Duelos interiores
Sim, eu te amo; porém nunca
Dos lábios meus saberás,
Que é fundo como a desgraça,
Que o pranto não adelgaça,
Leve, qual sombra que passa,
Ou como um sonho fugaz!
(Gonçalves Dias)
– Onde está Serena? – Perguntou Darien, tentando se levantar.
– Calma, por favor. Não deve se esforçar. – Tentava aquietá-lo Kakyuu.
– Ela foi ao encontro de Nyx?
– Você deve descansar!
– Eu não posso ficar aqui parado enquanto Serena e as outras lutam. Eu preciso ir, preciso ajudá-las.
– Mas...
–Serena precisa de mim. Por favor, princesa...
– Está certo! Nós dois vamos então!
De costas para Darien, ela pegou uma xícara.
– Tome, beba isto antes.
– Mas...
– Não seja teimoso! Depois que tomar, nós vamos... Os dois... Se eu deixar você ir sozinho, decerto que Serena vai brigar comigo! – Disse Kakyuu com um sorriso terno nos lábios.
Darien hesitou por alguns instantes, mas a princesa lhe passava tanta sinceridade, que acabou bebendo aquele chá estranhamente amargo.
Não demorou muito para ele começar a sentir tonto.
– Princesa... – Disse com mágoa no olhar.
– Me perdoe, mas eu prometi que eu cuidaria de você – Tornou com a voz embargada.
E Darien caiu na cama em sono profundo.
Se estivesse em condições de lutar, o remédio não teria efeito algum sobre você.
Me perdoa...
Nunca faria nada para lhe ferir ou magoar, Darien.
A visão de Kakyuu estava obliterada pelas lágrimas que queriam a todo custo sair de seus olhos.
Por quê? Eu não entendo...
É errado!
Travava uma batalha dolorosa dentro de si, enquanto mãos traidoras de sua razão percorriam aquela face que tantos sentimentos confusos lhe provocava ultimamente.
O rosto dela se abaixava lentamente como que impelida por uma força maior, a de um coração que resolveu imperar sobre a força dos fatos.
E os lábios dela tocaram os de Darien...
Nem mesmo a maldição de Nyx parecia fazer efeito sobre si.
As lágrimas agora escorriam e chegaram a seu amado.
E ela se afastou. Envergonhada, enxugava o rosto dele com calma, temendo acordá-lo.
Você não deve saber. Não devo magoá-lo com o que sinto.
Me desculpe.
Enquanto kakyuu prometia a si mesma que não mais se deixaria governar por aquele amor que jamais poderia ser correspondido, Sailor Mars caminhava por um deserto e gritava o nome das companheiras sem obter resposta, até ouvir:
– Guerreira do fogo!
Aquela voz.
Mas que brincadeira é essa?
Ao voltar-se para atender àquele chamado, ela se deparou com uma réplica sua, só que com um sorriso cínico no rosto. Ela trajava um longo vestido negro e trazia um colar de pérolas no pescoço.
– Quem é você?
– Eu sou um espectro dos seus pensamentos, Rei. Eu estou aqui para lhe mostrar a verdade sobre você.
– Que verdade? Do que fala?
Diante dos olhos de Sailor Mars passaram-se todas as brigas que tivera com Serena.
– Vocês duas não são amigas, vocês se odeiam. Só vivem brigando, discutindo. Você não é tal fiel assim à princesa da Lua!
Sailor Marte caiu de joelhos.
Isso não verdade! Você não sabe do que fala!
– Desde que se conheceram, vocês duas só disputam, brigam. Você só está ao lado dela para cumprir uma obrigação! Mas você pode se libertar!
Aquele ar, aquela sensação de tontura... Aquela criatura com contornos humanos (contornos seus!) que se aproximava como uma cobra rastejante a lhe envolver o pescoço, a acariciar sua cabeça.
– Pense em todas as possibilidades – Prosseguiu –, pense! Junte-se a Nyx! Entregue-se e esquecerá dessa inútil, comilona e preguiçosa princesa a quem você finge servir.
– Não fale assim dela!
– Mas não sou eu que falo assim! É você!
Sim, ela é preguiçosa e comilona...
– Mas...
– Ela não passa de uma inútil! Junte-se a Nyx. Não resista... Você sabe, guerreira do fogo! Ela não é digna de ser sua líder, de ser sua princesa! Curve-se a Nyx!
– Eu não posso!
– Claro que pode! Esqueça essa espécie de obrigação que você pensa ter... Ela não vale o seu sacrifício, ela não vale nenhum dos sacrifícios que fizeram por ela... Ela nunca consegue proteger ninguém! Aqueles que se aproximam dela apenas sofrem.
– Isso não é verdade!
Ela é nossa amiga, ela é uma boa pessoa.
– Ela é uma inútil e não é amiga de ninguém. Não passa de uma egoísta que vive a vida a se entupir de bolinhos!
Sailor Mars Levou as mãos à cabeça.
O que está acontecendo?
– Não resista, guerreira! Deixe-se levar...
Serena...
– Vamos, minha senhora espera por você!
Serena...
Você é...
– Não me interessa nada que venha de sua senhora! – Disse Sailor Mars, apontando o dedo indicador para a própria cabeça.
– O que pensa que vai fazer, sua estúpida!
– Serena é minha melhor amiga! E eu a amo não apesar do que ela é, mas exatamente do jeito que ela é! Fogo de Marte, acenda-se!
E a rajada de fogo disparada atingiu a própria cabeça de Sailor Mars espantando aquela presença opressora.
Serena, meninas...
Eu quero encontrar vocês...
E desmaiou.
Sailor Urano caminhava por um cenário de guerra.
Vários cavaleiros com suas espadas e escudos vindo em sua direção. Ela lançou seu ataque:
– Campo magnético de Urano!
E todos eles se submeteram, todos foram "colados" ao solo. Com um sorriso nos lábios, ela arrematou:
– Terra, trema!
E todos os seus oponentes foram eliminados. Um sorriso maroto se formou no rosto da sailor guerreira.
É isso que tem pra mim, Nyx?
Sailor Urano sorria vitoriosa. Sempre foi forte e se orgulhava disso.
Caminhava lentamente, atenta a tudo, quando ouviu um som de palmas.
Mas o que...
– Bravo!
A sailor se virou procurando seu oponente.
– Quem está fazendo isso? Apareça!
E uma estranha criatura se apresentou diante dela. Tinha nariz de palhaço, o corpo esverdeado e trajava uma roupa branca de bolinhas vermelhas.
Urano deu um passo para trás, seu olhar revelava espanto.
Que espécie de idiotice é essa?
– Você é realmente muito forte, guerreira!
– Quem é você!
– Um admirador. – Disse, chegando perto, quase tocando o rosto da sailor, que se esquivou.
– Não me interessa! Você com certeza está aqui a mando de Nyx!
– Além de forte, você é extremamente inteligente.
– O que pretende além de ficar me elogiando?
– Eu? Sou apenas um pobre palhaço, um servo e nada mais... – Fez uma reverência, ao terminar de dizer essas palavras.
Haruka resolveu ignorá-lo e seguiu adiante, mas o palhaço a seguiu, como um cachorrinho alegre com a visita, a pular e pular.
– Não fique atrás de mim!
– Oh, além de forte e inteligente, gosta de atuar sozinha... Interessante...
A sailor interrompeu sua caminhada e olhou aquela criatura de frente, como que a analisando.
– E gosta de avaliar os inimigos também... É uma jóia... Com certeza, a mais forte das sailors guerreiras. – A criatura prosseguia com seu festival de elogios sem fim.
Em outra situação, Haruka despacharia aquele palhaço, mas sentia-se estranha, suscetível...
Por que o escuto?
Por que me agrada tanto essas coisas que ele me diz?
– Pare, por favor! – Pediu começando a se sentir tonta, nauseada.
– Mas por que, se ainda há diversão?
E apontou para outro grupo de guerreiros, cujas faces furiosas se direcionavam a ela.
– Vamos lá, guerreira! Mostre quem é a melhor! Destrua a todos!
Urano se pôs em posição de combate, o palhaço a seu lado como uma sombra.
– Vai ficar aí?
– Ao seu lado, guerreira. Ao lado da vitória!
E ela novamente lançou seu ataque: "Terra, trema".
Os guerreiros foram dissipados sob as palmas efusivas do palhaço e o sorriso de Haruka.
O orgulho, guerreira...
– Maravilhosa! Pena que não possa mostrar seu potencial, cumprir sua missão.
– Do que fala, criatura bizarra?
– Quando sua princesa vagar como um ponto de luz enfraquecido pelo universo, o que será de você? Responda, guerreira, como se sente servindo como uma plebeia a uma fraca, a uma estúpida?
– Cale-se!
– Uma guerreira tão forte deveria estar associada aos deuses, não a uma criança estúpida!
Eu quero que você se cale!
Está me deixando confusa...
– Já disse pra se calar! Terra, trema!
E lançou seu ataque sobre aquela criatura, que ao ser atingida, soltou um terrível grito.
– Você é forte, mas não vai me calar com esse golpe! – Disse ele, em meio à fumaça, seu corpo agora distorcido, sua face queimada.
– O que é você?
– Eu sou o seu guia, seu guia até Nyx! Não finja ser algo que não é; você é orgulhosa e ambiciosa. Como pode servir àquela estúpida como um cão fiel? Servindo a Nyx será verdadeiramente uma guerreira, usar todo seu potencial.
Minha princesa é tão chorona e frágil...
Nyx é forte, é uma deusa.
– Eu...
– Aceite um lugar junto a Nyx e será sempre vitoriosa. Fique ao lado dos vencedores, minha cara. Você não faz parte do time dos perdedores.
Urano se sentia tonta, confusa... A visão se embaralhava e aquela voz parecia fazer um eco em sua mente, entranhando-se como uma ideia fixa.
Eu... tenho uma missão...
– Vamos, não resista mais! A mais forte das guerreiras merece o melhor.
– Não, eu não sou a mais forte! Se eu fosse não daria ouvidos a você como dei até agora!
– O quê?
– Eu não aceito me curvar à sua senhora! E, de bom grado, compartilharei do destino da minha princesa!
"Você está ouvindo, Nyx?
Eu te repudio!"
A sailor dizia isso com tal veemência, que o palhaço se pôs a cobrir os ouvidos.Ele ainda se agarrou à sua vítima, tentando ainda convencê-la, mas Haruka continuou ainda mais firme:
– Eu servirei à princesa da Lua, essa é a minha verdadeira força: a lealdade a quem protege esse mundo!
Do broche no centro de seu peito, irradiou uma luz terna, que se abateu sobre o palhaço.
A guerreira viu seu oponente ser tomado por aquela luz e explodir.
Mas seus pensamentos não estavam mais com ele.
Meninas... princesa... Eu quero estar junto de vocês.
Uma sutil lágrima escorria pelo rosto da guerreira, que se perguntava quando finalmente ia reencontrar suas companheiras.
