos contos de fadas trouxas e nem a heroína dos contos bruxos. Não fui a mocinha da história que sempre colocava a vontade dos outros acima das próprias, meus desejos sempre vieram em primeiro lugar. A minha história não teve um vilão que queria me roubar do meu grande amor, nem uma vadia qualquer que quisesse me roubar esse amor – pensando bem, talvez tiveram algumas... Eu não tive um herói perfeito, que sempre aparecia para me salvar e dizia que me amava a todo o momento.
Na minha vida eu fui a única vilã, eu não precisei que alguém destruísse a minha felicidade, eu mesma fiz isso várias e várias vezes, mas eu também fui aquela que correu atrás da felicidade. Eu não tive o príncipe perfeito, tive um cheio de defeitos, orgulhoso e muito, muito teimoso, mas eu nunca sonhei com outro que não fosse ele. Eu não tive a melhor amiga de todas, que fosse compreensiva e sempre falasse coisas boas para mim, mas eu não trocaria sua prepotência e seu cinismo por alguém ideal nunca.
Não tive a melhor amiga do mundo... tive a minha melhor amiga.
Eu não tive o melhor amigo, aquele que nunca demonstrou interesse por mim e que estava sempre disposto a me proteger, mas eu não o trocaria por ninguém.
Eu nunca tive as melhores notas, não fui monitora chefe e não fui atração no time de quadribol. Não fui a melhor aluna, nem a melhor amiga e com toda a certeza não fui a melhor pessoa. Eu tentei ser a melhor... a melhor sonserina. A melhor curandeira. A melhor amante. Acima de tudo a melhor mãe. Mas eu falhei inúmeras vezes. Minha história não foi a melhor de todas, não foi a mais empolgante, nem a mais sombria ou a mais engraçada, mas foi a minha história e eu não a trocaria por nenhuma outra.
Eu sofri com a mesma intensidade com que sorri e fui feliz. A única vilã que eu enfrentei fui eu mesma. A única armação que eu cai, foi eu mesma que armei. Ninguém interferiu na minha história, ela aconteceu exatamente como tinha que acontecer...
Meu nome é Hestia Sammer Potter e sou sonserina. Sou mãe, sou esposa, sou mulher. E mais ainda, eu sou feliz... Eu sou Hestia Potter e sei que já errei muito, contudo, para cada um dos meus erros eu tive um acerto. Nunca me arrependerei das minhas decisões, pois elas me trouxeram minha Helena e se eu tivesse que passar por tudo de novo para tê-la eu faria isso.
Sinto que ainda tenho muito a aprender, muitas e muitas lições, mas estou disposta a enfrentar a vida de cabeça erguida e junto com você, sempre junto com você meu amor. Por que você é e sempre será o único que eu amo. Por que quando eu mudei, foi com ajuda da Helena, mas foi por você.
Nunca em minha vida me esquecerei das pessoas que passaram e cada qual me ensinou uma lição diferente e todas elas me trouxeram onde estou hoje. Com você... com nossos filhos. Helena, Brian e Olívia. Sinto-me completa por que sei que te faço feliz. Sinto-me feliz por que sei que estou com você.
Sempre. Sempre. Sempre.
P.S.: Eu te amo.
