Capítulo 53 – Uma aposta – Anette Schmidt
O Itália estava me esperando na porta do dormitório feminino quando voltei do almoço. Nós tínhamos combinado de estudar Biologia juntos à tarde, mas ele não precisava ficar ali de plantão esperando que eu voltasse... Ele estava usando uma camisa social azul claro, com calça social marrom e mocassim da mesma cor, contrastando muito com meu conjunto de moletom amarrotado. Dá a sensação estranha de que ele é a pessoa com os parafusos no lugar por aqui...
- E então, Itália? – eu perguntei. – Onde nós vamos estudar?
- Onde mais? No seu quarto, Anecchan!
- Como assim?!
- Calma, calma! – o Itália começou a agitar sua inseparável bandeira branca. – Eu ia oferecer o meu quarto, mas o Áustria-san e a Hungria-san estão ensaiando lá!
- Não faz diferença no quarto de quem você pretende estudar! – eu respondi, vermelha de raiva. – Uma garota não pode entrar sozinha no dormitório masculino, e o inverso também é proibido! Você sabe disso!
- Mas suas companheiras de quarto não estão aí?
- Não! – Inspirei fundo e soltei o ar aos poucos. – A Bélgica foi fazer o trabalho de Artes com o irmão e a Seychelles saiu com sei lá eu quem para comer bolo em algum lugar.
- Ve... – suspirou o Itália. – Mas ainda assim eu posso ir no seu quarto, não é, Anecchan? Se acontecer alguma coisa, você pode bater em mim!
- Que história é essa de "se acontecer alguma coisa"?!
- Ve! É só porque esse é o motivo de não poder entrar garotos no dormitório feminino, não é? Ve, não me bate!
Eu abaixei a mão que instintivamente estava pronta para surrar o Itália.
- Bom, você tem razão, para variar. Vamos entrar – eu gesticulei com a mão para que ele viesse. – Mas, se você fizer qualquer coisa, você sai daqui em uma ambulância!
Ao chegarmos no meu quarto, o Itália se sentou em uma das poltronas enquanto eu pegava na minha cômoda os livros de Biologia que eu peguei emprestado na biblioteca.
- Você disse que o Áustria e a Hungria estão ensaiando, Itália?
- Sim! Para o concurso de cantores do mês que vem!
- Ah, então finalmente conseguiram convencer a Hungria?
- É! E eu vou participar também!
- Senhor, proteja os ouvidos de todos na plateia...
- Ve, Anecchan! Eu canto bem!
- Sim, posso imaginar – eu disse, com sarcasmo, mas o Itália pareceu acreditar que eu estava falando sério... – Bom, que seja. Vamos começar logo a estudar.
Eu me sentei em outra poltrona, e coloquei todos os livros na mesinha de centro. Peguei um e comecei a folhear na parte da matéria que estávamos estudando.
- Eu não faço ideia de como começar a estudar essa coisa... Tem certeza de que não quer chamar mais alguém, Itália?
- Claro que tenho, Anecchan!
- Bom, então me explique a matéria.
- Se eu soubesse, eu não teria pedido para você me ensinar, Anecchan...
- Assim fica difícil, né, Itália! – Eu respirei fundo mais uma vez. – Bom, então vamos alternar perguntas. Olha, nos livros já tem as respostas, então, se o outro não souber responder, quem fez a pergunta pode explicar.
- E quem responder menos perguntas paga um gelato[1] para o outro?
- Quê?! – quase deixei o livro cair.
- É porque senão não tem motivação para responder as perguntas...
- E que tal se sua motivação for aprender?!
- Mas aí não tem graça, ve!
- Tudo bem, tudo bem! – eu me resignei. – Eu vou começar com as perguntas então. – Abri o livro na parte das questões e li a primeira em voz alta. – Explique a Teoria do Big Bang.
- Não é justo, Anecchan! Não pode ficar escolhendo pergunta difícil!
- Difícil?! Essa é a primeira questão do livro, é para ser a mais fácil!
- Então tá... – os ombros do Itália caíram, como se admitindo a derrota antes mesmo da guerra começar. Tão a cara do Itália... – Tem alguma coisa a ver com o relógio na casa do Inglaterra?
- Esse aí se chama Big Ben, Itália...
- Ah, já sei! – uma ideia ocorreu ao Itália. – Tem alguma coisa a ver com uma grande explosão?
- Você simplesmente traduziu "Big Bang", imbecil! – eu bati com o livro na cabeça dele. – Bom, foi mais ou menos isso, então... Considere isso um meio ponto, e eu leio a resposta para você...
Não foi nenhuma surpresa quando o Itália perdeu nossa ridícula "aposta". Assim, saímos os dois para comer o tal do sorvete que ele insistia em me pagar ainda hoje como "agradecimento pelo estudo". Eu expulsei o Itália do meu quarto para que eu pudesse ao menos colocar uma roupa decente para ir á cidade: uma calça jeans e uma blusa de manga curta amarela, com os mesmos tênis que eu já estava usando.
- Isso é mais ou menos um encontro, não é?
O Itália parece gostar de fazer eu me engasgar com sorvete de baunilha. Eu não acho isso nem um pouco engraçado.
- C-como assim?!
- Ve! Eu, você, gelato! Parece um encontro, não parece?
- N-não! – eu exclamei. – Se isso fosse um encontro, o de semana passada também seria!
- Ve, então esse é o nosso segundo encontro?
Parei tão bruscamente de andar que derrubei meu sorvete no chão, segurando apenas a casquinha.
- A-amigos não saem em e-encontros, Itália! Aah, meu sorvete!
- Não se preocupe, Anecchan! Eu pago outro! – o Itália também freiou bruscamente e derrubou seu sorvete. – Ve, Anecchan! Foi a primeira vez que você disse que nós somos amigos!
Entrei em choque quando percebi a saia justa em que eu havia me metido. Ou eu admitia que considerava o Itália um amigo, e aquilo não era um encontro, ou negava que éramos amigos e admitia que estávamos em um encontro. Não sei qual das opções era pior...
- N-não somos nem uma coisa nem outra, idiota! – eu estava a ponto de explodir, de tão quente que meu rosto estava. – Somos colegas de classe que por um acaso treinam juntos aos sábados!
- Ve, Anecchan! Você não é sincera consigo mesma, igualzinho o Alemanha!
Eu fuzilei-o com os olhos.
- Sim, eu sou igualzinha ao Alemanha-sama, agora dá para parar com essas comparações?
- Ve! Essa não foi a minha intenção, Anecchan!
- Ah, é? E qual foi, então?
- Falar que você não é boa em mentir!
Abri a boca para responder, mas a fechei antes de dizer qualquer coisa. Talvez o Itália estivesse certo; talvez eu não soubesse mentir e estivesse enganando a mim mesma (ainda que isso pareça um grande paradoxo). Mas ele não estava certo quanto aos encontros!
- Anecchan?
O Itália estava sacudindo uma mão na frente dos meus olhos. Ao que parece, eu estava encarando fixamente o nada e ele ficou preocupado.
- Eu não tinha a intenção de magoar você, Anecchan! – desculpou-se o Itália. – Eu só queria... Bem... Saber o que eu sou para você...
E eu achando que meu rosto não podia ficar mais vermelho...
- N-não venha me dizer que você também não tinha duplas intenções com essa frase!
- Duplas? Mas minha intenção está bem clara dessa vez, ve...
- O que você é para mim...? Um italiano idiota, satisfeito?!
- Não! Não foi nesse sentido que eu quis dizer!
- Ah, agora a frase tem duplo sentido, é?
- Não! – o Itália parecia incrivelmente frustrado. – Quando alguém pergunta isso, a pessoa quer saber se a outra o considera um amigo ou alguma coisa assim!
Eu estava tendo lições de vida com o Itália. Sem comentários. Eu nem sabia o que responder a ele, de qualquer forma...
- E o que e-eu sou para você, Itália? – perguntei sem mesmo ter certeza de que queria ouvir a resposta.
- Se eu responder primeiro, você responde depois? – perguntou o Itália, esperançoso, e eu confirmei com a cabeça em um movimento quase imperceptível. – Eu queria poder dizer que você é minha amiga, Anecchan, mas... A última vez que eu me senti assim foi há centenas de anos atrás, então talvez eu não esteja conseguindo distinguir bem o que eu sinto... Mas eu já fiz vários amigos nesse tempo todo, e eu não me senti tão feliz ao lado deles como me sinto ao seu...
Eu entrei em estado de choque, abrindo e fechando a boca diversas vezes sem emitir som algum. Foi a primeira vez que alguém me disse isso; ao menos, dessa forma e com essa estranha atmosfera no ar. Embora eu tenha dito ao Itália que responderia, eu simplesmente pedi desculpas e me afastei dele o mais rápido que pude.
Porque eu não sabia o que aconteceria se eu admitisse que, de certa forma, a recíproca era verdadeira.
[1] Gelato: "sorvete", em italiano.
