Capítulo Cinquenta
Light On The Horizon
Ron subiu as escadas, evitando os degraus que rangiam mais alto. Tinha deixado Hermione dormindo, murmurando coisas indistintas quando ele saíra da cama. Fora a primeira vez que estivera no quarto dela. Todas as outras vezes que tinha ido à casa dos pais dela, tinha ficado no andar debaixo, na cozinha ou na sala de estar. Era exatamente o que esperara. Quase dolorosamente organizado, livros preenchendo quase todas as superfícies horizontais, catalogados por assunto e na ordem alfabética. Toques de capricho revelavam a falta de dobras nas pontas dos livros. Um móbil de libélulas estava suspenso no teto, em um canto; ramos pintados ao redor do quarto se entrelaçavam pelas paredes e um cobertor de coloridas borboletas estava esticado cuidadosamente sobre a cama.
Prendeu o ar quando passou rapidamente na frente do quarto de seus pais. Molly, ele sabia, iria acordar logo e, por mais que soubesse que ela não lhe daria um sermão por chegar em casa às cinco da manhã, o olhar levemente desaprovador o atingiria mais do que qualquer grito que ela pudesse dar. Ron esperou no patamar, em frente ao seu quarto, aguçando os ouvidos, procurando pelo ranger da porta do quarto de Molly e Artur sendo aberta. Soltando um suspiro de alívio, abriu a porta de seu quarto, parando tão logo entrou. Ginny estava enroscada em Harry, ambos adormecidos. Um livro grosso estava no chão, sua espiral obviamente danificada. Curiosamente, Ron entrou no quarto nas pontas dos pés e o pegou o livro com um leve franzir, enquanto várias páginas caíam ao chão. Virou para ver o título e abafou um xingamento. O Escolhido? Uma Biografia de Harry Potter por Rita Skeeter... Disse a si mesmo. Ele deve tê-lo jogado. Não o culpo...
Ron colocou o livro sobre uma estante e esticou a mão para balançar o ombro de Ginny.
- Gin? – murmurou. – Gin? – a balançou com um pouco mais de força.
- O qu...? – Ginny piscou e olhou confusamente para Ron.
- Melhor voltar para seu quarto, antes que a mamãe se levante. – disse suavemente, tentando não acordar Harry.
- Que horas são? – ela perguntou, grogue.
- Um pouco depois das cinco.
- Unnngh... – Ginny se esparramou sobre o peito de Harry, fazendo-o resmungar, enquanto acordava. Apertou os olhos para a imagem borrada de Ron.
- O que 'ta acontecendo? – murmurou, se espreguiçando, fazendo a roupa de cama farfalha, enquanto apertava os braços ao redor de Ginny.
- Nada. – Ron o assegurou, se sentando na ponta da própria cama.
- Ceeeerto... – Harry bocejou, virando-se de lado e ficando de conchinha com Ginny. Ela se acomodou contra o corpo dele.
Ron caiu de costas sobre a cama.
-Ótimo. – resmungou. – Se metam em problemas. Vejam se eu me importo. – mas seu aviso não surtiu efeito. Harry e Ginny já tinham voltado a dormir. Ron balançou a cabeça e, logo, seus roncos soavam pelo quarto.
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Um alto pop veio do jardim. Molly espiou pela janela, uma colher cheia de ervilhas erguida sobre seu prato.
- Quem...? – se perguntou. Uma figura abriu o portão e entrou na propriedade, hesitando por um momento, antes de permitir que o portão se fechasse. Ele carregava um embrulho pequeno e fino sob um braço. O sol do meio dia fazia seu cabelo chamativo brilhar. – Charlie? – Molly murmurou. – Charlie! – exclamou. – Oh, é Charlie! – acenou a varinha para o armário e um prato extra voou para a mesa com a velocidade de uma vassoura de corrida. – Charlie! – correu para o jardim para recebê-lo, jogando seus braços ao redor dele, a força de seu abraço fazendo-o gemer. – Entre, querido. Acabamos de nos sentar para o almoço. – contou alegremente, guiando-o para a cozinha. – Ginny veio passar o feriado em casa. – adicionou. – Os outros garotos também estão aqui. Bem, menos Bill. – adicionou.
Charlie deu um tapinha gentil em sua mão.
- Vou ficar aqui a tarde toda, mãe. – avisou, sentindo culpa por mal ter escrito para seus pais desde janeiro nem ter ido visitá-los desde o natal.
- É claro que vai. – Molly começou a encher seu prato de comida.
Charlie suspirou e notou o olhar de George. George sorriu de leve, indicando a mesa com a cabeça. Charlie deu de ombros timidamente, suas bochechas coradas, enquanto aceitava o prato cheio demais que sua mãe lhe passava.
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Charlie andou até a parede de pedras, com o pacote fino em suas mãos.
- Você chegou a falar com a garota da poesia? – perguntou, olhando para o horizonte.
- Sim.
- E?
George coçou o nariz.
- Estamos conversando.
- Apenas conversando?
- Ficamos de mãos dadas e jogamos jogos de palavras, também. – George retorquiu.
- É assim que chamam atualmente? – Charlie sorriu afetadamente. Acomodou-se sobre a parede de pedra e ofereceu o pacote para George em uma afirmação caracteristicamente silenciosa.
- O que é isso?
Charlie girou os olhos.
- Apenas abra, tonto.
George girou o pequeno pacote em suas mãos. Era pequeno o bastante para carregar nas mãos. Rasgou o papel simples e marrom que Charlie tinha usado para embrulhar. Um desenho cuidadosamente feito de um George de cinco anos olhou de volta para ele, ao lado de Fred, seus cabelos mal cortados emoldurando sorrisos arteiros. George piscou para afastar as lágrimas.
- É brilhante. – disse roucamente.
- Eu fiz para o seu... Bem, você sabe. – Charlie disse, dedilhando os contornos de uma nova queimadura em seu antebraço. – Apenas supus que em um dia diferente...
George assentiu silenciosamente. Charlie tinha abandonado seu estilo usualmente preto e branco e adotado tons pastel. Suas bochechas redondas e rosadas pela risada, sardas espalhadas por seus narizes e olhos castanhos vivos. O talento nato de Charlie encantava George, mas não era algo muito apreciado na maioria da sociedade mágica. Antes de ter ido ao País de Gales depois do natal, George dificilmente se incomodava em pensar nele. Escondido entre as inteligências combinadas de Bill e Percy, Charlie às vezes era esquecido. Jogado nas próprias artes de George com Fred, as aventuras de Ron na escola e a mera presença de Ginny como a primeira garota nascida na família Weasley, não era uma surpresa de verdade que Charlie tivesse ido para Romênia assim que possível. Isso deu a George um novo entendimento de como Ron deveria ter se sentindo crescendo sob a sombra de seus irmãos mais velhos.
- Você não precisa ficar com ele. – Charlie disse neutramente. – Se te incomoda... - adicionou, sua voz interrompendo os pensamentos de George.
- Oh... Não. – George balançou a cabeça. – É perfeito. É só que... Você... Você é... – seus lábios se pressionaram, enquanto se recompunha. – É perfeito. – repetiu suavemente.
Charlie sabia que não havia como distrair George do fato de que seu aniversário estava se aproximando. Era melhor que sua mente reconhecesse isso, enfrentasse a dor e o medo e aprendesse com isso. É como lidar com um Rabo Córneo, refletiu.
George pigarreou.
- Então, não somos tão assustadores, não é?
- Não em pequenas doses. – Charlie disse. – Mas acho que preciso abrir a calça. Parece que engordei dez quilos aqui.
- Sim, mamãe não entende que nem todo mundo precisa comer o equivalente ao próprio peso em bases diárias. – George disse rispidamente.
- É melhor do que feijão enlatado sobre a pia da cozinha. – Charlie respondeu.
- Isso é. – George deixou o desenho de lado. – Não demore tanto para voltar da próxima vez, eh?
Charlie assentiu, as pontas de suas botas brincando com a grama alta, que crescia contra a parede. Tinha notado o rosto alegre de Molly ou o sorriso satisfeito que brincava na boca de Arthur, enquanto Charlie lhes contava alguns dos turnos mais divertidos na reserva. Sabia que não ia matá-lo voltar para casa com um pouco mais de frequência, especialmente agora que estava tão perto e não tinha que lidar com Chaves de Portal internacionais e tinha poucas desculpas para evitar visitar até poder acumular mais que um ou dois dias de folga.
- Vou ver o que posso fazer...
- Por que você veio hoje? – George perguntou sobriamente. – Por que hoje e não, sei lá, três semanas atrás?
- Pareceu um bom dia. – Charlie disse.
- Por que um aniversário está se aproximando? – George pressionou cuidadosamente. – Vindo apenas para o natal e para aniversários, Charlie... Que coisa feia. – bateu levemente os calcanhares contra a parede. – E, pelo menos, agora você tem um trabalho divertido. Bill trabalha atrás de uma mesa e Percy ainda é, bem... Um idiota. Mas agora ele é um idiota com responsabilidades. – riu. – Fred e eu admirávamos você. – George contou pensativamente, com apenas um terço da dor que teria sentido há quase um ano. Ainda doía, mas não parecia que ele estava se afogando na dor.
Charlie bufou em descrença.
- Vá em frente e me conte outra.
George balançou a cabeça.
- Admirávamos. Sabe... Se você não tivesse saído mais cedo da escola, Fred e eu podíamos não ter tido coragem de fazer isso.
- Não foi tão simples quanto apenas sair da escola. – Charlie arguiu.
- Mas você também não terminou. – George reforçou.
- Eu prestei alguns N.I.E.M's na Romênia. – Charlie suspirou. – Os testes de Cuidados das Criaturas Mágicas e Feitiços, mesmo, apenas o que eu precisava para saber para a reserva. E isso foi depois de trabalhar lá por alguns anos.
- Mas você foi fazer o que queria. E você estava fazendo algo que amava. Foi isso o que Fred e eu fizemos. – o fantasma de um sorriso apareceu no rosto de George. – Mas com muito mais elegância e estilo. – adicionou. Charlie bufou novamente, dessa vez com divertimento. Ouvira como Fred e George saíram da escola em suas vassouras, em um show de fogos de artifício. George olhou para Charlie. – Você realmente é o rebelde da família. Apenas seguimos seus passos.
Os ombros de Charlie sacudiram um pouco quando ele riu.
- Não deixe mamãe te ouvir falar isso.
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Arthur fechou seu roupão ao redor de sua cintura e subiu as escadas até o quarto de Ron. Podia não ouvir todos os estalos da escada, como Molly, mas estava mais do que ciente de quando Ginny fora para o quarto do irmão. Não ouviu quando ela voltou para o próprio. Similarmente, sabia quando Ron tinha voltado para casa, por mais que ele tivesse feito esforços para fazer tão pouco barulho quanto possível. Arthur não era ingênuo quando se tratava de seus filhos. Sem mencionar a perda de um membro ou vida, Arthur preferia escolher suas batalhas quando os meninos ou Ginny tomavam decisões que se provavam erradas. Podia contar em uma mão o número de vezes que ficara verdadeiramente furioso com algum deles. Bravo —claro que já ficara bravo — que pai nunca ficara bravo com seus filhos? Arthur estava ciente de que impressão sua aparência dava para as outras pessoas. A obsessão levemente tola por coisas Trouxas, o cabelo ralo, os óculos que estavam sempre um pouco tortos. Isso o fazia parecer menos que competente. Arthur achava que era uma boa camuflagem. Ninguém imaginaria que Arthur sabia mais do que deixava transparecer.
O som de uma discussão estridente encontrou seus ouvidos quando chegou ao patamar do quarto de Ron. Arthur bateu suavemente na porta e o som cessou imediatamente. Ron abriu a porta lentamente e espiou pela abertura.
- Estávamos falando muito alto, pai? – ele perguntou.
Arthur colocou as mãos nos bolsos de seu roupão.
- Não. Eu apenas queria conversar um pouco com você e Harry.
A cabeça morena de Harry apareceu atrás da de Ron.
- Nós não fizemos nada! – protestou.
- Quem disse que fizeram? – Arthur entrou no quarto e indicou para os garotos se sentarem na cama de arma, enquanto se acomodava na ponta da cama de Ron. Uma sobrancelha se ergueu um pouco quando viu as pantufas de Ginny cuidadosamente escondidas sob a cama de armar. – Agora que vocês estão indo morar sozinhos, ou vão fazê-lo em breve, está na hora de eu ter uma conversa com vocês. Devia ter feito isso há muito tempo, mas, bem... Não era a hora certa.
Ron e Harry trocaram um olhar confuso, mas esperaram com expectativa para que Arthur continuasse.
Arthur pigarreou algumas vezes.
- Bem, então... Haverá uma hora em que vocês irão querer ficar... Íntimos com outra pessoa. – tossiu. – E vocês devem saber que há maneiras de evitar se colocarem em situações que possam não se sentir prontos para enfrentar, emocionalmente ou financeiramente. – as sobrancelhas de Ron se ergueram até sumir sob sua franja e sua resposta ficou presa em sua garganta. – Vocês devem saber que há um feitiço, mas como todas as coisas mágicas, é o quão bem você consegue se concentrar no encantamento que importa. Não é totalmente seguro, também. – adicionou, sentindo suas orelhas queimarem. – Você pode falar centenas de vezes, mas se sua mente não estiver focada no lugar certo, não vai funcionar.
A essa altura, a cor do rosto de Ron tinha sumido, deixando-o levemente esverdeado.
Arthur se remexeu, como se o colchão estivesse cheio de pedras.
- Mas vocês não devem levar uma garota para cama apenas por levar. – disse severamente. – Tem que existir algum tipo de relacionamento. Se vocês querem se casar com ela ou não, depende de vocês, e vocês não precisam querer se casar com ela ou esperar até se casarem. Mas não devem fazer algo para o qual não estejam prontos.
O cenho de Harry se franziu. Ele não queria discutir isso com Arthur. Mas tinha pouca escolha. Quem mais ele tinha? E Arthur era o menos provável a querer lhe dar um soco no nariz.
- Como você sabe? Quando está pronto?
Arthur suspirou violentamente. Lembrava-se de ter feito essa mesma pergunta a um de seus primos mais velhos. E tinha ficado confuso com a resposta. Mas era a melhor que tinha.
- Você saberá. – disse, girando a aliança de casamento no dedo. – Certo. Então, o encantamento é Arceovotare. Digam bem antes... Bem... Das coisas começarem. – tirou a varinha do bolso, o punhal escorregando por sua mão suada. – E vocês têm que fazer esse movimento de varinha. – adicionou, balançando a varinha para cima e para baixo, como se estivesse jogando algo por sobre os ombros. – Tentem.
Obedientemente, Harry e Ron demonstraram o movimento correto da varinha e pronunciaram o encantamento algumas vezes até Arthur se dar por satisfeito com a habilidade deles executarem o feitiço. Arthur se ergueu da cama de Ron e segurou a maçaneta.
– Mais uma coisa, garotos... Pensem com suas cabeças, não com seus amiginhos. – saiu do quarto e fechou a porta atrás de si.
Ron e Harry ficaram sentados em um silêncio surpreso por um momento, antes de explodirem em risadas. Secando os olhos, Ron se esticou sobre a cama de armar.
- Você acha que deveríamos ter dito a ele que é um pouco tarde para essa conversa?
Harry balançou a cabeça, esfregando o rosto com as mãos.
- Imagino por que ele ficou todo sem jeito quando falou sobre não estar pronto para ter filhos...?
Ron se sentou.
- Oh, você não sabe?
- Sei o quê?
- É meio que um segredo, mas é o segredo mais mal guardado da família.
- Talvez você não devesse me contar. – Harry disse rapidamente.
- Oh, Gin vai te contar logo, se eu não contar. – Ron dispensou simplesmente. – Mamãe estava grávida de Bill quando eles se casaram. Ela estava de quatro ou cinco meses no casamento. – adicionou. – Papai tinha vinte anos e mamãe tinha dezenove, e a tia Muriel nunca perde a chance de lembrá-la disso.
Harry mordeu uma unha.
- Eles queriam se casar tão cedo? – seus próprios pais tinham se casado cedo, mas Harry não tinha certeza de que queria fazer o mesmo. Ainda estava tentando entender os prós e os contras de ser parte de uma família.
Ron deu de ombros.
- Sim. Se você ouvir a tia Muriel contando, eles estavam planejando se casar em dezembro, de todo modo. E ela fica reclamando do preço e bagunça de procrastinar e fazer as coisas no último minuto. – Ron saiu da cama e atravessou o quarto até sua própria cama. – Quando ela faz isso, mamãe fica toda chateada, mas ela não diz nada, mesmo que dê para ver que ela adoraria enfeitiçar aquela bruxa velha. Aí, o papai explode com a Muriel e a informa que ela não precisa vir para o jantar de natal e se ela não se importa de estar na casa dele, ela pode voltar para a própria. – Ron se cobriu. – É claro, ele faz isso quando já nos mandou para a sala. – falou.
- E se a mesma coisa acontecesse com um de vocês? – Harry perguntou curiosamente.
Foi como se tivesse conjurado o maior feitiço silenciador de sua vida. A boca de Ron trabalhou silenciosamente por vários momentos, antes de ele gaguejar.
- Mas eu achei... Você... Não...
- Não. – Harry disse rapidamente. – Quero dizer, nós não fizemos. Só estava imaginando o que eles diriam se a mesma coisa acontecesse com um de vocês.
Ron balançou a cabeça.
- Acho que eles ficariam desapontados. Quero dizer, olha para o papai e como ele falou sobre ser responsável. Mas eles nunca nos expulsariam ou fariam todos os tipos de comentários, como a Muriel. – puxou o cobertor até os ombros, os olhos azuis analisando Harry. – Mas você já sabia disso... – os olhos se fecharam e Ron adormeceu.
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Harry abriu o portão para Ginny. O vento de começo de primavera os envolvia, fazendo o cabelo de Ginny esvoaçar, apesar de seus esforços para prendê-lo em uma trança. O vento estava soltando algumas mechas da trança e brincando com elas, fazendo cócegas em suas orelhas e pescoço. Impaciente, Ginny passou a mão pelo rosto, afastando mechas ruivas dos olhos.
- O que você tem até agora? – ela perguntou.
Harry tirou um pedaço de pergaminho dobrado do bolso.
- Tudo para a cozinha, exceto louça e utensílios de mesa. Molly cuidou disso para mim. Eu preciso de uma cama, guarda roupa, roupa de cama, toalhas para o banheiro, um berço para Teddy, sofá e uma mesa para a cozinha.
- E você planeja comprar tudo isso hoje? – Ginny bufou.
- Vou ter de comprar. – Harry suspirou. – Eu fui ver algumas camas no sábado, em Londres e quase desisti. Gente demais. Muitas mulheres com carrinhos de bebê enormes... E eu não quero me mudar para o apartamento e dormir em uma cama de armar por vários dias. – olhou timidamente para Ginny. – E eu gostaria que você desse sua opinião...
- Por quê? O apartamento é seu. – Ginny arguiu.
- Você não vai...? – Harry engoliu o resto de sua pergunta. Colocou as mãos nos bolsos. – Só preciso da opinião de alguém, só isso.
Os olhos de Ginny se cerraram desconfiadamente, mas ela aceitou sua resposta.
- Tudo bem, então. Você tem algum plano?
- Sim. – Harry assentiu. – Primeiro Gringotes, para trocar dinheiro o bastante, e depois vamos para Londres. Passar em algumas lojas. Podemos comprar a maioria das coisas no mesmo lugar. E eu tenho outros lugares em mente, caso eles não tenham o que eu quero. – começou a aparatar, mas parou. – Você quer ver o apartamento primeiro?
- Acho que seria melhor.
- Primeiro Gringotes e depois vamos para Soho. – Harry decidiu. Pegou a mão de Ginny e aparatou para o Beco Diagonal.
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Ginny estava parada no meio da loja de departamento, as mãos em seu quadril, analisando a cama particularmente grande. Olhou para Harry por um longo momento, antes de voltar a olhar a cama, o lábio inferior entre os dentes. Harry esperava ao seu lado, quase prendendo a respiração. Ela não tinha dito nada, apenas continuava a olhar para a cama, uma expressão impenetrável em seu rosto.
- Bem? – ele finalmente perguntou.
Ginny soltou o ar pelo nariz, uma pequena ruga aparecendo entre suas sobrancelhas.
- É bastante grande, não é? – finalmente disse.
- Suponho que sim...
Ginny puxou a ponta da trança para cima do ombro, e brincou com o elástico que a prendia. Sua cabeça se inclinou para um lado, os olhos se fechando levemente, sua imaginação dando algo novo a ser considerado por seus sonhos. Abriu os olhos, suas bochechas levemente rosadas.
- É para que você não caia da cama quando tiver pesadelos, não?
Harry assentiu vigorosamente.
- Certo. Pesadelos.
Ginny deu a volta na cama, seus dedos se enroscando ao redor do poste.
- Não te lembra da escola?
- Por que lembraria?
Ginny deixou sua outra mão correr pelas cortinas presas no poste.
- É. Oi.
- A estrutura da cortina é opcional. – Harry disse.
Ginny se afundou no colchão, uma expressão de felicidade aparecendo em seu rosto.
- Eu gostei do colchão... – comentou, se deitando de costas com um suspiro feliz. – Você devia experimentar.
Olhando ao redor um pouco timidamente, Harry rapidamente se sentou na ponta, fazendo Ginny pular um pouco. Ela riu, fazendo com que ambos recebessem um olhar mais do que desaprovador da vendedora. Harry girou os olhos e se deitou no colchão, apoiando a cabeça na mão.
- Você gosta?
- Sim.
- Brilhante. – Harry se inclinou e beijou o nariz de Ginny. Ele saiu da cama e foi até a vendedora, sorrindo abertamente para a expressão esnobe dela. Não fique intimidado por ela... Ela não é pior do que Snape quando ele estava em seu pior humor... – Por favor. – chamou. – Eu gostaria de comprar aquela cama, os dois criados mudos, o guarda roupa e a cômoda de cinco gavetas. – a expressão da vendedora vacilou levemente. – E aquele berço ali, aquele de pinho, com a mesa de troca.
Corada, a vendedora se moveu até uma mesa e começou a digitar no teclado de um computador.
- E como você gostaria de efetuar o pagamento hoje, senhor? Cartão de crédito?
- Dinheiro.
- Dinheiro?
Harry olhou para a vendedora.
- Sim. Dinheiro.
- É bastante dinheiro. – a vendedora começou.
- Eu tenho o dinheiro. – Harry respondeu, tirando um envelope grosso de dentro de sua jaqueta.
- Você roubou um banco ou algo assim? – a vendedora perguntou sem pensar, o choque destruindo seu comportamento profissional.
- Você sempre questiona a maneira que um cliente decide efetuar o pagamento? – Ginny questionou friamente, parada atrás de Harry.
- Eu... erm...
Harry passou uma mão ao redor do cotovelo de Ginny.
- Podemos ir a outro lugar. Vamos, Gin... – começou a caminhar na direção da saída, mas a voz da vendedora os parou.
- Espere. Você disse dinheiro?
- Sim, disse. – Harry deu um olhar desdenhoso para a mulher.
- Onde você gostaria que os móveis fossem entregues?
Harry se permitiu sorrir triunfantemente.
-x-
- Foi brilhante! – Ginny exclamou. – Harry a olhou como se ela fosse a Umbitch e começou a ir embora. E ela viu aquela comissão gorda saindo com ele. Ela quase fez uma reverência quando fomos embora.
Hermione gargalhou.
- Queria ter visto isso! – disse para dentro do seu copo descartável de chá, preso entre suas mãos. Olhou ao redor do apartamento de Harry, cheio de caixas, móveis colocados de qualquer jeito na sala de estar. – Então, amanhã...
- É.
- Caramba. – Ron murmurou.
- O quê? – Harry incentivou, cutucando as costelas de Ron com o cotovelo.
- Eu não durmo sozinho em um quarto por mais de uma semana desde que tinha onze anos. – refletiu. – E agora... – olhou para Harry, seu rosto coberto pelas sombras lançadas pelo candelabro no meio da mesa. – Quando foi que crescemos? – exigiu.
- Parece que foi ontem que estávamos procurando por Trevo no trem, e eu te disse que seu nariz estava sujo. – Hermione disse nostalgicamente.
- Ou Ginny estava colocando o cotovelo na manteiga. – Ron provocou levemente.
- Oh, Deus, eu achei que todos tinham se esquecido disso. – Ginny gemeu. – Lembra como mamãe costumava só se preocupar quando as explosões no quarto de Fred e George paravam?
Ron riu para dentro de sua xícara de café.
- Sim. Ela sempre disse que era como ela sabia o que eles estavam aprontando. Demorou semanas para sumir o fedo de quando eles erraram a fórmula de um doce. Tiveram que deixar as roupas no quarto de Bill ou de Percy, só para que elas não ficassem com o cheiro de ovos podres.
Harry girou o resto de seu chá dentro de sua xícara.
- O que Molly disse sobre amanhã à noite?
Ron encolheu os ombros.
- Disse para não ter pressa para voltar para casa. George disse que se ela quisesse fazer algo para o aniversário dele, ela deveria fazer em outro dia. Apenas não no primeiro de abril. – tomou um gole de seu café. – Eu perguntei hoje se ele queria abrir a loja amanhã. Ele disse que não. Não achei que fosse querer, mas não machuca perguntar, certo?
- Melhor assim. – Ginny disse quietamente. – Não parece certo fazer algo amanhã sem Fred. Talvez não fosse uma má ideia George fazer algo em outro dia. – tomou o resto de seu chá e acenou a varinha para o copo descartável, fazendo-o desaparecer. – E ainda bem que você está trazendo o resto de suas coisas amanhã. – falou para Harry. – Nos dá algo no que pensar, além... – se levantou abruptamente, arrastando a cadeira no chão de azulejo. O som ecoou na cozinha silenciosa. – Vamos para casa. Dormir um pouco. Amanhã será um dia longo.
Continua...
