"What goes around, comes around" (O que vai, volta), os americanos usam esta expressão para falar do ciclo vicioso da vida e a minha mãe costumava dizer que "quem ferros mata, com ferros morre". No fundo, ambas querem dizer o mesmo, quem fizer o bem, recebe o bem e quem provoca o mal, irá sofrer. Eu matei o Tsukasa com a minha infidelidade e agora ela voltava para me ensombrar a mim, com provas fotográficas como testemunhas.
Os danos estavam feitos, ninguém os poderia reparar. Levantei-me da cama, coloquei as fotos em cima da cama, cuidadosamente espalhadas e fui buscar um papel e uma caneta onde escrevi: "Não temos mais solução, é o que a minha mente e o meu coração me dizem. Não consigo parar de ter pensamentos que me deixam esgotada e sem esperança. Acredito que sentes o mesmo e por isso está na altura de acabarmos com isto. Nenhum de nós é masoquista. E enquanto estivermos vivos, a respirar e com o coração a bater no peito, podemos sempre começar de novo. Amanhã será um novo dia. Adeus, Makino Tsukushi." Coloquei o papel ao lado das fotos e abandonei o quarto, com as mãos tão vazias, como quanto tinha entrado ali pela primeira vez.
Desci as escadas, fui até à cozinha e chamei todos os que trabalhavam naquela casa. Reuniram-se à minha volta, com um olhar estranho:
- Nem sei muito bem, como hei-de dizer isto. - comecei, sentindo as lágrimas a arderem-me nos olhos. – Mas vou-me embora e acho que dificilmente nos vamos voltar a ver. – a Syori, levou a mão ao peito e outras baixaram a cabeça, não sei se para esconderem a surpresa ou por estarem desoladas com a minha partida. – Quero dizer que gostei muito de vos ter conhecido e espero sinceramente que também tenham gostado de me conhecer. Agradeço tudo o que fizeram por mim e gostaria que me considerassem uma amiga. – sorri-lhes com as lágrimas presas nas pálpebras e fiz uma vénia no final que eles retribuíram. Virei as costas, caminhei pela última vez por aquele espaço e saí porta fora de cabeça erguida e sem nada no bolso. Teria de andar muito, para chegar até a casa dos meus pais, mas não importava, tempo era coisa que não me faltava e pernas também não.
Precisava de viver outra história, para libertar o meu peito, precisava de voltar a arregaçar as mangas, para me sentir novamente humana, para me sentir eu.
Voltei a casa dos meus pais, que como sempre achavam que o Tsukasa era um deus e que eu era maluca por o abandonar, mas como sempre aceitaram-me e respeitaram-me. Voltei a ter um quarto modesto, mais pequeno do que o meu antigo closet, não tinha telemóvel e já não calçava sapatos com solas vermelhas ou roupas com etiquetas bonitas.
Arranjei um emprego como empregada de mesa e não me importava nada de o fazer, excepto quando era perseguida e atropelada por fotógrafos sensacionalistas que queriam encher os tablóides, com a história da esposa que caiu das graças e foi atirada para uma vida medíocre e pobre. Foram tempos duros, todos os dias, apareciam títulos desagradáveis que remetiam para infidelidades, quer minhas quer do Domyouji. Era triste ver o pouco que as pessoas se importavam com a dor alheia. Sim, não era fácil mudar de vida, por muito que eu quisesse virar a mesa e abandonar tudo o que tinha havido, a realidade pura e simplesmente não mo permitia.
Mas antes de avançar, acho que preciso de dizer uma coisa, tenho estado a tentar evitar abordar o assunto, mas não faria sentido senão contasse tudo o que se passou.
No dia em que abandonei a casa, que tinha sido minha, caminhei durante muito tempo, tanto que o céu já tinha adquirido uma tonalidade laranja, típica dos fins de tarde solarengos. Senti um puxão imenso que me fez virar e olhar directamente para o meu agressor.
- Tsukasa! - gritei de supresa. - O que estás a fazer?
Ele não me respondeu e continuou a apertar-me o braço com bastante força, eu podia ver-lhe os nós dos dedos esbranquiçarem-se perante a força que fazia no meu braço.
- Tsukasa, estás a magoar-me. - disse-lhe, tentando soltar o braço.
- Magoar-te? – perguntou, com um ar irónico.
- Sim, a magoar-me. – respondi firmemente dando um puxão no braço que no entanto não cedeu.
- E quem pensas tu que és para me dizeres quem eu posso ou não magoar? – perguntou abandonando o tom irónico para o substituir por um tom ofendido.
- Tsukasa, deixa-te de arrogâncias grátis. Estou cansada e quero ir para casa, larga-me imediatamente. - repliquei rispidamente olhando-o directamente nos olhos.
- És tão estúpida e prepotente, sempre com a mania que sabes tudo e que estás sempre cheia de razão. Pois ouve-me com atenção, tu não sabes nada…NADA. – ele estava a gritar e apertava-me ainda mais o braço, de tal forma que tive de agarrar-lhe a mão para lhe tentar abrir os dedos.
- Queres fazer o quê? Garrotares-me o braço até eu assumir que estás cheio de razão?
- Olha para ti, agora quando me tocas é para te tentares libertar de mim.
- Não precisava de ser assim.
- Ainda bem que tens consciência disso.
- Já chega o que aconteceu, aconteceu e não vai voltar atrás. Larga-me e vai para casa. - disse-lhe o mais calmamente possível.
- Eu não tenho casa. – disse, colocando a sua outra mão sobre a minha, que continuava em cima da mão que me estrangulava o braço, agora com muito menos força.
- Podes sempre formar uma. – respondi-lhe, sem no entanto ter vontade suficiente para quebrar o contacto físico que estava a ter com ele.
- É impossível e tu sabes bem disso. Quantas vezes te avisei que nunca me podias deixar?
- Tsukasa, abre os olhos! Tu e eu fomos uma casa, mas acabamos a viver sobre escombros. Existem melhores alicerces para formar uma casa, logicamente eu não fui o teu. Vais encontrar um, talvez até já o tenhas encontrado. - magoou-me pensar que a Iku seria a mulher ideal para ele, mas se fosse a escolha dele eu teria de aceitar e felicitá-lo. - Não é tão difícil de compreender isso pois não? - perguntei-lhe sorrindo como se ele tivesse dez anos. No entanto, a reacção dele apanhou-me completamente desprevenida, largou-me bruscamente o braço enquanto me repelia num único movimento:
- Desaparece! - gritou, virando-me as costas e começando a caminhar. Eu fiquei a vê-lo andar sem proferir uma única palavra, porque razão reagia ele assim? Porque razão insistia ele em complicar as coisas? Nunca o iria perceber e esse era uma das virtudes dele, era sempre imprevisível e excitante. Suspirei e comecei a caminhar em direcção ao meu destino. As minhas sandálias baixas avançavam rapidamente pelo pavimento, tentando esconder os tremores que me avassalavam as pernas e que me percorriam o corpo.
Absorvida em pensamentos lúgubres, só percebi que alguém se aproximava rapidamente quando me agarrou por um braço e me puxou contra ele. E nesse abraço apertado, beijou-me. Era quente, nostálgico, dolorosamente bom…sentia as pernas derreterem-se e mais uma vez sentia-me em casa, como se o meu corpo nunca tivesse esquecido o calor do corpo dele e o reconhecesse como a sua origem. Poder envolver os meus dedos nos cabelos dele, sentir-lhe a parte detrás da nuca ou o toque da mão dele no meu corpo …era inexplicável. Por muito exagerado que possa parecer era como se eu estivesse num deserto sem beber a mais de uma semana e ele me presenteasse com água fresca. Muitos estão a pensar se ela o ama tanto porque razão se veio embora? E eu digo-vos que já vos contei como são as coisas. Sabem muito bem que é por o amar demais, por não querer que o casamento me desiluda ainda mais, por muito que o adore e seja devota a ele, não posso permitir que um dia ele acordasse e me ignorasse, porque eu já não era nada do que tinha sido.
- Fica comigo. - suplicou-me ao ouvido, abraçando-me e mantendo-me guardada nos seus braços. Não lhe queria responder, porque naquele momento as lágrimas corriam-me pela cara e não queria que ele soubesse…porque tinha de ser assim tão difícil. Ali estava o homem da minha vida, aquele que seria sempre o meu grande amor, poderiam sempre existir outros, poderia casar-me, ter filhos e até ser feliz, no entanto nunca, nunca seria o meu grande amor, porque esse era ele, infelizmente nós não estávamos destinados a ficarmos juntos.
- Não me podes deixar, por favor. Responde-me.
Respirei fundo e acedi-lhe ao pedido:
- Vamos ser mais felizes assim do que casados.
- Tens sempre de me contrariar, nunca podes fazer o que te peço? Eu, Domyouji Tsukasa, a implora-te um coisa e tu não vês o quão difícil isso é, o quão relevante isso tem de ser para mim.
- Tu só vês o que desejas ver. Eu vejo além de mim mesma.
- Então olha para mim e vê-me.
Separei-me dele o suficiente para que conseguisse olhá-lo nos olhos, levei a minha mão à cara dele e disse-lhe:
- Hoje foram as fotografias, amanhã iriam ser coisas piores. Daqui a um mês eu iria acordar e não te iria conhecer e ficaria a odiar-me pelo que me tinha tornado. Não podemos simplesmente voltar atrás.
- Eu não quero voltar atrás. – disse, agarrando a mão que lhe tocava no rosto. - Quero apenas começar de novo.
- E vais começar de novo, só que longe de mim e eu de ti.
- Chega de merdas. Não sei, mais o que te fazer. - disse agarrando-me pelos braços e dando-me ligeiros abanões. - Já te implorei. Já te ameacei. Já te prometi amor eterno. Diz-me o que queres que faça?
- Não quero nada que tu não possas ser. E é por isso que não podemos voltar a estar juntos, Tsukasa. - tinha selado o fim do nosso compromisso, ele claramente tinha compreendido o que eu tinha dito, largou-me e baixou os braços, posso jurar que vi uma sombra atravessar-lhe os olhos. Nos meus, juro-vos, que cresceram lágrimas à velocidade da luz, tão depressa como caíam. Em vão levei as mãos aos olhos para lhes limpar o rasto.
Ele aproximou-se e colocou-me um lenço nas mãos.
- Podes ficar com ele. Queres que te acompanhe a algum lado? - perguntou-me educadamente.
- Não, obrigado. - respondi-lhe.
- Então adeus. - despediu-se virando logo, de seguida, as costas e atravessando a rua. Esse momento ficará gravado na minha mente até ao dia da minha morte, foi naquele dia que ele compreendeu que não poderíamos ficar juntos. Senti-me tão mal, tão vazia que bati com os joelhos no chão e vomitei o pouco que tinha no estômago. O ar estava quente e abafado, mas eu tremia de frio. Afinal não existiam contos de fadas, nem fadas madrinhas ou sapatinhos de cristal.
