Marcado
Kaline Bogard
Capítulo 37 – Retorno
Taiga abriu os olhos e teve um rápido instante de pânico, enquanto se acostumava a semi-penumbra do ambiente. Mas os sentidos foram bombardeados com sensações familiares. Era o seu quarto, sua cama, seu lençol e sua manta. E os braços lhe envolvendo eram de Daiki.
Manteve-se em silêncio apenas aproveitando aquilo. Pelo visto, perdera alguma coisa desde sua última lembrança até o momento atual. Seu corpo estava estranho, um tanto amortecido, porém não sentia dor. Analisando com calma, notou somente o desconforto nas costas e no olho direito, ainda um pouco inchado.
— Yo — venceu a letargia a contra-gosto. Tanto havia a se explicar...
— Yo — O Alpha respondeu preguiçoso. Sequer dormira nas últimas horas, preocupado com a boa recuperação do companheiro. Imaginava que, agora que Taiga estava a salvo, o Tigre o libertaria da Zona a qualquer instante. Demorara mais do que o normal, talvez sua parte animal quisesse que se restaurasse ao máximo. Ficar junto ao seu animal interior fizera a diferença para que estivesse estruturado e apto a enfrentar a realidade outra vez. O Tigre curara sua mente.
A respiração de Daiki bateu de leve na nuca de Taiga, arrepiando os pelinhos. Foi tão bom que emocionou o Ômega, feliz por ter aquilo de volta. Acabou ficando em silêncio por mais um tempo. Milhões de perguntas bailavam em sua mente, embora não conseguisse achar um começo.
Até que indagou o óbvio.
— Meu irmão? — essa foi a preocupação inicial que superou o resto. Graças a ligação do Pack, sabia que todos os shifters da Geração Milagrosa estavam bem e a salvo. Kise e Kuroko permaneciam ali, em seu apartamento. Midorima e Momoi estavam nas redondezas. Akashi e Murasakibara, ao contrário, estavam mais distantes.
— Bem. Não se preocupe — Aomine respondeu — Akashi cuidou de tudo.
— De "tudo"? O que foi que eu perdi?
Então Daiki começou a contar a história, sem pressa. Captava traços de cansaço no companheiro, pois seu corpo concentrava-se em curar as feridas. Por isso o colocaria a par dos fatos, em seguida o levaria para comer algo. Passou uma orientação mental para que Kise colocasse a comida para esquentar. Sua mãe enviara alimentos para um batalhão! Aquela mulher exagerada... E pediu para que Kuroko preparasse o banho com agrimônia, planta que usavam para ajudar na cicatrização e não era maléfica para a espécie.
Após esses cuidados, focou em informar Kagami de tudo o que ele precisava saber. Contou como a dor que ele sentia instigara o animal interior de Daiki a sair da Zona, mas sem a presença do Pack era impossível transformar-se. O Alpha ficaria preso naquele afã por tempo indeterminado. E parecia bem isso que aconteceria quando os Betas entraram no limite da distância que podia captá-los. E por isso teve a força necessária para assumir a forma completa.
Nesse ponto, contou brevemente o que ouvira de Akashi sobre suas investigações e de como descobrira o esconderijo da Kirisaki Daichi. Revelou o triste destino do Técnico do time de Basquete e seu assistente.
Retomou a investida de resgate. Não deu muitos detalhes, deixando claro apenas que a maior parte dos Betas conseguira trazer o animal interior da Zona e que os inimigos foram vencidos.
— Seu irmão estava preso no andar de cima, sem um arranhão. Hanamiya não abriu o bico pra ele. Então a história que Akashi inventou cobriu tudo.
— História?
— Que a Kirisaki Daichi seqüestrou ele e o usou como refém para obrigar a Seirin a perder o Intercolegial. Foi mais complicado tirá-lo da casa sem ver em que estado você estava. Tivemos que... deixá-lo inconsciente...
Kagami praguejou baixo, mas não condenou ninguém além de Hanamiya por isso. Aomine e os outros agiam para evitar um mal pior.
— Onde Tatsuya está?
— De volta a casa dele, são e salvo. Ele não chegou a te ver todo quebrado... Acho que ainda pensa que vocês tão brigados. Depois resolva tudo. Agora Murasakibara está por perto, de olho... — revelou como quem não quer nada.
— Murasakibara? — estranhou a informação.
— Hn. Parece que o Leão reconheceu o cara por companheiro. Cada uma, hum? — e apertou o abraço em volta de Taiga, estreitando-o com força.
O contato fez o corpo do Ômega se aquecer de forma agradável. Sentiu-se tão acolhido e protegido. Tão diferente dos momentos terríveis que passara nas mãos de Kentaro e Hanamiya...
A lembrança desagradável o fez estremecer. E a reação não passou despercebida a Daiki.
— Tá tudo bem agora, Taiga. Eles não podem lhe fazer mais mal.
— Sei disso. Eu só... só... — não completou a frase. A verdade é que queria livrar-se de cada memória, de cada sensação horrível que experimentara.
Aomine compreendeu o que estava nas entrelinhas. E pretendia ajudar seu companheiro naquele processo. Movendo-se, em parte instigado pela Pantera e em parte por seu próprio desejo, inclinou-se de leve, aproveitando que a posição em que estavam deixava a Marca exposta, e pôs-se a lamber a pele sensível do pescoço, como um verdadeiro felino.
O Ômega gemeu baixo, surpreso. Aquilo era bom. Muito bom! Totalmente o oposto do que Kentaro proporcionara. Kagami compreendeu que a reação não era apenas o Tigre aceitando a Pantera. Era ele próprio aceitando Daiki. Talvez a ficha não tivesse caído até então, com todo o papo de shifters e companheiros destinados. Porém ficava claro: tirando toda aquela conversa sobrenatural, se fossem apenas humanos e seus destinos se cruzassem, era provável que acabassem envolvidos, nascidos um para o outro.
— Acabou? — a perguntinha veio seguida por um suspiro.
Aomine parou a carícia e refletiu um pouco.
— O Pack de Kentaro se desfez. Hanamiya foi entregue ao Conselho de Alphas e será condenado. Ele quebrou as mais severas das nossas regras e se fodeu. Vai servir de exemplo. É. Essa ameaça acabou.
O julgamento de Makoto não acontecera ainda. Mas Aomine sabia que só existia um castigo para alguém que descera tão baixo. Hanamiya seria marcado. Porém de um jeito diferente. Ele receberia uma tatuagem, com pó de prata em sua composição. O desenho, gomos de corrente entrelaçados, iriam ao redor de seu pescoço, dos pulsos, cintura e tornozelos. A prata manteria o ferimento inflamado, sem que pudesse curar. E aqueles pontos eram vitais para a raça. As tatuagens agiriam como verdadeiras mortalhas, impedindo os poderes shifters de se manifestarem. Hanamiya passaria o resto de seus dias como humano, detectável por outros shifters por ser um Nascido harmonizado e impedido de esconder seu erro. A comunidade inteira saberia que pagava por crimes hediondos. A vergonha eterna. Não mais um perigo, isolado e amputado de todos os Packs, tal qual o proscrito que se tornaria.
— Existem outras ameaças? — Taiga sussurrou.
— Aqui em Tokyo não. Mas lá fora...? Quem pode dizer? Só posso garantir uma coisa, eu sempre estarei ao seu lado.
Kagami balançou a cabeça. Aquela garantia era a melhor oferta que podia ouvir. Na vida não havia certezas, nem mesmo para os humanos normais. Se o companheiro estivesse consigo, seria capaz de enfrentar qualquer coisa.
"Nada de sair desse apartamento, Bakagami", o Alpha exigiu, mentalmente.
"Daiki...", Taiga começou a reclamar, porém foi cortado.
"Não tô dizendo pra sempre, Baka. Até que se cure dos ferimentos. E não é negociável."
"Mas o Colégio...?"
"Minha mãe deu um jeito nisso. Relaxa."
— E o Intercolegial? — Taiga perguntou de repente. Seirin estava fora, mas com toda aquela confusão, alguns dos jogadores base de outros times não puderam participar das partidas, envolvidos no resgate.
— Deu Touou contra Rakuzan na final. O resultado não importa, já que Akashi e eu ficamos de fora.
Não era como se fizesse alguma diferença. Há muito tempo Daiki perdera a chama que o instigava a jogar basquete. Sempre saía vitorioso de todos os jogos. Nem tinha mais graça.
— Que pena... — o Ômega lamentou.
— Ah! Quase esqueço... Os velhos do Conselho de Alphas querem conhecer a sua cara feia.
O sangue de Kagami gelou nas veias.
— Por quê?! — seria um bom sinal aquilo?
Aomine riu baixinho da apreensão que captou.
— Talvez porque você seja um Ômega e nenhum deles é líder de um Pack completo? — debochou divertido — A confusão de Hanamiya chamou atenção. Mas não fique com medo, nenhum deles arriscaria a posição indo contras regras. Só vou te levar até eles quando se sentir a vontade com isso.
— Aa — relaxou outra vez. Por ser tão novo no mundo shifter deixava de saber de certas regras. Todavia, um "Conselho de Alphas" parecia grave e sério. E importante para a Geração Milagrosa.
— Põe importante nisso, Kagami — o outro rapaz acabou recebendo o último pensamento preocupado — Você sabe que Akashi é o cara do "Eu Que Devo Ser O Líder", hum? Aposto que ele quer abocanhar uma vaga no Conselho de Alphas...
— É...? — o ruivo não deu muita atenção a isso, não achou grande coisa. Sendo a Geração Milagrosa tão poderosa e um Pack completo era justo que em alguns anos conseguissem mesmo um lugar de representatividade no tal Conselho. Mesmo que não imaginasse Daiki sentado entre um bando de senhores fazendo... o que quer que o bendito Conselho fizesse.
Aomine, por sua vez, só não tinha certeza de que os planos de Akashi Seijuro seriam a longo prazo. Pelo contrário. Porém não era assunto para a intimidade daquele momento, cujo clima foi totalmente cortado quando o estomago de Taiga roncou alto.
— Esse é o sinal de que está pronto para se alimentar — Daiki soou feliz com a evidente melhora. Conhecia o companheiro e não era segredo que ele gostava de comer bastante. Seu corpo não reclamara antes, por estar focado na recuperação, ameaça mais imediata à sua vida. Agora que os ferimentos se curavam satisfatoriamente, era hora de dar atenção à outros aspectos básicos da sobrevivência.
— Estou faminto! — Taiga praticamente rosnou, dando-se conta do buraco negro que tinha na barriga. Mal se lembrava da última refeição que fizera antes do seqüestro.
— Minha mãe mandou comida. Ah, ela também tá me torrando pra te conhecer. Dela não dá pra escapar — Daiki foi falando e levantando-se da cama.
De alguma maneira, o pensamento de conhecer a senhora Aomine foi mais assustador do que se apresentar diante dos Alphas. Enfim, sobrevivera a Hanamiya, não? Falando nisso...
— Por que eu tô tão... de boa? É o Tigre? — indagou enquanto Daiki o pegava nos braços, para saírem do quarto. Daquela vez não reclamou. Se permitiu ser mimado pelo Alpha, podia se dar ao luxo.
— Em partes — o garoto respondeu, pegando o ponto. Kagami tinha sido raptado e torturado. Sua vida correra risco. Qualquer outra pessoa estaria em um surto talvez, ou traumatizado. Não naquela calma que o Ômega apresentava. Depositou um beijo de leve sobre os fios ruivos, antes de continuar a explicação — Um Ômega representa a própria harmonia na família. O Tigre fez um bom trabalho te protegendo na Zona. Quando te levaram, o equilíbrio do Pack se desestabilizou. Trazer você de volta ajeitou as coisas. É mais um meio do vínculo atuar. Todos se acalmaram e estão bem com o seu retorno, Taiga. O bem estar do Pack causa o seu bem estar. Assim é com os shifters: você muda o Pack. E o Pack muda você.
continua...
