Capítulo 51

Na sala de espera da sala de cirurgia, Shippon tirou as luvas de látex e, jogou-as em um contêiner. Doíam-lhe as costas depois de passar horas inclinado sobre Sesshoumaru, costurando o intestino do guerreiro e curando a ferida de seu pescoço.

— Viverá? — perguntou Sarah quando saiu da sala de cirurgia. Estava fraca por todo o sangue que lhe tinha dado, pálida e nervosa.

— Logo saberemos. Isso espero.

— Eu também.

Quis afastar-se, negando-se a olhá-lo nos olhos.

— Sarah...

— Sei que sente. Mas não é para mim que deve oferecer seu arrependimento. Poderia começar com Rin. Se é que quer ouví-lo. Enquanto a porta se fechava com um murmúrio, Shippon se apoiou na parede, sentindo-se enjoado.

Oh, santo Deus, a dor no peito. A dor por ações que nunca poderiam desfazer-se.

Shippon deslizou lentamente até ficar sentado no chão, e tirou o gorro de cirurgia da cabeça.

Por sorte, o Rei Cego tinha a constituição de um verdadeiro guerreiro. Seu corpo era resistente, com uma extraordinária vontade. Embora não tivesse sobrevivido sem o sangue quase puro da Sarah.

Ou possivelmente sem a presença de sua shellan. Rin tinha permanecido a seu lado durante toda a operação. E apesar de que o guerreiro tinha estado inconsciente, sua cabeça sempre esteve dirigida para ela. Esteve falando durante horas, até quase ficar rouca.

E ainda se encontrava ali com ele, tão esgotada que quase não podia sentar-se ereta, mas tinha se negado a que deixar que verificassem suas feridas, e não quis comer.

Não queria separar-se de seu hellren.

Shippon se levantou e cambaleando, dirigiu-se até a pia do laboratório. Abriu a torneira de aço inoxidável e abaixou olhando fixamente a água correndo. Sentiu vontade de vomitar, mas seu estômago estava vazio.

Os irmãos estavam fora. Esperando que ele levasse notícias.

E sabiam o que ele tinha feito.

Antes que Shippon começasse a operar. Kouga o tinha pagado pela garganta. Se Sesshoumaru morresse na mesa de operações, o guerreiro tinha jurado que os irmãos o pendurariam pelos pés e o atingiriam com os punhos nus até sangrá-lo. Ali, em sua própria casa.

Não havia dúvida de que Renkotsu tinha contado tudo. Deus, se pudesse retornar a esse beco — pensou Shippon

— Se nunca tivesse ido ali.

Nunca devia aproximar-se de um membro da Irmandade com uma petição tão indigna, nem sequer do que não tinha alma. Depois de fazer a proposta ao Renkotsu, o irmão o tinha olhado fixamente com seus terríveis olhos negros, e Shippon se deu conta imediatamente de que tinha cometido um engano. Renkotsu podia estar cheio de ódio, mas não era um traidor, e o ofendeu que tivesse pedido para que matasse a seu rei.

— Mataria grátis — tinha grunhido Renkotsu

— Mas só se fosse você. Afaste-se de minha vista, antes que saque minha faca. Nervoso, Shippon tinha se afastado dali a toda pressa, para perceber que estava sendo seguido pelo que supôs que devia ser um lesser. Era a primeira vez que se encontrava perto de um morto vivo, e se surpreendeu que os membros da Sociedade tivessem a pele e o cabelo tão claros. Mesmo assim, aquele homem representava a maldade em estado puro e estava preparado para matar. Preso em um canto do beco, enlouquecido pelo medo, Shippon tinha começado a falar, não só para obter seu objetivo mas também também para evitar ser assassinado. O lesser se mostrou cético ao princípio, mas Shippon sempre tinha sido persuasivo, e a palavra rei, usada deliberadamente, tinha atraído sua atenção. Trocaram alguma informação. Quando o lesser partiu, a sorte estava lançada.

Shippon respirou profundamente, preparando-se para sair ao vestíbulo.

Ao menos podia assegurar aos irmãos que tinha realizado seu melhor esforço com a cirurgia, e não tinha sido para salvar sua vida. Sabia que ele não tinha escapatória. Seria executado pelo que tinha feito. Era só questão de tempo.

No sala de cirurgia, tinha realizado o melhor trabalho possível, porque era a única maneira de compensar a atrocidade que tinha cometido. E além disso, os cinco machos armados até os dentes e o rebelde humano que esperavam fora pareciam ter o coração destroçado.

Mas o que mais o tinha comovido e impulsionado a lutar com todas suas forças pela vida de Sesshoumaru foi a ardente dor que tinha visto refletida nos olhos de Rin. Ele conhecia bem essa expressão horrorizada de impotência. Tinha sofrido em sua própria carne enquanto via morrer a sua shellan.

Shippon lavou o rosto e saiu ao vestíbulo. Os irmãos e o humano ergueram a vista para ele.

— Sobreviveu à operação. Agora temos que esperar para ver se é capaz de recuperar-se. — Shippon se dirigiu ao Kouga:

— Quer me eliminar agora?

O guerreiro o olhou com olhos duros e violentos.

— Manteremos você vivo para que cuide dele. Logo ele mesmo poderá matá-lo.

Shippon assentiu. Escutou um frágil grito. Deu a volta para ver a Sarah apertando a boca com uma mão.

Estava a ponto de aproximar-se quando o macho humano parou frente a ela. O homem vacilou antes de tirar um lenço. Ela tomou o que ele ofereceu e logo se afastou de todos os presentes.

Rin apoiou a cabeça na ponta mais afastada do travesseiro de Sesshoumaru. Tinham-no levado da mesa de operações para uma cama, embora, de momento, não o levariam para um quarto normal. Shippon tinha decidido mantê-lo no sala de cirurgia em observação caso precisasse ser operado de novo por alguma emergência.

O edifício de paredes brancas era frio, mas alguém lhe tinha colocado em cima uma pesada manta de lã. Não podia recordar quem tinha sido tão amável.

Quando escutou um estalo, voltou-se para olhar ao monte de máquinas às quais Sesshoumaru estava conectado. Olhou-as uma a uma sem ter muita ideia do que aparecia refletido nelas. Enquanto não se ativasse nenhum alarme, tinha que pensar que tudo estava bem.

Voltou a escutar aquele som.

Baixou a vista para o Sesshoumaru. E ficou em pé de um salto.

Estava tentando falar, mas tinha a boca seca e língua espessa.

— Psiu. — Apertou-lhe a mão. Colocou o rosto ante seus olhos para que pudesse vê-la se os abrisse

— Estou aqui.

Seus dedos se moveram ligeiramente entre os dela. E logo perdeu o conhecimento de novo.

Deus, tinha muito mau aspecto. Pálido como os ladrilhos do chão da sala de cirurgia, e os olhos afundados no crânio.

Tinha uma grossa bandagem na garganta. O ventre envolto em gazes e, compressas de algodão, com drenagens saindo da ferida. Em um de seus braços tinham conectado um soro que ministrava a medicação, E um cateter pendurava de um lado da cama. Também tinham enganchado um monte de cabos de um eletrocardiograma no peito, e, um sensor de oxigênio no dedo do meio.

Mas estava vivo, ao menos de momento.

E tinha recuperado a consciencia, embora fosse só por um instante.

Assim passou os dois dias seguintes. A intervalos regulares, despertava e voltava a ficar inconsciente, como se quisesse comprovar que ela estava com ele antes de voltar para hercúleo trabalho de recuperar-se.

Finalmente, convenceram-na para que dormisse um pouco. Os irmãos lhe levaram uma poltrona mais cômoda, um travesseiro e um lençol. Despertou uma hora depois, agarrada à mão de Sesshoumaru.

Comia quando a obrigavam, porque Kouga ou Ayame lhe exigiam fazê-lo. Persuadiram-na para que tomasse uma ducha rápida na sala de espera, e quando retornou Sesshoumaru estava convulsionando enquanto Ayame tinha mandado procurar o Shippon. Mas no instante em que Rin agarrou a mão de Sesshoumaru, ele se acalmou imediatamente.

Não sabia o tempo que poderia continuar assim. Mas cada vez que ele reagia ante seu toque, tirava forças da fraqueza. Podia esperar durante toda a eternidade.

A mente de Sesshoumaru recuperava a consciência de forma intermitente. Durante um minuto não se dava conta de nada; mas no seguinte, seus circuitos começavam a funcionar de novo. Não sabia onde estava, e lhe pesavam muito as pálpebras para poder abri-las, assim, quando estava consciente fazia uma rápida exploração de seu corpo. Na metade inferior se sentia bem, os dedos dos pés se moviam e notava as pernas. Mas seu estômago parecia como se o tivessem golpeado com um martelo. Entretanto, o peito estava forte. O pescoço lhe ardia, a cabeça lhe doía. Os braços pareciam intactos, as mãos...

Rin.

Estava acostumado a sentir a palma de sua mão. Onde estava?

Suas pálpebras se abriram.

Ela estava junto dele, sentada em uma cadeira, com a cabeça sobre a cama como se estivesse adormecida. Seu primeiro pensamento foi que não devia despertá-la. Era evidente que estava esgotada. Mas queria tocá-la. Precisava tocá-la.

Tentou esticar a mão livre, mas sentiu como se o braço pesasse cem quilos. Lutou obrigando a sua mão a deslizar-se sobre o lençol centímetro a centímetro. Não soube quanto tempo demorou. Talvez, horas.

Mas, por fim, chegou a sua cabeça e pôde roçar uma mecha de cabelo. Aquele tato sedoso lhe pareceu um milagre.

Estava vivo, E ela também. Sesshoumaru começou a chorar.

No instante em que Rin sentiu que a cama tremia, despertou cheia de pânico. A primeira coisa que viu foi a mão de Sesshoumaru. Seus dedos estavam enredados em uma longa mecha de seu cabelo.

Levantou a vista para seus olhos. Grossas lágrimas deslizavam por suas bochechas.

— Sesshoumaru! Oh, meu amor. — endireitou-se, alisou-lhe o cabelo para trás. Seu rosto refletia uma angústia total

— Está doendo algo?

Ele abriu a boca, mas não pôde articular palavra. Começou a sentir pânico, abriu os olhos desmesuradamente.

— Tranquilo, amor, tenha calma. Relaxe — disse ela

— Quero que aperte minha mão, uma vez se a resposta é sim, duas vezes se for não. Sente dor?

Não.

Suavemente ela enxugou as lágrimas de suas bochechas.

— Está seguro?

Sim.

— Quer que Shippon venha?

Não.

— Necessita algo?

Sim.

— Comida? Bebida? Sangue?

Não.

Ele começou a agitar-se, seus olhos claros e enlouquecidos imploravam.

— Psiu. Todo vai bem. — Beijou-o na fronte

— Acalme-se. Já daremos o que necessita. Temos tempo suficiente. Os olhos do vampiro se fixaram em suas mãos entrelaçadas. Logo seu olhar se dirigiu ao rosto dela.

— A mim? — sussurrou ela. — Necessita-me ?O apertão não parou.

— Oh, Sesshoumaru... Já me tem. Estamos juntos, meu amor.

As lágrimas caíam como uma corrente enfurecida, o peito tremia devido aos soluços, a respiração era entrecortada e rouca.

Ela segurou seu rosto entre as mãos, tratando de sossegá-lo.

— Tudo vai bem. Não vou a parte alguma. Não o deixarei. Prometo-lhe isso. Meu amor...

Finalmente as lágrimas diminuíram, e recuperou um pouco a calma.

Um grasnido saiu de sua boca.

— O que? — Rin se inclinou.

— Queria... salvar você.

— Você o fez. Sesshoumaru, salvou-me. Os lábios do Sesshoumaru tremeram.

— Eu amo você

Ela o beijou suavemente na boca.

— Eu também amo você.

— Você. Volte a ... dormir. Agora.

E logo fechou os olhos por causa do esforço.

A visão dela nublou quando ele colocou sua mão na boca e começou a sorrir. Seu formoso guerreiro estava de volta. E tentava dar ordens de sua cama de doente.

Sesshoumarususpirou, afundando-se no sonho.

Quando esteve segura de que descansava placidamente, esticou-se, pensando que os irmãos gostariam de saber que tinha despertado e estava suficientemente bem para falar um pouco. Talvez pudesse encontrar um telefone para chamar em casa.

Quando apareceu no vestíbulo, não pôde acreditar no que viu. Frente à porta do sala de cirurgia, formando uma grande barreira, os irmãos e Kohako estavam estendidos no chão. Os homens estavam profundamente adormecidos, e pareciam tão exaustos como ela. Mirok e Kohako estavam apertados contra a parede muito perto um do outro, só havia um pequeno monitor de TV e duas pistolas entre eles. Inuyasha estava deitado de barriga para cima, roncando suavemente, com a adaga na mão. Kouga apoiava a cabeça entre seus joelhos e Bankotsu jazia a seu lado, segurando uma estrela de arremesso contra seu peito, como se isso o tranquilizasse.

— Onde está Renkotsu?

— Aqui – disse ele suavemente.

Ela deu um salto e olhou a sua direita. Renkotsu estava completamente armado, pistola embainhada no quadril, adagas cruzada, sobre o peito, uma parte de corrente balançando-se em sua mão. Seus resplandecentes olhos negros a olhavam tranquilamente.

— É meu turno de guarda. Estivemos nos alternando.

— Também há perigo aqui?

Ele franziu o cenho.

— Não sabe?

Ele deu de ombros e olhou a ambos os corredores do vestíbulo, vigilante.

— A Irmandade protege os nossos. — Seus olhos voltaram a concentrar-se nela

— Nunca deixaríamos nem a você nem a ele desprotegidos.

Ela sentiu que ele a evitava, mas não ia pressioná-lo. Só o que importava era que ela e Sesshoumaru estavam protegidos enquanto seu marido se recuperava de suas feridas.

— Obrigado — sussurrou.

Renkotsu baixou a vista imediatamente.

Esconde-se de qualquer manifestação de afeto, pensou ela.

— Que horas são? — perguntou.

— Quatro da tarde. Por certo, é quinta-feira. — Renkotsu passou uma mão sobre o crânio rapado

— Como..., eh..., como vai?

— Já despertou.

— Sabia que ia viver.

— Como sabia?

Seu lábio se levantou como um grunhido, como se fosse fazer alguma piada. Mas logo pareceu conter-se. Olhou-a fixamente, seu rosto coberto de cicatrizes parecia ausente.

— Sim, Rin. Sabia. Não existe nenhuma arma que possa separa-lo de você.

Imediatamente, Renkotsu desviou o olhar para outro lado. Os outros começaram a mexer-se. Um momento depois, todos estavam de pé, olhando-a. Kouga parecia encontrar-se tão a gosto entre os vampiros.

— Como vai? — perguntou Kouga.

— O bastante bem para tratar de me dar ordens. Os irmãos riram e um murmúrio de alívio e de orgulho percorreu aquele grupo de rudes homens.

— Necessitam algo? — perguntou Kouga.

Rin olhou seus rostos. Todos estavam ansiosos, como se esperassem que ela lhes desse algo que fazer.

Esta realmente é minha família, pensou.

— Acredito que estamos bem. — Rin sorriu

— E estou segura de que logo vai querer ver todos.

— E você? — perguntou Kouga — Como se sente? Quer descansar um pouco?

Ela negou com a cabeça, e abriu a porta da sala de cirurgia de um empurrão.

— Até que possa sair daqui por seu próprio pé, não me afastarei do lado de sua cama.

Quando a porta se fechou atrás de Rin, Kohako escutou Mirok assobiar baixo.

— É uma fêmea magnífica, verdade? — disse M. Houve um rouco murmúrio afirmativo.

— E alguém a quem você não gostaria de enfrentar — continuou o irmão

— Tinham que tê-la visto quando entramos no celeiro. Estava junto ao corpo dele, disposta a matar ao detetive e a mim com suas mãos nuas se fosse preciso. Como se Sesshoumaru fosse sua cria, entendem-me?

— Pergunto-me se tem uma irmã — disse Inuyasha. Bankotsu deixou escapar uma gargalhada.

— Não saberia o que fazer com você mesmo se tropeçasse com uma fêmea de semelhante calibre.

— Olhe quem fala, o senhor Celibato. — Mas então Hollywood esfregou o queixo, como se estivesse pensando nas leis do universo. — Ah, diabos, Bankotsu, possivelmente tenha razão. Mesmo assim, um macho tem direito de sonhar.

— Claro que tem — murmurou M.

Kohako pensou na Sarah. Continuava esperando que descesse, mas não a tinha visto após a manhã seguinte à operação. Tinha estado muito pensativa, muito distraída, embora tivesse motivos para estar preocupada. A morte de seu irmão se aproximava. Mais breve inclusive do que pensava, tendo em conta a rápida recuperação de Sesshoumaru.

Kohako queria estar com ela, mas não estava seguro de se aceitaria sua companhia. Não a conhecia o suficientemente bem para atrever-se a tentá-lo. Tinham passado juntos muito pouco tempo.

O que significava para ela? Era uma simples curiosidade? Um pouco de sangue fresco que ela queria saborear? Ou algo mais? Kohako olhou ao outro lado do corredor, desejando que aparecesse do nada.

Deus, morria por vê-la. Embora só fosse para saber que estava bem.