Eu continuava em choque, estática, tentando convencer a mim mesma que Carlisle estava errado. Fiz e refiz por mil vezes, em minha cabeça, as contas do meu ciclo menstrual, tentando encontrar alguma falha, qualquer que fosse, em minhas contas, qualquer coisa que me convencesse que isso tudo era um grande equivoco.
-Bella se acalme, por favor! – pediu Carlisle me chacoalhando levemente pelo ombro, fazendo-me voltar, ligeiramente, para a realidade e recordar que o mesmo continuava `a minha frente. – É apenas uma teoria!
As palavras dele me confortaram... Talvez não fosse nada, meu ciclo menstrual nunca foi muito regulado mesmo; talvez fosse apenas mais um atraso. Isso! Era apenas um atraso casual!
-Tem razão! – recompus-me limpando as poucas lágrimas que teimaram em cair. – É apenas um atraso casual, não é? – perguntei com um sorriso forçado. – Meu ciclo menstrual nunca foi muito regular... – completei.
-Isso! – concordou Carlisle prontamente. – Não vamos nos precipitar!
Apesar de nós concordarmos que não deveria ser nada demais, nós dois sabíamos que, nem ele nem eu, havíamos acreditado verdadeiramente em nossas próprias palavras.
Em segundos o pânico me tomou, Edward surtaria se ele descobrisse essa teoria, eu já estava com problemas demais na cabeça. A última coisa que precisava era ele com essa idéia na cabeça.
-Carlisle; será que você poderia me fazer um favor? – pedi num sussurro, sem nem conseguir fita-lo, era ridículo, eu sabia, mas estranhamente, eu estava constrangida.
-Claro Bella, o que quiser! – prometeu ele rapidamente.
-Já que não temos certeza de nada e já estamos cheios de problemas e novidades na cabeça. – eu estava sendo cautelosa. – Será que você poderia manter em segredo essa suspeita? Por favor? Pelo menos até tudo se resolver...
-Claro, claro. – Carlisle sorriu apoiando a mão em meu ombro. – Será nosso segredo por enquanto. – ele sorriu tranqüilo, me provando que mesmo com Edward, eu não precisaria me preocupar, ele guardaria essa teoria para si, até que tudo se resolvesse. Mesmo sabendo de tudo isso, ainda sim, eu tremi, involuntariamente, quando ele disse "por enquanto". Eu preferiria que ele dissesse "pra sempre", mas acho que era pedir demais.
-Obrigada! – retribui seu sorriso imensamente agradecida a ele. – Você não sabe o bem que está fazendo a minha sanidade mental... – soltei uma risada leve. – E acredito que para a de Edward também.
Carlisle acabou por rir, mas acredito que ele sabia que eu estava certa, por isso apenas concordou com a cabeça e ligou o carro, voltando a dirigir novamente.
-Só me prometa que assim que tudo se resolver, - pediu ele antes mesmo que eu pudesse me perder em meus pensamentos. – você procurará saber se nossa teoria está correta ou não.
Me arrepiei. Confirmei com a cabeça e virei meu rosto para a janela, admirando a paisagem que passava por nós, perdida em meus próprios pensamentos. Outro filho? Seria possível? Passar por todo aquele inferno de novo? Não que eu não achasse que tenha valido a pena, porque valeu. Valeu cada segundo de sofrimentos. Para ter minha pequena bonequinha em meus braços, eu passaria por qualquer coisa e eu não reclamaria se estivesse grávida de novo. Mas... Inferno, eu não aprendo não? Outro filho? De Edward Cullen? Qual o meu problema? Não podia ser de qualquer outro cara? Ta faltando homem nesse mundo? Tá Bella? Num é possível isso! Raios!
É... Eu estava travando um conflito interno, onde eu me odiava até a morte, não pela idéia de estar grávida novamente, mas sim DE QUEM eu estaria grávida novamente. Porém, não era hora de pensar nisso. Eu tinha coisas mais urgentes a resolver.
Carlisle parou o carro e me olhou, eu sorri agradecida e ele apenas retribuiu. Como seria meio esquisito se alguém o visse ali e depois o mesmo voltasse para casa correndo, ele se foi antes deu tocar a campainha da casa de Ângela e Ben.
Mesmo com Carlisle longe eu não me movi, encarei a casa de meus amigos por algum tempo. Concentre-se, Bella! Agora você precisa pensar em Nessie. Foco Bella! FOCO!
Respirei fundo e toquei a campainha. Ben atendeu.
-Bella! – ele pareceu aliviado em me ver. – Graças a Deus você apareceu, estávamos preocupados! Âng mal pregou o olho essa noite. – Ben me deu passagem para entrar e foi o que eu fiz.
-Desculpe por isso Ben... – pedi realmente mal por tê-los preocupado – Mas a conversa com os Cullen foi longa...
-O que houve? – ele perguntou enquanto se sentava no sofá a minha frente, me sentei também.
Antes que eu respondesse Ângela apareceu e me abraçou, em seguida sentou-se ao lado de Ben para ouvir minha explicação.
-Foi uma longa noite... – eu falei cansada, mas antes de mais nada precisava saber de minha filha. – E Rennesmee?
-Está dormindo ainda. – respondeu Ângela. – A pobrezinha demorou a dormir Bella.
Dei um longo suspiro. Ótimo. Será que Nessie estava brava comigo? Era tudo o que eu precisava agora.
-Bella? – Ben me tirou de meus devaneios. – Conte-nos o que houve na casa dos Cullen por favor. – pediu ele aspirado.
Assenti com a cabeça mas não comecei a contar de imediato. Precisa organizar meus pensamentos, saber o que eu omitiria em minha história, afinal, não dava para dizer "Nessie seguiu o carro de Alice e Rosalie e contou tudo ao Cullen...". Suspirei tomando fôlego.
-Os Cullen descobriram sobre Nessie como você já devem ter deduzido. – fiz uma breve pausa enquanto Ben concordava com a cabeça. – Bom... Os demais Cullen não se intimidaram como Alice e Rosalie, eles contaram a verdade a Edward. – dei um longo suspiro colocando as mãos no rosto. Mesmo depois de tudo, ainda me deixava com a boca seca lembrar que Edward sabia sobre Rennesmee.
Ouvi Ângela arfar, mesmo já esperando por isso. Ben deu um longo suspiro e trincou os dentes; ele não gostava dessa idéia mais do que eu, mas soube manter o controle e perguntou pausadamente, numa tentativa de se acalmar.
-Como os Cullen descobriram? – perguntou Ben.
A pergunta me causou arrepios e eu fingi dar um suspiro pesaroso para esconder meu nervosismo.
-Alice e Rosalie são um pouco compulsivas. – tirei as mãos do rosto e os fitei, ao perceber a confusão em seus olhares eu prossegui. – Elas foram descuidadas, deixaram visíveis algumas sacolas de compras com presentes para Rennesmee, - dei os ombros. – Jasper e Emmett são curiosos, bastou vasculhar as coisas das namoradas para acharem uma foto de Nessie...
-Ahh não.. – Ângela colocou as mãos no rosto ao mesmo tempo que Ben deu um tapa na própria perna soltando um palavrão.
-A semelhança de Rennesmee e Edward é inquestionável, sabem disso. Não havia como negar. – terminei desanimada. Eu me sentia incompetente, impotente, fracassada.
Eu sentia como se tivesse falhado. Falho com a única coisa que me propus a fazer. Falhado com meus amigos que tanto meu ajudaram. Falhado com Renesmee, meu pequeno anjo. Falhado comigo mesma. Era frustrante a sensação de fracasso.
Foram longos minutos em silêncio, ninguém conseguia dizer nada, ou talvez ninguém tivesse coragem de quebrar o silêncio. Mas Ben o fez.
-E agora? Como vai ser?
-Edward quer conhecê-la... – olhei para a janela, chovia lá fora. Talvez fossem os céus decepcionados com meu fracasso. – Todos os Cullens querem...
-E você vai permitir? – Angela quase gritou tamanho a surpresa.
Nem me dei ao trabalho de fita-la, estava compenetrada nas gotas que batiam na janela. Me limitei a dar os ombros.
-Que escolha eu tenho? – perguntei desanimada, a frustração era tão grande que conseguiram aglomerar lágrimas em meus olhos, lágrimas que eu nem sabia que ainda tinha. – Edward ameaçou entrar na justiça se eu não permitir... – fechei os olhos com força, reprimindo, inutilmente, a vontade de chorar. – Ele me deixou de mãos atadas... Não tenho escolha.
-DESGRAÇADO! – Ben gritou. Abri meus olhos e o vi se levantar e andar de um lado para o outro. – Ele não tem esse direito. Como ele pode? Canalha, Idiota, Filho da...
-Chega Ben! – Ângela o cortou. – Isso não esta ajudando.
Ângela veio para o meu lado e me abraçou, fechei meus olhos e permiti que as silenciosas lágrimas caíssem. Pela primeira vez na vida, eu senti medo. Sim. Agora eu tinha certeza. AGORA sim eu conhecia o medo. Todas as vezes que pensei ter medo, não eram. Nada se comparava ao que eu sentia agora. Nada nem se quer chegou perto. Eu nunca tinha conhecido o real significado da palavra. Agora o medo me envolvia destruindo minhas esperanças.
-Isa se acalme... – pediu Ângela apertando o abraço. Então eu comecei a soluçar, comecei a chorar de verdade em seu ombro.
-Isa, - Ben se ajoelhou na minha frente. – Não chore, não vamos ajuda-la.
-Estou com medo... – admiti, e me surpreendi por ver o quão leve ficou minha alma com aquela confissão. – Estou com medo de perder minha filha.
-Isa se acalme... – Ângela afagou minhas costas numa tentativa de fazer meu choro diminuir.
-Ele não conseguiria Isa. – garantiu-me Ben – Mesmo que entrasse na justiça, não conseguiria. Renesmee não possui vinculo com ele, não tem seu nome, não há razões para o juiz conceder a guarda a Edward.
-Existem testes de DNA, Ben. – rebati em meio a um soluço.
-Não importa, Isa, ninguém tirará Renesmee de você! – Prometeu Ben.
-Você não está entendendo Ben, não quero que ela passe por nada disso! – me afastei de Ângela para poder fitar os dois. – Não quero que ela veja os pais brigando por ela. Não quero que ela tenha que passar pela humilhação de um teste de DNA. Não quero que ela se sinta um problema.
Ângela e Ben me fitavam atônicos, tentando assimilar tudo que eu disse. Os minutos passaram silenciosos e eu aproveitei deles para tentar fazer meu choro cessar.
-Você. Vai. Permitir. Que. Eles. Conheçam. Nessie? – Ângela quebrou o silêncio, nitidamente chocada com a própria conclusão. Sua cor sumiu e a de Ben também, ambos me olharam esperando minha negação. Mas ela não veio.
-Vou... – confirmei limpando as lágrimas e puxando uma boa quantidade de ar para me acalmar. – Só chegarei ao ponto de ir a justiça se Renesmee não quiser conviver com eles e Edward querer forçá-la, o que eu duvido que faça.
-Está... Está falando sério? – indagou Ben atônico. Ele não se conformava, e para ser sincera, eu também não.
-Nunca falei tão sério em toda a minha vida.
-Depois de tudo que ele fez? – insistiu Ben como se eu estivesse para cometer uma insanidade. E de fato, eu estava.
-Sim...Depois de tudo que ele fez. – confirmei me levantando. – Agora melhor eu ir... Preciso contar tudo a Nessie hoje ainda.
Os dois me acompanharam com o olhar, ainda estupefatos. Eu não os culpava.
-Renesmee ainda está dormindo... – Ângela forçou-se a dizer quando eu já estava no pé da escada.
-Eu sei... – garanti-lhe. – Mas ainda sim, vou levá-la para casa.
Não olhei para ver se algum deles havia me seguido, minha cabeça estava tão transtornada com tudo que aconteceu nas últimas vinte e quatro horas que eu não tinha mais tato algum para com as demais pessoas, mesmo sendo elas tão queridas como Ângela e Ben.
Entrei direto no quarto de hospedes, o quarto que Renesmee sempre ficava quando dormia lá. Meu pequeno anjo estava dormindo graciosamente na cama, rodeada de almofadas para que não caísse da cama.
Foi impossível não sorrir ao vê-la, Renesmee era meu único motivo de viver, minha maior alegria, meu tesouro mais precioso...
Me aproximei lentamente para não acordá-la, depositei um beijo em sua testa e peguei-a no colo, com muito cuidado para que não acordasse.
Tentei pegar a manta e a bolsa de Nessie com outra mão, mas um mão pegou-a para mim. Ben estava atrás de mim, eu não havia notado-o até então. Ele cobriu Renesmee com a manta.
-Desculpe pela minha reação lá embaixo. – pediu ele num sussurro. – Ângela e eu amamos você e Renesmee. Nós te apoiaremos no que você decidir. – prometeu ele com um sorriso.
Abri um largo sorriso sentindo meus olhos já marearem.
-Obrigada... – sussurrei apoiando minha cabeça em seu ombro, com cuidado para que Renesmee não acordasse. – Nessie não poderia ter padrinhos melhores.
Ben acariciou minha cabeça brevemente, tão logo me separei.
-Temos muito orgulho de sermos padrinho dessa garotinha maravilhosa. – Ben afagou os cabelos de minha filha e então voltou a me fitar sorrindo. Naquela hora eu soube que sempre poderia contar com Ângela e Ben.
Descemos em silêncio, Ângela nos esperava ao pé da escada com um sorriso amarelado, eu sabia que também estava envergonhada por não me apoiar de primeira. Levei Nessie para o carro e Ben colocou suas coisas no banco de trás.
-Precisa de alguma coisa? – perguntou-me ele quando eu já assumia a direção e colocava meus óculos de sol.
-Não se preocupe. – sorri ligando o carro. – Qualquer coisa eu ligo.
-Está bem. – Ele se afastou sorrindo, posicionou-se ao lado de Ângela que estava na porta da casa. – Até mais tarde, Isa.
-Até! - respondi já tirando o carro. Acenei e parti.
O caminho até em casa era curto e eu evitei ocupar minha cabeça com qualquer um dos meus problemas, precisava estar com a cabeça fria quando fosse conversar com Nessie.
Chegamos rapidamente e eu coloquei Renesmee em seu quarto, admirei-a um pouco e liguei a babá eletrônica; deixei o quarto com relutância. Ver minha filha atualmente parecia uma raridade, sempre temia que aquela pudesse ser a última vez que a veria.
Decidi que a melhor coisa a fazer era um banho para relaxar. Foi o que eu fiz; mantive a babá eletrônica comigo no banheiro, para o caso de Nessie acordar.
Enquanto a água quente encontrava minha pele nua eu me permiti vagar. Deixei meus pensamentos processarem tudo que havia acontecido e tudo que estava para acontecer. A volta dos Cullen. Alice e Nessie juntas. Edward e eu juntos novamente. Rosalie e Nessie. Nessie indo ao encontro dos Cullen. Todos Cullen conscientes da existência de Nessie. A briga entre Edward e eu. A possível suspeita de uma nova gravidez. O que eu diria exatamente a Renesmee quando a mesma acordasse... Por Deus, era muita coisa para uma pessoa só.
Comecei a me ensaboar ao mesmo tempo que tentava arrancar de mim todas as emoções ruins que me consumiam, em especial, o medo de perder minha filha.
Essa idéia fazia meu estômago embrulhar. Se Renesmee se separasse de mim, minha vida iria junto. Estremeci só de cogitar tal idéia.
Quando comecei a ensaboar minha barriga, inconscientemente, fui mais cuidadosa ao passar a esponja em meu ventre. Parei minha mão ali.
-Será verdade...? – perguntei para ninguém. Acariciei meu ventre por algum tempo. Pensando no que faria se isso fosse realmente verdade. Foi inevitável sorrir. Talvez houvesse uma nova vida ali. Talvez uma nova criaturinha, uma nova razão para minha vida.
Quando dei por mim eu já estava fazendo planos para a chegada de um novo bebê.
-Por Deus, Bella. – briguei comigo mesma enquanto comecei a me enxaguar. – Você nem sabe se está mesmo grávida.
Terminei o banho e fui me trocar, coloquei uma roupa simples, nada muito chamativo. Terminei de me arrumar ao mesmo tempo que comecei a ouvir um barulho na babá eletrônica. Renesmee tinha acordado.
Respirei profundamente. Era chegada a hora. Se Renesmee aceitaria ou não os Cullen; se Nessie me perdoaria ou não por omitir tanta coisa dela só Deus sabia, e agora, era chegada a hora deu saber também.
Entrei no quarto de minha pequena e a encontrei sentada na cama, esfregando os olhinhos. Me aproximei e sentei na beirada da cama.
-Bom dia... – tentei ser serena, não queria estresse, mas eu ainda estava um pouco magoada com Nessie.
Ela me encarou temerosa, como se esperasse por uma nova bronca. Ao ver que eu nada faria Nessie sorriu levemente e se aproximou, engatinhando pela cama.
-Você… Você não está mais brava? – perguntou ela com a cabeça abaixada.
Puxei-a para meu colo e a envolvi em meus braços.
-Não... – dei um beijo em sua testa e afaguei seus braços – Não estou mais brava...
Ficamos alguns minutos em silêncio, ela parecia receosa em dizer alguma coisa, e eu estava apavorada de começar o assunto que provavelmente faria minha filha me odiar para sempre.
-Você continua chateada, não é? – De repente ela soltou. Baixei meu olhar para poder encontrar o dela, mas Nessie estava com a cabeça abaixada, olhando para as próprias mãos. Cogitei a hipótese de mentir; mas mentiras agora só tornariam as coisas mais complicadas.
-Estou um pouco sim... – confirmei. – Mas nada que não vai passar. Eu não consigo ficar triste com você, sabe disso... – levantei seu rosto para que seu olhar encontrasse o meu. Renesmee estava triste por me fazer sofrer, era visível isso. Eu sorri e ela acabou por retribuir meu sorriso.
-Eu amo você, mamãe! – Nessie disse enquanto abraçava minha cintura. Retribui o abraço.
-Eu também te amo.
Ficamos mais um tempo em silêncio. Apreciei cada segundo daquele abraço.
Talvez depois de hoje, eu não recebesse mais abraços assim. Eu conhecia minah filha, conhecia Renesmee, ela confia em tudo e em todos, até o momento que alguém a trái. Por mais tosca que tenha sido a traição, ela se magoa, se magoa profundamente, e dificilmente esquece o ocorrido. Isso me apavorava.
-Então... – ela começou enquanto nos separávamos do abraço. – Você... Você falou com ele? – ela quis parecer casual, mas eu sabia que ela estava ansiosa pela resposta.
-Sim... – dei um leve suspiro tentando esconder meu nervosismo. – Você conseguiu. Seu pai agora sabe sobre você...
Renesmee estremeceu com minhas palavras, ela se inclinou para a frente mais ansiosa agora.
-E? O que ele disse? – ela esperou impaciente por minha resposta. Eu tentei responder mas o medo me impediu de falar. Isso deu a ela uma idéia errada da situação, então seu sorriso angelical começou a se desfazer e a euforia evaporar. – Ele... Ele não que saber de mim não é? – sua pergunta não passou de um sussurro.
Senti dó de minha filha e isso me libertou de minha paralisia. Levantei seu queixo e disse olhando em seus olhos:
-Ao contrário, filha. – Abri um sorriso fraco, mecânico. – Ele que te conhecer...
Nessie pulou na cama de susto.
-É sério? – ele mal podia conter a euforia. – Ele quer mesmo me conhecer?
Dei um longo suspiro e confirmei.
-Sim. Ele quer...
Nessie pulou e gritou tamanha a alegria que sentia. Ela estava radiante, feliz.
Eu a observei em silêncio, ao mesmo tempo que me causava conforto e alegria ver minha filha feliz, também me causava medo e tristeza por saber que logo esta euforia e felicidade desapareceriam.
-Viu! – Nessie esnobou totalmente contente. – Eu estava certa!
Aquilo foi como uma facada em meu peito, não consegui responder. Não foi nem pelo fato de Nessie estar jogando sua teoria, agora correta, na minha cara; mas sim pelo fato de saber o quanto eu menti para minha pequena. Eu nunca duvidei que
Edward fosse rejeitar nossa filha. Mas sempre me preocupei com a aceitação de todos pelo fato do que ela era. É... As coisas estavam mais complicadas do que eu imaginei.
Ao ver que eu não a respondi, imediatamente, Nessie veio me abraçar numa tentativa de me consolar.
-Por favor, mamãe. Não fique assim! – pediu ela angustiada. Meu sofrimento lhe causava dor. Isso só fez minha culpa aumentar. – Eu amo a senhora! Você é a melhor mãe do mundo...
-Renesmee pare! – cortei-a enfiando minhas mãos em meu rosto. Aquelas palavras só faziam eu me sentir pior.
-Mas é verdade, mamãe! – insistiu ela, tentando tirar minhas mãos de meu rosto, mas eu não o fiz.
-Nessie... – sussurrei implorando para que ela parasse com aquelas palavras, eu não era merecedora delas.
-Mãe... Me escuta! – pediu ela finalmente conseguindo tirar minhas mãos de meu rosto. – Eu amo você! Muito! Você é a melhor mãe do mundo! E eu tenho muito orgulho de ser sua filha! – ela sorriu mais eu não consegui sorrir. Minha alma estava sendo esfaqueada com cada palavra carinhosa que saia dos lábios de Renesmee. – Sou muito feliz com você, mãe! Muito mesmo! É só que... – seu sorriso se desfez, ela parecia constrangida agora. – Por mais que você seja uma mãe perfeita... É normal eu sentir falta de um pai! Por mais que você tenha me explicado tudo, eu não consegui evitar querer conhecê-lo...
Abracei fortemente minha filha, ela retribuiu meu abraço com forca, mas ela não entendia a real intensidade daquele momento, pelo menos, não entendia a real profundidade daquele momento para mim.
Nessie ficou em silêncio por alguns segundos, dando-me um pouco de tempo para aceitar suas palavras e então prosseguiu:
-O problema não é você, mãe! Nunca foi! – jurou ela. Suas pequenas mãozinhas acariciaram meus cabelos. – O problema sou eu... Eu... Não consegui evitar querer ter alguém que eu pudesse chamar de pai... – Nessie se afastou do abraço para me encarar. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. – Me perdoe, mamãe. Me perdoe pelo que fiz... Mas... – as lágrimas começaram a descer. – Mas eu jamais conseguiria viver em paz se eu não tivesse ao menos tentado ter um pai... – Ela pegou minhas mãos e as beijou. – Sei que foi errado o que fiz.... Mas eu só queria ser uma criança normal... Pelo menos nesse aspecto. Queria ter uma mãe e um... pai.
Senti uma adaga transpassar meu peito. Como nunca fui capaz de perceber a falta que Edward fazia na vida de nossa pequena? Como consegui não perceber o sofrimento que minha pequena passava? Eu tinha falhado com Renesmee, isso era claro. Se eu soubesse que era tão importante para ela ter um pai, eu com certeza teria me casado de novo. O importante nunca foi a MINHA felicidade, mas sim a DELA.
Meu coração chorava, sangrava, gritava... Nada que eu tivesse passado justificava o fato deu ter falhado com meu pequeno anjo. Deus tinha me dado um de seus anjos mais precisos para que minha dor não mais fosse insuportável. Tinha confiado em mim um de seus tesouros mais precisos e eu tinha permitido que esse ano sofresse. Isso é crime! A dor que me inundava agora nada era comparada a dor que eu merecia sofrer! Eu merecia muito mais por cometido tal atrocidade.
As lágrimas escorreram no mesmo momento, o choque, a dor, a decepção comigo mesma., tudo veio ao mesmo tempo. A única coisa que consegui fazer foi cobrir meu rosto com as mãos, numa tentativa ridícula de esconder a vergonha que sentia por ter cometido um crime de tal magnitude.
-Eu sou uma péssima mãe! – deixei as palavras confirmarem o que minha menta já gritava em minha cabeça. – Me perdoe, Renesmee! Por favor, me perdoe, filha! – supliquei. Talvez se ela me perdoasse, a culpa se tornaria menor.
-NÃO MAMÃE! – Gritou ela aspirada. Apavorada por me ver naquele estado. – Você não é uma péssima mãe! Você é uma mãe maravilhosa! – Novamente minha pequena me abraçou tentando diminuir minha culpa. – Eu que não fui uma boa filha e não te obedeci...
Nada do que ela dissesse diminuiria minha culpa. Agora eu tinha certeza. A dor era implacável e merecida.
-Você não entende, Renesmee... – neguei freneticamente com a cabeça.
-Entendo sim mãe! – ela tirou minhas mãos do meu rosto e me forçou a olhá-la. – Eu entendo que se magoou. Entendo que tentou me proteger de uma possível rejeição por parte do papai. Entendo que tinha medo que eu sofresse como você sofreu, mas acabou! ACABOU! – Nessie abriu um sorriso radiante – Tudo vai ficar bem agora! Agora papai sabe a verdade! Agora ele quer me conhecer!
-Renesmee... – tentei dizer mas ela colocou sua mãozinha em minha boca para que eu parasse de falar e continuou:
-Ele não vai me magoar, mamãe! – tranqüilizou ela. Aquilo não adiantou de nada, ela não compreendia o que eu estava tentando dizer. – Ele vai me amar, mamãe! Ele vai ter orgulho de mim! Sei que vai! – ela estava encantada. Preza em seu próprio mundinho. Precisava acabar com aquilo agora. Ela precisava conhecer a realidade.
-Filha me escute! – minha voz subiu uma oitava e minhas mãos seguraram seus ombros. Ela finalmente pareceu perceber que eu tinha algo importante para dizer. – Você NÃO entende! – repeti desnecessariamente.
Ela me fitou pasma, estupefata com minha reação exagerada. Chacoalhei-a de leve.
-Existe um motivo a mais para eu esconde-la do seu pai! – eu estava desesperada e o desespero estava em minha voz. – Existe um motivo para eu dizer que ele e os demais Cullen são perigosos! Existe um motivo para tudo! – ao ver que seu rosto começava a ficar assustado eu baixei a voz e a soltei. – Existem um motivo que você desconhece...
Nessie me fitou por alguns segundos tentando entender. Procurou em meu rosto algum vestígio de brincadeira ou insanidade, eu não sabia exatamente o que ela procurava.
-Não estou entendendo, mamãe... – confessou ela.
O medo começou a me dominar, eu queria desistir de contar a verdade. Queria esquecer tudo aquilo e jamais assumir que eu menti para ela; mas eu sabia que se eu não contasse os Cullen acabariam por contar. E entre saber da minha boca ou da boca de qualquer outra pessoa... Ela melhor que soubesse da minha.
-Existem segredos, meu amor. – forcei as palavras a saírem. Acariciei seus cabelos desgrenhados, numa tentativa desesperada de tornar tudo mais ameno. – Existem segredos que eu queria ter deixado no passado...
Uma ruga surgiu entre as sobrancelhas dela. Ela ficou mais algum tempo e silêncio tentando entender, obviamente foi em vão, ela não fazia idéia do que eu falava.
-O que está tentando me dizer, mamãe? – pressionou ela. Nesse aspecto ela era muito parecida com Renné, sempre ia direto ao assunto.
O pavor tomou conta de cada célula do meu corpo. O desespero começou a percorrer em minhas veias. O ar veio a faltar em meus pulmões. Era chegada a hora...
-Filha... – Eu não sabia da onde tinha vindo fôlego para conseguir pronunciar alguma palavra. – Está na hora de você saber o porque de você ser especial... – O assombro tomou conta do rostinho angelical de minha bonequinha, deixando-a mais branca do que o normal. – Está na hora de você saber o porque de você ser diferente das outras pessoas...
Involuntariamente, Nessie recuou um pouco na cama.
-Está começando a me assustar, mamãe... Do... Do que você está falando?
Dei um longo suspiro e me levantei, estiquei meus braços.
-Venha comigo, filha...
Nessie pareceu receosa mas concordou com a cabeça e veio para meus braços. Levei Renesmee para meu quarto e gentilmente a coloquei em cima da minha cama.
-Espere aqui... – pedi enquanto adentrava no closet. Fui até o cofre e peguei dentro do mesmo a caixa com todas as coisas que eram da minha época com os Cullen. Lentamente, retornei ao quarto.
Nessie me olhava curiosa, ansiosa, provavelmente ansiosa para conseguir entender tudo que eu estava dizendo. Me sentei à sua frente e coloquei a caixa entre nós.
-O que é isso? – indagou ela, tentando reconhecer a caixa. – Da onde saiu essa caixa?
-Do cofre...
-Cofre? Dentro do seu closet? – ela estava cada vez mais confusa. – Eu nunca vi um cofre dentro do seu closet, assim como nunca vi essa caixa...
Dei um longo suspiro e abri a caixa.
-Como eu disse... Existem muitos segredos sobre meu passado que você desconhece, filha.
-O que tem nesse caixa, mãe? – Nessie indagou se deitando levemente sobre a caixa para conseguir ver o conteúdo.
-Meu passado... – peguei uma foto minha com Edward e entreguei a ela. – Minha vida com seu pai.
Nessie pegou a foto e observou atentamente alisou a foto despreocupadamente.
-Este é seu pai... – esclareci. Nessie me olhou com espanto, com certeza não esperava que eu fizesse isso. Ignorei isso e lhe entreguei outra foto. – E esta é a família dele.
Nessie pegou a outra foto e ficou admirando as duas fotos por um logo tempo. Sua expressão era cada vez mais animada, mais maravilhada.
-Meu pai é.... – Nessie forçou-se a dizer, seu sorriso cada vez maior. – Lindo!
Abri um sorriso involuntário e assenti com a cabeça, peguei outra foto minha e de Edward e admirei também.
-Sim... Seu pai é lindo mesmo.
Nessie desviou o olhar da foto e me encarou com uma expressão presunçosa.
-Escolheu bem, em mamãe! – Brincou ela dando um leve tapinha em minha perna. Em seguida começou a rir, acompanhei-a na risada.
-Pois é. – concordei ainda olhando para a foto. Mesmo depois de tudo, mesmo depois de tudo que aconteceu, ainda me espantava o fato de Edward ter sido meu, mesmo que por pouco tempo, mas ainda sim, foi meu.
-Não conheço este! – Disse Nessie arrancando-me de meus devaneios. Desviei minha atenção da foto que estava em minhas mãos e olhei para a foto nas mãos dela. Renesmee apontava para Emmett.
-Este é seu tio Emmett. – expliquei sorrindo levemente. – Ele tinha saído com seu pai quando você foi lá, por isso não o conhece.
-Ahh... – ela voltou a encarar a foto por alguns segundos, depois sua testa se enrugou. – Espera... Essa é você? – ela apontou para a garota morena de olhos chocolates, visivelmente, a garota que destoava entre todos os Cullen; no caso, eu.
-Sim... – confirmei percebendo pela primeira vez, que eu jamais poderia pertencer àquela família, eu destoava demais ali. – Essa sou eu...
Nessie passou pouco mais que meio minuto encarando a foto e depois a mim, alternando, como se não acreditasse.
-Você mudou bastante... – comentou ela, por fim. Dei uma risada leve e assenti.
-Sim, eu mudei um pouco...
Nessie continuou a encarar a foto por mais alguns segundos antes de voltar a falar.
-Aqui você parece uma menina... – ela apontou para a foto, então voltou a me encarar. – Agora você tem rosto de mulher... Mudou bastante.
Dei os ombros e fingi não me importar.
-O tempo passa... – A verdade é que me incomodava sim, no fundo, eu queria nunca ter mudado e poder estar ao lado do cara que amo.
-Espera... – Novamente, Renesmee me tirou de meus devaneios. – Essa fotos são de quando? – perguntou ela confusa, olhando da foto para mim alternadamente.
Fiquei tensa, novamente o pavor estava me dominando, ela estava começando a entender...
-São... – engoli em seco. – São de antes deles partirem... – Sem querer, minha voz estava cautelosa – A mais recente é de dois anos e meio atrás.
Renesmee ficou um tempo em silêncio analisando a foto, cada vez mais confusa.
-Mas... Mas como pode? Como eles são exatamente iguais a hoje? Não mudaram uma virgula, eu tenho certeza!
-Eu... Eu sei... – foi tudo que conseguiu sair da minha boca.
-Como assim? – Nessie estava confusa, agitada; ela estava começando a perceber que algo estava errado por ali. – Como pode?
Respirei fundo e peguei suas mãos.
-Filha... –Pensei por um segundo no que diria exatamente. – Antes de qualquer coisa eu queria te pedir para acreditar em mim. – fiz uma breve pausa. – Por mais que pareca maluquice o que vou lhe dizer, você precisa acreditar em mim.
-Mamãe... Você, você esta me assustando... – Nessie estava tensa agora, preocupada com algo que nem sabia o que era.
Tomei um belo fôlego e reuni coragem de algum lugar que eu não sabia dizer da onde vinha.
-Filha... – encarei seus olhos azuis como o mar. – Sabe... Sabe aquelas historinhas que você conhece? Sabe todo aquele faz de conta que você lê?
A confusão tomou substituiu a ansiedade no rosto de Nessie, suas sobrancelhas se unirão.
-O que isso tem a ver?
-Querida... – um nó se formou em minha garganta. – Todo faz de conta que você conhece... Realmente existe. – minha voz não passou de um sussurro.
Nessie continuou a me encarar como se eu fosse uma deficiente mental ou algo do tipo, isso me incomodou um pouco, mas resolvi relevar. Renesmee se recompôs rapidamente e foi o mais diplomática possível.
-O que você está tentando me dizer, mamãe? – insistiu ela, fingindo não ter ouvido minha "insanidade".
Respirei fundo e tentei novamente; eu sabia que não seria fácil. Não culpava Renesmee por não acreditar de primeira.
-Querida... Nem todo conto de fadas, nem todo mito, nem todas as lendas, nem todas as histórias de terror; são realmente inventadas... – Tomei fôlego. – A grande maioria... É real!
Nessie voltou a ter uma expressão estranha como se eu tivesse algum problema mental, creio que ficou todo aquele tempo em silêncio pensando em como ser o mais diplomática possível.
-Mamãe... – ela pegou minhas mãos. – Eu posso ser novinha ainda, mas sei muito bem que esse tipo de coisa não existe...
-Existe filha. – insisti, uma hora ela iria me ouvir.
-Não existe, mãe! – rebateu ela aspirada.
-Filha... – peguei as fotos e entreguei-lhe. – Olhe as fotos! Como você acha que os Cullen nunca envelheceram? Continuam idênticos!
Ela não respondeu, pegou as fotos e ficou a examiná-las, tentando encontrar alguma explicação.
-Você já percebeu que suas tias nunca comem? – continuei a plantar as sementes de dúvidas em sua cabeça. – Você já reparou que todos são extraordinariamente bonitos? Você já percebeu como você é muito parecida com todos eles? Todos vocês possuem uma beleza singular!
Seu olhar se desviou das fotos e pousou em mim.
-Somos parentes... – Nessie começou a dizer mas eu a interrompi.
-Mas eles não! – minha voz já deveria ter subido duas oitavas a essa altura. – Eles são todos "adotados"! Como podem todos serem tão parecidos se ninguém ali é parente de sangue? – fiz uma breve pausa voltando a falar num tom normal. – Todos vocês possuem uma beleza singular! Única!
Ela não respondeu, a dúvida estava crescendo dentro dela, eu tinha certeza disso. Renesmee voltou a encarar a foto, sua expressão era de cada vez mais confusão, ela queria achar uma explicação, mas eu duvidava que ela estava tendo sucesso.
-A cor dos olhos... – insisti após alguns segundos. – Você já viu alguém ter olhos da cor dos deles... – fiz uma breve pausa e continuei num sussurro. – Da mesma cor que seus olhos ficam quando você bebe... Sangue animal....
Ela não respondeu. Dei um longo suspiro. Concentrei-me para reunir uma coragem que não existia dentro de mim.
-Existe um motivo para você ser "especial", filha. – Um nó se formou em minha garganta, precisei engolir em seco para conseguir continuar. – Você é igual à eles...
Ainda sim, Nessie nada disse; eu não queria mais continuar, eu não queria dizer mais uma única palavra. Eu não queria assinar meu atestado de óbito, porque era isso que eu estava fazendo, assinando meu atestado de óbito. Eu morreria sem minha filha e dizer tudo aquilo faria minha pequena me odiar para sempre. Mas eu precisava continuar, ou era saber pela minha boca, ou pela boca de outro...
Dei um longo suspiro e prossegui.
-Por que seus olhos mudam de cor? – comecei com as perguntas retóricas. – Por que você bebe sangue? Por que você sente uma queimação na garganta quando sente o cheiro de sangue? Por que sangue tem cheiro para você? Por que sua inteligência é mil vezes mais desenvolvida que qualquer outra criança da sua idade? Por que seus sentidos são mais apurados? Por que você tem o poder de me mostrar seus pensamentos?
O silêncio continuava intenso por parte de Nessie, minha pequena estava cada vez mais convencida que algo estava errado por ali, o choro começou a subir-lhe o corpo, eu podia perceber, isso fez com que o choro quisesse subir para mim também. Minha filha estava sofrendo e eu estava torturando-a cada vez mais.
Longos minutos se passaram, comecei a acreditar que minha pequena nem estivesse prestando atenção em minhas palavras, até que ela finalmente se pronunciou.
-O... O que eles são? – sua voz estava embriagada, o choro estava muito próximo. – O que EU sou?
Foi a minha vez de instaurar o silêncio precisei de muito auto-controle para conseguir dizer a palavra que acabaria com o forte laço que existia entre Nessie e eu.
-Vam... Vampiro. – forcei a palavra a sair, não passou de um sussurro, mas eu tinha certeza que ela havia escutado.
Nessie arfou e tapou a boca com a mão, reprimindo um grito de dor e terror. Seus olhos encheram de lágrimas que em questão de segundos escorreram compulsivamente pelo rosto perfeito de meu pequeno anjo. Meu peito se contraiu tanto que eu quis arrancá-lo de dentro de mim, para que assim, talvez a dor diminuísse.
-Você... – Nessie forçou as palavras a saírem, as mesmas saíram sufocadas, distorcidas por conta do choro que se intensificava a cada segundo. – Você está me dizendo... Que... Eu... Eu sou um... Monstro? – sua voz falhou na última palavra.
-Claro que não! – gritei rapidamente. – Você não é um monstro! – Segurei suas mãos numa tentativa de acalmá-la, Renesmee recolheu a mão rapidamente, mas esse pequeno momento em que nossas mãos se tocaram eu pude ver todo o sofrimento que minha filha sentia.
Meu peito se dilacerou ao saber exatamente o grau de sofrimento e magoa dela. Mil adagas transpassaram minha alma. Renesmee estava magoada, ferida, confusa, atordoada. Seus pensamentos eram direcionados para duas grandes coisas, o fato dela ser um monstro e o fato deu te-la enganado todos esses anos.
-Renesmee... Por favor... – supliquei tentando desesperadamente fazer o sofrimento de minha filha cessar.
-Mãe, por favor... – suplicou ela com o choro mais intensificado. – Por favor, me diga que é brincadeira!
Eu queria negar, queria fazer o sofrimento dela cessar mas não podia. As lágrimas de desespero rolaram por meu rosto enquanto eu negava com a cabeça.
-Não estou brincando querida... – sussurrei, eu estava tão ou mais machucada que ela. Minha única razão de continuar viva agora sofria, fazendo-me assim, sofrer também.
O choro de Renesmee se intensificou, ela agarrou os cabelos e começou a balançar a cabeça em sinal negativo.
-Não! Não! Não! Não! Não! Não! – ela tentava fervorosamente negar a si mesma. – Você não pode estar falando sério! Não pode! – por instinto, ela se encolheu na cama, dobrou os joelhos e os abraçou, da mesma maneira que eu fiz por diversas vezes naquele ano em que Edward me deixou pela primeira vez.
-Filha... – tentei desesperadamente fazê-la se acalmar. – Eu sei que é difícil de acreditar mas...
-Difícil? – cortou-me ela debochando. – Você acha? – Ironizou ela.
Mesmo entendendo toda a situação que ela estava vivendo, a quantidade abundante de informações, eu não aceitaria que ela me desrespeitasse.
-Renesmee Carlie Swan! – esbravejei. – Me respeite!
Ela me encarou ainda chorosa e disse com todo o desprezo do mundo.
-Você fica brincando com meus sentimentos e é para eu respeitá-la? – Nunca vi Renesmee tão rancorosa como estava naquele momento. Cada palavra coberta com aquele rancor que saia de seus lábios, torturavam minha alma, desolavam meu coração.
-Nessie... – eu estava desesperada para que ela tentasse entender, ao menos um pouco que fosse. – Eu sei que é difícil de acreditar, sei que é quase impossível aceitar; mas pense... – As lágrimas escorriam cada vez mais abundantemente por meu rosto. – Quais são as características de um vampiro que você conhece?
Ela não respondeu, continuou tentando se encolhe cada vez mais, fechou os olhos e continuou a negar com a cabeça. Minha filha estava sofrendo a cada minuto que se passava, assim como eu.
Por que continuar? Por que insistir nisso? Por que eu ainda estava tentando fazê-la aceitar tal idéia? Por que eu ainda estava lutando por um desejo de Edward?
Eu não tinha a resposta para nenhuma dessas perguntas, eu não fazia idéia do por quê deu ainda estar tentando unir pai e filha, principalmente quando isso estava desunindo Renesmee e eu; mas ainda sim, eu continuei.
-Lembre das suas tias... – pedi num sussurro. – Pele fria... – Fiz uma pausa. – Extremamente fortes... – Mais uma pausa. – Extraordinariamente bonitos... – Fiz um novo intervalo. – Rápidos... – Deixei passar mais alguns segundos. –– Não saem no sol... - Minha voz foi diminuindo a partir dai. – Bebem sangue... – Respirei fundo e falei a última característica. – Imortais...
Novamente o silêncio tomou conta do quarto, a única coisa audível eram os soluços surdos de minha filha. A tensão era tão intensa que quase se podia pegar ou ver.
Cada segundo que se passava abria uma nova ferida em minha alma, cada ferida maior e mais dolorosa que a anterior. Ver minha filha naquele estado era mais que masoquismo, era estar no inferno sabendo que ainda estava viva.
-Não... Não pode... Ser... – Renesmee continuava a ter dificuldades para aceitar os fatos, mas no fundo, eu sabia que ela já havia acreditado. Ela sempre soube que era diferente, só não imaginava que era tanto.
-Sinto muito filha... – Parecia que aquela era a única frase realmente sincera que eu disse a minha pequena, tamanha era a culpa que me consumia, mas ainda sim, aquela frase parecia nem chegar aos pés do que eu realmente queria dizer. Parecia pequena demais para o remorso que me consumia.
Renesmee tentou controlar o próprio choro, tentou manter a calma para ser racional. Ela pegou as fotos de Edward novamente e voltou a fita-las, desta vez, não maravilhada, mas sim pensativa, confusa, como se tentasse entender quem era aquele homem que ela tanto idolatrava a minutos atrás.
-Então... – ela finalmente disse alguma coisa, e para minha surpresa, sua voz era serena, calma, como eu jamais imaginei que estaria naquele momento. – Isso quer dizer que eu... Eu sou filha de... – ela não conseguiu terminar a frase, por isso eu terminei para ela.
-Que você é filha de um vampiro com uma humana.
Mais uma vez o silêncio foi pesado entre nós, mas mesmo me incomodado, eu não me senti no direito de intervir, era o momento dela, tinha todas as razões do mundo para permitir que as coisas ficassem tão tensas entre nós.
-Ele te contou isso ou foi você quem deduziu? – perguntou ela de repente.
Fiquei surpresa com a pergunta, não esperava por ela. Respondi automaticamente.
-Eu descobri.
-Como? – insistiu ela, e pela primeira vez, pelo que me pareceram séculos, ela olhou nos meus olhos novamente.
-Quando nos conhecemos, seu pai deu muitas aberturas que me fizeram perceber que nem ele, nem a família dele, eram normais. – Fiz uma breve pausa deixando que minha mente voltasse para aqueles tempos. – Um dia, um velho amigo chamado Jacob Black me contou uma lenda sobre sua tribo, onde eles descendiam de lobos e seus maiores inimigos eram os "sugadores de sangue", ou vampiros. A tribo dele, acreditava que os "sugadores de sangue" eram os Cullen.
Renesmee arqueou uma sobrancelha, cética.
-E você acreditou? – senti uma pontada de zombeira em sua voz, mas resolvi ignorar.
-Eu fiz umas pesquisas sobre como eram os vampiros e tudo mais, a grande maioria das características bateram... Então eu contei a seu pai minha teoria maluca, pouco tempo depois ela acabou por confirmar.
Ela nada disse, apenas voltou a encarar a foto, pensativa.
-Quando você pretendia me contar? – De repente veio mais uma pergunta.
-Sinceramente? – dei um suspiro pesado, não adiantava mais mentir. Eu menti até agora para protegê-la e veja a onde eu fui parar. Achei que dizer a verdade seria melhor. – Eu esperava nunca precisar te contar.
O rosto dela assumiu uma expressão estranha, seu rosto começou a ficar vermelho, demorou alguns segundos para eu perceber que era de fúria.
-E você esperava que eu vivesse a vida inteira sem questionar do porque eu ser diferente? – sua voz subiu uma oitava.
-Nessie... Eu esperava que você aceitasse e... – ela não me deixou terminar.
-E meu pai? – ela estava cada vez mais brava. – Você achou mesmo que eu não iria querer saber dele?
-Filha... Ele não sabia de você, se eu contasse seria uma confusão além de ser perigoso e... – novamente Nessie me interrompeu.
-Se ele é perigoso então eu também sou! – Renesmee estava muito nervosa.
-NÃO! – Agora sim eu estava em pânico, ela tinha entendido errado. Você... Você é diferente!
-Eu realmente sou diferente. – A frieza na voz de Nessie era cortante. – Diferente de você! – gritou ela. – Sou igual a ele, não à você!
Acabei por me contrair involuntariamente, as palavras dela me feriram. Palavras duras numa voz angelical. Renesmee nunca foi tão áspera comigo, nunca foi tão dura comigo. Ela estava ferida, estava magoada, e parecia que sua dor só cessaria, seu ódio só se aplacaria quando eu estivesse totalmente destruída.
-Filha... – as lágrimas escorriam fervorosamente novamente. – Procure entender... – supliquei aos prantos. – Eu queria te proteger!
-Me proteger a base de mentiras! – rebateu ela. O fogo de ódio queimava em seu olhar.
-Era necessário! – tentei desesperadamente fazê-la enxergar o meu ponto de vista, mas ela estava cega de raiva.
-Eu confiei em você, mãe! – o desprezo que emanava dela, era arrepiante. – Acreditei em TUDO que você me disse! Fiz tudo que você me pediu... – ela novamente ficou vermelha de raiva. – E ERA TUDO MENTIRA!
-Filha... – eu estava chorando copiosamente, estava me destruindo por dentro com a frieza de minha pequena.
-Você me enganou! Pensei que você era uma pessoa em quem eu pudesse confiar, com quem eu pudesse contar...
-E eu sou! – garanti-lhe rapidamente.
-Eu não sei mais quem você é! – Aquela simples frase me matou. Ela desviou o olhar deixando-me claro que ela não me queria mais por perto, eu tinha magoado-a demais.
-Não faca isso comigo, Renesmee... – supliquei aos prantos, uma última tentativa de ter alguma chance de conseguir concertar as coisas. – Por favor, não faca...
Ela me olhou com desprezo, com um ar superior e então desviou o olhar. Ela não me perdoaria. Cai na cama, aos prantos, deixando minha alma sangrar por todo aquele sofrimento que eu estava passando. Todo o sofrimento que eu merecia passar.
-Sabe... – me surpreendeu ouvir a voz dela ali ainda, eu jurava que ela havia saído do quarto. – Eu cresci ouvindo histórias sobre como meu pai a tratou, como você sofreu por um amor que era impossível. Sempre achei que meu pai fosse um homem insensível, apesar de todo o amor que ele chegou a lhe devotar... Eu sempre admirei você por sua devoção ao que você amava... Por ter sido correta com meu pai, do início ao fim... – Só então eu percebi que ela falava mais com ela mesma do que comigo. - Mas agora eu vejo que estava errada... – Ela me encarou novamente com desprezo. – Você é tão desprezível quanto ele!
Mil agulhas atravessaram meu coração naquele momento, e eu nada pude fazer, eu merecia aquilo.
-Você precisa me dizer... – forcei as palavras a saírem em meio aos soluços. – Se ainda quer conhecê-lo. – eu não consegui encará-la, ela estava magoada demais, e eu ferida demais.
-Eu... – para minha surpresa, ela começou a juntar todas as fotos e a colocar dentro da caixa. – Eu não sei... – confessou ela visivelmente frustrada. Uma solitária lágrima escorreu por seu rosto. – Preciso de um tempo para mim... Preciso por meus pensamentos no lugar... – ela pegou a caixa e caminhou para a porta. – Deixe-me em paz, por favor... – foi o último pedido que ela me fez antes de deixar o quarto levando minha caixa.
Eu fiquei ali, caída na cama, aos prantos, sentindo minha alma sangrar juntamente com meu coração. Peguei um canivete e retirei minha luva esquerda, sem pensar duas vezes, fiz diversos cortes profundos em meu pulso, deixei-o sangrar igualmente ao meu coração, afinal, eu merecia.
Renesmee teria seu tempo, mesmo que este fosse séculos... Eu não mais erraria com ela.
Não sei por quanto tempo chorei, tão pouco sei por quanto tempo meu pulso sangrou ou quanto sangue perdi. A única coisa que sei, foi que a fraqueza começou a me tomar até me levar a inconsciência.
