48

Sem muita mudança, a semana seguiu. Stefans estava muito melhor naquela manhã quando Relena e Zechs retornaram ao hospital. Enfim, ele explicou exatamente o que aconteceu aos filhos e ao policial que os acompanhava. Depois de sua consulta, que terminou perto das oito e meia, já que gastara tempo conversando com o médico sobre assuntos corriqueiros, ao aproximar-se da porta do carro no estacionamento, foi abordado por três homens e o sequestro foi anunciado. Vagaram pela cidade por algum tempo, os homens o agrediram algumas vezes e o obrigaram a entregar seus pertences. Depois de algumas voltas a esmo, saíram para uma rodovia e o empurraram para fora do carro em um trecho escuro e deserto, obrigando-o a arranjar forças para levantar-se e caminhar até encontrar quem o ajudasse.

Stefans pôde descrever com um pouco de detalhes as figuras de seus sequestradores, porém, não sabia se seria de qualquer ajuda. O modelo e a placa do carro, a direção para a qual o automóvel seguiu, tudo estava anotado para contribuir para a investigação.

Depois de dois dias no hospital e muitos exames feitos, Stefans recebeu alta. Zechs já tinha cuidado de tudo, permitindo que ele continuasse seu repouso em casa. Estava sofrendo muito com o braço e o desconforto da imobilização. Contudo, emocionalmente, não estava abalado, mantendo sua capacidade de lidar com o assunto com seu bom-humor fanfarrão.

A companhia de Relena fazia-lhe muito bem e às vezes ele a provocava por causa de tanto mimo, querendo fazê-la rir e aliviar a preocupação que ela ainda trazia, por causa do choque. Nem sempre dava certo, o jeito despretensioso dele acabava causando uma irritação que ele achava boba e própria da idade dela. Ela não conseguia relaxar e nem ver a mesma graça que ele nos pequenos incômodos que ganhou. Ela concentrava-se todo tempo na gravidade do ocorrido e na noção de que podia ter perdido o pai e tudo o que queria era vê-lo bom logo. Era um egoísmo saudável e Stefans admitia para si mesmo que não agiria diferente se os papéis estivessem invertidos.

Houve certo ar de surpresa quando receberam um telefonema de Dante naquela semana. O juiz provava que seus interesses podiam ser comuns e nobres ao querer detalhes da situação e do estado de saúde do amigo, lembrando-se de incluir as recomendações de Athina. O que mais interessou Relena neste sucesso curioso foi Heero ter realmente achado tempo durante suas horas de trabalho e extenso estudo para relatar tudo à família. Podia parecer algo natural e até mandatório a ser feito, mas não para Heero, sempre tão adverso a tudo que era social e humano. Relena sentiu-se coagida a pensar sobre isso. Mais isso. Mais uma vez. Seria, na verdade, estranho ela não se voltar a considerar a surpresa que parecia mesmo uma impossibilidade – Heero também era capaz de mudar.

De repente, ele usava de bom-senso.

O que o levara a se transformar assim?

Relena queria crer que era o amor, pois sentiu este sentimento viver no rapaz há pouco tempo atrás, no mesmo jardim que agora ela fitava pela janela.

Não tinha sido só o beijo naquela noite que a fizera enamorada. Todas as lembranças que eles fizeram na mansão Darlian eram perfeitas para Relena, rivais dos sonhos mais românticos que já tinha idealizado. Ela sorriu tristemente, recordando a delicadeza, a gentileza, a atenção que ele despendeu-lhe. Por que não durara mais? Era difícil para ela saber que ele não ousaria viver tudo outra vez.

_Acha que Heero tem sentido sua falta? –providencialmente, Stefans indagou a filha. Ele a estivera observando e ao perceber que ela o olharia, cerrou os olhos e suspirou.

Relena voltou-se para ele e desmanchou seu sorriso. Deu de ombros para si mesma, já que Stefans descansava os olhos.

_Imagino que sim. –ele mesmo respondeu, encorajador, notando o silêncio.

_Gostaria que sim… –ela confessou, baixinho, como uma criança levada, mas inocente, que planeja em sotto voce sua próxima má criação. Riu depois, do absurdo que falava. Por que não parava de se iludir? –Mas não devo. –e atalhou, sábia e generosa. –Agora ele está estudando muito e não tem escolha – o exame é difícil.

Stefans assentiu, sorrindo benignamente. Ele sabia por experiência própria que Relena não exagerava. Até que tinha boas lembranças de sua época de recém-formado. Uma das maiores birras de Dante com Stefans era a de ele jamais atuar no Direito, mesmo sendo licenciado. Stefans sorriu mais por causa do que corria em sua mente.

Relena franziu a testa assistindo-o, porém nada comentou.

_Filha, seria terrível demais da minha parte desejar sua felicidade? –Stefans abriu os olhos e indagou, penitente.

Relena estalou os lábios em desânimo.

_Não, papai, mas não imagino como o senhor espera que eu a alcance. Veja o que o senhor aprontou comigo.

Ele sacudiu a cabeça afirmativamente.

_Não nego que minhas decisões foram difíceis para todos, mas especialmente para você. Você já me perdoou, querida?

_Sim, apesar de eu ter pensado que jamais seria capaz.

_Obrigado. Eu sempre estou pensando em sua felicidade. Não duvido que você a encontre.

Relena franziu os lábios numa expressão de incerteza. Seu olhar ficou vago por um instante e num estalo decidiu contar ao pai sobre a posição de editora que a senhora Baumgarten oferecera.

Stefans ficou mais empolgado que a filha.

_Imagino que essa seja uma oportunidade imperdível, Lena. Ainda não se decidiu por ela?

_Andei me sentindo tão esgotada que não consegui ânimo para pensar seriamente no assunto. Achei que não daria conta.

_Você não quer sair da escola?

_Não cheguei a nenhuma decisão. –murmurou, evasiva, repetitiva.

Stefans suspirou, sorrindo com os olhos, despreocupado:

_Escolha o que for melhor e o que você realmente desejar. Eu tenho para mim que tudo vai terminar bem, Lena.

Ela recolheu-se a suas meditações secretas ao ouvir a afirmação do pai. Ele devia estar louco se pensava assim sinceramente. Talvez ele desejasse assim porque via necessidade de Relena receber uma recompensa por seu sacrifício tão abnegado. Reconhecia que era do pai que herdara a sua tendência de sempre esperar o melhor e acreditar em causas perdidas.

Será que Stefans nunca tinha se iludido pensando assim?

Ela já havia.

Percebeu que era melhor parar de pensar sobre isto antes que voltasse a sentir-se deprimida outra vez. Não havia porque piorar uma situação que beirava o insuportável.

De repente, até seu porto seguro deixava de ser intacto.

-8-8-8-8-

Na mansão Yuy, a vida tomava contornos de normalidade. Mais do que nunca, nada parecia ter mudado. Os filhos estavam em casa, cada um com suas ocupações, e os chefes da casa prosseguiam levando sua estranha relação de tolerância, com rara disputa de poder.

O incidente com Stefans Darlian chocou a todos quando foi noticiado e Akane irresistivelmente preocupou-se mais com Relena do que com o senhor Darlian. Pensou muito na cunhada nas primeiras horas que seguiram a notícia e só não telefonou oferecendo ajuda, incentivo e consolo porque não sabia como faria para conversar com Relena sem mencionar o movimento terrível que Heero descrevera no tabuleiro de suas vidas. Ele se provara subitamente um jogador péssimo e nunca antes tão temerário. Porque não seria nem minimamente capaz dessa vez de dissimular sua decepção e intolerância ao que havia, sensações que transpareceriam em sua voz, ela não ligou e considerou se por acaso passaria como alguém sem consideração. Dar uma impressão errada a Relena era a última coisa que desejaria, mas ali era dos males o menor.

Heero não fazia mais nada além de estudar. Até do trabalho pediu licença aquele fim de semana. Na quinta-feira deu todas as instruções à equipe e a seu assistente e sexta-feira se trancou no quarto, devorando livros e repassando notas, escrevendo dissertações, estudando tudo o que podia. Passar no BAR era questão de honra e ele mergulhava completamente nesse empenho para tentar esquecer até de si mesmo.

Quando chegasse ao fundo dessa obliteração do ser, estaria exausto o suficiente para assumir o máximo estoicismo de postura necessário para entregar a Relena a notícia de suas decisões.

As refeições que tomou ele só as tivera porque lhe foram todas servidas no quarto. Sua ausência só era sentida por sua mãe, que se preocupava com aquele zelo obsessivo do filho. Dante não entretinha nenhuma opinião, tal qual não notasse o esforço do rapaz ou, pelo menos, não o achasse digno de nota. Do seu modo frio, estava tranquilo. Tinha conseguido o que queria de Heero. Como sabia ser justo, agora que fora satisfeito, não se manifestaria mais sobre nada que considerasse rotineiro nas atividades do filho. Era o que achava que lhe cabia como cumprimento de sua parte dos acordos e contratos.

O teste era na terça-feira. Na segunda-feira de manhã decidiu que estava preparado. Não havia como ser o contrário. Com seu metodismo habitual, organizou todos os livros que estavam sob sua mesa e desligou o computador. Decidiu sair um pouco de casa e lembrar-se de como era a luz do dia. Também fazia parte da preparação para a prova esquecer-se um pouco dela.

Com seu carro foi para Manhattan. Queria dar uma volta no Central Park.

Quando chegaram às dez horas, decidiu ir tomar o desjejum. Percorreu a Quinta Avenida até Little Italy, o bairro onde ficava a padaria Ferrara. Foi ao lugar de sempre porque estava tentando não se esforçar com assuntos banais.

Todos o conheciam ali, mesmo ele já não sendo um cliente tão frequente. O atendente aproximou-se da mesa que Heero ocupava, bem ao fundo do espaço, e anotou o pedido do rapaz, que era um expresso duplo por enquanto.

Entregue ao ócio, teve de recorrer ao celular. Por um tempo checou as notícias, depois os e-mails do escritório e por último foi ver sobre o que eram os alertas de postagem do Facebook. Eram as fotos do evento do fim-de-semana, mais das mesmas imagens de seus amigos sorridentes em um ambiente bem decorado com copos de espumante na mão. Havia valores naquelas imagens que ele não sabia por que se perpetuavam. Ou, talvez, era só jeito de ele ver as coisas. Irritava-se com a leviandade que enxergava naquele momento da vida dos amigos, entretanto, quem sabe não era ele quem colocava a leviandade lá. A verdade é que ele continuava com grandes dificuldades de se entregar a diversões daquele ou de qualquer tipo, e por notar isso rememorou episódios de Londres que forçosamente faziam-no se contrair por dentro em uma mistura de vergonha e autocondenação.

Seu coração se envelhecera, estava dez anos mais velho do que devia, e a perda de interesse na vida era o que explicava essa precocidade.

Sua vida tomava então novos rumos, agora ele se via mais senhor de seus caminhos, ditador de suas escolhas, contudo, o estrago tinha sido feito e o que se perdeu estava longe demais para ser encontrado, passado demais para ser ressuscitado.

A não ser…

Ele não ousaria completar essa frase de sua meditação.

Não, tampouco fora permitido.

Por um instante, achou que ouvia uma voz em seu pensamento:

_Que surpresa encontrar você aqui, Heero. –mas ela era bem real e soava estrangeira. Heero observou a face que guardava a voz estreitando os olhos e premindo os lábios. –Você também parece bem surpreso… –a moça soltou um risinho nervoso e seus olhos desceram cabisbaixos.

Respirando fundo, Heero nada desejava responder. Entretanto, seu fito relaxou e não se apressou em aparentar qualquer ferocidade. Se não completamente, a mirada dele se envolveu em algo generoso.

_Bom dia, Sylvia. –e como era insistente a presença da moça, ele achou algo para dizer.

Sylvia não sabia bem como ou porque ele a encarava daquela forma tão grave.

Mesmo quem não a conhecia conseguia ver como ela ficara tensa desde o momento que capturou a imagem do rapaz à distância. Ela, contudo, não queria admitir essa condição do coração, por mais lavada que estivesse por ela.

Ficou imóvel por um tempo que pareceu a ela muito longo. Usou esse momento para chegar a conclusões que poderiam contribuir ou atrapalhar o resto da interação com Heero.

Ele olhou para ela por metade do tempo que ela levou para terminar suas considerações. Não usou nenhuma palavra sequer de despeito, baixou os olhos e voltou sua atenção a tela do celular, ocorrendo-lhe aborrecidamente que o café expresso precisava de repente de outro nome.

Sylvia ficou confusa com a atitude de Heero, porém sabia que o proceder mais correto de sua parte era procurar uma mesa para si, fazer seu pedido, seguir seu caminho, continuar seu dia que estava completamente programado.

_Como vão as coisas? –ela indagou, decidindo que seria espontânea para não perder aquela oportunidade, provavelmente a última, de estar a sós com o rapaz.

Heero suspirou, estalou os lábios e venceu a indisposição de conversar ainda mais uma vez aquela manhã:

_Como sempre. –não estava certo de aquela ser a resposta correta, porém.

Sylvia assentiu.

_Que bom. –e hesitou.

_Quer se sentar? –Heero murmurou, olhando de novo seu celular, vendo finalmente uma conversa que Duo iniciou dois dias atrás.

Os cantos dos lábios da moça se agitaram em movimentos leves e rápidos, tentados a criar um sorriso perigoso.

_Obrigada. –aceitou, o coração acelerou um pouco diante do inesperado, do incomum, do arriscado.

O rapaz fechou a conversa no celular e procurou em volta pela figura do atendente com seu café, mas a padaria estava cheia e seu pedido ainda devia estar pendente.

Sylvia pousou as duas mãos na mesa, à esquerda sobre a direita, em uma pose jovial, mas elegante, e não proposital. Ao trazer de volta o olhar para a moça em sua frente, Heero viu na mão dela o diamante de compromisso.

_Faz tanto tempo que não o vejo, nem sei o que falar. –ela admitiu, falando baixo e pensativamente.

O rapaz assentiu, inexpressivo.

_Me desculpe o que vou dizer, mas é estranho pensar que não te conheço mais. –ela arrematou, estudando-o todo com um olhar de curiosidade serena.

_Sylvia, você nunca me conheceu.

Ela franziu o rosto e se encolheu.

O café chegou.

Ela fez seu pedido.

Heero bebeu um gole do café, bastante pensativo.

Ela ficou simplesmente intrigada. Sabia bem como ele funcionava, a rispidez despropositada, a imprevisibilidade.

_E todos esses anos que vivemos foram o que para você? –e resolveu perguntar, tratando especificamente das experiências que partilhavam.

No que dizia respeito a ele, não havia nada a dizer.

_Lamento por qualquer mal que te causei. Lamento se te fiz se sentir usada. –e pronunciou com cuidado, colocando sinceridade em cada palavra.

_Você fez. Não sei, porém, se eu tinha esse direito, quando tudo foi sempre consensual. É claro, menos nossa separação. –falou assim e deu de ombros. Ficou absorta, difícil de ler, antes de murmurar: –Se fosse possível controlar as pessoas a nosso bel-prazer, não sei se o mundo seria um lugar melhor.

Heero prestava atenção. Leitor habilidoso em interpretação, percebia mensagens secretas em cada frase daquela fala. Talvez fora uma perda Sylvia ter trancado a faculdade de jornalismo. Seu comentário aparentemente inofensivo era de ironia, provocação e revelação brilhantes. Porém, Heero o descartou sem pretensão de nele meditar. Decidiu não se vulnerabilizar, e prosseguiu:

_Mas você não se conformou. –apontando um fato óbvio, desconcertando um pouco a moça acidentalmente.

_Uma parte de mim não. A outra insiste em prevalecer. –ela apresentou, espertamente, porém no olhar luzia uma faísca melancólica.

Vê-lo ali era dolorido. Pensar em todos os conselhos que recebera e em sua presente situação não era suficiente para cobrir todas as fissuras que o passado abria em seu coração. Havia tanta história na pessoa diante de si, como ela poderia simplesmente ignorar? Nem fingir que nada importava era possível.

_Há algo que é preciso ficar claro. Nossa separação nada teve a ver com Relena. Independente de meu casamento, eu já não era mais capaz de prosseguir nosso relacionamento.

_Por quê? –uma pergunta tão simples, porém tão complicada de responder.

Heero suspirou agastado. O problema não era que ele não sabia o que dizer. Tinha seus motivos sólidos, tinha suas respostas plausíveis, porém elas eram só para si. Articular uma explicação era problemático, se não impossível para ele.

_O tempo que passei longe daqui serviu para eu me dar conta de que já há muito eu estava consumido pelo vazio.

_Não compreendo.

_Tudo me parecia muito superficial, todo o estilo de vida que eu tinha, e precisava escapar de tudo isso. Não reagi da melhor maneira ao meu problema, somente segui meus sentimentos. Quando pensava em nós dois, não conseguia enxergar sentido em estar com você, mas por causa de tanto entorpecimento, por um tempo não me importei em fazer sua vontade. Era totalmente indiferente para mim se eu estava com você ou não.

_Dizer que não me amava seria mais fácil.

_Sim, a verdade é que eu não te amei. Nunca amei nada.

_E quanto a Relena? Também não a ama?

Ele negou-se a responder.

_Entendo. –ela murmurou diante da ausência pronunciamento dele. –É bom ver que você mudou. Pelo menos um pouco. Foi capaz de passar por cima de seu autoritarismo e finalmente me dar uma explicação, mesmo que seja essa daí, que faz quase nenhum sentido para mim. –e riu nervosamente.

Heero a olhava de forma passiva, intocado.

_Me sinto tão estúpida. Demorou demais para eu entender que você não me fazia bem.

_Eu também errei com você. A inércia em que me coloquei me impediu de te libertar.

_Pois é. Eu estava deslumbrada; tinha certeza de que apesar do seu jeito ausente, imprevisível, você se importava comigo e com o que eu sentia por você.

_Eu lamento. –ele repetiu, a mesma entonação da primeira vez que havia pronunciado seu pedido de desculpas discreto.

Os olhos de Sylvia ficaram vítreos de lágrimas. Estava confusa, nunca antes se sentiu tão privada do controle de seus pensamentos.

Os dois terminaram seus cafés e pediram a conta.

Eles ficaram em silêncio até o atendente voltar com o cálculo e receber o dinheiro. Heero pagou pelos dois e assim que ficaram a sós, fixou sua atenção a Sylvia, que soltou um suspiro áspero.

_Eu não podia me sentir assim agora. –desabafou, irritada consigo mesma.

Heero pareceu triste, porém Sylvia não conseguiu ver. Ele se levantou e ela o imitou.

Saíram juntos pelo corredor estreito do estabelecimento e entraram na luz do dia, estacando na porta.

Uma lágrima volumosa escorreu pelo rosto delicado de Sylvia:

_Eu te amei muito, Heero. –confessou contra sua própria vontade, a intensidade dando-lhe um ar infantil.

O olhar de Heero era muito descaído e comiserado, mas suas feições em nada combinavam com seus olhos. Recebeu a declaração dela com seu silêncio absoluto, universal, talvez facilmente julgado inapropriado. Contudo, raramente o silêncio o decepcionava.

Sylvia o cravou com seus olhos, expectante, assustada com a própria coragem e meneou a cabeça diante da imobilidade dele. Aquele silêncio que já ouvira tantas vezes, aquele enigma familiar, não a intrigou dessa vez, e um impulso que tinha lhe subido regeu suas ações que seguiram. Um movimento ágil levou a melhor sobre os dois, ela esticou-se e beijou Heero nos lábios, apoiando-se nos ombros dele com suas mãos, erguida nas pontas dos pés. Não pensou que se expunha, não pensou que se humilhava, esqueceu todos os conselhos, a etiqueta de como proceder, e entregou um beijo suplicante para aquele que fora seu amor mais querido, seu primeiro.

Diante de tudo, nunca antes a postura de Heero fora tão calma. Em um simples ato de gentileza, ele a segurou pela cintura somente para apoiá-la e, quanto ao beijo, não o correspondeu. Não se sentia culpado por Sylvia ter sofrido tanto, contudo, sabia que era seu dever ter terminado os assuntos com ela da forma apropriada. Ele esquivou-se desse dever em favor de conveniência egoísta e agora tinha direito de ser punido.

Ao abrir seus olhos brilhantes de água, Sylvia olhou o rosto de Heero e soluçou. Por um instante teve medo.

_Sylvia, você fez a escolha certa. –ele murmurou, circunspecto, ignorando completamente o gesto que ela executara. Pegou a mão esquerda dela e a ergueu, feito a puxasse para uma valsa. Com isso, Sylvia relanceou seu anel de noivado e seu peito se apertou. Entendeu a que ele se referia. –Eu sou uma página arrancada para seu bem. Você sabe que isso é verdade. –o controle de sua voz e a força de seu olhar eram irresistíveis. –Sinceramente, desejo que seja feliz.

Ela soluçou, sentindo o ar faltar. Entretanto, conseguiu sorrir. Aquele era o fim que ela queria e precisava.

_Obrigada. –sussurrou.

Com delicadeza, Heero soltou a mão dela e fez um movimento de cabeça em assentimento.

_Você… vai prestar o BAR amanhã, não é?

Ele assentiu outra vez, como resposta.

_Boa sorte.

Cada um tomou seu caminho, como tinha que ser, porém não mais como desafetos.

Sylvia sentia o coração leve, talvez porque fora satisfeito. Pegou o telefone e enquanto caminhava, procurou uma foto de Kyria, para a qual sorriu e suspirou, pensativa. Acabou lembrando que não tinha dado bom-dia a ele ainda e apressou-se em reparar tal deslize.

Saindo para procurar o carro, Heero andou devagar, ainda absorto, ainda melancólico. Era difícil habituar-se a aquela emoção. Por outro lado, estava saindo-se bem em ser franco. Jamais imaginara sua vida tomando tal curso, sua mente assumindo tal formato, seu coração comportando-se daquele modo vacilante e humano.

-8-8-8-8-

Manon tinha acabado de receber a entrega da lavanderia. Na área de serviço, ela conferia o trabalho feito e verificava a necessidade de qualquer retoque. Uma família tradicional de nome importante tem todo tipo de vantagem: Manon tinha mandado os lençóis, as fronhas e o cobre leito para a lavanderia na tardinha anterior e pedira para que entregassem no dia seguinte, às sete horas, nem se preocupando se era fora do horário de funcionamento. Para uma casa Yuy, tudo era possível. Ela mandava as roupas para a mesma lavanderia que Yacob fazia, por exigência dele, na verdade, mas era agradecida pela recomendação. O estabelecimento era quase tão antigo e tradicional quanto seus clientes e sabia exatamente como lidar com eles.

Ela aspirava a fragrância do amaciante e sentia a textura do algodão e contente com tudo, foi para a suíte da Primavera. Ninguém tinha dormido nos lençóis que forravam a cama no momento, mas mesmo assim, sabendo do grande prazer e conforto que é dormir em roupa de cama limpa e fresca, Manon trocou a roupa de cama por aquela que tinha recebido meia-hora antes.

Finalmente, depois de quase duas semanas, Relena regressava para o Paterno. Ela havia ligado perto da hora do almoço da terça-feira avisando que voltava na próxima manhã. Só não falou para onde voltava, não chamou o apartamento de casa, não parecia ainda muito disposta em seguir a própria decisão. Manon indagou de Stefans, tinha sido informada por Viane sobre o sequestro, e Relena deu as informações chaves, ainda pesarosa, prometendo aprofundar o assunto quando se vissem pessoalmente.

Manon suspirou pensando nisso. Relena não era apenas seguida por más notícias, porém seria recebida por elas também. Heero tinha deixado uma incumbência ridiculamente delicada em suas mãos e por mais que Manon soubesse que não havia forma sutil de realizar a tarefa, ainda se incomodava em procurar uma. Já antevia tanto sofrimento. Era difícil para ela entender o que podia estar havendo ali, embora não coubesse a ela este tipo de preocupação. Contudo, como não se envolver na rotina de uma casa que era praticamente sua e não se simpatizar com uma moça tão agradável feito Relena? E depois, tinha recebido um nível de responsabilidade de Heero que a colocara em um patamar de confiança que a permitia preocupar-se, quase como se aquela fosse uma exigência em suas funções.

Eles sempre tiveram um relacionamento incomum, Manon somente não estranhava porque houvera sido prevenida por Viane para ser discreta e não se espantar com nada. Logo nas primeiras semanas ela compreendeu exatamente o motivo dessas palavras e ficou tranquila ao perceber que o que tinha diante de si era mais um casamento de conveniência, essencialmente para ela uma situação fácil de levar. Com o passar dos dias, conhecendo cada um de seus patrões melhor, começou a criar suposições de como aquilo ia prosseguir e quanto tempo ia durar. Primeiro, pareceu que eles desenvolveriam um ódio intenso e visceral um pelo outro, e começaram a cometer as bobagens que qualquer jovem em uma condição dessas comete. Mais recentemente, entretanto, uma reversão parecia ter acontecido e os dois tinham desenvolvido uma convivência harmoniosa e a direção parecia agora ser em direção do amor.

A decisão de Heero contra esse contexto era enigmática. Ele tinha essa facilidade para sempre fazer o imprevisível.

Manon afofou o último travesseiro e sorriu para a linda cama feita.

A primeira vez que viu aquele jogo de cama, ele tinha acabado de sair do embrulho de presente e ela provavelmente sentia-se mais feliz do que a noiva ao ver quantas peças de enxoval lindas e de qualidade excelente haviam chegado para suprir a casa. Isso fora um ano e meio atrás.

Teve que suspirar de novo.

Foi para cozinha preparar o desjejum caso Relena chegasse com fome, fingindo para si mesma que não estava tentando mimar a jovem patroa para distraí-la das questões primordiais. E ao mesmo tempo criava coração para comunicar o inevitável.

Relena colocou as malas no chão e procurou a chave na bolsa. Fazia tanto tempo que não a usava que estranhou a sensação na mão. Manon apareceu assim que ouviu o barulho da fechadura e ajudou com as malas.

_Bom-dia, Manon. –Relena tentou soar contente, sorrindo com singeleza.

Manon abriu seu sorriso abastado:

_Benvinda. Já tomou café-da-manhã? Gostaria de um cappuccino gelado?

Relena alargou o sorriso ouvindo a oferta:

_Tinha me esquecido como era bom ter você comigo, Manon. –e brincou.

_Desculpe-me, mas fiquei ofendida ao saber disso. –e sem medo de brincar de volta, Manon avisou, colocando um siso no rosto que durou menos de um minuto.

_Oops. –Relena respondeu, mal contendo o riso.

Manon prosseguiu:

_Vamos para a cozinha, depois cuido das suas malas.

_Sim, quero te contar as novidades.

Sentando na mesinha de copa onde tantas vezes tomara cafés como aquele que estava prestes a fazer, Relena ficou assistindo Manon preparar o cappuccino e beliscando as comidinhas que haviam sido dispostas sobre a toalha branca impecável. Enquanto isso, ela cumpriu sua promessa, contando todos os detalhes sobre o ocorrido com o pai, sobre o que fizera em Trenton nessas semanas e sendo franca sobre o quanto gostaria de ter ficado mais tempo com o pai. Sentia-se tão à vontade ali, olhar Manon trabalhar na cozinha dava-lhe uma sensação de segurança, quase como se tivesse uma mãe de novo. Sorriu para si mesma, agradecida, ouvindo-a dizer antes de virar para dar-lhe a bebida pronta:

_Veja pelo lado positivo: se voltou, quer dizer que seu pai já melhorou. –sorriu. –Prove.

Relena assentiu, conformada e obedeceu Manon.

_Hm, está ótimo! –e depois do primeiro gole, já teve a certeza para avaliar. Enxugou um pouco a espuma dos lábios e continuou –Heero pediu para eu não me demorar mais; disse que tinha algo para conversarmos. –e de repente lembrou-se, mas naquele ambiente tão aconchegante, não ficou preocupada. –Ele está fazendo o exame do BAR hoje. –e disse a si mesma, bebendo um pouco mais.

Manon assentiu por impulso.

Seu coração se comprimiu e a cor fugiu do seu rosto, incontrolável, porém só por um instante. Virou-se para a bancada e lavou um copo até a comoção passar.

_Heero não disse sobre o que queria conversar? –indagou.

_Não, mas parecia importante. Claro que, do jeito que ele fala, tudo sempre ganha um ar de muita importância. –e sorriu agridoce.

Então Manon trouxe o copo lavado consigo para a mesa e sentou-se.

_No fim-de-semana depois que você foi para Trenton, Heero foi para a Mansão Yuy. Ele levou algumas malas e explicou que não voltaria mais. –e olhando com sinceridade para a moça, Manon narrou. –Tenho para mim que ele achou que você voltava na segunda-feira e por isso me pediu para lhe dizer isto quando chegasse.

O olhar de Relena ficou parado. Aos poucos, foi perdendo o foco e ficando cada vez mais distante. Manon encheu o copo de água gelada e deu para ela, que o segurou com firmeza.

Tomando um longo gole, mas bebendo pouco, Relena absorveu a informação com lerdeza.

A expressão no rosto de Manon era complicada de definir. Havia pena, tristeza e até um pouco de vergonha. Detestava a posição que ocupava então. Ela esperou, imóvel e calada, até Relena reagir.

Relena sentiu a água correr por sua garganta feito uma lâmina de aço. Todo o conforto do cappuccino e da figura de Manon de avental movimentando-se pela cozinha pareceu algo muito distante. Só restara a algidez e agudez da água.

_Foi só isso o que ele disse?

_Ele disse que logo você receberia os documentos para assinar. –Manon foi fiel e insossa em seu relato. Baixou os olhos então, em luto.

Um tremor espalhou-se pelo corpo de Relena e a água gelada dominava seus sentidos. Respirou, fundo, pausada e repetidas vezes, buscando algo para servir-lhe de referência de modo que não terminasse de desmoronar.

No fundo da mente, vinha-lhe uma noção de que ela já esperava por isso.

De fato, ela esperava por isso, mas não tão antecipadamente.

Não estava preparada para o divórcio tão já.

Ainda havia cinco meses no mínimo para o contrato poder ser encerrado.

Aquele adiantamento não era possível.

Mas por algum motivo, que como sempre não lhe dizia respeito, fora tão possível quanto fora feito.

Soluçou.

_Sinto muito em ter de ser eu a dar esta notícia. –Manon juntou suas mãos e as torceu.

Relena meneou a cabeça e secou uma lágrima.

_Está tudo bem, Manon. Muito obrigada. –levantou-se, perdida, e alisou a saia.

Se tinha que acontecer, porque não agora?

Era mesmo melhor assim, não era?

Podia ficar em paz enfim.

Mas que paz seria essa?

_Precisa de algo? –Manon não achava que podia fazer muita coisa, mas se sentia péssima por isso.

_Acho que não há nada para ser feito agora, Manon. –e a resposta de Relena resumiu e encerrou tudo.

Sentindo-se piegas, sentindo-se inconveniente, mas sentindo-se moral e sincera, Manon levantou-se e abraçou a moça.

Relena deixou-se abrigar no abraço da mulher, e escondeu o rosto no ombro dela. As duas tinham estaturas similares, mas Manon tinha um corpo robusto e acolhedor, capaz de conchegar a moça feito ela fosse uma menininha e consolá-la.

Essa foi a única liberdade que Manon tomou, embora ela tivesse certa vontade de alisar o cabelo de Relena e murmurar que tudo ia passar, do mesmo jeito que fizera várias vezes com os filhinhos de seus patrões anteriores.

Relena não se importou em nada com o gesto de Manon. Secretamente, o agradeceu. A mulher era o único porto seguro disponível. E apesar de elas não terem nenhuma relação de sangue, nenhuma longa história de amizade, para Relena, ninguém poderia ter sido melhor apoio naquele momento do que Manon, porque só ela podia ser a confidente de mais aquele segredo doméstico.

_Você quer que eu chame alguém? –separaram-se, e pousando a mão no ombro de Relena, Manon ofereceu.

_Não precisa, Manon. Eu quero ficar sozinha e pensar um pouco.

Manon assentiu.

Relena foi para o quarto. Não fazia nem cinco horas que acordara, mesmo assim deitou na cama e, para evitar as lágrimas, cerrou os olhos e forçou-se a cochilar. Nem foi muito difícil, o choque da notícia exaurira sua mente. Queria se proteger e nada melhor como uma breve inconsciência para salvar-lhe a sanidade.

Manon levou as malas para a área de serviço e começou a organizar as roupas, a mente ainda trabalhando mais intensamente que suas mãos.

Era um dia atípico, e mais uma vez decidiu tomar uma ação fora do padrão.

Colocou as roupas de lavar em casa no cesto e terminou de dobrar as peças que iriam para a lavanderia antes de fazer um telefonema.

Akane sentou-se a mesa do café tardiamente. Esse parecia ser seu hábito preferido, especialmente quando de férias. Não podia ser reprovada, tampouco era forçada a abandonar aquela maneira de levar a vida, entretanto seu pai nunca aceitava seu proceder. Aquela manhã ele não tinha ido trabalhar e ao passar eventualmente pela porta aberta da biblioteca, não deixou de observar:

_Mas o que é isso? Já é quase hora de almoçar. Por que não veio na hora certa?

_Estava dormindo. –explicou, com má vontade.

_E só fará isso durante as férias? Já faz três horas que seu irmão está fazendo o exame do BAR.

_Não se preocupe, papai, minha hora vai chegar. Mas fico feliz em ver que finalmente o senhor está satisfeito com Heero. –e deu um sorrisinho felino para pontuar seu comentário.

Dante preferiu não fazer caso. Não podia admitir que ela estava certa.

Ela prosseguiu, quase que para si mesma:

_Pelo menos em algo ele pareceu melhorar. Ele não me deve nada, mas para me deixar satisfeita há muito que amadurecer.

_Assumir responsabilidades e riscos faz parte do amadurecimento.

Ane suspirou fundo e apoiou o rosto na mão, desinteressada. Era uma bela frase, mas tudo que ela realmente comunicava era que o juiz não ia interferir com nenhuma decisão de Heero agora ou nunca, mesmo que isso significasse o rapaz estragar um futuro todo de alegrias.

Entender Dante era conduzir uma expedição espeleológica ou procurar uma nova rota para as Índias. Imprevistos impensados, conceitos complicados e um emaranhado de lembranças secretas tornavam a tarefa complexa em detalhes, e exigia muita sensibilidade.

A mirada que Ane sustentou em direção do pai era impassível e escusa. Depois, retomou seus pensamentos. Como Dante estava ocupado, não se importou com o fim do assunto nem com a falta de efeito de suas advertências. A filha funcionava diferente do filho e era um tanto imparável. Ele preferia não perder tempo com ela.

Manon telefonara brevemente para Yacob, com apenas um aviso a dar. Na ausência de Heero e na incomunicabilidade do mestre, o mordomo transmitira o recado somente para uma pessoa na casa: a menina Akane. Ele a acordara especialmente para fazer isso.

Então ela não teve outra escolha a não ser se levantar, se arrumar e meditar na situação para escolher como proceder. Não que ela não soubesse o que fazer, mas precisava de sabedoria para decidir como fazer o que devia. Recostava a mesa sombria e tensa. Até ela se via em uma situação desfavorável por causa das péssimas decisões do irmão.

Terminou de comer seu sanduíche e subiu para o quarto, deitando na cama que Viane havia acabado de arrumar, onde terminou de pensar. Naquele mundo de mentira e fingimento sabia que o único caminho para o bem era ser honesta.

Deixou-se cair no colchão com um suspiro e encarou o teto.

Do seu lado, estava seu tablet, repleto de listas e cronogramas de seus eventos para serem repassados e checados, a caixa de e-mail provavelmente cheia de mensagens importantes de fornecedores e profissionais aguardando respostas.

Tudo corria bem.

Na próxima semana, aconteceria seu último evento de Verão. Este era uma sequência da festa anterior, e tão bem-sucedida tinha sido esta que ela não precisava preocupar-se com o resultado da próxima. Os colunistas sociais que ardentemente cobriam seus eventos, publicando notas e artigos tanto antes quanto depois das ocasiões, tinham base para afirmar que sucesso parecia correr nas veias da jovem socialite.

Sem dúvida, o sucesso era uma das forças motrizes e um dos prazeres de Akane e ela não negava ou escondia que se orgulhava de si própria, às vezes até excessivamente.

Estava em uma posição segura e confortável em sua vida.

Seus talentos tinham sido reconhecidos até pela presidente do clube de campo, a senhora Van der Ven, considerada na juventude como a it girl definitiva e posteriormente a anfitriã dos jantares e festas mais bem falados e frequentados da sociedade da área dos três estados. Para a Feira de Outono, Sissi Van der Ven entregara a Ane a frente da direção criativa para oferecer a experiência mais memorável da estação. A repercussão da mascarada de Verão em The Wing nas melhores colunas sociais da região foi o que conquistou Sissi e deu a Ane a oportunidade de organizar o que seria o maior evento de seu portfolio.

Porém, qual seria o deleite em ter tudo e ocupar tanto espaço sob os refletores quando sua família estava incompleta e infeliz, quando pessoas tão queridas e importantes estavam isoladas de si por causa da dor e da culpa?

Que esforço poderia ser celebrado quando o usufruto era incompleto?

Se ela dava festas e arranjava desculpas para transformar tudo em celebrações, era pelas pessoas, para alegrá-las, distraí-las e ganhar lembranças.

O que é, afinal de contas, mais importante do que as pessoas?

Ela tomou outro longo suspiro.

Pensou nas palavras do pai minutos atrás, e ficou mais aborrecida com a situação.

E reconhecia então a missão que haviam confiado a ela. Ela nunca precisou se candidatar, simplesmente sempre coube a ela e a mais ninguém a tarefa de curar o desnorteado, o ferido e o abandonado.

Depois do almoço cerimonial em sua casa, para agradar o pai, saiu para visitar a cunhada. Manon abriu a porta para a moça com uma face descaída, mas sorridente.

_Como ela está, Manon? –era como conversar sobre um doente.

_De princípio, foi um choque para ela, claro. Agora, está bastante desanimada. Almoçou na cama.

Akane não gostou nada da explicação. Colocou as mãos na cintura e ficou encarando o vazio.

_Quer que eu avise que está aqui?

_Melhor. –esta nunca era a opção de Ane, contudo, reconhecia tal como a abordagem sensata. Talvez Relena não a quisesse ver dado as circunstâncias e a última coisa que Ane queria fazer era desgostá-la.

Enterrada em seus travesseiros, Relena tinha as costas dadas para a entrada e concentrava-se no contato acolhedor da roupa de cama envolvendo seu corpo.

_Relena, Akane está aqui.

A voz de Manon viajou cautelosamente até a moça que fez um grande esforço em reagir e se virar. Lançando um fito cansado para Manon, Relena respirou fundo e se sentou.

_Ela pode entrar. –a voz séria entregou a frase como se fosse óbvia, exaustivamente óbvia.

Manon assentiu, preocupada, e foi chamar a visita.

Mostrando cautela, Ane apareceu na porta com um sorriso hesitante e olhos sérios; Relena nunca a tinha visto tão tensa. O olhar azul da moça, fixo na passagem, absorveu a silhueta da cunhada e percebeu-se igualmente incerta sobre o tipo de conversa que iria transcorrer. Qualquer que fosse esta tinha decidido que não havia motivos para ser desonesta.

_De repente aparecer aqui me parece uma ideia ruim. –Ane murmurou, alargando o sorriso, mostrando-se mais despretensiosa.

Um sorrisinho bondoso franziu o rosto de Relena, que ficou pensativa sobre sair ou não da cama.

_Não é. Gosto de conversar com você.

Olhando baixo, Ane aceitou a observação com embaraço incomum. Explicou-se:

_Como está seu pai? Desculpa não ter ligado. Eu sei que eu devia… mas eu não ia conseguir falar com você.

Relena meneou a cabeça, perdoando Ane feito nada tivesse acontecido para que existisse sentimento de culpa.

_Papai está bem. O juiz telefonou e transmitiu a simpatia de todos. –Relena observou, em compensação.

_Papai anda mudado. –Ane brincou, aproximando-se totalmente e sentando-se ao pé da cama. –Só que eu não sinto como se fosse a mesma coisa para mim. Sinto-me na obrigação de estar do seu lado em uma hora tão difícil como aquela… foi um descuido meu.

_Ane, não faça assim. Até parece que tem medo que eu te deserde… –Relena não soube de onde vieram as forças para gracejar.

Akane riu, mas riu triste.

_Aprendeu rápido… –e replicou com voz agridoce. Tentou rir mais, só que não achava apropriado. –Tenho que dizer a verdade. –e antes de prosseguir, Ane respirou fundo tal qual fosse mergulhar em uma piscina profunda, e fechou os olhos, imaginando as palavras certas.

_Não precisa, Ane. –Relena deteve-a, suspirando.

Akane abriu os olhos molhados.

_Eu me sinto péssima. Eu queria tanto te ligar, mas se eu fizesse isso… eu não suportava a ideia de falar com você sem te contar o que estava acontecendo. Então, eu me sentiria ainda pior. Não era certo eu me adiantar a Heero. –Ane explicou, suas pausas eram suficientes para não embolar as palavras. Depois, as lágrimas escorreram. Ela não achou que iria chorar, estava consternada, porém não pensava que era uma consternação tão grande.

_Eu sei. Está tudo bem, Ane. –Relena murmurou, distante, tentando evitar dar atenção demais aos sentimentos da cunhada para tentar esquecer seus próprios.

_Eu sei que as pessoas tem direito de cometer erros, mas sejamos sinceras, Heero já passou da conta. –Ane resmungou, secando o rosto e fungando. –Só que isso não é consolo para você. –e reclamou de si mesma.

_Eu não estou certa de já ter aceitado a realidade. –Relena julgou-se muito passiva diante do presente.

_Você precisa de algo? –Ane ofereceu.

Relena negou com a cabeça:

_Por enquanto, nem ver Heero eu quero. Não saberia como reagir.

_Ele precisa apanhar. Bem forte. Bem no meio do rosto.

Relena soltou um risinho:

_Boa ideia. –e tentava levar com bom humor. Talvez estivesse errada por agir assim, entretanto, preservava o resto de sua saúde mental.

Akane riu, suspirou, vacilou:

_Não estou mais conversando com ele. –e confessou. –Não consigo aceitar o que ele fez.

_Pare com isso, Ane. Eu não quero que aja assim. –Relena advertiu, beirando a severidade, indesejosa de despertar tal desavença. O sofrimento, se não terminava, não devia expandir-se.

Akane secou as duas novas lágrimas que rolaram contra sua vontade ao ouvir a cunhada, e ficou pensativa. Sabia que errava, seu senso de justiça era sensível e não podia perdoar nem ao irmão, nem a si mesma.

_Por enquanto, eu preciso curtir minha mágoa. Ele não me deve nada, mas me decepcionou fundo.

Relena caiu no travesseiro, deitada de costas. A solidariedade de Akane era espantosa.

Ela não sabia se finalmente contava a cunhada a verdade da natureza daquele casamento. Era desleal permitir Ane sofrer assim por um romance que nunca devia ter existido e cujo fim foi decidido muito antes de terminar?

_Ele te ama, Relena. Isso é o que mais irrita e confunde. –Akane deitou no espacinho de colchão que conseguira conquistar e conjecturou, tão simples e direta que não chocou Relena.

_Sim, pois é. –Relena teve coragem de confirmar e, em pensamento, completou que o amava também.

_Se eu estiver te chateando mais, me avise.

Só o teto era visível, branco e brilhante. A luz começava a ferir a vista e queimar a retina, por isso Relena fechou os olhos:

_Que tal me contar como foi a festa que perdi? –e rolaram lágrimas dos cantos de suas pálpebras.

Ane sorriu, patética. E obedeceu.

Uma moça distraiu a outra de quão impotentes se sentiam.

Já era hora do jantar e, antes de ir embora, Ane se levantou e disse o que queria ter dito desde que chegara:

_Eu estive pensando muito em como te dizer isso. É que não quero piorar tudo… mas espero que você me permita dizer mais uma vez que este caso ainda tem esperança. –foi em pura simplicidade que Ane testemunhou sua insistente fé. Ainda não estava contente com como soara suas palavras, queria ter sido mais neutra e, ao mesmo tempo, mais enfática, porém este equilíbrio era impossível de existir, ainda mais em Ane e ainda mais naquele assunto. Não existia um modo certo de dar sua opinião. Contudo, queria deixar claro que sabia que Relena tinha o poder e o querer suficientes para mudar a situação. Heero estava ofuscado por si mesmo, emaranhando em desvario, e só Relena podia quebrar aquele encanto. Era a última chance do rapaz, entretanto.


Boa noite/ Bom dia leitores!

Depois do que parecem eras, retorno!

Desculpa. Eu sei que assim nem tem graça ler fanfic. Confessor que as vezes nem tem graça escrever também. Porém, só posso agradecer meus leitores, os novos e os fiéis, e também agradeço quem teve paciência de esperar eu acabar para começar a ler para valer.

Agora falta pouco. Eu estou falando isso acho que já faz dois anos. Eu não estou com o histórico muito bom para fazer promessas.

Para este capítulo não ficar muito longo, acabei diminuindo ele e criando o capítulo 49. Isso quer dizer que é possibilíssimo eu postar em breve, porque o próximo capítulo está na metade!

É bom estar de férias. Estou escrevendo todo dia e me deslumbrei com o prospecto de terminar esta fic até o fim de Janeiro. Parece material de milagre. Seria ótimo se eu pudesse operá-lo. Não vou ficar só na conjectura e vou trabalhar para isso.

Eu tinha previsto 50 capítulos, mas talvez passe. Mais que 55 já acho improvável.

Eu estou contente com esse capítulo e com a história em geral, embora sempre passe por momentos amargos de não acreditar muito no que estou contando. Isso não faz bem para a narrativa nem pro ritmo do trabalho, então decidi que, acreditando ou não, eu vou levar a história até o fim como planejei, o que é muito melhor do que largar o projeto pela metade e ficar chorando no cantinho.

Espero que gostem e mantenham acesa a chama da curiosidade para o que segue. Fortes emoções (mais?)!

Desculpa eu não ter respondido nenhuma review do capítulo anterior. Estive concentrando todos meus esforços em escrever esse treco e acho que vou seguir assim. Irei responder, com certeza, mas não sei bem quando. Desculpa.

Então, aí está o capítulo 48! Espero que tenha gostado, nem que seja um pouquinho.

Amo vocês!

04.01.2015