CAPÍTULO XXXVI

ANTES DA TEMPESTADE, A CALMARIA

Segunda-feira, 28 de julho. A primeira semifinal.

Como Zanxam-sensei havia previsto, a maioria dos seus alunos estava com dificuldade em se concentrar na prova de história, a primeira da manhã. As poucas notícias que chegavam sobre o estado de saúde de David não eram nada animadoras, segundo os médicos, a perda de sangue havia sido grande e uma transfusão de emergência se fez necessária, além de uma cirurgia para fechar os cortes abertos na boca do garoto pelo soco de Hehashiro. Entre os danos menores constava a perda de dois molares.

Lily era a mais nervosa, ninguém podia culpá-la por isso. Encarava a folha ainda em branco a sua frente como se esperasse que dela surgissem as últimas notícias sobre o garoto, uma espécie de boletim médico mágico. Mário não estava muito mais concentrado, inclusive desistira de encarar a folha para mirar a manhã nublada e fria refletida na janela. Toshihiro apoiava a cabeça em sua mão esquerda e com a direita brincava com o lápis, estava certo que qualquer coisa que tentasse escrever não teria o menor valor avaliativo.

Era de se esperar que Hehashiro, considerando seu comportamento anterior ao fim de semana, estivesse escrevendo sem parar, quase como uma máquina. Foi com um certo brilho no olhar que a professora passou a focalizar sua atenção no aluno mais velho, tão distante quanto seus outros colegas. Ao invés da expressão de ódio que os marcaram durante todo o torneio, seus olhos permaneciam vazios de emoções, não expressavam culpa, angústia ou preocupação, mas também não havia sinal da raiva e violência de outrora. Sem dúvida um avanço.

Passada meia hora do início dos testes a professora se deu por vencida. David a derrotara finalmente, nfelizmente numa situação que não trazia alegria para nenhum dos lados. Com a mesma voz autoritária que meia hora mais cedo usara para forçar os alunos a iniciarem o teste, Zanxam-sensei ordenou que todos parassem de escrever e fizessem uma pausa. Calmamente e ainda um pouco confusos, seus alunos deixaram a sala. As provas permaneciam nas mesas do mesmo jeito que a mestra as deixara mais cedo.

Lily não perdeu tempo para deixar o hotel e ir direto para o hospital em um táxi. Toshihiro pediu para acompanhá-la, mas ela negou, alegando que precisava ir sozinha. Hehashiro observava tudode longe, sem saber o que fazer. Ao chegar a seu destino, a garota foi guiada até o quarto do amigo. Depois de passar a noite em observação na UTI, David fora tranferido para um quarto normal durante a manhã. O efeito dos remédios que recebera para dormir já estava acabando, ele logo acordaria, embora o inchaço em sua boca não permitisse que ele falasse.

O coração da garota batia forte ao percorrer o corredor imaculado do hospital. Por causa do beyblade, David agora tinha direito a internações em bons hospitas da cidade, que antes eram apenas para os brancos, mas ela sabia que nem sempre as coisas foram desse jeito, e se perguntava como era a vida do garoto quando os serviços de saúde oferecidos eram precários. De qualidade ou não, apenas o fato de estar num hospital para ver aquela pessoa já lhe causava aflição, trazia a sua mente pensamentos nada bons, os piores pressentimentos possíveis. Morte, sofrimento, dor, trevas. Tudo que ela sabia não combinar com David agora se associava a sua imagem. Ela temia o que estava para encontrar, as surpresas que o destino a reservava. No fundo se sentia culpada por tudo aquilo, ela havia procurado David para falar sobre Hehashiro, se não tivesse feito isso, talvez o confronto pudesse ter sido evitado e eles agora estariam juntos na sala de aula fazendo a prova de história.

A funcionária do hospital parou em frente a uma porta branca como as paredes, a porta de número 666. Abriu-a e fez sinal para Lily entrar. A garota hesitou por um momento, mas acabou avançando. Por um momento, achou que seu coração havia parado de bater. A cama de David era a mais próxima da porta, havia outras três camas no aposento, mas Lily ignorou o fato. Seu amigo estava ali, deitado e imóvel, vários fios presos ao seu corpo registrando sinais que ela não entendia em uma tela de computador. Uma bolsa de sangue e outra de soro estavam penduradas ao seu lado, conectadas ao seu braço por um fino tubo transparente. A bochecha atingida pela mão de Hehashiro estava com mais que o dobro do tamanho original, como se o garoto a tivesse preenchido com algodão para fazer outra de suas piadas. Dessa vez, porém, não havia graça nem vontade de rir, apenas de chorar. Os olhos de David, mesmo fechados, não deixavam de expressar certa dor e desconforto por estar sobre o efeito de remédios. Sua expressão não era nada amistosa.

- David? – Chamou a garota quase num sussurro. A funcionária a deixara só, fechando a porta atrás de si. – Se você pode me ouvir, faça alguma coisa, por favor...

Os dedos de David se moveram, fazendo Lily abrir o primeiro sorriso desde o desfecho desastroso da discussão do dia anterior. Os pequenos movimentos logo evoluíram e o garoto fechou a mão. Com um pouco de esforço, seus olhos vagarosamente se abriram, revelando para ele o rosto banhado novamente em lágrimas da garota que mais amava. Sentiu vontade de reprimi-la por toda essa choradeira sem sentido, mas logo descobriu que infelizmente não poderia abrir a boca naquela ocasião.

Finalmente lágrimas de um sentimento que não era tristeza. Estava cansada de se sentir triste. Ela agora chorava de emoção e felicidade, usava as gotículas de água salgada como válvula de escape para sua alegria e alívio, sentimento dos quais já sentia imensa saudade. Quando achou que poderia causar um segundo dilúvio, surpreendeu-se ao perceber no olhar de David o mesmo tom de censura de quem diz "Pára com essa choradeira inútil que eu tô muito bem obrigado". Riu-se ao perceber o alto poder de comunicação e expressão do amigo. Os olhos de David mudaram para um "Tá rindo de que?" e em seguida para "Você se preocupa demais, eu nunca deixaria um soco me derrubar".

Lily não precisou falar mais nada durante o tempo que permaneceu sozinha com David no quarto, isso não se fez necessário. Gestos e olhares bastavam para que ambos se entendessem naquela ocasião. Ele tentava transmitir a mensagem que estava muito bem, apesar de alguns arranhões, que não se deixaria abater pelo acontecido e desafiaria Hehashiro novamente se ele continuasse fazendo-a sofrer. Por outro lado, ela rebaia dizendo que ele precisava se cuidar mais, brincar um pouco menos e em hipótese nenhuma tentar fazer algo contra o ex-líder dos The Strongest, ela não valia esse risco.

O médico apareceu pouco tempo depois e explicou para Lily que, caso David se comportasse direito e mostrasse uma melhora no quadro geral durante aquele dia, poderia receber alta no dia seguinte. Mil vezes mais animada do que quando entrara no hospital, Lily voltava para o hotel sentindo que poderia tirar onze na prova de história. A garota foi cercada pelos beybladers curiosos ao chegar, todos estavam ansiosos e preocupados. Mais afastado, Hehashiro também prestava atenção em tudo que ela tinha a dizer, sentindo-se estranhamente mais leve após ouvir o relatório completo da garota.

- Bom, agora que Dubiaku-kun não é mais fonte de preocupação, acho que podemos nos concentrar novamente na nossa provinha, não?

- Sim, sensei, e como sempre a senhora é muito pontual quando se trata de estragar a nossa festa. – Declarou Ken, voltando contrariado para a sala. Sem mais nenhuma desculpa para não fazer a prova, os beybladers passaram o resto da manhã presos na Sala do Pesadelo, apelido carinhoso para qualquer ambiente onde estivesse registrada a presença de Miko Zanxam.

Rumiko, Ken e Satsuki, porém, foram liberados mais cedo que os outros colegas, pois não precisavam fazer nenhuma prova de segudo idioma. Para Toshihiro e Takashi foi entregue a prova de japonês, Mário e Hehashiro fizeram a prova de africâner e Lily, a de zulu. Faltando apenas um dia para o término da maratona de avaliações, nenhum resultado havia sido divulgado.


Na terceira mudança de líder em apenas um mês, Lily assumiu o posto que já pertencera a Hehashiro e David. Cabia a ela agora organizar os outros dois companheiros para o último confronto antes da final. O ex-líder até o momento não havia falado com nenhum dos outros membros nem os encarado diretamente, mas agora esse sacrifício fazia-se necessário para alcansar o objetico comum a todos os presentes: vencer o torneio.

- Hehashiro, é melhor você ser o primeiro a lutar. Não sabemos as táticas dessa equipe direito, e sei que você estará preparado para tudo que eles puderem tentar. Pode não acreditar, mas eu confio em você apesar de tudo e sei que vai vencer.

O ex-líder não sabia o que dizer após essa afirmação. Depois de tudo que fizera, de toda a magoa e tristeza que infringira ao seu coração, ela ainda lhe passava uma mensagem de confiança. Alguma coisa dentro dele estava se mexendo, era uma sensação estranha de deslocamento de algo de tamanho colossal e bem sólido para um lugar relativamente distante, embora ele não soubesse dizer o que estava sendo movido e para onde. Não ouviu o que a nova líder disse para Mário ou quem lutaria depois dele, ficou novamente pensativo olhando a paisagem da janela do ônibus até a chegada no ginásio.

Os adversários do dia, a equipe da Etiópia, já estavam prontos quando os The Strongest mandaram seu primeiro lutador para a arena. Com um olhar apático, Hehashiro colocava Kufe no lançador, dando a impressão de que nada faria na luta. Seu adversário, Beruk Mensur, não teve outra reação se não sorrir perante a perspectiva de uma luta ganha.

- Lily, você acha mesmo que é uma boa idéia fazer isso? – Perguntou Mário à amiga no banco. A luta ainda não havia começado e o desinteresse era mais do que claro nas feições de Hehashiro. Sua semelhança com o Toshihiro que lutou na primeira fase pelos Taichi era assombrosa.

- O que eu disse pro Hehashiro aquela hora cabe aqui. Eu sei que vai dar tudo certo, na hora H os instintos de lutador nato do Hehashiro vão falar mais alto, você vai ver. Só precisamos esperar.

O juiz deu a ordem, as semifinais começavam oficialmente. Contando com o desinteresse adversário, Beruk foi o primeiro a atacar, jogando tênis com Kufe nos primeiro lances. Hehashiro permanecia imóvel e aparentemente alheio a tudo que se passava ao seu redor. No banco, Mário roia as unhas enquanto Lily mirava o relógio de pulso.

- Pra equipe da casa, vocês estão me saindo bem fraquinhos, sabia? – Provocou Beruk. Por causa de sua elevada estatura e voz firme, era exatamente o tipo que sabia como intimidar um adversário. Enquanto isso, Kufe continuava cumprido exemplarmente seu papel de bola de tênis...

Hehashiro baixou a cabeça, cobindo seus olhos com a franja. Apesar de sua expressa permanecer incógnita para o público, o que sua mente planejava tornou-se evidente quando uma sombra negra passou a envolvê-lo e a sua beyblade. Hehashiro pronunciou apenas o nome de seu novo ataque, que acabou com a luta em menos de um segundo:

- Mordida Letal!


- O que foi aquilo, Hehashiro? – Perguntou Lily assim que o garoto voltou. Não estava mais acompanhado da sombra negra, nem mantinha uma expressão apática.

- Percebi que, caso não vencesse aqui, não poderia encarar Toshihiro depois de amanhã. Esse foi um ensaio para a luta que está por vir.

- Que bom que você se animou, agora o Mário vai lutar bem mais tranqüilo.

Ao ouvir as palavras da líder, Mário se preparou. Despediu-se da dupla e venceu os degraus que o separavam daquela que ele esperava ser sua última luta no torneio.

"David, é bom você melhorar logo, quero ver você lutando na quarta-feira!"

O adversário do sulafricano era Ashenarf Degu, um menino de não mais do que treze anos, mas que já expressava no olhar a disciplina que se espera de um adulto. Sua beyblade estava pronta, ele nem ao menos respirava enquanto o juiz não autorizava o início da luta. Mário decidiu não deixar por menos e tratou de tentar mostrar toda a disciplina que tinha, iniciando uma guerra informal para ver quem era o mais comportado.

A luta foi uma das mais estranhas do torneio. As beyblades atacavam em turnos, um ataque para cada um, sem truques especias ou grandes estratégias. O público de início não gostou do que estava vendo, mas logo passou a rir do fato. As beyblades indo de um lado para o outro em seqüências ritmadas de ataque e defesa chegavam até a ser cômicas. Ashenarf foi o primeiro a perceber que uma luta assim não os levaria a nenhum lugar:

- Brincamos demais. Hora de jogar sério.

E, de fato, ele jogou sério. A investida de sua beyblade em Hafe quase a tirou da arena. O garoto não esperava mais pelo adversário para atacar, monopolizando as ofensivas. Mário apenas ergueu as sobrancelhas. Admirava o esforço do garotinho para tentar parecer forte, mas no beyblade só sobrevivem os mais fortes.

- Hafe, Tempestade Verde!

O vento tomou conta de todo o ginásio, as pessoas nas arquibancadas foram obrigadas a se esconder em baixo das cadeiras e o adversário de Mário por pouco não saiu voando junto com sua beyblade. Os The Strongest garntiram vaga na final.

- Precisava ter sido tão bruto com o garotinho, Mário? – Censurou Lily.

- Era a minha última luta, eu tinha que mostrar o meu poder pra torcida, caramba!

Lily lançou um olhar de reprovação ao garoto, mas nada disse. Em seguida, preparou Roufe e deixou os companheiros para a última luta do dia. Sua vez de enfrentar os etíopes. Seu adversário chava-se Hider Girma, era alto e magro, porém musculoso ao mesmo tempo. Ao ver com quem lutaria, assumiu uma expressão de cachorro apaixonado que faria até mesmo Hehashiro gargalhar se não fosse tomado pelo ciúme antes.

- Ah, mas o que é isso? Vai ficar com essa cara de besta a luta toda ou vai tentar se mostrar um verdadeiro desafio pra mim? – Provocou Lily, tentando fazer dessa luta algo mais emocionante do que um confronto onde apenas um dos lados realmente se movimenta. – Eu não gosto de lutas muito fáceis, sabe? – Acrescentou, jogando seu charme em cima do oponente.

Somente isso bastou para que Hider se mexesse, sua beyblade atacou tanto o guaxinim de Lily que por muito pouco a luta não se tornou novamente uma luta de um lado só. Mário sentiu vontade de arrancar os sapatos para roer as unhas do pé, já que as das mãos não existiam mais.

- Ilusão Fantasma!

Roufe apareceu para a multidão, que vibrou ao deparar-se com o enorme guaxinim de pelagem acinzentada e olhos avermelhados, quase coberto por uma máscara negra característica da espécie. A fera-bit sorriu marotamente antes de criar três cópias de si mesmo, que rodearam a beyblade de Hider, prendendo-a.

- Gostou da minha fera-bit? Antes da luta, todos sempre me dizem que Roufe é uma gracinha... – O sorriso inocente que Lily mantinha em sua face se desfez e tornou-se um tanto diabólico – Pena que não são todos que mantém essa opinião ao verem ele lutar. Principalmente os meus adversários...

As beyblades copiadas não permitiram a adversária excutar um plano de fuga. Com um único ataque concentrado, Lily acabou com a luta e os The Strongest estavam na final sem perder nenhum round na segunda fase.


- Parabéns pela luta! – Cumprimentou Toshihiro assim que viu os The Strongest entrando no restaurante para jantar. – Foi incrível, vocês realmente merecem estar na final.

- Vê se não perde você também amanhã.

Surpreendentemente, quem respondeu foi Hehashiro. Os dois irmãos se encararam num clima de intensa rivalidade e ódio. Por um momento, os outros beybladers prenderam a respiração, esperando a seqüência dos acontecimentos. Toshihiro não tinha mais medo de seu irmão mais velho, considerava-se preparado para qualquer coisa que ele tentasse fazer, desde agarrá-lo pela trança até dar um chute nas partes sensíveis, ponto fraco de todo ser do sexo masculino. Logo descobriu estar enganado.

- Não quero perder a chance de travar a melhor luta da minha vida contra um rival a altura.

Que tipo de afirmação era aquela? Pra onde foi o discurso de "vou te destruir" e "você vai pagar por tudo que me fez passar"? Toshihiro ficou desconcertado. Não haveria tentativa de agressão? Era só isso mesmo? Hehashiro estava afinal agindo como uma pessoa normal?

Não. Ainda era muito cedo para tirar conclusões precipitadas. No momento, ninguém poderia afirmar com certeza que sabia – ou entendia – a mente de Hehashiro Urameshi, nem mesmo Lily. O adolescente quase maior de idade mudara tanto no último mês que era impossível tanto para Toshihiro, que não o via há cinco anos, quando para Lily, que passara os últimos dois anos junto dele, entender o que se passava em sua mente. Talvez estivesse mesmo mudado, contido o ódio que o dominava após o incidente com David, mas tudo podia não passar de uma farsa, uma calmaria temporária que precede a grande tempestade, o recuo das águas do mar antes de um tsunami.


29 de julho, prova de educação física e semifinal dos Taichi.

David recebeu alta logo cedo pela manhã, e sua entrada no quarto dos The Strongest acordou não só os companehiros, como também todos os hóspedes do andar. Feliz por poder falar novamente e estar livre da cama e dos médicos, David fez questão de que todos pudessem ouvir seu discurso dramático de chegada, bem como o estalado beijo no rosto de Lily, uma provocação à parte para o ex-líder de sua equipe.

- David, isso não foi muito sensato... – Censurou Lily, com duas maças avermelhadas no lugar das bochechas. – Você sabe que não foi...

- Ah, mas foi só um selinho de amigo! – Rebateu ele. – Eu não vou matar o Hehashiro de ciúmes por causa de um beijinho que eu podia ter dado nele também.

- Dessa vez passa, Crap... Dessa vez passa... – Declarou o chinês de um canto obscuro do quarto. Estava aliviado com a volta do amigo, por um momento até considerou a idéia de lhe dar um abraço ou cumprimentá-lo, algo mais amistoso do que apenas observar de longe, mas aquele que um dia chamou de melhor amigo estava tão entusiasmado e tão cheio de energia que essa vontade não demorou a desaparecer quase que por completo.

- Ah, Hehashiro... Confessa que você também está bem feliz com a minha volta! – Sob olhares apavorados de Lily e Mário, David abraçou o chinês e também lhe deu um selinho. – Eu sou irresistível até para os meus rivais!

- Crap, se você não me largar agora, eu não respondo mais por mim...

- Tá, bom, tá bom seu cara chato. Consegue cortar a empolgação de qualquer um...

Nessa hora, os Taichi resolveram que já estava na hora de invadir o quarto da equipe sulafricana e participar da festa. Satsuki veio na frente, acompanhada de Rumiko. Ken e Takashi, tentando ver quem era o mais rápido, acabaram empacando na porta, ficando os dois presos sem poder voltar ou avançar e impedindo a entrada de Toshihiro.

- David! – Era a loira. – Que bom que você voltou! Estávamos com saudades!

- Pois é, japinha, não foi dessa vez que a deusa da morte me levou com ela. Sabe, a gente está ficando bem íntimos ultimamente, ela volta e meia aparece pra me visitar, mas sempre vai embora frustrada... Não consegue resistir a mim! Aliás, quem além do Hehashiro-coração-de-pedra consegue?

- Crap! – Exclamou Lily, surpreendendo todos. – Não fale dessas coisas desse jeito, seu... seu...

- Irresponsável? – Ele mesmo completou. – Sem noção? Fora da casinha? Viajanta da maionese espacial?

- Desisto.

O sorriso de David, que todos pensavam já ter atingido seu alcanse máximo, se alargou ainda mais com a declaração de derrota de Lily, e assumiu uma forma que se assemelhava muito a uma fatia gigante de melancia prateada e brilhante. Enquanto os olhos de seus amigos também cresciam consideravelmente saltados das órbitas, o adolescente hiperativo decidiu que estava na hora de colocar os assuntos em dia. Havia passado pouco mais de um dia fora, mas isso já podia ser considerado uma eternidade nos seus padrões de relatividade do tempo.

- Bom, então me digam... O que eu perdi de interessante nesse tempo todo afastado?

- As semifinas. – Respondeu Mário quase que no automático. – Posso dizer que sentimos sua falta, mas ganhamos por três a zero mesmo assim. E eu já fiz a minha despedida, amanhã é o nosso líder que vai lutar, não é mesmo?

- Eu ainda sou o líder? – Perguntou ele, embora seu tom não fosse de quem havia se esquecido de uma obrigação ou de surpresa, mas sim de confirmação dos detalhes para um novo plano.

- Mas claro! O que você acha? – Mário foi quem novamente respondeu, surpreso com a pergunta do amigo.

- Certo. Mas tem uma coisa que eu quero fazer, e sendo eu o líder escolhido por vocês, quero que me apóiem na minha decisão.

- Vamos de apoiar em qualquer coisa, David! – Exclamou Lily.

- Pois bem, então para a luta final de amanhã eu digo que o líder mais adequado é o Hehashiro. – Acostumando-se com revelações surpreendentes, dessa vez os olhos e queixos dos beybladers caíram de um jeito menos impactante, porém ainda sincronizados. – Sim, é isso mesmo. E não, eu não fiquei louco. – Hehashiro, que estava ainda afastado do grupo, deu alguns passos de encontro a eles, determinado a escutar melhor essa conversa. – Ainda não esqueci tudo que ele fez, nem eu, nem a minha bochecha. Só que eu acho que não é certo eu ficar como líder em uma luta sabendo que um dos meus companheiros está bem mais determinado do que eu em vencer e nos dar o título. Por mais que eu queira ganhar amanhã, o Hehashiro sempre esteve muito a minha frente em preparação para isso, essa idéia fixa de ganhar já está há tempos nele e eu acho que será um bom guia para nós na luta.

- David, eu... – Hehashiro não sabia bem o que dizer ou como reagir a isso, embora sentisse que devia fazer alguma coisa.

- Ah, não precisa falar nada! – David cortou seu ensaio desastrado. – A única coisa que eu quero é que a gente ganhe amanhã e que você controle a força das suas porradas, porque elas doem pra caramba, sem brincadeiras.

Somente Lily não riu. Hehashiro deixou que o canto de sua boca mostrasse um pouco de sua felicidade. A fala seguinte foi dele.

- Crap, obrigado por me dar mais essa chance. Eu sei que deixei a desejar anteriormente como líder e como pessoa, mas agora não é hora para ódios irracionais, precisamos estar bem lúcidos para ganhar. Eu vou fazer o possível para não decepcionar vocês de novo. Vou me esforçar para não jogar fora mais essa chance...

O que Lily não conseguira sorrir com as piadas um tanto "mórbidas" de David, ela sorriu após ouvir o amado falar daquela maneira. Como se fosse possível, não havia nenhum resquício de ódio em suas palavras. Os olhos que encaravam cada um de seus companheiros de equipe estavam lotados de determinação, garra e coragem, não havia espaço para sentimentos negativos. A esperança voltou a brilhar dentro de Lily, Mário e David, talvez Hehashiro pudesse se recuperar afinal. Toshihiro, ainda do lado de fora do quarto barrado por seus companheiros, tentou também encarar o irmão nos olhos, mas ele desviou o olhar, preferindo o olhar dos companheiros.

- A conversa está muito boa, reencontros são sempre emocionantes, mas agora vocês têm as provas de educação física para fazer, o trabalho chama. – Zanxam-sensei, empurrando Ken e Takashi com a delicadeza de um elefante em fuga, entrou no quarto e manifestou seu poder incrivelmente eficiente de acabar com a maior das animações com apenas algumas palavras realistas. – E eu quero ter uma palavrinha com Dubiaku-kun sobre as provas que ele perdeu ontem.

- Eu disse, ninguém resiste a mim, nem mesmo a professora! Todos querem eu pra alguma coisa!

- Sem gracinhas, Dubiaku-kun, você tem duas provas a fazer. Os outros, para o ônibus. Consegui um lugar para jogarmos há apenas algumas quadras do ginásio. Daitenji-san ficará com vocês enquanto eu cuido do meu outro aluno.

- Ah, espera, sensei! Vamos entrar em um acordo! E que tal se eu jogasse com eles agora e depois fizesse as provas durante a luta dos Taichi de tarde?

- Seria um bom acordo se você não tivesse vindo para cá com a orientação médica de não fazer nada que ofereça riscos a sua saúde por enquanto. Se você jogar com os outros, estará descumprindo essas ordens.

- Não, sensei! Não faz isso comigo! Pelo menos um jogo, vai, só um! Eu me cuido, não vou deixar ninguém chegar perto da minha cara! Eu juro!

- Eu não me responsabilizo por sua imprudência.

- Não precisa, eu já tenho dezesseis anos, sem bem o que eu quero.

- Lembre-se que se algo acontecer e você tiver que voltar ao hospital, vai perder a final.

- Sem problemas! – David utilizava-se dos sorrisos tipo "meia-lua-com-dentes-brilhantes" para convencer a mestra. Após alguns segundos de reflexão, Zanxam-sensei acabou concordando com a proposta do garoto, desde que ele assumisse a responsabilidade por seus atos. Assim, nove beybladers e a professora embarcaram no ônibus para a realização da última maratona de provas. Os Taichi, ainda sem Yuy, já estavam com as beyblades preparadas para a luta da tarde. O almoço estava programado para ser em um restaurante próximo e a equipe seguiria direto para o ginásio.

O primeiro jogo do dia foi de handball, com times mistos. Ken e Mário, escolhidos para serem os goleiros, foram os responsáveis pela escolha dos jogadores. O japonês escolheu Takashi para ser o ponta esquerda do time, mais por serseu do quepela habilidade no esporte. Mário aproveitou essa escolha de panelinha para trazer Toshihiro para seu time como armador. Sentindo que deveria equilibrar a situação, Ken chamou Hehashiro para jogar também de armador. A escolha seguinte de Mário foi David, como ponta pela direita, uma posição relativamente segura considerando que ele seria marcado por Takashi. Lily foi a seguinte a ir para o time de Ken, fazendo dupla com Hehashiro. Já começando a ficar sem opções, Mário chamou Satsuki para a ponta oposta a David, fazendo com que o garoto tivesse um mini ataque de felicidade momentânea e partisse para o abraço, quase derrubando a amiga. Apenas Rumiko ainda estava sem time, Ken a posicionou como ponta direita, adversária direta de Satsuki.

Foi a partida mais estranha da vida do único jogador de handball entre os beybladers. Era a primeira vez que Ken participava de um jogo onde um time tinha apenas quatro jogadores e o outro, cinco. Acertar posicionamentos e jogadas mostrou-se algo realmente complicado de se fazer. O japonês tinha uma vaga idéia das dificuldades que enfrentaria, mas não imaginava que elas seriam tantas e tão dispersas. Jogar de goleiro era um de seus planos para vencer, ele sabia que, sendo o último jogador na linha de defesa, poderia observar os outros e tentar guiá-los, mas Rumiko e Takashi simplesmente não entendiam nada de handball, não entendiam o significado dos termos que o garoto usava como "faz uma finta" ou "passe em diagonal". Ao menos Hehashiro e Lily mostraram algum senso de organização e sincronia, salvando o time e concertando os erros dos outros jogadores.

O time de Mário saiu perdendo afinal. Havia quatro jogadores em campo, sendo que um era o goleiro. A habilidade de Toshihiro era anulada pela de Hehashiro, ambos jogavam na mesma posição e faziam marcação cerrada. O irmão mais velho às vezes se saia melhor por ter a ajuda de Lily, mas o menor acabava ficando isolado quando a posse de bola estava com Satsuki ou David. Os dois, principalmente o segundo, tinham uma espécie de "instinto fominha" que os levava a tentar sempre jogadas individuias. O goleiro, contudo, não podia reclamar delas, pois delas saíram as principais chances de gol de seu time. David tinha uma carta na manga que ninguém desconfiava ao deparar com sua magreza e baixa estatura: era um corredor muito veloz. Suas arrancadas deixavam todos para trás, literalmente "comendo poeira". Tendo como adversário direto Takashi, que odiava correr e era provavelmente o mais lento entre todos, sua habilidade ficava ainda mais evidente.

Fazer uma análise do jogo mostrou-se mais complicado para Zanxam-sensei do que ela imaginava. Por um lado, havia um Ken determinado que instruía Hehashiro e Lily a tentarem jogar em dupla e aproveitar-se da superioridade numérica do time, – o japonês abandonara qualquer tentativa de fazer Rumiko e Takashi pegarem na bola, isso seria um ganho precioso demais para os adversários – e do outro havia um David com fôlego e velocidade para correr por dez jogadores. O garoto corria tanto que em certo momento a superioridade numérica pareceu inverter-se.

O time de Ken saiu na frente do placar, chegando a fazer cinco a zero. Foi nessa hora que David resolveu mostrar sua habilidade especial e virou o jogo em seis a cinco nos três minutos seguintes. Passada a surpresa da revelação, Lily e Hehashiro passaram a tentar descobrir jeitos de burlar essa velocidade toda para vencer e, após várias tentativas, finalmente conseguiram passar pelo garoto e empatar o jogo.

Os nove jogadores estavam tensos agora que faltava pouco para o jogo acabar e tudo estava empatado. David mostrava sinais de estar se cansando, embora ainda corresse mais do que todos os presentes. Foi quando Ken lembrou-se de uma jogada que seu time estava começando a treinar na época em que se afastara para viajar. E ela envolvia o goleiro.

Um rápido cochicho com Hehashiro e tudo estava resolvido, eles inclusive contaram com a participação não intencional de Takashi. Ken entregou a bola para Hehashiro e saiu da área do goleiro, onde apenas ele podia ficar. Hehashiro foi até o meio de campo, onde encontrou Toshihiro a marcá-lo, e passou a bola para Lily. Esta esperou que David viesse ao seu encontro com a intenção de lhe desarmar e marcar e passou a bola novamente para o goleiro. À princípio, Ken planejava driblar David, passar por todos os outros jogadores e marcar o gol da vitória, porém Takashi apareceu de lugar nenhum e fez a função de parar o africano super-corredor. Mais tarde, seus colegas descobriram que ele ficara demasiado curioso com uma borboleta que atravessava a quadra e queria ir ao seu encontro quando David passou por cima dele e os dois caíram no chão. Antes que os dois pudessem se re-erguer, Ken já havia furado a rede com seu super arremesso especial de nível profissional que só ele sabia fazer. Sete a seis foi o placar final.

Os The Strongest decidiram que queriam enfrentar os Taichi no jogo de futsal. Hehashiro tornou-se goleiro, David assumiu a dupla função de ala e pivô, Lily fez a outra ala e Mário se auto-intitulou "The Back". O fato de Hehashiro ser o goleiro adversário provocou uma mudança no tradicional posicionamento dos Taichi. Toshihiro, ao invés de ficar mais atrás como sempre fazia, decidiu que era seu momento de jogar na frente, tornou-se o pivô e deixou Rumiko cuidando da defesa. Satsuki e Takashi ficaram como alas e Ken novamente foi para baixo dos três paus.

Fenômenos estranhos passaram a ocorrer assim que a professora apitou o início da partida. Toshihiro, como bom zagueiro que era, sempre que ficava cara a cara com o irmão chutava a bola para fora, errando o gol por metros. Enquanto isso, a Rumiko zagueira dava um show antes exclusivo do amigo chinês. Qualquer tentativa de aproximação de David e Lily era barrada pela garota, Ken não viu um chute contra seu gol durante os primeiros dez minutos de jogo. Tudo bem que Rumiko mais acertava as canelas dos adversários do que a bola em si, mas enquanto isso continuasse impedindo os The Strongest de marcar, estava valendo para os Taichi.

O rumo da partida começou a mudar quando Toshihiro finalmente acertou o gol, abrindo o placar numa cobrança de falta tão perfeita que todos estavam certos que ele jamais a repetiria. A vantagem japonesa, no entanto, não durou muito, pois Hehashiro, com os nervos alterados por ter sido vencido pelo irmão, deu um chutão do meio do campo que passou por todos os jogadores rápido como uma bala e deixou Ken sem reação ao furar as redes de seu gol. Empate.

Os Taichi aparentemente se assustaram com a jogada, pois o time ficou completamente desorganizado depois de sofrer o gol. Toshihiro não sabia mais se devia ficar e marcar Mário quando David e Lily avançavam, ou se devia ir atrás dos dois como seus instintos de zagueiro mandavam, ou ainda se devia jogar nas duas posições e garantir a Ken uma ajuda extra que não precisava machucar canelas. Takashi largou o jogo de mão e sentou-se na beira da quadra, com medo de ser atingido pela bola. Ken fazia corpo-presente, mas o corpo que estava presente era oco, sem mente, já que esta fugira para um lugar mais seguro. Satsuki, cansada por ter que marcar David, já não tinha mais forças para correr e confundia Rumiko, que não sabia se devia continuar acertando as canelas dos adversários enquanto tentava chegar à bola ou se devia tentar assumir a função da amiga e correr atrás de David.

Os The Strongest aproveitaram-se dessa bagunça que era o time adversário para marcar mais quatro gols e terminarem a partida vitoriosos, para desespero de Toshihiro, que já acumulava duas derrotas em confrontos diretos contra o irmão mais velho.

Após uma pequena pausa para descansar e fazer um lanche, os jogos continuaram com aguerra de sexos no vôlei. As meninas pediram que Takashi jogasse em seu time, para não ficarem numa inferioridade numérica tão grande. De início, pareceu aos garotos que essa era idéia idiota, já que Takashi era um zero a esquerda em qualquer esporte, mas até o fim do jogo suas opiniões estariam transformadas.

Hehashiro havia esquecido momentaneamente que sua companheira de equipe fazia parte de um time de vôlei na escola em que estudava. Esquecera-se também que Lily não era apenas uma jogadora, ela era a jogadora, apeça chave do time, o eixo de orientação do mesmo, aquela que sabe fazer qualquer coisa em qualquer função. Esse esquecimento custou ao seu time a vitória, pois Lily dominou sozinha o jogo, cobrindo a falta de metade da equipe e tornando uma vantagem de cinco contra três em uma diferença de seis contra cinco.Três sets a zero para o time com superioridade psicológica de jogadores.

O jogo seguinte, de basquete, foi até equilibrado. Como Takashi já não queria mais jogar nada, os times ficaram com igual número de jogadores. Hehashiro e Toshihiro, agora juntos no mesmo time, não deixaram que seus desentendimentos prejudicassem o desempenho geral da equipe no jogo. David e Satsuki também faziam parte do time e as jogas combinadas dos dois impediam que qualquer estresse envolvendo os irmãos passasse para a bola e causasse algum estrago grande. Ao final do jogo, seu time havia vencido o jogo por cento e doze a cento e nove.


A divulgação das notas nas provas, assim como a entrega das medalhas, seria feita após a luta dos Taichi. As duas equipes seguiram para o restaurante. Lá chegando, depararam-se com o buffet livre mais barato e saboroso da cidade. Para quem conhecia as nove bestas esfomeadas que se transformavam após uma dose anormal de exercícios, não foi surpresa o fato de o restaurante ter que fechar as portas antes do tempo previsto por falta de comida. Apesar de tudo, ninguém ficou irritado com os beybladers, eles eram os queridinhos do torneio e todos os amavam. Alguns autógrafos e fotos foram o suficiente para concertar a situação.
Finalmente as semifinais. Mais duas lutas e o torneio estaria terminado. Uma vitória agora e Hehashiro teria seu presente de aniversário perfeito. O nome da equipe adversária era "Malavilhas", um trocadilho com o nome de seu país de origem, Malavi. Sua torcida era maior que a dos Taichi, mas como de costume eles não se importaram. Eram a única equipe que não pertencia ao continente, apesar de certa forma serem muito queridos pelo público, ainda eram estranhos no território.

- Quem vai primeiro? – Perguntou Ken. Sua equipe ainda não tinha se reunido para decidir sua estratégia, e o juiz já estava chamando os lutadores.

- Quem pergunta, paga. Pode ir. – Respondeu Fran, autoritária.

- Beleza! – Exclamou o garoto, com a beyblade já pronta – Os caras que me desculpem, mas hoje eu tô a fim de arrasar quarteirões!

- O que ele quis dizer com isso? – Perguntou Rumiko aos companheiros enquanto o amigo se afastava rumo à arena. A resposta nunca veio.

Ken e Edward Seton se encararam com expressões completamente opostas. O primeiro, já totalmente dominado pelo clima da importante decisão, estava agressivo e com vias de se tornar novamente a fera irracional que acabou com o suprimento de macarrão do restaurante mas cedo. O segundo, porém, permanecia tranqüilo em suas vestes surradas e sujas de terra. Sua beyblade estava tão suja quanto ele, mas isso não aparentava ser de grande importância. A luta começou e nenhum dos dois lados foi ao ataque.

O ínicio tinha tudo para ser monótono. Fenrochi, em sua estratégia básica, encontrava-se girando no centro da arena à espera de um ataque, enquanto a beyblade de Edward se concentrava em realizar movimentos horizontais pela cuia espalhando a terra que se encontrava na beyblade. Os minutos se passaram sem que Ken ou Edward esboçassem qualquer intenção de mudar de tática. A empolgação que inicialmente tomou conta da torcida aos poucos se esvaia enquanto o nervosismo dos Taichi crescia.

- Não seria essa a hora do Ken arriscar uma mudança de tática? – Perguntou Rumiko, já aflita com o "andamento" da batalha.

- Você lembra muito bem o que aconteceu da última vez que ele tentou, não? – Quem respondeu foi Fran, ao perceber que nem mesmo Satsuki havia ouvido a pergunta da amiga, já que permanecia com todos os sentidos voltados para a arena. – Além do mais, ele...

A fera-bit aprisionada nunca chegou a terminar a frase, foi interrompida de repente pelas exclamações de surpresa e felicidade da torcida ao testemunhar o fim da luta. Alguns, que não haivam tirado os olhos da luta nem por um segundo, comemoravam a vitória dos Malavilhas, enquanto aqueles que se distraíram com a monotonia tentavam entender o que acontecera, esperando ansiosos pelo replay do telão. Entre os Taichi havia um certo clima de increduidade, enquanto que Ken estava simplesmente pasmo ou contemplar sua beyblade presa pelas raízes que brotaram magicamente do chão.

Não, não era possível no momento explicar o que acontecera, ou mesmo como acontecera, mas a derrota estava ali, era um fato. Um único descuido e a luta estava acabada. Em um momento, a arena estava cheia de terra, no momento seguinte Fenrochi estava preso e incapaz de girar entre um emaranhado de raízes fortes.

- O que foi aquilo? – Foi a única coisa que Ken conseguir perguntar ao reunir-se com a equipe. – Eu tô perdido...

Apenas Toshihiro e Rumiko escutavam o companheiro. Fran, Satsuki e Takashi permaneciam distantes tentando descobrir o que estava acontecendo. Devido ao grande clima de mistério no ar, Toshihiro foi escolhido para ser o próximo a lutar.

- Não sei o que vocês planejam, mas vou descobrir um jeito de vencer. – Foi tudo o que disse para seu adversário, um garotinho pequeno também sujo de terra chamado Mike Margus. Não obteve resposta. Assim ambos se prepararam para o combate que se iniciava.

Arriscando cometer o mesmo erro que Ken, Toshihiro deixou Fenku parado no centro da cuia, esperando pelo adversário. A seqüência de movimentos se repetia, era uma espécie de padrão. Aos poucos, uma idéia foi se formando em sua mente. Estranhou não ter percebido antes, era de certa forma algo engenhoso, porém não muito difícil de entender. Talvez fosse mais fácil para ele do que para os Taichi, dado os diferentes tipos de sociedade em que viviam, uma rural e outra urbana, mas ainda assim ele esperava mais dos intelectuais de sua equipe.

"Vai ver foram afetados pela surpresa" – Pensou, sem poder ter outra idéia. Agora que já havia descoberto o truque, precisava encontrar um jeito de pará-lo antes que fosse tarde demais, ou seria pego como Ken e não haveria final para eles no dia seguinte. – "Vamos, pensa logo... Deve ser fácil... Já sei! Vou usar o mesmo elemento surpresa..."

O cenário de pobreza de ataques durou apenas mais alguns instantes. Os Taichi, aflitos, vigiavam cada movimento de Toshihiro e se desesperavam cada vez mais ao perceber que seus movimentos repetiam os de Ken com exatidão. Pelo mesmo motivo, os Malavilhas já sorriam como que vitoriosos. Para eles, era apenas uma questão de tempo até a vitória e a vaga na final. Mike sorriu, Toshihiro retribuiu, e o verdadeiro show começou.

As raízes brotaram do chão. Atingiram uma altura descomunal. Nenhum sinal da beyblade de Mike. Nem de Fenku. Água, muita água, vinda de lugar nenhum. Arena inundada. Uma beyblade emergiu, para logo depois afundar, estática. Vitória dos Taichi.

- Foi incrível, Toshihiro! O que você fez? – Perguntou Rumiko, pulando entusiasmada no pescoço do garoto para estravazar a felicidade e surpresa. Não havia entendido muito bem o que acontecera durante a luta, mas estava feliz com a vitória.

- Nada de mais, apenas pulei na hora certa e ataquei. – Respondeu o garoto, como se não fosse nada. – Rumiko, eles estão plantando verde pra colher maduro, mas você deve mostrar para eles que cada um colhe o que planta.

Não foi realmente uma surpresa para os Taichi a expressão de dúvida no rosto de Rumiko, seguida por um leve rubor com a piscadela de Toshihiro. Eles viviam uma situação em que a vitória era essencial, a pressão sobre seus ombros era grande, ainda mais por eles serem os campeões dos torneios anteriores. Exatamente o tipo de situação que desperta em Rumiko seu maior potencial. Contando com isso, Toshihiro escolheu um conselho subjetivo ao invés de um objetivo e direto. Sabia que ela acabaria entendendo mais cedo ou mais tarde.

O adversário da japonesa era o líder da equipe, um garoto loiro, de olhos azuis e alto chamado Cristian Kristiansson. Assim como os seus companheiros, ele também vestia roupas surradas e sujas. Sua beyblade, tão suja quanto ele, era azul-piscina. Talvez pelo tom mais claro, ou talvez por possuir uma visão mais aguçada, Rumiko conseguiu perceber junto da poeira que cobria a beyblade adversária uma quantidade significativa de pequenos grãos escuros. Alguma coisa parecida com uma idéia começou a formar-se em sua mente, mas considerando a velocidade de seu cérebro, ainda demoraria certo tempo para que a idéia se tornasse um plano.

A luta começou. Tentando ganhar tempo para fazer o cérebro funcionar, Rumiko decidiu tentar a velha tática do "fala que eu te escuto e te distraio":

- Você é bem diferente de seus outros companheiros de equipe... E o visual é só uma parte...

Cristian encarou demoradamente a adversária antes de responder. Suas sobrancelhas erguiam-se involuntariamente com seu olhar de increduidade. Como podia uma garota como aquela ter vencido dois torneios continentais? A sua frente havia apenas uma garota frágil e sem o menor espírito de luta tentando enrolar para não perder a batalha. Ele sabia que era isso que ela pretendia, e somente fingiu cair nessa estratégia para não humilhar os japoneses.

- Gostou, foi? Eu vim da Suécia. Meus pais são diplomatas e acabaram sendo enviados para Malavi, um daqueles paizecos que ninguém sabe onde fica. Nem eu sabia quando me mudei, na verdade. Não que eu esteja reclamando, mas comparado com a Suécia...

- Comparado com a Suécia qualquer país deve parecer horrível... – Resmungou Satsuki, sem ser, no entanto, ouvida pelo garoto. – Imagina só... Eles escabeçam a lista da qualidade de vida... Quem dera eu poder ficar por lá!

- Os caras só vivem da agricultura, não sabem o que é a indústria, a tecnologia. Estão atrasados. – Continuou Cristian.

- Agricultura, é? – Foi Rumiko quem perguntou, com um lampejo de idéia nascendo em sua mente.

- Imagina só o que é ter stenta por cento de todo um país empregado nisso? Com poucos computadores, televisão, rádio...

Não se sabe exatametne se foi o clima de decisão e toda a pressão envolvida ou um sinal de que burrice crônica tem cura, mas o fato é que dessa vez o cérebro de Rumiko funcionou como deveria, na hora que deveria, para o que deveria. Juntou as palavras de Toshihiro com as de Cristian e concluiu que o que a equipe fazia na hora da luta nada mais era do que plantar na arena. Depois de um determinado tempo, os pequenos pontinhos negros que antes estavam nas beyblades – sementes, na verdade – começariam a brotar numa velocidade estrondosa que pega qualquer adversário desprevenido. E o que ela tinha que fazer? Impedir que elas germinassem em primeiro lugar.

- Quer um conselho? Nunca esqueça de lutar enquanto você está na arena, está bem? – Rumiko piscou um olho marotamente enquanto Fenki literalmente "varria" a poeira da arena, acabando com a estratégia adversária. – Agora, Fenki, Investida!

Fim da luta para os Malavilhas, os Taichi e os The Strongest fariam a tão esperada final. Toshihiro liderou o grupo que foi cumprimentar a amiga. Ele parou em frente a ela e encarou-a fixamente, aparentemente sem saber ao certo o que devia fazer, se devia partir para o abraço ou apenas apertar sua mão.

- O que foi, Toshihiro? – Perguntou Rumiko, já cansada de tanto ser observada e começando a se sentir constrangida. – Você está bem?

- Er... Eu... Eu acho que essa história de "líder" está começando a mexer comigo, sabe... Acho que estou começando a agir como o Yuy...

Os dois riram da afirmação. Rumiko não percebeu, mas o sorriso de Toshihiro estava um pouco mais tenso que o normal. O chinês ficou aliviado em constatar que sua desculpa recém-inventada havia dado certo. Na verdade, ele não sabia explicar por quê de uma para outra estava agindo diferente com a companheira, mas tinha certeza que nada tinha a ver com o fato de agora ser o líder dos Taichi.

Até certo ponto havia uma vontade de comemorar a classificação das duas equipes e de fazer uma pequena festa, – Ken, Takashi e David eram os mais entusiasmados com essa idéia – porém a amável Zanxam-sensei tinha outros planos para seus alunos naquele fim de tarde. Na porta dos quartos dos beybladers encontrava-se uma lista com os resultados das provas, o suficiente para que qualquer animação migrasse para o espaço sideral em busca de um lugar mais de acordo com seu jeito de ser.

- NÃO PODE SER! – Exclamou Ken ao olhar seus resultados, em especial o de filosofia, COMO ELA PÔDE FAZER ISSO COMIGO?

- O que foi, Ken? – Perguntou Rumiko, que também não parecia muito feliz.

- Aquela maluca me deu meio ponto em dez na prova de filosofia, mesmo depois de eu ter escrito um excelente texto e me esforçado tanto!

- Só se você se esforçou pra inventar bobagens. Não sei porque todo mundo sempre acha que filosofia é fácil... – Satsuki se intrometeu na conversa tentando criar uma oportunidade para se exibir.

- Hum... deixa eu ver se eu adivinho... A nossa loira CDF não tirou nenhuma nota abaixo de dez, não é verdade?

- Pelo visto seus palpites ainda funcionam de vez em quando... - Foi a resposta da garota, que sorria provocativamente.

- Por que será que eu não estou supreso? – Ken revirou os olhos. – E você, Rumiko? Como foi?

- Quer mesmo saber? Depois não diga que eu não avisei. - Ao perceber queKen estava mesmo falando sério e aguardava ansiosamente a continusção da sentença, Rumiko não teve outra escolha anãoser terminar de seu auto-humilhar - Lá vai: 2,7 em Matemática; 4,7 em filosofia; 5,9 em ciências...

-Tiramos a mesma nota então... - Constatou um infeliz Ken.

- Não me enterrompa, Ken! Aliás, esse é o terceiro mês que você tira isso, não é?

- Pois é...- Rumiko sentiu-se um pouco mais feliz ao continuar.

- Aí um 6,1 em inglês, finalmente passei em alguma coisa, 5,6 em história, 4,9 em geografia. Legal, né? - Perguntou ela, irônica. - Pelo menos tem um 9,1 em japonês pra me consolar.

- É, você pegou bem mais recuperações que eu... - Admitiu Ken. - Eu tirei oito em matemática... - Seus olhos percorreram a folha em busca dos outros resultados - seis e um também em inglês... e seis e oito em história - É, não sou nenhum CDF... -Aí pra te consolar eu tirei três e meio em geografia e a mesma nota que você em japonês.

- Ainda assim você é melhor!

- Ninguém supera a Satsuki, minha cara, então pode ir parando com essa cara! - Ken se referia à cara de cão-sem-dono que a companheira exibia após a comparação de notas.

- A Satsuki, a Lily e o Yuy... parece que os três gabaritaram tudo... – Ken e Rumiko olharam para todos os lados, mas não conseguiram encontrar quem havia falado com eles. Apenas ao sentirem um puxão em suas calças foi que perceberam se tratar de Takashi, o suficiente para Ken começar uma onda de gargalhadas que durou vários minutos e só parou quando o japonês absorveu completamente o conteúdo da fala do pequeno melhor amigo.

- QUE? –Foi sua reação– O Yuy doente conseguiu gabaritar tudo? Isso põe um fim nos meus planos de ficar fortemente gripado mês que vem pra escapar dos testes!

- Você planejava mentir para a sensei, Ken? Foi isso mesmo que eu ouvi? – Os gritos e a algazarra acabaram atraindo praticamente todos os beybladers para a frente da porta do quarto de Ken, Toshihro e Yuy. Apenas Hehashiro estava mais afastado, absorto em seus próprios resultados. Satsuki, a mais próxima da dupla de amigos intelectualmente desavantajados, os encarava com uma já bem conhecida expressão de reprovação, frustração, espanto, provocação, irritação, descontentamento e muitos outros sentimentos do tipo que somente ela podia reunir em um único lugar.

- Ah, Satsuki... Nossa... Como é bom te ver por aqui... – Tentativa de Ken de realizar uma evasiva rápida. – Pena que eu já esteja de saída, né? Sayoonara!

Ken já ensaiava seus primeiros passos de uma corrida quando David o segurou pela parte de trás da gola da camisa, puxando-o de volta para o meio do grupo.

- Então você quer correr, é? Que tal apostar comigo?

Entre ser humilhado por David e muito provavelmente ter que agüentar piadinhas futuras e ouvir um sermão das duas CDFs seguidoras da cartilha de Zanxam-sensei, Ken preferiu ficar com a segunda opção, onde as conseqüências eram de curto prazo. Recusou a proposta do amigo e o sermão começou.

Enquanto todos faziam de Ken sua nova diversão, Hehashiro observava a todos eles com o olhar distante, principalmente o irmão. Sentia-se feliz agora, parte de seu desejo por vitórias acabara de ser saciado. Entre todas as provas que fizera, conseguira resultados muito melhores que os do irmão em duas delas, geografia – em que fora um dos sortudos a gabaritar, enquanto que Toshihiro não passara dos 1,3 – e inglês – 9,2 contra cinco e meio, fora a prova de história, em que fora meio ponto superior. Nas outras disciplinas, havia empate entre eles, e Toshihiro o ultrapassara apenas em matemática, - oito em comparação com um 6,1 – e mandarim, mas essa era uma língua que ele já desconsiderava. Temendo sair do controle novamente, não se aproximou dos garotos para mostrar seus resultados, se contentou em apenas observá-los em sua festa.

Afinal, antes das maiores tempestades vem sempre um período de calmaria.


David: Mais um capítulo que se posta! Mais uma etapa vencida nas nossas vidas! Mais um monte de enrolação do James pra chegar na final!

James: Continua o discurso como planejado ou você não volta mais a fazer esses comentários.

David: O que foi, Jamie-chan? Encorporou a coisa ruim que baixou no Hehashiro, foi? Na minha bochecha ninguém encosta mais!

James: Antes eu tivesse incorporado isso...

David: Aliás, Jamie... Que história é essa que eu vou morrer antes de fazer dezoito anos? Você planeja me matar antes que eu vá pra final da Rússia, é isso?

James: Descubra por você mesmo... (sorriso maroto)

David: Não assustou dessa vez. u.u

James: Tá, entãoCONTINUA APORCARIA DO DISCURSO!

David: Se é uma porcaria, por que então que eu tenho quefalar?

James: É inútil discutir.Ô Mário, vem cá...

David: Não, não, tá bom! Eu falo tudo... ;;

James: Assim está melhor.XD

David: POis é... Onde eu tinha parado mesmo? (confere a folha) Ah, é... "Mais uma etapa vencida... tal, tal, tal"

Finalmente a final está chegando. Eu sei que é uma pergunta meio idiota, mas é preciso fazer: Quem será que vai vencer?

Putz, Jamie! Desse jeito você já tá entregando o ouro, sabia? Até parece que a gente vai deixar os Taichi ganhar! Se fosse pra gente perder, eu não trocava com o Hehashiro na liderança...

James: Mário...

David: Você é daqueles chantagistas bem baratos, sabia?

Anyway...

O período de calma que os beybladers atravessam durará até o fim do torneio ou a tempestade chegará antes? Será que Hehashiro conseguirá se controlar mais um pouco ou toda a sua raiva vai aflorar de uma só vez em cima do pobre Toshihiro?

O Toshihiro, aliás, podia ser eleito o "sofredor" do time. O que esse cara sofre nem mesmo protagonistas da novela das oito passam, é judiaria com o coitado...

James: O Mário já está vindo...

David: Tà, tá! Estraga prazeres!ç.ç

A resposta para essas e outras perguntas começam a chegar na segunda-feira que vem, com o primeiro capítulo da final, que ainda não tem nome porque o Jamie-preguiçoso recém começou a escrever e ainda está sem título. COnhecendo ele, deve ser algo como "Rumiko vs Hehashiro", ou "Ken vs Mário", ou "Yuy vs Lily" ou sei lá. Ah, e eu não sou besta de revelar já a ordem das lutas, isso naõ é spoiler.

A minha folha acaba aqui...

James: É que agora vem um personagem do Núcleo dos Personagem que AInda Não Apareceram. HOra da propaganda do próximo torneio! XD

David: QUe seja. ¬¬'

James: Que entre nosso próximo convidado!

Convidado: Belo jeito de me chamar dessa vez, Jamie!

James: FAla logo a sua parte antes que eu me arrependa e passe a liderança da equipe pra outro!

Convidado: É, o Crap tem razão. O que o Jamie tem de chato, ele tem de chato!

Antes que ele me censure e decida colocar o Lcensurado por conter spoiler aqui, lá vai:

Brasil! Brasil! Estamos cehgando lá, Aleluia, irmãos! Aleluia! A terra natal do Jamie! A minha terra! A terra da minha equipe e toda aquela boboseira emotiva.

E,vendo agora, vai ser meio irônico isso... POrque ele vai começar a postar o TOrneio Sul-Americano enquanto ainda está de férias em Glasgow! (Pra quem não sabe, ele chegou faz dois dias na Escócia, vai passar um mês com a mamãe querida dele) POde isso?

Bem,o que eu posso prometer é que a estada dos Taichi nesse território não vai ser nada fácil e cheia de surpresas, afinal eles vão conviver com brasileiros, o povo mais alegre e malandro do mundo! Hahahhahahha

James: E isso encerra o discursinho sobre o próximo torneio. Obrigado aos dois por participarem.

Rumiko: Hey, e quanto a nós?

James: Vocês vão falar bastante no capítulo correspondente às suas lutas. Não me amolem.

Rumiko: Promete?

James: Prometo.

Rumiko: OBA! XDDDDDDDD

James: Espero que tenham gostado do capítulo. E não se esqueçam: Deixem reviews!

Até o próximo capítulo,

James Hiwatari

David Crap

Convidado (¬¬')

Rumiko Higurashi