Capítulo 53
Booth assistiu Temperance empurrar a comida pelo prato, finalmente jogando a refeição não consumida no lixo.
"Ainda sem fome?" ele perguntou, ansioso. Ela mal comia há dias.
Ela balançou a cabeça. "E se… e se fosse nosso filho, Booth?"
Ele vinha esperando este momento, sabendo que, por dentro, ela comparava a saúde de seu filho não-nascido com a de Russ e Amy. "Nem pense nisso, Bones!" ele a acalmou. "É uma tragédia lamentável."
"Era uma inevitabilidade estatística, Booth. A porcentagem de mortalidade infantil nos Estados Unidos é de aproximadamente 6.86 mortes a cada 1000 nascimentos. O número recai sobre um número substancial de mulheres afetadas…" Temperance engoliu o caroço que se formou em sua garganta. "…mães."
Booth puxou-a para perto, descansando a cabeça dela em seio peito. "Estou tão triste por Amy e Russ, Bones. E odiaria estar no lugar deles agora. Mas precisamos pensar no nosso filho. E você ficar sem comer não faz bem a ele."
"Não houve nada indicando um problema," ela protestou, afastando Booth, as imagens perturbadoras dominando seus pensamentos. "Como posso saber se nosso bebê está bem?"
"Só precisa confiar nos seus instintos, Bones. Eu sei que ele ficará bem."
"Como?" ela exigiu. "Como pode saber?"
Booth ficou surpreso pelo jeito abrupto dela. "Porque… porque eu tenho fé, Bones! Fé."
"Fé?" ela bufou seu desagrado. "Em que? No seu Deus?"
"Sim!" ele gritou, com raiva.
Temperance balançou a cabeça furiosamente. "Este mesmo Deus que levou a vida do meu sobrinho, antes mesmo de ela começar? Este mesmo Deus que permitiu que seu pai batesse em você quando criança? Este mesmo Deus …"
"JÁ ENTENDI!"
Booth pegou suas chaves e jaqueta, virando-se de repente e batendo a porta atrás de si.
Sua respiração ofegante de raiva deu lugar a soluços solitários, enquanto ela desabava no sofá.
Ele levou seu tempo para chegar aqui. Booth entrou na igreja em silêncio, sentando-se no quinto banco à direita. Havia algo humilhante sobre este lugar em particular. Ele sempre tomava cuidado para não sentar muito perto do altar, e chamar atenção desnecessária para si mesmo, mas consciente de que a parte de trás era para os hereges e descrentes. Booth se ajoelhou e abaixou a cabeça. "Deus todo poderoso e eterno," ele sussurrou. "Pelo poder do Espírito Santo, o Senhor preparou o corpo da Virgem Maria para ser a moradia digna de seu Filho divino. O Senhor santificou São João Batista, quando ainda estava no ventre de sua mãe. Ouça agora a minha prece." Booth apertou seus olhos, segurando as lágrimas. "Pela intercessão de São Geraldo, tome conta do meu filho e de sua mãe; proteja-os na hora do parto. Que meu filho receba a graça do Batismo, leve uma vida de Cristão, e, junto dos outros membros da nossa família, obtenha felicidade eterna nos céus. Amém."
Ela entrou na igreja e se ajoelhou ao lado dele, intercalando seus dedos. Ele não precisou olhar. O cheiro dela era todo cumprimento que ele precisava. Mas, mesmo assim, ele abriu seus olhos e viu a pele pálida e os olhos vermelhos. Seus pensamentos anteriores sobre hereges e descrentes se perderam, quando Booth acolhia a presença dela ao seu lado.
"Sinto muito," ela sussurrou. "As coisas que eu disse são imperdoáveis."
Booth levou a mão dela aos lábios e beijou carinhosamente. "Está de luto. É compreensível. Deveria ter apoiado mais."
"Não pode ser. Não posso estar de luto por alguém que não existiu de verdade."
"Seu luto é por Russ. E por Amy. Estar grávida permitiu a você ter esta … conexão com eles. Não rejeite isso."
"Russ ligou."
"Oh?" Booth apertou a mão dela, reconfortante.
"Querem que eu faça uma leitura, porque, aparentemente, sou 'boa com as palavras'. Não sei, Booth, o que devo dizer, o que querem que eu diga? Preciso da sua ajuda.''
"Só precisa falar com o coração, Bones."
"Meu coração não pode falar, mas as palavras que meu cérebro está dizendo não são de nenhum modo confortantes. Eles querem palavras de conforto, que digam que seu filho foi para um lugar melhor. Não posso ir lá e falar isso para eles."
"Não sabe disso, Bones. Não pode verificar 100% se o céu existe ou não."
"Nem você pode."
Booth suspirou. "Este não é o lugar para conversar, Bones. Vamos." Ele se levantou e esticou a mão para ela. "Vamos para casa."
Pareceu ser o dia mais longo.
Booth espiou o quarto em silêncio. Pelo menos, ela parecia calma enquanto dormia. Ele sabia que deveria estar lá quando ela acordasse, mas havia outro lugar que ele precisava estar hoje à noite. Com sorte, não levaria muito tempo, e ele voltaria antes de ela perceber.
"Rebecca?" Booth ficou horrorizado com a visão diante de si.
"Qual seu problema!" ela assobiou.
"Eu... Becs..." Seeley balançou a cabeça, descrente. "Olhe para você. Está horrível!"
"Oh." Seus olhos ficaram selvagens. "Olhe quem está falando." Rebecca olhou-o de cima a baixo com um sorriso. "Ela já sabe o que você fez?"
Andando erraticamente na direção de Booth, ela trouxe a garrafa à boca. "E, além disso," ela censurou, "estou na minha casa. Tive um dia realmente ruim. Posso fazer o que quiser."
"Não, Becs, não pode. Você tem responsabilidades com Parker. Nosso filho!"
"Sou bastante capaz de tomar conta do meu filho. Está dizendo que sou uma péssima mãe? Porque não estou legalmente obrigada a conceder acesso, sabe? Posso impedi-lo de vê-lo a qualquer momento. Quando eu quiser!"
"Oh, não precisa me lembrar disso. Estou bem ciente de quão cadela você pode ser."
"O que quer, de qualquer maneira?" ela disparou. "Parker está dormindo na casa de um amigo."
"Eu sei. Queria dizer que não poderei ficar com ele na sexta-feira," Booth explicou.
"É melhor que tenha uma ótima razão, Seeley. Já fiz planos."
Sua expressão se manteve sombria. "Temos um velório."
"Que original." Ela balançou a cabeça e andou para dentro, deixando Booth para fechar a porta. "Quem é desta vez? Algum policial que conheceu há algum tempo? Uma vítima de homicídio que sequer conhecia? Sabe, Seeley, você gasta todas as suas energias com completos estranhos e sua família sempre vem em segundo lugar. Estou muito feliz por não ter casado com você, porque teria sido o maior erro da minha vida."
Booth segurou sua frustração. "Na verdade, Becca, o sobrinho da Bones morreu. Com menos de um dia de vida. Então, não acho que Parker precisa estar perto desse tipo de coisa. Você acha?"
"Oh." Ela olhou para ele, tímida. "Sinto muito. Olhe… hum… ficarei com Parker este final de semana. Não se preocupe. E, por favor, transmita à Dra. Brennan minhas condolências."
"Obrigado." Booth virou-se, abriu a porta, então parou. "Becca? Esta não é você. Bebendo sozinha. Aconteceu alguma coisa?"
Ela balançou a cabeça, carrancuda.
"Quer conversar sobre isso?"
"Eu… fui demitida hoje."
"Onde você foi?"
As tentativas de Booth de deitar ao lado da parceira sem ser percebido foram inúteis. Era óbvio que ela estava acordada há algum tempo. "Rebecca precisava conversar comigo sobre ficar com Parker este final de semana. Parece que ela quer ficar com ele," ele mentiu. Em sua mente, ele estava protegendo Bones e Parker.
"Mas isso é injusto. Era o seu final de semana. Rebecca consegue ser bem egoísta."
"Está tudo bem, Bones. Poderemos compensar." Ele correu o dedo pela coxa dela. "E, falando em compensar…" um dedo virou uma palma, quando ele começou a massagear o traseiro dela.
"Eu quero dormir, Booth."
"Tem certeza?" ele perguntou, plantando beijos delicados no pescoço dela.
"Tenho," ela concluiu, afastando-o.
"E não posso mudar sua opinião?" ele sussurrou sugestivo, enquanto sua mão escorregava por entre as pernas dela, acariciando levemente.
"Só… se afaste!" ela latiu, chutando-o com força.
Booth assobiou de dor. Amanhã haveria uma bela contusão.
Temperance puxou os lençóis sobre seu corpo.
Booth deitou de barriga para cima e ficou olhando para o teto.
Havia poucos centímetros separando-os, mas, neste momento, parecia ser mais de uma milha.
TBC
