Título: Os Corações Da Questão

Autora: Lab Girl

Categoria: Bones, B&B, 5ª temporada, drama, romance

Advertências: Conteúdo adulto, com linguagem e situações muitas vezes inapropriadas para menores.

Classificação: NC-17

Capítulo: 51/?

Status: Em andamento

Resumo: Às vezes é preciso dois corações para se chegar ao âmago de uma questão.


Os Corações da Questão

por Lab Girl

Parte II: O Encontro dos Amantes


#51 Memórias de Ontem


O vento soprava frio, a brisa invernal tocando o rosto dos presentes ao pequeno serviço fúnebre de Joseph Booth.

Temperance admirava como as plantas balançavam ao sabor do vento, e até mesmo as poucas flores que adornavam o cemitério pareciam dançar ao som de uma música invisível.

Seus olhos voltaram-se para o homem ao seu lado. Vestindo um terno negro, Booth tinha as mãos cruzadas na frente do corpo, a cabeça erguida e os olhos perdidos no horizonte enquanto o padre recitava os versos de uma passagem da Bíblia.

"Mesmo quando eu andar por um vale de trevas e morte, não temerei perigo algum, pois Tu estás comigo..."

Ela olhou para o homem mais velho que estava de pé logo ao lado do seu parceiro. Hank Booth também trajava um terno escuro, porém, tinha a cabeça baixa enquanto escutava as palavras do padre. E havia permanecido assim desde o início da cerimônia.

Ela sabia que não havia sido nada fácil para Hank ter voltado ao hospital para saber que o filho havia falecido em sua breve ausência. Ele havia passado horas acordado ao lado da cama de Joseph. E apenas quando se ausentou, o inevitável aconteceu.

Havia um espaço ao lado de Hank. Destinado a Jared Booth, ela sabia. Porém, o parceiro não havia localizado o irmão a tempo. O caçula estava na Índia e, como ele e a noiva, Padmé, nunca ficavam por muito tempo no mesmo lugar, não era tarefa fácil alcançá-lo.

A cerimônia chegou ao fim e Hank depositou uma flor branca sobre o caixão coberto com a bandeira do país. Booth hesitou por alguns instantes, parado ali, como se estivesse em uma espécie de transe. Porém, quando Temperance pensou em aproximar-se dele, o parceiro finalmente repetiu o gesto do avô, jogando a rosa branca sobre o tampo de madeira.

O serviço fúnebre foi encerrado com o padre proferindo uma última bênção, e, em seguida, deixando o local. Temperance, Booth e Hank, porém, ainda permaneceram ali. Diante do silêncio que imperou, ela deu alguns passos para fechar a distância e tocou a mão de Booth, que a apertou de volta.

"Eu quero ficar uns minutos a sós com... ele" Booth murmurou, sem encará-la.

Temperance sabia que não era mais possível que ele ficasse a sós com o pai, porém, entendeu de imediato o sentido do que o parceiro queria dizer. Ela se recordou instantaneamente do que ele lhe dissera certa vez num cemitério, sobre sua mãe e sobre conectar-se com ela. Compreendendo essa necessidade de Booth, ela então se afastou alguns passos juntamente com Hank.

"Obrigado, Temperance" o avô de Booth falou assim que os dois pararam debaixo de uma árvore ali perto. O homem olhou para o rosto dela. "Obrigado por estar ao lado do meu neto neste momento."

"Eu sei que Booth faria o mesmo por mim" ela respondeu com sincera naturalidade.

Hank, então, olhou-a dentro dos olhos. "Você faz isso apenas por gratidão, então?"

Temperance olhou de volta nos olhos azuis do avô do parceiro e respondeu, com toda a sinceridade. "Não. Eu me importo com o Booth. E sinto um grande afeto por ele. Maior e diferente do que qualquer afeto que eu já tenha sentido antes por alguém."

Hank meneou a cabeça. "Isso que você sente chama-se amor."

"Eu jamais soube definir sentimentos, e, por muito tempo acreditei que amor fosse apenas fruto de reações químicas" então ela olhou para Booth, de pé diante da lápide do pai. "Mas, como eu disse uma vez a ele, acho que talvez eu tenha errado. Talvez o sentimento venha primeiro e a reação química depois. Eu não sei" ela afastou o cabelo do rosto quando uma brisa mais fria soprou. "O que eu sei é que, independente de definições, eu sinto algo forte pelo Booth. Tão forte que eu seria capaz de qualquer coisa por ele."

Ao voltar os olhos para Hank, Temperance viu uma sombra de sorriso no rosto cansado. "Que bom. Não sabe como fico feliz em ouvir isso agora."

Então, ele olhou o neto antes de voltar a fitá-la. "Eu tenho algo importante a lhe pedir."

"Eu me disponho a ajudar como puder."

"Lembra-se do que eu lhe disse um tempo atrás? Sobre o pai do Seeley?"

Temperance recordou-se da conversa que tiveram e meneou a cabeça.

"É chegado o momento do Seeley saber toda a verdade. E eu sei que não vai ser fácil. Por isto, estou feliz que você esteja aqui com ele."

Ela entendia. Hank havia lhe pedido justamente que estivesse ao lado de Booth quando chegasse o momento dele saber por que o pai o havia deixado.

"Não se preocupe, Hank. Eu estou aqui. E estarei ao lado dele enquanto eu puder, e enquanto ele precisar de mim."

Hank sorriu melancolicamente. "Que bom. Porque ele vai precisar de você sempre."

Para sempre era um tempo muito longo. Indeterminado. Porém, por mais inexato que fosse, ela sentia que queria isso. O para sempre. Com Booth.


~.~


Uns minutos de silêncio depois, quando Seeley afastou-se da lápide do pai, sentiu o avô se aproximar.

Seeley permaneceu quieto, calado, os olhos presos à lápide. 'Em verdes pastagens me faz repousar e me conduz a águas tranquilas' - Joseph Edwin Booth, Amado Filho, Saudoso Pai.

De repente, a voz do avô rompeu o som da brisa suave. "Jospeh foi um filho muito amado. Esperado. Como a maioria dos filhos. Você sabe como é ser pai... as expectativas, os sonhos. E mesmo que o nosso filho não corresponda a todos eles, ainda assim ele continua sendo amado."

Seeley sentiu a garganta constrita.

Hank olhou para o neto. "Seu pai foi um grande homem, Seeley. Infelizmente, ele se perdeu no caminho."

Ele lembrou-se imediatamente das últimas palavras do pai.

"Eu me perdi no meio do caminho, filho..."

Hank tornou a falar, o vento soprando em seus cabelos brancos. "Com grandes dons vêm grandes responsabilidades. Joseph foi um bravo soldado, exemplar. Mas não conseguiu suportar as pressões que vieram depois... e acabou se refugiando na bebida."

"Ele tinha uma esposa doente. E dois filhos para cuidar" Seeley não se conteve e deixou as palavras escaparem com amargura na voz.

"Ele foi fraco, Seeley. Muitos homens são."

"Mas ele nos abandonou. Depois que a minha mãe morreu, ele ficou ainda pior. Era um homem distante, que não queria saber nem dos filhos."

"Foi por isso que você não suportou. As constantes surras... a falta de afeto... eu sei" Hank desviou o olhar para o horizonte.

Seleey sabia que, assim como para si próprio, não era fácil para o avô recordar tudo aquilo. Fora logo naquela época em que ele... enfim, quase cedera ao desespero numa tentativa de tirar a própria vida. Se não fosse Hank, ele não estaria ali no momento.

"Eu não queria me tornar como o meu pai. Um homem amargo, que ignorava a existência dos próprios filhos. Isso quando não estava sendo violento com eles" Seeley abaixou a cabeça, suspirando.

"Eu sei que foi difícil para você, Seeley. Você acabou se tornando o pai do Jared. E o responsável por administrar a casa, já que o que Joseph ganhava, gastava quase tudo em bebida" Hank suspirou também. "Aquela noite... em que eu encontrei você... daquele jeito..."

Seeley ainda se lembrava da sensação. A angústia. O desespero. O sentimento de que não havia saída. De que nada nunca mudaria. Ele ainda conseguia sentir o gosto amargo dos remédios no fundo da garganta se fechasse bem os olhos... às vezes a lembrança podia ser vívida demais.

"Você chegou a tempo, Pops. E salvou a minha vida. Literal e metaforicamente."

"Naquela noite, Seeley..." Hank começou a falar com certa dificuldade. "Eu confrontei o seu pai. E depois disso ele foi embora."

Hank o encarou, os olhos vermelhos e marejados.

A garganta de Seeley queimou e ele lutou contra as lágrimas. "O senhor fez a coisa certa, Pops. Salvou a mim e ao Jared."

"Mas não pude salvar seu pai. Meu próprio filho."

"Ele não quis ser salvo. O senhor fez o que pôde."

"Sim, mas... será que o que eu pude fazer foi o bastante?"

A pergunta ficou no ar. E foi carregada pelo vento frio que soprava, arrepiando o rosto de Seeley e assanhando os cabelos brancos de Hank.

"Não se culpe por nada, Pops. O senhor foi o melhor pai do mundo para mim e para o Jared. E eu tenho certeza de que foi o melhor para Joseph também. Ele, infelizmente, não foi o melhor dos filhos."

Hank chorou, enxugando as lágrimas com as mãos. "Eu queria ter feito mais, insistido mais com o meu filho."

Seeley apertou gentilmente o ombro do avô. "Pops, não havia nada que pudesse ser feito. Acho que esse era o destino. Do meu pai. O meu. O nosso."

Hank olhou com melancolia para o neto. "Um destino muito triste."

"Há histórias mais bonitas que outras."

"Mesmo assim, eu me sinto responsável pelo destino do seu pai."

Seeley suspirou. Sentia o peso sobre os ombros do avô e, embora aquela revelação não o fizesse sentir melhor, não queria que o homem que o criara se sentisse tão culpado.

"O que passou, passou. Vamos deixar o passado descansar em paz. Assim como o meu pai."

Hank o olhou por alguns instantes, sem nada mais dizer. Seeley apertou o ombro do avô novamente, tentando confortá-lo com o gesto. Mas, não foi suficiente. Um abraço veio em seguida. Apertado. Demorado.

Depois que os dois homens se separaram, Hank disfarçou as novas lágrimas fungando. "Bem, eu não tenho mais nada a fazer aqui na Philadelphia. Joseph deixou apenas a casa da sua família e você pode cuidar de toda a burocracia envolvida."

Seeley pensou em protestar, mas sabia que não podia; Hank já havia feito demais por ele.

"Eu vou indo para a sua velha casa pegar as minhas malas. Já comprei uma passagem para as três da tarde."

"Já?" Seeley surpreendeu-se com a informação.

O avô meneou a cabeça. "Já. Temperance está aqui. Você não precisa mais de mim" Hank deu um sorriso que misturava melancolia e satisfação.

"Eu sempre vou precisar do senhor, Pops" Seeley murmurou.

O rosto do avô, então, iluminou-se com um sorriso. Dessa vez mais amplo e bem menos triste.

"Eu também amo você, Baixinho" Hank falou, batendo de leve nas costas de Seeley. "Vejo você em Washington."

Seeley meneou a cabeça e observou enquanto o avô se afastava. Ele o viu parar para falar com Brennan, despedindo-se dela também.

Quando o avô se foi, Brennan veio caminhando na direção de Seeley. Ele a observou andar até parar a sua frente e encará-lo, o rosto bonito levemente avermelhado pelo vento frio.

"Como você está?" ela perguntou suavemente.

Seeley reparou no modo como o vento acariciou os cabelos dela, jogando-os sobre o rosto alvo, e no modo como ela afastou os fios com os dedos.

Ele segurou as mãos dela e a trouxe para mais perto de si. "Eu vou ficar bem" respondeu, meneando a cabeça e realmente sentindo o que dizia.

"Você sempre fica" ela murmurou, chegando ainda mais perto dele.

Seeley inclinou-se e os rostos dos dois se aproximaram num roçar suave, acariciando-se por um momento. Ele fechou os olhos, inspirando o cheiro dela, deixando a presença dela aquecê-lo. E, então, ele encostou seus lábios nos dela... suavemente. De leve.

Brennan correspondeu ao carinho prolongando o momento.

Quando eles finalmente afastaram os lábios, Seeley abriu os olhos e a encarou. "Eu preciso ir a um lugar. Vem comigo?"

"Aonde você quiser" ela disse, apertando a mão dele.

E, com esse simples gesto, Seeley sentiu que era capaz de enfrentar tudo. O mundo, se fosse preciso.

Os dois foram deixando o cemitério de mãos dadas, caminhando lado a lado. E o momento o fez lembrar-se de um muito semelhante, ocorrido seis anos atrás. Na ocasião, eles também estavam deixando um cemitério, andando um ao lado do outro. As diferenças eram basicamente que, naquele então, eles não estavam de mãos dadas. E estavam apenas dando início ao que se tornaria uma sólida parceria de trabalho.

Porém, a grande diferença - ele olhou para ela e soube - era que agora eles eram parceiros de vida também.


...


Minhas queridas e fiéis leitoras *.*

Sinto-me realizada como escritora ao saber que consegui emocionar vocês com o capítulo passado. Seus comentários, de verdade, são o que me move, o que me faz querer seguir escrevendo e me empenhando para passar para vocês todas as emoções que sonho, sinto, imagino e tento repassar nos meus textos.

Muitíssimo obrigada por seguirem aqui comigo, prestigiando este trabalho. Valoro cada palavra de carinho, cada elogio, cada surto, cada cobrança... vocês são o máximo!