Capítulo Vigésimo Primeiro

-As pessoas estão alertadas, a cidade está deserta, todos estão em suas casas. Temos os soldados posicionados na muralha, os esgotos estão todos selados, então não haverá nenhuma invasão como da ultima vez. –Sor Loras explicou, parado ao lado da Rainha, que observava o mar com a expressão carregada.

-Sor Loras, do que se trata essa estratégia que Tywin mencionou?

-Eu não sei ao certo, sua Graça. –ele respondeu, tentando ver o que havia de tão urgente no mar que não pudesse permitir que ela desviasse os olhos um instante sequer.

-O senhor se incomodaria de averiguar, por favor? –e com um aceno de cabeça que ela não viu, ele se afastou.

Catelyn sentia o corpo tremer quando pensava que o sol estava quase posicionado do exato mesmo modo que ela vira em seus pensamentos. Tywin não estava à vista, assim como seu irmão gêmeo. Ambos cuidavam da provável defesa que a cidade necessitaria. Catelyn precisou jurar que não sairia de dentro do castelo e que enviaria baús com pertences seus para o navio que a esperava para fugir, se necessário. Mas conforme a tarde terminou de passar e a noite chegou, ela se sentia aliviada, porém frustrada, pelo fato de que nada aconteceu.

Quando Tywin a encontrou, ela estava sentava à escrivaninha em seu escritório particular, com as palmas das mãos apoiando sua cabeça, parecendo incrivelmente cansada.

-Tudo continua calmo, mas eu deixei os homens preparados.

-Obrigada.

Ele se aproximou um pouco, sua armadura tilintando a medida que ele andava. Imaginou se deveria tentar dar-lhe algum conforto, mas o aço gelado da armadura não seria capaz de fazer aquilo.

-Querida?

Ela o olhou parecendo perdida em devaneios. Sua cabeça doía o bastante para nublar sua visão e ela não tocou na refeição que lhe foi trazida por suas criadas.

-Você deve ir para o quarto e me esperar lá. –ele disse- Eu irei me livrar dessa armadura e logo buscaremos entender o que aconteceu hoje. Ou o que não aconteceu.

-Eu provoquei tanta perturbação para nada.

-Você é a rainha, pode se dar ao luxo de ser um pouco excêntrica às vezes.

-Excêntrica? –ela soou indignada, mas não tinha energia para discutir. Relaxou quando ele sorriu balançando negativamente a cabeça. Ela era uma pessoa relativamente fácil de enfurecer.

-Levemente. Agora vá, me espere nos seus aposentos. Jantaremos juntos, apenas eu e você. Não se preocupe com mais nada, com ninguém.

Ela fez como ele pediu, retirou o vestido e enfiou-se num pesado robe de lã, forrado por pele de lebre. Estava aquecida, confortável em sua cama. Aos poucos começava a sentir-se faminta, mas a sensação de que algo estava errado não abandonava seu peito. Quando Tywin chegou, com os cabelos e barba ainda úmidos pelo banho recém tomado, e sentou-se na cama ao lado dela, havia uma inquietação em seu olhar.

-Eu estou faminto. –disse apenas, tentando disfarçar alguma coisa.

-Tywin? –ela estreitou os olhos quando viu o olhar dele se afastando dela.

-Eu pedirei que as aias sirvam o jantar, tudo bem?

-Não, me diga o que está havendo?

Ele suspirou, segurando a ponte do nariz e fechando os olhos. Sequer podia imaginar o que aquela informação não confirmada faria a sua esposa. Ele mesmo sentia que estava desmoronando por dentro apenas ante a ideia de aquilo ser real. Mas as chamas jamais mentiram antes e Lady Melisandre parecia muito segura.

-Eu acredito que você teve um pressentimento correto esta tarde. –ele disse, segurando sua mão- Lady Melisandre esteve observando o fogo durante todo o dia, e apenas pode relatar que Stannis estava travando uma batalha na Muralha e que ela era necessitada lá. Portanto a mulher irá partir em breve.

-O que mais ela viu? –Catelyn começou a inquietar-se ainda mais.

-Não é nada confirmado.

-Tywin!

-Houve um ataque em Dorne.

-O que? –ela gemeu em falsete, como se suas forças fossem completamente exauridas.

-Não há nenhuma palavra sobre onde exatamente este ataque ocorreu em Dorne, nenhuma palavra sobre Hoster e Sansa... Mas ela estava bastante segura de que era Dorne e que você não estava considerando algo que ela disse antes.

-Eles se levantaram apenas porque Hoster nasceu. Eles seguirão nosso filho tão longe ele vá... –as lágrimas escorreram por seu rosto, e ela agarrou-se a ele com toda a força que tinha- Tywin, o que nós vamos fazer?

-Enviá-los para Essos. –ele disse- Eu já despachei um corvo, um cavaleiro... Não faço ideia de quem chegará primeiro, mas eu espero que seja o suficiente. Cate, não se desespere...

Mas ela já estava entregue. Sentia em seus ossos que alguma coisa estava muito errada, sua única reação foi lançar-se ao tapete, diante da lareira, tentando ver o que ocorria dentro do fogo. Mas seu descontrole emocional só tornava tudo muito difícil. Tywin segurou seus ombros, ajoelhado no tapete junto dela e tentou acalmar seus ânimos.

-Respire junto comigo... Devagar. –ele dizia, mas ela não conseguia. Usava o atiçador para remexer as brasas, mas era em vão. Sua mente não se aclarava o bastante para que ela conseguisse ver alguma coisa.- Cate, você precisa fazer um esforço.

-Não importa o que nós façamos, Tywin... Não importa, ele...

-Ele sempre irá atrair essas coisas, mas você viu a si mesma no futuro ao lado dele. Viu que ele vai conseguir passar por isso.

-Meu bebê... –ela já não podia mais, largou o atiçador e enfiou a cabeça nas mãos, sentindo o peso daquela certeza esmagar seu peito- Hoster já não está vivo... Eu não acredito que Sansa esteja...

-Não fale assim! –ele a puxou para seu colo, ficando jogado no chão com ela por um longo momento, estremecendo ao pensar que ela podia estar certa.

Seu peito sangrava quando ele imaginava que provavelmente sobreviveria a todos os seus filhos, inclusive àquele que como Catelyn disse ainda esta manhã, era pequeno o bastante para ser escondido em seus braços. Lady Melisandre quase disse aquelas mesmas palavras, duvidando que Hoster estivesse vivo, não podendo encontra-lo. Mesmo ela parecia transtornada com essa ideia. Tywin ergueu a mulher nos braços e a colocou na cama, puxando o cobertor sobre ela e observando sua figura encolher-se e enroscar-se em tono de si mesma, totalmente entregue ao pranto.

Ele foi até o guarda da porta e ordenou que ele trouxesse o meistre até os aposentos da esposa, e voltou para junto dela. Em pouco tempo o homem estava ali, atendendo ao pedido de prover um sono fácil e calmante à sua Rainha. Catelyn tomou o chá de valeriana sem reclamar, apenas pediu a Tywin que não saísse de perto dela. Quando foram deixados sozinhos, ele imaginou se não deveria ter pedido uma dose também para si mesmo. Ela parecia relaxada, ainda que estivesse acordada. Seu choro não se deteve completamente até que o sono a venceu, e por um longo tempo, ele ficou ali, acariciando o rosto que tanto amava, afastando as lágrimas dos seus olhos, secando o nariz que insistia em escorrer...

Pensava em Hoster e em Sansa. Pensava no que faria para manter seus filhos à salvo, pensava que talvez fosse o caso de partir para Dorne e retirá-los de lá ele mesmo, fugindo para o ponto mais distante de Essos a fim de mantê-los a salvo. Pensou em Jaime, mantendo as Terras Fluviais a salvo, mesmo não pertencendo àquele lugar. Temeu também por ele, mas de algum modo imaginava que seu filho mais velho saberia como cuidar de si mesmo e dos próprios filhos.

Beijou a testa de Catelyn por um longo momento, encaixando o rosto em seu pescoço e inspirando o perfume floral que ela sempre usava. Tentou relaxar, clarear a mente, mas não conseguia. Ergueu-se e foi servir-se de vinho, mas não ajudava, ele não conseguia fazer com que sua mente abandonasse os filhos.

Quando ouviu o distante som de uma trombeta, seu corpo inteiro retesou-se. Foi até a varanda leste e tentou observar a cidade. A muralha estava muito ao longe, mas pelo modo como as tochas se moviam rapidamente, algo estava acontecendo. Novo toque de trombeta, agora mais próximo, Catelyn remexeu-se na cama e ele se apressou em estar ao seu lado. Em pouco tempo, batidas na porta denunciaram que algo estava realmente vindo.

-Meu senhor, a cidade está sendo atacada. –ele ouviu Loras Tyrell dizer, seu bonito rosto de donzela aterrorizado pelas palavras que ele proferia.

-Por onde?

-Através do bosque oriente, senhor. É o primeiro ataque por terra que chega até aqui, e o senhor não vai acreditar no tamanho da horda que está se chocando contra nossos muros.

-Ordene que a tropa se mova para o leste, mas deixe uma guarnição de cem homens guardando o outro lado. E volte para cá, você irá se assegurar de colocar Catelyn num navio caso... –e hesitou, se dando conta de que se o ataque acontecia pelo lado oriente, provavelmente a península estaria tomada àquela altura- Oh não.

-Lorde Tywin...?

Ele deixou o quarto correndo, não se importando por estar trajando apenas um roupão e uma folgada calça de algodão. Saiu do castelo e correu, ignorando a maior parte das pessoas a sua volta. Quando encontrou uma das guaritas viradas para o bosque, subiu os degraus rapidamente e posicionou-se diante da amurada. Definitivamente perdeu o fôlego.

A Península estava intacta, mas ele temia que com a batalha que aconteceria os mortos vivos fossem forçados a recuar naquela direção ou voltar para o bosque. Tendo lutado outras batalhas conta as mesmas criaturas, ele sabia que nenhum deles jamais abandonava nenhuma luta. Mas ainda assim, isso não era o mais alarmante. A quantidade de mortos vivos era assombrosa, jamais vira tantos num campo de batalha antes, e todo o exercito Lannister não seria o bastante para lidar com a metade deles. Quando os homens se posicionaram diante dos portões, Tywin temeu permitir que eles fossem abertos. OS arqueiros estavam fazendo um bom trabalho até então, mas quando eles se avolumassem na base da muralha da cidade, seria fatal.

Tywin desceu da guarita, decidido a vestir sua armadura novamente, mas encontrou Gerion voltando dos portões e foi interceptado.

-A estratégia de lançar fogo vivo neles está valendo. –ele ofegou- Eu disse aos guardas para trazer os potes para este lado da muralha, só espero que eles não sejam tolos o suficiente para deixar algum cair no chão.

-Nós não abriremos os portões. –Tywin decidiu.

-O que? –o outro ganiu como se aquela fosse a coisa mais impropria que jamais ouviu na vida.

-Sem campo de batalha, devemos manter a cidade de dentro pra fora. Não há como enviar cinco mil homens para a morte no meio de talvez doze mil Caminhantes Brancos.

-Não há tantos deles assim...

-Há. –Tywin garantiu- Não abra os portões, jogue o máximo de fogo vivo neles que consiga reunir. Eu irei recolocar minha armadura e preciso retirar Catelyn do castelo.

-Ela estará segura no...

-Não! –Tywin interrompeu- Ninguém mais está seguro e eu certamente não deixarei que ela fique aqui nessa situação.

Quando a primeira explosão encheu o ar, representando o primeiro pote de fogo vivo lançado no meio dos Caminhantes Brancos, Tywin e Gerion sentiram o chão tremer. Aquele era um brinquedo perigoso, concluíram.

-Vá! –Gerion disse- Tire ela daqui.

-Me dê metade de uma hora e eu estarei de volta.

-Não. –ele segurou o irmão pelos braços- Vá, tire ela daqui! Mantenha a Rainha a salvo, o que puder ser feito por Casterly Rock será feito, mas você deve partir.

-Eu não abandonarei o Rochedo.

-Você abandonará aquela mulher? Se você não quiser, eu posso ir no seu lugar!

-É mais complicado do que isso! –outra grande explosão, Tywin imaginou que definitivamente Catelyn estaria desperta agora, talvez remexendo seus baús em busca de uma veste que permitisse seus movimentos e a abrigasse do frio.

-Não há tempo a perder com debates inúteis. Tire Genna daqui também.

Ele voltou correndo para a Muralha. Tywin não sabia bem o que fazer, mas quando finalmente chegou ao hall do castelo, encontrou Catelyn muito bem acordada rumando para fora.

-O que você está fazendo? Sua rota é extremamente oposta a esta!

-O que são essas explosões?

-Fogo vivo. –ele respondeu, segurando-a pelos braços e conduzindo-a de volta para dentro do castelo- Escute, não há como combater essa horda.

-O que?

-Entre naquele navio antes que seja muito tarde.

-Não...

-Você precisa encontrar nossos filhos, Cate. Vá.

-Não. Não, Tywin, eu não irei. –ela agarrou-se a ele- Definitivamente, eu não deixarei você aqui.

-E se você estiver esperando uma criança, seria capaz de colocar-se em risco por...?

Outra grande explosão, agora também o som de uma imensa gritaria enchia o ar. Ela desvencilhou-se dele e correu o mais rápido que pode para fora. Não conseguia ver nada dali, mas seguiu correndo. As pessoas do Rochedo apenas gritavam e corriam em diversas direções diferentes. Tywin a seguiu, não podendo acreditar como ela conseguia ser tão rápida. Então ela se deteve, seus pés não conseguindo seguir correndo, seus olhos pousados na grande rachadura na muralha que guardava a capital. Tywin viu a mesma coisa, o fogo verde queimando através da fenda. Nesse instante uma explosão atrás da outra, culminando numa ultima explosão gigantesca, que pareceu queimar até onde eles estavam, a milhas de distancia da muralha, colocou a baixo um segmento inteiro.

-Oh... –ela gemeu, os ouvidos piando por conta do estrondo alto.

Ela não sabia o que ele havia dito, mas não resistiu quando a mão dele agarrou a sua e ele a puxou de volta ao castelo, correndo o mais rápido que podia. Não pensavam em nada, apenas em conseguir chegar lá. O caminho foi parcialmente obstruído pela quantidade de pessoas que tentava fazer o mesmo que eles, mas ainda assim não era o bastante para detê-los. Quando Tywin irrompeu dentro do castelo, Catelyn ofegava, parecendo apavorada.

Casterly Rock estava encontrando sua ruina aquela noite, e Tywin se recusava a pensar nisso. Quando eles finalmente entraram no quarto, Tywin pegou uma pele, sua espada, orientou Catelyn a fazer o mesmo, reuniu uma boa quantidade de guardas, lhes orientou a recrutar Melisandre, Brynden Tully, Loras Tyrell, Varys e Genna no hall de entrada, e que eles estivessem prontos para partir.

-Você enviou todos os baús para o navio?

-Sim. –ela respondeu, jogando uma capa de viagem sobre os ombros.

-Metade do ouro de Casterly Rock está naquele navio, a outra metade está espalhada por Westeros em forma de dividas. Não importa o que aconteça ou até onde precisemos ir, nada vai nos faltar.

-Então você está vindo comigo? –ela sorriu.

-Olhe em volta e me diga o que resta aqui pra mim? –ele murmurou, calçando as botas depois de ter colocando suas vestes.

Quando ambos deixaram a torre e chegaram ao Hall de entrada, encontraram apenas Brynden Tully, Loras e Genna.

-Melisandre? –Catelyn perguntou.

-Ela disse que estaria bem, foi para a muralha. Lorde Varys deixou Casterly Rock alguns minutos atrás. –Sor. Loras disse- Lorde Tywin, o que o senhor pretende fazer?

-Salvar o que resta desse governo.