Capítulo 39 – Estranha família – Amiya Jamalon

- Você vai sair, Ucrânia?

Era domingo de manhã, bem cedo, aliás. Mesmo assim, a Ucrânia estava se arrumando. Ela estava usando uma camisa branca com frufru nas mangas, e uma saia azul cobalto até os joelhos com suspensórios similares ao do nosso uniforme.

- Sim, Amiya-san. Eu e o Rússia-chan combinamos de sair hoje – ela respondeu, enquanto colocava uma faixa azul no cabelo. – Vocês querem vir com a gente?

- Não, não! – eu balancei as mãos espalmadas em negação. – Você vai sair com o seu irmão mais novo, eu não quero atrapalhar!

- E você, Eilynn-san?

- Eu não existo antes do meio-dia em um domingo – Eilynn virou de bruços na cama e colocou o travesseiro em cima do cabelo cheio de bobs. – Vocês podem sair de uma vez? O barulho dos seios da Ucrânia está atrapalhando meu sono de beleza.

- Oh, então você precisa de sono de beleza para ficar bonita? – provoquei. – Ou é só inveja da Ucrânia, mesmo?

- Não enche, Amiya!

- Bem, então vai ser só eu e o Rússia-chan...

- E a Bielorrússia!

Nessa hora, a Bielorrússia escancarou a porta do nosso quarto. Ela estava usando um vestido azul marinho até os joelhos, com mangas compridas, bufantes apenas até mais ou menos a altura do cotovelo. Ela usava um avental branco por cima, combinando com os laços brancos na ponta do vestido e com o grande laço branco na cabeça. Além disso, havia um grande laço preto no pescoço, combinando com a meia calça e as sapatilhas pretas. Ela deve estar sentindo muito calor...

- Bielorrússia-chan! – cumprimentou a Ucrânia. – O que você faz aqui?

- Você disse que ia sair com o nii-san, não disse? – O raro sorriso que a Bielorrússia tinha sumiu em um instante. – Eu não vou deixar você ficar com o nii-san só para você!

- Ah, você quer vir com a gente, Bielorrússia-chan?

- Eu posso? – e lá estava o sorriso outra vez. – Obrigada pelo convite, nee-san! Se você não se importa, eu vou indo na frente, da? Se você demorar demais, eu vou sair a sós com o nii-san, então demore o quanto quiser, tudo bem?

Dito isso, a Bielorrússia saiu saltitando em direção às escadas. Como é possível que alguém mude tanto de personalidade assim?

- Amiya-san, você não quer vir mesmo com a gente? – pediu Ucrânia assim que a Bielorrússia se foi. – Eu e o Rússia-chan íamos jogar boliche, mas com número ímpar fica meio complicado...

- Sair com vocês quer dizer que eu tenho que sair com ela também?

- A Bielorrússia-chan não é tão ruim assim. Você vai ver, quando conhecê-la melhor.

- Tudo bem, tudo bem – eu me resignei. – Mas essa é a única chance que eu dou para ela, ouviu?


Meia hora depois, nós quatro nos encontramos na frente do dormitório masculino. Para não destoar das irmãs, eu vesti uma saia jeans que ia até o joelho, uma camiseta simples rosa claro e um bolero jeans por cima. Como meu único sapato que combinaria com essa saia era de salto, a Ucrânia me emprestou uma sapatilha azul dela, igual a que ela estava usando.

- Rússia-chan, essa é a minha colega de quarto, Amiya Jamalon-san! – a Ucrânia me apresentou.

O Rússia estava usando uma calça jeans, uma camiseta verde claro e um sobretudo azul, com mocassins marrons e um cachecol branco.

- Muito prazer, Jamalon-chan! – disse Rússia, com um sorriso. Se o sorriso dele não sumir como o da Bielorrússia, tudo bem...

- Não basta ela vir junto, ela tem que trazer mais uma... – murmurou Bielorrússia, em um tom sombrio. – Vocês querem tirar o nii-san de mim, não querem? Eu não vou perdoar vocês...

- Já que nós vamos jogar boliche, temos que decidir os pares, não é, nee-san? – o Rússia interrompeu a irmã. Ele parecia meio desconfortável com a falação da Bielorrússia...

- Ah, é mesmo!

- Não me diga que você esqueceu, Ucrânia! – eu exclamei. – Não foi por isso que você me convidou?

- Então, eu vou fazer dupla com o nii-san! – exclamou Bielorrússia com um sorriso, se agarrando no braço do Rússia. – Não é mesmo, nii-san?

- Quê? – o Rússia parecia pálido. – A-ah, mas eu achei que eu ia ficar com a Ucrânia-nee-san, já que foi ela que me convidou... N-né, nee-san?

- Eu também pensei nisso, mas... – a expressão da Ucrânia tornou-se preocupada. – A verdade é que eu nem deveria ficar perto do Rússia-chan... Meus superiores vão ficar bravos comigo outra vez...

- T-tenho certeza que eles não vão ligar, nee-san! – disse o Rússia, tentando tirar a Bielorrússia do braço dele e chegar mais perto da Ucrânia, que ia se afastando na mesma medida que ele se aproximava. – Ah, já sei!

Ao dizer a última frase, o Rússia deu um empurrão tão forte na Bielorrússia que ela perdeu o equilíbrio por um precioso segundo, no qual o Rússia escapou. Ele parou atrás de mim e colocou as mãos sobre os meus ombros.

- Eu posso fazer uma dupla com a Jamalon-chan. Assim, você não vai ter problemas com seus superiores, nee-san! – E, em seguida, o Rússia completou em voz baixa: – E eu não vou ter problemas com a Bielorrússia...

- Quê? – eu berrei. – Não me coloca no meio da briga de vocês! Eu quero fazer dupla com a Ucrânia, que ao menos bate bem da cabeça!

Comecei a mexer os ombros, numa tentativa de me desvencilhar das mãos do Rússia. Entretanto, ele apertou meus ombros com mais força e começou a emitir um ar tão gelado que era impossível não sentir.

- Você vai fazer uma dupla comigo, da?

- E-eu não tenho muita escolha, tenho? – gaguejei.

- Ah, que bom! – exclamou alegremente o Rússia, soltando meus ombros e extinguindo a aura gelada e sombria.


No final das contas, o jogo de boliche terminou empatado. Nem eu nem a Ucrânia éramos boas nisso, mas a Bielorrússia jogava a bola com tanta força que seria impossível não derrubar ao menos um pino, e o Rússia parecia fazer os pinos caírem de medo antes de a bola encostar neles...

Agora, nós estávamos andando de volta para os dormitórios.

- Você viu, nii-san, como eu jogo bem? – disse a Bielorrússia, saltitando ao lado do Rússia.

- Sim, eu vi. Parabéns, Bielorrússia!

- Ah! O nii-san me elogiou! Ya schastliv[1]!

- Bielorrússia-chan! – a Ucrânia repreendeu-a. – Já falei para você, você tem que usar seu próprio idioma! Se nem você usá-lo, ele pode acabar morrendo!

- Mas... Uma morte ou duas perto da felicidade de estar com o nii-san não é nada, não é mesmo?

- Ah! – exclamou o Rússia em alta voz. – Jogar boliche dá um calorão, né? Eu não estou acostumado com lugares quentes assim!

- Então, por que você não tira? – eu disse, apontando para o pescoço do Rússia.

- Tirar? O quê?

- O quê? – Eu peguei uma das pontas do cachecol. – O cachecol, oras!

- O que tem meu cachecol?

- Se você está com calor, então tira o cachecol! – respondi, irritada.

- Jamalon-chan, - o Rússia sorria, mas a aura gelada começou a surgir ao seu redor. – Você quer tanto assim me ver sem o cachecol?

- O quê? – eu recuei um pouco.

- Você quer? – a aura se intensificou.

- M-mas é você quem está com calor!

- Eu quero que você tire esse cachecol, nii-san! – exclamou a Bielorrússia, enquanto começava a puxar a outra ponta do cachecol. – Assim, eu posso fazer um bem mais bonito para você!

- Bielorrússia-chan, você vai enforcar o Rússia-chan! – repreendeu Ucrânia.

Eu e a Bielorrússia soltamos o cachecol, e o Rússia começou a respirar fundo em busca de ar.

- Esse cachecol foi um presente meu para ele quando éramos crianças, Amiya-san – a Ucrânia me explicou. – Desde então, eu nunca vi ele sem o cachecol!

- Eu também quero que o nii-san use algo que eu fiz para sempre! – a Bielorrússia fez birra. Então, ela estalou os dedos com uma ideia. – Ah! Mas se o nii-san casar comigo, então eu sempre, sempre vou poder fazer coisas para ele usar! O que você acha, nii-san? Vamos nos casar?

O Rússia saiu berrando "não!", e a Bielorrússia saiu em seu encalço berrando "sim, sim!". A Ucrânia fitou-os por uns instantes, e então riu.

- Ucrânia...

- Sim?

Me lembre de negar da próxima vez que você me convidar para sair com seus irmãos.


[1] Ya schastliv (Я счастлив): "eu estou feliz", em russo. Em bielorrusso, a mesma frase é dita "ja ščaslivy" (Я шчаслівы). A personagem Bielorrússia opta por falar em russo por um simples motivo: se tornar um com seu irmão.