"Primeiro o que se ouviu foi o ruído de um furacão vindo do leste." Thórin estava próximo à muralha e correu para ver do que se tratava. Seu coração pressentiu algo. Terrível. Um mal antigo. Subiu as escadas o mais rápido que pode. Sentiu o vento quente no rosto. Os anões corriam de um lado para o outro sem fazer ideia do que estava acontecendo.
- Soem o alarme! – gritou a plenos pulmões – Chamem os guardas!
- Do que se trata? – indagou Balin.
- Dragão – respondeu, como se não estivesse surpreso. E não estava. Era a concretização de seus pesadelos. – Dragão! – gritou novamente, estimulando seus comandados a tomarem seus postos.
O exército foi reunido às pressas e os khazad lutaram incansavelmente, no entanto Erebor caiu. As chamas do dragão eram poderosas demais mesmo para a resistência dos mestres do fogo. Muitos pereceram e tantos outros escaparam. Os sobreviventes seguiram Thrór, Thráin e Thórin em busca de um novo lar.
Uma parte se dirigiu a outros reinos Khazâd , onde possuíam conhecidos. Muitos receberam abrigo nas Colinas de Ferro. O próprio Thórin e sua família se viram tentados a permanecer entre seus parentes, porém, o reino de Grór não seria capaz de acolher uma multidão tão numerosa e nem em uma Era Thrór e seus herdeiros abandonariam seu povo. Thórin insistiu para que Frigga ficasse com seu irmão, enquanto não se estabelecessem. A princesa recusou com veemência. Seguiria o marido e seu povo aonde quer que fossem.
Os anões de Erebor vagaram sem destino. Famintos e sem abrigo, não conseguiram auxílio gratuito. Trabalharam onde foi possível para sobreviver. Lutaram muitas batalhas. O povo de Durin sangrou. Poucas mãos foram estendidas a eles. Insuficientes diante de tanta desdita. A maioria lhes negou toda e qualquer ajuda, diabolicamente satisfeitos em ver o poderoso povo de Erebor derrotado.
No entanto, a recusa que mais enfureceu os khazâd foi a dos elfos. Thranduil, ainda que ressabiado com o episódio das pedras brancas, chegou a conduzir seu exército à Montanha Solitária, porém, ele jamais arriscaria a vida de seu povo contra a fúria de um dragão. E deu as costas aos anões de Erebor.
Thórin chegou a se encontrar com Legolas, durante os primeiros dias do exílio, nas proximidades de Esgaroth. Recebera uma mensagem de que o príncipe de Mirkwood procurava por ele. O encontro aconteceu fora do acampamento khazâd. Ao avistar o anão, Legolas apeou de seu cavalo.
- Saudações, mestre anão – disse o Eldar, levando a mão ao peito, como era seu costume.
- O que você quer? – indagou Thórin, entre os dentes.
Legolas não se surpreendeu. A situação era delicada demais. Os sentimentos estavam a flor da pele. Chegara a considerar o príncipe de Erebor um amigo e, naquele momento, pedia ao Único com todas as forças que o sentimento fosse recíproco.
- Eu vim como amigo, mestre anão. E espero que este também seja o seu sentimento – disse o elfo, cordialmente.
Thórin olhou Legolas dos pés à cabeça.
- O conceito que o seu povo tem de amizade parece ser bem diferente do meu, elfo.
Legolas ergueu o queixo. Sabia que o estrago havia sido grande e que uma reaproximação era algo mais do que improvável, porém, precisava tentar, embora a disposição de Thórin não fosse em nada diferente da de seu pai.
- Uma série de mal-entendidos precederam esse nosso encontro, mestre anão. Estou aqui em nome do que já partilhamos. E creio que não foi pouco.
Thórin estava furioso. Seu povo exilado e faminto. Tudo o que restara de Erebor, seu orgulho e grandeza, jogados por terra. O choro das crianças que perderam os pais ainda em seus ouvidos. Todavia, a presença de Legolas emanava algo que destoava de toda aquela catástrofe. Seu orgulho de filho de Dúrin jamais permitiria que ele se dobrasse, porém, lembranças de momentos passados, onde o elfo a sua frente fora uma presença amiga, permitiram ao anão domar seus instintos. Thórin reclinou levemente a cabeça, indicando a Legolas uma trégua.
- Estou ouvindo.
O eldar relaxou por um momento, buscando por algo que pudesse novamente estabelecer algum laço entre eles.
- Era isso que via em seus sonhos, não era?
Thórin ergueu o queixo, antes de responder.
- Não. Não era.
O elfo franziu o cenho.
- Isso tudo – disse o anão, voltando o olhar em direção ao acampamento – é muito pior.
Não houvessem sido os anões forjados por Mahal para resistir a todo tipo de diversidade, Thórin teria desmoronado ali mesmo, aos pés do eldar. A dor que lhe dilacerava o peito podia ser sentida pelo elfo.
Legolas baixou os olhos, dividido entre a vontade de ajudar os anões e a lealdade ao pai.
- Meu pai está irredutível – disse, dando alguns passos em direção ao khuzd – eu tentei convencê-lo de que não é hora para desavenças. De que joias não são mais importantes do que...
- Nós não precisamos da piedade de seu pai, mestre elfo – disse o anão.
- Não se trata de piedade, Thórin e sim de amizade.
- Nossos povos nunca foram amigos de fato, Legolas. Admita. Nos unimos contra um inimigo comum. Sempre foi assim e sempre será.
- E quanto a nós? – indagou o elfo – Nunca houve mais do que conveniência entre nós?
Thórin calou-se. O olhar do eldar, intenso sobre si. O silêncio perdurou por alguns instantes, até que as palavras encontraram seu caminho nos lábios do anão.
- Não. Não posso dizer que foi apenas a conveniência que me levou a lhe revelar meus pesadelos, assim como não foi a conveniência que guiou seus pés às Montanhas do Norte para me ajudar a resgatar Frigga. Vejo algo em você que não vejo em seu pai.
Legolas esboçou um sorriso, todavia, as palavras seguintes de Thórin o fizeram desaparecer.
- Porém, mestre elfo, não somos, você e eu, representantes de nossos povos? Não podemos ser apenas nós mesmos. E ainda que algo de bom tenha existido entre nós...
- Eu sei...
Eles miraram o chão, sem saber como prosseguir.
Thórin recordou-se novamente dos rostos daqueles que foram soterrados pela fúria de Smaug, das faces queimadas, de Erebor em chamas, do dragão chafurdando no tesouro de seu avô. E diante disso tudo, os frágeis laços entre ele e Legolas lhe pareceram muito pequenos.
- Seu povo deu as costas ao meu povo – prosseguiu o anão – não há como mudar isso. E eu não poderia garantir que não me vingaria de seu pai se a oportunidade aparecesse. – concluiu o anão, permitindo que o desejo de vingança, até então contido, fosse liberado.
Legolas estreitou os olhos.
- Sabe que eu o impediria antes que lograsse tal intento.
- Você poderia tentar...
O eldar respirou fundo. Os Khazâd não faziam ameaças em vão e jamais esqueciam a palavra empenhada. Ele lamentou pelo que não poderia ser, erguendo a voz em defesa de seu povo.
- Caso você ou qualquer um dos seus ousar se aproximar de Mirkwood, sabe que serão recebidos com flechas e espadas, não sabe? – Indagou o elfo.
Diante da ameaça feita a seu pai, Legolas abandonou toda e qualquer esperança de reatar os laços de amizade com Thórin. O anão estava certo. A inimizade entre seus povos pulsava em suas veias.
- Talvez um dia, quando meu povo estiver a salvo, eu volte para cobrar essa dívida e irei por seu arco à prova.
Legolas deu as costas ao anão, antes de montar em seu cavalo.
- Quando vier, anão, eu estarei preparado e farei o que for preciso – disse o eldar, antes de iniciar sua cavalgada de volta a seu lar.
Thórin quedou-se por um momento, mirando o elfo que se afastava. Ele não soube exatamente o porquê, mas dentro de si conseguia separar a mágoa que sentia por Thranduil da simpatia que nutria por Legolas. Apesar disso, as coisas não poderiam ser diferentes. Ele seria leal a seu povo assim como Legolas seria leal a seu pai.
E retornou ao acampamento.
Enquanto o filho de Thranduil cavalgava em direção a Mirkwood, imagens de coisas que ainda não haviam acontecido lhe vieram como um relâmpago. Uma espada élfica nas improváveis mãos do herdeiro de Erebor. Batalhas ocorridas na Floresta das Trevas e na Montanha Solitária.
Legolas parou seu cavalo, tentando digerir o que havia visto. Fechou os olhos, pedindo a Ilúvatar que mais uma vez o ajudasse a lidar com aquele dom que dele recebera, porém que em tantas ocasiões parecia mais uma maldição. E pôde ouvir a voz do Único em si. "Sim, a guerra se colocará entre você e o filho de Aule e você o ajudará. Ainda que deseje combatê-lo, você o ajudará." Legolas voltou a cavalgar de volta a seu lar, pedindo a Ilúvatar que concedesse aos anões a chance de reencontrar o deles.
