Olá, pessoal! Amanhã viajarei com a família para Penedo, volto só na segunda... Achei que não fosse dar tempo de postar aqui no FFNET (até tentei outro dia, mas o site estava bugado), mas diante de tantos comentários me incentivando (Claudia e Amanda Catarina, muito obrigada!), tive que dar uma pausa na arrumação das malas e entrar para publicar!
Bom, paro por aqui, boa leitura! Espero que gostem!


A Minha Queda Será por Você
Capítulo 48 - Luz


— E foi isso, majestades. Príncipe Diamante foi gravemente ferido. — Doryan terminou de narrar a breve batalha.

— E Crystal, nenhuma notícia dela? — Rini, abatida por olheiras preocupadas, questionou. Helios, tão arrasado quanto, abraçou-a.

— Majestades, se me permitem opinar, — Olho de Águia tomou a palavra — Acho que deveriam se refugiar em Elysium.

— Lamento ter que concordar. — O irmão mais novo de Damien confessou.

— Não arredo o meu pé daqui! — Rini protestou.

— Não podemos abandonar nosso lar, seria o mesmo que abandonar nosso povo, refugiado nos quartos, saletas, e porões.

— Com isso, eu é que concordo. — o antigo rebelde, Hakaru, deu as caras no salão. Durante o ataque à Tóquio de Cristal, ele ajudou a recolher pessoas no palácio. — E estou disposto a ajudar no que for preciso. — puxou um canivete do bolso do casaco.

— Você não tem poderes, é apenas um humano comum... — Olho de Tigre encarou-o, superior.

— Não me subestime, guardião de sonhos. Conheço essa laia lá fora melhor do que você, melhor do que as poderosas Sailors. — mirou o olho saudável na imagem transmitida por holografia no centro do cômodo. Alternavam-se os cenários, a escuridão dominava o que antes fora cristalino, Droids desfilavam em marcha pelas ruas em ruínas, as últimas folhas caiam das árvores enegrecidas, congeladas. As marinheiras, separadas, lutavam e lutavam contra as criaturas, embora não caíssem, estavam se cansando, eram humanas, afinal. — Se eu fosse você, "ex-rainha" ou sei lá que tipo de título você possui, recrutaria parte dessas mulheres de volta ao palácio. — fixou-se à imagem de Sailor Phantom a perfurar os inimigos com sua espada nórdica. — E, você, "ex-rei", dê um jeito de parar aquele tolo antes que ele acabe se matando. — se referiu a Damien, que atirava-se contra a barreira protetora do óvni flutuante.

— Mais respeito! — Olho de Tigre advertiu-o, estarrecido com a audácia.

— Ele está certo. — Helios surpreendeu a todos pelo tom sério e direto. — Rini, querida, acho que a melhor pessoa para convencer Damien a retornar ao palácio é Marine. Entre em contato com ela, por favor.

— Sim... — como os outros, Rini ofendera-se com o tom de Hakaru, porém achou inconveniente começar uma discussão. No pulso, ela usava um clássico comunicador cor-de-rosa em formato de relógio. Abriu-o e a mágica se fez. — Sailor Acqua, responda-me, por favor!

— Majestade?! — o comunicador de Marine,e o de todas as outras, era outro tipo de tecnologia. O som da voz de Rini soou do brinco de gota na orelha da Guardiã das Águas. — Diga! — enquanto prestava atenção nas recomendações ouvidas, rasgava ao meio um grupo de Droids com as pontas afiadas de seu tridente azul — Sim, entendo! Deixe comigo! — Correu até Damien, amparou-o em uma das incontáveis quedas.

— Sailor Acqua... — ofegante, sem perceber apoiou o queixo no ombro da mulher, o rosto foi coberto pelas madeixas louras. — O que faz aqui?

— Vim buscá-lo, meu rei. Venha, eu o ajudo a andar. — pôs o braço dele envolta do pescoço e ajudou-o a se levantar.

— Mas, Crystal...

— Descobriremos uma forma de resgatá-la quando você tiver recuperado suas forças...


— Aquele... ele está fraco, vejam só! Seria a hora perfeita para acabar com a raça dele! — Jade apontou a figura de Damien exaurido, caminhando devagar com o auxílio de Sailor Aqcua — Eu posso dar um jeito em ambos!

— Jade, príncipe Diamante não ficará nada feliz se acordar e não encontrar o rival vivo para propor uma revanche. — Topázio disse, não que estivesse preocupado.

— Se acordar... — Onyx frisou e sorriu para a Amazona, os olhos preciosos por sobre as lentes transparentes dos óculos insinuaram uma ideia.

— Não posso desperdiçar essa chance! — Jade ignorou Topázio, girou a lança e desapareceu das vistas dos dois homens.

— Não devia tê-la incentivado. — Topázio recriminou o cientista.

— Ah, vamos! Será divertido! — o "insano" deu de ombros.


Uma forte ventania cruzou o caminho da dupla que voltava ao palácio, no meio do percurso. Diante da pressão do ar misturada ao o peso de um rei cansado, os joelhos de Sailor Acqua ameaçaram se dobrar. Para manter-se de pé, ela fincou o tridente ao chão. Todos os músculos enrijeceram. Adiante, a oponente se mostrou, orgulhosa. O vendaval era provocado pelo giro de sua lança.

— Mas o quê? — os olhos marinhos vidraram-se no que estava por vir. Raios esverdeados nasceram dos ventos, concentraram-se em uma esfera de energia na ponta da lança, então Jade apontou-a na direção de Marine e Damien. Se a marinheira não tivesse reflexos rápidos, ela e o rei seriam incinerados. Tão logo a escrava alforriada atirou a "bomba" elétrica, Sailor Acqua jogou Damien para um lado e se jogou para o outro. Por onde o ataque de Jade passou, um rombo ficou no lugar, fumaça saiu do piso escaldante. O cheiro de queimado era insuportável.

— Você é rápida! — Jade admitiu despreocupada. Sailor Acqua, em resposta, saltou de onde estava e parou a milímetros de distância da oponente. O punho fechado mirou a face morena. A mão da amazona agarrou-o e o apertou firme — Mas eu também sou! — sorriu confiante e acertou o joelho no ventre da outra. O corpo de Marine curvou-se, o tridente caiu de sua mão. Jade chutou-o para longe.

— Sailor Acqua! — Damien ergueu-se e correu na direção das duas.

— Fuja! — a amiga disse, caída de joelhos.

Jade apontou a lâmina da lança para o pescoço de Marine, pronta para desferir o golpe. Quando a ponta cintilante da arma se roçou à pele rosada, a Sailor a conteve com as duas mãos. Marine era atlética, e incrivelmente forte, talvez tanto quanto Jade. A joelhada que levara na boca do estômago fora correspondida com um chute na barriga da adversária. No busto, Jade tinha a proteção da armadura preciosa, mas o abdome, por questões estéticas, tinha sobre si apenas o tecido preto da vestimenta. O salto da bota azul por pouco não se cravou ali, violento. A dona dos cabelos esverdeados caiu para trás, sem ar. Marine ganhou tempo para engatinhar até o seu tridente.

— Vadia! — Jade rolou pelo chão e agarrou o tornozelo de Sailor Acqua justo quando a aquática quase podia tocar sua arma. E, de repente, algo gelado tocou-lhe as costas por entre os fios verde-escuro, era a lâmina da espada de Damien.

— Solte-a. — grave, o rei ordenou. Afundou levemente a ponta de cristal, quase rachou a pedra da armadura da guerreira. — Agora.

A resposta? Um riso. Antes que Damien ou Marine tivessem tempo de julgá-la incoerente, o corpo de Jade envolveu-se de pequenos raios, estes se dispersaram ao redor e atingiram os inimigos. A descarga foi forte, e teria sido letal se os corpos de Sailor Acqua e Damien não fossem envolvidos por uma aura esbranquiçada, pueril.

— O que é isso?! — Jade arrastou-se para longe e tapou os olhos antes que a luz a cegasse.

No óvni, uma luz sutil, similar, envolvia Diamante adormecido, ela emanava do broche de Crystal sob os lençóis de cetim. A rainha, ajoelhada, sussurrava uma espécie de prece. A insígnia na testa brilhava, Saphiro e Quartzy observavam atônitos.

Damien caiu ajoelhado, dolorido. A armadura de cristal impediu que seu corpo se machucasse. Todavia, Marine teve graves ferimentos nos braços, pernas e tronco. Desmaiou à frente de seu protegido.

— Marine! — o sedniano a acolheu de pronto, afastou os fios de ouro do rosto da jovem e tateou-o — Marine! — tomou-a nos braços — Eu vou protegê-la. — fitou Jade, determinado. Acomodou Sailor Acqua ao piso, tomou a espada nas mãos e caminhou até a causadora do conflito. — Você! — suspendeu o queixo da mulher com o fio da Espada de Cristal — Eu poderia matá-la, mas ao invés disso, quero que retorne para o seu covil e leve o meu recado. Diga ao seu príncipe, se é que ele ainda existe, que ele perdeu. A Terra não pertence a ele, tampouco Crystal! — Jade riu.— Está fazendo pouco de mim?! — a raiva transtornou-o e ele acabou por arrancar um fio de sangue do pescoço da inimiga, nada grave, apenas inesperado.

— A Terra pode não ser dele, ainda. Mas, a rainha? Tem certeza? — arqueou uma das espessas sobrancelhas verdes, desafiadora.

Ah, aquelas interrogações... foram o cúmulo. Damien, no impulso da ira, ergueu a espada ao alto com as duas mãos e desceu-a com tudo. Os olhos, cerrados com força, não enxergaram o ato, talvez se envergonhassem. Ouviu o som de algo trincar. Era o piso. Jade havia sumido...


Com a mão no pescoço, desorientada, abriu os olhos e viu-se em cenário totalmente diferente, escuro. Os pés balançavam no ar, o corpo tinha apoio em algo rígido e frio, bastante familiar, ou melhor, alguém. Jade ergueu os olhos cor de mel e foi surpreendida pelos olhos dourados, duros, recriminatórios.

—... Topázio? — balbuciou.

— Inútil. Por pouco não teve a cabeça decepada. — apertou-lhe o corpo nos braços, bruto.

— Solte-me! — esmurrou os ombros dele — Onde está minha lança? O que fez com ela? — antes que ele respondesse, Jade viu a arma encostada à parede do corredor e se calou. Os braços que lhe davam suporte soltaram-na no nada. Caiu cambaleante, mas de pé. Silente, permaneceu a olhá-lo meio perdida. Os traços confusos denunciavam um enorme "por quê?".

— Não há de quê. — ele virou as costas e deixou-a as sós com suas dúvidas.


Damien, ainda trêmulo e confuso, juntou forças para se manter são e focado. A prioridade era cuidar de Marine. Pegou-a no colo e caminhou rumo ao palácio. Teve sorte de não cruzar com Droids durante a jornada, as outras heroínas estavam cuidando do assunto.


— Não deveria estar com seu irmão? — Onyx estranhou a presença de Saphiro no salão. — Ah, sim, claro! — coçou o queixo — Quartzy, a sua melhor amiga, o seu ombro, está cuidando disso! E, claro, sem pedir nada em troca... — não houve resposta, o príncipe mais novo passou por ele como se não o visse — Hum? — piscou os olhos repetidas vezes, atordoado — Ei, o que há com você?

Saphiro estava longe em pensamentos...


Você vê o que eu vejo? Quartzy lhe perguntou, os dois fitavam a luz compartilhada entre Crystal e Diamante.

O que significa isso?! ele ia interferir.

Não, espere! Quartzy pôs o braço a frente. Aquilo não é hostil, aquilo é... um milagre!

Do que você está falando?!

A rainha está curando o príncipe... está salvando-o!


"Salvando-o..." — Saphiro suspirou — "Por que ela faria isso, por que se importaria? É o seu espírito compassivo?" — os pensamentos evaporaram quando os olhos se prenderam a certa mocinha que costumava ser tímida. No exato momento, a mesma criatura que um dia fora inofensiva e doce, lutava fervorosamente contra os adversários. Cada Droid que Saphiro ajudara a construir derretia após o ataque das chamas vorazes: Golden Flames.

— De todas as Sailors, essa me parece a mais perigosa. — Onyx comentou.

— Então deve ser a primeira a ser eliminada. — Topázio chegou e logo se intrometeu.

— Ninguém toca nela. — Saphiro disse num impulso. — Quando o momento chegar, eu darei um jeito nisso. — retratou-se.

— Que seja! — o dourado bufou, indiferente. A seguir, direcionou um olhar misterioso ao cientista e tornou a se retirar do salão.


— Hum? — Aoi abriu os olhos, sentou-se subitamente. Olhou para os lados, e, na espaçosa cama, encontrou apenas a sua idêntica alaranjada em sono profundo. — A rainha! — fitou a porta entreaberta, tapou a boca com as mãos. — Essa não! — cutucou a irmã repetidas vezes — Akai, Akai! Vamos, acorde! — vendo que a Agatha de Fogo não despertaria tão fácil, deixou a candura de lado e acertou-lhe um tapa à face. — Akai! — exclamou.

— Ei! — acordou assustada e com a bochecha quente — Idiota, o que pensa que está fazendo?! — tacou-lhe um travesseiro e jogou-se por cima da Agatha Azul, estapeou-a como uma criança zangada.

— Akai, para! — Aoi protegeu o rosto com os braços — Akai, me escuta! A rainha escapou!

— Quê?! — ela parou, por segundos, surpresa. Em seguida, a "chuva de tapas" teve um novo início. — Sua incompetente! Olha só o que você fez! Por sua culpa, vamos levar bronca de nosso mestre!

— Mestre?! — Aoi petrificou atenta à porta.

— Além de incompetente é esclerosada? Já esqueceu do mestre Topázio?! — Akai ainda não se dera conta.

— Parem já com isso, as duas! — Topázio se aproximou bronqueando e parou à beira da cama, de braços cruzados, pomposo.

Ops! — Akai rolou para o lado, sentou-se "comportada" e gaguejou, sem jeito: — E-ela que começou, mestre!

— Mestre, perdoe-me! — Aoi jogou-se de joelhos a frente dele, tocou o nariz em suas botas douradas e suplicou: — Perdoe-me, foi minha culpa! A rainha...

— Dane-se a rainha! — interrompeu — Aoi, Akai, sigam-me. Vocês devem se preparar, pois precisarei de vocês, finalmente. — Deu as costas e começou a marchar.

— Sim, mestre! — a mais esquentada das meninas saltou da cama e pulou por cima da mais meiga.

Aoi, por fim, levantou-se silenciosa e de cabeça baixa. Em passos lentos, seguiu-os de longe. Diversos pensamentos enevoavam-lhe a mente e construíam novas dúvidas:

"Infância"... — observou adiante a irmã saltitar ao redor de Topázio — "Por que não lembro da nossa?" — suspirou angustiada, tomada por pressentimentos ruins.

Minutos depois, o trio parou diante de uma parede. Topázio, no meio, ergueu as mãos às duas servas. Submissas, elas as seguraram, cada uma de um lado. Puft! Sumiram, os três, como uma miragem. Materializaram-se em um lugar que Aoi conhecera há pouco tempo.

— Mestre, o que fazemos aqui? — os olhos azuis arregalaram-se assustados — Por que estamos no laboratório dele?! — abraçou a si mesma apavorada. Akai arqueou as sobrancelhas cor de abóbora, desentendida.

Topázio, calmo, passou a mão pela nuca de Aoi, os dedos desapareceram em meio aos fios azuis, o indicador apertou um ponto qualquer no topo da cabeça da menina e provocou-lhe uma súbita sonolência. Os olhos assustados foram consumidos por opacidade, a garota caiu no ato. Depois, antes que Akai o bombardeasse com perguntas, Topázio repetiu o toque na cabeça alaranjada. A outra garota também se derramou, ao lado da irmã. Ambas de olhos abertos, laranja e arroxeado, opacos. Gêmeas pálidas, imóveis, dividiram o piso negro como mórbidas bonecas de porcelana. O "mestre", inexpressivo, fitou ao centro do cômodo uma maca coberta, ocupada, acompanhada por outras duas ao redor, vazias. Respirou fundo e fitou as garotas caídas sobre o piso.


Depois de algumas horas, Marine despertou enfim.

— Majestade? — a vista, ainda turva, enxergou as formas de um homem de cabelos negros e olhos azuis, de pé, cuidando-a.

— Quase isso. — ele respondeu, ameno — Como se sente?

Ela sentou, devagar, roçou as mãos enfaixadas aos olhos e fitou-o novamente.

— Príncipe Doryan. — constatou primeiro, e depois: — Estamos no palácio... E o rei?

— Ele me pediu que cuidasse de seus ferimentos. Por pouco vocês não... — mordeu o lábio inferior — Bem, o importante é que agora estão a salvo. Descanse. — segurou-lhe os ombros impedindo-a de se levantar — Você e suas amigas vão precisar.

— Desde que os Black Moon chegaram, temos lutado e derrotado aquelas coisas... Mas, parece que quanto mais criaturas destruímos, mais surgem. É um ciclo sem fim! — Desabafou.

— Vocês são incríveis... Eu adoraria possuir ao menos a terça parte de poder que cada uma de vocês herdou, e meu irmão...

— Só fazemos o que devemos fazer! — Sem perceber, Marine corou. — E o rei, onde está? — retomou o assunto de maior interesse.

— Já recebeu cuidados, e agora se encontra ao lado dos pais da esposa, no salão real. Dê um tempo para seu corpo se recuperar, depois haverá oportunidade de reencontrá-lo. — Doryan sorriu singelo.

— Vocês são muito parecidos... — comentou ao reparar os traços do jovem príncipe. Depois, seus olhos marinhos perderam-se na última lembrança que tinha: a batalha repentina, a luz branca e envolvente, e o instinto protetor do regente. Como o admirava!

...Só o admirava?


— Sinto que Crystal, de certo modo, nos protegeu. — Damien contou aos que estavam no salão — A mim e à Marine. — suspirou saudoso.

— Sua suposição está certa. — Helios abriu um sorriso aliviado e orgulhoso — Crystal dividiu a Luz do coração dela com cada uma das guerreiras durante o treinamento, e com você, quando se casaram. E, se essa Luz os envolveu enquanto estavam em perigo, significa que nossa Crystal está bem!

— Mas não devemos contar com isso... — Rini, atribulada, chamou a atenção — Crystal está sob a influência do Cristal Maligno... Quanto mais tempo nossa filha passar no óvni de Diamante, mais fraca ficará, e acabará sucumbindo. A pureza de Crystal e as Trevas não podem coexistir... Aquele Cristal deve ser destruído o mais rápido o possível...

— Como destruir aquilo? — O rei de Cristal exasperou-se — Parece que brota do nada, como uma praga, e devasta tudo... Cidades, Planetas... tudo! — cerrou as mãos, rancoroso. Inevitavelmente lembrou-se de Sedna, do pai, dos conterrâneos.

— Tem que haver uma fonte de energia, uma principal... — Helios coçou o queixo — Uma coisa maior, usada para multiplicar esse cristal... Algo ou... alguém. — concluiu. — Querida? — estranhou a saída repentina da esposa. — Com licença. — Educado, reverenciou o marido da filha e seguiu os passos da mulher amada.

Rini correu até a enorme varanda, através do campo de força transparente, os olhos rubros refletiram o reino devastado, tão inóspito quanto Nemesis deveria ser. Nêmesis – inimigo – o nome do planeta negro carregava em si o significado esboçado no cenário fúnebre. Os lábios rosados estremeceram, a antiga rainha apoiou os cotovelos no mármore da sacada, cobriu os olhos e soluçou. O marido abraçou-a por trás, afundou o nariz nas largas madeixas róseas, tentando confortá-la.

— É minha culpa... — sussurrou lamentosa — É tudo minha culpa. — tremeu.

— Não, Rini, não vá por esse caminho. — beijou-lhe o ombro — Todos carregamos uma parcela de culpa.

— Sabe o que torna tudo mais difícil, Helios? — virou-se de frente ao esposo, afundou a face na branca seda de seus trajes. — As escolhas que fiz, péssimas! As escolhas que fiz não só por mim, mas por Crystal. Antes mesmo de sermos atacados, os anos que se passaram... Ver minha filha cumprindo o destino que eu quis, mas não ela. A coisa que pensei me fazer feliz, e que causou a infelicidade dela!

— Rini, Crystal e Damien se dão muito bem! São grandes companheiros, um não poderia reinar sem o outro! — tentava confortá-la — Damien deu forças à nossa filha, ajudou-a a se reerguer!

— Não minta para si mesmo, não cometa o mesmo erro que eu cometi! — repreendeu-o — Você é pai dela, conhece sua alma! Olhe nos meus olhos e diga que tem certeza do amor de Crystal por Damien, vamos! — agarrou-se à gola dele — Diga para mim Helios, faça-me esse favor! — implorou. Silêncio... — Está vendo? — afastou-se — Está vendo?! — cravou os dedos à cabeça, andou de um lado para o outro — Diamante se aproveitará disso! Diamante a despedaçará outra vez!

— Ou... — Helios parou antes de expor qualquer teoria. Sequer precisou, bastou aquilo para Rini entender.


A noite passou e deu início a outro dia sem sol, um dia noturno. A baixa de Droids foi considerável, as Sailors aproveitaram a vitória temporária para retornarem ao palácio e descansarem o pouco que pudessem. Sailor Nature uniu-se ao seu Tigrino, Olho de Água acolheu Sailor Saturno, Sailor Phantom tentou ficar sozinha, mas falhou, Hakaru sempre arrumaria um tempo para perturbar-lhe a paz. Sailor Ocean, mais abatida que o de costume, aproveitou as poucas oportunidades que teve para ver se Sailor Wind estava bem, não trocou palavras com a guardiã dos ventos, apenas olhares. Sailor Fire, sofrida, encerrou-se no mesmo coreto que a abrigara toda a época. A música ecoou nos tristes jardins, transpassou a barreira protetora, soou pelas ruelas destroçadas, pelo templo caído aos pedaços e pela praça desértica.

Saphiro, mesmo que não pudesse escutá-la, sentia algo estranho dentro do peito. De pé ao lado do trono vazio, assistia o Nada por holografia, solitário. De vez em quando Quartzy ia até ele comentar sobre Diamante, nada mudara, não durante a noite.

Foi durante alguma hora da manhã que os longos cílios do regente estremeceram, sutis. Crystal dormia ajoelhada ao pé da cama, uma de suas mãos segurava a dele.

— "Quente"... — ele sentiu, como um afago, a mão sobre a sua. Os olhos abriram-se devagar. Primeiro, avistaram o teto lapidado em negrume. Aos lados, ninguém, não em pé, todavia, sobre a cama, um broche, e bem perto dele, o rosto de Crystal apoiado sobre o próprio braço, as pálpebras avermelhadas, bochechas marcadas pelas lágrimas. Por último, as violetas cravaram-se na mão segurando a sua, firme. Diamante não esboçou reação, porque nem saberia como reagir ao inusitado. O que ela fazia ali? O que acontecera? Baixou o olhar, viu-se sem camisa, adornado por ataduras no peito até abaixo das costelas. Lembrou-se de quase morrer pelas mãos do rival. Os dentes rangeram-se, raivosos. Tentou sentar, grunhiu de dor. Embora a ferida tivesse sido tratada, não estava de todo curada. A voz grave e rancorosa alertou alguém do outro lado da porta. A maçaneta girou, Quartzy entrou.

— Príncipe! Até que enfim, que alívio! — exclamou alegre e saiu correndo, sem pensar duas vezes. Buscou por Saphiro.

Nesse meio tempo, Crystal despertou e deparou-se com Ele, sentado, a encará-la. O coração pulou dentro do peito, e mesmo que ela já fosse uma mulher de vinte e um anos, se havia uma característica que não mudara, sem dúvidas: sua espontaneidade. Um sorriso quase lhe rasgou as maçãs, num pulo ela jogou-se sobre ele e o abraçou, intensa. O choro molhou o ombro direito do príncipe, os dedos delicados afagaram-lhe os claros cabelos.

— Eu pensei que você fosse morrer! Tive tanto medo! — a rainha confessou. Ele gemeu, o abraço apertado provocara-lhe uma pontada no ferimento, sangrou um pouco. Ligeira, o soltou — Me desculpe! — arregalou os orbes oceânicos, apavorada — Ai, caramba! — espalmou a mão à testa, procurou ao lado da cama novas bandagens. Cortou as que enrolavam o príncipe com uma tesoura que encontrou na mesma bandeja onde jaziam ataduras novas e uma jarra preenchida pela poção curadora. Com o líquido, Crystal limpou o ferimento, depois tratou de cobri-lo de esparadrapos, como antes estava — Não se preocupe, vi Quartzy fazer isso várias vezes e...

— Por quê? — Diamante agarrou-lhe a mão e a apertou.

— Por que o quê? — parou tudo o que fazia e atentou-se às expressões surpresas do homem.

— Por que está cuidando de mim? Deveria lamentar por eu ter sobrevivido, deveria festejar o que seu Endymion fez comigo. — sentiu os dedos contraírem-se debaixo dos dele — Por quê?! — perguntou outra vez, irritado.

Crystal petrificou, depois engoliu seco tentando recompor-se. Tudo aconteceu tão rápido, ela sequer teve tempo de pensar em suas ações. Agiu por impulso, em nome de sentimentos remanescentes. Estava longe de sua razão, e ainda assim continuava.

— Eu não quero que você morra... — sentou-se à cama, à frente dele, rolou os olhos pelo peitoral pálido, enfaixado, o pesar materializou-se na respiração pesada e no olhar — Eu... — segurou o pingente dourado no pescoço. Cogitou abri-lo.

As violetas dilataram-se. Aquilo era emoção? Por que o peito esquentara? Por que o cérebro teimava em recordar momentos há tanto tempo guardados, esquecidos? A grama verde, a menina pura e sorridente, aquela que o fizera conhecer a vida, a reciprocidade? Era aquela menina, ali, diante de seus olhos? Alguma coisa, um resquício dela, crescida, embelezada pelo vestido lilás, as ondas castanhas mais longas e comportadas, esparramadas pela cama. Era sim, a sua menina.

— Crystal... — roçou-lhe a bochecha com as pontas trêmulas dos dedos, ela corou instantaneamente. — Você... — inclinou-se um pouco para poder estar mais próximo. Ela não o repeliu.

— Irmão! — Saphiro, enfim, chegou. — Que bom que acordou tão rápido! — O entusiasmo foi tanto que o caçula não notou o que acontecia o no quarto, no entanto, um pouco atrás, Quartzy observara, Crystal percebeu.

— Saphiro... — Diamante, zonzo, esboçou meio-sorriso. Sua mão libertou a de Crystal e deslizou sobre a cama. A rainha, de volta à realidade, levantou-se às pressas e se afastou. Diamante viu-a sair do quarto, afoita — Pensei que eu não sobreviveria. — disfarçou a confusão no tom eloquente — Pode me explicar melhor o que aconteceu?

— O rei de Tóquio de Cristal refletiu o seu ataque telecinético contra você e se aproveitou de sua paralisia para acertá-lo, meu irmão. Quartzy fez uma de suas poções para curá-lo! Ela se esforçou muito pelo seu bem estar! — mirou-a satisfeito.

— E... príncipe... — a mocinha deu um passo à frente, reverente — A rainha zelou por você o tempo todo, não quis sair de seu lado — Pegou nas mãos o broche que Crystal esqueceu sobre a cama. — Ela ajudou a curá-lo mais rápido, talvez tenha até mesmo o salvado.

— O que Quartzy fala é verdade. — Saphiro reforçou, embora o semblante transmitisse desconfiança — A rainha de Tóquio de Cristal, não sabemos como, conseguiu usar seus poderes em você.

— Isso não faz sentido! — o Príncipe Branco alterou-se — Como ela conseguiria usar o poder da Pedra Mística aqui? E por que usaria para salvar a mim?!

— Acho que, no fundo, o senhor sabe. — Quartzy acabou soltando a pérola. Saphiro e Diamante encararam-na espantados.


— O príncipe acordou. — Onyx anunciou a Topázio. — Devemos voltar ao óvni principal o mais rápido possível para não criar suspeitas.

— O processo será demorado, não é mesmo? — cravou os rígidos olhos militares nas duas jovenzinhas imóveis, deitadas sobre as macas.

— Um pouco, se quer que fique perfeito. — o gênio conectou aos braços de Aoi e Akai diversos soros, não foi piedoso no instante em que as furou, tampouco quando, pelos tubos, fez escorrer o líquido negro direto para o organismo das gêmeas.

— De todos os presentes que ganhei, esse com certeza foi o melhor. — não sorriu, não franziu o cenho, nada. Observou o procedimento como quem assiste a um programa de televisão aos domingos.

— Agora é só deixar rolar. Voltemos ao salão e finjamos que nunca saímos de lá. — ajeitou a luva branca nos dedos mecânicos.

E se foram.


Crystal, palpitante, correu pelo escuro corredor, sem rumo. Cada articulação enrijecera, ela suava frio e ofegava. Cansada, apoiou as costas à parede e inspirou profundamente. Os olhos dele, os sorrisos, o hálito de vinho, as recentes expressões confusas naquela face alva e cruel... Recentemente, Diamante fizera promessas perversas, ele tomar-lhe-ia a vida, a alma, tudo, e não se daria por satisfeito. Ele a humilhou, a fez ajoelhar-se, jurou trazer-lhe a cabeça da mãe como prêmio! Não podia sentir aquilo por ele, de jeito algum! O rebuliço no baixo-ventre, o ar que lhe escapava, e o coração selvagem, desobediente, ansiavam por ao menos um toque, um gesto, uma noite de amor.

"Damien" — a consciência gritou, voraz. Mais uma vez, Crystal correu sem direção e derrapou à entrada do salão onde Topázio e Onyx se reuniam. Tudo o que a neta de Serena não era: discreta. Tropeçou no próprio vestido e caiu com tudo no piso deslizante. Os homens a encararam, Onyx gargalhou, Topázio julgou-lhe de mal a pior em pensamentos.

Isso é a rainha de Tóquio de Cristal?! Isso é a princesinha, aquela ratinha chorona?! — Onyx lacrimejou de tanto rir.

— Você... eu conheço essa voz! — levantou-se cambaleante e apontou-lhe o dedo indicador — Era você quem eu ouvia, naquele dia, quando a cidade foi atacada por um ser de gosma! — pasma, deu um passo para trás — Você mandava aqueles seres de piche, você contaminou os cidadãos do reino com energia maligna!

— É um prazer vê-la ao vivo e a cores, Majestade! — debochado, reverenciou-a, e num salto, aproximou-se o suficiente para puxar-lhe a mão e beijá-la cordialmente. — Você estava linda no dia daquele discurso, no palanque...

— Dia do discurso... — os olhos dilataram-se aos poucos, Crystal empalideceu.

Eis a resposta do príncipe ao seu perdão! — A lembrança se confundia com o presente, como se acontecera há segundos atrás. Crystal recolheu a mão bruscamente, o ar pareceu rarefeito. Por dentro, uma espécie de frio cortante a consumiu.

— Tem boa memória, que maravilha! — Onyx aplaudiu.

— Foi você quem fez aquilo! Não foi Diamante! Você me atacou! — bradou.

— Eu?! — riu-se — Eu passei a mensagem do príncipe, somente isso. Por favor, não me jogue a culpa! O brinco, afinal, era dele. Não era? — levantou os óculos e deixou-os sobre a cabeça, como uma tiara. As madeixas negras arrumaram-se para trás.

A rainha prendeu o olhar no cientista, depois observou o homem dos cabelos e da armadura dourada, a quietude que intrigava. Havia algo de muito errado ali, a pele arrepiava-se em contato ao ar frio e às Trevas a espreita, personificadas em duas figuras. Nada mais foi dito entre eles, Crystal retomou a jornada de correr para sabe-se lá onde. O Cristal Negro já lhe dificultava os passos se andava, correr era pior. Os olhos pregaram-lhe uma peça, não enxergaram o fim da reta, e a reta fez-se em curvas, em espirais. O corpo da jovem adulta escorreu como se feito de manteiga fosse. Arfante, caiu sentada e sentiu o espírito querer escapar do corpo. Determinada, apoiou as mãos na parede e, zonza, caminhou até encontrar a sua "gaiola dourada" – o quarto preparado para seu eterno descanso e desgosto. Caiu feito papel sobre a cama, outra vez tudo girava, entretanto não havia o peito de Diamante para ampará-la. Apertou os lençóis da cama, e... O que era aquilo? O broche, apetrecho que só agora Crystal lembrava ter esquecido no quarto do amado vilão. Tomou-e em mãos, virou-se de peito para cima e afundou-o entre os seios, assustada. Depois, passou a mão pelo pescoço e algo ali faltava. O cordão! O pingente! Levantou-se de súbito, começou a procurar por todos os cantos possíveis, quando desbravaria o corredor mais uma vez, deu-se com Quartzy.

— Majestade, agora que o príncipe está bem, posso cuidar de você. Por favor, siga-me. — estendeu-lhe uma mão.

E negar para quê? Conformada, Crystal deu a mão à Quartzy e juntas entraram na luxuosa prisão: a suíte real feita para a cativa. Além do quarto elegante, provido de uma cama imensa coberta por véus de cetim, uma penteadeira cujo espelho era emoldurado em ouro, havia também o banheiro extenso, no centro uma grande banheira redonda, na água flores flutuavam –azuis e brancas –, paredes de espelhos contornavam o lavatório, uma pia dourada em bancada de mármore, e, claro, um clássico "trono" compunham o cenário.

A serena nemesiana desamarrou calmamente as fitas nas costas do vestido de Crystal, depois, desceu-lhe as mangas e delicadamente abaixou-o. Novamente, a rainha viu-se despida diante da acompanhante. Tímida, jogou parte dos cabelos – soltos por Quartzy – sobre os seios maduros, e a feminilidade ela cobriu com as mãos.

— Certa vez vi uma obra de arte de seu mundo... Hoje a comparo com você. — ajudou-a a descer as escadas da piscina, até que o corpo de Crystal, relaxado, adentrou as águas mornas — A Vênus, Deusa do Amor e da Beleza, saída da concha. — corou.

— Hina combina mais com isso do que eu! — Crystal riu embaraçada.

— Hina... — o nome soou familiar. Ah sim! Saphiro contou sobre ela... — Hina. — suspirou entristecida.

— Hina, minha melhor amiga... — Crystal apoiou os braços à borda da banheira — Vocês se parecem um pouco, assim, no jeito de ser.

— Verdade?! — de alguma forma, o comentário da rainha a animara. Quartzy sorriu cheia de esperanças.

— Sim. Vocês são meigas, tímidas, pacíficas e... companheiras. — mergulhou a cabeça dentro da água aromatizada.

"Será que por isso o príncipe Saphiro me trata tão bem?" — divagou — "Será que eu conseguiria fazê-lo esquecer-se do amor passado?" — guardou suas questões no coração, teve medo de dividir com a rainha, por maior simpatia que tivesse por ela. Afinal, Hina era a melhor amiga de Crystal, antes de qualquer coisa. Pensar nisso fez Quartzy sentir certa culpa. —Majestade, sua camisola e roupão estão pendurados ali — apontou — se precisar de mim, estarei por perto. Bom descanso.

Depois do banho, Crystal enxugou-se e fez como Quartzy indicou. Puxou do cabideiro uma longa camisola de cetim cujo decote era bordado em renda transparente, as alças, finas, enfeitadas por pequeninas pérolas. Depois, por cima, vestiu o roupão, completamente transparente, adornado por bordados em pequenos brilhantes. Para que tamanho glamour em uma prisioneira? Aliás, há quantos dias estava ali dentro? O que se passava na cidade, com seus amigos? Tantas questões fizeram-na esquecer-se do item que perdera em algum canto daquele covil. De frente para o espelho, viu-se diante da mulher que havia se tornado – uma soberana, um exemplo, um ídolo, um símbolo. O seu interior, por anos, esvaziou-se a ponto de tornar-se oco, concluiu. Detestava espelhos. Virou-se de costas, as ondas soltas cobriram-lhe a face envergonhada. Exausta, encontrar-se-ia com a cama, mas a presença de outro ser sombreou o piso por onde ela passava. Como um espelho negro, o chão refletiu as roupas brancas, a capa escura, a pele pálida e os cabelos de céu:

— Diamante! — como sempre, as batidas aceleraram num frenesi cardíaco. Ele cambaleou, ainda prejudicado. Ela, sempre impulsiva, segurou-lhe os braços. Frente a frente, olharam-se incansáveis, como se buscassem por respostas imprevisíveis. Crystal encontrou uma: o cordão dourado enlaçado nos dedos dele. A garganta secou, fitou-o nos olhos de novo, as violetas nada revelaram. — Vamos, fale logo alguma coisa... — murmurou apavorada, as palmas gelaram.

— Deixou isso cair no meu quarto. — ergueu a peça, o coração dourado refletiu o rosto dela.

— Devolva, por favor... — diferente das outras vezes, a voz soou passiva, falhada. A mão dela estendeu-se, pedinte. Diamante, quieto, depositou a joia ali. — Obrigada. — suspirou aliviada.

— Como conseguiu usar seus poderes em mim? — sem desviar o olhar ou sequer piscar, vomitou a pergunta.

— Eu não sei, eu... — calor, sublime, cresceu por dentro dela. — Eu só quis que você ficasse bem! — virou-se para o outro lado, insegura, assustada e estremecida.

— Não preciso de sua piedade! — puxou-a pelo braço e girou-a de frente para si. O pequeno esforço fê-lo curvar-se de dor. Crystal o amparou.

— Você não deveria estar de pé, ainda não está bem o suficiente! — induziu-o a sentar-se à cama. Diamante riu, seu hálito chegou às narinas de Crystal — Está bêbado! — bufou enraivecida. — Deite-se, já! — pegou-o pelos ombros e posicionou-o de lado, sobre o leito. A mão dele alcançou o queixo dela, e depois, os lábios. — Diamante, durma... — insistiu, e o indicador pálido pressionou-lhe a boca, calando-a.

— Você é minha, lembra? — entre um soluço e outro, disse. — Tudo em você é meu, até essa bijuteria que Endymion deu a você me representa.

— Não fale bobagens! — repreendeu-o.

Diamante, mesmo sem muita coordenação, sentou-se a encará-la, tomou-lhe da mão o cordão e... Tic! Abriu o coração dourado, a imagem deteriorada pelos anos foi revelada: Ele, ilustrado, a Lua Negra tão nítida quanto o olhar dele estava naquele momento.

— Você é minha. — repetiu sorridente. — A sua Luz é minha. — afastou uma larga mecha que cobria um dos olhos dela e a pôs para trás da orelha. — Somente minha.

— Eu fui sua, um dia. — estufou o peito, fingindo-se de indiferente, porém, os olhos cintilavam marejados — Essa Crystal não existe mais. — ergueu a mão esquerda e exibiu a aliança matrimonial.

As mãos impetuosas agarraram-lhe o pescoço e roubaram-lhe o ar, tão repentinas quanto um raio. Ela caiu, presa nas garras do lobo, e ainda assim, sorriu.

— Por que está me olhando desse jeito, por que está sorrindo?! — feroz, afundou os dedos na pele e deixou-lhe hematomas — Não tem medo de morrer?!

— Não... pelas suas mãos. — fechou os olhos, amoleceu os braços e as pernas e... foi liberada. O corpo pediu por ar, ela tossiu e contraiu-se sobre os lençóis, Diamante, em cima, tentava analisá-la. — E agora, como pretende me torturar? — soou natural.

— Por que guardou uma foto minha se me esqueceu, se resolveu se entregar a outro? — inclinou-se sobre o corpo dela, rendeu-a ao encurralá-la com os braços, punhos fechados sobre o colchão aconchegante, Crystal não conseguiria fugir.

— Isso realmente tem alguma importância para você? — destemida, olhou-o no fundo dos olhos. A mão bestial prendeu-lhe o queixo, os dedos apertaram-lhe as mandíbulas e forçaram-na a entreabrir a boca. Crystal percebeu as intenções de Diamante. O príncipe devorava-a com os olhos. Primeiro fixou-se nos seios crescidos, contornados pelas rendas românticas, depois, na cintura afinada, nas pernas torneadas, desenhadas pela seda nobre e, por fim, a boca adulta, úmida.

— Será que você ainda tem o mesmo gosto? — se perguntou em voz alta. As pontas dos cabelos celestes se roçaram à face rosada da rainha.

— Não se atrev... — a voz foi engolida pela língua morna do príncipe, que, inconveniente, entrou e se esfregou na outra, contornou-a, enredou-a, e quando não houve mais movimentos, os lábios do Black Moon tomaram o espaço e sugaram-na, ansiosos, encaixaram-se à boca protestante, calaram-na... e calaram-na novamente.

Crystal esmurrou os ombros firmes, empurrou o peito sem tomar cuidado com a ferida. Nada o parou, pelo contrário, a resistência o incentivou a prolongar o beijo roubado. Os dedos vis agarraram-se à nuca e repuxaram o cabelo castanho. A cabeça da regente desgrudou do travesseiro. A outra mão do príncipe, provocativa, apalpou um dos seios macios firmemente. Crystal, quase a ponto de ceder, tomou uma medida drástica: mordeu o lábio de Diamante com tamanha força que arrancou-lhe sangue. Pasmo, num pulo, ele se sentou e passou a mão pela boca, o sangue desenhou-se no dorso da pele alva. Ardência na carne, ardência na alma. A raiva lhe subiu a cabeça. Segurou-a pelos cabelos, os rostos estiveram próximos como antes, ambos arfantes. Diamante, sem cerimônia, encaixou a mão entre os seios de sua antiga princesa e sentiu-lhe o coração prestes a explodir. Sorriu. Crystal, estarrecida, arrancou-a de lá e esbofeteou a face dele. O belo rosto principesco virou ao lado, a franja cobriu a faixa sobre a Lua ferida e as violetas infernais, a maçã rosou pelo atrito. Ele a alisou e sentiu-a quente. Riu. Tornou a olhá-la.

— Dividiu sua Luz comigo, agora estou vivo, e pronto para cumprir com a minha palavra. — o riso se fechou — Não pense que voltarei atrás, Rainha Crystal, reencarnação de Nova Rainha Serena. Destruirei cada ente querido seu, e por fim, tomarei a sua vida com as minhas mãos. Está arrependida? — elevou-lhe o queixo com o polegar.

— Não. — diferentemente dele, os dois oceanos exibiram calmaria e melancolia. Nada de raiva e remorso, ao menos não por tê-lo salvado a vida.

Diante da resposta incoerente, Diamante viu-se desarmado. Não discursou mais, não tentou agarrá-la a força ou feri-la. Silencioso, levantou-se da cama. Cambaleou de leve, porém logo readquiriu o equilíbrio e sumiu das vistas da rainha.

Só, Crystal fitou sobre a cama a joia de ouro e o broche. Segurou o segundo nas mãos e focou-se na pedra cravada em seu interior. Concentrou-se a tal ponto, que pensou ver a avó chorosa através da joia mística. De supetão, largou o apetrecho em meio aos lençóis e se jogou no leito, encolhida. Procurava respostas, e não mais perguntas. Enquanto isso, o corpo ainda sentia o peso de Diamante sobre si, a boca ainda sentia o gosto alcoólico do beijo e o coração pedia por mais. Não era justo, pensava! Durante anos ela conseguiu adormecer todos aqueles sentimentos e focar-se apenas no dever que a seu destino cabia, e bastava o fantasma do passado bater-lhe a porta para a fortaleza desmoronar como se de areia fosse.

— Preciso sair daqui o mais rápido o possível! Se eu ficar aqui, um pouco mais, perto dele... Não vou aguentar! — cobriu-se toda, e se conseguira evitar por pouco tempo que fosse, já não tinha mais forças, acabou-se de chorar.


— Preparem a sala de jantar! — com a dicção tão alterada quanto à coordenação para andar, Diamante já chegou exigindo.

— Acho que alguém exagerou na bebida! — Onyx não perdia uma.

— Com tantas coisas importantes para se fazer, a sua ordem é essa? — Topázio resmungou.

— Não me ouviram? Eu quero que preparem a sala de jantar! — bradou, impaciente.

— Irmão, para que tudo isso? — Saphiro puxou-o pelo braço e fê-lo abraçá-lo de lado, dando-lhe apoio — Você não está bem, vá dormir. Há muito a se fazer, as Sailors conseguiram derrotar nossos Droids e se recolheram no palácio, esse é o momento ideal, devemos aproveitar que elas estão fragilizadas e atacar o palácio de Cristal!

— E eu tenho bons planos. — Topázio confessou.

Nós temos! — Onyx jamais perderia a chance de se autoafirmar.

— Ótimo, ótimo! Ponham em prática! Mas, enquanto isso, preparem-me a sala de jantar para mais tarde, já!

Saphiro, constrangido, tratou de arrastar Diamante dali antes que o príncipe branco desse mais motivos para os súditos debocharem de seu comportamento. Quartzy, para ajudar, encarregou-se de arrumar a tal sala de jantar.

Onyx e Topázio, com a carta branca em mãos, trocaram sorrisos. Jade, dessa vez, não se alterou ou atirou pedras na dupla, pelo contrário, se chegou ao "antro" e, entusiasmada, perguntou:

— Qual é o plano?

Continua...


Notas:
E, então, nosso príncipe Diamante reassume um comportamento obcecado, digamos que doentio. Não poderia faltar, faz parte do charme dele, e eu estava com saudades de escrever cenas em que ele e Crystal estão juntos. Já terminei de escrever o próximo capítulo, falta apenas editar. Adianto que vai ter BASTANTE sobre Diamante e Crystal! Ai, que lindo!AMEI escrever!
Claudia, adorei seus últimos comentários, suas sugestões são ótimas! Bem, eu tenho a história pronta na cabeça, e tem coisas que você sugeriu que... – cof, cof – "maybe". ;)
Até o próximo, pessoal!
Kissuus!