Capítulo Cinqüenta e Três
Transition
(Transição)
James colocou a sua garrafa vazia de cerveja amanteigada na mesa, surpreso com o número de garrafas que já cobriam a superfície. Era de conhecimento geral que beber cerveja amanteigada provia a menor sensação de euforia. Normalmente, seus pais só permitiam que ele bebesse uma garrafa, duas em ocasiões especiais. Não era particularmente forte, mas James não tinha certeza se a tontura que estava sentindo era o resultado da quarta garrafa de cerveja amanteigada daquela tarde, ou da garota sentada a sua frente.
Felizmente, seus primos o tinham deixado em paz. Madeline e Isabella tinham se juntado a eles por alguns minutos no começo da tarde, assim como Jacob, Fred, Al e Scorpius. Maya tinha sido bem mais graciosa com a intromissão deles do que James.
- Está ficando tarde... – Maya disse, relutante. – O jantar será servido logo.
- Suponho que sim. – James se levantou e tirou o agasalho de Maya do encosto da cadeira dela. Ela o olhou, surpresa, mas ele meramente abriu o agasalho para ela, suas bochechas levemente rosadas. – Minha mãe diz que é gentil fazer isso... – murmurou.
Maya sorriu e murmurou timidamente:
- Obrigada... – passou os braços pelas mangas, abotoando o agasalho, enquanto James rapidamente vestia o próprio. Ele indicou a porta e Maya deu a volta ao redor dele e da mesa.
- Oi! – alguém do outro lado do bar gritou para os dois. Eles congelaram, os rostos com uma expressão de surpresa. – Tem um visco aí. Não pode sair até beijar a garota!
James olhou para Maya, que estava lutando contra as risadas, enquanto olhava para o visco flutuando sobre suas cabeças. Inclinou-se e rapidamente a beijou na bochecha, sentindo o próprio rosto ficar corado ao ouvir os assobios e risadas, antes de olhar feio para a pessoa que tinha chamado a atenção para o visco. Pegou a mão de Maya e a levou para fora do Três Vassouras, horrivelmente envergonhado. Parou abruptamente e olhou para ela.
- Posso fazer melhor que isso. – disse, antes de emoldurar o rosto dela com uma mão, e erguê-lo. Roçou os lábios sobre os delas, ignorante aos incentivos abafados que vinham das janelas do bar. James sorriu timidamente para Maya, a tontura aumentando ainda mais.
- Seus olhos são bonitos. – Maya falou sem pensar. Seus olhos se arregalaram. – Oh, Merlin, eu falei isso em voz alta?
- Sim...
- Como você conseguiu azul, de todo modo? Os do seu irmão são verdes e os da sua irmã são castanhos...
James pegou a mão de Maya, muito mais gentilmente do que tinha feito no bar, e eles começaram a caminhar de volta para a escola.
- Meu avô Weasley tem olhos azuis. Sou o único dos meus primos que herdou os olhos dele. – apertou um pouco a mão dela. – Eu nunca realmente te agradeci propriamente por me levar o jantar fim de semana passado.
- Não foi nada. – Maya dispensou. – Além do mais, já te vi comer. Imaginei que uma tigela de sopa não seria o bastante para você.
- Eu preciso te mostrar como chegar à cozinha. – James refletiu. – Eles gostam de te dar tanta comida, que sua calça não vai mais servir se você comer tudo. – a olhou pelo canto do olho. – Então, por que precisou aprender a surrupiar comida da cozinha da sua casa?
- Oh... – Maya corou e mordeu o lábio. – Eu fui um terror, quando mais nova. Eu cresci no bar que meus pais têm, certo? Nós temos alguns convidados que sempre ficam conosco quando estão em Falmouth. Normalmente, olheiros de Quadribol e escritores. Alguns dos jogadores moram lá durante a temporada... Então, eu estava sempre sendo mimada por um cliente regular ou outro. E o único castigo no qual meus pais conseguiam concordar, era me mandar para meu quarto, sem o jantar. Então, eu esperava até todos estarem dormindo, e descia um pouco. Eu tinha que tomar muito cuidado para não fazer bagunça, por que senão mamãe saberia que fui eu, e eu acabaria com mais problemas ainda... – pausou, as palavras de James finalmente sendo absorvidas. – Quem são 'eles'? Na cozinha?
- Os elfos da escola. – James disse simplesmente.
Maya parou abruptamente, soltando a mão de James.
- A escola tem elfos domésticos? – perguntou com indignação. – Isso é horrível!
- Eles não são escravizados, Maya. – James disse, orgulhoso. – Eles são pagos, têm dias de folga, eles podem ir procurar outro emprego, se quiserem. A maioria deles não quer ir embora. Eles são tratados bem melhor do que os Curandeiros em treinamento, pelo amor de Godric. – bufou. – Acredite em mim; tia Hermione transformou em sua missão de vida, quando era mais nova, conseguir condições melhores para os Elfos. E papai estava com ela. Todos os Elfos da Bretanha são protegidos, assim como os da escola. Se eles forem maltratados, eles têm sua própria equipe para reclamar. – seus olhos se cerraram. – Achei que você soubesse disso.
- Eu sei. – Maya disse friamente. – Ainda acho horrível esperar que qualquer tipo de criatura faça as coisas por nós. Você já parou para pensar no quanto eles têm para fazer? – falou alto. – Eles cozinham, limpam, mantêm os fogos acessos no inverno, os candelabros acessos nos corredores. Eles lavam suas calças, pelo amor de Merlin! Eles limpam toda a lama do seu equipamento de Quadribol, lavam sua roupa de cama toda semana, e eu já tive que limpar banheiros o bastante na minha vida, mas ninguém pode me pagar o bastante para esfregar o banheiro do dormitório masculino! Eu não ligo para qual casa você está! E pelo quê? Cinco galeões por mês? E só por que eles podem sair, não significa que vão. Achei que você teria percebido isso, James.
- Eu percebo. – James disse quietamente. – Mas comparado ao que costumava ser, está muito melhor.
- Não quer dizer que está certo. – Maya retorquiu.
- Sim, você está certa.
Maya piscou.
- O quê?
- Você está certa.
- Eu acabei de ganhar? – ela perguntou esperançosa.
James bufou.
- Não estávamos brigando, Maya. Estávamos discutindo.
- Oh, então é assim que você chama?
James deu de ombros e pegou a mão de Maya, caminhando pela trilha até a escola.
- É como meus pais chamam.
- Sua mãe é muito legal. – Maya disse casualmente.
James riu abertamente.
- Não pise no calo dela. – avisou. Observou-a por um momento. – Na verdade, se as histórias que meus tios contam sobre minha mãe são verdadeiras, ela é muito parecida com você.
- Mas sua mãe era da Grifinória e eu da...
- Não importa. – James interrompeu. – Tio Ron diz que mamãe enfeitiçava todo idiota que precisava. – afastou uma mecha do cabelo de Maya do rosto dela. – E, aparentemente, você também.
- Se eu fosse parecida com sua mãe, não teria sido selecionada para a casa que fui. – Maya insistiu.
James balançou a cabeça.
- Sua casa não tem nada a ver com você. – empurrou a pesada porta da frente da escola com as duas mãos, até que estivesse aberta o bastante para que Maya entrasse. Entrou depois dela, enquanto a porta começava a fechar. Andou com ela até a entrada do Salão Principal e, no campo de visão da escola toda, a beijou rapidamente. – Biblioteca depois do jantar?
Maya fingiu considerar a proposta de James.
- Oh, tudo bem. Pode me ajudar com a redação de Flitwick. – e praticamente deslizou até a mesa de Sonserina.
James se sentou no banco de Grifinória e deu um cutucão confuso em Lily. Ela estava olhando feio para um cadeado, que flutuava em sua frente, dois clipes de papel trouxa ao lado de seu prato.
- Que diabos?
- Não enche, James. – Lily murmurou.
- Você deve um sicle para a jarra. – Al murmurou automaticamente. – Vocês dois.
- Quanto dinheiro tem naquela jarra? – Scorpius perguntou.
- O bastante para meu pai e minha mãe verem um filme. – Al respondeu.
- Eu não entendo... – Scorpius refletiu, cortando uma batata no meio. – Se o propósito da jarra é evitar que vocês xinguem, não deveria ter menos dinheiro a essa altura?
- É o que alguém diria. – Isabella se intrometeu. – Mas não funcionou.
- Por que está se dando ao trabalho de aprender a arrombar um cadeado, Lils? – James suspirou, incerto de que realmente queria saber a resposta.
Lily pegou um dos clipes e o esticou, a língua presa entre os lábios.
- Por que... – começou com paciência exagerada. – Você nunca sabe quando não vai ter sua varinha...
James não disse nada e apenas a olhou estranhamente. No caminho para o dormitório, Hugo passou um braço ao redor da cintura de Lily.
- Eu sei por que está fazendo isso. – contou para ela. – Aprendendo truques trouxas.
Lily passou um braço ao redor da cintura de Hugo, o abraçando.
- Oh, mesmo?
Hugo olhou para sua prima.
- Sim, sei. – respondeu com um tom superior zombeteiro. Acalmou-se e suspirou. – Sua mãe e pai vão ficar malucos. – disse seriamente.
- Eu sei. – deu uma piscadela conspiratória para Hugo. – Eles só não podem descobrir até que seja tarde demais para fazerem algo sobre isso.
- Sim, me deixe sabe como isso funciona para você. – Hugo bufou.
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Ron esperou até Molly tê-los deixado sozinhos, antes de se sentar na cadeira ao lado de Hermione, empurrando os restos de seu jantar para o centro da mesa. Hermione mal tinha beliscado sua comida. Mas ela tinha permanecido consideravelmente calma desde que tinham voltado de Oxford.
- Certo, então. O que está acontecendo com sua mãe?
- Ela está morrendo. – Hermione disse, tensa. – Bem, ela vai morrer se eu permitir que aconteça.
Ron assentiu algumas vezes.
- Mmm-hmmm. E no que isso consiste? Expô-la em alguma montanha?
- Não especialmente. – Hermione pegou o garfo e começou a cutucar sua comida não tocada. – Ela fica doente a todo o momento. E não toma o remédio voluntariamente. Ela acha que estão tentando envenená-la, ironicamente. Eu... Nós... Podemos fazer uma de duas coisas... Posso dar permissão para que eles a internem sempre que ela ficar doente, e isso basicamente significa que eles vão atordoá-la, enquanto lhe dão o remédio intravenosamente. Eles tentaram sem atordoá-la, mas ela tira a agulha do braço. – Hermione procurou pela terminologia apropriada para descrever o que acontecera a sua mãe.
- Parece divertido. – Ron comentou secamente.
- Oh, e é. – Hermione deixou o garfo de lado e apoiou a cabeça na mão. – Ou... Ou posso mandá-los parar. Parar de tratar dela quando ela ficar doente, apenas deixá-la confortável, lhe dar algo para a dor e, então...
- E então...? – Ron incentivou.
- E, então, ela... Desliga.
- Quanto tempo?
Hermione cruzou os braços sobre a mesa e descansou a cabeça neles.
- Eu não sei. Eles não sabem. Podem ser semanas. Podem ser meses.
Ron se recostou em sua cadeira.
- Para o que valer, não acho que devíamos contar a Rose e Hugo.
Hermione olhou rudemente para Ron.
- Por que não? Acha que eles não conseguem lidar com isso?
Ron colocou uma mão sobre o braço de Hermione.
- Pense nisso por um momento, certo? Você quer que eles fiquem esperando pelo momento em que Neville vai tirá-los da aula, ou irá buscá-lo no dormitório para que possa mandá-los para casa pelo escritório de McGonagall? Ou que passem o feriado de natal esperando que aconteça?
- Eles devem saber. – Hermione arguiu. – Para que possam se preparar.
A mão de Ron convulsionou no braço dela.
- Por quê? Toda a preparação que tivemos quando tínhamos a idade deles deixou mais fácil? Pelas calças de Merlin, Hermione, deixe que eles sejam crianças! Por favor... Deixe que eles tenham o que não tivemos. Apenas dessa vez... – Ron implorou. – Isso não é sobre eles serem capazes de lidar com isso ou não. É sobre eles ficarem despreocupados no natal. Sem ficar esperando pelo pior.
- Eu estava sob a impressão de que eles já estavam esperando que isso acontecesse. – Hermione disse cansadamente.
- É diferente. – Ron apontou. – Uma coisa é saber que Jane vai morrer eventualmente. Outra coisa é eles saberem que, provavelmente, vai acontecer bem mais cedo do que tinham imaginado. – Ron pausou por um momento. – Você parece que já decidiu. – Hermione permaneceu em silêncio, seu rosto normalmente animado contorcido em uma máscara inexpressiva. Ron fechou os olhos brevemente. – Entendo...
Hermione balançou a cabeça lentamente.
- Quando Bichento ficou tão doente que não conseguia comer, menos ainda beber alguma coisa, foi considerado bondade... – ela parou de falar abruptamente e desviou o olhar. – Eu devia sentir algo. – murmurou. – Eu deveria...
Ron meramente passou os braços ao redor dela. Ele não sabia o que dizer, nem tinha certeza de que tinha algo que pudesse dizer.
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Draco fez uma careta para seu jantar. Estivera se esforçando para de fato conversar com Daphne ao invés de falar para ela, durante as últimas semanas. Mas era como tentar falar serêiaco, quando sequer sabia falar o idioma. Ele tinha que decidir o que fazer durante o feriado. Poderia demorar dias para que o Ministério lhe desse permissão para viajar. Ainda irritava Draco que ele praticamente tivesse que implorar para poder sair do país.
- Então? – resmungou por entre dentes cerrados.
Daphne ergueu os olhos de seu prato.
- Então...? – ela respondeu friamente.
- O que vamos fazer com... Isso?
As sobrancelhas de Daphne se ergueram.
- A maioria das pessoas geralmente comem suas refeições. – disse calmamente.
- Eu quis dizer... – o maxilar de Draco ficou tenso. – Eu.
Daphne soltou o garfo e pegou o copo de água.
- Ah. – tomou um longo gole, olhando para Draco. – Valeria a pena? – disse finalmente. – Quando tudo terminar, Scorpius será maior de idade e não é como se tivéssemos outros filhos. – disse, com apenas uma leve pitada de amargura.
Os lábios de Draco se apertaram em uma linha fina.
- Eu vou providenciar para que seja rápido.
Daphne quase riu.
- Como? – ela não precisava dizer que o nome Malfoy não tinha mais nenhum tipo de influência no Ministério.
- Eu não sei! Eu vou... Eu vou pagar alguém.
- Não há garantias. – Daphne respondeu, implicando que o ouro dos Malfoys também não tinha mais a antiga influência.
Draco pegou seu copo de água e o jogou do outro lado da sala. Quebrou na parede atrás de Daphne, que meramente piscou em resposta.
- Maldita seja, Daphne! Eu estou tentando te dar uma chance de sair daqui! Por que você não aceita? – Draco olhou feio para sua esposa, ainda sentada tranquilamente no outro lado da mesa. – Ou é essa sua vingança por causa da Pansy? – cuspiu.
Daphne calmamente afastou a cadeira e se levantou. Deu um olhar de pena a Draco, antes de sair da sala de estar. Conseguiu chegar à biblioteca, antes de seus joelhos cederem e ela cair em uma cadeira. Havia centenas de motivos pelos quais deveria aceitar a proposta de Draco. Ela não tinha certeza se sua teimosia em permanecer nesse casamento de aparências era sua relutância em quebrar tradições — até mesmo ela tinha seus limites — ou se Draco estava correto em assumir que ela não queria aceitar sua oferta como uma maneira de puni-lo por seu comportamento recente.
Respirou fundo e soltou o ar lentamente, antes de se levantar. Cruzou a biblioteca até sua pequena mesa e abriu a gaveta, onde guardara a carta que Scorpius mandara de Hogwarts. O feriado de natal começava no dia vinte e um, e se Draco queria passar o feriado em Nice, ele precisava preencher a papelada necessária com o Ministério até o dia seis de dezembro. Ainda havia duas semanas. Tamborilou os dedos na mesa por vários momentos, antes de pegar uma pena. Se Draco não ia fazer planos, ela faria. Daphne levou o pergaminho até sua coruja e esperou que ela saísse pela janela da cozinha, antes de ir procurar Draco.
Encontrou-o enrolado em uma capa grossa, sentado no jardim, ignorando o vento gelado que o acertava.
- Faça o que quiser no feriado. – ela falou. – Mas Scorpius e eu vamos ficar aqui. – Draco assentiu uma vez e Daphne virou sobre os calcanhares para voltar para a casa.
- Estou vendo alguém. – Draco deixou escapar, antes que pudesse se parar. O que mais eu tenho a perder? Não tenho mais nada...
- E quem é ela, dessa vez?
- Não é uma mulher. – Draco murmurou, sua pele pálida corando. – Um homem...
Daphne sentiu sua boca se abrir.
- Oh...
- Não dessa maneira. – Draco resmungou, correndo uma mão pelo cabelo. – Ele é um curandeiro... – droga, estou estragando até isso... É sua essência, não é? Não conseguiu fazer nada certo desde que tinha onze anos, não é? Daphne cambaleou de costas até as portas, procurando cegamente pela maçaneta. Draco se levantou e a segurou pelo braço, soltando-a rapidamente como se tivesse se queimado. – Não o estou vendo romanticamente. – explicou tensamente. – Não sou homossexual. Achei que isso era bastante óbvio. – adicionou sarcasticamente. – Eu o vejo para conversar.
Daphne pensou que não sentiria nada, que seria apenas mais um momento vazio entre eles. A pequena fagulha de dor a surpreendeu.
- Sobre o que vocês conversam?
A cabeça de Draco se balançou levemente.
- Coisas... Apenas... Coisas...
- Certo. – abalada, Daphne conseguiu achar a maçaneta e abrir a porta sem tropeçar nos próprios pés. Voou para a relativa paz de seu quarto, ainda mais incerta sobre o que queria fazer.
-x-
Harry bateu na porta do escritório de Carolina.
- Ei, eu preciso te pedir algo.
Carolina se recostou em sua cadeira, enlaçando os dedos atrás da cabeça.
- Desembucha.
- Um dos seus Obliviadores se aposentou há uns dois anos e meio...
- Na verdade, uns cinco se aposentaram. – Carolina interrompeu. – Não... Espere... – contou mentalmente. – Seis.
- Eu preciso do nome deles. – Harry disse suavemente.
Os olhos de Carolina se cerraram.
- Por quê?
- É um deles. – Harry respondeu simplesmente.
- Não, não é. – sibilou. – Não um dos meus!
Harry fechou a porta atrás de si. Carolina era profissional demais para perder a calma em frente de todos os Obliviadores trabalhando no turno da manhã, mas ele estava acusando um dos membros do departamento dela de espalhar um ato hediondo.
- É sim.
- Não pode ser! Você está só... Atirando no escuro.
- Não estou. Um deles era bom em legilimência e ele sabia o bastante para modificar a memória das pessoas que usou para torturar trouxas, de modo que parecesse ter sido algum tipo de sonho. Sem apagar a memória completamente, como um amador teria feito, e sem remover os detalhes mais importantes, como a maioria dos Obliviadores. Esse sabia como fazer que a pessoa que cometesse o crime achasse ser apenas um sonho.
Os olhos de Carolina estavam arregalados em seu rosto pálido, o único ponto de cor.
- Três das pessoas que se aposentaram conseguiam usar legilimência em algum grau. – disse pesadamente. – De vez em quando, nós treinamos alguns Obliviadores para usar a legilimência, por que a memória de algumas pessoas são resistentes às mudanças. Precisamos tentar algumas vezes, e usamos a legilimência para ver se a modificação foi feita.
- Os nomes... - Carolina hesitou, antes de lentamente puxar um pedaço de pergaminho. Rabiscou três nomes nele e o empurrou pela mesa. Harry pegou e o dobrou entre seus dedos, colocando-o no bolso de sua calça. – Obrigado.
- Quando é o julgamento de Joel?
- Começa no dia nove. Não deve durar mais do que um dia ou dois. Ele praticamente admitiu sua participação no processo para os investigadores do DELM.
- Quão... Quão longa vai ser a pena dele?
Harry olhou tristemente para Carolina.
- Você sabe isso...
O rosto de Carolina se abateu um pouco e ela assentiu. Harry não precisava lhe dizer que era uma pena perpétua automaticamente pelo assassinato de Kathleen. Seu maxilar trabalhou silenciosamente e ela se esforçou para manter o controle. Harry sabia. Os que você treinava eram como seus filhos, e isso era uma completa traição de tudo o que você tinha ensinado a eles.
-x-
- O que você acha? – Fleur ergueu um pedaço de tecido cor de pêssego brilhante.
- O que eu deveria achar? – Victoire perguntou, seu nariz se torcendo.
- Para as vestes de gala de Madeline, é claro! – Fleur bufou indignadamente.
- Por que Maddie precisa de vestes de gala novas? – Victoire perguntou inexpressivamente.
- Para seu casamento, bébé. – Fleur informou sua filha com um suspiro. – Madeline será sua dama de honra, não é?
- Mãe, isso ainda vai demorar anos! – Victoire protestou.
- Nunca é cedo demais para começar a planejar. – Fleur afirmou calmamente.
Victoire soltou sua pena e apoiou o queixo em uma mão.
- Mãe, - começou pacientemente. – Teddy e eu não queremos algo grande e enfeitado. Apenas a família, na verdade, e só aí já há pessoas o bastante para fazer os vizinhos reclamarem.
O rosto de Fleur ficou surpreso.
- Por favor, me diga que vocês não estão pensando em fazer isso em algum escritório escuro do Ministério!
Victoire suspirou e pegou sua pena.
- Mãe, faltam mais de três anos. Nós nem sequer realmente conversamos sobre o casamento em si. Por que não temos uma data. Mas eu sei que ele quer algo calmo e com apenas a família. E eu também.
Fleur colocou o tecido de volta na cesta a contra gosto.
- Certo. – resmungou. – Mas 'calmo' não é um termo que eu aplicaria à família.
Victoire riu.
- Nem eu.
- Quando foi a última vez que viu Teddy?
- Quando ele veio aqui e nós dormimos. – casualmente, Fleur acenou a varinha para os livros de Victoire, tirando-os de sob as mãos dela, e os mandando para o armário do outro lado da cozinha. – Mãe! – Victoire protestou. – Eu estava estudando!
- E é tudo o que tem feito. – Fleur resmungou. – Mon Dieu! O ano antes de seu pai e eu nos casarmos, tinha uma guerra começando, e seu pai estava sempre fazendo algo para a Ordem quando não estava trabalhando, mas nós ainda conseguíamos encontrar tempo para estar com o outro! Vocês dois não têm nenhuma pressão desse tipo, e ainda assim não conseguem cinco minutos para se ver.
- Isso é diferente, mãe. – Victoire se levantou e foi até o armário, ignorando os livros, e pegando pratos e talheres, para arrumar a mesa para o jantar. – Apenas os três melhores alunos do ano podem sequer cogitar escolher sua área de especialidade. Os outros vão aonde os mandarem... E eu não quero ser um desses pobres coitados. Eu vou acabar no andar de Infecções Mágicas. – Victoire resmungou.
- O que quer fazer?
- Danos por feitiços. – Victoire respondeu sem hesitar.
Fleur balançou a cabeça.
- Você não facilita sua vida, não é?
- Não especialmente.
Fleur ouviu um pop abafado e olhou pela janela da cozinha. Bill estava caminhando na direção da casa, o vento vindo do mar fazendo seu cabelo voar ao redor de sua cabeça.
- Qual turno Teddy está trabalhando nessa semana?
- Os da manhã...
- E você não tem aula nem turnos essa noite?
- Não, nada.
- Então, vá ver Teddy. – quando Victoire lançou um olhar duvidoso para seus livros, Fleur deu um suspiro pesado. – E leve esses livros infernais com você, se precisa tanto.
- Papai não vai ficar bravo se eu ficar fora até tarde, vai? – Victoire perguntou hesitantemente.
- Provavelmente. – Fleur murmurou, quando a porta dos fundos se abriu. – Então, tente voltar para casa antes da meia noite?
- Brilhante. – Victoire murmurou sob a respiração. Pelo menos ela não me falou para voltar para casa às dez, como quando eu estava na escola.
-x-
Al se inclinou para mais perto do rádio, aguçando os ouvidos para ouvir o jogo de Montrose contra Falmouth. Falmouth estava usando seu usual estilo bruto de jogar; rabiscou as táticas e estratégias usadas por cada time. As anotações na coluna do Falmouth eram previsivelmente curtas — bater repetidamente na cabeça dos jogadores adversários até que eles derrubem a Goles. Al olhou para a foto do atual time em sua cópia de Quadribol Através dos Séculos. O dono do time parecia preferir músculos ao invés de habilidade. Achava difícil de acreditar que eles tinham tentado recrutar Harry ou Ginny. Tendo passado a maior parte de sua vida jogando com ou contra um de seus pais, ele sabia que as aparências enganavam. Harry podia não ser o que Al chamaria de musculoso, mas Al já o tinha visto se pendurar no punhal de sua vassoura com uma mão e voltar para o lugar sem nem suar, apenas para capturar o Pomo antes de Charlie. Ginny uma vez dissera a Al que, durante seus dias jogando para as Harpies, as pessoas tendiam a julgar suas habilidades baseadas em seu tamanho. Enquanto era verdade que ela não tinha muita força por trás de seus arremessos, ela tinha uma ótima noção de tempo e lugar, o que Al sabia ser valioso, independentemente do fato de que se podia marcar os gols usando apenas a força. Parte do trabalho para a aula de Quadribol era analisar o quão bem um time tinha conseguido adaptar as habilidades de seus jogadores — ou a falta delas — durante a temporada. Olhou por sobre o ombro para o Salão Comunal com irritação. A bagunça estava ficando tão alta que ele quase não conseguia ouvir o jogo.
Lily tinha, finalmente, dominado a técnica de arrombar um cadeado, que estivera praticando a semana toda e Jacob a tinha desafiado para uma corrida: quem arrombaria o cadeado mais rapidamente com os olhos vendados? Depois de Lily ter vencido pela primeira vez, Jacob rapidamente a desafiou para outra rodada. A casa estava dividida entre Lily e Jacob, com James parado incertamente no meio.
A voz do comentarista se sobrepôs à bagunça e Al suspirou, desligando o rádio. Tinha perdido o Apanhador de Montrose capturando o Pomo. Viu Scorpius desviar de um grupo de pessoas torcendo por Lily e ir até onde Al estava acomodado no peitoril da janela.
- Posso trocar de família com você? – ele perguntou em tom de conversa.
- Dificilmente chamaria isso de uma troca justa. – Al disse distraidamente, terminando suas anotações. – James e Lily por Geoffery?
- Se meu pai sumisse da face da Terra, acho que ninguém notaria. – Scorpius refletiu, como se Al não houvesse falado. – Certamente, minha mãe não notaria. Nem ninguém. Ela fez planos para o feriado. Meu pai não vai estar lá. Ele vai para a França. Minha mãe diz que vamos ficar em casa e que posso ir para sua casa depois do dia primeiro, para ficar o resto do feriado.
- Pensei que você queria ver sua avó no feriado? – Al perguntou confuso.
- Eu quero. – Scorpius disse tristemente.
- Alguma novidade na outra coisa? – Al perguntou, mantendo a voz baixa, para não anunciar a vida de Scorpius para o Salão Comunal.
Scorpius balançou a cabeça.
- Estranhamente, não. Ela só me diz para não me preocupar com isso. – examinou as costas de sua mão. – Mas eu acho que ela decidiu fazer isso. Eu nunca a vi cuidar das coisas assim, antes.
- Você quer que eles...? – Al perguntou hesitantemente.
Scorpius bufou com a risada irônica.
- Não é como se algo realmente fosse mudar, não é? Ele ainda não se incomodaria comigo. – sua expressão ficou pensativa e Scorpius olhou para o fogo do outro lado do Salão. – Mas, ao menos, eu não ficaria preso no meio do que está acontecendo entre meus pais. Não é como se meu pai fosse particularmente envolvido comigo antes de eu começar a escola, mas eu não sentia como se estivesse escolhendo um dos meus pais... – Scorpius saiu do peitoril da janela e começou a caminhar para a escada que levava ao dormitório masculino. Virou-se para Al. – Você acha...? – começou, mas balançou a cabeça. – Deixa pra lá.
Al pulou para fora do peitoril, rapidamente juntando suas coisas e correndo atrás de Scorpius.
- O quê?
Scorpius não disse nada até que tivesse entrado no dormitório do terceiro ano. Certificou-se de que estava vazio e se sentou na cama.
- Parece que fugir de casa é meio que uma tradição... Minha avó tinha esse primo... Sirius? Ela disse que vocês sabem quem é...?
- Ele era o padrinho do meu pai. James tem o nome dele.
- É. Bem, quando Sirius tinha dezesseis anos, ele fugiu. – Scorpius colocou as mãos sobre a boca para tentar acalmar a onda de risada histérica que apareceu. Quando se recuperou, conseguiu dizer: - Para a casa dos seus bisavôs. Os avôs do seu pai.
Al franziu o cenho.
- O que está perguntando?
Scorpius se jogou sobre o colchão.
- E a avó de Teddy... Ela fugiu de casa, também. Mas Teddy disse que ela era maior de idade, então não tenho certeza de que conta. – refletiu, como se Al não tivesse falado. – Engraçado, mas ninguém da geração do meu pai sentiu a necessidade de dar o fora. Mas, também, ele era o único. – se sentou abruptamente, olhando para Al com os olhos arregalados. – Como seus pais se sentiriam dando teto a um desgarrado? – perguntou, sorrindo tortamente.
A boca de Al se abriu.
- Você quer dizer, nesse momento? – ofegou.
Scorpius balançou a cabeça.
- Não nesse momento, não... Mas se eu precisasse de um lugar...?
Al assentiu silenciosamente.
- Apenas me diga quando.
Continua...
