Cap. 38

Gun Shot Residue

Ele podia perceber o desconforto do antigo chefe. Nao era bem o que ele esperava. Chegou no hospital e ninguem lhe deu atençao.

House provavelmente esperava ser o milesimo cliente do PPTH e ser recebido com honras e baloes.

Depois de derrubar um governo em algum lugar do globo, PI voltara com apenas uma pessoa em mente: Cuddy. Com a mesma tencidade que descobrira as informaçoes ultra mar, ele peregrinou até ela aceitar um encontro com ele. Wilson ficou em casa cuidando de Rachel, em uma confusa relaçao ambigua com a Dean. Um pouco demais para o tradicional Foreman.

Cada qual seguia sua vida.

Ele recebia cartoes e mails frequentes de Chase. Sua encomenda de Cuba nao chegara, mas ele já sonhava com ela todas as noites. Claro, que Remy ia rotula-lo de esbanjador e de um luxo tao sem sentido. Mas no fim, ela sempre o compreendia.

Eles já nao mais trabalhavam juntos. Tinha sido uma decisao dela, ela lhe dissera sem receio que ele era um pessimo chefe e tomou seu CV, foi trabalhar em um hospital nao muito longe da casa deles. Ela podia dormir ate mais tarde e jogava isso na cara dele todas as manhas.

Muitas vezes, ele se debatera se a semelhança com o antigo chefe era uma bençao ou uma desgraça. Muita coisa em sua trajetoria lhe transformara em um cara que colocava acima de tudo a sua vontade, porque ninguem lutaria por ele. Um egoismo justificado aos olhos dele. E desde muito cedo ele tinha jurado a si mesmo que venceria. Nao era uma opçao apodrecer sem destino ou gloria ou sem poder.

Trabalhar com House podia tanto desabrochar as melhores qualidades ou as piores caracteristicas de um ser. Ele dissecava qualquer um. Nao aceitava menos. Tinha medo de se ver no espelho e ver Greg House refletido. A genialidade o atraia, mas fazia alguns anos que nao queria ser ser infeliz e atormentado como aquele.

As vezes, quando House se metia no seu relacionamento com 13, parecia que de alguma maneira o ex mentor também nao queria que Foreman fosse miserável como ele.

Taub partira tao logo House foi internado. O colega nao queria aprender com o novo chefe, tinha se candidatado para o emprego por outra razao. E a morte de Kutner tinha lhe feito muito mal. O caso tinha sido arquivado por falta de provas.

O médico continuava casado, mudara-se de estado mais para o norte e diziam que tinha voltado a medicina estética pelo favor de algum padrinho importante no meio.

Mais quem era o centro das atençoes era Cameron. Todas as conversas circulavam sobre ela e parecia que até a desintoxicaçao de House tinha sido bem trivial, pois nao mereceu nem uma nota na sala de médicos.

E ele via como o ex chefe estava incomodado com isso. (Seria apenas a inveja do utero?) Ele brincara que numa dessa o menino nascia platinado e com um sotaque oceanico, e acreditou que House iria mata-lo com o machado, posto no corredor em caso de emergencia. Por sorte, ele ainda mancava.

Foreman tinha uma certa dificuldade em ver House como pai. Ou mesmo de acreditar que aquela seria a ultima desintoxicaçao dele, ou que algum dia ele teria um relacionamento saudavel com alguem. Ele e Cameron claramente nao tinham voltado.

Deixara bem claro a Cuddy que nao abriria mao do departamento por House, nem o aceitaria como consultor. Ela podia demiti-lo quando quisesse, se nao aceitasse as condiçoes, mas foi com estas que ele permaneceu todos aqueles meses, e a nova equipe que possuia era realmente boa. Nao seria o 1º ministro de ninguem, nem deixaria House tirar-lhe a sua autoridade ali. Ainda mais de alguem que nem tinha recuperado a licença médica.

No 1º dia, House apenas circulou pelo hospital. Foi a sua sala e pegou algumas coisas suas. Cumprimentou os novos médicos. Tudo muito contido e fora de sua personalidade, algo que até surpreendeu o novo chefe.

Com a devida autorizaçao da Dean, House pegou todos os casos nos quais Foreman trabalhara em sua ausencia. Alguns ele conhecia, pois Cameron tinha lhe mencionado. E analisava nota por nota. Fazendo suas proprias em um caderno pequeno. Foreman esperou pelas criticas mordazes, mas estas nao vieram.

Sabia que as primeiras semanas, o médico mais velho passara na casa de Wilson. E que o proprio amigo lhe acompanhava para as reunioes diarias do grupo de apoio.

Porém ele nao acreditava na rendençao de House. Talvez por nao acreditar na sua própria, e mesmo lutando todos os dias para sobreviver e ultrapassar os limites a todos os custos, sentia que um dia lhe tirariam tudo. As vezes, era apenas um sentimento de nao merecer aquilo, de ser uma farsa e logo descobririam.

Alguns casos compartilhava com a ex-colega, e observava Cameron com mais atençao. Seria feliz? Ou apenas se convencia a acreditar que era pois tudo DEVIA ser cor-de-rosa para ela? Ele tentara nao se ofender por a namorada ser a unica a saber da condiçao de Cameron, e nao ter lhe contado nada. Ela apenas nao falara sobre aquilo, e ele tirara suas proprias conclusoes. No fundo, tinha superado o sentimentos de exclusao e admirava aquela mulher leal a um segredo que nao era nem seu, e por alguem que nao era nem proxima sua no principio.

Ela apoiara Cameron quando a noticia foi ventilada no lugar de trabalho, e nao se podia espera nada mais receptivo já que a amiga era muito querida e respeitada no ER e nos outros departamentos do Hospital. A fofoca correu claro, as pessoas falaram, algumas chocadas por nao perceber, outras felizes pela noticia, outras apenas aceitaram como outro fato do cotidiano e pronto. No big deal.

A equipe dela a enchia de presentes, já tinha enxoval para duas crianças e estava apenas no inicio do ultimo trimestre. Ela distribuia o excesso para a pediatria e emergencia neo natal. Remy a acampanhava quando passava para almoçar com o namorado, nao era todos os dias, mas eram bons dias quando Foreman vislumbrava a figura alta e esguia chegando.

Depois de tudo aquilo ele mesmo ja tinha se pegado pensando em uma familia, nao agora, agora nao... Mas para o futuro. Sabia que casais inter-raciais passavam por muitos preconceitos.. E as crianças nascidas destas unioes passavam pelo pior. Nao ser aceita em nenhuma das duas culturas, nao ter uma identidade racial. Ele temia, e se ela nao quisesse ter um filho deles. Ele poderia continuar num relacionamento assim?

Um dia, por curiosidade, ele fez a pergunta a ela. Ela parecia legitimamente confusa.

-Mas nao querer... para nao herdarem ... teu mau-humor matinal? Porque isso.. Tem que te amar muito para aguentar.. Honey, voce é a pior pessoa de manha que eu já conheci.

Ela lhe deu um beijo, colocou os fones e foi terminar um trabalho no laptop. E assim se encerrou a duvida. Ambos contentes com as conclusoes.

Remy lhe contara que House passava religiosamente no ER todos os dias, Cameron havia lhe dito.

- E ele faz o que por la?

- Cameron acha importante para recuperaçao dele, ajuda-la com alguns casos.. Eles discutem alguns dianosticos..

- Bem que eu percebi que o volume de casos do ER tinha baixado.. E nem sabia deste mercado informal..

Ela se aproximou mais dele.

- Eu acho que voce poderia chama-lo para ajudar em alguns casos...

O namorado a olhou como se o fim do mundo se aproximasse.

- Voce enloqueceu? A Cameron pediu isso?

- Nao.. agora nao posso mais pensar por mim mesma.. Acho que ele merece nosso apoio.. Eu gosto dele.. Nao é algo facil o que ele está passando, voce sabe..

- Se gosta tanto.. Justa os trapos e vai morar com ele entao..

- Foreman.. Quanta maturidade... Numa dessa eu vejo no meu hospital se ele nao teria algum lugar para se encaixar...

Ele odiava quando ela dizia "meu" hospital.

- Creio que apenas a Cuddy para aguentar o House...

- Bem.. Ele mudou...

- Pessoas nao mudam.. Lembra?

A médica pegou a mao dele e fez um carinho bobo.

-Desde quando voce é tao descrente nas pessoas?

No entanto, ela nao esperou a resposta. Pediu a opiniao dele na roupa que vestiria para o jantar deles mais tarde. Alguns amigos, restaurante novo e um pouco de ar fresco.

Ele estava indo embora apressado do Hospital. Atrasado e cheio de duvidas quanto ao novo caso. Droga de reagentes que derrubaram sua teoria.

Avistou House com algumas pastas embaixo do braço dirigindo-se para a Emergencia. Ele o seguiu num misto de curiosidade.

Viu quando ele se aproximou da Dra. Chefe e a chamou aos gritos... Ela estava ocupadissima com um adolescente que caira do telhado, multiplos ossos quebrados e a duvida na toxicologia. Ela estava prestando o 1º atendiemento e bipando a especialista. Cameron apenas se virou e mandou ele sentar que se ele nao estava com uma massiva hemorragia ou uma parada cardiaca, nao era prioridade no ER dela.

A testemunha mesmo de longe, nao conseguiu nao rir da cena, que parecia que o restante dos participantes nem acharam anormal.

Apos alguns minutos, ela assinou o prontuario, passou mais algumas ordens e se aproximou do balcao onde estava o médico com a sua bengala.

Cumprimentaram-se a certa distancia, e quando ela se aproximou, Foreman notou que House, com certa intimidade, posou a mao na barriga dela e ali permaneceu. Ele abriu a pasta com a mao desocupada e folheou-a, mostrando alguma coisa pra Cameron. Ele parecia chateado com alguma coisa e ela ainda mais.

No meio da conversa, ela tomou a mao dele automaticamente, e mudou de posiçao...Segurando mais abaixo de onde estava, fechando os olhos.. Ele ficou esperando.. E de repente sorriu... Ela abriu os olhos e tinha uma feiçao de quem acabara de ganhar um premio.

Foreman balançou a cabeça entendendo o que se passara, e procurou na memória quantas vezes dissera a House que ele faria mal a Allison.

Ele nao soube se foi aquela epifani, apenas se viu seguindo para direçao do casal.

- E ai? Quer uma opniao em algum caso? – Cameron sorriu ao ve-lo-..

- Na verdade .. Nao é a sua opniao que vim buscar..

Cameron arregalou os olhos e olhou pra House, que nao disse nada. Um momento constrangedor se passou.

- House, eu quero a sua opniao sobre um caso..

- Ahh.. a minha opniao.. – ele fez uma careta pensativa- .. Vejam só, o filho pródigo a casa retorna...

- Se é ...

- Ei voces dois.. Voces podem resolver isso no estacionamento.. Tive um paciente com uma coleçao de espadas aqui.. Acho que estao guardadas ali..

Os dois ficaram se medindo. Nenhum querendo dar o braço a torcer.

- Foreman, voce e a Remy tem algo para agora a noite?

House olhou contrariado para ela.

- Bem, apenas prometi chegar antes das 20h..

- Otimo!.. House conseguiu a licença médica hoje e queremos comemorar...

O antigo pupilo olhou surpreso, com uma mistura de emoçoes sobre aquilo.

E quando percebeu, Cameron já estava no telefone com a namorada dele.

- Certo!!!.. Beijos e nos vemos mais tarde.. Pronto.. –ela sorria como uma criança faceira-.. Entao mais tarde voces podem discutir o caso.. Remy mandou voce ir pra casa agora..

- Mas...

- Sem mas.. – e ela apontou a porta de saida de seu ER-...

House apenas sorriu e fez uma cara de quem nao podia mudar a decisao de Cameron.

Aquilo tinha sido ideia de Cameron, e agora ela o manipulava de uma maneira que ele nao sabia se ria ou se ficava com raiva. Ao menor sinal de ser contrariada, ela segurava a barriga e apertava os labios, fechando os olhos. Ele jurava pra ele mesmo que nao caia na proxima, mas caia.

E com isso ele concordou em realizar um jantar no apartamento dele para celebrar sua licença de volta. Convidou apenas Wilson, e quando viu as sacolas de compras entregues no seu apartamento, percebeu que Cameron convidara mais "algumas" pessoas.

Ele gostava de ve-la andar mais lentamente que ele agora. Era uma das vantagens da gravidez. Aquela forma redondinha e a vontade de comer melancia com queijo. Vai entender. Ela também conseguira se emocionar mais que antes.. O que ele achava impossivel de acontecer... Mas os hormonios tinham ganhado. Apenas de ver, o Cottonette usar a caixinha de areia direitinho.. Ela soluçava.

Sem falar que por algum efeito colateral da medicaçao dele, ele acabara por oferecer cuidar do felino nestes ultimos meses de gestaçao dela... Para ela nao ter que se preocupar e se cuidar um pouco de qualquer coisa. E no fim, ela passava um ou dois dias na casa dele com a desculpa de saudades do gatuno. E ele acreditava.

Ela dormia na cama dele. E ele dormia no sofá. Ou tentava dormir.. Porque era um esforço manter-se calmo com ela tao perto. Ele tinha que se manter, pela dexintoxicaçao, celibatário e longe de alcool por algum tempo.. Para nao recorrer a uma compensaçao imediata pela falta das drogas. E ele achava que aquilo nao era tao dificil. Tinha se enganado.

Ainda mais quando ela inventava de ficar na casa dele. Ou ficava a alguns metros dele. Ou estava na mesma sala que ele. Ou lhe aparecia na memória sem ele estar preparado.

Ele viu quando Remy chegou arrastando Foreman, dra. Lily, o diretor, Alvie, Cuddy com Rachel e a babá... E depois Wilson.. E mais tarde o PI.

Cameron notou que ele olhava se divertindo com aquele triangulo amoroso e viu quando Remy se aproximou e falou:

- Nao sei se voce conhece um escritor brasileiro.. Jorge Amado.. Se nao, pega um livro chamado "Dona Flor e Seus Dois Maridos"... Acho que voce consegue entender melhor o que está rolando ali.

- O que está rolando ali, so pode ser superado quando o Foreman me confirmar que voces ja convidaram uma ex-namorada tua para brincar.. –e ele piscou- ...

Ela deu um suspiro forte.

- Oh.. Cameron... O House nao precisa tomar nada por esta hora?...

House nao gostou da brincadeira. Quem conseguiu lhe devolver o bom humor foi ver o gatuno fugindo da pequena Rachel. Ela estava cada vez mais adoravel, com umas bochechas irrisistiveis ate para um cara saindo da desintoxicaçao.

Ele viu Allison cercada pelas mulheres e a Dra. Mais velha do grupo lhe passar alguns casaquinhos. Era melhor ela abrir uma ONG logo. Até ele tinha lhe comprado algo, mas foram tantos presentes que ele apenas guardou o seu.

Escutou um miado e foi ver o quer era agora.

Sim, Foreman estava parado na frente da geladeira. O que no entendimento daquela bola de carne só significava uma coisa: comida. Pra ele. Agora.

House afastou a porta, pegou um pouco de comida e jogou pela porta da cozinha, sem se importar com as consequencias, apenas se divertindo com o gato saindo como uma flecha portas a fora.

Percebeu que o ex-subordinado estava parado olhando as fotos na geladeira. Uma em particular chamou a atençao. Era um ultrasson 3D, com uma precisao alucinante do rosto do bebe. O médico mais novo olhou com interrogaçao.

- É o Muffin...-House disse finalmente-...

- Muffin?...

- Sim.. A Remy nao lhe contou que a Cameron nao quer saber de jeito nenhum o que é o bebe.. Alem de ser humano...

- E voce sabe?.. –ele podia ver pela maneira que o outro contou a historia-..

- Ha coisas que nao se pode nao saber... Mas como nao posso dizer.. É apenas Muffin...

E House arrumou a foto que estava um pouco torta ali. Foreman viu um prenuncio de sorriso. E ali estava a prova irrefutável do crime. House havia mudado. Nao sem deixar de ser ele, nao sem lhe pertubar imensamente.. Mas ele tinha adquirido algo. Algo de menos sofrimento. Paradoxal como possa ser.. Era isso.

- House preciso da tua ajuda no caso...

O mentor olhou com menos acidez do que pela tarde. Ele concordou com a cabeça.

Cameron acompanhava a cena um pouco afastada. Tinha ido reclamar do pedaço de comida que Cotton andava comendo no sofá... E gostou de acompanhar aquela cena...

Ele mudara.

Ela passou a mao pela barriga e afastou todas as preocupaçoes sobre Greg. Ficou apenas com as preocupaçoes sobre ela. Um olhar mais ansioso passou pelos olhos dela. Cameron despertou quando Cuddy se aproximou:

- Querida, peço desculpas.. Mas.. –ela parecia um pouco envergonhada-... A Rachel conseguiu derrubar a salada no tapete... E roubar a comida do seu gato e ilha-lo em cima da prateleira. Ele esta bem perto da coleçao de vinis do House .. Acho que nao é algo bom..

A medica mais jovem riu com a situaçao e deu mais uma olhada para os dois homens na cozinha. Eles nao iriam se matar. E acompanhou a amiga ate a sala.

Ela tinha que ter estas experiencias. Logo seria ela com uma criança a aprontar pela casa.