somebody to love you

capítulo 37

Manobrando o Volvo diante da casa dos Berry, Jesse desligou o motor e guardou as chaves antes de desafivelar o cinto de segurança. Rachel imitou suas ações, então segurou a mão dele e a trouxe aos lábios, dando um beijo suave em sua palma. Ele respondeu passando os dedos gentilmente pela lateral do rosto dela, fazendo-a estremecer. Olhando para fora das janelas do veículo, ela não conseguiu evitar um sorriso.

"Por que está rindo?"

"Estava pensando em como esse carro é aberto. Não tem tanta privacidade quanto o seu Rover".

"Acho que a sessão pesada de amassos que eu tinha planejado está descartada, hum?"

"Depende do tipo de show quer dar aos vizinhos", retrucou ela, com os olhos brilhando.

"Esse é um desafio que posso aceitar", ele avisou em voz baixa. "Afinal, duvido que eles já tenham visto seu eu verdadeiro".

Ela ria enquanto fitava a casa vizinha.

"A Sra. Mcpherson acredita piamente que eu vou crescer e me tornar freira".

"Hum, ela não sabe que você é judia?"

"Sim, mas já me disse diversas vezes como sou uma menina boazinha. Diz que eu seria um acréscimo inestimável à igreja, e que ficaria feliz em me ajudar a me converter".

"As freiras nunca fazem sexo".

"Eu sei".

"Mas posso comentar uma coisa. Você definitivamente é... boa..."

Ele falou a última palavra de um jeito que causou arrepios na pele dela. O significado era inegável. Inclinando-se para ela, seus lábios roçaram a orelha dela.

"Acha que ela está em casa?"

"É o começo da noite. Como criatura de hábito, imagino que ela esteja lavando as louças nesse momento. De pé naquela janela", ela indicou, solícita.

Jesse surpreendeu-a ao se afastar de repente. Antes que ela pudesse adivinhar seus planos, ele circulou o carro, vindo parar ao lado de sua porta. Abrindo-a, ele lhe estendeu a mão quando ela pisou na calçada. Entrelaçando os dedos com os dela, ele a puxou para mais perto, até que estavam diretamente no campo de visão da janela que ela lhe apontara.

"Me parece que ela leva uma vida muito superprotegida. Vamos acrescentar um pouco de animação a isso dando a ela uma prova de como essa boa menina em especial tem se comportado ultimamente", ele murmurou.

Ele já tinha passado um braço em torno dela, prendendo-a contra seu peito musculoso. A respiração quente dele lhe fazia cócegas na orelha, e seu cheiro a embriagava, deixando-a absolutamente incapaz de resistir a seu charme. Não que ela quisesse. Olhando nos olhos dele, ela imediatamente se perdeu na luxúria que viu refletida ali. As mãos mergulharam nos cachos dele, tocando sua nuca e aproximando o rosto do dele. Seus lábios ficaram a centímetros de distância, até que a língua dela apareceu e tocou o canto da boca dele, um pequeno gesto que fez com que o desejo os invadisse. Rapidamente fechando o pequeno espaço entre eles, eles se beijaram com abandono, ignorantes a tudo que não fosse o toque e o gosto um do outro. A mão dele tocou a lateral dela, vindo pousar em sua coxa, e ele estava a ponto de erguer-lhe a perna sobre seu quadril quando o som de uma buzina soando explodiu em sua consciência. Soltando-a levemente, ele pousou a testa na dela enquanto colocavam ar para dentro de seus pulmões vazios. Assim que seus batimentos cardíacos desaceleraram e sua respiração voltou ao normal, ele ergueu uma sobrancelha e lhe sorriu, convencido.

"Acredito que colocamos a ideia de ser freira de lado".

"Ou isso, ou ela vai decidir que minha alma precisa ser salva e vai trabalhar duas vezes mais pesado", brincou Rachel.

Jesse deixou pender a cabeça e riu, e passou um braço sobre os ombros da namorada, guiando-a para a porta da frente. Assim que ela destrancou e abriu, os dois entraram em silêncio no saguão. Quando nenhum dos pais a cumprimentou, ela sorriu para o rapaz ao seu lado.

"Quer subir ao meu quarto?"

"Não me tente", ele rosnou.

"Nunca?" Brincou ela, piscando para ele.

"Ah, com a maior frequência possível. Só não agora", esclareceu ele. "Preciso ficar na lista branca dos teus pais".

Beijando-a suavemente na cabeça, ele permitiu que ela o levasse à cozinha. Ficaram surpresos por encontrá-la vazia.

"Pai? Papai? Cheguei!" Rachel falou em voz alta.

Hiram apareceu vindo do corredor, parecendo decididamente cansado, mas seus olhos brilharam diante do visitante inesperado.

"Jesse! É bom vê-lo de novo!" Hiram exclamando, estendendo os braços e puxando o sobressaltado adolescente em um abraço breve.

Quando o homem mais velho o soltou, Jesse precisou de um momento para apagar o choque do rosto. Apertando gentilmente a mão dele, Rachel dirigiu-se à geladeira, servindo-se de uma garrafa de água com gás e limão fresco, e então ocupando-se em servir uma bebida. Enquanto isso, Hiram virava-se para a filha com um suspiro.

"Me desculpe, amor. O trabalho foi uma loucura hoje, e o seu pai me mandou um torpedo avisando que ia demorar, então não tenho nada pronto para o jantar. Além do que, eu não sabia que você ia trazer uma visita".

"Eu também não. Ele apareceu no auditório esta tarde".

"E lá fui agraciado com uma deslumbrante versão de Don't Cry For Me, Argentina", revelou Jesse, seu orgulho pelo talento da namorada evidente em seu rosto expressivo.

Hiram franziu a testa, confuso.

"Achei que você disse que não teria solos nas seletivas".

"E não terei, papai. O Kurt veio pedir minha ajuda para escolher uma peça para seu teste, e foi isso que sugeri que ele cantasse. O alcance dele é parecido com o meu, então eu sabia que seria adequado".

"Que gentileza da sua parte. Sei que você é muito possessiva em relação a essa música em particular".

"Sou mesmo. Mas eu e o Kurt não estamos mais competindo diariamente. Isso mudou a minha perspectiva".

Hiram sorriu em aprovação para a filha, antes de voltar-se para Jesse, com indisfarçável curiosidade.

"Ainda não tenho certeza de como você se encaixa no cenário, Jesse. A Rachel nos contou que você viria para as seletivas, mas isso só acontece dentro de alguns dias".

Jesse ia começar a explicar-se quando o som da porta se abrindo interrompeu a conversa. A voz de Leroy soou vinda do saguão.

"Quem a gente conhece que dirige um Volvo?"

O pai mais alto de Rachel entrou no aposento, surpreendendo-se ao avistar Jesse.

"Não é o seu Rover estacionado lá fora", ele comentou, casualmente.

"Deixei-o em casa. Não queria chamar a atenção ao apanhar Rachel na escola. É o carro da minha tia", revelou Jesse.

Leroy extendeu a mão, e Jesse apertou-a calorosamente.

"Bem-vindo de volta. A Rachel sentiu sua falta".

"E eu a dela".

"Foi por isso que veio antes?" Inquiriu Hiram.

"Ela precisava de mim", Jesse respondeu com simplicidade.

O coração de Hiram inundou-se diante do olhar de absoluta devoção trocado pelos dois jovens. Leroy, por sua vez, pareceu cético.

"Tá querendo me dizer que cruzou o país no meio de uma semana de aulas porque achou que a Rachel precisava de você?"

Jesse assentiu, um sorriso cúmplice curvando os cantos de sua boca.

"O senhor me parece um romântico em segredo, Sr. Berry. Tenho certeza que teria feito o mesmo".

"Ele te desmascarou, Leroy", Hiram ria. "Você sempre foi fã de um grande gesto".

Leroy olhou enfezado para Jesse, mas seus olhos brilhavam.

"Chega de lisonjas, meu jovem. Já está nas minhas boas graças".

"Captei vossa mensagem. E, correndo o risco de exagerar, os dois parecem muito cansados. Se ajudar, a Rachel e eu podemos dar conta do jantar".

"Você é mesmo tão perfeito?" Hiram perguntou em voz alta, apenas brincando parcialmente.

"Só por ela", Jesse afirmou, com a voz leve.

Não precisando de mais encorajamento, os homens da família exprimiram sua gratidão e saíram às pressas, deixando Jesse e Rachel a sós. Enquanto examinavam a dispensa e a geladeira atrás do que fazer para o jantar, Rachel olhou com curiosidade para Jesse.

"Você nunca me disse como é capaz de não se perder nas aulas perdidas".

"Não consegue adivinhar?"

Depois de momentânea consideração, Rachel finalmente entendeu.

"Nate".

"Isso. Já que dividimos todas as aulas a não ser por uma, ele concordou em me mandar as anotações dele por e-mail e quaisquer trabalhos que eu perder, e ele ou vai assistir a aula faltante por mim ou achar alguém disposto a contribuir com suas anotações para a causa".

"Você tem muita sorte de ter encontrado um amigo tão bom".

"Isso eu tenho".

"Certo, isso cobre as suas aulas, mas e quanto à peça? Não tem ensaios marcados essa semana?"

"Tenho. Mas, considerando como as coisas estão entre a Sarah e eu, acho que ela ficou bem aliviada quando disse a ela que ficaria cinco dias fora. Ela planeja trabalhar nos números que não me envolvem – o que, sinceramente, é a maior parte deles".

"Só um lampejo do seu lado diabólico foi o suficiente para intimidá-la, né?" Ela não conseguiu perder a piada.

"Foi só o que precisou. Eu sou extremamente talentoso, sabe?" Retrucou ele, com a voz cheia de divertimento.

"Eu sei", murmurou ela, e ficou imediatamente claro para ambos que não estavam mais falando do que ele fizera a Sarah.

"Não comece", alertou-a ele, com os olhos sombrios de desejo.

"Achei que você gostasse de correr riscos", provocou-o ela.

"Com segurança. Acho que você quer que eu continue saudável, para que eu continue lhe dando o tipo de prazer que você apenas sonhava antes de me conhecer", murmurou ele, com a voz pouco mais alta que um sussurro.

O calor a inundou diante das palavras dele, e seu rosto ficou visivelmente vermelho, mas ela não resistiu a fazer um comentário engraçadinho.

"Medo de perder algumas partes vitais?"

"Existem algumas que eu tenho certeza que você sentiria falta", retrucou ele, com uma expressão de triunfo.

"De fato", respondeu ela, com simplicidade.

Fitando-se em torno do balcão da cozinha, seus sorrisos idênticos expressavam promessas implícitas para a noite adiante. Repentinamente cientes de que haviam abandonado totalmente os preparativos para o jantar, eles retornaram a concentração à tarefa adiante.

Meia hora depois, Jesse, Rachel e os pais dela estavam sentados em torno da mesa da cozinha, a conversa fluindo à vontade entre eles. Como se tornara costume, Leroy expunha mais uma vez os defeitos de sua chefe, queixando-se de suas exigências irrazoáveis e lamentando a partida do gerente anterior. Os lábios de Jesse torceram-se em um sorriso, que não escapou da atenção de Leroy.

"Meu sofrimento lhe parece engraçado?"

Enquanto sua profunda voz de tenor intimidava muitos homens, Jesse apenas sorriu.

"Apenas acho que você tem mais poder na situação do que parece pensar ter".

"Como pode?"

Enquanto Jesse delineava várias estratégias engenhosas de como lidar com a situação, Leroy tornava-se visivelmente mais animado. Rachel e Hiram observavam, fascinados, enquanto o homem mais jovem conquistava inteiramente a confiança do patriarca Berry. Acenando e sorrindo imensamente, Leroy parecia que tinha perdido um imenso peso sobre os ombros. De seu lado da mesa, Hiram finalmente vocalizou a pergunta mais importante em sua mente.

"Sem ofensa, Jesse, mas você é bem jovem. Onde aprendeu técnicas tão refinadas?"

"Quatro anos com o Vocal Adrenaline me deram uma educação irreparável", explicou ele, sem um traço de ironia. "Era o ambiente perfeito para observar o comportamento humano e elaborar soluções para lidar com... hum... problemas interpessoais".

"Bem, devo admitir que você parece ter salvo a vida do meu marido esta noite. Obrigado".

"Sim, obrigado, Jesse".

"Por nada".

"Agora, sem querer olhar os dentes de um cavalo dado, mas como é possível que você já esteja aqui? Não tem aulas a assistir?" Especulou Leroy.

"Tenho, mas o Nate vai me mandar todas as anotações e trabalhos que eu precise para continuar atualizado".

"É muito generoso da parte dele".

"É sim, e planejo achar um jeito adequado de retribuir-lhe. Mas ele sabe o quanto a Rachel é importante pra mim, e entendeu o que me fez vir pra cá assim que fosse possível".

"E como planeja passar seu tempo enquanto a Rachel está na escola? Certamente não espera que autorizemos que ela falte ao resto da semana".

"Eu não sonharia com isso", Jesse respondeu, o canto de sua boca erguendo-se num sorriso que ele lutava para sufocar.

Rachel interferiu antes que algo mais pudesse ser dito.

"E o senhor sabe que eu nunca faria isso, pai. Preciso manter minhas notas se quero uma bolsa de estudos para a Tisch ou a Juilliard".

Leroy respirou aliviado.

"Apenas achei que o Jesse podia ser uma distração grande demais pra ti".

Os dois jovens esforçaram-se muito para manter as expressões neutras diante do correto raciocínio de Leroy.

"Estarei fazendo meus próprios trabalhos durante o dia, Sr. Berry", Jesse assegurou ao homem mais velho. "De qualquer modo, sou persona non grata em McKinley, então não poderei interromper aulas ou desafiar pessoas para um duelo de canto no estacionamento".

Rachel engasgou-se de modo que atraiu a atenção dos pais.

"Tudo bem contigo, amor? Quer que te pegue um pouco d'água?" Hiram perguntou, solícito.

Ela sacudiu a cabeça, e fuzilou Jesse com os olhos, sorrindo, o que não passou despercebido.

"O comentário dele obviamente tem um significado conhecido apenas deles", deduziu Hiram.

"Podem nos contar?" Questionouy Leroy.

"Quando me transferi ano passado, quis deixar claro ao Finn, em termos indiscutíveis, que a Rachel era minha namorada. Eu o desafiei para um duelo de canto".

Hiram e Leroy estavam ambos tentando manter o rosto sério, e falhando visivelmente.

"Acho que não foi uma competição justa", Leroy declarou secamente.

"Não houve competição, pai", Rachel corrigiu. "O Finn deu as boas vindas ao Jesse em vez de aceitar o desafio".

"Porque ele sabia que ia perder", Jesse lembrou-lhe.

"Não teria sido uma luta de iguais", ela concordou. "Mas podemos por favor parar de falarmos no Finn? Ele é uma parte do meu passado. O meu futuro é com o Jesse".

Os pais de Rachel trocaram um olhar significativo, mas mantiveram seus pensamentos para si mesmos. Hiram estava a ponto de se levantar e limpar a mesa quando Leroy estendeu a mão para contê-lo. Jesse e Rachel observaram-no com curiosidade quando ele pigarreou.

"Tenho certeza que a Rachel te contou que concordamos em suspender o limite de horário dela quando você voltasse a Lima", começou Leroy, parecendo surpreendentemente desconfortável.

"Sim", Jesse respondeu, com a voz descompromissada.

"Bom, eis o detalhe. Não é que eu queira recuar na palavra dada, mas esperávamos que você ficasse duas noites e agora você vai ficar... quantas, exatamente?"

"Cinco".

"Certo. E três dessas serão noites de semana".

"Corrija-me se eu estiver enganado, mas acho que vocês preferem que a Rachel siga o horário, a não ser pelo fim de semana".

"Sim, é isso mesmo. Mas estamos dispostos a oferecer um acordo".

"Estou ouvindo".

"Você pode ficar aqui no nosso quarto de hóspedes".

"Enquanto agradeço a oferta, sr. Berry, temo que terei que recusá-la".

Rachel teve de sufocar o gemido de protesto que subiu à sua garganta diante da resposta de Jesse.

"E por que é isso?"

"Preciso ser honesto com vocês. Se eu dormir no seu quarto de hóspedes, duas coisas vão acontecer – ou a Rachel vai se enfiar no meu quarto, ou eu no dela".

"Você não podia tentar disfarçar?" Reclamou Leroy.

"Não tem porquê. Vocês dois confiam em mim. O jeito mais rápido de perder essa confiança seria mentir pra vocês. Não vou fazê-lo, mesmo se eu tiver que voltar pra casa dos meus tios em algumas horas".

Leroy fitou Hiram, que respondeu a pergunta silenciosa do marido com um muxoxo.

"Pode pelo menos prometer que não vão fazer nada que não queiramos saber?" Leroy perguntou eventualmente, depois de vários minutos de silêncio.

"Posso fazer isso", assegurou Jesse aos pais da namorada.

"Então vamos fazer um teste essa noite. Se não acabar sendo estranho ou constrangedor, vamos considerar permitir que esse arranjo prossiga".

Rachel levantou-se de um pulo e jogou os braços em torno do pai. Atrás dela, Jesse sorria amplamente, evidentemente deliciado.

"Importam-se se subirmos agora? Tem algumas coisinhas que eu gostaria de conversar com o Jesse, e tenho algumas tarefas a terminar".

"Vá em frente, querida. Você e o Jesse foram gentis o bastante para fazer o jantar, então nós damos conta da limpeza", ofereceu Hiram.

Os adolescentes subiram a escada correndo, rindo enquanto competiam entre si. Enquanto Hiram observava suas figuras distantes, ele virou-se para o companheiro e colocou gentilmente a mão sobre seu ombro.

"Você está realmente bem com isso? É uma coisa suspeitar do que eles estão fazendo quando não estão aqui, mas outra bem diferente permitir que aconteça debaixo do nosso teto, conosco no mesmo corredor".

"Mais do que eu esperava. Viu aqueles olhares? Juro que ele acha que ela é a pessoa mais perfeita do mundo. E ela olha pra ele como se ele fosse o dono da Lua. Como eu posso ficar no meio disso?"

"Então não se importa de perder nosso direito a proibi-la?"

"Tenho certeza que já o perdemos quando concordamos com o pedido dele de surpreendê-la em seu aniversário. Eles vão ficar sozinhos em um quarto de hotel em Nova York. Não pode pensar que eles serão capazes de resistir à tentação".

"Tem razão. Colocamos muita confiança nele com isso. E, enquanto eu odiei vê-la chateada por pensar que passaria o aniversário sozinha, não imagino que ela vá ficar desapontada quando no fim de contas descobrir o que ele preparou para ela".

"Tem que admitir que ela tem sorte de ter encontrado alguém que a ame tanto. E nós também temos sorte".

"A qual de nossas muitas bênçãos você está se referindo?" Hiram perguntou, franzindo a testa em questionamento.

"Ao fato de que realmente gostamos do garoto que provavelmente será nosso genro um dia".


Jesse jogou-se na cama de Rachel, com um olhar de expectativa em seu lindo rosto.

"Tem algo que você queira falar comigo?"

Ela cruzou o quarto e posicionou-se entre as pernas dele. Instintivamente, ele envolveu os braços na cintura dela e a puxou para mais perto.

"Foi apenas uma desculpa pra te trazer aqui pra cima. O que eu quero mesmo fazer é te dar um beijo", confessou ela.

"Você é uma menininha muito danada, e eu amo isso em você", ele murmurou em voz rouca. "Mas prometi aos seus pais..."

As palavras dele foram interrompidas pelo toque dos lábios dela nos dele. A língua dela deslizou por seu lábio inferior, e ele mordiscou-o de leve. Quando ela pendeu a cabeça para aprofundar o beijo, ele a empurrou relutantemente para permitir-se encará-la. O rosto dela estava franzido num bico adorável, e foi quase o suficiente para fazê-lo perder a cabeça. Mas então o nó em seu estômago que fora seu companheiro constante desde que retornara à Califórnia reapareceu, e ele pegou as mãos dela. Quando ele enlaçou os dedos nos dela, ela rapidamente pressentiu o traço de urgência nele.

"O que foi?"

"Preciso que isso dê certo, Rach".

Ela franziu a testa, confusa.

"O que precisa dar certo? Nós?"

"Não tem nada de errado com a gente", ele apressou-se a acalmá-la. "O que eu quis dizer é que preciso que esse arranjo de sono dê certo. Não descanso direito desde a nossa última noite na casa da árvore".

Soltando a respiração que prendera, ela sorriu, compreensiva.

"É a mesma coisa pra mim. Só precisei daquelas três vezes pra me acostumar a te ter do meu lado na cama".

Ele assentiu, concordando.

"Sempre que eu acordava, eu te procuro, e quando você não está lá, eu passo por esse pânico momentâneo até que me lembro que a sua ausência não quer dizer que algo terrível te aconteceu. É que você está aqui em Lima, e eu não".

"Se era tão importante pra você que a gente durma no mesmo quarto hoje, por que deu aquela declaração tão honesta antes?"

"Eu admito que estava correndo um risco, mas eles sempre reagiram bem ao fato de que eu falo a verdade".

"E se eles percebessem o seu blefe? Você tinha um plano B?"

"Eu cogitava dormir acidentalmente na sua cama enquanto estudávamos".

"Hum... Podia dar certo. Mas fico feliz de não termos que recorrer a isso".

"Eu também".

Abraçando-a mais uma vez, ele beijou-a levemente no rosto, e então levantou-se e dirigiu-se à porta.

"Antes que você pergunte, eu já volto. Só preciso ir no carro pegar meu notebook", declarou Jesse.

"Tá".

Enquanto Jesse não estava lá, Rachel tirou seus trabalhos da sacola e priorizou os que foram passados naquele dia. Mal tinha começado o exercício de espanhol quando seu celular rompeu o silêncio. Checando a tela, ela sorriu reconhecendo o número exibido.

"Oi, Grace", ela disse alegremente.

"Oi, Rachel. Tem um minutinho pra conversar?"

"Claro que sim. Algo errado?"

"Não, não, nada. É uma boa notícia, acho eu".

Rachel estranhou a anormal ambivalência da amiga.

"Bom, por que não me conta o que é, e eu te darei o veredito?"

"Vince ligou. E me chamou pra sair". As palavras deixaram Grace aos borbotões.

"Que ótimo! Você gosta dele, né?"

"Gosto. Ele parece ser ótimo".

"Então por que não está vibrando de alegria?"

"Bom, pra começar, ele mora em Akron".

Rachel riu alto.

"Sério, Grace? O Jesse estuda na costa oeste. Estamos há horas de distância, de avião! Eu morreria e iria pro céu se o Jesse morasse aqui em Akron".

"É, eu sei. Não disse que era uma reação racional. E não é só isso. Ele é mais velho".

"O Jesse também é".

"Eu mal o conheço".

"É pra isso que servem os primeiros encontros. Para conhecermos melhor um cara e ver se nos interessa um segundo encontro".

"Já contei que nunca saí muito? Não sou a garota mais popular da escola, lembra?"

"Azar deles. Aparentemente, sorte do Vince".

"Qual é a sorte do Vince?" Perguntou Jesse, sobressaltando Rachel, que não o ouvira voltar.

Segurando o telefone contra o peito, ela explicou-se rapidamente.

"É a Grace. O Vince a chamou pra sair".

"Diga a ela que isso é muito importante. Ele se concentra tanto em sua música nos últimos anos que praticamente virou um monge".

Rachel voltou ao telefone.

"O Jesse disse que o Vince não sai há um tempinho, então devia sentir-se honrado".

"Como o Jesse sabe disso? Está falando pelo Skype com ele enquanto nós duas conversamos? Vou ficar ofendida", brincou Grace, a leveza de seu tom apagando qualquer alfinetada.

"Não estamos falando por Skype", retrucou Rachel.

"Por e-mail? MSN? Com um telefone em cada mão, e indo e vindo entre as duas conversas? Não totalmente absorta em mim e meu drama do dia?" Grace continuou a brincar.

"Errada em todas as frentes, eu receio. Mas concordo que estou distraída".

"Desisto. Se não está fazendo tudo o que sugeri, como o Jesse sabe, a não ser..."

Grace compreendeu quando Jesse pegou o telefone.

"Oi, Grace. O Nate manda oi".

"Jesse? Você tá mesmo no Ohio? Porque o |Nate disse que você..."

"... ia demorar mais uns dias pra chegar. Eu sei. Mudei os planos".

"Hum, você sabe que tem jeitos de aliviar essa tensão que não precisam que vocês estejam no mesmo quarto, né?" Caçoou Grace, com a voz cheia de divertimento.

"Já fizemos isso", retrucou ele com uma risada.

"Informação demais", gemeu ela em resposta, antes de ficar séria. "Mas, de verdade, por que você veio antes?"

Ele repetiu a resposta que dera aos pais de Rachel.

"A Rachel precisava de mim".

"Não posso decidir se isso devia me deixar feliz ou enjoada", declarou Grace.

"Pessoalmente, eu escolheria a primeira opção".

"Claro que escolheria. Ainda estou tentando aceitar o fato de que você deixou tudo de lado porque sentiu que a Rachel precisava de você. Acho que é por causa das escolhas que o diretor de coral dela fez pras seletivas".

"É".

"Bom, posso dizer que ela tem sorte de ter você".

"Isso é recíproco".

Ele se calou, esperando que Grace continuasse falando. Quando ela continuou calada, ele optou por focar o assunto nela.

"Então, você e o Vince, hein?"

"Não vá se animando, Jesse. Vamos à Última Mordida tomar café e comer algo. Só isso".

"Por agora. Como eu disse à Rachel, faz tempo que o Vince só se concentra na música. Ele saía em grupo, principalmente se tinha a ver com música, mas não me lembro da última vez que ele saiu a sós com alguém".

"Estou meio nervosa".

"Não fique. O que você viu durante o boliche e o karaokê? É o verdadeiro Vince. Ele não finge. E, pelo que eu pude perceber, vocês são parecidos, então as coisas vão acabar muito bem. Agora só precisamos juntar o Stefan e a Amy, e nós todos estaremos em casal".

"Isso não é impossível", sugeriu Grace.

"Bom saber. Acho que você gostaria que eu devolvesse o telefone à Rachel".

"Só um pouco, se vocês puderem se desgrudar".

"Acho que vamos conseguir. Tchau, Grace".

"Tchau, Jesse. Agradeço pelo conselho", ela acrescentou.

Passando o telefone para Rachel, Jesse ligou seu notebook e começou a checar seu e-mail. Depois de muitos minutos, ele tomou ciência da presença da namorada atrás de si.

"Você provavelmente ajudou-a mais do que eu poderia", confirmou ela, olhando por cima do ombro dele para o longo anexo mandado por Nate que Jesse acabara de abrir. "Nossa! Parece ser muito trabalho".

"E é. UCLA não é bolinho, então é bom que eu sou um excelente aluno. E eu estava sendo totalmente honesto com seus pais quando eu disse que estaria estudando o dia todo enquanto você tivesse na escola. Não posso me dar ao luxo de ficar para trás".

Apoiando-se no ombro dele por um momento, ela beijou gentilmente o topo da cabeça dele antes de voltar silenciosamente para sua mesa. Pelas próximas horas, eles trabalharam em um silêncio confortável, apenas raramente interrompendo a concentração um do outro para dividirem uma informação interessante ou checar o progresso um do outro. Finalmente, quando o relógio bateu a meia-noite e seus bocejos ficaram muito frequentes, eles decidiram que era melhor parar por ali.

Quando Jesse saiu do banheiro, seus olhos semifechados se arregalaram quando ele viu Rachel deitar nua na cama. Ele sentiu-se enrijecer imediatamente.

"Hum, Rach?"

"Sim?" Ela murmurou com a voz parcialmente abafada pelo travesseiro.

"Preciso que você vista algo".

Virando-se debaixo dos lençóis, ela observou intrigada o namorado.

"A promessa aos seus pais. Nunca serei capaz de mantê-la se você continuar parecendo tão tentadora".

Percebendo que ele vestia uma camiseta e sua cueca, ela exalou um suspiro de desapontamento, mas não discutiu com ele. Em vez disso, estendeu o braço e fez um gesto com a mão.

"Jogue-me a camiseta e o short que estão pendurados no banheiro, por favor", ela pediu, e ele rapidamente fez segundo o instruído. Assim que ela se vestiu, ele deitou-se na cama ao lado dela, prontamente abraçando-a pela cintura e puxando-a contra si. Ela aninhou-se, saudosa, no abraço dele. Pela primeira vez desde que ele voltara à UCLA, ela sentiu-se relaxada e em paz, e, em meros segundos, o sono caiu sobre ambos.


Os dois dias seguintes passaram-se em um borrão. Sem ser visto pelos colegas de time dela, Jesse deixou Rachel na escola os dois dias, e então voltou para a casa dela. Usando a chave extra que os pais dela surpreendentemente o presentearam, ele entrou na casa vazia e silenciosa onde, seguindo sua palavra, ele passou o tempo completando os trabalhos que Nate lhe mandara, e estudando as anotações do amigo para se assegurar de que ele estaria atualizado na semana seguinte.

Eles haviam saído para jantar com Drew e Cat na noite anterior, aproveitando a deliciosa refeição vegan que Cat preparara, assim como a companhia sempre agradável do casal. Já que eles não podiam ir assistir a apresentação de Rachel, Drew estimulou Jesse a tirar várias fotos, o que ele assegurou a ambos que faria.

Agora, no fim da tarde, Jesse estava a caminho para pegar Rachel na escola quando seu telefone emitiu um som distinto. Rangendo os dentes, Jesse deu um olhar insultuoso ao identificador de chamadas, tendo sua suspeita imediatamente confirmada.

É a sexta vez hoje.

Exalando em impaciência, ele parou o carro no acostamente antes de apertar o botão que aceitaria a chamada. O calor estava completamente ausente de sua voz quando ele foi direto ao ponto.

"O que você quer?"


Sentindo a vibração familiar contra sua coxa, Rachel puxou o telefone de seu bolso. Não ficou nada surpresa de ver um SMS de Jesse.

A Quinn pareceu um pouco rouca nas últimas notas, e o Sam está bom, mas ele pode trabalhar um pouco mais na intonação.

Apesar de reconhecer que era impossível, seus olhos vagaram pela sala, como se pudesse encontrá-lo escondido em algum canto dali. Discretamente, ela digitou sua resposta.

Cadê você?

A resposta dele foi imediata.

Onde você acha? Do lado de fora da porta ;)

O coração dela disparou imediatamente – principalmente pelo risco que ele estava correndo, mas também apenas porque seu corpo não conseguia deixar de reagir sempre que ele estava por perto.

Você é maluco.

Sim, mas só por você. Diga ao Sam que agora foi melhor.

"Ei, Sam, isso foi ótimo", ela disse entusiasmada, alto o suficiente para que suas palavras fossem perceptíveis aos ouvidos aguçados de Jesse.

Eu disse melhor, e não ótimo.

Então entre e diga isso a ele.

Você não quer mesmo que eu faça isso.

Não hoje. Mas logo todos vão saber, então não vamos mais precisar disfarçar.

Espero ansiosamente para ver a reação de todos.

Deixe de dar esse sorrisinho maldoso!

Mas por quê? Esse meu sorriso é irresistível ;)

Leve sua arrogância com você de volta pro carro. Vou sair em alguns minutos.

Tem certeza que não quer que eu espere no corredor? Estou disfarçado.

Aposto que boné e óculos escuros. Isso só funciona no cinema.

Estraga-prazeres :P

Deixando que ele tivesse a última palavra, Rachel voltou sua atenção ao Prof. Schue, a tempo de ouvir o começo de sua mais recente conversa estimulante das seletivas.


Acomodado no banco de passageiro do carro de Rachel, Jesse espiou por baixo da aba de seu boné, observando atentamente à espera de um sinal de sua namorada. Um enorme sorriso iluminou seu rosto quando ela apareceu pela porta principal da escola. No momento em que ela pisou fora do prédio, ela saiu correndo, cruzando o estacionamento em tempo recorde. Esticando-se, Jesse abriu a porta dela, e ela rapidamene jogou a bolsa no banco de traz e sentou-se atrás do volante. Sam havia acabado de sair quando Rachel passou rapidamente por ele, acenando rapidamente. O jovem loiro fez um muxoxo e dirigiu-se ao próprio carro, inocente do adolescente sentado ao lado de Rachel.

Mantendo os olhos na rua, ela tentou ignorar a mão que no momento fazia desenhos desconexos em sua coxa.

"No que estava pensando, ficando fora da sala de canto daquele jeito? Eu devia ficar furiosa contigo!"

"Mas não está", ele observou, corretamente.

"Não posso ficar com raiva de ti quando você está fazendo... isso", ela riu suavemente, e sua respiração ficou superficial.

"Então vou me assegurar de fazer isso com mais frequência".

Sua risada partilhada ecoou pelo carro, antes que um silêncio confortável caísse sobre ambos. Quando Jesse finalmente começou a falar de novo, Rachel estava despreparada para a seriedade de sua voz.

"Tenho uma confissão a fazer".

"Parece sério".

"Não é tão ruim assim. Pelo menos eu não acho que seja. Mas você pode ter uma opinião diferente".

Ele a sentiu ficar tensa, e transformou suas carícias provocantes em carinhos mais longos e reconfortantes. Ela acalmou-se levemente e esperou que ele continuasse falando.

"Falei com a Shelby hoje".

"O quê? Por quê?"

"Ela ligou para mim. Ignorei-a nas primeiras cinco vezes, mas na sexta, percebi que ela não ia desistir, então achei que podia descobrir o que é que ela queria".

"E o que era?"

"Me dar um aviso. Ela me disse, em termos inquestionáveis, para ficar longe de você".

Rachel deu a Jesse um olhar de pura irritação.

"Como ela ousa? E o que importa a ela mesmo? E por que ela de repente está preocupada com isso agora?"

"Você se esquece do quanto ela me conhece. Mesmo se a gente não estivesse juntos, eu ainda teria vindo te assistir nas seletivas".

Ela não pôde evitar o arrepio que a percorreu às palavras dele.

"Ah".

"Sim. Então ela queria ter certeza de que eu não ia tentar tomar vantagem da oportunidade para tentar me reconciliar com você".

Ela detectou um leve traço de divertimento na voz dele.

"O que você fez?"

"Eu me portei como o filho da puta arrogante que a maioria das pessoas acha que sou. E fiquei perversamente feliz de contar a ela que agora eu sou seu namorado, e que voltei à sua vida há meses".

"Como ela reagiu?"

"Como a mãe que não confia no cara que a filha está namorando. Ela me lembrou que você ainda é menor de idade, e ameaçou me denunciar à polícia".

A voz de Rachel era reservada, carregada com mais do que uma dose de amargura.

"Só ela pra bancar a mãe quando eu não quero que ela o faça".

"Sem querer defendê-la, mas ela está realmente preocupada de que eu vou te magoar".

"Mas a armação dela pra que eu a procurasse foi o catalisador da mágoa que você me causou, pra começar. Enquanto ela ficar fora do baralho, não tem perigo de isso acontecer de novo".

"Mesmo se ela voltasse à cena em algum ponto, ainda não haveria perigo. Apesar de que nós com certeza vamos brigar de vez em quando, eu nunca vou magoá-la desse jeito de novo. Essa é uma promessa solene".

Ela apertou amorosamente a mão dele antes de lhe dar um sorrisinho instável.

"Como você respondeu?"

"Eu disse a ela que, já que nunca fizemos sexo, as acusações dela eram infundadas e ela não chegaria a lugar nenhum. Você devia ter ouvido o alívio na voz dela. Então, ela mudou quase que totalmente e praticamente me implorou que eu bancasse o advogado do diabo por ela. Ela até mesmo teve a cara de pau de pedir que eu intervisse por ela amanhã".

Rachel enrijeceu diante do significado do que Jesse acabara de dizer.

"Ela vai estar nas seletivas?"

"Não tenho certeza. Eu disse a ela que era uma má ideia, e que você não estava pronta".

Tendo chegado à residência dos Berry, Rachel estacionou o carro, mas não moveu-se para sair. Jesse puxou-a para seu colo e passou os dedos por seus cabelos quando ela apoiou o rosto no ombro dele.

"Não sei se vou estar pronta um dia", suspirou ela.

"Tudo bem. Use todo o tempo que precisar para considerar a ideia. Mesmo que ela esteja lá amanhã, você não precisa vê-la. Se escolher permitir que ela volte à sua vida um dia, eu estarei ao seu lado. Se não, ainda estarei. De qualquer jeito, é seu ganho".

Relaxando nos braços dele, Rachel beijou docemente o queixo de Jesse, e ele reagiu passando gentilmente o nariz no dela. Sentados em silêncio na escuridão crescente, eles ficaram seguros no conhecimento de que, o que quer que acontecesse no dia seguinte, eles o enfrentariam juntos.