Capítulo 44- Horas Incertas
- Aqui é 10-45, responda 10-46, câmbio!- a voz de Jim Street soou robotizada através do walk-talk. Ele, Ana-Lucia e mais um de seus companheiros da Swat estavam em um helicóptero, se dirigindo para o provável local onde o Sargento Hondo teria sido levado por seus seqüestradores. Lá embaixo, a Capitã Cortez acompanhada pela patrulha da polícia civil se comunicava com o foragido Benjamin Linus. Ele estava guiando os policiais para que encontrassem Hondo antes que fosse tarde demais. Mas ele só diria o paradeiro exato dele se suas exigências fossem cumpridas.
- Aqui é 10-46!- Raquel respondeu em seu walk-Talk. – Qual sua posição, 10-45? Câmbio!
- Estamos sobrevoando o píer de Santa Mônica nesse exato momento. Aguardando instruções para prosseguir. Câmbio!
- As instruções serão repassadas em alguns minutos. Câmbio.
A Capitã apertou o botão off de seu walk-talk e murmurou consigo mesma:
- Não acredito que isso esteja acontecendo.
Hondo era um dos melhores policiais que Raquel já conhecera e também um de seus melhores amigos. Seria terrível demais se algo acontecesse com ele. Como esse homem, Benjamin Linus conseguira seqüestrar o Sargento assim?
Tentando manter-se calma e não levar as coisas para o lado pessoal como a profissão exigia, Raquel pegou o telefone sem fio via satélite trazido por um dos policiais e conversou com Benjamin Linus mais uma vez.
- Ok, nós estamos aqui. Agora me diga, onde está o Sargento Hondo?
- Não tão depressa, Capitã Cortez. Diga-me primeiro se minhas exigências foram atendidas!
- Ninguém no aeroporto de Lax irá impedir você ou seus comparsas de pegar o avião para onde quer que esteja indo conforme o combinado. Você terá uma vantagem de pelo menos dois dias antes que a polícia internacional procure por você.
- Certo.- disse Ben do outro lado da linha. – Estou vendo que a senhora cumpriu a sua parte do trato e sei que fez isso porque é uma mulher de palavra, assim como sua filha.
- O que você sabe sobre minha filha?- perguntou Raquel com rispidez.
- Infelizmente não pude conviver pessoalmente com sua filha por muito tempo, mas sei o suficiente para saber que ela é uma mulher de palavra e fiel aos seus princípios. A senhora a criou bem. Ana-Lucia cometeu alguns pequenos deslizes, mas já vi que isso foi totalmente superado.
- Pare de falar da minha filha!- Raquel exigiu. – Você mesmo disse, eu cumpri a minha parte do trato, agora cumpra a sua e me diga, onde está Hondo?
Linus deu uma risada sarcástica e disse:
- É melhor se apressarem. Ouvi dizer que a maré vai subir! Hasta la vista, Capitã.
Os olhos de Raquel se alargaram. Ela compreendera exatamente onde o sargento estava. Eles teriam que agir muito rápido.
- 10-45, responda imediatamente, câmbio!
- Aqui é 10-45!- disse a voz de Ana-Lucia. – Aguardando instruções. Câmbio!
- Vão para o lado norte do píer agora mesmo. Para os antigos depósitos de carvão que agora ficam inundados quando a maré sobe. O sargento Hondo deve estar lá em algum lugar.
- Entendido 10-46! Manteremos contato. Câmbio e desligo.- Ana voltou-se para Street e seu outro colega. – Vocês ouviram, não ouviram? Temos que correr!
O helicóptero fez a volta e os levou pelas novas coordenadas até o local indicado. Ao chegarem aos antigos depósitos, o local estava quase todo submerso.
- Oh, meu Deus!- Ana exclamou, nervosa. Se Hondo ainda estivesse vivo, ele não duraria muito.
- Precisamos chamar a guarda-costeira.- disse Street.
- Não há tempo para isso, Street!
- O que você sugere que façamos então?
Ela começou a desamarrar o cadarço de suas botas.
- Eu vou entrar lá!
- Você está louca? Não pode fazer isso!- protestou Street.
- Eu sei nadar muito bem.- insistiu Ana retirando o coldre com sua arma e seu cinto. – Não vou deixar o Hondo morrer.
- Ana, você não vai fazer isso... – Street continuou insistindo, mas Ana-Lucia não deu ouvidos a ele. Ela ordenou ao piloto do helicóptero que descesse o mais próximo possível da água para que ela pudesse mergulhar.
- 10-45, responda! Câmbio!- disse Raquel no walk-talk.
- Aqui é 10-45! Capitã, sua filha está indo mergulhar agora mesmo sozinha para encontrar o Hondo. Eu estou indo com ela! Câmbio.
- O quê?- questionou Raquel com exasperação, se esquecendo de todas as formalidades naquele momento. – Ana-Lucia, mas que diabos! O que você vai fazer?
Mas Ana já tinha mergulhado.
- Mulher maluca!- exclamou Street , tirando suas botas para ir atrás dela. – Hey, eu vou com ela.- ele avisou para seu outro colega. – Chame a guarda-costeira. Tenho certeza que vamos precisar.
O policial assentiu e Street pulou na água atrás de Ana-Lucia. Ela respirou com força e mergulhou na água guardando fôlego enquanto se aproximava da porta de entrada do antigo depósito de carvão. Street vinha nadando logo atrás dela. Ele não estava muito certo, mas acreditava que havia um respiradouro próximo dali onde eles poderiam retomar o fôlego.
Por cerca de quatro longos minutos eles tiveram que prender a respiração enquanto nadavam dentro do depósito inundado e sem saída de ar. Quando finalmente chegaram ao respiradouro imaginado por Street, Ana colocou a cabeça para fora e puxou o ar com toda força para dentro dos pulmões. Street fez o mesmo.
- Ele não está aqui, Ana!- Street disse para ela, tentando recuperar o próprio fôlego. – Se estiver aqui, Deus o proteja porque ele já teria morrido afogado então.
- O Linus disse à minha mãe que ele estaria aqui, então ele deve estar. Temos que encontrá-lo.
Eles voltaram a mergulhar e nadaram mais para dentro do depósito. Encontraram o Sargento Hondo amarrado embaixo d`água, apenas parte da cabeça para fora, mas as narinas começavam pouco a pouco a serem invadidas pela água. O sargento estava desmaiado. Deveria ter sido drogado.
Ana colocou a cabeça para fora no pequeno espaço para respirar e disse:
- Lá está ele! Está desmaiado. Se não o tirarmos logo daqui ele vai morrer!
Jim olhou ao redor procurando uma maneira de tirarem Hondo dali, mas parecia uma missão quase impossível. Não tinham para onde ir. O único jeito de voltar era nadando pelo mesmo caminho que tinham feito para chegar até ali. Desmaiado, o Sargento não chegaria a lugar algum.
- Eu tenho uma faca no meu bolso.- Ana contou. – Cortarei as cordas e você segura ele. Tentaremos acordá-lo para que possamos nadar de volta.
- Isso aqui está enchendo muito depressa, Ana-Lucia. Precisamos ser mais do que rápidos agora.
Ana assentiu e mergulhou para cortar as cordas. Mas seu fôlego estava indo embora muito depressa. Ela sentia-se fisicamente esgotada, o que era estranho já que era uma excelente nadadora e sabia prender muito bem o fôlego. Fora isso que salvara sua vida na ilha há cinco anos atrás quando sofrera o acidente de avião.
Ela cortou as cordas com muito sacrifício, sentindo o ar faltar, mas conseguiu liberar Hondo. Street acordou-o depressa e conseguiu que o sargento chegasse à semi-inconsciência, o que ajudaria a tirá-lo dali. Quanto à Ana, ela sentiu os pulmões apertarem e uma falta de ar incontrolável invadi-la. Quando o corpo de Hondo subiu, o dela desceu para o fundo. A última coisa que ouviu antes de desmaiar foram os gritos de Street chamando seu nome.
- Ana! Ana!
Do lado de fora do depósito inundado, a guarda-costeira tinha acabado de chegar e enviara mergulhadores para o local. Quando eles chegaram até onde Street estava, aflito por não encontrar Ana-Lucia, o policial gritou:
- Tem uma policial na água. Ela sumiu. Não consigo encontrá-la!
Dois mergulhadores levaram Hondo. Outros dois mergulharam para encontrar Ana-Lucia. Street mergulhou também, mas ele já estava ficando sem fôlego e foi conduzido por outro mergulhador, mesmo contra sua vontade para fora do depósito.
Quando o puseram dentro do barco da guarda-costeira, ele se debruçou para o lado de fora e gritou por Ana várias vezes, até que os mergulhadores voltaram e um deles a trazia com cuidado. Ela estava desacordada. Street temeu pelo pior.
Eles puseram Ana rapidamente em uma maca no convés e os paramédicos a atenderam. Fizeram massagem cardíaca e respiração boca a boca. Ela tinha engolido muita água e colocou tudo pra fora depois das tentativas dos paramédicos em ajudá-la.
- Aqui...tome...beba água... – disse um deles. Ana abriu os olhos e sentiu a cabeça pesada. O peito ardia por causa da quantidade de água que ela ingerira antes, mas Ana não conseguiu aceitar o copo de água oferecido pelo médico. Acabou vomitando tudo o que tinha comido mais cedo. Quando terminou, estava fraca e pálida.
- Você precisa beber água!- o paramédico insistiu e Ana finalmente conseguiu tomar um pouco em pequenos goles.
- Você está bem?- Street perguntou, aliviado ao vê-la de olhos abertos e respirando.
Ana tossiu um pouco e assentiu com a cabeça.
- E o sargento?
- Ele está na cabine. Os médicos estão cuidando dele agora. Você salvou a vida do Hondo, Ana. Se não o tivesse tirado logo da água ele teria morrido. O sargento já estava com os pulmões cheios de água. Ele ainda está desacordado por causa da droga que devem ter dado para apagá-lo.
Ana-Lucia respirou fundo, puxando o ar.
- Eu estou enjoada de novo...por favor...
Street entendeu de imediato o pedido dela e arranjou um saco de papel com um dos paramédicos. Ana vomitou de novo.
- Tem certeza de que está bem?
Ela abaixou a cabeça e respirou fundo mais uma vez. O barco já estava bem perto do porto e Raquel estava esperando desesperada que este atracasse para ver a filha e o amigo Hondo. Ela já tinha recebido a notícia pelo walk-talk de que ambos estavam bem.
- Mi hija!- Raquel murmurou assim que o barco atracou. Hondo foi retirado de lá numa maca e colocado em uma ambulância direto para o hospital mais próximo. Ana caminhou pela plataforma que levava até o cais com um cobertor em volta do corpo. Foi abraçada com força pela mãe.
- Hija, o que estava pensando? Quase me matou de susto!- exclamou Raquel.
- Eu não estou muito bem, mama.. – disse Ana sentindo-se exausta, com náuseas e um nó na garganta. Hondo estava salvo, mas e quanto a Benjamin Linus? – Ele escapou, mama?
Raquel deu um suspiro.
- Deve estar escapando agora mesmo e não há nada que possamos fazer por enquanto. Prometi a ele uma vantagem e sempre cumpro minhas promessas.
- Mas não podemos deixá-lo fugir, mama! Hondo está a salvo agora, nós devemos...
- Não, Ana-Lucia. Homens como ele sempre tem outra carta na manga e eu não quero pôr a vida de mais ninguém em risco. Ele receberá a vantagem que prometi e amanhã a Interpol iniciará uma caçada a ele. A partir de agora estou lavando minhas mãos e também não quero mais você nesse caso. Só quero que fique segura.
Ana deixou que a mãe a abraçasse novamente. Ela só queria ir embora dali e tomar Érica nos braços. Se esquecer dos horrores que sofrera naquela noite.
- Me leva pra casa, mama...
- Sim, hija, eu vou te levar pra casa... – disse Raquel abraçando-a pelos ombros e conduzindo-a para o carro enquanto os outros policiais cuidavam de tudo. Pela manhã ambas conversariam com Hondo.
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Jack estava exausto, mas sentiu-se aliviado, pois tudo acabara bem. Ele trouxera Claire a tempo para o hospital e chamou por Juliet. A hemorragia em sua irmã tinha sido contida, o bebê estava bem e agora ela estava sendo monitorada. Tinham acabado de transferi-la para um quarto e ele autorizou que Charlie e Aaron pudessem vê-la por alguns instantes.
Ainda não sabia o real motivo de Claire ter passado mal. Era provável que a agitação com a chegada de Lara, o acidente de Kate e a decisão dele em envolver sua filha naquilo a tivessem deixado desgostosa e agitada, o que não era nada bom para uma mulher grávida.
Juliet apareceu no corredor vindo do laboratório. Jack a olhou e sorriu antes de dizer:
- Muito obrigado por ter atendido ao meu chamado tão depressa.
- De nada, Jack.- ela respondeu. – Não importa o que aconteceu, ainda o considero um amigo muito querido e a Claire foi minha paciente na ilha. Eu quero que ela fique bem.
O médico assentiu.
- Acabei de levar os exames dela para o laboratório. Mas, Jack, eu queria te dizer uma coisa.
- O que é?
- Você mencionou que a Claire passou mal depois que vocês tiveram uma discussão, certo?
- Isso mesmo.
- Bem, creio que foi mais do que isso, mais do que o estresse causado pela discussão de vocês.
- Como assim?- indagou Jack, de repente ficando muito preocupado.
- Jack, eu já vi isso acontecer antes com ela e com outras.- ela fez uma pausa e então falou em voz baixa: - Vi isso acontecer na ilha. Houve uma espécie de instabilidade na gravidez da Claire, como se o corpo dela estivesse rejeitando o bebê.
- O quê?- retrucou Jack, perplexo.
- Eu ministrei a ela, para conter a hemorragia e manter o bebê seguro até o momento de nascer, a mesma droga que Ethan deu a Claire na ilha.
Jack não podia acreditar.
- Você fez o quê?
- Você ouviu o que eu disse. O que eu acabei de fazer aqui foi totalmente ilegal. Mas fiz isso para salvar a sua irmã e confio que você jamais dirá nada a ninguém. Eu garanto a você que a Claire terá o bebê, assim como ela teve o Aaron. Mas precisa confiar em mim, Jack!
- Juliet, o que está me dizendo é absurdo!
- Pode ser.- disse ela. – Mas se eu não fizer isso, a Claire irá morrer, assim como toda e qualquer mulher que já esteve naquela ilha. O magnetismo existente naquele lugar, Jack, provoca alterações no organismo feminino. Eu sei disso porque eu e Ethan trabalhamos por três anos nisso.
- Se o que está me dizendo é verdade, então por que a Sun, a Kate, Ana-Lucia e a Libby sobreviveram? Todas elas tiveram filhos após a ilha, com exceção da Kate que perdeu o bebê no acidente como eu te contei mais cedo, como pode me explicar isso?
Falar de Kate o fez lembrar que ele nem tivera tempo para se despedir. Com as complicações na gravidez de Claire, ele tivera que ficar ao lado da irmã e de Charlie o tempo todo. Ele esperava que Sawyer cuidasse bem dela e de Lara enquanto estivessem no Texas e que o rival não fizesse nenhuma bobagem para prejudicar a recuperação de Kate.
- Tem muita coisa de que você não sabe, Jack.- acrescentou Juliet sem perceber que Jack se perdera em pensamentos por alguns segundos. – E a única coisa que eu posso te dizer é que a ilha ainda não terminou com a gente e talvez nunca termine!- aquela última frase foi dita num tom sombrio e preocupado, mas ainda assim, Jack não acreditou nela.
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Érica estava dormindo quando Ana-Lucia retornou para casa. Lupita assustou-se quando abriu a porta e a viu toda molhada e pálida. A Capitã Cortez vinha logo atrás dela.
- Oh, Dios, o que aconteceu?- Lupita perguntou, alarmada.
- Apenas trabalho.- Raquel respondeu por Ana que subiu de imediato as escadas para ir ver a filha. Entrou no quarto e tirou a blusa molhada e as botas antes de se sentar em uma cadeira diante da cama de Érica. Acarinhou seus cabelos e tremeu, começando a chorar convulsivamente. Podia estar morta agora se a guarda-costeira não a tivesse encontrado; sua pequena Érica teria ficado órfã.
- Eu vou tomar mais cuidado, mi hija. – Ana sussurrou. – Prometo que nunca a deixarei!
Depois que ela conseguiu se acalmar mais foi para o quarto, tomou um banho quente e colocou roupas confortáveis. Desceu para a cozinha e encontrou a mãe tomando um café que Lupita tinha acabado de preparar para ambas.
- É tarde, Lupita. Volte pra cama.- Ana disse.
- Sim, señora.- ela respondeu. – Está mesmo tudo bem?- Lupita teve que perguntar.
- Sim, Lupita, não se preocupe.
A babá assentiu e deixou Ana e sua mãe a sós. Raquel apontou uma cadeira para que Ana-Lucia se sentasse e tomasse café quente também.
- Como se sente?- perguntou à filha, servindo-lhe uma xícara.
- Me sinto melhor.- ela respondeu.
- Sei que está abalada por tudo o que passou esta noite, mas hija, eu sinto que não foi apenas a sua experiência desta noite que a deixou assim. Eu notei desde cedo que você não estava bem quando chegou à Swat esta manhã. Cheguei a pensar em perguntar se você tinha condições de ir para missão de resgate do Hondo, mas achei melhor ficar calada porque sei que você se zangaria comigo se eu perguntasse o que tinha acontecido, então me diga Ana-Lucia, o que houve? Tem algo a ver com James Ford?
Ana mordeu o lábio inferior e por um momento pensou se contava tudo à mãe, por fim resolveu ser honesta com Raquel.
- Mama, ele foi embora.
- Foi embora? Pra onde?
- Eu contei a você que a mulher dele perdeu o bebê, mas, além disso, ela ficou sem memória. Parece que o trauma da perda foi muito grande e os médicos acharam que o melhor para a recuperação dela seria se eles voltassem para o Texas, para a rotina deles. Ela perdeu o filho, mas levou um bebê substituto com ela.
- Como assim um bebê substituto?
- O Sawyer me contou que o Jack, que acabou se envolvendo no caso e cuidou dela no hospital tem uma filha recém-nascida, a mãe dela morreu. Ele deixou que Kate levasse a filha dele para suprir o vazio que o outro deixou e assim ela se lembraria de tudo...
- Me parece bastante arriscado.- Raquel comentou.
- Mas o Sawyer quis tentar.- disse Ana. – Ele disse que gostaria muito que Kate recuperasse a memória e ficasse bem para que nós pudéssemos ficar juntos, mas eu...
- Você não acreditou nele.- Raquel concluiu.
Ana assentiu.
- Mama, assim que ele retomar sua rotina com a Kate, eu duvido muito que ele volte. Eu fui apenas um capricho pra ele, uma diversão!
- Como no passado?- Raquel retrucou. – Ana-Lucia, você por acaso contou a ele a verdade sobre Érica?
- Não!
- Pois devia ter feito isso. Sinceramente, hija, você se acha a segunda opção na vida deste homem, mas nunca se colocou como a primeira para ele. Está sempre fugindo. Se o ama então por que não luta por ele? Você não estaria destruindo o casamento dele se o casamento já estava se autodestruindo sozinho. Ana, Jack deixou que ela levasse a filha dele para o Texas. Você nunca me contou detalhes sobre a sua vida na ilha, mas sei que o Jack assim como a atual esposa do Sawyer também esteve lá. Isso me leva a crer que talvez não sejam apenas amigos. Caso contrário, ele confiaria que ela levasse sua filha recém-nascida para tão longe?
Ana-Lucia balançou a cabeça negativamente.
- Não quero ter esperanças, mama. É muito pior no final. Sei disso por experiência própria.
Raquel suspirou, sabia o quanto sua filha podia ser teimosa. Achou melhor não discutir com ela no momento porque Ana precisava descansar.
- Certo. E James mencionou quando pretendia voltar já que prometeu isso a você?
- Em algumas semanas, ele disse. Mas não vou ficar esperando.
- Descanse, Ana-Lucia. Pela manhã suas ideias estarão no lugar.
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Sayid caminhou pelo corredor em direção ao seu quarto de hotel. Só havia duas suítes naquela cobertura, a dele com Shannon e os filhos e a outra de seu cunhado Boone. Ele não notou, mas Boone viu quando ele retornou ao hotel depois das duas da manhã, o que era muito esquisito.
Boone vinha achando o comportamento do cunhado muito estranho ultimamente. Quando Shannon pediu-lhe para segui-lo, ele pensou que a irmã estava sendo infantil e ciumenta, mas agora decidiu que tinha mesmo algo estranho em relação à Sayid. Shannon lhe contara que o tinha deixado porque o tinha visto com outra mulher, mais especificamente com Nádia, a mulher que ele conhecera no Iraque e amara mais do que tudo antes de cair na ilha e logo depois Jade foi seqüestrada, e devolvida no mesmo dia pouco depois da irmã ter entrado em contato com o marido. Será que havia uma espécie de ligação em tudo aquilo?
Além disso, mesmo depois de Shannon ter aceitado Sayid de volta, ele ainda parecia continuar escondendo coisas dela, afinal por qual razão ele estaria retornando ao hotel às duas da manhã? Boone tinha suas dúvidas se sua irmã sabia aonde ele tinha ido. Resolveu que agora ficaria ainda mais atento do que antes. Se o cunhado tinha algo escuso a esconder, ele descobriria.
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Voltar à sua casa em Bexar County pouco mais de um mês depois de tê-la deixado, não teve o efeito esperado em James. Ele percebeu que não estava feliz em estar de volta à sua antiga vida porque em pouco tempo em Los Angeles, tudo tinha mudado tanto. Ele encontrara sua filha e agora era responsável por ela, Kate perdera o bebê que eles estavam esperando e o amor que aparentemente os unia parecia ter ido embora para sempre. James até mesmo se questionava o real motivo de ter se unido à Kate quando poderia ter lutado por Ana-Lucia.
Estando agora longe dela, a verdade lhe parecia tão clara. Ele sempre a quis, porém não como sua segunda opção, mas como primeira e o fato de ela tê-lo rejeitado no passado deixou-o tão frustrado e zangado que James preferiu seguir o caminho mais fácil e ficar com Kate, que parecia compreendê-lo e aceitá-lo pelo que ele realmente era. Embora aquilo tudo fosse falso, porque Kate nunca deixara de amar Jack Shephard. Por causa das indecisões e mentiras dela eles estavam amarrados um ao outro agora, naquela situação que embora fosse reversível, ele não fazia ideia do quanto iria durar. Kate parecia completamente alheia à verdade, apenas cuidando da filha de Jack como se fosse sua e exigindo que ele tivesse pela menina o mesmo carinho, pois acreditava que ele era o pai de Lara.
Ao partirem de Los Angeles, logo após se despedirem da mãe dela, Kate perguntou a ele por que Jack não apareceu para se despedirem deles. James informou a ela que ele estava em uma emergência médica, algo com Claire, mas essa parte ele não contou à esposa porque não queria confundir-lhe ainda mais a cabeça. Se ela não se lembrava de estar tendo um caso com o médico, provavelmente não se lembraria que Jack e Claire eram irmãos.
Na primeira noite deles em Bexar, quando James estava pondo Clementine na cama, ela perguntou ao pai:
- Papai, quando é que nós vamos voltar pra casa da Ana? Eu gosto da Kate, mas sinto falta da Ana e da Érica.
- Eu sei, docinho, eu também sinto falta delas, mas vamos precisar ficar aqui por algum tempo, lembra que eu disse que a Kate está doente e precisa da nossa ajuda?
A menina assentiu.
- Mas e a Lara? Ela é minha irmã?
Ele balançou a cabeça negativamente.
- Olha, Clemen, eu sei que é difícil de entender, mas a Kate perdeu o bebê que estava esperando, e isso a deixou muito triste.
- O bebê morreu?- havia uma nota de tristeza na voz dela ao fazer aquela pergunta, mas ao mesmo tempo ela parecia já estar se habituando à dor da perda desde que sua mãe morrera.
James apenas assentiu.
- Por causa do acidente de carro?- Clementine acrescentou e ele assentiu novamente.
- Eu sinto muito, papai.- a menina disse e se sentou na cama, abraçando o pai e procurando confortá-lo, o que surpreendeu James. Sua filha era mais forte do que ele pensava, talvez até mais forte do que ele que não conseguia imaginar como conseguiria agüentar viver naquele casamento com Kate, cheio de mentiras em prol da recuperação dela.
Depois de ler uma história para Clementine, James foi até o quarto. Kate já tinha posto Lara no berço que foi comprado às pressas no mesmo dia para acomodá-la. Agora ambas estavam adormecidas. Ele pensou em pegar um travesseiro e um cobertor e pensou em ir dormir no sofá da sala, mas resolveu que se fizesse isso não estaria cumprindo o que realmente fora fazer ali.
Suspirando, ele trocou de roupa e deitou-se ao lado de Kate que o abraçou instintivamente como costumava fazer antes. Em outros tempos aquele contato o faria sentir reconfortado, mas agora tudo o que podia sentir era um grande vazio dentro do peito.
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6 semanas depois
- Mamãe, você está doente?- perguntou Érica entrando no banheiro de repente e vendo a mãe debruçada sobre o vaso sanitário despejando todo o conteúdo do café da manhã.
Ana balançou a cabeça negativamente, tentando dizer à filha que não estava doente, mas esse simples esforço fez com que ela vomitasse outra vez.
- Mamãe... – Érica chamou, preocupada. Ana-Lucia fez um sinal com a mão direita para que a menina esperasse. Ela ficou recostada à parede de azulejos com um olhar ansioso até que Ana conseguiu erguer-se e puxar a descarga. – Você não gostou das torradas que eu fiz, mamãe?
- Adorei as torradas.- Ana disse com voz fraca. Naquela manhã de sábado havia sido Érica quem preparara o café da manhã. Ela estivera tão empolgada fazendo isso, mas agora parecia triste em ver que a mãe se sentira mal depois que comera a comida preparada pela filha.
- Mas você estava vomitando.- Érica insistiu.
- É apenas algo com o meu estômago, querida, não foi culpa das suas torradas.
Ana-Lucia lavou o rosto e a boca, mirando a própria palidez no espelho. Érica esperou pacientemente que a mãe acabasse e então a puxou pela mão, levando-a para fora do quarto e conduzindo-a até a cama:
- Vem mamãe, você precisa descansar. Eu vou cuidar de você.
Ela sorriu e deitou-se na cama, puxando Érica consigo. Não tinha que ir a lugar algum tão cedo, apenas marcara um almoço com a mãe por volta das doze, podia se dar ao luxo de descansar e dormir mais um pouco. Aproveitou que Érica estava bem quietinha e aconchegou a menina junto de si, fechando os olhos em seguida. Seu estômago continuava a dar voltas e voltas e Ana se sentia fraca e doente. Mas isso já vinha acontecendo há algumas semanas e a deixando muito preocupada. Mesmo que a possibilidade fosse muito remota, Ana começou a considerar algo que há pouco tempo atrás considerava improvável.
Notou que Érica tinha realmente adormecido e levantou-se devagar da cama para não acordá-la. Caminhou de um lado para o outro em seu quarto relembrando quantas vezes ela e Sawyer tinham feito sexo desde que o romance entre eles começara. Tinha acontecido quatro ou cinco vezes e em nenhuma dessas oportunidades eles usaram preservativo ou qualquer outra forma de prevenção. Ela não acreditava em nenhuma conseqüência para isso. Uma gravidez estava fora de cogitação tendo em vista as inúmeras tentativas que ela fizera com Danny para ficar grávida.
Mas ainda assim Ana tinha um pressentimento. Era estranho, mas sentia a mesma coisa que sentira na ilha quando desconfiou estar grávida de Érica. Um sentimento forte de que algo acontecia dentro dela. Algo que ninguém seria capaz de explicar. Como uma mulher antes considerada estéril poderia ter gerado uma criança? E quantas possibilidades haviam de gerar outra?
Ela ergueu a camiseta e tocou a própria barriga. Sawyer tinha ido embora há seis semanas, mas seu período não vinha há pelo menos oito semanas. Aliás, ela não se lembrava de ter tido um período depois que Sawyer voltara para a sua vida. Examinou o próprio corpo diante do espelho da cômoda. Seus seios estavam inchados e doloridos, assim como a sua barriga. Ela tinha atribuído o inchaço em seu corpo e o mal estar ao estresse com o trabalho e a vinda de um novo período menstrual, porém o que estava acontecendo com ela parecia ser uma coisa muito diferente disso e também muito familiar.
- Oh, droga!- ela exclamou abaixando a camiseta.
- Mamãe?- Érica chamou, despertando de seu cochilo.
- Que bom que acordou, meu amor. Vá buscar seu casaco e calce seus sapatos porque nós vamos sair.
- Já vamos pra casa da abuela, mamãe?
- Não, ainda não. Vamos passar na farmácia primeiro.
- Vai comprar um remédio para o seu estômago?
"Como se tivesse remédio para isso antes que complete 9 meses."- pensou Ana.
- Claro que sim, meu anjo. Depois iremos para a casa da vovó.
- Obaaa!- Érica disse com empolgação e deixou o quarto da mãe, correndo.
Ana também pegou seu casaco. Queria ter certeza se estava grávida o mais rápido possível para então começar a pensar no que iria fazer. Ela e Érica já estavam caminhando para a porta de saída quando o telefone tocou. A menina voltou correndo para atender e seu rosto se iluminou com um sorriso quando ela reconheceu a voz do outro lado da linha.
- Hey, sunshine!
- James!- ela gritou, eufórica.
- Ai, meu Deus!- Ana exclamou sentindo o enjoo aumentar e correndo para o banheiro de novo.
- Como você está, princesa?- ele indagou.
- Eu estou bem, mas a mamãe não está.
- O que houve com sua mãe?- James perguntou, muito preocupado.
- Está com dor no estômago e vomitou as torradas que eu fiz no café da manhã.
- Oh, Deus. Pobrezinha.- ele comentou. – Me deixe falar com ela, sim?
- Depois eu posso falar com a Clemen, James? Por favor! Por favor!
- Eu deixaria, querida, se ela estivesse aqui. Ela saiu um pouco com a Kate, mas digo pra ela ligar pra você mais tarde, certo?
- Tá bom.- Érica respondeu um pouco decepcionada. Vou chamar a mamãe. Ela está no banheiro vomitando de novo.
Érica largou o telefone e correu atrás da mãe que estava acabando de sair do banheiro no primeiro andar da casa. O rosto ainda mais pálido do que mais cedo e olheiras de cansaço em volta dos olhos.
- Mamãe, é o James ao telefone e ele quer falar com você.
- Diga a ele que eu estou ocupada.
- Eu disse pra ele que você estava vomitando.- Érica contou.
- Por Deus, menina, por que fez isso?
- Porque é verdade.- ela respondeu inocente.
- Ok, nós vamos conversar depois sobre o que se deve dizer e o que não se deve dizer para as pessoas.
Ana caminhou até o telefone e respirou fundo antes de atender:
- Alô?
- Oi, Lucy.- disse Sawyer carinhoso do outro lado da linha.
O sotaque e o tom de voz profundo da voz dele espalharam um rastro de ansiedade pelo corpo de Ana.
- Oi!- ela respondeu monossilábica. Ele vinha telefonando pelo menos uma vez por semana para ela, mas ainda assim o som da voz de Sawyer causava certa comoção nela, como se fosse irreal o fato dele estar ligando pra ela ou algo assim.
- Érica me disse que você estava vomitando. Você está bem, sweetcheeks?
- É só uma indisposição. Não é nada.
- Talvez você devesse descansar.
- Talvez.
James deu um suspiro irritado do outro lado da linha.
- Ora, vamos, Lucy, fale comigo!
- Estou falando com você.
- Então me escute.- ele pediu. – Todas as noites eu durmo me lembrando de como é sentir o seu corpo nu junto do meu, de como é beijar a sua boca e do jeito que você suspira quando eu te toco...estou com tanta saudade...
- Aham.- ela disse, teimosa.
- Ok, já vi que não vou ouvir nem um "Senti sua falta, amor." Estou ligando hoje pra dizer que volto pra LA em duas semanas. A saúde de Kate se estabilizou e nós começamos a conversar sobre separação.
- Entendo.
- Baby, eu vou repetir, volto em duas semanas e estou louco pra ver você. Duvido que continue monossilábica comigo quando me ver. Não vou dizer "Eu te amo" sabe por quê? Porque quero dizer pessoalmente ao seu ouvido, na cama...
Ana fechou os olhos como se estivesse tentando se teletransportar para aquele momento que ele mencionava, mas não disse nada.
- Vejo você em duas semanas.
Ela desligou o telefone e seu coração saltava de alegria dentro do peito. Sawyer estaria mesmo voltando para ela?
A muitos quilômetros dali, James também tinha desligado o telefone, mas não tinha percebido que alguém estivera atrás dele, escutando sua conversa.
- Com quem estava falando, James?- Kate indagou enxugando ambas as mãos em um avental de cozinha.
Continua...
