************************ Cap. 52 A assustadora dor do vazio - Parte 1************************
Hospital de Athenas 08:48am
Três dias já haviam se passado desde que Afrodite recobrara a consciência, e as idas de Mu ao Hospital de Atenas para realizar a filtragem de seu sangue continuavam diárias, já que a remoção das minúsculas partículas do aço lemuriano impregnado em seus tecidos e órgãos era lenta e minuciosa.
Naquela manhã, porém, Áries estava ali por outro motivo.
Desde que o cavaleiro de Virgem regressara do México onde lutara ao lado de Gêmeos contra Tezcatlipoca, a divindade asteca, que notou Shaka queixar-se de dores fortes no tórax, principalmente ao tossir ou executar algum movimento específico, e para confirmar ou descartar alguma fratura nas costelas ou outro possível trauma agendou exames para o virginiano com um ortopedista, mesmo a contra gosto dele e sob fortes protestos.
Assim, enquanto aguardava os exames que o marido fazia no setor de ortopedia Mu resolveu fazer uma breve visita ao quarto de Geisty, e já pelas paredes de vidro pôde ver que a amiga estava com visitas já àquela hora da manhã.
Deu dois toques sutis na porta para se anunciar antes de entrar.
— Bom dia Marin. Bom dia Shina! Como está nossa dorminhoca hoje? — disse o lemuriano fechando a porta atrás de si e já se dirigindo para a cabeceira do leito.
Marin, que massageava com óleo de rosa mosqueta os calcanhares de Geisty que eram mantidos apoiados sobre dois rolinhos de toalhas brancas, acompanhava com o olhar o ariano.
— Ela está estável, como antes. Não reagiu ainda. — disse a Águia, que fez uma breve pausa antes de emendar — Mas e você? Veio fazer o procedimento de filtragem em Afrodite? Achei que viria só depois do almoço.
— Falando nele eu passei em seu quarto antes de vir para cá e o achei bem mais animado, mais corado... Ele também disse que se sente já bem melhor. — disse Shina.
— Eu vim antes para arrastar o Shaka até o ortopedista... Mas, espera aí. Afrodite já está acordado a uma hora dessas? — Mu perguntou surpreso e sorridente.
— Pois é, milagres acontecem! — respondeu Shina em tom de deboche soltando uma risada enquanto penteava caprichosamente a franja de Geisty — Pronto Marin, acabei aqui. — falou endireitando a postura e olhando para o ariano.
— Eu também já acabei, estava só esperando você. — Águia respondeu cobrindo as pernas de Geisty com o lençol rosa claro.
— Então vamos voltar! — disse a italiana guardando o pente que usava na gaveta do criado mudo antes de voltar-se para o lemuriano — Mu, já estávamos de saída, só viemos dar um tapinha no visual da Geisty. Hoje o dia vai ser puxado no Santuário.
— Estou sabendo. — Áries deu um suspiro longo — Entra em vigor hoje a nova ordem de Sag... — interrompeu-se de súbito trocando um olhar desanimado com Shina — Digo... do Grande Mestre.
— Sim. Por isso aproveitamos para vir bem cedo. — falou Ofiúco — Os aprendizes convocados para treinarem no Santuário chegarão hoje e o Patriarca exige que sejam treinados diretamente por cavaleiros e amazonas de Prata, e também por alguns cavaleiros de Ouro conforme o potencial de seus Cosmos.
— Isso sem contar que ele também exige que o treinamento seja mais rigoroso. — disse Marin acercando-se deles. Águia parecia preocupada e nem um pouco à vontade com aquele assunto.
— O que não é nem um pouco prudente da parte do Patriarca. — reclamou Mu — Muitos desses aprendizes não têm potencial para alcançar uma patente, e exigir deles um treinamento no mesmo nível dos que possuem de fato potencial para se tornar um cavaleiro é desleal. Chega até a ser desumano.
— Acho que o Grande Mestre não está preocupado com isso, não é verdade? — disse Shina.
Houve um momento de silêncio entre eles onde notoriamente se podia sentir a tensão que os envolvia. Então Marin o quebrou tocando no ombro de Shina chamando sua atenção.
— E estamos atrasadas, Shina. Precisamos recepcionar um grupo de aprendizes que se apresentará antes do almoço. Você vai ficar aqui com ela, Mu?
— Ah, não. — o lemuriano respondeu ao lado do leito — Hoje a minha visita para Geisty é rápida. Eu vim só trazer o Shaka para fazer um check-up mesmo, ele anda resmungando pela casa e eu percebi que ele está sentindo dor, embora ele não reclame diretamente para mim. — ao que falava abriu a bolsa tiracolo que usava e de dentro sacou um pequeno embrulho — Enquanto ele faz os exames eu vim aqui vê-la e aproveitar para deixar essa vela de cânfora que ele fez para ela. Ajuda a abrir os brônquios e desentupir os alvéolos pulmonares... Quando eu estivesse de saída do hospital pretendia visitar o Afrodite, mas como ele já está cordado faço logo agora também.
— Certo. Então até qualquer hora, Mu. — disse Shina para em seguida se debruçar sobre Geisty e depositar um beijo em sua bochecha — Tchau amiga, até depois. E vê se acorda logo, sua pazza! — deu um sorriso e em seguida saiu acompanhada de Marin, que antes de se retirar ajeitou os pés cobertos da amiga sobre os rolinhos de toalhas com gentileza e acenou com a cabeça para Mu, deixando o quarto e fechando a porta.
Sozinho o Cavaleiro de Áries deu um suspiro triste ao olhar para a amiga no leito. Com calma caminhou até uma pequena mesinha que ficava logo ali ao lado onde colocou a vela a acendendo com seu Cosmo e voltou-se novamente para ela, caminhando até a cabeceira da cama.
— Está bonita! As meninas capricharam no penteado. — todos os dias em que ia ali conversava com Geisty como se ela estivesse acordada.
Após uns minutos de prosa ficou em silêncio por um tempo olhando o rosto belo da amazona e sentindo-se impotente, até que não suportando mais a angústia que comprimia seu coração inclinou-se para frente, afastou a franja com os dedos e depositou um beijo suave em sua testa.
— Ei bela adormecida, já está mais do que na hora de acordar viu? Estamos todos com saudades e preocupados com você. — disse ao se afastar— Não vou poder ficar hoje, mas amanhã eu volto para te ver.
Mu fez mais um carinho, agora nas mãos de Geisty, e depois de um momento se virou e caminhou até a porta de saída, mas antes de chegar até ela eis que esta de repente se abriu revelando um visitante que não esperava ver por ali.
Pelo menos não tão cedo.
— Dido? — disse Áries surpreso — O que faz aqui? Já pode sair do seu quarto? — questionou a presença do outro ali.
Parado no batente da porta, entre a entrada do quarto e o corredor à suas costas, Afrodite olhava para dentro com os olhos aquamarines arregalados e o coração aos pulos. Vestia um pijama de seda azul confortável que Máscara da Morte havia lhe trazido no dia anterior, chinelos fofinhos e tinha os cabelos bem presos num rabo de cavalo. Na mão direita ainda trazia os acessos ligados à suas veias para receber medicamentos e no rosto uma sonda nasogástrica pela qual estava recebendo alimentos líquidos, já que ainda não podia comer normalmente ainda.
Desde que acordara do coma não houve um só minuto em que não pensasse em Geisty, sobretudo depois de Mu ter-lhe dado a fatídica notícia da morte dos bebês e também sobre o que aconteceu a Saga.
Saga...
Agora, sempre que pensava no geminiano seu coração se apertava dentro do peito, então ele prendia a respiração soltando apenas longos segundos depois na forma de um suspiro longo e taciturno.
Aquela realidade parecia um terrível pesadelo e sentia-se profundamente culpado por ela, já que na noite em que tudo acontecera Saga tinha confiado Geisty a seus cuidados e agora...
— Eu... — murmurou ainda estacado no mesmo lugar enquanto apertava uma mão contra a outra. Não era nada fácil estar ali — Precisava vê-la. Eu precisava...
Percebendo o nervosismo e tristeza que permeavam não apenas a aura do pisciano, mas também suas feições, Mu aproximou-se até parar à sua frente e tocar seu ombro.
— Você não deveria estar aqui. Precisa repousar, ainda está muito debilitado. — disse calmamente.
— Eu sei, mas é que... Eu não vou demorar.
Áries analisou seu rosto por um momento breve e lhe sorriu gentil.
— Está certo. — disse dando passagem ao pisciano e já cruzando a porta — Ela vai ficar feliz que tenha vindo.
Afrodite avançou um passo, mas de repente parou e em sobressalto olhou para trás, para Mu, que fechava a porta.
— Mu! — quase gritou, mas conteve-se o mais que pôde.
— Sim? — o ariano respondeu colocando a cabeça na fresta que ainda estava aberta.
— Será que eu... não vou fazer mal à ela? Sabe, ainda não consigo controlar totalmente meu Cosmo e... bem... Posso ter cagado no maiô* mesmo em ter vindo aqui...
— Eu tenho certeza que não fará mal algum a ela, só fará bem. — Mu o interrompeu sorrindo ternamente. Sabia que Peixes estava com receio e um tanto apavorado, mas precisava daquela oportunidade. Ambos precisavam. — Vá em frente! Apenas não demore, você realmente precisa repousar. Te vejo mais tarde.
Quando a porta se fechou Afrodite ainda ficou algum momento olhando para a madeira pintada de branco e só então virou-se para frente, mas seus olhos pareciam não ter coragem de focar a figura deitada na cama. Correram atentos e aflitos pelos quatro cantos do quarto que estava mergulhado em uma penumbra sutil, confortável. Demoraram-se um tempo nas flores depositadas em um vaso sobre a mesinha ao lado da cama, depois na vela de cânfora que exalava um perfume suave no ambiente, nos quadros com paisagens bucólicas afixados em uma das paredes, nas cortinas fininhas de um tom rosado que cobriam a grande janela de vidro... e então nela.
Primeiro correram ligeiros pelo rosto pálido estático, desceram para o peito que subia e descia numa cadência tão lenta que era quase imperceptível. Bem diferente do seu que adquiria quase um ritmo de fanfarra, e então se fixaram no ventre vazio.
Nesse instante sentiu todos os ossos de seu corpo gelarem e num gesto brusco, da mais pura aflição e do mais hediondo desespero, tapou a boca com a mão abafando um soluço, um grito, ou o que quer que fosse que ansiava por pular para fora de sua garganta apertada.
De seus belos olhos vidrados grossas lágrimas saltaram parando no contorno da mão e correndo pela curva do polegar até deslizarem pelo pulso molhando a barra da manga do pijama.
Ficou um tempo ali sem conseguir se mexer, equilibrando-se como conseguia sobre as pernas oscilantes. O terror daquela realidade corroendo sua alma em profunda tristeza.
Cambaleou até a beirada da cama e se sentou em uma poltrona colocada ali estrategicamente para as visitas. Só então retirou a mão do rosto para pousa-la junto da outra sobre o colchão.
Novamente olhava para o rosto da amazona, agora analisando cada detalhe.
Eram tão raras as vezes em que pudera de fato fazer isso, olha-la de tão perto, enxergar além do que seus olhos lhe mostravam... e pelos deuses do Olimpo, como a achou parecida consigo! Até seu fardo era semelhante. Uma alma sensível e carente condenada a amar em segredo, e que estava pagando um alto preço, talvez o mais alto valor cobrado a uma mulher que pecou apenas por ter desejado amar e ser amada. Mesmo que Hyoga não fosse nada seu de verdade Afrodite já o amava como a um filho, e a dor de Geisty agora também era a sua, pois se ele fosse arrancado de si de semelhante forma vil a única coisa que aplacaria essa dor seria a própria morte.
— Mosca... — disse choroso, mas interrompendo-se de imediato em meio a um soluço sufocado — Digo... Geisty... Será que um dia você vai me perdoar... de novo?
Olhava para ela em muda agonia e aos prantos, e diferente das outras vezes em que os encontros com ela faziam reverberar em sua mente vivências passadas remontando às tantas vezes em que entraram em conflito, dessa vez não conseguia pensar em nada.
Era como se todos os cronômetros tivessem zerado e ele a estivesse conhecendo pela primeira vez, e tudo que sentiu foi uma imensa, terna e genuína afeição.
Não sabia se esse sentimento era fruto da compaixão que agora tocava seu coração, de uma nova e recém construída empatia, mas que importância tinha de onde vinha? Se seria recíproco ou não também não lhe importava. Tudo que queria era ter a chance de dizer a ela, de mostrar lhe, o quanto era importante para si e o quanto desejava que pudessem ter uma nova chance.
Deslizou a mão devagar até segurar seus dedos de unhas longas. Fez uma carícia delicada e depois os abandonou inclinando-se sobre ela para tocar seu cabelo na farta franja e afagar os fios com ternura.
— Ah, quem dera a gente fosse igual teu picumã*, Mosca. Inabalável! Porque eu confesso que eu tô completamente tombado* depois dessa. — disse aos prantos delineando a franja, precisamente cortada, com a ponta do dedo indicador — E eu nem sei se vou conseguir voltar a ser o que era antes sendo como era, nem você vai ser, nem o Saga é mais, Mosca... — um soluço o impediu de concluir o raciocínio confuso, e entre vários outros que vieram a seguir, acompanhados de espasmos e mais lágrimas abundantes, debruçou-se de vez sobre o colo da amazona pousando a cabeça entre seus seios fartos cobertos pela camisola e o fino lençol, então fechou os olhos contraindo com força as pálpebras e chorou copiosamente — Eu sinto tanto ódio deles, Mosca, tanto... eu tenho vontade de... de... ir à Rússia e afundar toda ela no oceano, com todos aqueles suínos dentro... mas é muita terra para pouco oceano... e.. é muita gente... e muita gente inocente que não faz parte daquela charufinácea* de suínos da Vory... Deve ser o meu coágulo... Eu tenho um coágulo na cabeça, não sei se você sabe, mas eu tenho... Ele às vezes me faz fazer coisas idiotas... e matar todos os russos do planeta parece ser bem idiota... — afundou o rosto entre os seios cobertos de Geisty e fungou algumas vezes antes de dizer com a voz abafada pelo tecido — Por favor acorde, Mosca... Vai ser tão difícil lidar com toda essa badalhoca* sem você do meu lado, ter de lidar com... com... aquele... Coiso no corpo do Saga... Eu sei que posso estar te pedindo muito, que com certeza seria muito melhor ficar aí linda e plena dormindo para o resto da vida, mas... queria tanto que estive aqui comigo... Mosca.
Displicentemente deitada sobre a relva verde após um dia de chuva e macia como um colchão, Geisty sentia o Sol tocar seu rosto com os raios gentis das primeiras horas de um dia de primavera, lhe aquecendo a pele que teimava em se manter arrepiada. Com o olhar perdido admirava o extenso campo à sua frente, que além de coberto pela grama fresca era decorado com inúmeros dentes de leão que balançavam com a brisa fresca.
Sem pressa esticou uma das mãos e colheu um deles o levando até o nariz por reflexo e constatando, intrigada, que aquelas flores não continham nenhum perfume.
Girava o talinho entre seus dedos fazendo algumas de suas pétalas brancas como a neve se desprenderem e ganharem o ar como leves plumas fujonas.
Ali sua mente estava livre de qualquer pensamento.
Somente admirava aquela pequena flor sem perfume que igual a todas as outras nasceu em meio à relva daquele amplo campo, sem nenhum diferencial.
Com um suspiro tedioso espalhou de uma vez todas as pétalas restantes do dente de leão, as quais foram arrastadas pelo vento ganhando aquele espaço até quase sumirem do alcance de sua visão, então preguiçosamente jogou o fino caule nu para trás de si e este se juntou a outros tantos também pelados de suas pétalas e emaranhados nos fios negros de seus cabelos espalhados pela grama, mas enquanto ainda vislumbrava em transe o balé das pétalas ao longe eis que de repente seu olfato captara um perfume, um único aroma em meio aquele mundo inodoro.
Franzindo o nariz ligeiramente como se farejasse algo, aos poucos a amazona reconheceu aquele perfume, e este lhe era tão familiar quanto querido.
Rosas!
Surpresa e tomada por euforia Geisty saiu imediatamente do estado contemplativo em que estava colocando-se sentada em meio à relva enquanto olhava ao redor como se procurasse por algo, ou alguém, ansiosa por descobrir de que direção vinha aquele aroma.
Uma alegria acolhedora então lhe tomou o peito como um abraço caloroso e com novo vigor e euforia levantou-se e desatinou a correr, mas sem saber para que direção deveria seguir parou de repente, ansiosa e aflita.
"Afrodite?"
Chamou.
A brisa fazia voar seus cabelos negros e os dentes de leão despetalados presos a eles.
"Afrodite!"
Chamou novamente voltando a correr sem rumo, agora a passos trôpegos, enquanto seus olhos violetas percorriam aquele campo em desassossego.
"Afrodite! Afrodite!"
Estava ali já fazia muito tempo, mesmo que não tivesse noção alguma deste, mas tudo que sabia era que não queria mais ficar ali sozinha. Por isso, juntando toda força que tinha puxou o ar profundamente e voltou a chamar o pisciano a plenos pulmões.
Onde quer que ele estivesse ele teria que ouvi-la.
"AFRODITE!"
— Afrodite...
De repente Peixes engoliu um soluço e junto com ele a respiração. Ligeiro e atento ergueu a cabeça e com os olhos arregalados cravados à janela de vidro encarou a paisagem do lado fora. Pássaros voavam serelepes, as copas das árvores dançavam com o vento, tudo exatamente normal como sempre fora.
— Oi? Quem me chamou? — disse encafifado olhando para os cantos do quarto, então fixou a mirada em Geisty. Seu rosto continuava imutável. Novamente contraiu os lábios num bico — Deve ser o meu coágulo... O meu coágulo tem a sua voz, Mosca. — tombou a cabeça novamente e soluçou.
Então novamente o chamado.
— Afro... dite...
Agora a voz lhe pareceu mais firme, ainda que soada em tom incrivelmente baixo, mas agora tinha certeza: Era a voz de Geisty.
De novo Afrodite ergueu a cabeça e dessa vez olhou direto para a face da amazona, e eis que seu coração disparou quando viu os lábios carnudos entreabertos, meio trêmulos, e os longos cílios negros a tremelicarem.
— Pela santa trindade, Cher, Madonna e Whitney! MOSCA! — num gesto brusco passou as palmas das mãos no próprio rosto enxugando olhos e nariz como podia e depois inclinou-se segurando em ambos os ombros dela — Sim! Sou eu! Eu tô aqui, Mosca! Tô aqui! Minha deusa, ela está acordando! — abriu um sorriso largo de euforia.
Com esforço Geisty tentava a todo custo abrir as pálpebras que estranhamente sentia pesadas como nunca. Quando conseguiu abri-las minimamente a parca luz do ambiente a forçou a fecha-las de novo, pois esta lhe soara demasiadamente incômoda. Só depois de mais duas ou três tentativas foi que enfim conseguiu entreabrir os olhos. As íris violetas, ainda que turvas, agora tentavam focar na figura pálida envolta em um azul piscina extravagante que lhe saltava aos olhos.
Mesmo não conseguindo ainda captar os detalhes da imagem que via reconheceu o dono daquele rosto enevoado tão próximo ao seu e ensaiou um sorriso, ainda que fraco.
— Afrodite... — sussurrou com um sopro de voz quase inaudível.
— Sim! Sim sou eu, Mosca!
Peixes lhe sorriu de volta feliz, e sem conter a alegria e a emoção que lhe contagiavam inclinou-se ainda mais dando um forte abraço na amazona.
Geisty por sua vez, confusa tentava entender o que acontecia a seu redor, mexendo a cabeça com lentidão para delinear com os olhos o ambiente à sua volta, mas não conseguia ainda focar sua visão embaçada e era incapaz de reconhecer o lugar em que estava.
Sentiu a garganta raspando seca e dolorida quando a voz saiu em um fiapo um pouco mais compreensível que o anterior:
— Onde eu estou? — fez uma pausa para um longo suspiro, pois se sentia incrivelmente cansada, e quando cogitou se mexer sentiu uma dor intensa por todo seu corpo — Ahhii... Afrodite... Eu... desmaiei? — tentava manter a cabeça firme sobre algo que não sabia definir o que era ao certo — Não me lembro... o que... o que houve? — por fim disse expressando uma careta de dor.
Ao ouvir aquilo o sorriso de Afrodite desmanchou-se na hora.
Era previsível que ela estivesse confusa, afinal passara dias em coma, mas aquela pergunta de repente lhe soara deveras incômoda. Na verdade vinha tendo pesadelos com aquela pergunta desde que ele recobrara sua própria consciência.
Peixes afastou-se para poder olhar nos olhos da amazona e com a feição grave engoliu em seco.
— Você... não se lembra... de nada? — perguntou, a apreensão e o medo o envolvendo de novo.
Geisty entreabriu a boca ensaiando uma resposta que não veio.
Era como se suas lembranças estivessem encobertas por um véu branco.
Recordava-se do pisciano, do Santuário, do salão do Templo de Baco lotado, da música, de Saga... mas nada que pudesse lhe responder o porquê de estar ali naquela cama cheia de dores, no que parecia um quarto de hospital.
— Do que eu deveria... me lembrar? — disse num murmúrio fazendo uma careta de dor — Aii... Afrodite... você está... me apertando.
— Ah! — Peixes ergueu o tronco rapidamente endireitando a postura — Me desculpe.
— Isso é... — livre do peso sobre seu peito Geisty pode respirar melhor enquanto passeava os olhos violetas pelo quarto sem mover a cabeça que lhe parecia pesada como nunca — Um hospital? Por que eu... estou em um... hospital, Afrodite? — depois fixou o olhar na figura do pisciano e só então percebeu que ele também tinha acessos nos braços, sonda no nariz e estava vestido com pijama — Você também?... O que houve com... Ahaaiii... — fechou os olhos sentido vertigens e sua respiração ficou um tanto mais acelerada.
A seu lado, agora de pé, Afrodite mordiscava o cantinho da unha do dedo mindinho, nervoso.
Não queria ter de ser ele a dizer à amazona o que acontecera. Não queria ser o portador de uma notícia tão terrível, já que sentia-se tão culpado pelo que aconteceu a ela, afinal, se tivesse ido ao hospital quando ela passou mal momentos antes do atentado...
— Mosca... eu... eu acho que esqueci o fogão aceso... vai me queimar todo o ajeum*... eu... preciso ir... mas eu volto! — disse recuando alguns passos.
— Quê? — Geisty perguntou confusa olhando para ele se afastando em direção à porta — Que... fogão?... Afrodite?
— Eu vou avisar os médicos que você acordou. Não sai daí, eu... eu já volto. — disse abrindo a porta e deixando o quarto.
Do lado de fora, antes de correr para o posto da enfermaria para avisar que a amazona despertara, Afrodite encostou na madeira e soltou um longo suspiro. "Dadá, e agora? Ela não se lembra do que aconteceu! Eu... eu não vou conseguir contar!" pensou com o coração apertado e aos pulos, até que lembrou-se que Mu estava ali com Shaka na ala de ortopedia. "Vai ter que ser o Mu. Ele vai ter que contar a ela... Tadinha da Mosca, Atena!".
E para lá ele seguiu às pressas.
No corredor que abrigava os quartos correspondentes à ala de terapia intensiva, em frente ao quarto onde Geisty estava internada três cavaleiros de Ouro travavam uma batalha em meio a cochichos e gestos nervosos, enquanto do lado de dentro doutor Hector e sua equipe avaliavam a paciente.
— Mas por que o Shaka? — sussurrou o cavaleiro de Virgem com as sobrancelhas franzidas numa expressão de zanga e os olhos fechados, enquanto balançava a cabeça freneticamente ao modo indiano — Vocês não podem exigir isso dele. É cruel!
— Mais cruel vai ser se eu tiver que dizer a ela, santa. — disse Afrodite cujos lábios até tremiam de aflição — Eu sou péssimo com palavras e... eu não vou conseguir... Eu prefiro tomar mais cinco facadas no bucho do que ter de contar a ela o que aconteceu. Tô loka, heim!
— Que você não pode contar eu sei, Peixes. — o indiano esfregou o rosto agoniado — Esse pesadelo parece não ter fim!
— Crueldade é jogar tudo nas minas costas! Eu não tenho mais condições, Shaka! — Mu disse sério — Não tenho mais condição física, mental e principalmente emocional para lidar com mais essa situação. — deu um suspiro cansado, fechou os olhos por um instante e quando os abriu puxou o marido mais para perto de si o encarando e sussurrando ainda mais baixo — Eu sou sensitivo, Shaka, eu sinto as emoções das pessoas tocando minha pele como se fossem eletricidade estática!
— Mas Shaka também é sensitivo! — disse o virginiano impaciente e atribulado.
— Sim, você também é, mas eu vejo com meus olhos a aura de cada ser vivo ao meu redor, e por todos os deuses do Olimpo, eu não vou aguentar olhar para a aura dela quando... quando ela souber que... — Mu não conseguiu concluir a frase.
— Buda! De tudo que aconteceu com certeza essa é a provação mais inclemente! — meneou a cabeça negativamente, em seguida tocou o rosto de Áries com pesar — Tem sido terrível para você, marido.
— Sim, tem. Desde o ataque fui eu quem lidei com toda a desgraça que nos tomou e ninguém se importou no quanto isso me afetou, Shaka!
— Isso não é verdade! Não seja injusto comigo. Shaka se importou! E muito!
— Pois não parece.
Virgem recolheu a mão e ficou sério.
— Como pode dizer isso, Mu?
— Aquelas mulheres que morreram eram minhas amigas. Aqueles bebês meus afilhados... Geisty... é como uma irmã para mim... E eu ainda quase perdi você. Duas vezes! — firme Áries apontou para o virginiano — Então se realmente se importa comigo dessa vez pense o mínimo que seja em mim, no que eu sinto, em como eu estou, e me poupe ao menos um pouco, pois já não tenho forças para suportar mais esse fardo. Todos estão fugindo e sobra tudo para mim, "o bondoso Mu". Até para o Afrodite quem teve que contar tudo que aconteceu fui eu! Pelos deuses! Só que agora eu cheguei no meu limite, e o Dido está convalescente ainda. — esfregou o rosto nervoso — Por eu ser tão próximo à Geisty é que eu não vou conseguir... A dor dela vai ser minha também no exato momento em que eu lhe contar, e já estou vivendo isso há dias... Vai ser demais para mim. Eu não vou suportar mais essa... Então, Shaka, se você teve coragem suficiente para querer matar o marido dela e lhe causar mais esse desgosto, vai ter para entrar naquele quarto e contar sobre Heitor e Dario.
Surpreso e um tanto chocado com a postura ríspida do ariano, mas sem poder julgá-lo, afinal tinha consciência de sua culpa no ocorrido no salão do Grande Mestre, Virgem respirou fundo e recuou caminhando em direção à porta sem nada mais dizer.
Quando passou por Afrodite este o observava consternado, até que caminhou até Mu e falou baixinho enquanto Shaka aguardava na porta para entrar:
— Sei não se foi uma boa ideia, Mu... O Buda loirudo é tão delicado quanto um coice de mula... Talvez eu...
— Shii... Não. Você fica aqui. — disse Áries tocando o ombro do pisciano — Eu confio nele. Não há ninguém melhor que ele nesse mundo para essa tarefa. Vai por mim.
Dicionário Afroditesco
Ajeum – comida.
Badalhoca – fezes.
Cagar no maiô – fazer algo imbecil, cometer um erro grotesco.
Charufinácea – um monte de porcaria; um monte de gente mal caráter reunida em um só lugar; um conglomerado de pessoas burras ou sem modos.
Picumã – cabelo.
Tombado – arrasado, chateado, triste.
