História Quarenta e Oito: Aquele que tudo termina

A aurora estava sendo apagada pelas nuvens cinza carregadas de tristeza.

O céu foi tomado por uma escuridão inexplicável. Todos os soldados atenienses que restavam sentiram o fim próximo. Suas vidas terminariam dentro da mais profunda escuridão, tão intensa que nem mesmo o Sol fraco da aurora tinha poder para combatê-la. E a escuridão cresceu e tomou a forma de uma nuvem monstruosa, findando em um mergulho mortal na direção do solo. Os mortais desesperaram-se até uma voz os resgatar de seu último devaneio.

- Não temam a escuridão! – gritou Lorde Edmond – Não temam a morte, pois Atena está convosco.

E com essas últimas palavras os poucos atenienses rebelaram-se contra a força que ainda marchava do inimigo. Saltaram para a morte, brandindo suas armas na direção do fogo. Os guerreiros espartanos os receberam de bom grado e completaram a carnificina sob a escuridão. Mas, num resplendor final e trazendo consigo a última gota de esperança para os corações desesperados, uma fonte de luz brotou da escuridão e começou a consumi-la com toda a sua essência. Tal luz estava carregada de esperança e sentimentos bons, que aliviaram os atenienses e desesperaram os inimigos. Lorde Edmond deu um grandioso salto e com uma fúria inabalável tocou o seu rebanho até os portões da morte, a última de suas batalhas. Todos caíram em desgraça.

Apavorado como nunca antes se sentiu na vida, Deimos cambaleou e quase caiu para a sua desgraça. Seu poder negro estava sendo confrontado, flecha por flecha. Cada raio de luz que brotava do corpo de Ícaros destroçava sua escuridão e lhe feria o corpo. O poder de Sagitário cresceu a um nível inacreditável e Ares previu o pior. O Sol alimentou o brilho do poder, conferindo um vigor inesperado ao cavaleiro de Atena. Com sua última partícula de força de vontade enviou o poder como pôde para seu mergulho final, e lá inundou Deimos com sua luz. "Este é o fim de todas as coisas", teve um último pensamento. Então tudo se tornou silêncio e somente o Sol brilhava. Os Campos Vermelhos voltou aos olhos de Ícaros, que caiu de joelhos, mas ainda firme até ter sua confirmação.

Mais a frente, onde as flechas de luz atingiram seu alvo, uma sombra mantinha-se de pé relutante a cair. Deimos agora possuía um corpo mutilado e não sangrava mais. Seu poder esvaiu-se por completo e apenas sua carcaça sem alma tremulava ao vento fraco. Seu olhar era vago e não se direcionava a lugar algum. E ele ficou ali, estático e morto aos olhos de Ícaros, que não sentia mais vida alguma ecoando das profundezas de seu inimigo.

E realmente aquele que um dia foi o General Remo de Deimos, guardião do Esquadrão do Medo das tropas malignas de Ares, jazia morto e de pé um pouco mais a frente de Ícaros. Esse era o fim do mais temível guerreiro vivo que andava ao lado do Inimigo, o senhor das Guerras. Então Edmond que ainda não havia perecido sentiu a última fisgada de sua dor, e a flecha em seu abdômen desapareceu como cinzas ao vento. E ele sentiu que os Cosmos violentos que antes batalhavam agora tinham sumido completamente. Era o final.

Por um momento, Ícaros esqueceu de tudo. Ficou vagando em seu próprio sofrimento e sua força de vontade vacilou. Depois voltou sua atenção novamente para a divindade que havia destruído. Em sua mão direita ainda restava o Arco divino, o Dom de Heféstos. Subitamente ele percebeu o mais inacreditável de todos os fatos. O arco que emanava a mais terrível das trevas agora se encontrava completamente rachado por uma quantidade incontável de fissuras. Elas aumentaram cada vez mais até fundirem-se e fazerem o arco evaporar em poeira cósmica. Todo o poder contido na arma divina se foi e o guerreiro morto agora estava mais morto que nunca, finalmente perdendo o seu apoio e desmoronando no chão. Seu corpo se desfez em cinzas e desapareceu ao vento. Ícaros sorriu.

Entretanto, Sagitário tinha esquecido de algo crucial. Uma vez um dos filhos de Ares, senhor da Guerra, havia caído em combate e como punição ao mortal ele ergueu sua Ira Divina e tentou matá-lo, fracassando unicamente por causa do amor que ainda restava no coração de Liath. O próprio Lorde dourado assistiu ao último lamento consciente de Fobos e ele mesmo entregou o corpo a Remo, juntamente com a lança de Ares. Ao realizar aquele ato o destino lhe foi cruel, e deveria ser punido por tal. E no final, ele matou o último filho.

Sem forças para reagir, Ícaros nada podia fazer em relação ao que houve a seguir. Uma fúria colossal assomou os Campos e juntamente com ela uma lança trespassou o coração de Sagitário. Erguendo-se com a dor final, Ícaros não conseguiu emitir som algum. Fechou as mãos sobre a lança e a reconheceu mergulhada em seu sangue. Era a Lança fatal de Ares. O deus da Guerra mais uma vez empurrou sua arma que trespassou ainda mais o corpo suspenso de Sagitário. O Lorde dourado deu um último suspiro de dor, mas não tombou morto, pois essa era a vontade do deus. Vê-lo agonizar e sofrer em suas mãos.

- Não achei que justamente você, Lorde de Sagitário, tomaria algo que me pertence por uma segunda vez sem a devida autorização. – o deus sussurrava em fúria aos ouvidos de sua vítima – Entretanto fez pior que o possível de se imaginar. Matou o último de meus filhos na minha frente e em meu campo de batalha. A tal distância eu nunca poderia errar, não é mesmo?

Com um grito furioso, o deus tomou força e puxou de vez sua lança. Essa retrocedeu causando a última dor em Ícaros. Lentamente o cavaleiro de Atena caiu e jazeu no chão encharcado de sangue e corpos. Não havia forças em seu ser para mais nada, e finalmente sua chama parou de brilhar. O Lorde dourado de Sagitário ruiu com a Ira Divina e foi condenado ao Tártaro do sofrimento eterno por ter desafiado aos deuses. Ainda sim, Ícaros seguiu em paz e não perdeu a sua esperança.

Os Campos Vermelhos gemeu e tudo cessou. Com uma presença onipotente, o senhor da Guerra andou até os bravos que ainda resistiam. Encarava a todos com uma fúria penetrante e suas mãos intocáveis estavam sujas de sangue e cinzas. Atenienses e espartanos afastaram-se diante da presença divina. Edmond vacilou temendo o pior, mas o que veio foi mais terrível que tudo que poderia ter imaginado.

Ares tinha cada uma das mãos ocupadas. Em sua mão direita trazia sua lança divina mergulhada em sangue mortal, e em sua mão esquerda arrastava um corpo dourado. Parou entre os dois exércitos e observou os inimigos poucos que sobraram. Então sorriu malignamente e ergueu o corpo morto de Ícaros ainda trajando sua armadura. E ele proclamou o terror.

- Inimigos de Esparta, a hora de sua danação se aproxima, mas o dia ainda não é hoje. A luta pelos Campos Vermelhos termina agora, pois essa é a minha vontade. Ninguém se julgue vencedor até que ainda reste uma última torre no lado de seu inimigo. – sua voz tornou-se ainda mais maligna e ameaçadora – Entretanto, diante de vossos olhos eu mostro sua ruína eminente. – e ergueu o corpo que trazia – E essa ruína pertence apenas a Atena, pois ela perecerá diante da minha lança. E essa ruína será meu troféu por seus atos desprezíveis para com os deuses.

Com uma ira e onipotência devastadoras, Ares cravou sua lança no chão e inundou-se na desgraça de seus inimigos. Tomando o corpo de Sagitário com ambas as mãos, sua mão direita alcançou-lhe o pescoço e agarrou-o firme. Com um esforço o deus da Guerra banhou-se em sangue e fez a todos os atenienses se desesperarem. Edmond nada pôde fazer diante de tamanha crueldade, encurralado pelo terror e pela vontade de morrer. Arrancando o elmo da cabeça em suas mãos, virou-se triunfante e levou seu espólio. O medo que deixou no coração dos homens que ali restaram foi imenso e poucos foram os que não vomitaram ou se largaram no chão. O exército vermelho partiu dos Campos de mesmo nome, e, por um momento, tudo mergulhou em silêncio.

Edmond caiu de joelhos e chorou.