Severus fez tudo o que lhe era humanamente possível para se manter calmo até à hora de ir jantar. Pedira ao gerente do hotel para que lhe marcasse uma mesa num bom restaurante, perto da praia. Ele e Hermione passaram a tarde a ler (ou pelo menos a fazer de conta que liam) e quando finalmente a hora de jantar se aproximou, vestiram-se praticamente em silêncio.

"Onde vamos?"- Perguntou ela, quando saíram do quarto de braço dado.

"Pedi que reservassem uma mesa naquele restaurante que admiraste perto da praia. Achei que talvez depois pudéssemos ter... Aquela conversa?"- Hesitou ele, procurando uma reacção da parte dela.

Hermione suspirou fundo.

"Severus, continuo a dizer que não há motivos para ficares assim. A sério. Depois de tudo o que passámos, não há nada que possa alterar a minha decisão que querer estar contigo. Em todos os aspectos. A menos que tu... Não sintas o mesmo por mim."

Severus estacou em pleno hall como que gelado e voltou-se para ela. Hermione não podia ter uma expressão mais triste no olhar. Com a sua mão debaixo do queixo dela, ele obrigou-a a olhá-lo nos olhos.

"Eu já te disse antes, meu amor, que não há nada que eu deseje mais do que estar contigo. Mas há coisas que me pesam na consciência e que, acredites tu ou não, me fazem temer que sejas tu a mudar de ideias sobre isto. Coisas sérias, Hermione. Ainda assim, aconteça o que acontecer, eu não quero que duvides nunca do quanto eu gosto de ti, entendes?"-Afirmou ele, com uma ternura inconfundível na voz e no olhar.

"Sim, Severus."- Assentiu ela, sentindo os olhos a ficarem embaciados de lágrimas com a declaração dele. Se havia algo a que ela nunca se iria habituar era às declarações de afecto dele.

"Então vamos. Temos uma mesa à nossa espera e apesar de tudo, eu ainda tenho esperanças de que esta seja uma excelente noite."- Apressou-a Severus com um sorriso entre o trocista e o nervoso.

Juntos percorreram as ruas que os separavam do restaurante e mal lá chegaram foram recebidos com uma das melhores mesas na varanda, com vista directa para o mar. A noite estava limpa, com luar. O clima não podia ser mais romântico, mesmo que quisessem.

Ao pensar exactamente isso , Hermione não conseguiu evitar corar quando se sentou à mesa, o que não passou despercebido ao seu companheiro.

"Tudo bem?"

"Tudo. É só que... Isto parece quase um sonho. Nós os dois, aqui, nesta noite maravilhosa. Nunca num milhão de anos poderia ter imaginado viver esta noite."

Severus alcançou a mão dela que repousava sobre a toalha da mesa e cobriu-a com a sua.

"Faço minhas as tuas palavras, meu amor. Nunca num milhão de anos eu teria sequer sonhado com algo assim. E devo-te tudo a ti."

Foi neste momento que um empregado interrompeu para perguntar o que iriam desejar pedir. Ambos deram uma vista de olhos rápida pelo menu e disseram as suas preferências. Em poucos minutos o empregado voltou com as entradas e a garrafa de vinho que Severus pedira para ambos.

O resto do jantar decorreu num ambiente relativamente relaxado. Ambos cumprimentaram o chefe no final, antes de pagarem a conta e se dirigirem para o areal deserto.

Discretamente, Hermione transfigurou um lenço de bolso numa toalha e ambos se sentaram a observar as ondas que rebentavam a curta distância.

"Ainda me queres contar aquilo, querido?"- Perguntou Hermione, enquanto pegava na mão dele.

Severus assentiu e tossiu ligeiramente para limpar a voz antes de começar.

"Eu sei que... Temo que não haja uma maneira fácil de dizer isto,mas..."

Hermione cortou a distância entre eles e beijou-o suavemente, uma mão no rosto dele.

"Diz de uma vez, amor."- Riu-se ela, provocando-o à acção.

"Eu... Eu nunca o fiz, Hermione. Não como desejo, como quero fazer contigo."- Explodiu finalmente ele.

Aquelas palavras deixaram Hermione curiosa.

"O que queres dizer? Nunca... Estiveste com uma mulher antes?"- Ofereceu ela, tentando fazer sentido da declaração dele.

Severus abanou tristemente a cabeça antes de continuar.

"Estive,mas... Eu nunca estive com uma mulher que quisesse estar comigo. Não da maneira que eu sei que tu queres."- Hermione podia ver a luta dele por encontrar as palavras.- "Tu gostas de mim, queres estar comigo por causa disso. Mas todas as outras, com elas não foi assim. Algumas eu paguei-lhes para o fazerem. Mulheres de rua. E outras... Céus, sinto-me doente por ter de te contar isto mas... Sob as ordens daquele lunático, eu tive de violar mulheres. Algumas ainda nem mulheres eram, não passavam de miúdas pequenas assustadas. E mesmo sentindo-me completamente enojado, eu fi-lo. Uma e outra vez, eu violei-as. Algumas tive de as matar logo em seguida, para evitar que os outros Devoradores continuassem a usá-las. Várias vezes fui castigado por isso. Por sentir pena por elas. Eu sinto nojo de mim mesmo por tudo isso, entendes? E à semanas atrás, quando... Quando ele tomou posse do meu corpo. Ele queria que eu te fizesse o mesmo, Hermione. Queria que eu desse cabo de ti da forma mais cruel que conheço. Eu tenho medo Hermione."- Confessou ele, com a voz embargada pela emoção e lágrimas silenciosas a correm-lhe pelo rosto abaixo.- "Tenho medo de estar contigo e de te magoar. De te fazer sofrer."

Hermione sentiu-se sufocar com as palavras dele. Ergueu-se da toalha e caminhou uns passos na areia,

braços a rodearem o próprio corpo, sentindo o mundo a girar à sua volta. Sentindo o choque das palavras dele a penetrarem-lhe fundo na alma. Sim, aquilo era mesmo informação pesada. E Severus tinha sido imensamente corajoso por partilhar aquilo com ela. Ele poderia nunca lhe ter dito nada, deixando-a na ignorância para sempre. Mas ele não era assim. Não com ela.

Engolindo em seco e olhando para o céu estrelado, Hermione perguntou a si mesma se aquilo mudava alguma coisa. Não ficou particularmente surpreendida ao perceber que não. Sim, eram coisas graves. Mas doía-lhe mais pela dor que provocava em Severus sentir-se culpado de tudo aquilo. Hermione sabia que aquele homem seria capaz de tudo para a proteger, já testara isso.

Voltando-se para trás, ela olhou para o homem que deixara sentado na toalha.

Severus tinha a cabeça baixa, recusando-se a olhar sequer na direcção dela.

Após respirar fundo, Hermione voltou para perto dele. Ajoelhando-se na toalha, puxou-o para si e abraçou-o com força. Ouvi-o soltar um som de surpresa.

"Obrigada por me contares, meu querido."

"Tu tinhas de saber. Eu não podia... Sem tu saberes a quem te entregavas."

"Foste muito corajoso. Tu és o homem mais corajoso que já conheci. E é por isso que te amo."

"Mas... Como podes amar-me depois de saberes o que fiz?"

"Tu não tinhas outra saída na altura. E tu não me fizeste mal quando podias ter feito. Tu lutaste. Está tudo bem, meu amor. Está tudo bem."- Consolou-o ela, mantendo-o abraçado contra ela.

O braço dele rodeou-a e apertou-a com força.

"Amo-te Hermione. Não te quero perder."

"Nunca vais perder, Severus. Não vou dizer que não fiquei chocada. Mas isso pertence ao passado. Acabou."

Eles afastaram-se ligeiramente para poder olhar-se nos olhos. Ambos tinham um rasto de lágrimas no rosto. Hermione beijou o rosto dele nos sítios onde estava molhado, fazendo-o sorrir.

"Agora somos só nós os dois. E esta noite... Vamos fazer amor pela primeira vez os dois. Que tal soa isso?"- Sugeriu ela, oferecendo o seu melhor sorriso a Severus, que a puxou para si e a beijou com todo o ardor do seu amor.