Capítulo L — Mówáng

Era para que eu me encontrasse muito entediada e nervosa, mas todo aquele estudo para fundar o instituto de pesquisa para o Nagi estava servindo para me deixar concentrada e ignorar o fato de Sesshoumaru ter sumido da face dessa terra. De novo. Realmente não entendo o que ele tem tanto para fazer que torne necessário simplesmente sumir, ainda mais depois de ser um infeliz maldito desalmado e adiantar minha prova de especialização. Sorte dele que eu consegui passar com mérito, ou iria fazer da vida dele uma ode ao Hades. Mas como não podia fazer isso, comecei a executar meu plano de encher o escritório dele de papeis-adesivos. Ele não queria que eu estudasse? Pois bem, agora que leia tudo que achei nos livros que estudei durante esse tempo.

Nesse momento em questão eu não estava estudando, porque também sou filha de Deus. Estava em uma lanchonete, bebendo café, e me sentindo aflita. Era, talvez, a centésima vez que eu mandava mensagens para Ruri, em mais uma tentativa de entrar em contato com ela. Eu estava cansada de ter notícias dela apenas por Kenjiro e Arusa.

Falando no meu amigo, eu prendi a respiração instintivamente ao vê-lo sentar na cadeira a minha frente. Havia tido esperanças de que ela me responderia e viria ao meu encontro.

— Ela não conseguiu. — ele respondeu simplesmente, soltando um suspiro cansado. — Acho que o choque da perda foi tão grande que ela não consegue mais lidar com a família dele. No fundo, ela acha que a culpa de Yuri estar morto é de vocês.

Às vezes Kenjiro era tão sutil quanto um ogro. Eu sabia que era esse o motivo, mas jogar assim na minha cara foi doloroso. Encarei meu copo de café, perdendo toda vontade de bebê-lo, mesmo naquele frio.

— Ele era seu primo, não é? — Voltei minha atenção para o meu amigo. Seria difícil explicar para ele que todos as pessoas mais próximas ao Hideo são dos ramos familiares principais do clã, o que acabava gerando uma situação em que todos fossem parentes próximos.

— Sim.

— Eu acho que ela está sendo um tanto egoísta, mas quem pode julgá-la? Só sinto pena de você, por não ter sua dor considerada. — Abri a boca para contestar, mas ele ergueu a mão e continuou. — Mas entendo que ela o amou demais e a forma que ela lida com a dor é se afastar de tudo que o lembra. — Ele suspirou. — É o mecanismo de proteção dela.

— Acho que perdi os dois ao mesmo tempo.

— Não. — ele não soou muito convincente. — Ela só precisa superar a perda. — Eu o encarei. — Bom, vamos mudar de assunto... Como você está?

— Continuando. — respondi, sentindo-me aflita e um pouco zonza. Ninguém havia me perguntado isso desde que saí de Sapporo. — Quer dizer, eu não posso mudar as coisas, por mais que eu queira. Nunca vou superar de fato a perda, eu amava Yuri, o admirava. Aprendi muito... Ele até mesmo me ensinou a desbloquear canais na TV a cabo. — Respirei fundo, sentindo aquele aperto no coração. — Perder ele assim, sem ter tido uma última conversa banal de despedida... Quer dizer... Ele simplesmente foi arrancado de nós e aprender a lidar com isso tem sido realmente difícil. Acredito que meu mecanismo de defesa esteja fazendo com que eu esqueça o fato e fique recordando as coisas boas, com aquela estranha sensação de a qualquer momento ele vai ligar e assim iremos sair para beber, como fazíamos.

— Você não quer esquecer, apenas quer lembrar de tudo de bom que viveram? — ele questionou, levei uma fração de segundos para responder com um aceno afirmativo.

Precisei me controlar e não falar que estava mais acostumada que a Ruri a perder pessoas amadas subitamente. Afinal, em um momento eu estava na Era Feudal, ajudando Inuyasha, Miroku e Sangô, no outro momento estava na minha era, sem eles, apenas com a sensação de que eles estavam perdidos para sempre.

Soltei um suspiro cansado, enquanto Kenjiro tocava minha mão, iniciando uma carícia com um sorriso amigável. O encarei por um certo momento, certa de que de agora em diante nossa convivência seria cada vez mais rara e me forçando a aceitar que a vida era dessa forma, que temos apenas que seguir, pois nem tudo depende de nossa força de vontade.

Sorri fracamente e perguntei como ele estava; o resultado foi uma narrativa de sua vida amorosa.

Ao chegar em casa, sendo seguida por Dmitri (afinal esse aí não sai do meu pé), eu fui para a cozinha e comecei a colocar os imãs de geladeira que havia comprado no percurso de volta, acho que ouvi o hanyou ao meu lado resmungar um "não pode ser", mas resolvi deixar isso para lá. Fiquei espalhando os imãs, meio distraída e demorei a perceber que uma das criadas estava parada ao meu lado, foi necessário que Dmitri me cutucasse e indicasse a coitada com a cabeça.

— Desculpe. — falei me voltando para ela, que se encolheu e corou furiosamente. Quase perguntei se ela estava bem, mas sempre que eu tentava conversar com alguma delas, a única resposta que eu recebia era "por Lourdes" antes de fugirem de mim, então desisti da ideia.

— Chegou uma encomenda para a senhora. — Então notei o pacote em sua mão. Eu o peguei, curiosa. Quando fui agradecer, ela já havia se afastado com o "por Lourdes" mais rápido que eu já tinha ouvido.

— Encomenda? — questionei colocando pacote no balcão, comecei a abri-lo, deparando-me com a embalagem de um daqueles perfumes ultra caros de comercial de TV por assinatura. — Mas...

Peguei o cartão, que estava sobre a embalagem do perfume. Era um cartão comemorativo, com a imagem de uma árvore de cerejeiras no pôr-do-sol. Que bonito. Abri e encontrei a mensagem:

"Por ter sido tão prestativa em me auxiliar aquele dia, segue um presente para demonstrar minha gratidão.

Diga ao seu marido que o presente também se dirige a ele pois achei a senha do servidor dele muito linda.

Beijos, pense em mim, gata.

Richard Grimlock

PS — meu kanji anda meio enferrujado, meu telefone fica na agenda pessoal do seu marido, ligue se houver dúvidas (ou sem dúvidas)"

Franzi o cenho, havia muita coisa confusa naquela questão: eu estava recebendo presentes de um homem que não conhecia; o que ele quis dizer com senha linda; esse homem tem problemas, e, por último, ele sabia falar japonês! Se era assim, para que me obrigar a conversar em inglês, sua criatura maldita?!

Peguei o perfume e borrifei um pouco no meu punho... Seja quem for esse Richard, ele tem muito bom gosto.

Bati na mão de Dmitri quando ele começou a tirar os imãs da geladeira. Com uma careta que era para assustar (mas acho que não assustei), saí da cozinha no intuito de ir até o quarto e vestir roupas mais confortáveis, no entanto, parei de andar com o chamado de Dmitri: meu celular estava tocando dentro da bolsa que havia abandonado na cozinha, voltei para atender.

Qual o seu problema? — foi a pergunta indignada.

— Boa tarde Kai, que bom que ligou, também estava com saudades.

Seu rabo. — Questionei-me seriamente se isso era apenas ofensa gratuita ou se era alguma espécie de gíria de lobo. Por questões de manter o bom convívio, optei pela última opção. — Venha aqui que eu estou cansado de espancar esse yaoguai filho de uma lebre perneta.

E desligou na minha cara. Sério, eu vou pagar um curso de etiqueta básica para esse cara. Ou então alugo uma mãe. Uma mãe com um rolo de macarrão, porque nada dá mais medo que uma mãe segurando um rolo de macarrão.

Suspirei, olhando para o celular. Eu estava me sentindo mal pelo tigre. Sim, eu sou dessas que sente pena de alguém que tentou me matar. Não consigo me sentir feliz de saber que, querendo ou não, o fato de ele estar sendo torturado é culpa minha.

Sem saída, fiz o que Kai mandou: fui para a Yakuza. Com o Dmitri a tira-colo, afinal, ele é como um acessório, não posso sair de casa sem ele...

Vou perguntar se ele me deixa decorá-lo.

...

Kagome, foco.


— Descobrimos quem ele é, mas não que ele tenha aberto a boca para dizer. — disse Kai, enquanto me acompanhava pela escada sob o alçapão que levaria ao galpão inferior da Yakuza.

— E quem ele é? — questionei.

— É o Segundo Mówáng. — Ele percebeu minha confusão e revirou os olhos, aparentemente controlando-se para não me chamar de idiota — Mówángs são Reis yaoguais. Eles controlam grupos de yaoguais menores, praticamente igual aos Senhores. Exceto, talvez, entre os próprios Reis, já que há uma hierarquia de liderança. Ele é o segundo na linha de sucessão. O primeiro é Niu Mo Wang, o Grande Rei Touro.

Franzi o cenho, tendo a impressão de já ter ouvido este nome em algum lugar. Obriguei-me a deixar essa questão de lado e me concentrar no que Kai dizia:

— Ele não é um Yong, mas é alguém. Pegamos um peixe grande. — E sorriu cruelmente. Pensei em questionar o que seria isso de Yong, mas, mais uma vez, controlei minha curiosidade. — Eu imaginei que fosse algum yaoguai poderoso, por ter conseguido chegar à Tóquio sem ser pego pelos Senhores… Mas não pensei que seria Hu, o Rei Tigre. Os jornais de Cingapura estão fervendo com a notícia do desaparecimento dele.

— Ele é alguém importante? — perguntei.

— Lógico que é. Você não ouviu o que eu disse? Ele é exatamente o que um Senhor é. — Então Kai suspirou — Se não fosse tão difícil fazer esse desgraçado abrir a boca, minha vida seria maravilhosa.

A minha consciência estava mais pesada que um cachalote. Ver aquele galpão coberto de sangue com o yaoguai deitado em uma mesa de metal me fez ficar com tanto remorso de tê-lo deixado ali sozinho com Kai e seus capangas trogloditas que eu seria capaz de desejar que o tempo voltasse e eu deixasse que ele fugisse.

Caminhei lentamente, percorrendo com o olhar aquele galpão. Havia marcas de sangues por toda a parte, até mesmo no teto, de onde pendiam ganchos ensanguentados.

Soltei um gemido, fazendo uma careta de desgosto, quando me aproximei do yaoguai e percebi seu ombro curando lentamente.

— Usamos uma coisinha para ajudar na cicatrização. — comentou Kai ao meu lado, entendi o comentário maldoso e quase comecei uma discussão ali com ele, mas consegui me conter. — Então, fiquei sabendo que Sesshoumaru conseguiu capturar a yaoguai que feriu você. Seu marido realmente não brinca em serviço.

Os olhos do yaoguai mexeram desconfortavelmente por baixo das pálpebras fechadas, fazendo com que eu me perguntasse se Kai havia falado aquilo propositalmente apenas para atormentá-lo. Olhei por sobre o ombro para Dmitri, que estava com uma expressão horrível — assim que ele havia sentido o cheiro de sangue, tinha tentado me convencer a ir embora; como me neguei, ele estava obviamente muito irritado.

— Parem com a tortura. — falei, sussurrando. De certa forma, eu compreendia por que Dmitri não queria me deixar entrar ali, era horrível me deparar com essa faceta horrível do mundo dos youkais; e, particularmente, da Yakuza.

— Não enquanto ele não nos disser o que queremos. — Kai falou.

Você já ouviu falar na tortura do tigre? — o yaoguai falou, em chinês, embora não fosse um dialeto que eu reconhecesse. Vi pela minha visão periférica Dmitri movimentar-se rapidamente em minha direção. Ele não era o único surpreso com o fato de o prisioneiro dar sinal de vida, a julgar pela expressão de Kai. — Quem você acha que a criou? Está enganado se acha que vou falar qualquer coisa.

Eu tenho que admitir que meu inglês é bem melhor que meu chinês, mas ainda assim, fui capaz de entender perfeitamente a mensagem. Kai estava ao meu lado, vermelho de ira, e temi que ele fizesse alguma coisa idiota. E eu estava certa em meu temor.

Kai virou-se ligeiramente para Dmitri.

— Tire-a daqui. — instruiu. Meu guarda-costas sequer se importou com o fato de estar obedecendo Kai, apenas aproveitou a oportunidade e segurou meu pulso, puxando-me para fora da sala de tortura. Tentei impedir Dmitri, mas ele não poupou força para fazer o que queria.

— Kai. — balbuciei, sendo arrastada — Kai! O que você vai fazer?! Kai!

O alçapão se fechou e o líder da Yakuza não podia mais ouvir meus gritos. Ainda assim, esbravejei e lutei para que Dmitri me soltasse praticamente até o momento em que ele me jogou dentro do carro e trancou as portas de forma que eu não pudesse abri-las por dentro.


— Eu vou matar o seu tio, é bom que você tenha se despedido dele!

Houve uma pausa do outro lado da linha; sim, eu havia deixado Himiko muito confusa, mas logo ela suspirou, provavelmente identificando a voz de quem estava falando.

O que ele fez?

— Está torturando o yaoguai e Dmitri me impediu de fazer alguma coisa! — falei rapidamente, andando pelo quarto e gesticulando com as mãos, como se aquilo me ajudasse a demonstrar quão nervosa eu estava. — Faça alguma coisa!

O que eu poderia fazer?

— Eu não sei! — respondi apertando a mão contra a testa. — Me dê alguma ideia do que posso fazer, aqueles ogros nunca vão me deixar tirar o yaoguai de lá... Ele é seu tio, me dê ideias Himiko, por favor!

Dra. Higurahi, eu não tenho nenhum tipo de poder de manipulação, a única pessoa que controla o meu tio Kai é a tia Yuna.

— Tia Yuna?

A mulher dele.

— Alguém aceitou se casar com aquela coisa?

Eí, o tio Kai é muito bem apessoado e pode ser muito amável quando lhe convém. — Ela fez uma pausa. — Vai ser um pouco difícil falar com ela, mas como é a Senhora do Leste querendo matar o marido dela, acredito que ela arranja um tempo na agenda.

— Agenda? — perguntei, curiosa.

Ela é a editora-chefe do Yumiuri Shimbum.

Parei, surpresa. A mulher de Kai era simplesmente a manda-chuva de um dos maiores jornais japoneses? Cocei o queixo. Hideo havia me ensinado o suficiente de política para que eu soubesse que havia lugares em que se deveria tomar cuidado antes de mexer.

Dra. Higurashi… — disse Himiko — Desculpe-me se isso soar invasivo, mas… Por que você está fazendo isso? Você esqueceu o que eles lhe fizeram? Foram eles que mataram o seu primo.

As palavras dela me forçaram a parar e pensar nos motivos do ato impulsivo de tentar salvar o yaoguai. Ela estava certa… Aquele yaoguai havia tentado me matar, mas hoje eu não estava casada com um youkai que havia feito a mesma coisa? Isso nunca teve peso nas minhas decisões. E pensar que aquele yaoguai era o culpado pela morte de Yuri seria fazer o mesmo que Ruri havia feito, ao me culpar indiretamente. Do ponto de vista dela, eu tinha tanta culpa quanto o yaoguai.

— Porque eu vi sentimentos nele. — respondi, lembrando da preocupação dele em garantir a segurança da tigresa (a mesma que, de acordo com Kai, Sesshoumaru havia capturado) — Teria sido mais fácil se ele continuasse sendo apenas o inimigo, mas agora já é tarde demais. No momento em que eu vi seus sentimentos, então não pude mais encará-lo como uma criatura sem consciência.

Você tem que pensar no Senhor do Oeste também, Dra. Higurashi. — ela disse — Querendo ou não, este inimigo também é dele.

Respirei profundamente. Inimigos. Eu não queria mais isso para Sesshoumaru. Nem mesmo para Shippou ou Hideo.

Franzi o cenho, diante dos pensamentos desconexos que pipocavam na minha mente, enquanto eu procurava uma saída. Tinha de haver alguma forma.

— Himiko. — falei enquanto massageava a testa — Passe-me o número da sua tia. Algo me diz que vou precisar da ajuda dela...


Yuna Honshu. — disse a voz feminina, atendendo a minha ligação. Respirei profundamente, escolhendo as palavras certas para começar a conversa — Alô?

— Boa noite, sra. Honshu. Peço desculpas por ligar para o seu número particular, mas é que a… situação… merecia um pouco de privacidade.

Quem está falando? — ela questionou, com voz desconfiada.

— Kagome Taisho. — respondi prontamente, tentando soar confiante.

Ela fez uma pausa, provavelmente tentando imaginar todo os motivos possíveis para que eu ligasse para ela, se é que ela sabia quem eu era.

Ah, sra. Taisho…. E por que está me ligando? — Pelo tom de sua voz, eu percebi que ela estava bastante confortável para lidar comigo, independente das minhas intenções. Era óbvio que se tratava de uma mulher confiante nas próprias habilidades sociais. — Não leve minha confusão a mal… É que me estranha que a mulher de Sesshoumaru esteja me ligando, quando faz meses que ele ignora todas as minhas tentativas de negociação.

Franzi as sobrancelhas, absorvendo o que ela me dizia. De alguma forma estranha, esta conversa havia tomado um caminho que eu não havia previsto. Quase me questionei se estaria falando com a Yuna certa, mas então percebi que ela havia me identificado imediatamente como mulher de Sesshoumaru. Seria mesmo possível que a mulher do líder da Yakuza estaria tentando fazer negócios com Sesshoumaru, um Senhor?

— Na verdade, esta conversa não é exatamente sobre o meu marido. — respondi, tentando ganhar tempo enquanto minha mente trabalhava — Esperava conseguir convencê-la a me ajudar sobre algumas questões acerca do seu.

Kai? — ela questionou, rindo. — Perdoe-me, sra. Taisho, mas os problemas de meu marido são apenas dele. Eu não interfiro em suas ações.

— Sim, claro, compreendo perfeitamente. — respondi, também rindo — Eu também não interfiro nas ações do meu marido, mas sempre há... exceções. — Quase dei tapinhas em meu ombro. Eu sou tão genial, que às vezes tenho vontade de me beijar.

Em minha mente, eu podia ouvir os ensinamentos de Hideo:

"Nós não mentimos para a família. Entre nós não deve haver máscaras, então se você não tem certeza do que diz, jamais se force a passar segurança pela forma como expõe sua opinião. Isso, é claro, em família… Com os outros, você tem o direito de blefar."

Ela fez uma pausa calculada, mordendo a minha isca e questionando cautelosamente:

Estamos falando de negócios, sra. Taisho?

— Não. — eu disse — Estamos falando de tráfico de influência. — E tanto eu quanto ela já sabíamos o resultado dessa conversa.


Encontrei Dmitri ao lado da porta do meu quarto, recostado na parede com os braços cruzados e com uma expressão de poucos amigos. Suspirei ruidosamente, imitando a linguagem corporal dele: cruzeis os braços e me apoiei no vão da porta, olhando para ele com cara feia.

Ele estreitou os olhos para mim; eu o imitei.

— O que a senhora está fazendo? — ele questionou.

— Nada. Estou apenas olhando para a fuça de um traidor barato. — respondi, sorrindo amigavelmente.

— Não deveria se compadecer com o inimigo dessa forma, senhora Kagome.

— Não é compadecer. — falei, então revirei os olhos — Certo, talvez um pouco… Mas você não deveria ter feito aquilo. Você não pode ignorar a minha vontade.

— Mas a minha pode ser ignorada? — ele questionou, bastante sério.

— Ai, como você é sensível. — resmunguei, então desviei o olhar, deixando escapar outro suspiro. — O problema Dmitri é que muitas vezes sua vontade é contaminada pela de Sesshoumaru e então, há um conflito. Você não precisa pensar em como Sesshoumaru reagiria e nem ignorar totalmente minha vontade quando julgar necessário. — Repousei a mão sobre o ombro dele, apertando de leve. — Acredito que nós dois podemos entrar em um acordo quanto a isso e ficar ambos satisfeitos. Mas tem que ser entre nós dois e não pode haver contaminação de opiniões de terceiros. — Ele não me deu uma resposta. — Dmitri… Eu vou fazer uma coisa muito idiota. Mas idiota em um nível realmente alto. E vou precisar da sua ajuda.

— O que a senhora quer dizer? — ele questionou obviamente nervoso — A senhora tem que pensar na sua própria segurança, tem coisas que não podem ser feitas, ainda mais quando é com o inimi-...

— Dmitri. — interrompi — Eu vou fazer o que eu preciso fazer, com ou sem a sua ajuda. É uma ideia idiota, mas ir para a Yakuza também era, e isso salvou nossas vidas quando os yaoguais atacaram... — Com isso, apenas me afastei e comecei a caminhar.

— Onde a senhora vai?

— Tenho negócios a tratar. — falei por sobre o ombro.

— Eu vou com você. — ele declarou, começando a me seguir.

Parei no meio do corredor e olhei para ele.

— Eu preciso confiar em você. — falei, com expressão muito séria. — Você tem que me prometer, Dmitri, que independente do que aconteça, você não vai contar para Sesshoumaru e muito menos criar situações para que ele descubra sobre o que estou fazendo. Isso é muito importante. Se quiser que eu permita que você me acompanhe, você vai ter que me prometer.

Eu vi a manivela do cérebro dele girando, enquanto ele pesava todas as questões e se desesperava na escolha entre alertar Sesshoumaru sobre os meus planos e ou poder me proteger. Ele apertou os olhos e franziu o nariz, em uma óbvia expressão de resignação revoltada.

— Eu prometo. — ele disse entredentes — Prometo pelo meu Senhor.

Estreitei os olhos, analisando-o. Caso eu confiasse nele e ele dedurasse para Sesshoumaru, tudo estaria perdido. Mas não importa, eu teria que arriscar.

— Isso significa que você também não vai esconder qualquer coisa de mim. — alertei.

— Estou vendendo minha alma? — questionou irritado.

— Quase. — foi a minha resposta animada — Então, somos um time! — exclamei, para claro desespero dele — Ah… Você vai me odiar tanto depois de eu te contar o que estou planejando, mas eu preciso de sua ajuda para montar todos os detalhes. Antes de qualquer coisa, preciso saber se Sesshoumaru de fato capturou a yaoguai que me feriu.

Ele se mostrou bastante frustrado ao responder:

— Ainda não. Kai estava blefando.

— Entendo. Isso significa que Sesshoumaru realmente está atrás dela. — comentei. Dmitri arregalou os olhos, ao perceber que, na verdade, era eu quem estava usando de trapaças para conseguir informações. — É bom saber que Sesshoumaru vai estar ocupado demais para perceber o que estiver acontecendo. Ótimo. Vamos?

— Aonde? — ele questionou irritadamente.

Sorri para ele.

— Vamos ao prédio do Yumiuri Shimbum. — Ele não compreendeu onde estava o perigo em ir à sede do maior jornal japonês, a julgar pela sua expressão — Você realmente vai me odiar quando eu contar tudo o que tenho em mente.

Mas ele já sabia disso.


— Você é uma louca. — Kai exclamou, gesticulando com a mão de forma frenética. — Simples assim, vai dar merda.

— Anda logo, abre essa porta.

— Isso vai dar uma merda muito grande. — Eu o encarei e ergui uma sobrancelha, tentando externar toda a minha frustração com a demora dele. — 'Tá bom, abram o alçapão.

Voltei minha atenção para Yuna, que estava ao meu lado. Ela guardou o celular quando notou que estava a observando. Sério, o que deu nessa mulher para ficar com alguém como Kai? Nós duas vínhamos conversando com frequência nos últimos dias, então sabia que ela era toda polida, séria, e com um senso humor normal... Como alguém assim fica com essa coisa nervosa de humor duvidoso?

— Tem certeza? — ela questionou.

— Sim. — Juntei toda coragem e determinação que possuía e adentrei novamente naquela sala de tortura repugnante, com Dmitri praticamente fungando na minha nuca.

Vamos, Kagome, não vá dar pra trás agora.

O sangue havia sido limpo e o yaoguai estava minimamente saudável — a expressão entorpecida deixava claro que ele talvez não estivesse tão bem quanto sua aparência demonstrava.

— Yï Hu Wang. — chamei, fazendo-o focar o olhar felino em meu rosto. Fiz um sinal para o Mortícia (o youkai torturador de Kai) e ele soltou o yaoguai com uma expressão desgostosa, de quem havia acabado de quebrar o brinquedo preferido.

Respirei profundamente, vendo Dmitri arremessar uma trouxa de roupa contra o peito do yaoguai, que pegou o volume por mero reflexo. Observei a expressão confusa dele para as roupas, para as mãos soltas e para Mortícia estressado ao lado dele.

Algo mudou em sua expressão, mas meu guarda-costas percebeu o que era antes de mim, passando ao meu lado e empurrando o yaoguai contra a maca de ferro, para impedir que ele atacasse o seu torturador; intenção clara pelos dentes arreganhados e mãos estendidas na direção de Mortícia.

Aproximei-me, hiperventilando, e falei em chinês (infelizmente, meu domínio na língua era quase fluente e eu estava consciente de que usaria errado muito dos conectivos):

— Não seja idiota. Se realmente quer ter alguma chance de sobrevivência, é bom se acalmar. — Ele lançou um olhar para mim, num misto de confusão e ira.

— Sobreviver? — ele questionou cinicamente — Vocês realmente não aprendem: não importa que tipo de engodos usem, eu não vou falar coisa alguma.

Demorei alguns segundos para achar a palavra equivalente em japonês para engodo e compreender. Dificultava muito para mim se ele falava formalmente. Deixei isso de lado e questionei, tropeçando nos fonemas:

— Por que você veio aqui? Você é importante para os yaoguais, então não faz sentido que mandem um líder para uma missão tão perigosa. Então por quê?

Ele riu de mim. Não pensei que teria energia para isso, mas riu.

— Quem você acha que é, criança, para pretender entender a mim e ao meu povo? — Olhou para Dmitri e então o empurrou, fazendo meu guarda-costas se afastar. O hanyou aproximou-se ligeiramente de mim, pronto para impedir qualquer avanço do yaoguai. — É melhor me matar de uma vez.

— Devemos fazer o mesmo com a tigresa? — questionou Dmitri, com um sorriso de canto. — Ou deveríamos dizer Gao Yuanyuan? A sua noiva é bem bonita.

O yaoguai apertou os lábios, tentando conter o acesso de fúria.

— Nós vamos matar todos vocês. — ele prometeu, com voz entrecortada de ira.

— Mas não hoje. — afirmei — Aliás, nem em breve. — Balancei um jornal que trazia enrolado na mão esquerda. — Você viu o jornal de hoje? — questionei, abrindo teatralmente na segunda página. Comecei a ler em japonês:

"Yï Hu Wang, CEO da Tiger Aviation Private Limited, famosa empresa atuante nas linhas aéreas asiáticas, desapareceu repentinamente dos radares midiáticos de Cingapura, causando reações endêmicas de mistério e teorias da conspiração dignas de alguma história ficcional de sucesso. Diante da ligeira queda dos valores das ações, a diretoria da Tiger Airways se viu obrigada a fazer uma declaração acerca do paradeiro de seu CEO. Embora nada esclarecedor, a mídia teve que se contentar com a resposta de que Yï Hu Wang e sua noiva, a atriz Gao Yanyuan, estavam viajando em férias.

"A Informação não foi confirmada pelos funcionários mais próximos de Yï, o que iniciou suspeita. Nossas fontes, no entanto, confirmam que Yi Hu Wang está no Japão tratando de negócios (e não de férias, como foi declarado) com Taisho Sesshoumaru, CEO do Tai Group, rede de investimentos de risco.

"Os resultados da Tiger Airways surpreendem os economistas do ramo, em razão das inovadoras metodologias de mercado, que geralmente se mostram arriscadas, mas que, por fim, apresentam números entusiásticos. Esse caráter contemporâneo da Tiger Aiways aparentemente atraiu a atenção da gigante dos investimentos Tai, que demonstra interesse em injetar dinheiro na empresa.

"Questionados acerca das negociações com o Tai Group, a diretoria da Tiger Airways preferiu manter sigilo, informando que, em seu retorno a Cingapura, todas as questões acerca das transações secretas seriam reveladas por Yï Hu Wang. Só podemos, então, esperar o retorno do filho pródigo."

Yï Hu Wang estava pálido, enquanto me encarava com expressão ameaçadora.

— Não sabia que você estava fazendo negócios com o meu marido, Senhor Hu. — comentei ironicamente, voltando a falar em chinês — É realmente surpreendente.

— Ninguém vai acreditar nisso. — disse entredentes.

— Como não? Esse é o Yumiuri Shimbum, o jornal de maior circulação do mundo. Toda a Ásia já leu. É um jornal conservador de muito renome, sabia?

— Deveria ver o que os sites de Cingapura estão publicando. A internet hoje em dia é impossível de ser controlada. — comentou Dmitri, cruzando os braços. Quase sorri para ele. Por mais que ele ainda estivesse hesitante em me ajudar, eu estava muito satisfeita com a sua atuação. — Imagino como os investidores asiáticos reagiriam caso fosse divulgado que você quebrou acordos com o Tai Group.

— Não é? — falei, suspirando — Todos do ramo têm medo de Sesshoumaru. Ninguém faria negócios com a Tiger Airways se a empresa entrasse para a lista negra do Tai Group. Imagino como isso seria desastroso...

— Vocês não fazem ideia de com quem estão se metendo. — rosnou Hu.

— Vocês também não. — Dmitri disse, agora sério — Vocês não fazem ideia de quem é o Senhor Sesshoumaru e do que ele é capaz. Quando os yaoguais ainda insistiam em se esconder nas cavernas, os tai-youkais estavam protegiam o Japão.

— Proteger o Japão? — O tigre cuspiu no chão — Você fala de quando invadiram meu país, escravizaram nossos homens e estupraram nossas mulheres? Mataram nossas crianças de fome, sitiaram nossas cidades. Vocês se orgulham disso?! — exclamou com ódio.

Minha máscara quase caiu diante disso. De repente, ele me fazia pensar sobre o que estava falando, deixar-me confusa. Foi Dmitri quem impediu que eu demonstrasse isso, respondendo:

— Nós não fizemos isso.

— Deram espaço para que os humanos fizessem. Não tentaram impedir. — Hu me encarou — Vamos tirar de vocês o que nos tiraram.

Pensei que a ameaça era feita para mim, mas, embora eu fosse o objeto de vingança, era Sesshoumaru que eles queriam machucar. Sesshoumaru era o opressor, e eu era sua mulher. Algo a ser tirado, algo que poderia causar dor.

— Como você acha que vai conseguir ferir Sesshoumaru? Através de mim? Vocês não conseguiram me matar antes e não vão conseguir agora. — afirmei — A Yakuza espalhou youkais por toda a cidade, muitos deles têm a missão direta de me proteger. Não pense que me envenenar e sair correndo será suficiente. Da última vez, não foi.

Então Hu deixou escapar uma sonora risada, lançando um olhar de confiança irônica para mim.

— Veneno? Matar? Você não era um alvo. Você era apenas um teste. O fato de você estar viva já é resposta suficiente para nós. Agora que sabemos as limitações de nossas armas, não vamos falhar.

Teste? Franzi o cenho. Se Nagi estivesse realmente certo e eu tivesse sido infectada com envelhecimento… Então, de acordo com o que Hu dizia, eu havia sido apenas um teste para saber a eficácia do fator isolado da doença em hanyous. Mas se esse fosse o caso, não seria mais fácil capturar outro hanyou do que mandar o segundo líder deles para fazer um mísero "teste"?

Era algo que simplesmente não fazia sentido. Se eles realmente estavam estudando formas de nos matar, realizar os "testes" adequados era a parte mais importante do processo. Algo não se encaixava ali.

Talvez eles acreditassem que seria eficaz contra hanyous já que era contra youkais (por estes serem puros, teoricamente eram mais fortes). Talvez eles estivessem mais surpresos do que nós por descobrir a ineficácia da infecção contra mim e Hu estivesse apenas blefando novamente.

Recuperei a compostura e apontei para a trouxa de roupas ainda em suas mãos.

— Vista as roupas, vou estar esperando do lado de fora.

— Esperando para quê? — ele questionou raivosamente.

— Eu não disse? Você é meu mais novo guarda-costas. — expliquei, então apontei para Dmitri — Meu amigo aqui vai adorar trabalhar com você. — Sorri docemente, virei-me e saí andando. Ainda ouvi Dmitri dizer:

— Se você sequer olhar torto para ela, pode estar certo que sua namorada não vai ficar viva por muito tempo. — Por mais que eu odiasse ouvir Dmitri proferir ameaças em meu nome, eu também estava consciente de que aquela era a única forma de me manter segura. Hu agora estava preso.

Eu o havia amarrado psicológica, física e socialmente.

Agora todo o resto do plano dependia unicamente da minha capacidade de persuadir homens irritantemente teimosos. Sendo sincera, não estou muito certa de como vou fazer isso, mas eu estava apostando muita coisa nesse jogo.


Ladie aqui.

Gente, que desespero para postar esse capítulo.

Comento mais sobre tudo no próximo.

Beijos da Ladie