a noite - enorme
tudo dorme
menos teu nome

(Paulo Leminsk)


O Prof. Dumbledore achou por bem trancar a escola inteira no Salão Principal. Ainda havia a decoração de Halloween sobre suas cabeças e as caras eram atordoadas quando as portas se fecharam atrás deles e o diretor chamou atenção para si mesmo:

— Os professores e eu precisamos fazer uma busca meticulosa no castelo — disse, conseguindo como sempre sobrepor sua voz sem muito esforço — Receio que, para sua própria segurança, vocês terão que passar a noite aqui. Quero que os monitores montem guarda nas saídas para o saguão e vou encarregar o monitor e a monitora chefes de cuidarem disso. Eles devem me informar imediatamente qualquer perturbação que haja — acrescentou, dirigindo-se a Percy e a Bervely, procurando os rostos deles para confirmação visual — Mande um dos fantasmas me avisar.

Ele parou, quando ia deixando o salão, e disse:

— Ah, sim, vocês vão precisar...

Com um gesto brando da varinha, as longas mesas se deslocaram para junto das paredes e, com um outro toque, o chão ficou coberto por centenas de sacos de dormir de cor roxa.

— Durmam bem — disse o Prof. Dumbledore, fechando a porta ao passar.

O salão começou a zumbir com as vozes excitadas dos alunos. Bervely gostaria de entender o que falavam, mas a sua audição era prejudicada pelas batidas fortes de seu coração em suas orelhas. Ela procurou a cabeça vermelha de Percy na multidão e andou até ele, pegando o fim da sua explicação para os demais monitores das casas agrupados ao seu redor:

— …Black se irritou quando não foi autorizado a entrar em nossa Torre e destruiu o quad… ah, o servidor do castelo que guarda a nossa entrada. Garantam que todo mundo fique em seu saco de dormir e não faça nada estúpido, esse é o trabalho de vocês hoje. – ele pousou seus olhos em Bervely e lhe avisou: – Vou ficar com a porta do Saguão.

— Tanto faz. – concordou, distraída.

— Todos dentro dos sacos de dormir! — o ruivo começou a gritar, e ela apertou os olhos, irritada com aquela mania horrível dele. — Andem logo e chega de conversa! As luzes vão ser apagadas dentro de dez minutos!

O grande grupo começou a se movimentar, se espalhando entre os sacos de dormir, mas Bervely não se incomodou em reservar um para si mesma: estava mais do que óbvio que aquela seria uma noite em claro. Passou os olhos pelos seus monitores, Cavendish e Greengrass, e os viu tentando organizar os sonserinos todos numa extremidade mais afastada, e fez um pequeno aceno de aprovação para a última, que em retribuição franziu os lábios ligeiramente – um sorriso ou uma careta de tensão, impossível definir.

Agitada, Bervely então se colocou na frente da porta que separava o Salão Principal do corredor térreo, pela qual os professores tinham passado minutos antes atrás de Dumbledore. Ela não podia evitar suas mãos suando, ou seu coração descontrolado. Só havia uma coisa na sua cabeça, rodando em looping como uma vitrola quebrada:

Black está no castelo. Black está no castelo. Black está…

Passou os olhos pelo salão procurando Potter, apenas para vê-lo cochichando sem parar com seus amigos Lanzuda e Cenoura. Se Sirius estava atrás do garoto, porque ir à Grifinória na hora em que todo mundo estava na festa de Halloween?

Sua cabeça deu uma pontada forte, e ela apertou os olhos firmemente.

— As luzes vão ser apagadas agora! — anunciou Percy estridente, provocando uma segunda pontada. — Quero todo mundo dentro dos sacos de dormir, de boca calada!

Todas as velas se apagaram ao mesmo tempo, deixando como única iluminação o teto encantado cheio de estrelas e a lua cheia, cintilando num esplendor de prata. Os minutos se arrastaram, mas Bervely não registrou muito bem o que estava acontecendo. Ela não conseguia ficar parada, mas não podia se mover dali, e o resultado disso era que andava de uma ponta à outra da porta e batia a sua varinha na palma da sua mão incessantemente.

Black estava em algum lugar do castelo, e poderia ser encurralado por algum dos professores. Será que ele tinha um plano para sair? Ou fora idiota o bastante para entrar ali sem um plano?

Os fantasmas flutuavam entre eles indo até ela e Percy para buscar informações, mesmo que não houvessem muitas. Ela ouviu Nick-Quase-Sem-Cabeça contar o que ouvira de um quadro do corredor – Black estraçalhara de maneira atroz a pintura guardiã da Torre dos Grifinórios quando ela não lhe deixou entrar.

Ela não queria saber de pinturas, pensou, impaciente, olhando para o céu e se defrontando com a lua cheia. Em algum lugar do lado de fora, Remus Lupin era uma mente humana presa ao corpo de uma fera, completamente alheio ao fato de que seu antigo amigo de escola invadira o castelo.

Em algum lugar ainda mais distante, Bae também poderia estar transformado. Com sorte, controlado o bastante para não machucar Tara.

Com quantas coisas era possível se preocupar numa única maldita noite de Halloween?

Os alunos continuavam a sussurrar aqui e ali, incapazes de obedecer o mandado de silencio de Percy, mas ele enfim tinha desistido dos gritos. Na primeira hora, McGonnagal apareceu e os chamou para avisar que não havia nenhum sinal de Black até o momento, mas continuavam procurando. Por fora Bervely era toda sobrancelhas franzidas e compenetração, mas por dentro, suspirava aliviada.

— Continuem atentos às entradas. Mandem um fantasma em caso de problemas, mas não importa o quê, não deixem esse salão! Eu ou outro professor voltará em uma hora para atualizar vocês.

Era como se ela lesse a mente de Bervely e soubesse que a monitora-chefe pensava num jeito de escapar dali e ir procurar Sirius por contra própria. Mas não era como se Percy Weasley fosse perdoar a sua ausência, não do jeito que ele quicava e olhava constantemente na direção dela para ver se ainda estava em seu posto e não tinha deixado ninguém passar pela fechadura.

Pouco tempo depois que a vice-diretora saiu, Diggory, atual monitor da Lufa-lufa, veio até ela. Preocupação torcia seu bonito rosto quando sussurrou.

— Uma segundanista da Corvinal está tendo uma espécie de ataque… de medo, eu acho.

— Diga a ela que não tem razão nenhuma para isso, se Black quisesse um corvinal teria ido até a torre deles, para começo de conversa.

Cedrico comprimiu os lábios diante da secura da resposta.

— Eu acho que você devia dar uma olhada. Ou então talvez seja melhor mandá-la para a ala-hospitalar.

— Desde quando medo é doença? – resmungou, mas as sobrancelhas de Diggory se franziam cada vez mais, e Bervely se viu obrigada a ceder. – Tudo bem, assuma meu posto. Quem é a aluna e onde ela está?

— Acho que se chama Loren, ali atrás daquela pilastra.

A menção do nome provocou um aperto instantâneo em seu peito. Ela olhou na direção de Percy, lá na outra porta, e ele tinha o cenho franzido e questionador para os dois, e devia estar se mordendo por não saber o que Diggory viera retratar com ela. Bem, ele que se segurasse.

— Assuma o meu lugar, vigie essa porta com sua vida se precisar, Diggory.

Depois, ela ignorou a cara feia de Percy ao se afastar do 'posto' e atravessou o salão na direção apontada, passos rápidos, chamando atenção de alguns alunos pelo caminho. Perto da pilastra estava um grupinho de pequenos corvinas que Bervely conhecia apenas de vista, com excessão do cabelo loiro de Luna, aceso em meio às sombras. Ela dava tapinhas nas costas de Johanne – que estava, por sua vez, sentada sobre o saco de dormir, abraçada às pernas dobradas e com o rosto enfiado entre os joelhos, e seu pequeno corpo tremia.

— Visualize uma imensidão periwinkle… com pequenos pontinhos púrpuras nela. – a loira cantarolava, com a voz estranhamente oscilante.

— Eu assumo daqui, Lovegood, obrigada. – afastou a garota, que piscou seus grandes olhos antes de se dar espaço. Bervely se abaixou sobre os joelhos ao lado de Johanne e pousou uma mão em seu ombro.

— O que está havendo? Lovegood está aterrorizando você com tons de azul?

Mas ela ergueu seu rosto e Bervely descobriu que não havia espaço para humor no momento. A menina puxava ar em grandes arquejos, como se não estivesse presente em quantidade suficiente para seus pulmões, fazendo com isso pequenos ruídos asmáticos. Seu rosto estava lívido e molhado de suor e ela perdera os óculos. Os olhos muito abertos e desfocados tinham as bordas vermelhas; as íris possuíam o padrão prateado, parecido com uma malha, cobrindo a antiga cor negra. Cintilavam como olhos de gato no escuro.

— E-eu… – mas ela não conseguiu dizer qualquer coisa antes de começar a soluçar. Estava chamando atenção dos colegas mais próximos, e Bervely tentou como pode cobrir a cena com seu corpo. Ela afastou o cabelo suado colado ao rosto da caçula, pousando a mão em sua testa. Queimava.

— Johanne, o que é que você tem? — inquiriu, urgente. Só a vira daquela maneira uma vez, no hospital, quando Anne descobrira ainda estar cega após a retirada das bandagens.

— B-Black! – ela murmurou entre os soluços. Tremia tanto, abraçada fortemente aos joelhos, que parecia prestes a quebrar. Bervely teria dito que ela sentia alguma dor, mas percebeu que era medo pelo modo como seus dentes rangiam. Terror do mais absoluto.

Seu coração pesou, enquanto tentava manter a própria voz firme.

— Anne, não há razão para isso. Fique calma, por favor. Você está segura.

— Ele está–

Uma nova onda de falta de ar a impediu de falar, e sem saber o que fazer, Bervely tentou esfregar suas costas. Alguém se aproximou e agachou ao seu lado – pensou que poderia ser Percy metendo seu nariz onde não era chamado, mas logo reconheceu o cheiro familiar, seguido pela voz preocupada.

— O que ela tem?

Os pelos de seu braço até o pescoço se arrepiaram. Bervely, no entanto, manteve a expressão impassível e não virou o rosto para ele.

— Volte para seu saco de dormir, Wood, não é para ficar andando pelo Salão. Você tem problemas em seguir ordens?

Ele a ignorou completamente.

— Jô, o que é que há?

A menina se encolheu mais ainda, enfiando o rosto de novo nos joelhos e soluçando, agora se balançando para frente e para trás.

— Eu não sei o que ela tem. – Bervely rangeu entre os dentes, muito irritada porque ninguém respeitava a sua autoridade de monitora-chefe. – Se você quer mesmo ajudar, vá chamar um fantasma e avisar que precisamos levá-la à ala-hospitalar.

Não! — Anne exclamou, a voz abafada – Eu n-não vou sair daqui.

— Ela está com medo de Black. – Oliver lhe informou muito seriamente.

— Eu sei. Pode deixar que vou conversar com ela.

Ela viu pelo canto do olho que ele estava travando os maxilares, a expressão fechada e irritada, uma expressão muito rara em seu rosto desde que o conhecera. De alguma forma ela conseguira irritá-lo, o que era diferente de magoá-lo, coisa que já fizera várias vezes antes. A percepção provocou uma coisa estranha em sua barriga.

— Anne, se você precisar de mim, estou bem ali perto do púlpito. – ele disse suavemente, se inclinando para a garota. Depois se levantou e se afastou, o que só piorou a sensação.

Anne continuava a tremer e soluçar, e Bervely voltou a sua atenção para a pequena. Ao redor deles, os alunos que não estavam por perto e acordados ficavam mais e mais interessados no pequeno drama se desenrolando, o que subitamente a irritou.

— Vão dormir, o que vocês estão olhando? – ralhou, conseguindo que a maioria deles deitassem rápido suas cabeças e fingissem dormir.

Buscando uma forma de não serem ouvidas sem precisar conjurar um feitiço ao redor delas, Bervely passou um braço pelo ombro de Johanne, afastou o cabelo da menina para o outro lado usando a sua mão livre e inclinou sua cabeça perto do ouvido dela.

— Anne, onde estão seus óculos? – murmurou baixinho, através dos soluços. Sentia os pulmões dela lutando para puxar ar.

— N-a torre. – A resposta veio depois de um tempo. Bervely entendeu que ela se referia à torre da Corvinal, então não havia como recuperá-los agora. Nada entraria voando naquele salão sem causar uma quantidade considerável de alarde.

— Tudo bem… – com a mesma mão livre e sem se afastar, Bervely desfez o nó da própria gravata e a puxou do pescoço. Com cuidado, ela passou a tira de seda listrada em verde e prata pela testa da menina, e quando Anne percebeu o que a irmã pretendia lhe deu um espaço mínimo para trabalhar. Logo a peça estava envolvida em torno de seus olhos, e Bervely se afastou para unir as pontas em sua nuca, sobre o cabelo sedoso, num nó justo. – Melhor?

Anne assentiu, ainda respirando rápido e tremendo, o coração bombeando forte em suas costelas. Enquanto esperava que se acalmasse um pouco, Bervely a observou, caçando pistas do que deixara sua irmãzinha tão nervosa, e percebeu que ela tinha algo seguro firmemente entre as mãos. O objeto emitia um suave brilho dourado, e Bervely tocou as mãos fechadas dela tentando fazer com que folgassem.

— Que é isso?

A corvinal soltou o objeto, que deslizou para a palma aberta de Bervely e foi imediatamente reconhecido. Era o colar que Sophia, a madrinha de Anne, mandara lhe entregar quando esteve no hospital. Bervely se esquecera por completo do objeto depois de um tempo, mas agora lembrava que ele devia servir à um propósito, proteção ou algo assim, e que Anne devia usá-lo o tempo todo.

— Por que tirou? – perguntou, novamente afastando o cabelo úmido dela para o lado, pois tinha deslizado de volta. Ela deixou a mão ali, em contato com a sua cabeça, o que parecia deixá-la mais calma.

— Est-tava me queimando. Ele esquenta às vezes, mas dessa v-vez começou a machucar.

Ela indicou o pescoço, mas o salão se encontrava muito escuro para que Bervely pudesse ver qualquer coisa. O colar estava perfeitamente frio em sua mão, no entanto.

— Anne, o que significa quando o colar esquenta?

— Que está me protegendo. – disse num sussurro. Já conseguia respirar de forma regular e Bervely lhe deu espaço para que ela pudesse erguer o corpo, o que Johanne fez, se recostando à pilastra. Continuava pálida como se tivesse encarado a morte, tremendo e febril, mas podia se controlar para não chorar.

— O colar protege você… de Black? – perguntou, intrigada. Anne negou, seus lábios torcidos em aflição novamente.

— Não. De outras coisas.

— Se você não for completamente clara comigo, como vou saber o que há de errado? – Bervely inquiriu com impaciência. Seu próprio coração também estava fora de compasso, mas tinha mais a ver com ver Anne daquele jeito.

A menina mordeu a boca, incerta. Quando continuou, falava tão baixo que Bervely quase precisou fazer leitura labial.

— Eu… menti quando disse que não vejo nada desde o acidente na floresta. Eu não vejo mais o que está em minha frente, com meus olhos. – acrescentou rápido, num arquejo ansioso – Mas eu vejo… outras coisas. Quando não estou usando a Orbe.

— Que tipo de coisas? – Não fazia muito sentido para Bervely.

— Eu vi… Black entrar no castelo. – ela confessou, mortificada, qualquer resquício de sangue que ainda havia em seu rosto lhe fugindo. Bervely sentiu seus olhos arregalarem, e olhou de um lado e outro do Salão, vendo se alguém prestava atenção na conversa. Elas estavam relativamente protegidas pela coluna, e o estudante mais próximo ressonava, ou fingia, tranquilamente. Mesmo assim, Bervely preferiu se aproximar tanto quanto possível e diminuir o tom de voz à um murmúrio ínfimo.

Como?

— Por uma passagem secreta, mas eu não sei em que andar fica. Dá numa estátua de uma bruxa caolha que eu nunca a vi antes. Mas ele era um cão! Eu sabia que era ele, mas eu vi um cão. – completou, horrorizada.

É claro, ninguém estava mais horrorizada do que a própria Bervely.

— Você contou isso para alguém? – exigiu, nervosa.

— Não! – a menina balançou a cabeça, envergonhada. – Não tive coragem. Achei que fosse… eu achei que estava sonhando, ou… ele era um cachorro! Quem ia acreditar em mim? Eu nem estava lá e eu não posso ver!

— O que mais você viu? – Bervely remexeu-se nervosamente no chão duro, seus joelhos machucando. – Anne, o que mais?

Ela abriu sua boca, mas a informação parecia dolorosa. As lágrimas começaram a correr de novo por baixo da gravata, encharcando as bochechas.

— Anne! – Bervely pressionou, a segurando pelos ombros. – Isso é importante! O que foi?

— Eu sei onde ele está escondido. – ela confessou baixinho, abafando um soluço. Bervely checou de novo ao redor delas, alarmada.

Onde?

— Você vai contar aos professores? E se eles acharem que fui eu que ajudei Black a entrar?

Onde, Anne?

— N-na f-floresta… ele já saiu do castelo, faz tempo.

Bervely deu um suspiro tremendo de alívio. Nem sabia como era possível Anne saber daquelas coisas, mas a menina sabia que Sirius era um cão e nem mesmo entendia isso, então como poderia estar equivocada a respeito do resto? Sua mente se tornou muito mais limpa e funcional agora que sabia que Black estava em relativa segurança.

— Você tem certeza que não disse isso pra ninguém? Nem para Lovegood?

— Não! Ah, Bevy, você vai contar? Você precisa, não é? Para pegarem ele… não diga que fui eu, por favor, eu não o coloquei para dentro, eu juro! Você acredita em mim?

— É claro que eu acredito. – a tranquilizou, enxugando sua bochecha gelada. – E não, eu não vou contar.

— Não vai? – duvidou, a voz fraquinha.

— Não. Nem você deve dizer nada. Entendeu?Você não pode dizer nada para ninguém sobre Black, Anne.

Mas… como eles vão pegar ele? Eles nem sabem que Black é um cachor…

— Shiu! – repreendeu, rápida. – Nunca mais repita isso em voz alta.

— Mas, Bevy…

— Você confia em mim, Anne? – perguntou, exigente. A menina mordeu seu lábio inferior antes de responder, abaixando a cabeça.

— S-sim.

— Então deixe eu cuidar desse assunto do meu jeito.

Ela negou com a cabeça, o longo cabelo preto balançando em sintonia inquieta.

— Mas ele é perigoso! E se ele entrar aqui atrás de mim ou de você?

— Ele não vai nos machucar, An. – prometeu na voz mais apaziguadora que conseguia produzir.

— Como pode ter certeza disso? – choramingou ela, se encolhendo mais.

— Eu sou monitora-chefe, está lembrada? Eu sei de tudo.

Um sorriso relutante apareceu no rosto da menina, e era melhor do que nada. Não queria alimentar o medo da irmã, mas não parecia a hora apropriada para lhe explicar porque não precisava temer Sirius Black. Como ia convencê-la de que o homem que a aterrorizava era inocente, quando ele fizera o favor de destruir em tiras um quadro do castelo apenas porque este lhe frustrara os planos? Era muito possível que se iniciasse aquela conversa Johanne começasse a desconfiar dela e acabasse liberando as informações sobre Black para os professores.

Bervely sabia que precisava de provas para convencer aquela mente corvina baseada em evidências.

Anne conseguiu ficar calma o bastante para deitar em seu saco de dormir e Bervely prometeu que estaria por perto até ela pegar no sono. Esperou até a respiração dela se tornar constante e depois passou o colar em torno do seu pescoço. Se era a Orbe que impedia Anne de ver aquelas coisas, não parecia uma boa ideia que a menina ficasse sem ela, especialmente quando Bervely não estivesse por perto.

No centro do Salão, Dumbledore, Snape e Percy Weasley conversavam aos cochichos. Apesar de que deveria estar lá ouvindo as novas informações, não se incomodou em levantar. Pela cara de frustração dos professores, Black não fora achado. Tudo estava bem.

Por enquanto.

— BD –

— Não adianta esconder isso por mais tempo, senhores. — começou a Prof. McGonnagal em tom muito sério para a sua reduzida platéia, no primeiro horario do dia seguinte — Pode vir como um choque para vocês, mas Sirius Black tem um único interesse dentro deste castelo, e este é o garoto Harry Potter.

Bervely fez força para impedir um rolar de olhos desdenhoso. Então era essa a razão para convocarem uma reunião extra em plena manhã de domingo? Percy Weasley também não parecia especialmente surpreso, mas então, não era sempre tudo sobre Potter?

— Nós deveremos zelar pela sua máxima proteção dentro destas paredes. – a vice-diretora continuou, olhando nos olhos de cada um deles para ver se estavam devorando as suas palavras – Já deixei os professores de sobreaviso, mas quero que cubram o espaço entre as aulas e assegurem de que Potter não fique desamparado por um só minuto durante as trocas de sala. Entendido, Sr. Weasley, Srta. Black?

— É claro, Profa. McGonnagal, se depender de mim Harry não ficará um minuto desprotegido até pegarem o bandido do Black.

Bervely sentiu os pelos se arrepiarem em revolta e precisou morder a língua. Por acaso seu olhar foi parar em Snape, que também acompanhava a reunião, embora num silencio absoluto desde que começara.

A expressão em seu rosto era difícil de ler. Descaso? Profundo tédio? Bervely tinha a impressão de que Snape não gostava muito de Potter, talvez estivesse desejando que 'o bandido do Black' encontrasse o moleque. Mal sabendo ele que se isso viesse a acontecer, Harry devia receber o maior e mais protetivo abraço da sua vida.

— Srta. Black? Posso contar com você também?

— Claro, professora. – disse plácida, desviando seus olhos para a vice-diretora – Vou conciliar mais essa incumbência na minha rotina da melhor maneira possível.

Talvez a professora tivesse visto o brilho de cinismo por detrás de sua seriedade, porque ficou encarando Bervely num momento suspeitoso antes de pigarrear.

— Muito bem, isso era tudo. Também serei obrigada a avisar Potter do risco que corre, para que não fique por ai se expondo à toa.

Snape fez um pequeno ruído de descrença, que foi solenemente ignorado por Minerva. Bervely segurou o riso.

— Professora, só uma pergunta, se não se importar. Já se sabe como Black entrou no castelo? – Weasley indagou, muito digno de si mesmo, ou assim ele achava. Seu ar de importância cutucava os nervos de Bervely como se fosse uma agulha cega.

— Não, Sr. Weasley, nada até o momento. Continuamos investigando e reforçando a segurança do castelo. Black se aproveitou de uma falha, mas com as novas medidas, toque de recolher e vigilância constante dos professores, acreditamos que não irá se repetir.

— Eu entendo, mas… as outras possibilidades estão sendo cobertas? Quero dizer, foi, hum, mencionado ontem – e nessa hora ele olhou de relance para Snape, sua coragem escorregando um pouco, mas logo sendo reavida – Foi mencionado que Black poderia ter ajuda de dentro da escola. E eu me pergunto, isso está sendo investigado? Pessoas que poderiam ser próximas de Black seriam aquelas com mais chances de ajudá-lo discretamente…

— Seja direto, Sr. Weasley. – Snape trovejou, perdendo a paciência, embora em seu caso perder a paciência era apenas o arquear mais perigoso da sobrancelha direita. – O senhor suspeita de alguém, especificamente?

— Black poderia, hum, ter algum parente aqui? Mesmo um distante… isso não já seria o bastante para ele se aproveitar…

— Eu acho que o que o Sr. Weasley está querendo dizer – Bervely o interrompeu em alto e bom som – É que eu poderia estar ajudando Black a entrar, já que compartilhamos o mesmo sobrenome.

Percy Weasley corou como se seu sangue tivesse acabado de receber uma dose extra de tinta carmim, e seu rosto ficou em fogo vivo, mas ele não negou a hipótese. Enquanto Minerva parecia pega de surpresa, Snape poderia fazer uma lobotomia com a intensidade com que encarava o monitor-chefe naquele momento.

— É isso mesmo que o senhor quer dizer, Sr. Weasley? – McGonnagal perguntou calmamente.

Percy ajeitou-se na cadeira com seus ombros muito retos, como se lembrando que não era ele o errado ali, estava só cumprindo seu dever cívico.

— Bem, sim. Quero dizer, pode parecer um tanto óbvio, mas às vezes as coisas são mesmo tão óbvias que escapam…

Ele já tinha perdido a atenção da professora, que se voltara para Bervely com tranquilidade. Sempre havia algo borbulhando por debaixo da superfície quando se tratava da professora McGonnagal, mesmo que seu semblante fosse perfeitamente contido.

— Srta. Black, você compactuou de alguma forma para permitir que Black entrasse neste castelo ontem à noite?

— Não, senhora. – ela disse com segurança. Contava-se que era impossível mentir para Minerva McGonnagal; sorte de Bervely que estava falando a verdade.

— Isso esclarece as coisas, eu penso. – ela fez um gesto de finalização elegante. Percy continuava vermelho e insatisfeito.

— Isso é tudo? – protestou – Com todo respeito, Prof. Minerva, mas a senhora só vai perguntar? Ela poderia estar mentindo!

Aquilo foi demais até para McGonnagal, aparentemente. A bruxa, que estivera prestes a levantar, sentou-se novamente e estreitou os olhos para ele por trás os óculos quadrados.

— Honestamente, Sr. Weasley, você acha que a Srta. Black estaria ocupando o cargo de monitora-chefe se não fosse de extrema confiança? Se você tem qualquer motivo para acusar a sua colega dessa maneira nada louvável é bom dizer agora, de outra forma eu estou muito decepcionada com a sua conduta neste assunto!

Isso e o olhar vindo das trevas de Snape sobre ele, serviu para calá-lo de uma vez. Bervely fez questão de lhe lançar um olhar inocente e intrigado que foi o golpe final.

— Não, professora, eu só estava dando uma sugestão. Sinto muito se de alguma forma… se isso é tudo, posso ir fazer o meu relatório semanal da monitoria?

— Sim, Sr. Weasley, você está dispensado, bem como a Srta. Black. Não esqueçam de ficar de olho em Potter.

Percy se ergueu, espanou poeira imaginaria de suas roupas engomadas e saiu, resmungando um 'bom dia'.

Quando Bervely ia deixar a Sala dos Professores, Snape chamou a sua atenção com um breve aceno de cabeça que lhe provocou um calafrio de mau presságio. Por um momento, ela teve certeza que ele desconfiava do desvio de Wolfsbane, ou pior ainda, notara a ausência de Tara Romansek na escola desde o dia anterior. Ela fez uma cara de paisagem e puxou uma cadeira, nervosa enquanto era atentamente observada.

— Isso não foi nada gentil da parte do Sr. Weasley. – disse ele por fim, franzindo seus lábios em desaprovação. – Mas então, eu me lembro de ter lhe avisado para não deixar que ele se espalhasse demais.

— Não pude fazer muita coisa, professor. Weasleys já vem ao mundo naturalmente espaçosos.

Um espasmo no lábio do professor avisou que ele tinha achado graça. Ela se sentiu ligeiramente aliviada, pelo menos até ele estender a mão.

— Posso ver seu distintivo por um minuto, Srta. Black?

Bervely desalfinetou o distintivo de monitora chefe do uniforme e o entregou, sem entender. Viu Snape puxar a varinha e com ela realizar alguns feitiços não verbais. Quando ficou satisfeito, lhe entregou de volta.

— Professor?

— Só estava checando se todos os feitiços de liberação nele estavam ativos. É preciso fazer de tempos em tempos, o ouro é um bom mantenedor de encantamentos, mas não é infalível.

— Ah, certo. – assentiu, prendendo-o em sua roupa novamente.

— Essas associações lamentáveis entre você e Sirius Black, elas tem acontecido muito? – ele voltou a perguntar, em tom de conversa. Bervely pensou por um momento, mas na verdade, até então não tinham acontecido em absoluto.

— É a primeira vez. – admitiu com alguma estranheza – Era de se esperar que mais pessoas fizessem a conexão, não é mesmo? Especialmente os grifinórios, que estão sempre procurando um motivo para infernizar.

— Ser monitora-chefe lhe confere certos privilégios. As pessoas pensam duas vezes antes de falar, isso quando não se deixam influenciar pela sua posição mais elevada e sequer fazem esse tipo de associação. De toda forma, você sai beneficiada.

— Sim… – Nem imaginava onde ele queria chegar com aquela conversa, e talvez Snape tenha percebido isso em sua expressão reticente, por que fez ele próprio uma cara mais branda, aliviando o vinco entre as sobrancelhas.

— Espero que não volte a acontecer. Deve ser um bocado desagradável ter o seu nome associado ao de um ser desprezível como Black.

— Desculpe? – ela foi pega tão de surpresa com o desprezo na voz dele que nem pensou em concordar. Toda vez que alguém adjetivava Sirius de forma ofensiva ela tinha um espasmo automático de raiva, e vinha acontecendo com grande frequência. Na noite anterior, entreouvira o Prof. Dumbledore chamá-lo de 'bandido' também e fora difícil se controlar para não ir até lá dar um puxão em sua barba.

— Sirius Black, ele foi uma desonra para o nome da sua família, não é? Talvez você não saiba de toda a historia, mas ele foi um fruto podre desde o começo e não é nenhuma surpresa onde terminou. Até as linhagens mais nobres tem suas falhas, e algo que sempre me admirou na família Black é a sua capacidade de arrancá-las pela raiz sem grande sentimentalismo. Fiquei sabendo que Black nem mesmo está na árvore genealógica. Não há do que se envergonhar.

— Eu não me envergonho. – ela disse com alguma dificuldade. Seus punhos estavam fechados, a boca seca, e racionar estava meio difícil. Algum ponto racional de seu cérebro lhe mandava concordar com ele, mas o resto estava inundado pelo fato de que Snape estava xingando Sirius, e de alguma forma isso era pior, muito pior, do que outra pessoa xingando Sirius.

Ela nunca se importara o bastante com a opinião de outra pessoa.

— Eu preciso ir. – disse repentinamente. – Preciso… checar uma poção em meu quarto.

— Muito bem, até outra hora então. – ele lhe analisou atentamente, dessa vez com a sobrancelha esquerda arqueada, o que significava que estava desconfiado. – Ah, e Bervely, você já se decidiu sobre a aplicação no Instituto Flamel?

— Ainda não. – sua cabeça latejava com uma luz branca, iluminando as palavras 'fruta podre' e 'arrancar pela raiz'.

— Não se demore, não queremos que perca o prazo para enviar a sua amostra.

Ela saiu da sala pouco depois, sem se lembrar de como, ou mesmo se se despedira. Bastou uma olhada no corredor para ver que Percy Weasley ainda estava por perto – tinha parado para ralhar com um grupinho da lufa-lufas correndo – e partiu na direção dele. Sentia que precisava descontar em alguém aquela irritação que queimava seu sangue como veneno de dragão, e o ruivo intratável era a pessoa perfeita para o momento.

— ENTÃO. – ela disse bem alto, sobressaltando Weasley no meio do corredor. As crianças já tinham ido embora, desta vez correndo dele. Percy se virou com o semblante surpreso, que logo se tornou desagrado quando percebeu que era ela. – Essa é a hora que você me diz qual o seu problema comigo, Weasley.

— Desculpe? – ele se empinou todo, fazendo-se de desentendido. Depois ainda chamava, os sonserinos de sonsos.

— Você me odeia, Weasley. E eu estou bem com isso, inclusive por que é recíproco desde o inicio. Mas eu não coloco você em situações embaraçosas na frente da vice-diretora da escola e do diretor da sua casa, e veja bem eu poderia, por que se tem uma coisa na qual eu sou boa, é colocar gente como você em seu lugar, que é bem debaixo da sola do meu sapato.

Sem surpresa, o rosto dele foi se tingindo de vermelho, ressaltando as muitas, muitas sardas. Percy pestanejou, mas se manteve firme.

— Eu não admito que fale dessa maneira comigo, Black! Exijo que me trate com respeito, Merlin sabe que eu lhe trato, apesar de quem você é!

Quem eu sou? – repetiu perigosamente – O que isso sequer significa, vindo que alguém que não pode bancar as próprias calças? Mas você não me ve por ai falando de como a maioria dos Weasley traiu a pureza de seu sangue procriando com trouxas como se fossem coelhos, vê, Weasley? Então o que lhe dá o direito de vir falar sobre mim e como eu posso estar deixando Black, meu "parente próximo", invadir a escola? Você nem tem provas!

Ele piscou, confuso por um momento.

— Por que eu faria isso? Você e Black… o que tem a ver uma coisa com a outra? Ficou maluca, Black?

Foi a vez de Bervely não entender o que estava acontecendo. Ou Weasley estava ficando demente ou tirando uma com a cara dela, e conhecendo a família, podia apostar que era a segunda opção.

— Não me provoque, Weasley. Minha paciência com você já nem existia antes, agora é praticamente negativa. Você acabou de falar exatamente essas coisas para McGonnagal!

— Você não está fazendo o menor sentido. – ele meneou a cabeça, espantado. – Eu preciso ir, tenho relatórios a terminar, meu tempo para ficar discutindo sandices é… não, eu nem tenho tempo para isso. E se quer mesmo saber eu não odeio você, só o fato de que você evidentemente está ocupando um posto que não merece.

— Como é? – ele tinha dito aquilo com tanta segurança que a irritou mais ainda.

— É apenas lógica. Você não seguiu a carreira de monitora antes de ser nomeada monitora-chefe, e não, aquele cargo que o Prof. Snape inventou para você ano passado não conta. Você não mereceu esse distintivo, só ganhou ele porque… porque… eu não sei porque. – ficou muito claro que Percy estivera prestes a acusar alguém de favorecê-la injustamente, e segurara a língua no último momento. – Mas não é justo. E você não lutou por ele, então não o valoriza! O que é detestável, porque eu conheço outras pessoas que mereciam e esperavam por isso e tiveram seus planos frustrados porque você surgiu do nada e entrou no caminho!

Ele disse isso tudo muito rápido e sem vírgulas, não exatamente o jeito Percy-explicadinho de falar que Bervely aprendera a odiar naqueles últimos meses. Agora a cabeça dele queimava como a ponta de um fósforo aceso.

— Que 'outras pessoas'? – Bervely retrucou aquele absurdo – Quantas pessoas você pode conhecer que se enquadram nessa exata situação, nessa escola, nesse ano, pela graça de Merlin?

— Não importa. Como eu disse, não tenho tempo para… isso. – fez um gesto amplo e errático com sua mão magra. – Com licença, monitora Black.

— Vai pela sombra, monitor Weasley. – rolou os olhos, assistindo ele sair quicando.

Estava intrigada, no entanto, por sobre a sua irritação. Percy se esquecera de tê-la acusado na sala de reunião ou ele se arrependera, e aquela era a retratação mais desastrosa que ela já vira na vida?

— BD –

As chamas cor de laranja se tornaram verde-esmeraldas e cresceram em tamanho, lançando sombras mais profundas nas paredes e diversos espelhos da Sala dos Professores. A sua única ocupante, sentada numa poltrona coral, virou a cabeça para a lareira em expectativa, sentindo as juntas do pescoço estalarem. Decidiu que não gostava do corpo de pessoas velhas, era ainda pior do que sua experiência usando corpos de homens.

Alguém saiu das chamas, trazendo consigo uma inevitável nuvem de fuligem. Tara Romansek vagou seus olhos pela sala com receio, seus piores receios se confirmando quando tomou conhecimento da figura que lhe encarava.

— Professora McGonnagal? – murmurou, pálida, abaixando o capuz de viagem.

A velha senhora rolou os olhos num gesto jovial e cínico que aluno nenhum jamais vira Minerva McGonnagal fazer.

— Relaxe, sou eu. – disse, e a voz era de Bervely Black. Tara soltou o ar com alívio, podendo finalmente respirar de novo.

— Você quase fez meu coração parar! Como faz isso? Pensei que era ruim em transfiguração!

— É, mais sou boa em outras coisas. – comentou prepotente, e depois deu uma olhada nela. Tara estava péssima, havia terra em suas roupas e muita palidez em seu rosto, mas no geral ela parecia inteira, de nenhuma forma como se tivesse sido atacada por um lobisomem – Então Wolfsbane deu certo?

A menção da poção transformou seu rosto bonito em algo sombrio.

— Prefiro não falar a respeito, especialmente aqui. E se algum professor chegar?

— Eles estão se revezando nas rondas do castelo. – disse tranquila, mas se levantando. Por mais que estivesse ansiosa em voltar ao próprio corpo ainda não era seguro, não enquanto estivessem ali dentro, onde os alunos não eram autorizados a entrar sem a companhia de um professor. – Vamos voltar para o dormitório, você está com cara de que precisa de uns cinco banhos.

Tara a seguiu sem protestos. Ela estava pensativa, estranhamente silenciosa para os padrões Romansek e demorou um tempo para processar o que Bervely tinha falado.

— Os professores estão se revezando em rondas em um domingo? Eu perdi alguma coisa?

Bervely abriu a porta secreta do seu dormitório para ela, depois de confirmar que estavam sozinhas no corredor.

— Ah, é, você não sabe ainda. – com todo cuidado, tirou a entonação da sua voz ao completar – Black invadiu o castelo ontem à noite.

Os olhos de Tara se arregalaram, mas logo se estreitaram para Bervely suspeitosos.

— Você teve alguma coisa a ver com isso, não teve?

Não. Eu não tive. – enfatizou uma segunda vez, já que a ruiva ainda parecia em duvida. – Dizem que ele está atrás de Potter. – completou, numa voz que julgou neutra.

— Ah. Sempre Potter. – Tara tirou a pesada capa de viagem e jogou em um canto do quarto junto à sua bolsa, revelando seu ainda mais sujo vestido por baixo dele. Ela se deu uma olhada crítica no espelho de corpo todo de Bervely e chegou à conclusão – Não posso atravessar o Salão Comunal assim, podem desconfiar.

— Não tem ninguém acordado à essa hora, Tara.

— Talvez não no salão, mas e quanto ao dormitório? A obsessiva da Pacey vai se agachar e pôr um ovo se me ver entrar nesse estado, você sabe como ela é.

— Você pode usar o meu banheiro. – ofereceu, dando de ombros. Tara deu um sorriso zombeteiro, e Bervely cerrou suas pálpebras – Que foi?

— Nada. É apenas muito estranho ouvir Minerva McGonnagal dizendo que posso usar o seu banheiro. Quanto tempo demora para o efeito passar?

Bervely bufou. Também não estava feliz em ainda usar o corpo da bruxa velha, mas algo lhe dizia que era uma má ideia se metamorfosear na frente de Tara. Ela não era ingênua como Bae, perceberia o que Bervely era sem demora.

— Alguns minutos ainda.

Tara lhe olhou mais uma vez de cima à baixo com uma expressão peculiar, depois se trancou em seu banheiro e demorou um século lá dentro, tanto que Bervely – agora devidamente de volta ao seu próprio, jovem e elástico corpo – achou que a menina estava tentando se afogar. Para se distrair, pegou seu livro didático de Herbologia e tentou rabiscar o ensaio para a quarta feira, mas a sua capacidade de se concentrar era uma piada.

Primeiro: Black estava na floresta proibida. Tão ridiculamente perto, mas tão fora de alcance, com todos aqueles dementadores ao redor da escola e a segurança reforçada! Segundo: Tara Romansek estava nua por detrás daquela porta. Era estúpido que isso a perturbasse tanto de repente, quando passaram quase quatro anos dividindo o quarto e o banheiro em Durmstrang.

Finalmente Tara saiu, junto à uma nuvem de vapor aromática. Seu cabelo molhado jogado sobre o ombro pingava e ela estava enrolada numa toalha que não cobria muito das pernas brancas.

— Posso pegar uma roupa sua emprestada?

— Vá em frente. – assentiu, virando uma pagina do livro para não deixar óbvio que estava reparando na ruiva nua em seu quarto. Acompanhou com o canto dos olhos Tara remexer suas gavetas e escolher alguma coisa, usar seu pente para desembaraçar o cabelo e depois caçar a varinha na própria bolsa, com a qual secou os cachos, enchendo o quarto do cheiro dos produtos de cabelo de Bervely, que ela obviamente tinha pego emprestados também. Eles faziam uma combinação mais atraente vindos dela, do que jamais tinham sido em si. Mundo injusto.

— Obrigada por me acobertar. – disse a ruiva depois de todo o ritual, voltando à sua bolsa para guardar a varinha e pegar outra coisa. Bervely reparou que ela tinha escolhido uma de suas camisolas dos tempos da Mansão Malfoy, de quando Bervely tinha quatorze anos e uns bons centímetros à menos. Estavam curtas em Tara, que era ainda mais alta do que ela, mas sua escolha fora provavelmente de propósito.

— Olha, ela sabe agradecer. – zombou, desviando o olhar de novo para o livro. Mas não havia nada tão interessante em herbologia que pudesse rivalizar com a vida real naquele momento.

— Eu sempre agradeço. – protestou, num falsete de injustiça. – Às vezes eu agradeço com mais do que palavras, se bem se lembra.

Bervely revirou os olhos em silêncio, focada em Plantas Migratórias do Hemisfério Sul. Sentiu o colchão afundar ao seu lado, e logo em seguida o estalo de um lacre se partindo e o cheiro alcoólico no ar. Olhou por cima do ombro, para ver Tara sentada em sua cama dando um gole generoso numa garrafa de alguma bebida clara.

Sério mesmo, Tara?

— Eu preciso disso, não enche.

Bervely fez um muxoxo impaciente.

— Você já pode voltar para seu dormitório agora, eu penso.

Mas Tara não deu mostras de que ia; pelo contrário, pousou a garrafa no tapete e deitou ao lado de Bervely, fitando teto. Cachos ruivos se espalharam sobre as páginas do seu livro, cobrindo um desenho detalhado da anatomia de uma Pletorea Viborae. Espanou-os dali com a mão, mas o breve contato lhe fez recordar de como eram macios. Fingiu que lia mais um pouco, mas na verdade estava concentrada no som da respiração dela ao seu lado, esperando que dissesse alguma coisa. Tara sempre tinha algo a dizer.

— Foi horrível, B.

Então isso explicava o olhar sombrio dela quando lhe perguntara sobre a Wolfsbane. Bervely tirou os olhos do livro para ela, notando suas pálpebras fechadas e os cílios cor de laranja longos lhe fazendo moldura.

— Então Bae realmente se transformou. – concluiu, lógica.

— Sim. E não é nada… não é nada que você possa imaginar. É bestial. Doloroso… estive com ele durante toda a noite, depois que expliquei a ele como a poção funcionava, e que ele não seria capaz de me machucar. Ele estava sendo bravo, mas quando a lua apareceu… – Tara estremeceu, seus rosto se tencionando com as lembranças. – Todos os ossos se quebrando e se refazendo para se rearranjarem no corpo do lobo… a pele… se rasgando e… todos os dentes caindo para as presas crescerem…

Bervely não admirava que Tara soasse tão perturbada. Só de imaginar o ligeiramente irritante Bae se transformando, tinha arrepios de repulsa e de pena, porque ele era tão pequeno, não merecia passar por isso todos os meses. Se a sua irmã caçula fosse fosse mordida ela nem podia imaginar…

— Eu sinto muito. – disse, porque achou que precisava. Tara assentiu, seus lábios cor de rosa apertados numa linha fina.

— Eu prometi a ele que estaria lá todas as vezes. Ele fica com medo, ele morre de medo do lobo! Eu não o culpo, é aterrorizante. Ao menos dessa vez, com a poção, ele não precisou ser amarrado. Precisamos conseguir Wolfsbane todos os meses. – Tara abriu seus olhos para ela. Estavam avermelhados, além de todo o verde. Bervely assentiu.

— Vamos dar um jeito.

Um sorriso se esboçou no rosto da ruiva, seus olhos brilhando para Bervely, meio úmidos ainda.

— Desculpe por acusar você de estar trabalhando com meu pai. No fim das contas, foi mesmo Berennin que proibiu Bae de me escrever e contar sobre a mordida, ela achou que eu diria ao meu pai. Afinal, se Bae pode se transformar num lobo completo…

— Isso significa que ele tem magia. – completou Bervely, lembrando-se da conversa que tivera com Snape nas férias.

Tara assentiu aflita, mordendo seu lábio.

— Não sei o que isso quer dizer, ele nunca manifestou nada! E agora Berennin teme que ele seja mesmo um bruxo e que vá embora de novo.

— Você não acha que ele deveria sair mesmo do meio dos trouxas, se há uma chance de desenvolver a magia?

— Eu não sei, Bervely, eu não sei. – a ruiva esfregou seu rosto, frustrada. – É tudo tão confuso. Apesar da licantropia, ele está feliz pela primeira vez, em Snowfall. É louco dizer isso mas ele está, eu vi. E ele nunca foi feliz de verdade lá em casa. Nunca se adaptou à forma como meu pai queria que a gente vivesse. É horrível dizer isso, mas… acho que ele está melhor com os trouxas, longe de papai.

Bervely não via qualquer coisa horrível na afirmação. Entre ser um rebento de Gavril Romansek ou ser mordido por um lobisomem, ela não podia escolher o pior.

— Tara… eu conheci um lobisomem, hum, uma vez. Ele ficou bem. Bae… vai ficar bem.

— Você acha mesmo? – murmurou, buscando esperança no rosto da outra. Bervely assentiu. Tara suspirou frustrada. – Por que é tão difícil ter irmãos mais novos? A gente fica o tempo todo tentando protegê-los, mas não importa o quê, eles sempre se metem em problemas.

— É, nem me diga. – muxoxou, pensando em Anne e suas estranhezas. A concordância em sua voz fez Tara dar um risinho incrédulo.

— O que você saberia sobre isso? Abençoada como você é sendo filha única? Ou os Lestrange tiveram algum herdeiro de que eu nunca soube? Eles deixam prisioneiros procriarem em Azkaban?

Ela estava claramente zombando, mas Bervely não achou graça. Cogitou por um momento contar para Tara sobre Johanne, mas hesitou e logo perdeu o momento para outro pedido ansioso.

— Talvez você possa ir comigo na próxima lua cheia, acompanhar a transformação.

Bervely meneou a cabeça negativamente.

— Sou monitora-chefe agora, Tara. Caso não se lembre, foi se esgueirando para fora da escola que você perdeu o cargo no ano passado.

Tara rolou os olhos exageradamente, depois se inclinou o corpo e capturou sua garrafa, dando outro gole longo na bebida amarelada.

— Quer? – estendeu-a na direção de Bervely.

— O que é isso, pra começo de conversa? Parece xixi de fada.

— Acertou em cheio. Bate rápido e te nocauteia num sono pesado. Parece como algo que te faria um bem danado, você já viu o tamanho das suas olheiras?

— Não, obrigada.

A ruiva deu de ombros, deixando claro que era Bervely quem saia perdendo.

Dois minutos depois, ela estava dormindo tão profundamente ao seu lado que não tinha a menor condição de ser movida para o próprio dormitório.

— BD –

Nos dias que se seguiram não se falou de mais nada na escola senão de Sirius Black. As teorias sobre o modo com que Black entrara no castelo se tornaram mais e mais delirantes; Ana Abbot, da Lufa-Lufa, foi ouvida jurando que Black era capaz de se transformar em um arbusto florido.

Bervely não prestava atenção na maioria dos boatos. Ela seguia a sua rotina de aulas e atividades de monitoria, checava Johanne entre os intervalos e tentava achar uma brecha na segurança para tentar, quem saber, se aproximar da Floresta Proibida e confirmar o palpite da irmã à respeito de Sirius.

Sua chance surgiu na quarta feira. Estava fazendo a ronda-noturna dentro do castelo quando notou que o time da Grifinória voltava do treino acompanhada de perto por Madame Hooch. Por causa de Potter, agora a professora precisava supervisionar os treinos da casa vermelha e dourada, o que com certeza devia estar sendo uma chateação já que o time treinava obsessivamente todos os dias da semana.

De toda forma, naquela noite era Filch quem guardava a porta do Saguão Principal. Não foi difícil Bervely se transfigurar em Mme. Hooch e falar ao zelador que esquecera qualquer coisa nos vestiários; no minuto em que estava longe das vistas dele, se transfigurou de novo em si mesma, puxando o capuz por cima da cabeça e atravessando o gramado pela sombra do castelo o mais discretamente possível.

O caminho mais seguro até a floresta passava pelo campo de Quadribol, que aquela hora deveria estar vazio e escuro o suficiente para escondê-la. Bervely olhou para o céu, checando se havia dementadores por perto; normalmente eles ficavam mais à frente, próximos aos muros da escola, sobrevoando o terreno externo. Resistiu à tentação de conjurar um patrono – seu cão brilhante e enérgico não seria exatamente discreto caminhando ao seu lado.

Seus olhos pegaram um vislumbre se movendo no céu, e Bervely já tinha a varinha em punho e o feitiço na ponta da língua quando percebeu que não era um dementador, e sim um aluno sobrevoando o campo em uma vassoura. As esperanças de tirar pontos de alguém por quebrar o toque de recolher foram-se logo embora, porque de alguma forma, apesar de ele ser só um pontinho perto das balizas e voar rápido, ela sabia quem era. Conhecendo sua sorte…

O jogador tinha encantado duas goles para avançar e tentar atravessar as balizas incessantemente, e ele as defendia sem pausa. Ela ficou ali parada, perto do banco onde costumava sentar para anotar o desempenho dos membros do Clube de Voo, o pescoço inclinado para cima, acompanhando os movimentos obcecados, habilidosos e quase violentos dele no ar. Wood estava tão decidido em ganhar a Taça de Quadribol aquele an que isso era tudo que ela ouvia sobre ele. O time de quadribol da Sonserina frequentemente caçoava, dizendo que ia acabar matando o time de exaustão antes do primeiro jogo, chegaria no campo sozinho seguido de seis vassouras vazias. Ela até dera um sorriso da primeira vez que ouvira o comentário, só porque estava na mesa do café da manhã bem em frente ao capitão Flint. Mas ele não conhecia Oliver o bastante, conhecia? Devia temer, e não caçoar, daquele brilho maníaco de teimosia nos olhos dele.

Ali parada e vendo-o defender goles atrás de goles quase de forma mecânica, cobrindo os três aros e impedindo todas as entradas, Bervely sentiu um vazio inesperado em seu interior. Tinha tudo a ver com o brilho de teimosia que ela não via mais direcionado à sua pessoa já fazia quase um mês.

Espera. Era impressão sua, ou estava com ciúmes de quadribol?

Você perdeu completamente o juízo, constatou, resignada. Que diabos significava aquilo, ela ali parada vendo um grifinório treinar e pensando sobre um olhar específico que ele tinha?

Deu meia volta com firmeza. Já não era sem tempo aquele afastamento, afinal agora podiam focar no que realmente importava para cada um. Oliver e sua maldita taça, Bervely e sua vida complicada. Sabendo que se tentasse atravessar o campo até a Floresta ele lhe veria, voltou para o castelo.

A sensação de vazio no estômago persistia.

(Continua…)