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Não traia um coração

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Avisos: Isso é uma adaptação de livro, sem créditos ou fins lucrativos.

O nome do livro e de quem o escreveu será revelado ao final da postagem do livro.

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Capítulo Trinta e Seis

Kagome viu o gigante cruzando o salão em sua direção na companhia do seu intendente, mas duvidou dos próprios olhos, sabendo muito bem que Inuyasha ainda estava deitado, as suas poucas horas de sono recuperador tendo se transformado no resto da noite e na manhã inteira também. Acabava de vir da cozinha, onde mandara retardar a refeição do meio-dia por este motivo, e Jakotsu, que não saíra do salão até o seu retorno, balançara a cabeça quando perguntara se Inuyasha tinha passado por ali.

Portanto, se não era o marido vindo em sua direção, então havia dois igualmente enormes, quando jurava não ser possível haver outro tão alto, largo e assustador. E como acontecera da primeira vez que vira o marido, tudo que viu neste homem foi o seu tamanho. Só notou o seu rosto quando ele estava quase junto dela, e aquela juba loura quando empurrou para trás o gorro. Kinnosuke devia tê-los apresentado antes de se afastar, mas Kagome estava confusa demais para escutar uma só palavra.

Cabelos e pele dourados, olhos cor de violeta, um rosto igual — tudo era de Inuyasha, mas não era Inuyasha. Era incrível demais. Seria este o tal irmão, então? Não, ele dissera que o irmão era mais moço. Este homem era mais velho, porém não muito. Embora não pudesse ter idade para ser o pai, devia ser. Não era, porém, nenhum pai amantíssimo; ao se lembrar disso, Kagome lembrou-se também da sua reação ofendida quando Inuyasha lhe falara deste homem.

— Está tudo bem, lady Kagome. É comum eu afetar as mulheres desse jeito.

Uma frase que devia dizer mecanicamente, para aliviar o emba raço das damas por terem ficado surdas, cegas e mudas ante a sua beleza. Mas desta feita o motivo era outro, e Kagome podia ser descul pada pelo seu choque. Não era todo dia que se conhecia uma versão idêntica e mais velha do homem que a desposara.

— O senhor veio ver Inuyasha?

— Inuyasha? — Foi a sua vez de aparentar confusão, mas ele logo sorriu, compreendendo.— Então é por isso que ficou me olhando fixo. A semelhança. É extraordinária, não é?

— Muito — replicou, ainda sem poder crer que dois homens de idades diferentes pudessem se parecer tanto.

— Mas eu nem sabia que Inuyasha estava nestas paragens. A última notícia que tive dele foi que estava lutando para um dos senhores feudais da fronteira. Claro, isso foi no ano passado, e ele não gosta de ficar muito tempo num só lugar.

Como ele poderia saber? Segundo Inuyasha, ele só falara com este homem duas vezes em toda a sua vida. Será que o homem gostava de fingir familiaridade e interesse paternal apenas porque qualquer um que o visse e conhecesse Inuyasha não poderia deixar de saber que eram pai e filho?

— Ele podia estar habituado a isso, mas provavelmente não sairá de Clydon tão cedo — disse Kagome formalmente.

O homem pareceu confuso com o jeito dela, e mais curioso ainda com as suas palavras.

— Conheço bem Clydon e as suas muitas propriedades, lady Kagome, no entanto não sabia que a senhora estava tendo o tipo de problema que exige as habilidades particulares de meu filho. Só posso lhe assegurar que contratou o melhor.

Seria um orgulho legítimo que ela percebia naquela voz? Mas com que direito se orgulhava de um filho que abandonara?

— Somos naturalmente gratos pelas habilidades excepcionais de Inuyasha, meu senhor, mas receio que esteja enganado. Não contratei Inuyasha. Desposei-o. Ele é o novo lorde de Clydon.

Kagome não se sentiu mais tão tola por seu choque anterior, agora que estava testemunhando o dele. Ele a fitou, incrédulo, durante longos momentos, depois jogou a cabeça para trás e riu.

— Está duvidando de mim? — encrespou-se ela.

Levou um momento ainda para ele recobrar o fôlego e reponder:

— Não, de modo algum, minha senhora. Sempre soube que Inuyasha se daria bem na vida, mas jamais desconfiei que superaria até mesmo a mim. Se ele estiver aqui, gostaria muito de vê-lo.

— Mas não foi por esse motivo que veio. O que o traz aqui, meu senhor?

— Minha carroça de bagagens perdeu uma roda um pouco adian te na estrada. Pensei em pedir emprestado o seu ferreiro para apressar o concerto, e vir cumprimentá-la enquanto o conserto estava sendo feito. Agora talvez queira me dizer por que está tão na defensiva...

— Na defensiva? Eu achava que estava sendo bastante rude, mas se o senhor prefere assim...

Ganhou nova risada em vez do rancor que tal descortesia normalmente provocaria. Realmente, não era fácil insultar pai ou filho. Agora sentia-se encabulada por ter tentado. Afinal de contas, o homem era um hóspede sob o seu teto, apesar de não ter sido convidado. Não merecia o seu antagonismo por atos passados que nada tinham a ver com ela. E se Inuyasha ficasse contente em vê-lo? Ele ia ficar uma fera se ela o expulsasse antes que ele próprio pudesse ter a oportunidade de tomar a sua decisão. No todo, ela se comportara de modo abomi nável com um homem que sequer conhecia. Qual era o nome dele? Jesus, perguntar agora se igualaria a outro insulto.

— Tenho que lhe pedir desculpas...

— Não, não peça — interrompeu ele, ainda sorrindo. — Gosto da sua garra, senhora. É uma característica necessária no trato com o meu filho, que sabe ser muito desagradável e intimidante. Uma mulher com menos coragem provavelmente se apavoraria com ele.

Kagome voltou a se perguntar como ele poderia saber disso, já que tivera tão pouco contato com Inuyasha. Mas não lhe perguntaria. Não, no momento o melhor que podia fazer era se retirar rapidamente, para não ser mais deselegante do que já fora. Mas, primeiro, o comentário do homem merecia uma resposta.

— Inuyasha não é tão assustador quanto parece, quando a gente se acostuma com o seu rugido. Mas é claro que o senhor deve saber disso... — Deteve-se, atônita por estar agindo daquele modo de novo, mas parecia que ele não detectara a última pontinha de sarcasmo. — Por favor, fique à vontade, meu senhor. — Apontou para um banco junto à lareira, longe da azáfama dos criados que ainda arrumavam as mesas. — Logo vamos almoçar, como pode ver, e teremos prazer em que almoce conosco. — Esperava que fosse verdade, mas não podia realmente prever como Inuyasha o receberia. — Dê-me licença um instante, enquanto vou localizar o meu marido para o senhor.

Não lhe deu chance de dar qualquer resposta e se afastou rapida mente, detendo-se apenas para mandar um criado ir buscar vinho para ele. Sentia-se agitada e ansiosa, e ainda irritada com o comportamento do homem. Pelo modo como agia, dava para se pensar que Inuyasha era um filho querido, quando na verdade era um filho que mal fora reconhecido. Ou será que o homem estava pensando em tirar proveito da boa sorte de Inuyasha? É, isso explicaria o seu prazer em saber que Inuyasha era lorde de Clydon — mas não o orgulho de Inuyasha como homem que detectara antes que ele soubesse que o filho não era apenas um mercenário que contratara.

A verdade é que não sabia o que pensar. Tinha de admitir que Inuyasha talvez não tivesse lhe contado todos os fatos. No entanto, não havia como se enganar com a sua amargura quando lhe contara o que contara. Era real, e fora o que despertara nela a antipatia pelo pai displicente. Se Inuyasha não tinha amor pelo sujeito, tinha que haver um bom motivo, quer conhecesse todos os fatos, quer não.

Recordando aquela amargura, Kagome ficou ainda mais ansiosa. Envergonhada com o próprio comportamento, dera as boas-vindas ao homem. Não deveria tê-lo feito. Se Inuyasha se recusasse a recebê-lo, ou pior, exigisse que ele fosse embora, ficaria ainda mais envergonha da, apesar de ela própria tê-lo insultado na esperança de que fosse embora. Depois que se oferecia hospitalidade, isso eqüivalia a uma oferta de paz. E isso não era cancelado, exceto por atos posteriores que poderiam destruir essa paz.

Todos esses pensamentos, porém, sumiram-lhe da cabeça quando encontrou Inuyasha ainda deitado, embora acordado e vendo-a correr em sua direção. Imediatamente procurou sinais de palidez ou verme lhidão na sua pele, que indicariam doença. Não viu nenhum, no entanto ele tinha que estar doente, e gravemente, para ficar deitado tanto tempo se não estava dormindo como imaginara, especialmen te quando falara em mandar um de seus homens até Warhurst para interrogar os seus habitantes, e em voltar a interrogar os prisioneiros. Censurou-se por não ter vindo antes ver como ele estava.

— Devia ter mandado me chamar. — A secura de sua voz contrastava com o toque suave da mão na testa dele, depois no pescoço. — Não está quente — acrescentou, com o cenho franzido de preocupação. — Do que está sofrendo?

Inuyasha fitou-a inexpressivamente um momento, depois replicou:

— É mais embaixo.

Os olhos dela o percorreram, parando no estômago nu logo acima do lençol que o cobria frouxamente até os quadris. A mão foi atrás, pairando acima da área. Viu os seus músculos se retesarem na expectativa do toque, uma indicação segura de que sentia dor. Ficou cheia de pavor, pois era mais sério do que imaginava.

Sua garganta ficou seca, de repente, temendo por ele, e quase guinchou:

— Aqui?

A voz dele também não estava firme quando falou, roucamente:

— Mais embaixo.

Os olhos dela baixaram mais um pouco, depois encheram-se de desconfiança e subiram lentamente para fitar os dele.

— Ali, é? E do que poderia estar sofrendo ali?

— De um intumescimento muito doloroso.

— Ohh!

— O quê?

Ele abriu um sorriso ante a sua afronta.

— Que se dane e apodreça, Inuyasha! Pensei que estava seriamente doente! Se me assustar desse jeito de novo...

A vontade de bater nele era forte demais, e quando ele continuou sorrindo-lhe, Kagome não resistiu.

— Aai!

— Bem feito — resmungou— Agora tenho uma coisa para tratar.

Ele esfregou o ombro como se ela o tivesse realmente machucado, reclamando.

— Você tinha uma coisa para tratar, senhora.

— É, o seu senso de humor bem que precisava de um bom purgante. Agora me diga o verdadeiro motivo de ainda estar deitado. Acordou agora?

Ele sacudiu a cabeça.

— Estava treinando a paciência, generalzinho. Permaneci dei tado aqui esperando que viesse ralhar comigo por ser preguiçoso.

— Fale sério!

— Estou falando. Preferia que eu descesse só para arrastá-la para cima? Acha que suas damas não teriam alçado as sobrancelhas coletivamente ante uma coisa dessas?

As sobrancelhas sedosas dela se uniram ante essas palavras.

— Você não seria tão... tão...

Ele seria, e seu olhar atrevido era prova, caso não o fosse a experiência anterior. E era tarde demais para fingir que não sabia por que as sobrancelhas seriam alçadas coletivamente.

— Devo lhe agradecer?

— Nunca falha. — Ele soltou uma risadinha abafada. — Se você não está ralhando comigo, está recorrendo ao sarcasmo. Mas, neste caso, talvez deva me agradecer, generalzinho. Não serei sempre tão cheio de consideração. Haverá horas em que estarei com pressa e...

— Qualquer cantinho escuro servirá?

A ironia fez com que a puxasse para a cama.

— Sim, qualquer lugar, embora eu prefira esta cama macia.

— Mais do que a mata?

— Muito mais.

Ela reprimiu o sorriso, mas não podia ficar zangada com ele quando ele estava deste jeito. Jamais teria imaginado que havia um homem brincalhão dentro daquele gigante grosseiro, mas estava co meçando a verificar que havia. Também estava começando a se viciar no seu lado amoroso, mas aquilo era problema dela. Enquanto durasse, pretendia se aproveitar da situação — não, porém, neste momento.

Antes que as mordidinhas que ele lhe dava no pescoço a fizessem esquecer de novo, falou rapidamente:

— Inuyasha, isto tem que esperar.

— Só se a fortaleza estiver pegando fogo, senhora.

Não parou de esfregar o nariz em seu pescoço, e agora que não tinha mais medo de acariciá-la, as mãos também estavam bastante ocupadas.

— Inuyasha, vim lhe avisar... que tem alguém lá embaixo que você deve... tem que... Inuyasha! — Arquejou quando ele se atracou com o lóbulo da orelha.

— Isto pode esperar — decidiu;

Então, no instante seguinte, com um suspiro: — Não, não pode. Inuyasha, é o seu pai.

Ele ficou imóvel, mas dali a um momento recostou-se lentamente para olhar para ela.

— Meu o quê?

— Seu pai está lá embaixo e pediu para falar com você.

Ela percebeu surpresa e, por um segundo fugaz, algo semelhante a alegria, embora não pudesse ter certeza. Fossem quais fossem essas primeiras reações, porém, foram rapidamente mascaradas por uma emoção muito mais sombria, que ela já vira no dia em que ele lhe falara do pai.

Ele se levantou da cama, e ela pensou que fosse para se vestir. Não era. Começou a andar de um lado para o outro, como uma fera enjaulada. O roupão que fizera para ele, para estas horas, jazia igno rado sobre a arca. Ela não se importou, no momento. E daí, se ele era um homem de pouco recato, e provavelmente não fosse usar o roupão Era magnífico de se ver. Aquela masculinidade crua provocou no corpo dela uma reação inteiramente primitiva, fazendo com que desejasse ter ficado de boca fechada.

Mas era tarde demais para isso, e embora detestasse interromper as passadas dele, não pôde deixar de perguntar:

— Vai falar com ele?

— Que diabo, como foi que ele descobriu tão depressa? - Kagome teve a sensação de que ele não estava falando absolutamente com ela, que nem ouvira a pergunta. Mesmo assim, respondeu:

— Se está se referindo ao nosso casamento, ele não sabia, pelo menos até eu ter tocado no assunto.

Isto logo lhe chamou a atenção.

— Você contou... então, por que ele está aqui?

— Não é um grande mistério, Inuyasha. Sua carroça de bagagens quebrou quando ele ia passando. Caso contrário, nem teria parado em Clydon. Kinnosuke o trouxe a mim e...

— E você adivinhou quem ele era — terminou, enojado.

— Adivinhou? Jesus, não havia o que adivinhar. Você não me contou que ele era tão moço, ou que você é uma cópia exata dele.

— Acha que me agrada uma semelhança tão grande? Não ima gina quantas vezes fui confundido com ele por conhecidos que não o viam há muito tempo. Houve até alguns que se recusaram a crer que eu não era ele. Sabe o que é ser confundido com um homem a quem se...

Ele não completou a frase, então ela o fez em seu lugar.

— Despreza? Despreza mesmo?

Ele a olhou de cara feia, em vez de lhe dar resposta.

— O que ele quer, senhora?

— Dar-lhe os parabéns, quem sabe? — A cara ficou mais feia ainda. — E como é que eu vou saber? — Acrescentou, com impaciên cia: — Por que não desce e lhe pergunta?

— Morda a língua, mulher!

Ela pestanejou; depois seus lábios se encresparam muito de leve. Já o ouvira falar daquele jeito com Miroku, e sabia que era mais uma expressão de carinho do que de raiva. Poderia estar recebendo os seus urros, mas não a sua cólera, pelo menos ainda não.

— Quer dizer que não vai falar com ele?

— Não, não vou — rosnou ele.

— Que pena — replicou despreocupada, como se o assunto já estivesse resolvido. — Estava com vontade de saber como ele podia saber tanto a seu respeito.

— Como assim?

— Você deve ter-lhe dado algum motivo para ele sentir orgulho de chamá-lo de filho. Nem imagino como...

— Kagome...

— Eu estava brincando! — gritou, quando ele partiu na sua direção. Kagome saiu depressa da cama e se encaminhou para a porta, antes de acrescentar: — Mas devia tê-lo ouvido tecendo-lhe elogios quando pensou que eu tinha comprado os seus serviços. Suponho que queria me assegurar que eu iria obter o justo valor pelo que estava pagando. Foi um prazer corrigir o erro. Mas devo confessar que fui terrivelmente descortês, no começo. Não sei o que deu em mim. Mas você vai gostar de saber que ele é tão insensível quanto você no tocante a insultos. Simplesmente se recusou a ficar ofendido.

— Tenho certeza que não foi falha sua, pois é perita em avançar direto para a jugular.

Ela sorriu intimamente, ciente de que ele próprio acabara de se agastar com o seu comentário. Mesmo assim, acercou-se mais da porta antes de fazer a confissão derradeira.

— Ele ainda era um estranho para mim, e eu não tinha desculpa para ser tão pouco hospitaleira... e foi por isso que resolvi me peniten ciar convidando-o para nos fazer companhia à mesa.

— Você fez o quê? — explodiu ele.

Essa foi a deixa para Kagome sair do quarto rapidamente.