Disclaimer: Por muito que adore a história e as personagens do anime Shingeki no Kyojin, estas obviamente não me pertencem e todo o crédito vai para a criatividade e talento do Isayama Hajime.

Referências musicais:

Caramelldansen!

Mr Sadistic Night- Mikoto

Shounen-T- Ai Kotoba

-X


Oportunidade

Hanji tinha chegado uns dias antes para ver a criança que assim como Levi, a fascinava bastante. Demorou algum tempo até que Layla se sentisse confortável para deixar a Beta a sós com a criança que aos olhos de todos, crescia saudável e alegre entre a paisagem ora coberta de neve, ora coberta por um verde inigualável. Cada vez que se encontravam, Hanji via coisas novas, características e uma capacidade de aprendizagem que lhe diziam que em breve chegaria o dia em que não poderia ser mantida em Trost. Mesmo que a vontade de Levi fosse proteger e manter longe dos olhares curiosos, daí que tenha exigido aos amigos que jamais tocassem nesse assunto com outras pessoas.

Contudo, a investigadora não acreditava que pudesse esconder para sempre a criança que tinha os pés na água de um pequeno riacho e cantarolava, repetindo apenas algumas palavras que conseguia dizer das músicas da banda de quem ela era sem dúvida, a fã número um.

- Ansiosa para que o teu pai chegue? – Perguntou Hanji com um sorriso, sentada ao lado da criança e igualmente com os pés na água.

- Sim! – Confirmou. – E também que'o ver o Fê, o Marco, a Isa, a Chris… - Enumerava, contando pelos dedos. – Ymir, o Berth, o Reiner, o Yuki, Sasha, Connie, a Mika, Annie, a Petra, o Gun, o Eld e… será que vem o tio Kenny e a tia Carla?

- Suponho que sim. – Falou a Beta. – Mas esqueceste uma pessoa.

- Quem? – Perguntou pensativa.

- Tio Oluo vai ficar triste. – Disse divertida.

- Pois é! O namorado da Petra! – Falou.

- E acho que o Gunther e o Eld vão estar com as famílias deles e se calhar, não devem vir. – Comentou Hanji. – Mas depois podes pedir um presente para compensar.

- Mas eles p'ometeram! – Falou, retirando os pés da água e colocando-se de pé. – É o meu aniversário!

- Eu sei coisa fofa, mas vais ter que acertar as contas com eles depois.

- Tch…

Hanji riu ao ver a mesma expressão que tantas vezes via em Levi. Aliás essa não era a única característica que a pequena tinha do Ómega, mas alguns comportamentos e os cabelos negros eram dos traços mais evidentes. Assim como as outras características que denunciavam uma pele um pouco mais morena e acima de tudo, os olhos verdes de uma cor que a investigadora só encontrou uma vez na vida, eram traços óbvios do outro pai que nem ao menos imaginava que aquela criança existia. A pequena disse a primeira palavra bem cedo, gatinhou por pouco tempo, preferindo tentar logo andar e por isso, prestes a cumprir um ano de idade já caminhava sem poucas quedas.

Adorava o pai, apesar de este ter deixado em grande parte a criança aos cuidados dos avós. Principalmente, a mãe que já não saía de Trost há bastante tempo. Axel também se ausentava sempre que era chamado para algum trabalho, mas os avós passavam mais tempo com a criança do que o pai, que cumpridos os três meses de idade da pequena deixou-a com os avós.

Em parte havia a ambição em pertencer à Tropa de Exploração e regressar à Cidade das Trevas como um elemento de mudança e não como o prisioneiro que foi durante anos. Só que além disso, também havia a tristeza e até o desejo de evitar ver uma criança que lhe relembrava tanto de alguém que o tempo não seria capaz de apagar. A pequena mesmo sendo tão nova, na última visita ouviu uma troca de palavras entre a avó e o pai. Layla pedia que fosse menos evidente na forma como se afastava, quando a filha queria estar com ele e num dia particularmente mais difícil de lidar com as lembranças, Levi respondeu-lhe que não suportava olhar para os olhos dela.

Hanji tentou distanciá-la e distrair a mente da criança daquela conversa, que não deveria ter escutado aquelas palavras. Porém, ela entendeu uma mensagem essencial. O pai não gostava dos olhos dela e por isso, olhou poucas vezes para ele no tempo em que ainda permaneceu em casa.

- Ajuda tia Hanji? – Perguntou, colocando as ligaduras nas mãos da Beta.

- Queres pôr?

- Sim, como No Name! – Falou com um sorriso.

A Beta começou a colocar as faixas sobre os olhos da menina com cuidado para não cobrir totalmente a visão. Se colocasse somente uma camada sobre os olhos, embora não fosse possível ver os olhos dela, ela poderia ver sem problemas. Era um material especial também utilizado pelos elementos da banda para que fosse mais fácil ocultar identidades e ao mesmo tempo, continuar a ver claramente o espaço e as pessoas à sua volta.

Hanji sabia que a pequena era fã da banda, se bem que era a primeira vez que pedia para colocar as ligaduras durante a visita do pai e de todos os amigos. O que tendo em conta a última visita levou a que concluísse que…

- Assim o pai não vai ficar t'iste quando me vir.

- Ouve querida, não há nada de errado co…

- É o pai! – Disse entusiasmada. – Rápido, tia Hanji! É o pai! Ele está a chegar!

A pequena não teve que dar muitos passos até ver a alguns metros, a figura do pai acompanhado por mais duas pessoas. Levi abaixou-se para receber a filha nos braços, ao mesmo tempo que Marco sorria juntamente com Farlan que foi o primeiro a quebrar o momento entre os dois.

- Também quero um abraço da fã mais bonita que temos. – Estendeu os braços e logo a menina passou para os braços do Alfa.

- Fê, saudades!

- Também senti a tua falta, princesa. – Falou, roçando o rosto contra os cabelos negros da menina que riu um pouco, diante do sorriso de Marco e Levi que logo desviou a atenção para Hanji.

- Fizeram boa viagem? – Indagou a investigadora.

- Sim. – Confirmou Levi. – A maioria foi acomodar-se.

- Ah, claro, claro. – Sorriu divertida, entendendo que o "acomodar-se" se traduzia por preparar as coisas para o aniversário. Notou também que o jovem de cabelos negros desviava a atenção da filha e de Farlan que riam e trocavam palavras para murmurar algo a Marco, que não conseguiu ouvir mas pelos movimentos dos lábios deduziu o conteúdo.

- Estás bem?

Ao que o outro Ómega com sardas no rosto assentiu e disse qualquer coisa nas linhas de que não precisava de se preocupar. A Beta já tinha notado como os dois eram próximos e como mesmo antes de confiar nela, Levi optava sempre em primeiro lugar por se abrir com Marco. Esse que também parecia partilhar os seus segredos com o Ómega de olhos diferentes.

Era normal e saudável ter um confidente, mas a investigadora não conseguia evitar a curiosidade. Afinal, desde das mudanças também na vida do Ómega com sardas no rosto, ela de certa forma ansiava por um acontecimento que não era assim tão improvável. Daí que qualquer coisa que lhe despertasse suspeitas, mesmo que infundadas, resultassem numa observação bem atenta da parte dela.

- O Gabriel também veio? – Perguntou Hanji.

- Sim. – Respondeu, corando ligeiramente. – Ficou com os outros.

- Gabi também veio? – Perguntou a pequena, estendendo os braços na direção de Marco que sorriu, recebendo-a de braços abertos antes de abraçar e confirmar. – E o Gun e o Eld, pai?

- Também vieram. – Confirmou Levi. – Vieram todos ver-te. É uma data importante e eu prometi que os traria a todos, embora nem todos possam ficar muito tempo e se calhar, vão embora logo no dia a seguir à festa.

- Já é bom ter todos aqui. – Respondeu a criança, mantendo o sorriso.

- O tempo está um pouco quente para manteres essas ligaduras. – Disse Marco que ia retirar as faixas, quando as mãos da menina pararam-no.

- Quero ficar assim! – Exigiu. – Sou a fã número um! Posso, pai?

Apesar dos olhares dos amigos, o Ómega de cabelos negros e olhos diferentes não discordou da exigência da filha, até porque sendo uma data especial, podia abrir alguma exceção. Argumentou também que as ligaduras não eram tão desconfortáveis e não afetavam a visão, como eles também já tinham confirmado. Evidentemente, omitiu a outra parte que não necessitava de palavras, mas era igualmente relevante. Escondia os olhos verdes, um passado que não se ausentava e só se tornava mais evidente ao notar como a pequena crescia com as características de alguém que Levi queria esquecer.

Portanto, se a filha através de brincadeiras inocentes também quisesse poupá-lo de fixar-se nos olhos verdes, então não seria contra. Até porque teria que entretê-la juntamente com os amigos para que outros tivessem tempo de preparar o cenário de festa.

- Querem ajuda? – Ofereceu-se Berth, que vigiava de soslaio o filho que estava sentado no tapete no chão rodeado de vários brinquedos à medida que todos à sua volta se moviam sem parar.

- Acho que vou aceitar trocar contigo. – Comentou Annie, deixando avental nas mãos do amigo. – A Mika ainda herdou o jeito para a cozinha, mas antes que eu pegue fogo à casa, vou passar-te esta nobre missão porque cuidar do Yuki parece mais fácil.

As Ómegas presente na cozinha riram, enquanto a loira saía ao encontro de Yukine que brincava no tapete.

- Junta-te ao clube e tenta impedir que a Sasha devore a comida antes de servir. – Comentou Carla com as mãos repletas de farinha e Layla ao seu lado tentava explicar a Isabel o que teria que fazer, mas a jovem de cabelos ruivos também não possuía muitas habilidades culinárias.

- Como estão a correr as coisas na sala? – Questionou Mikasa curiosa.

- Todos a mover-se, segundo as ordens da Sargento Christa. – Brincou Berth, ouvindo risos das "cozinheiras" de serviço. – A sério, acho que os Alfas estão a enlouquecer com o perfecionismo dela.

- Acho que prefiro receber ordens dela do que queimar a cozinha. – Comentou Isabel. – A sério, a Layla é muito boa e paciente, mas eu sou péssima nestas coisas. Quem devo chamar para ocupar o meu lugar?

- A Ymir? – Sugeriu Berth.

- A Ymir não vai sair de perto da Christa. – Apontou Mikasa.

- Podes chamar o Axel. – Comentou Layla distraidamente.

- Ah… - Balbuciou Sasha.

- Os Alfas não costumam… - Ia dizer Berth, recordando as vezes em que Reiner tentou cozinhar alguma coisa e queimou três dedos, estragou uma panela e quase destruiu o fogo.

- Ele não é um cozinheiro cinco estrelas, mas é ótimo a seguir as minhas instruções. Podem confiar, ele não vai estragar nada comigo por perto. – Assegurou Layla.

- Então chama o Kenny também. – Disse Carla divertida. – Não que seja um especialista, mas gosto de mandar nele.

- Isto vai ser muito bom! – Disse Hanji animada.

Todos riram e Isabel saiu em busca dos dois Alfas que tal como Bertholdt tinha prevenido, estavam a receber ordens de Christa e também Petra que puxava uma das orelhas de Oluo por não se estar a esforçar o suficiente. O certo é que a organização da Ómega de cabelos loiros estava a transformar o espaço num autêntico conto de fadas. Christa "libertou" Axel e Kenny com a condição de que Isabel se esforçasse por eles e Gabriel parasse de estragar as flores que não estavam simétricas em termos de cores. Algo que o Comandante sinceramente não estava a entender, mas estava a esforçar-se para corresponder às expectativas.

- Nem o Comandante escapa às críticas. – Comentou Eld baixinho para Gunther que assentiu.

- Menos conversa e mais trabalho, meninos! – Falou Christa decidida em tornar aquela festa de aniversário inesquecível. O que acabou por ser um objetivo alcançável, quando a aniversariante voltou a casa horas mais tarde e foi surpreendida por todos os presentes a cantar e uma casa completamente transformada no que parecia ter sido retirado de um conto de fadas.

Foram tiradas imensas fotografias, trocados vários presentes e No Name atuou com as músicas favoritas da menina, que se recusou o tempo a retirar as faixas de tecido branco que lhe cobriam os olhos. Nem mesmo o pedido dos avós demoveu a criança, a quem Kenny disse que definitivamente estava a herdar a teimosia da família.

A certa altura Eld, Gunther e Reiner contavam na forma de um pequeno teatro uma história que estava a prender a atenção da maioria dos convidados, acima de tudo da aniversariante e da outra criança, o menino de olhos azuis e loiros que sorria bastante sempre que o pai fazia algum gesto na sua direção. Os três Alfas, jovens pais mostravam como a vida familiar interferia diretamente na criatividade de criar histórias para entreter os filhos. Como naquele momento a maioria estava concentrada no pequeno teatro, Levi aproveitou para ir à cozinha procurar qualquer coisa para beber e também entender o porquê do desaparecimento há alguns minutos de Christa e Connie. Assim que chegou à porta da cozinha parou por alguns instantes.

- E eu não sei o que fazer. – Admitia Connie. – Ou nem sei como tocar no assunto. Sempre foi um sonho nosso, mas desde da Marca nem sequer…

- Tens que lhe dar tempo. – Dizia Christa. – Não penso que tenha qualquer problema contigo, mas depois de tudo o que aconteceu…

- Nós sempre quisemos ter uma família e sei o quanto gosta do Yuki e da…

- A Christa tem razão. – Interrompeu Levi, entrando na cozinha. – A Sasha precisa de tempo e que pares de te preocupar por teres feito alguma coisa de errado.

- É que… eu pensava que depois de estar contigo… - Ia dizer Connie, mas o Ómega cortou novamente.

- Dei-lhe um empurrão para que visse além de todas as coisas terríveis que aconteceram, para que visse que a vida ainda valia a pena, mas eu não posso apagar o que aconteceu. – Falou e derramou água para um copo. - Ninguém pode. – Bebeu o conteúdo. – O mesmo se aplica ao caso da Annie, Mikasa.

Tanto Connie como Christa se surpreenderam ao ver a Beta parada na porta.

- Fui apanhada? Tens um ótimo olfato para perceberes as minhas feromonas. – Comentou Mikasa. – Sei que sabes melhor do que eu, o que aconteceu com a Annie. Ela nunca quis tocar no assunto e sempre respeitei, mas ouvir esta conversa fez-me pensar que também tínhamos como objetivo ter uma família. Íamos adotar e de repente, de todo o entusiasmo, apenas posso ver como ela gosta de estar com as crianças, mas não volta a tocar no assunto.

- Estão todos preocupados sem razão. – Falou o Ómega, deixando o copo. – No lugar deles também precisaria de tempo, além disso mesmo estando em Maria demoraram algum tempo até ter casa e trabalho. Se os dois pararem para pensar nisso por cinco segundos, talvez imaginem que não basta só ultrapassar certos fantasmas do passado, também podiam estar à espera que a vida se tornasse mais estável. – Ao ver o ar pensativo dos dois e o sorriso de Christa que assentiu em acordo, resolveu acrescentar. – Agora que vos fiz pensar por cinco segundos, vamos voltar para a sala antes que pensem que estamos a conspirar na cozinha.

Com o decorrer do aniversário chegou o momento mais caricato para fechar a noite. O momento em que Levi viu os Alfas, integrantes do seu grupo militar perder uma aposta num jogo infantil contra Isabel, Christa e Petra. O que não seria nada de grave, se a aposta não fosse sinónimo de passar vergonha alheia não só perante as crianças, mas também diante do Comandante Gabriel que se manteve grande parte do tempo em conversa com Axel, Kenny, Carla e Layla.

Contudo ver cinco Alfas com adereços cor-de-rosa e brilhantes alinhar-se e ensaiar uma coreografia com a ajuda de Christa e Isabel chamou a atenção de todos.

Num primeiro momento, Levi simplesmente não entendia o que estavam a fazer, mas tudo se tornou terrivelmente ridículo e cómico assim que a música começou, após alguns minutos de ensaio. Ninguém dava atenção a Christa ou Isabel, nem mesmo às crianças que os imitavam, o centro da atenção eram os adereços e acima de tudo, as poses ridículas que tinha que repetir.

Ver cinco Alfas com as mãos sobre a cabeça como se estivessem a utilizá-las como orelhinhas de gato, enquanto mexiam a cintura ao som de uma música bastante repetitiva, além das gravações provocaram várias gargalhadas.

- Mais uma voltinha, Reiner! – Provocou Connie enquanto a parceira ria sem parar.

- Mexam essas cinturas, meninos! – Dizia Mikasa com o telemóvel na mão e tentando não rir muito para não comprometer a qualidade da gravação.

- Caramelldansen! – Repetiam outros.

Num momento em que cada um deles tinha que se chegar à frente com aquelas poses caricatas, nem mesmo o Ómega de olhos diferentes aguentou e teve que rir da vergonha visível no rosto de cada um deles. Riu com tanta naturalidade que chamou a atenção especial de alguns, os pais, a filha que se entusiasmou e foi dançar com os Alfas e entre eles, um em especial acabou por ficar mais empolgado com a coreografia.

- Parece que alguém ficou animado. – Comentou Annie divertida.

- O Farlan não é muito subtil. – Disse Mikasa sem parar a gravação, mas viu de soslaio que o sorriso de Marco parecia um pouco triste. A Beta não precisava questionar acerca da razão.

Afinal, a maioria dos amigos reunidos ali em certo momento pensaram o mesmo. Sempre que olhavam para o sorriso luminoso da criança que comemorava o primeiro aniversário, pensavam como seria se Eren ali estivesse. Com certeza, não largaria a filha e estaria também envolvido nos momentos de histórias e coreografias engraçadas. Estaria também ao lado do Ómega que todos os dias tentava esquecê-lo e que mesmo sem perceber, estava a ser cortejado por outro Alfa que lhe prometia proteção e felicidade.

Eles não podiam impedir Farlan de tentar conquistar Levi, mas no fundo, como amigos do moreno sentiam que caso aquilo não era certo. O jovem de cabelos negros e olhos diferentes não olhava para aquele Alfa da mesma forma, como alguns viram que olhava para Eren. Existia algum carinho, mas nada que ultrapassasse essa fase. Isso levava a crer que nenhum relacionamento pudesse surgir entre Levi e Farlan, mas e se o Ómega cedesse? Não por achar que precisava de um Alfa, mas porque por insistência de Isabel ou Petra concordasse que a filha não devia crescer sem mais uma figura paternal por perto. Era óbvio que mesmo que Levi, por exemplo, concordasse e impusesse condições a Farlan, este último aceitaria. Seria até capaz de concordar em não tocar no Ómega, mais do que pequenos gestos de carinho e esperaria paciente até que o outro quisesse entregar-se a ele. Sabiam que era um cenário possível.

- Diz lá se não gostaste dos meus movimentos. – Brincava Farlan na frente de Levi que abanava a cabeça, ao mesmo tempo que a filha ajudava o Alfa a retirar parte dos adereços rosas e também a quantidade imensa de purpurina em forma de estrelas.

- Sim, acho que os devias adaptar aos nossos concertos. – Falou.

- Vou buscar um pano molhado, Fê. – Disse a menina.

- Deixa estar, princesa. Eu daqui a pouco vou… -

- Já volto! – Cortou e afastou-se, indo na direção dos avós.

- Acho que não tenho espaço para argumentos. – Disse e passou uma das mãos nos olhos, onde tinha caído alguma purpurina. – Merda, acho que…

- Deixa-me ver. – Falou Levi, revirando os olhos e desviando a mão do Alfa para usar o polegar para limpar os brilhantes que estavam perto de um dos olhos. – Em vez de estares com gracinhas, devias ter ido passar água na cara. – Murmurava.

- Mas assim…

"Perderia a oportunidade de ter assim tão perto", completou ao sentir o rosto quente com a proximidade do outro.

- Mas assim, o quê? – Perguntou, arqueando uma sobrancelha e bateu no braço do Alfa. – Levanta-te e vai lavar a cara. Tch, vou ficar com estes brilhantes na mão por tua causa.

- Sim, Capitão. – Disse com um sorriso.

- Deixa de dizer asneiras e vai lavar a cara. – Retrucou, vendo o Alfa afastar-se divertido e pelo caminho encontrar a filha de regresso com o pano. Ela que parecia um pouco desapontada por não poder ajudar, mas ele pegou nela ao colo e disse qualquer coisa sobre precisar de uma assistente, o que a animou novamente.

- Farlan daria um bom pai, não achas? – Começou Isabel, sentando-se ao lado de Levi que voltou a atenção para a rapariga de cabelos ruivos.

- Parece que em geral os Alfas em Maria têm instintos paternais, independentemente de terem ou não filhos. – Comentou e Petra sentou-se do lado oposto.

- Deixando de parte os Alfas em geral, o Farlan parece ter imenso jeito e a tua filha parece gostar muito dele.

- Vão começar outra vez com essa história. – Falou o Ómega de olhos diferentes, tentando ignorar os comentários que lhe diziam que Farlan estava interessado nele e mesmo que não tivesse isso em consideração, diziam-lhe para pensar na educação da filha.

Sinceramente, ele não pensava que precisasse de mais ninguém. Afinal, a filha já contava em grande parte com os avós, ele e também Hanji. Levi considerava-se a única figura paternal necessária, embora Marco e outros com quem falou, apontassem que os Ómegas usualmente eram mais vistos como uma figura maternal, independentemente do sexo. Também leu em alguns livros que requisitou na biblioteca sem ninguém reparar, algumas coisas sobre os cuidados com os filhos para que nada faltasse à pequena. Nesses livros também encontrou as mesmas referências ao Ómega ser essencial na educação e vida dos filhos, mas falavam também da necessidade da presença de outra figura parental. Fosse essa figura um Beta ou um Alfa.

O jovem queria ignorar esse aspeto tanto quanto possível, até porque a filha tinha família. Não pertencia a um meio disfuncional ou com problemas e isso deveria ser o suficiente para crescer sem problemas. Porém, quando caminhava pelas ruas e via as crianças a caminho ou a regressar da escola com conversas que por vezes, envolviam a família em especial os pais, questionava se a filha teria problemas com isso no futuro. Por mais que quisesse mantê-la em Trost para protegê-la, era consciente de que quando atingisse a idade escolar, teria que deixá-la sair da casa onde vivia com os avós. Era errado condicioná-la a passar o resto do tempo escondida e afastada da população em geral, mas também vivia com o receio de que à medida que os contactos entre Maria com Rose e Sina melhorassem, também a informação acerca da sua vida pudesse passar essa fronteira. Mais especificamente, o facto de ter uma filha com os traços evidentes de um determinado Alfa, pudesse alcançar as pessoas erradas sobretudo… aquele Alfa. Ele não podia saber. Ele podia até nem querer saber ou quem sabe, tentar encontrar a filha e não… isso não podia acontecer. Ela não precisava dele. A filha não precisava de conhecer alguém que o tentou submeter e acima de tudo, mentiu… estragou-o ao ponto de saber que jamais amaria outra pessoa.

Podia perfeitamente criar a filha com a família que tinha, mas e se o melhor fosse que tivesse duas figuras parentais? Uma família padrão. Alguém em quem pudesse confiar para também proteger a filha e fazer com que ela nunca se questione por outra pessoa, porque haveria alguém nesse lugar.

- Mais alto, Fê! Mais alto! – Pedia a menina nos braços do Alfa que competia com Reiner que também segurava Yukine bem alto, como se as duas crianças pudessem voar.

"Será que ela sente falta de mais alguém na família?", questionava-se Levi, assistindo às brincadeiras, sentado no sofá.


O que tinha em mãos não podia ser mais perfeito. Fotografias e gravações daquilo que exigiu que chegasse às suas mãos. Aquelas evidências dissipavam qualquer dúvida que pudesse ter surgido na primeira vez que ouviu as palavras do Ómega. Uma parte da sua mente ponderou que fosse fruto de uma mente invejosa em busca de vingança, depois de ter perdido as luzes da fama. Porém, mesmo para uma mente doentia, como descobriu naquele Ómega, era algo muito arrojado. Seria uma mentira muito audaciosa que resultaria numa pena de morte certa, pois ninguém acreditaria sem provas.

No entanto, caso fossem encontradas provas irrefutáveis, o caso nunca seria público. Procurariam outra forma de anunciar aos cidadãos. Inventariam uma desculpa, mas nunca diriam a verdade.

Aquele crime era impensável, mas nem isso fez com que a expressão do Alfa se mostrasse afetada na primeira vez que escutou as palavras do Ómega. Ainda que por dentro tenha recebido um choque e o ceticismo, esse sim inundou as suas palavras juntamente com ameaças para que o outro pensasse bem nas afirmações que estava a fazer.

Contudo, o medo das ameaças não demoveu a tristeza e ressentimento que havia ao reafirmar que as acusações eram verdadeiras. O que desencadeou o seguinte passo: obter provas.

Acabou por estipular um prazo para que o Ómega recolhesse as provas necessárias e mais uma vez avisou que não o tentasse contactar, pois seria ele a fazê-lo quando fosse oportuno. Deu-lhe cerca de um mês, desde desse aviso até ao encontro que se realizou após mais uma ausência do Comandante e Vice-Comandante numa expedição na Cidade das Trevas.

Agora que o moreno podia aceder às informações relativas aos grupos enviados em expedição, bastava aguardar pela ocasião perfeita para contactar a sua fonte de uma informação que por fim, acabaria com os seus receios de que Zackley fosse substituído por Irvin ou Mike. Nada disso aconteceria, assim que se soubesse o que na verdade se escondia entre aqueles dois.

No início era desconfiança e ponderou que tal como Jean suspeitava, aqueles dois estivessem a conspirar algum golpe contra o General, mas nunca lhe passou pela cabeça que a realidade fosse algo completamente diferente e proibido. O jovem de olhos verdes acreditava que os dois também pretendiam ocupar a posição de poder de General, até porque seria mais fácil manter aquele terrível segredo entre eles. Aquele segredo que podiam ocultar dos olhos alheios, mas não escondiam e esfregavam na cara de um Ómega, que nem os dois deviam imaginar que era tão doente quanto eles.

- Vais denunciá-los? – Perguntou Armin com uma voz tímida.

- Vou criar um espetáculo. – Falou o moreno com um meio sorriso. – Mas isso é um segredo meu. – Falou, guardando o telemóvel que tinha emprestado ao loiro no último mês.

- Mereço alguma recompensa? – Perguntou esperançado. – O Jean veio contigo?

- Ah, estás mais interessado no Jean, loirinho? – Perguntou com um sorriso estranhamente afável.

- Se fores tu, também não me importo.

- Claro que não. – Falou, levantando-se da mesa e retirando umas luvas pretas do bolso.

- Eren?

- Sim? – Falou, enquanto colocava umas luvas pretas com cuidado.

Instintivamente, o Ómega deve ter interpretado algum sinal de alerta e por isso, ergueu-se da cadeira onde estava sentado. Porém, não deu muitos passos antes de ser atirado ao chão pela onda de feromonas agressivas que o forçaram em submissão, à medida que os passos calmos se acercavam dele. Não se podia mexer e mal podia respirar com a intensidade das feromonas que o obrigavam a ficar no chão.

- Eras um Ómega tão perfeito. – Dizia num tom calmo e ao mesmo tempo que causava arrepios ao loiro, que tentava levantar-se. – Eu pensei fazer as coisas de forma diferente, mas a culpa é tua.

- Fiz o que querias! Eu obedeci! Dei-te o que…

- Exatamente. – Concluiu Eren, usando um dos pés para virar o Ómega de barriga para cima, antes de abaixar-se sobre ele e agarrar o rosto do loiro cada vez mais trémulo. – Já não me és mais útil, pois não?

- Por…por favor, Eren… eu…

- Achas que vale a pena correr o risco e deixar-te vivo? – Retirou um punhal das vestes. – Não sei, tendo em conta que atraiçoaste todos a quem algum dia juraste lealdade, as tuas palavras não parecem ter muita validade, não achas?

- Perdão, eu juro que te obedeço em tudo! Ajudo-te a denunciá-los! Sabes que sou inteligente e…

- Abre a boca e põe a língua de fora, meu anjo. – Ordenou e as feromonas totalmente submissas e olhar impregnado pelo pânico hesitou, mas viu que não havia outra hipótese a não ser obedecer.

Assim que o fez, o Alfa agarrou na língua com dois dedos e viu os olhos azuis encherem-se de lágrimas. Há alguns anos na sua vida nunca se imaginaria a fazer algo do género, mas depois de se deixar consumir em parte pela maldade que via todos os dias e também por se lembrar dos detalhes daquelas cartas…bom, a piedade e interesse pela vida que tinha debaixo dele deixou de fazer muito sentido, quando a lâmina cortou lentamente a língua mentirosa e venenosa. Os gritos foram sufocados pelo sangue que jorrava na boca dele e poderiam até sufocá-lo, se Eren não tivesse virado o rosto dele para que tossisse e cuspisse o sangue na boca.

- Ouvi dizer que têm uma cave bem interessante nesta casa, vamos procurar, meu anjo? – Perguntou, agarrando nos cabelos loiros enquanto puxava o Ómega incapaz de se debater devido à intensidade das feromonas e golpes que recebeu antes de chegar ao local pretendido.

Passou cerca de meia hora na cave antes de sair, não sem antes espalhar o combustível que trouxe na mala do carro que estacionou bem distante do local, mas como não tinha pressa fez as coisas com calma. Calculou o tempo que as rondas no bairro demoravam e trouxe o garrafão de combustível que espalhou pela casa e no fim, ainda passou pela cozinha para provocar uma fuga de gás antes de deixar um isqueiro cair no chão.

- Já é tarde. – Murmurava perto do carro estacionado numa estrada vazia, onde queimava as roupas que tinha utilizado antes e entretanto, trocou pela farda militar. Olhou para o relógio novamente. – Vou terminar a ronda e voltar para casa.

Entrou no carro e viu as mensagens de Jean a confirmar que passou pelos locais para marcar o ponto de passagem, assim ninguém suspeitaria do desvio à casa do Comandante Smith. Agradeceu ao amigo e guiou, passando pelo último ponto da ronda perto do pavilhão aberto, onde dentro de dias realizariam o concerto da banda No Name. Aliás por ironia, assim que ligou a rádio, conseguiu apanhar uma das canções da banda a tocar. Sina e Rose tinham parado de tentar deter a entrada das músicas, visto que viram como uma oportunidade de reatar as relações com Maria. Basicamente, qualquer "cedência" à entrada de produtos de Maria era encarada como uma oportunidade de para voltar a exportar ou importar outros produtos.

Por outro lado, Maria pelo pouco que ouviam da região parecia investir cada vez mais nos meios artísticos, dado que surgiram séries juvenis, pequenos filmes, entre outras coisas que surgiam pela internet. Havia um motor da mudança a ocorrer na região e a tecnologia parecia também ser mais utilizada, apesar dos melhores meios encontrarem-se além das fronteiras. Ao aperceber-se dessas coisas, Eren não podia evitar pensar que Hanji de alguma forma estaria envolvida.

sousa, oretachi Mr. Sadistic Night

Isso mesmo, nós somos o Mr. Sadistic Night

Eren riu ao repetir a última linha da canção. Mesmo que não fosse das suas favoritas e estivesse associada a uma série qualquer que envolvia vampiros, ele não podia evitar decorar cada uma das canções. Talvez fosse porque o cantor, Rivaille fazia parte do dueto e a voz dele em canções como aquelas causavam-lhe um certo arrepio, diferente dos solos. Naquelas músicas em dueto ou em grupo podia ser bastante sugestivo e provocante. Não era fácil ter esse efeito com a voz, mas aquele cantor conseguia. Como é que alguém que podia ter aquelas músicas de ritmo provocador, depois conseguia compor músicas que o deixavam nostálgico e triste?

- Capitão Jaeger?

- Estou a terminar a minha ronda. – Falou ao passar o cartão diante de um soldado, que estava a observá-lo desde que tinha parado diante do pavilhão.

- Sim, senhor. – Falou o outro. - Não queria interromper, mas parece que estavam a ligar-lhe.

Notou o som do telemóvel vindo do carro em que deixou a porta aberta.

- Suponho que saibas o motivo. – Comentou Eren.

- Sim, senhor. Parece que voltou a acontecer e o Comandante Pixis pediu que fosse ao hospital em regime especial. Como sabia que ia passar aqui, tomei a liberdade de avisá-lo.

- Obrigado. – Disse e recebeu mais uma reverência antes de regressar ao carro e enviar uma mensagem rápida a Pixis, confirmando que passaria pelo hospital.

O moreno acelerou um pouco, mesmo que soubesse que o "problema" não iria desaparecer. Desconfiava que a razão não teria nada a ver com o incêndio na casa do Comandante Smith, até porque o soldado referiu um acontecimento recorrente, portanto, apenas podia deduzir que tinha ocorrido mais um nascimento com características estranhas. Por alguma razão, há cerca de um ano todos os nascimentos em Rose e Sina eram acompanhados por algo invulgar. Não havia qualquer feromona na criança. O que significava que não era possível deduzir a que espécie pertencia. Poucos médicos ou enfermeiros possuíam a capacidade de nas consultas pré-natal avaliar as feromonas durante o período da gravidez. Eren era um dos que possuía um excelente olfato e era capaz de deduzir até mais do que a espécie, até o sexo em alguns casos.

Contudo, há cerca de um ano que nem mesmo ele ou ninguém era capaz de fazê-lo, quer em consultas pré-natal, quer após os nascimentos. Como se as crianças repentinamente nascessem sem o rótulo da espécie a que pertenciam.

Eren escutou rumores que as vacinas aplicadas à população em geral podia ter influência nesse aspeto, mas ele sabia que muita gente nos ramos militares não se dispôs a esses tratamentos e ainda assim, enfrentava o mesmo problema. As crianças eram saudáveis e tanto do sexo masculino ou feminino, mas não apresentavam qualquer feromona relativa à espécie. Alguns teorizavam que as mesmas se manifestassem mais tarde, baseados numa anomalia que causava que 1 em cada 100 crianças nascia com essa característica. Não eram casos nunca visto antes, mas eram anomalias que causavam que a espécie só se revelasse mais tarde. Podendo durar até alguns anos. O que na perspetiva de Sina e Rose era uma perda de tempo, dado que não queriam gastar demasiados recursos em crianças que podiam não ser tão úteis, leia-se Alfas e Betas.

Por um lado, tendo em conta o desequilíbrio demográfico, isso também significava que os pais não podiam matar as crianças ou recorrer ao aborto por ser da espécie errada. Sim, ainda havia muitos que apesar das palavras do governo para preservar a vida dos bebés ainda que fossem Ómegas, continuavam a ignorar esse aviso. As famílias de prestígio não queriam gastar dinheiro e tempo com a espécie no fundo da pirâmide hierárquica, mas agora não tinham opção. Teriam que aguardar até que a criança revelasse as primeiras feromonas, visto que abortar ou matar posteriormente após o nascimento tinha passado a ser punido com pena de prisão.

- Sei que o teu pai ultimamente não tem sido muito melhor do que um inútil, mas esperava uma resposta melhor da tua parte. – Reclamou o Alfa um pouco mais baixo do que o moreno, acima do peso, pouco cabelo e cuja idade devia rondar os cinquenta anos.

Deitada na cama a amamentar a criança recém-nascida estava uma rapariga com dezassete anos, cabelos loiros lisos e corpo demasiado magro e com algumas marcas. Sempre de rosto baixo, deixou rolar várias lágrimas ao ver o Alfa gritar com ela por não ter tido uma criança "normal".

- É saudável, Sr. Ferreira. – Argumentou o jovem enfermeiro, trajando uma bata branca por cima do uniforme militar. – Não há nada de errado com a criança e como sabe não é a primeira a nascer nestas circunstâncias. No entanto, todos os médicos concordam que ao crescer isso com certeza irá alterar-se. – O homem continuava a barafustar e as feromonas agressivas, faziam com que a Ómega continuasse a tremer sem parar. – Devo dizer que ainda assim, arrisco dizer que se trata de um Alfa.

- Estás a dizer isso porque tu e mais alguns idiotas não querem que mate estes inúteis!

- Estou a dizer isto porque é um rapaz e além disso, na sua idade e sendo que sempre teve filhos Alfas, a linhagem é demasiado perfeita para falhar agora. – Disse, mantendo o tom profissional que chamou a atenção do homem. - O nascimento de Ómegas do sexo masculino é bastante raro e como não tem historial de Betas, penso que se trate também de um Alfa que revelará as feromonas quando for um pouco maior. A genética nestes casos não falha e o Sr. Ferreira tem uma genética bastante forte como todos sabem.

Era visível que tinha tocado no orgulho do homem que tinha um harém em casa de Ómegas e um historial de filhos Alfa. Ao alisar o ego daquele Alfa notou que as feromonas acalmaram e logo começou a concordar que de facto, não existia margem de erro. Enquanto se gabava da sua genética magnífica, pois claramente engoliu tudo o que Eren tinha dito, recebeu um telefonema e ausentou-se da sala.

Eren voltou a atenção para a Ómega que limpava algumas lágrimas, continuando a amamentar o filho e no pulso dela, viu uma pequena fita que indicava que tinha encontrado um tema para iniciar uma conversa.

- Fã de No Name?

Os olhos castanhos da rapariga levantaram-se por breves instantes surpresa e logo abaixou o rosto novamente, anuindo de leve com a cabeça.

- Vais ver o concerto daqui a uns dias?

- Gostava… - Murmurou.

- Qual é o teu cantor favorito?

- Ethan. – Admitiu com vergonha.

- Ah, esse também é bom, mas eu prefiro o Rivaille. – Disse, observando a ficha médica da Ómega para confirmar a morada e exatamente qual o tamanho do agregado familiar em que estava inserida.

- O Rivaille também é muito bom. – Concordou. – Dr. Jaeger?

- Sou enfermeiro. – Sorriu de leve. – Podes chamar-me, Eren sempre que o gordo pervertido não estiver por perto. A propósito, querida… - A Ómega olhou para ele. – Diz-me, conheces a rotina do teu Alfa, certo?

- Eu…

- Responde a algumas perguntas e eu asseguro-te que te mudo a vida em poucos dias e até poderás ir ver os No Name. É a primeira vez que nos visitam e ninguém devia perder, sobretudo porque as entradas são gratuitas para os Ómegas. – Piscou o olho. – Então, conta-me coisas e eu faço esse inferno acabar.

"E faço esse Alfa nojento pagar caro", acrescentou mentalmente.

Com as perguntas pertinentes reuniu informações valiosas acerca do Alfa em questão. Descobriu inclusive algumas ligações com outros conhecidos, que podiam ajudar a desvendar um pouco mais da rotina do novo alvo. Esse que desapareceria em pouco tempo, pois alguém que colecionava nove Ómegas em casa todas a rondar as faixas etárias entre os 17 e 24 anos não merecia continuar a respirar. Tanto quanto sabia, aquele Alfa ia renovando os Ómegas, conforme passavam uma determinada idade em que as considerava atraentes. O lema era quanto mais jovem, melhor. Portanto, as que julgava menos atraentes pela passagem do tempo, acabaram por morrer de forma misteriosa. Uma prática mais comum do que Eren gostaria, se bem que esse tipo de coisas mostrou uma diminuição, após o anúncio do governo no sentido de preservar os números da população. Só que mesmo assim, ter os bolsos cheios de dinheiro fazia com que fosse possível fechar os olhos às infrações das novas leis.

- Eren? – Era a voz de Jean do outro lado ao atender uma chamada, depois de deixar o quarto da Ómega com o recém-nascido nos braços.

- Quem estavas à espera que atendesses?

- Sei lá, caralho. – Respondeu. – Lembras-te quando alguma das tuas amiguinhas atendia as chamadas?

- Certo, certo. Então, diz-me por que razão estás a ligar-me a esta hora? – Questionou, parando num corredor francamente vazio do hospital.

- Disseste que ias ter com o Armin e acabo de ver nas notícias que a casa do Comandante está rodeada de bombeiros e até uma ambulância. O que foste lá fazer?

- Recolher informações valiosas. – Disse calmamente.

- Eren, o que foi que fizeste?

- Preocupado com o Armin? – Provocou. – Pensei que ainda estivesses deprimido por outra razão.

- Não é uma questão de preocupação! – Falou irritado. – O combinado era não fazermos nada de concreto contra aqueles dois e tu incendeias a casa dele!

- Pensas tão mal de mim, Jean… - Ironizou.

- Não te faças de inocente! Sei perfeitamente que…

- Tenho o que precisava e se ainda esperas que o Marco te perdoe por tudo o que aconteceu, faz um favor a ti próprio e esquece o Armin. – Falou num tom mais ríspido. – E acredita que depois do que descobri, o incêndio na casa será a última preocupação do Comandante Smith. – Sorriu de lado. – O homem perfeito afinal tem um castelo de cartas pronto a desmoronar.

- O que queres dizer com isso?

- Vais ficar a saber em breve. – Falou, antes de desligar pois escutou alguns passos.

- Podemos falar, Eren?

Era Pixis e o rapaz sorriu, concordando em acompanhar o outro Alfa até ao escritório. A troca de palavras começou por comentarem mais um nascimento de um bebé, cuja espécie permanecia indeterminada devido à ausência de feromonas. Discutiram vários aspetos, a frequência com que o fenómeno acontecia e as características das crianças. Nada indicava qualquer ponto em comum entre as crianças, exceto a mesma particularidade: esses nascimentos começaram há pouco mais de um ano. Era a única coisa que podiam apurar.

Assim, esperavam que ao restabelecer os contactos com Maria, também pudessem descobrir se a mesma coisa acontecia do outro lado da fronteira. Até onde sabiam, o mesmo não estaria a acontecer lá, mas era preciso ter a certeza.

Depois desse tema, os olhos sempre atentos do Alfa mais velho encararam fixamente Eren, comentando acerca do misterioso incêndio na casa do Comandante Smith. O moreno não desviou o olhar e num tom até neutro, ofereceu-se para ir ao local caso necessitassem de ajuda. O outro afirmou que tal não seria necessário, mas questionou o jovem de olhos verdes se não sabia nada a respeito do incidente. Em resposta, viu um sorriso quase inocente e vieram as palavras:

- Estava a fazer a minha ronda, Pixis. Fiquei a saber das notícias pouco antes de ter falado comigo. O Jean ligou-me.

- Eren, tenho percebido que alguns acontecimentos não podem ser simplesmente casuais. – Comentou o homem cautelosamente. – Da mesma forma que eu, outros podem ligar os pontos e chegar até ti. Entendo a razão por detrás das ações, mas é muito arriscado. Estás a pôr a tua vida e de outros em risco.

- Estás à espera que te diga alguma coisa em concreto, Pixis?

- Estou a alertar-te para o perigo. – Falou. – Sabes que o Armin foi trazido em estado muito crítico para o hospital?

- Não fazia ideia. – Respondeu ao levantar-se, caminhando até à porta. – No entanto, sei uma coisa, Pixis. Dizem que o karma chega a todos, que a vida dá voltas e aqueles que merecem ser castigados, acabam por ter o que merecem. – Olhou de soslaio para o Alfa e sorriu de lado. – Isso não é verdade, esperar não nos leva a lado nenhum. É preciso agir.

"Pensava que já tinha morrido pela perda de sangue, choque ou mesmo pela inalação de fumo. Puta que pariu, é mais resistente do que pensei", pensava enquanto se dirigia à ala onde seria provável que estivessem a tentar tratá-lo e não teve que andar muito, até escutar os primeiros comentários que afastaram as suas dúvidas quanto à recuperação do Ómega loiro.

- Acho que é um desperdício de recursos num Ómega, mas sendo do Comandante Smith temos que nos esforçar.

- Esforçar? Arrancaram os olhos, os dedos, cortarem-lhe a língua e amputaram-lhe uma das pernas, fora as outras lesões que ainda não averiguámos no total, mas estão lá. Tipo as fraturas e hemorragias internas… o Ómega estaria melhor morto.

- Bom, fazemos o que pudermos e se ele morrer, ninguém vai culpar-nos tendo em conta o estado dele. – Comentou.

Na sequência dessa troca de palavras, Eren sorriu convicto de que o Ómega não iria sobreviver e ainda que o milagre acontecesse, não seria capaz de contar o que tinha acontecido. Seria um inválido para o resto da vida e aos olhos da sociedade um inútil, que acabaria condenado à morte de uma forma ou de outra. Afinal, aqueles que nasciam com problemas de saúde graves ou acabavam numa situação completamente dependente e inútil aos olhos da sociedade, eram condenados à morte.

Eram princípios e comportamentos tão enraizados naquela sociedade que ninguém questionava por muito doentio que fossem. Portanto, Eren decidiu que se não iriam abrir os olhos apelando aos sentimentos e empatia que deveria existir, então passaria a mensagem de outra forma.

Os olhos verdes recaíram mais uma vez nas provas que tinha nas mãos. Os vídeos e centenas de fotografias incriminatórias.

"Hum, isto será um escândalo demasiado grande e que pode comprometer o concerto dos No Name, por considerarem um momento de tensão e por isso, perigoso. Será melhor que só destrua a imagem perfeita do Comandante e Vice-Comandante depois… não quero correr o risco de que o concerto seja adiado novamente", pensava, bloqueando o telemóvel e guardando o aparelho enquanto se preparava para conduzir de regresso a casa, "Até porque o Pixis não deixa de ter razão. Tudo o que tenho feito é bastante arriscado e isto será ainda mais perigoso. Posso estar a apertar a corda no pescoço e por isso, queria pelo menos mimar-me uma última vez. Gostava de ver aquele que compõe as letras que fazem tanto sentido para mim… e depois não importa o que aconteça".

Ligou o rádio do carro e ao mesmo tempo que acabava mais alguma canção de outro grupo, anunciavam que a próxima canção seria de um dos vocalistas de No Name. Ao escutar o piano e as primeiras palavras, Eren sorriu ao reconhecer o vocalista.

kono goon wo isshou de wasurenai uchi ni

Nunca esquecerei o teu carinho

uchi ni himeta omoi totomoni

Por isso, guardo-a como uma memória preciosa

Com um nó na garganta o moreno começou a acompanhar algumas estrofes da canção.

boku toka kimi toka koi toka ai toka

suki toka kirai toka

mata utau ne.

As coisas sobre mim, sobre ti, romance ou amor

Sobre amar ou odiar

Vou cantá-las novamente

A canção continuou a ressoar no interior do carro e ele acompanhava-a sem falhar nas letras que decorou depois de as escutar tantas vezes. Concluiu que definitivamente não faria nada nos próximos dias, pois não queria que por motivo algum a banda não atuasse em Rose. Não queria perder a oportunidade de ver, mesmo que de longe o cantor por detrás daquelas letras.


- Onde está…? – Ia perguntar Farlan ao ver Petra e Oluo apontarem para o edifício atrás deles, enquanto viam vários oponentes caírem inconscientes e podiam ouvir, mas não ver tão claramente os movimentos de alguém que se movimentava com o dispositivo 3DMG. – Outra vez?

- Disse que nos ocupássemos do que estavam cá fora. – Disse Oluo, acenando aos companheiros Eld, Gunther e Reiner que se aproximavam com um grupo de Ómegas.

- E claro, ele ficou com a porção mais perigosa. – Comentava Farlan.

- Não acho que esteja a ter problemas. – Comentou Petra. – Mas ainda assim, podia arriscar-se menos. Deixar-nos com meia dúzia, quando ele está a limpar um edifício com dezenas deles lá dentro.

- Dezenas?!

Farlan teria avançado, se tanto Eld como Gunther não o tivessem agarrado pelo ombro e apontado numa direção. Pela entrada principal do edifício, era visível o Ómega com uma das espadas na mão e um pano para limpar a lâmina. Caminhava descontraidamente e os companheiros suspiraram de alívio.

- Capitão, será que pode parar de nos deixar com o coração nas mãos? – Pediu Petra.

- Preocupam-se demasiado. – Falou, confirmando que a espada não tinha mais vestígios de sangue, antes de guardá-la. – Vejo que encontraram os Ómegas no local que indiquei.

- Sim, estavam exatamente onde indicou, Capitão. – Respondeu Eld.

- Passei demasiado tempo neste lugar para não conhecer todos os esconderijos. – Disse, vendo apesar da indumentária que traziam, o olhar desaprovador de Farlan. – Estou inteiro. Não havia mais do que uns trinta ali dentro e estão todos inconscientes ou mortos, dependendo da perda de sangue de cada um. Verifiquei também que não havia qualquer Ómega no interior, mas a maioria dos ocupantes eram lutadores de ringues ilegais.

- Claro e isso é suposto tranquilizar-me. – Ironizou Farlan.

- Acho que podem discutir depois. – Falou Oluo. – Os Ómegas estão, assim como eu, ansiosos para sair deste lugar.

- Nós não vamos discutir. – Disseram tanto Levi como Farlan ao mesmo tempo e os colegas abanaram a cabeça com vontade de rir.

- Temos permissão para dar por terminada a expedição, Capitão? – Indagou Petra e o Ómega viu os olhos de todos concentrados nele, aguardando pelas palavras dele.

- Sim, vamos regressar. – Respondeu e todos fizeram a saudação antes de acompanhá-lo.

Mais uma expedição de sucesso, sem problemas para todos os membros da equipa e acima de tudo mais Ómegas resgatados de bordéis, ringues ilegais, entre outras atividades ilegais que iam caindo uma após a outra. Fosse pela força, mas também pela Marca que o Ómega levava e lhe abria várias portas para desvendar mais locais escondidos, visto que alguns temiam que Mário, o Barão da Cidade das Trevas, fosse aparecer a qualquer momento. Só nos últimos instantes de vida, percebiam que isso nunca iria acontecer e que o Ómega tinha sido marcado pelo líder deles.

Com o início de expedições na Cidade das Trevas, o Comandante Gabriel confrontou o grupo com a ideia de que seria melhor escolherem um Capitão entre eles. Alguém que orientasse e possuísse as características necessárias para tomar decisões importantes, que afetariam todo o grupo.

Levi observou com curiosidade a troca de palavras entre os companheiros e honestamente pensou que fosse eleger Eld, dado que era muito melhor do que ele a organizar a posição e missão de cada um. Era um líder de equipa e não alguém que apostava tanto nas suas capacidades individuais, como Levi considerava ser o seu caso. Portanto, a seu ver, seria a escolha mais lógica. Qual não foi a sua surpresa quando os colegas apontaram todos na sua direção, nomeando-o Capitão.

Sim, o facto de liderar o grupo permitia também ao escolhido ascender na hierarquia. Isso levou a que nos primeiros momentos, pensasse que tinham todos enlouquecido de vez. Não porque se julgasse incapaz de atingir aquela hierarquia, mas pela escolha unânime deles. Os Alfas não adoravam ficar na frente nesse tipo de coisas? Pensou que fosse assistir a discussões banhadas de testosterona, mas em vez disso nenhum deles se opunha à nomeação de um Ómega.

Apanhado de surpresa, tentou argumentar a favor de Eld que agradeceu a confiança, mas manteve o voto nele, assim como os restantes companheiros e foi assim que acabou por ter que se habituar ao título de Capitão sair da boca deles e de outros. Embora fosse certo que continuava a depositar confiança em Eld para auxiliá-lo a delinear estratégias de equipa, já que Levi admitiu que por vezes deixava-se levar pelo trabalho individual. Todos concordaram com essa escolha e portanto, Eld era visto quase como o segundo em comando, sempre que Levi não estava por perto.

- Estão aterrorizados. – Falava Petra que via como Gunther recuava, depois de ouvir uma das crianças chorar cada vez mais desesperadamente.

Após saírem da Cidade das Trevas, localizaram os cavalos e a pequena carruagem que deixaram perto dos mesmos, pois sabiam que se tudo corresse bem, iriam levar Ómegas com eles. Contavam com Petra para acalmar os Ómegas, enquanto os restantes escoltavam no exterior, mas pela quantidade de feromonas carregadas de pânico, Gunther quis ajudar.

- Queres ajuda? – Ofereceu-se Farlan.

- Posso tentar falar com eles. – Falou Reiner.

- Eld, fica na frente o resto do caminho. – Murmurou Levi, deixando o cavalo recuar após um aceno positivo do Alfa. Assim que alcançou a carruagem fez sinal a Farlan e Reiner para juntarem-se a Eld na frente e ordenou que Gunther fizesse o mesmo antes de entrar para carruagem.

Em pouco tempo, todos sentiram as feromonas e ouviram os choros e pequenos gritos cessarem por completo transformando-se numa viagem tranquila, aliviando também os sentimentos de culpa por sentirem que não podiam fazer nada pelo desespero dos Ómegas.

Passaram rapidamente pela base militar, mas dirigiram-se logo à Herdade para deixar os novos moradores nas mãos daqueles que poderiam prestar os primeiros cuidados e fazer uma avaliação mais detalhada do estado de cada um.

- Cinco chamadas não atendidas da Christa. – Avisou Petra, assim que puderam relaxar um pouco antes de sair da base militar onde tiveram que regressar, antes de serem dispensados.

- Ela queria que saíssemos de viagem hoje, mas pela hora é impossível. – Comentou Reiner.

- Será melhor que deixem para falar disso depois. – Falou Oluo, apontando para o fundo do corredor, onde estavam Farlan e Levi a trocar palavras pouco amigáveis.

Os companheiros suspiraram e decidiram sair e dar-lhe alguma privacidade antes de se encontrarem no exterior e despedirem-se por alguns horas para um merecido descanso.

- Não aconteceu nada. – Apontou o Ómega mais uma vez com uma das mãos na cintura.

- Mas podia acontecer! O que te custa levar pelo menos um ou dois de nós contigo?

- Farlan, não sou de cristal e acho que todos sabem muito bem disso.

- E o facto de seres o nosso Capitão, o… - Baixou o tom de voz. – Elo Primitivo e…

- E o quê? Um Ómega? – Indagou. – É isso que queres dizer?

- Não distorças as minhas palavras.

- Estivemos em grupo a maior parte do tempo, afasto-me por vinte minutos para derrubar meia dúzia de idiotas.

- Trinta!

- Não importa! Foram pouco mais de vinte minutos e já achas que mereço todo este discurso? – Perguntou cada vez mais irritado. – Essa preocupação está a irritar-me, Farlan.

- Então não te arrisques desta forma! Tens pessoas, amigos e família que não aprovariam nada disto.

- Que bom que não preciso de permissão deles. – Falou, virando costas e viu o seu braço ser agarrado. – Ou tiras a mão nos próximos dez segundos ou vais ficar sem ela.

- Eu sei que és capaz de lidar com aquele tipo de situações e até piores, és forte, inteligente e veloz como nunca vi antes. – Falou e o Ómega olhou novamente na direção do Alfa que entretanto afastou a mão com uma expressão derrotada. – Não penso menos de ti por seres um Ómega. Nunca o fiz e tu sabes disso, só que… para mim és alguém que não quero ver sujeito a qualquer perigo. Eu sei que é irracional, sobretudo tendo em conta o ramo militar em que estamos, mas eu preocupo-me, ok? Não consigo evitar. És um excelente soldado, mas também és alguém que quero proteger. – Admitiu, desviando o olhar por pouco tempo, antes de encarar os olhos diferentes à sua frente. – Racionalmente sei que és capaz de cuidar de ti… - Sorriu um pouco. – Cuidas de nós também, mas… - O sorriso desvaneceu. – Há sempre a possibilidade de que alguma coisa possa correr mal. Tu próprio já admitiste que…

- Não é possível prever o futuro ou o resultado das nossas escolhas. – Completou ao ver o ar ainda agitado do Alfa e estendeu a mão, tocando no rosto que se ruborizou. – Não é a minha intenção deixar-te transtornado. Sei que nem sempre controlo a minha forma individual de agir e que posso correr riscos, mas tentarei ter em conta o impacto que isso tem no grupo.

- Prometes ter mais cuidado?

- Sim, Farlan. – Falou com um suspiro e teria retirado a mão da bochecha do Alfa, se este não a tivesse segurado lá com a sua própria mão. – O que foi?

- Só queria… queria ficar assim mais um pouco. – Confessou e com algum nervosismo, tomou a decisão de falar noutro assunto. – Sei que estava bêbado há umas semanas atrás, mas isso não invalida o que disse.

- Escuta Farlan, eu não… - Afastou a mão do rosto do Alfa.

- Sou consciente que o teu passado na Cidade das Trevas, assim como o que aconteceu enquanto estiveste em Rose faz com que duvides destes sentimentos. – Prosseguiu. – Também sei que provavelmente não precisas de um Alfa, nem de ninguém mais especial ao teu lado. Sei disso tudo, até porque vejo como a pequena está a crescer sem que nada disso seja necessário.

A referência à filha colocou uma expressão culpada no rosto do Ómega. Já tinha escutado de Marco, dos pais e também de Hanji comentários acerca do pouco tempo que dedicava à pequena. Tempo que ia diminuindo, à medida que ela ia crescendo e o jovem com heterocromia identificava o mesmo sorriso e era assombrado pelos mesmos olhos de um passado, incapaz de enterrar.

Consequentemente, recebia avisos constantes de que conforme a criança fosse crescendo, o distanciamento que ia colocando entre ele e a pequena seria cada vez mais evidente. Temiam que magoasse a pequena, assim que ela se tornasse consciente da falta de vontade de Levi em estar mais presente na vida dela.

Cada vez que o Ómega escutava essas palavras, entendia como aquilo que mais temia acabou por acontecer. Não era um bom pai. Os bens materiais, algumas demonstrações de afeto e meia dúzia de visitas que adiava sempre que podia, apenas destacavam aquilo que sempre soube. Nunca devia ter sido pai.

Quantas vezes ponderou a ideia de simplesmente deixar que a filha acreditasse que os avós eram os verdadeiros pais? Aliás, se Axel não tivesse descoberto a verdade acerca da gravidez, Levi tencionava deixar a criança nas mãos de outras pessoas e nunca ter qualquer contacto. Mesmo que fosse viver para sempre com aquele peso na consciência e com a incompreensão de Marco e Hanji, os únicos que sabiam da história desde do princípio.

Contudo, depois do nascimento e de ter a criança nos braços, soube que não seria capaz. Só que enganou-se ao pensar que seria capaz de desempenhar um papel, que apenas conheceu anos depois da sua vida vazia de figuras parentais. Diziam que parte seria instintivo, mas ele sabia que isso não era bem assim.

- Levi?

- Não precisas de mentir, Farlan. – Começou por dizer num tom amargo. – Até tu deves ter notado que não sou um bom pai.

- Não penso isso. – Cortou o Alfa, entendendo que tinha acabado por tocar num tema sensível. – A tua filha adora-te.

- E como explicas que tu e outras pessoas consigam olhar para ela sem ver um fantasma, mas eu não consiga fazer o mesmo? – Perguntou.

- As coisas não são fáceis para ti, Levi. – Disse num tom compreensivo. – Só que mesmo assim, és capaz de estar presente e de ter o amor da tua filha. Nunca coloques isso em causa. Ela não pára de falar de ti. És um herói aos olhos dela.

- Não mereço que me coloque num pedestal. – Replicou, desviando o olhar durante algum tempo antes de encarar novamente o Alfa. – Eu devia ser capaz de olhar e cuidar dela da mesma forma que tu o fazes, sempre que a vamos visitar. – Fez mais uma pausa. – Tens razão no que disseste antes, provavelmente não quero ou preciso de um Alfa, mas também já fiz muitas decisões egoístas a pensar apenas em mim e não na minha filha. Coloquei a vida dela em risco mesmo antes de nascer e agora não sou capaz de dar-lhe o carinho que merece.

- Não tens que ser tão duro contigo.

- Ignorei estas últimas semanas o que me disseste. Fiz de conta que as palavras não existiram, mas a verdade é que estive a pensar se tenho o direito de continuar a privar a minha filha daquilo que não lhe posso dar. – Afirmou sem desviar os olhos do Alfa. – É por ela que estou a pensar em tudo isto porque fora disso, não posso dar-te o que queres. Nunca mais serei capaz de sentir o mesmo de antes por ninguém.

- Então… - O jovem de cabelos loiros deu um passo em frente. – Estás a pensar em dar-me uma oportunidade, mesmo que seja só pela…

- Pela minha filha. – Concluiu. – E sei que isto também é egoísta da minha parte, porque tu não mereces isto. – Sentiu a mão do Alfa no rosto para obrigá-lo a não desviar o olhar. – Não devias querer uma coisa destas, Farlan.

- É uma oportunidade?

- Que devias esquecer. – Murmurou o Ómega.

- Vou ficar ao teu lado, fazer o impossível para que deixes de ver esse fantasma que te impede de passar mais tempo com a tua filha e porque gosto tanto de ti, Levi… a partir do momento em que aches que não estou à altura, que estou a atrapalhar a tua vida e por muito que me doa, podes pedir para que me afaste depois.

- Não devias ser tão bom comigo, Farlan. – Sussurrou, deixando que o loiro o beijasse de leve nos lábios.

- Não consigo ser de outra forma contigo. – Sorriu e distanciou-se.

- Vamos embora. – Disse o Ómega, começando a andar pelo corredor. - Temos que descansar para a viagem de amanhã para Rose com a Christa e a Isabel a reclamar a maior parte do tempo.

Sinceramente, esperava que depois de tanto tempo a ignorar o Alfa, este estivesse um pouco mais empolgado com o primeiro contacto físico daquele género, mas em vez disso, manteve um comportamento controlado. Em silêncio, Levi agradecia por não ter que golpear o Alfa cinco segundos depois de ter concordado em dar-lhe uma oportunidade. Embora fosse verdade que agora precisava de uma distração. Algo que não lhe desse tempo para pensar como o beijo, tal como pensava, não causava as mesmas sensações, nem nada que se lhe comparasse a outra pessoa. Quem sabe até fosse melhor assim, mas teve a esperança de que sentir algo semelhante, poderia pelo menos ajudar a apagar o fantasma.

"Espero não me arrepender disto…", pensava enquanto saía da base militar com Farlan atrás dele e encontraram os amigos que acenaram na direção dos dois.


-X-

Preview:

- Quem é este?

- Um dos vocalistas da banda? – Distanciou-se do aparelho para poder ver melhor o ecrã, já que ao contrário do que Jean pensava não precisava enfiar-lhe aquilo na cara. – É o Rivaille. Também és fã?

- Não, caralho! – Disse irritado. – Mas como aquele idiota não parava de ouvir as músicas e tanta gente fala do mesmo, resolvi ver o que era e encontrei isto!

- O Rivaille? – Indagou confusa.

- É um Ómega, certo?

(…)

Foi numa das vezes em que Rivaille chegou perigosamente perto da parte final do palco que o viu. Sem margem de dúvidas, enxergou-o mesmo no meio daquela multidão. Aqueles olhos eram únicos, seria capaz de reconhecê-los em qualquer lugar

(…)

E numa das laterais não muito distantes, encontrava-se Hanji que vendo como o concerto estava prestes a encerrar, decidiu que aquele seria o momento.

- Agora, enquanto se dão os últimos gritos, vamos raptar aquele moreno… temos muito, muito que conversar. – Comentava ao lado de um Alfa de olhos azuis.

- Hanji deixa-me ser o primeiro a abordá-lo e cuida dos Ómegas e daquele Alfa que parece que estão a acompanhá-lo. Quero falar com ele primeiro e saber se realmente o meu filho tem ou não razão em manter-se distante dele.