26 de novembro de 2013 – Tracy

(Santana)

Às vezes me perguntava se Rachel realmente ia às aulas na NYU. Tirando um livro ou outro que a via ler, para mim ela não estudava. Pelo menos julgava que fazer curso de artes cênicas tinha alguma coisa tinha teoria, coisas como história do teatro, algo some paradigmas, semiótica, estudo do mito. Essas coisas que povoam os cursos de humanas. As únicas coisas que a vi fazendo foram dois ensaios sobre as adaptações para teatro da obra de Jane Austen e sobre cultura pop. Ela pediu para que eu formatasse e colocasse no padrão acadêmico. Estavam muito bem escritos, devo admitir. Muitos dos professores começaram a passar os trabalhos finais de semestre em meados de novembro, além de provas. Foi uma época que eu enfiei o nariz nos livros e no computador. Ficava até o final da tarde na biblioteca, ia para casa, comia alguma coisa e estudava mais até o início da madrugada. Quinn me acompanhou algumas noites fazendo os próprios trabalhos.

Para ajudar a enfrentar as madrugadas de cara no livro, Mike preparava lanches e os deixavam prontos na geladeira. A gente pouco se encontrava naquela segunda metade de novembro. A peça de Mike ia rodar pela costa leste e ele estava fazendo muitos eventos promocionais para a peça e também para a pizzaria que ele era garoto propaganda. Pela manhã, quando ficava em casa, eu, Quinn e Rachel (acho) estávamos na faculdade. Eu continuava na faculdade pela tarde e as meninas trabalhavam. De noite, sempre a partir de quinta-feira, ele tinha a peça.

Rachel fazia chás. Ela passava uns 10 minutos no mercado escolhendo os sabores e que levaria na semana. Tinham alguns muito bons. Gostava de um de pêssego que ela raramente comprava. E quando fazia essa caridade, resmungava. Não é que ela não gostasse. O problema era que eu gostava daquele sabor do chá e muitas vezes Rachel estava brigada comigo. Então ela não comprava só para implicar. O detalhe é que minha irmã sempre fazia chazinho para Quinn nas madrugadas... eu só recebia o que sobrava. Não adiantava nem protestar porque as minhas reclamações passavam direto pelos ouvidos dela.

Só descansei um pouco dessa loucura de fim de semestre quando deixei a maioria dos trabalhos pronto antes do feriado de ação de graças. Quinn, Rachel e eu fomos para Lima. Quando chegamos à cidade ainda na terça-feira, tivemos de lidar com algumas novidades e uma agenda cheia. Papi começou a namorar Tracy, uma massagista (!), e comprou um cachorro: uma filhote de labrador de cor chocolate chamada Sherry. Simplesmente linda. A cachorra animal, embora a cachorra humana não fosse de se jogar fora.

"Papi? Sherry? Sério?" – ele fez cara de inocente.

"No sé lo que quieres decir!" – abraçou-se com Tracy.

"No te parece que Sherry se asemeja a Shelby?"

"Creo que lo nombre es perfecto!" – Rachel disse enquanto brincava com a filhote.

Quinn entendeu do que estávamos falando. Ela não conseguia falar bem o espanhol, mas na convivência comigo e Rachel, ela começou a entender melhor o idioma. Pelo jeito, parecia que também não aprovava, mas não cabia a ela opinar sem ser chamada. Então ficou na dela.

"Do que vocês estão falando? Da cadela?" – Tracy sorriu como se estivesse confusa. Por alguma razão, eu não conseguia engolir aquela inocência.

"Não é da sua conta!"

"Santana!" – papi gritou comigo – "Peça desculpas!"

"Nem sonhando!" – saí de perto deles.

Tracy era uma aproveitadora, sentia o cheiro dessa gente de longe. A história de vida dela era clichê demais para não pensar o contrário. Uma mocinha de 23 anos que veio de carona de algum lugar remoto de Kentucky e era recém-chegada na cidade sem muito dinheiro no bolso e vivendo de aluguel num quartinho. Ela trabalhava no único spa de Lima, onde conheceu o papi, e depois largou o emprego para "tentar algo melhor". Conversa fiada. A história era típica da cinderela que encontrava o chefe do hospital – um homem bem-sucedido e absurdamente carente por causa de uma dor de cotovelo –, vivendo sozinho num casarão com um filhote de cachorro. Agora vem dizer que é amor? É pilantragem! Tracy seduziu um homem fragilizado com sexo do bom. Eu ia lutar para dar um fim nessa história antes que fosse tarde demais.

...

27 de novembro de 2013

(Quinn)

Não podia negar que esse era um feriado de Ação de Graças diferente. A nova namorada do meu sogro mudou a dinâmica das coisas. Rachel tentou aparentar calma e até mostrou aceitação, mas dormiu resmungando, chamando o pai de louco. Nem quis saber de mim. Por mais que quisesse, eu não palpitaria. Não depois dos inúmeros cortes que a minha namorada fez em relação às minhas opiniões sobre a família dela: que não deveria me intrometer nos assuntos. Pois bem, que assim seja. Decidi só falar se fosse solicitada e com ela apenas resmungou, não dei minha opinião sobre Tracy, o surto de Juan ou o fato que achava a briga com a mãe dela infantil e idiota. Ter um relacionamento dom Rachel era como aceitar no pacote todos os Berry-Lopez e seus respectivos problemas. Era um peso bem maior do que aquele que a minha família exercia em nossa relação.

Acho que Rachel mal escutou quando disse que Frannie estava na cidade e que teríamos um almoço com ela e minha mãe. Procurei relevar o evidente desinteresse dela pelos Fabray. Era ruim saber que a minha namorada pouco se importava se a minha mãe era uma costureira meio alcoólatra, ou se meu pai estava prestes a casar novamente numa cerimônia que sequer fui convidada. Ela estava tão absorvida nos problemas da família dela que não havia espaço para os meus.

Mesmo assim eu daria a minha opinião secreta. Tracy é claramente uma vigarista, Juan é um homem emocionalmente frágil no que diz respeito a relações românticas, Shelby é outra insegura com casca d durona (muito parecida com Santana), que precisa de empurrões extremos para encarar certas situações – mas ela era uma boa mãe para a minha Beth, não podia negar. Santana estava no limite entre a pressão dos estudos e a vida livre da faculdade, e Rachel estava insuportável com a estreia da nova peça. Todo namoro tinha seus altos e baixos e a nossa vida estava muito atribulada em Nova York.

Havia momentos que queria gritar na cara de todo mundo e mandar Rachel deixar de ser tão egocêntrica com os problemas dela. Mas então eu a via dormir ao meu lado, tão bonita e em paz, que meu coração pulsava forte e me considerava a mulher mais sortuda por tê-la ao meu lado. Afastei os cachos do rosto dela e a beijei. Rachel começou a acordar com jeito meio grogue. Abriu um olho, piscou, enrolou, e depois despertou. E sempre que o fazia, era de uma vez.

"Bom dia" – a beijei mais uma vez.

"Oi!" – olhou para os lados e procurou o relógio no criado mudo ao lado da cama – "São quase nove?" – franziu a testa e sentou-se na cama – "Está tarde! Por que não me acordou antes?"

"Porque também acordei tarde."

"Oh" – afastou os cobertores das pernas e levantou-se. Eu ainda me permiti um pouco de preguiça – "A casa está quieta..." – admirou-se.

"Talvez o mundo tenha sucumbido aos zumbis e só a gente escapou."

"Você anda assistindo Walking Dead demais junto com Mike" – pegou o roupão e saiu do quarto.

Ainda permaneci na cama. Estava com preguiça de encarar todos os Berry-Lopez e Tracy. Talvez estivesse com preguiça também de me encontrar com Frannie e Minha mãe. Era a segunda vez que a minha irmã voltava a Lima desde o dia que foi morar no Texas para fazer faculdade. Ela fez a undergraduation em Negócios e conseguiu ingressar na faculdade de Direito, que era o objetivo. Minha irmã era uma grande bitch, mas também era inteligente e esperta. Meu pai deveria estar babando de orgulho.

"Hoje temos de almoçar com sua mãe!" – Rachel entrou no quarto com jeito que tinha se esquecido do compromisso.

"Por que do espanto?"

"Santana vai pegar o carro para almoçar com Shelby" – falou com desgosto.

"Sua casa não é tão distante assim da minha. A gente pode ir à pé ou de bicicleta. Ou pedir para Santana nos deixar por lá antes de descer para Troy. Tenho certeza que a minha mãe ou Frannie nos deixará em casa depois."

Resolvido o drama e, com isso, eliminei as desculpas de transporte de Rachel para não ir ao almoço. Eu também tinha família, eu também estava com saudade da minha mãe e eu também tinha direito de estar acompanhada da minha namorada. Antes que ela procurasse outro impasse, levantei da cama e troquei de roupa.

Bastou uma pergunta simples para Santana acenar e nos deixar em frente à casa da minha mãe antes de pegar a estrada rumo à Troy. Algo me dizia que ela tinha um plano para se livrar da nova madrasta. Rachel estava nervosa e armada. Não podia culpá-la por na última vez em que esteve ali foi num desastroso jantar. Mas um ano havia se passado e minha mãe já estava mais conformada não apenas por eu ser gay, mas ainda por ter um relacionamento duradouro com Rachel. As coisas seriam melhores desta vez. Segurei na mão da minha namorada e sorri confiante antes de bater a campainha.

Frannie atendeu. Não vi a minha irmã há anos. Minha irmã estava com ar cansado, um pouco magra, mas ainda bonita e elegante.

"Se não é a ovelha negra da família?"

"Essa não é a melhor ovelha?" – ressaltei antes de abraçá-la – "Estava com saudades, Frann."

"Eu também, Quinnie."

Minha mãe apareceu na porta e eu me libertei da minha irmã para também abraçá-la. Rachel estava logo atrás, desconfiada e um pouco encolhida. Rachel se intimidava fora de ambientes que lhe eram estranhos e que ela não tinha um roteiro a seguir. Ali ela era apenas a minha namorada adentrando no lar das "víboras" Fabray, como Santana dizia pelas minhas costas. Mas tratei de aproximá-la de mim, peguei na mão dela e sentamos no sofá da sala.

"Foi um susto quando mamãe disse que você adotou o estilo de vida Berry-Lopez."

"E que estilo seria esse?" – Rachel combateu de imediato. Apertei a mão dela para não entrar no jogo. Claro que sabia que Frannie provocaria.

"O estilo colorido" – Frannie não se fez de rogada e disse simplesmente – "A notícia foi mais chocante do que quando soube que ficou grávida de Finn Hudson."

"Não foi de Finn Hudson" – abri um sorriso – "Mamãe, não disse? O pai era Noah Puckerman" – Frannie não sabia. Isso estava claro na expressão dela. A comunicação entre nós estava mesmo uma droga. Mas ela viu que tivemos algo em comum: ambas fomos experimentadas por Puck.

"Pelo menos esse capítulo já foi" – tentou desviar o assunto.

"O capítulo Puck passou há muitos anos" – pensei em mencionar Beth, mas não tinha certeza se realmente valia a pena colocar a minha filha no meio da discussão.

"Como estão as coisas em Nova York?" – mamãe perguntou casualmente.

"Bem. A universidade parece diversão frente ao trabalho que fazemos" – sorri.

"Cinema é entretenimento, correto?" – Frannie provocou.

"Mas o trabalho que se tem em fazer um filme passa longe disso."

O assunto morreu. Logo nós três nos integramos para arrumar a mesa e servir o almoço. Rachel ficou de lado da interação Fabray, o que considerei mais seguro, porque vez ou outra, Frannie e mamãe soltavam alguns torpedos para cima dela. Eram comentários que, infelizmente não tinha como controlar. Rachel também estava pouco à vontade. O jeito como ela olhava compulsivamente para o relógio era um sinal explícito do desejo dela em dar o fora da minha casa. A hora do almoço foi tensa para mim. Rachel estava monossilábica e minha mãe mal olhava para ela. Não sabia dizer até que ponto isso era um sucesso. Então Frannie, segurando uma taça de vinho de modo dissimulado disparou:

"Diga-me, Rachel... é verdade que o teatro é um antro de desajustados, porra-loucas e libertinos? Deve ser uma farra fazer parte deste mundo, não?" – provocou e eu baixei a cabeça. Rachel ia estourar.

"Embora esteja ciente desta crença popular, devo elucidar que tais estigmas são falsos. O teatro é uma arte que exige extrema disciplina e preparação física e mental. É preciso treinar as emoções para que você possa fazer uma performance correta e orgânica. Existem exercícios exaustivos de movimentação no palco e, no meu caso que sou atriz de musicais, ainda preciso passar por uma rígida dieta e me privar de certas coisas para preservar as minha habilidades vocais" – Frannie despertou a eloqüência de Rachel. Gelei.

"Sim... aposto que você usa muito a minha irmã para seus exercícios físicos e vocais" – olhei mortificada para Frannie. Insinuar a minha vida sexual era golpe baixo.

"Certamente Quinn tem grande parte na manutenção da minha forma física, embora estar com ela possa prejudicar na parte vocal por me fazer gritar com toda a força dos meus pulmões, ocasionando certa rouquidão após nossos exercícios. Ainda assim, eu jamais dispensaria tais momentos com a sua irmã" – se o jantar fosse representado por um desenho animado, ele mostraria esse momento como se Rachel tivesse dado um tapa no rosto de Frannie. Minha mãe engasgou – "Você ficaria surpresa com o que dois dedos podem fazer ao seu corpo" – levei a mão ao rosto e me preparei para o estouro.

"Você poderia ter a decência de deixar essa conversa suja fora da minha mesa?" – Mamãe surtou.

"Com todo respeito senhora Fabray, eu não vim aqui para brigar. Eu sou capaz de relevar muita coisa, mas não tenho sangue de barata."

"Mesmo?" – Frannie encarou Rachel com mais cinismo – "Um dos seus pais não é hispânico?"

Rachel levantou-se da mesa para tentar esgoelar a minha irmã, mas eu a segurei antes que tivesse chance.

"Retire o que disse sua caipira deslumbrada!"

"Frann, por favor!" – implorei ainda segurando Rachel firme nos meus braços.

"Peço desculpas!" – Frannie disse com dissimulação – "Parece que a sua namoradinha não agüenta uma piada que seja..."

"Não se faz piada com essas coisas, ok?" – adverti.

"Usted debe arder en el infierno, perra."

"Rachel!" – gritei.

"O quê?" – olhou indignada para mim – "Não disse nada demais!"

"Chega" – mamãe gritou. Estava ofegante. Todos nós. Ela passou a mão na testa e agiu como alguém que precisa desesperadamente manter a perspectiva – "E sem mais conversas sobre sexo na minha mesa."

Ficamos em silêncio. Libertei Rachel o meu abraço forçado e ela voltou a se sentar de novo. Frannie, dissimulada, parecia querer rir, mas eu estava achando a menor graça. Rachel mal conseguiu tocar na comida após a discussão mais quente. Não podia culpá-la: eu também perdi a fome.

...

(Santana)

Tudo bem que Shelby pisou feio na bola quando recusou o pedido de casamento de papi. Mas pior do que isso foi o rompimento dos dois. Não foi certo. Deveriam continuar juntos, mesmo não sendo casados, vivendo como dois namorados que criavam uma pequena. Simples. Infelizmente não foi assim. Pedido negado: relação rompida. Parece que a vida amorosa da gente nunca deixa de ficar complicada com o passar dos anos. Não foi só papi que ficou miserável a ponto de deixar se envolver por uma golpista: Shelby também estava mal. Minha mãe me recebeu de braços abertos, me encheu de beijos e carinhos. Era uma atitude estranha para a velha e bitch Shelby. Então logo entendi que a velha também estava sofrendo e muito.

"Por que Rachel não veio?" – perguntou querendo parecer casual enquando ajudava Beth com a comida.

"Almoço na casa da sogra. Com sorte, ela mata uma Fabray desta vez. Melhor ainda: ela termina com Quinn."

"Não deveria torcer contra o namoro da sua irmã."

"É que eu não posso evitar."

"Desgosta tanto assim de Quinn?"

"Eu tenho medo dela. Sempre tive um pouco, desde o tempo de McKinley. É como se ela escondesse um lado negro e tenho receio do que possa acontecer quando isso vier à tona."

"Como assim?"

"Sabe como é, mãe. Eu vou completar 19 anos mês que vem e posso dizer nessa minha saída da adolescência que sempre fiz coisas típicas da minha idade. Quinn é responsável demais, controlada demais. E ela tem momentos de estouro que fazem eu ficar preocupada com minha irmã. Quer dizer, eu sei que ela ama Rachel de verdade, mas há algo nela que me incomoda."

"Não vejo por aí. Não é que queira defendê-la, mas Quinn passou por maus bocados, San: ficou grávida aos 16, foi expulsa de casa, depois voltou a um núcleo familiar fragmentado. Ela me parece ser muito sã perto do que sofreu. Não acha que está sendo muito protetora com Rachel tentando procurar chifre em cabeça de cavalo?"

"Talvez" – silenciei e me concentrei no meu prato.

Reparei bem na minha mãe. Ela estava com aspecto cansado, triste. Pensava que se não fosse tão ocupada, talvez até deixasse se envolver por um desses garotões tipo Puck. Talvez só não o fez porque não encontrou algum, assim como papi achou Tracy. Era evidente que ela não estava feliz longe dele e vice-versa.

"Papi disse que não teria problema caso quisesse passar a ceia de ação de graças lá em casa" – ele realmente disse isso quando joguei a possibilidade.

"Não creio que Juan irá gostar de me ver agora que arrumou um brinquedo novo" – o tom era de amargura. Não a culpava.

"Ele só olhou para alguém como Tracy porque está miserável."

"Mesmo?" – o tom era irônico – "Para alguém que teve um duradouro casamento gay, o seu pai gosta muito de uma vagina."

"Mãe!" – protestei e Beth se assustou.

"Mama?" – olhou preocupada para mim e Shelby – "Por que Santy está zangada?"

"Não estou zangada, docinho" – procurei relaxar as minhas feições – "Desculpe."

"Querida" – ela limpou a boquinha de Beth com o guardanapo – "Vá brincar no seu quarto que daqui a pouco eu te ajudo a escovar os dentes."

Esperamos Beth descer da cadeirinha e correr serelepe até o quartinho de princesa que Shelby montou para ela. Tomei o suco e procurei voltar ao foco do assunto. O meu objetivo ali não era apenas visitar a minha mãe: tinha uma agenda importante e um plano.

"Você deveria voltar para o meu pai. Está miserável e ele também. Posso ter mil e uma ressalvas quanto à senhora e tenho motivos muito bons para tal, mas a verdade é que vocês formam um ótimo casal e estavam felizes juntos. Um completa o outro."

"Minha história com Juan terminou" – ela disse incerta.

"Pro diabos, mãe. Você ainda o ama e ele também."

"Santana" – ela tentou protestar.

"Mãe, olhe bem nos meus olhos e diga que você não ama mais o meu pai."

"Você está me chamando de 'mãe' só para ter mais apelo".

"Não muda de assunto! Ama ou não ama o meu pai?" – pressionei.

"Sim, eu amo Juan. Mas ele não fala comigo há um mês. É frustrante!"

"Então! Você tem que voltar com o meu pai. Vocês se amam, a senhora mesma acabou de admitir isso para mim. Não acredito que um 'não' a um pedido de casamento possa mudar isso!"

"Eu achava a mesma coisa até que ele terminou tudo."

"Ele só estava ferido... todos nós ficamos! Rachel, principalmente. Mas isso tem que terminar aqui, antes que ele se evolva de vez com aquela pistoleira."

"Juan é um adulto. Sabe o que faz."

"Não é verdade. Papi está frágil emocionalmente. Será que a senhora não vê isso? Ele arrumou uma namorada por se sentir terrivelmente só naquela casa. Eu conheço meu pai. Ele pode ser durão e rigoroso, mas não suporta a solidão."

"Ele tem uma cadela chamada Sherry! Não acha que isso é deixar muito claro o que pensa de mim?"

"Que droga, mãe! Pensei que você fosse mais racional do que ele. Não acredito que uma história como a de vocês possa terminar de uma forma tão boba. Não pode deixar aquela golpista ficar com ele, mesmo que ela seja bem mais gostosa e bitch do que você. E ela é massagista! Você não pode sair dessa batalha só porque aquela vaca é uma especialista em massagens penianas."

"O quê?" – uma coisa que eu e Rachel puxamos de Shelby foi o gosto pela competição – "Está sugerindo que aquela pilantra possa satisfazer o seu pai melhor do que eu? Você não me conhece direito, Santana Berry-Lopez" – eu odiava essa conversa de sexo entre meus pais. Era um sacrifício que deveria ser feito.

"Vá a ceia de ação de graças e ganhe essa briga! Você merece ser feliz ao lado do meu pai!"

"Reserve duas cadeiras!" – essa era a Shelby Corcoran que eu admirava.

Fiquei brincando com Beth até o final da tarde, quando deu a hora de pegar a estrada de volta a Lima. Eram apenas 40 minutos de carro, mas eu não queria pegar a estrada à noite. Sobretudo porque ficava muito tempo sem pegar na direção em Nova York e meus reflexos enferrujavam um pouco. Quando voltei para a casa, Tracy ainda estava por perto. Disse que papi a convidou para dormir lá. Aquilo começou a me incomodar como nunca. Rachel e Quinn haviam se recolhido mais cedo para o quarto. O almoço parece que foi mais animado do que imaginei. No mínimo, Frannie soltou várias pérolas.

Tracy e papi também se recolheram cedo e eu, sozinha, não consegui dormir. Peguei meu computador e fiquei navegando na internet, conversando em redes sociais com meus amigos. Mike disse que estava tudo calmo. O único imprevisto o alerta de incêndio que disparou depois da apresentação por causa de um curto no sistema de alarmes. Andrew também estava conectado. Ele, Matt e Lucy permaneceram na cidade. Disseram que o campus estava menos movimentado. Só não se esvaziou porque ali era Nova York. Andrew era um sujeito divertido. A obsessão que ele tinha pela Jean Grey, dos X-Men, me entretinha, além da imaginação fértil. Achava que ele estava no ramo errado: deveria estar trabalhando com a equipe criativa da Marvel, não querendo desenvolver o próximo Facebook.

"Sem sono?" – Tracy desceu as escadas com o roupão aberto, revelando o minúsculo baby doll.

"Estou acostumada a dormir tarde" – disse em tom seco.

"Quer companhia?"

"Tanto faz".

"Seu pai disse que você está estudando em Columbia. É uma grande universidade!"

"Não é grande coisa!"

"Não seja modesta, Santana. Eu sei que você é muito inteligente... e linda. Só me parece solitária" – não estava acreditando que ela ia fazer esse tipo de joguinho comigo. Mas resolvi dar bola para ver até onde ela iria.

"A faculdade sufoca a minha vida social".

"Não tem ninguém especial para te fazer um carinho? Como a sua irmã tem a Quinn?"

"Faz muito tempo que não sei o que é isso!" – não estava mentindo totalmente. A última pessoa que me deu um beijo na boca de verdade foi Brittany.

"Você parece que está tão tensa... não quer uma massagem?"

"Muito obrigada, mas não!"

"Eu sou boa nisso" – não tinha dúvidas quanto a esse detalhe. Aparentemente Tracy tinha dificuldades em entender que não significava não e enfiou as mãos dela nos meus ombros e... ela era realmente boa! Não foi à toa que a biscate dobrou meu velho – "você está muito tensa, Santana. Quantos nós em seus ombros!"

"Isso se chama Columbia" – eu estava me esforçando para não babar em cima do computador. Aquelas mãos trapaceiras eram mágicas. Tracy massageou minhas costas por sei lá quanto tempo até que parou com beijo em minha cabeça, daquele jeito que a pessoa se reclina demais.

"Melhor?"

"Hum hum" – confesso, estava em alfa, mentalmente exausta e não tive forças para reagir ao ataque.

"Você é uma garota muito bonita, Santana. Devia seguir o exemplo de sua irmã e arrumar um namorado... ou namorada" – disse próximo ao meu ouvido.

Eu a agarrei pela cintura e a coloquei no meu colo. Forcei um beijo, que ela respondeu cinco segundos depois. Sim, ela beijava muito bem. Então eu a soltei e a empurrei de leve.

"Desculpe... eu não sei o que deu em mim..." – me fiz de arrependida – "É melhor você voltar para o quarto".

Antes, Tracy entrou na cozinha, bebeu um copo de água por um ângulo que me era privilegiado e subiu as escadas em seguida com um "sorriso meigo" no rosto. Eu tinha que me livrar da massagista o mais rápido possível. Se Shelby falhasse, papi iria ter um desagradável flagrante no fim de semana. Não gostava da idéia de transar com esse tipo de propósito, mas eu faria o que fosse preciso para ter Tracy fora da minha casa. Precisava pensar. Talvez Rachel pudesse ajudar, apesar de ter reagido de forma indiferente a nova "namoradinha" do papai. Peguei o meu casaco grosso e fui às máquinas da piscina. Liguei o aquecedor e o filtro.

...

28 de novembro de 2013

Logo de manhazinha, pulei na água apesar daquela época amanhecer já abaixo dos 10ºC. Mas a piscina estava morninha, ótima. Nadei e planejei. Sherry (a gente tinha que mudar o nome dessa cadela) me fez companhia enquanto isso.

"Você ficou doida?" – Rachel foi à beira da piscina de pijama grosso, casacão e pantufa. Sherry pulou em cima de Rachel para ser acariciada, mas a minha irmã a ignorou.

"A água está uma delícia."

"Está uns 4°C!"

"Deixei o aquecedor ligado a noite inteira. Aqui dentro está 18°C. Olha o termômetro!" – joguei o objeto em forma de baleia em cima dela. Rachel se encolheu toda como se aquilo fosse nojento e deixou cair no chão. Típico. Sherry não desprezou o brinquedo e saiu correndo com ele na boca. Adeus termômetro – "Bom que está aqui. Preciso conversar contigo."

"Sobre... Tracy tem que sair?" – ela pegou a espreguiçadeira e puxou para beira da piscina.

"Ah, que bom que você percebeu! Você agiu tão indiferente ontem que fiquei até preocupada."

"Está brincando? A mulher é uma pistoleira! No que nosso pai está pensando?"

"Isso se chama dor de cotovelo, Ray... e solidão".

"Quinn pensa que e estou exagerando" – disse sussurrando – "Mas eu a vi checando o seu corpo duas vezes."

"Ela deu em cima de mim ontem à noite e eu entrei no jogo dela."

"O quê? O que aconteceu... você não..."

"A gente só se beijou. Queria ver até onde ela iria."

"Mas que vadia!"

Ouvimos movimentação da cozinha. Era o próprio diabo caminhando em nossa direção, seguido por Quinn logo atrás. Estava ainda mais embrulhada do que Rachel e com o rosto. Então sentou-se ao lado da minha irmã.

"Buenos dias, señorita!" – Rachel forçou um sorriso e eu podia sentir a atriz emergindo – "Usted debe estar muy disponible para salir de la cama de mi padre para venir aqui y unirse a La conversación de los demás. Creo que debe ser um proceso a tener relaciones sexuales com mi hermana par venir aqui y cara a cara com este clima helado" – Rachel falou depressa, com muita fluência, de forma que só entenderia quem falasse bem o idioma. Eu mergulhei para rir debaixo d'água.

"Vocês sempre falam em espanhol?"

"Só quando elas estão brigando" – Quinn respondeu ainda com jeito de quem estava morrendo de tédio – "Ou quando estou por perto e elas não querem que eu entenda".

"No es verdad" – Rachel era mesmo uma boa atriz. E das mais diabólicas. Uma perfeita Berry-Lopez, eu diria. Dessa vez eu tive de dar algumas braçadas para não explodir em gargalhadas na frente da Tracy.

"Nossa, que coragem a sua nadar a essa hora do dia".

"Y ni siquiera pasar La oportunidad de verla em bikini" – Rachel era louca, mas pelo sorriso forçado de Tracy, parecia que ela não estava entendendo uma vírgula – "Apuesto que es una bella paisaje".

"O seu espanhol é ótimo!" – ou Tracy não tinha mesmo entendido uma vírgula, ou ela mesma era uma atriz bem melhor do que Rachel.

"Una lástima que usted es un cabeza hueca y no puede entender" – Rachel ofendia em espanhol com rosto angelical. Eu estava me segurando para não ovacioná-la. É sério, fiquei emocionada.

"Acho que a gente deveria discutir as finanças lá de casa, não é mesmo?" – Quinn inventou um assunto qualquer – "Precisamos resolver esse assunto uma vez por todas".

"Bom... acho que a reunião é séria" – finalmente Tracy desconfiou – "Fiquem à vontade".

Rachel e eu trocamos olhares. Era algo muito estranho para se dizer. Verdade que não morávamos mais lá, ainda assim, aquela nunca deixaria de ser a nossa casa. Saí da piscina e corri para pegar o meu roupão quando Tracy já estava a caminho de volta para casa. Dei alguns pulinhos para me manter aquecida e caminhei para a casa da piscina. Entramos e Quinn fechou a porta de vidro temperado enquanto Rachel ligou o aquecedor. Lá dentro estava bem mais quente. Rachel se sentou no sofá e eu continuei de pé, me movimentando. Quinn ficou ao meu lado de braços cruzados.

"O meu espanhol é um lixo, mas 'cabeza hueca'? Rachel, você ficou maluca?" – Quinn arregalou os olhos.

"Ela não entendeu uma vírgula!" – Rachel se defendeu – "E o elogio foi bem direcionado" – disparei a rir de novo, a cara de santa da minha irmã era a melhor.

"Vocês duas tomem muito cuidado com o que vão aprontar com essa Tracy" – Quinn estava séria – "Rachel ontem estava confabulando planos nada elegantes para se livrar da moça" – essa era a minha irmã!

"Shelby é o nosso melhor tiro. Ela disse que voltaria a lutar pelo nosso pai. Mas se as coisas não forem bem hoje na ceia, a gente vai ter que armar um flagrante nada agradável. Um que vai fazer meu pai deixar de falar comigo por um bom tempo" – olhei sério para Rachel – "E faça o favor de ser ao menos diplomática com Shelby. Entendido?" – Rachel concordou.

Combinamos que só iríamos armar o flagrante se o almoço desse errado. Quinn discordou. Disse que se a gente quisesse realmente ter garantias, então tinha de se preparar. Então procuramos direcionar nossos pensamentos para coisas mais amenas. Eu ajudei papai com o peru, Rachel cuidou da salada e do purê. Quinn arrumou a mesa, as frutas, e contou boas histórias. Tracy já parecia estar sem lugar, de lado, brincando com a cadela. Ela mal conseguia interagir como papi o que confirmava a minha teoria que os dois só estavam juntos, ele por causa do bom sexo, e ela por causa do bolso. Porque não havia nada mais que os aproximasse.

Quando Shelby chegou vestida em roupas simples e elegantes, procurei observar muito bem as reações papi. Por deus, não estava errada. Eu só tinha visto brilho semelhante nos olhos dele com outra pessoa: papai. Beth fazia a parte dela ao preencher a casa com a boa energia que carregava dentro de si. Dava gargalhadas em vê-la atormentando Sherry. Até mesmo Rachel amoleceu um pouco mais com Shelby. Minha mãe cumprimentou Tracy com educação e depois a ignorou por completo, mas com classe. Não demorou a voltarmos a interagir como a família que éramos. Pontos para nós e para minha mãe que soube como neutralizar a golpista usando simplesmente a educação e a classe.

"Precisamos mudar mesmo o nome dessa cachorra" – papi comentou quando estávamos na cozinha lavando os pratos e conversando como uma família normal.

"Em vez de Sherry, por que não Lessie?" – Shelby sugeriu – "É clássico e não muda tanto assim a palavra" – ergueu a taça de vinho como se estivesse pontuando algumas coisas para papi. Era uma forma dos dois conversarem em códigos. Mais uma prova do quanto eles formavam um casal bem entrosado.

"Lessie está ótimo!" – ele abriu um largo sorriso.

Papi e Shelby passaram a tarde conversando em privado na casa da piscina. Tracy ameaçou fazer um pequeno protesto, mas Rachel e eu a convencemos a baixar a bola. Quinn desceu as escadas e sussurrou no meu ouvido. Acenei positivo e arrastei Tracy para o meu quarto. Fechei a porta.

"Eu sou a namorada do seu pai, não ela. Eu mereço respeito!" – ela se fingiu de ofendida.

"Não é que você não mereça consideração, mas aqueles são os meus pais. Pai e mãe! Dois indivíduos que tiveram duas filhas e adotaram uma terceira. Eles precisam conversar. Então fica na sua e espere ou pegue as coisas e vá embora. É mais digno".

"Tem certeza que você quer que eu vá embora?" – ela falou num misto ameaçador e insinuante ao mesmo tempo.

"Não aconteceu nada" – procurei me afastar.

"Você me beijou."

"E você me beijou de volta. Mas esse não é o ponto. A questão é que você, Tracy, não se encaixa nesta casa."

"Não brinque comigo, Santana" – eu não sabia, mas podia sentir que Tracy poderia ser capaz de muita coisa para segurar o dinheiro. Esse tipo de gente arruma até gravidez. Até essa conversa, e pelo tom de voz dela, eu não havia percebido que ela poderia ser tão perigosa assim.

"Ok, vamos com calma. O que você quer?"

"O que você quer dizer com isso?"

"É só uma pergunta retórica. O que você quer da vida, desta família, do meu pai, de mim, qualquer coisa?"

"Eu quero uma boa vida. Isso é pedir demais?"

"Isso não tão difícil de conseguir para alguém como você."

"Homens decentes são raros!"

"E para se ter um homem decente que possa te dar uma boa vida vale fazer qualquer coisa?"

"Você não sabe de nada da vida, Santana. Não sabe o que eu já passei" – estava demorando a ela vir com o papo da coitada.

"Não tenho a menor idéia do que você viveu. Deve ter sido realmente uma barra. Mas isso não é da nossa conta e eu não vou deixar você detone a minha família. O meu pai ama a minha mãe. Os dois vão se acertar em 30 segundos e você está fora. Aceite a derrota."

"Essa é a parte que você me oferece dinheiro?" – eu dei uma gargalhada.

"Eu? Logo eu que sou uma estudante que depende da irmã até pra comer? Desculpe Tracy."

"Você não está armando tudo isso para deixar o eu pai fora do jogo, está? Porque da forma que me beijou ontem..."

"Primeiro lugar: aquilo foi um acidente. Eu estou solitária faz um tempo e você é gostosa. Quem pode me culpar?" – procurei manter o interesse dela por mim.

Sentei na minha cama e coloquei e levei as minhas mãos na cabeça num gesto de cansaço, frustração e derrota. Tracy sentou-se ao meu lado e passou as mãos nos meus ombros.

"Você faz de esperta, mas é uma sonhadora, Santana" – começou a beijar o meu pescoço. Virei o meu rosto e ela me beijou na boca – "Você é mesmo sexy e bonita. Não consegui tirar os olhos desde que você chegou".

Tracy era tudo menos tímida. E do jeito que ela me fez deitar na cama e ficou em cima de mim e segurou os meus pulsos, deu para entender que ela tinha vasta experiência.

"Deixe a sua porta destrancada hoje à noite" – sussurrou no meu ouvido – "Talvez o meu destino seja ficar com a filha, não com o pai."

Tracy enfiou a língua na minha garganta uma última vez antes de sair de cima de mim. Eu caminhei até a minha cômoda onde Quinn disse que tinha deixado a câmera ligada, meio que camuflada entre os vidros de perfume e da maquiagem. Estava apontada para a minha cama. Excelente! Pegou a melhor cena e ainda gravou todo o áudio da conversa.

"Ei, Tracy!" – mostrei a câmera – "Gravou tudo!" – ela ameaçou partir para cima. Então eu coloquei a câmera dentro da gaveta – "Vai querer mesmo brigar? Você vai lucrar mais se sair na boa! E depois..." – peguei o meu celular e liguei para Rachel – "Vão ser três contra uma".

Tracy parecia que estava considerando as possibilidades. Essa mulher era perigosa. Mas Rachel e Quinn apareceram menos de um minuto depois.

"Algum problema, Santana?" – Rachel já foi se posicionando entre mim e a vigarista.

"Nenhum problema... estou de saída" – ela disse com ódio.

"Ah, Tracy, só um aviso sobre um possível golpe da barriga: a justiça determina exames de DNA antes do nascimento da criança, ok? Nem invente!"

"Nem tão ingênua quanto imaginei..." – foi um elogio que partiu dela.

"Obrigada!"

Tracy saiu do nosso quarto. Peguei da câmera e dei a Quinn para que ela operasse. O equipamento era dela.

"Parece soft pornô!" – Quinn estava checando a gravação – "Essa mulher é mesmo uma profissional!"

"Nem me fale! Minha calcinha está molhada." – infelizmente era verdade.

"Santana!" – Rachel protestou – "Eu não preciso ouvir isso!"

Tracy se despediu no mesmo dia, numa conversa privada com meu pai num momento em que Shelby já tinha ido para casa. Papi não ficou tão triste assim. Acho que até ficou aliviado e feliz pelo "gesto amadurecido" de Tracy. Por isso Rachel e eu ficamos quietas em relação aos eventos do dia. A vigarista não faria nada sabendo do nosso mecanismo de defesa.

...

29 de novembro de 2013

(Quinn)

Parecia que tudo voltou à normalidade na casa das Berry-Lopez. Shelby chegou com a minha Beth ainda pela manhã com direito a sacola com muda de roupa. Tinha todo jeito de que se dedicaria de corpo e alma (principalmente corpo) à reconciliação com Juan. Melhor para eles e para as meninas, que relaxaram depois que Tracy foi embora. Eu ainda tinha minhas próprias pendências com os meus. Enquanto os Berry-Lopez aproveitavam o momento em família, fui almoçar na casa da minha mãe, desta vez sem Rachel. Foi outra história, outro clima. Minha mãe ainda evitava falar coisas sobre meu relacionamento e também do encontro dias atrás. Procurei não insistir. Estava cansada disso.

Ela comentou a ceia de ação de graças na casa do meu avô e que quase tudo parecia voltar a normalidade. Nas entrelinhas, entendi que o "quase" era eu e minha sexualidade. Infelizmente para ela, o meu negócio eram as mulheres. Mesmo se um dia eu terminar com Rachel, procuraria uma namorada e não mais um cara. Isso estava tão certo para mim quanto o ar e a água.

Depois da refeição, Frannie e eu subimos ao meu velho quarto (o dela se transformou numa sala de costura) e f9icamos a conversar bobagens enquanto fazíamos as unhas. Só assim soube melhor como andava a vida dela em Austin. Frannie tinha um namorado rico, confessou que experimentou com uma amiga da faculdade duas ou três vezes em festas na companhia outros caras (leia-se orgias), mas que o negócio dela era mesmo homens. Disso eu nunca duvidei. Minha irmã sempre gostou de um pênis e nunca fez questão de negar. E conversamos sobre Nova York.

"Não acredito que você mora todo esse tempo em Nova York e nunca foi na Tiffany & Co?" – Frannie gargalhou – "Seria o primeiro lugar que eu visitaria!"

"Claro que eu já passei lá em frente!" – me defendi – "Só nunca entrei na loja."

"Oras, e por que não?"

"Existe uma grande diferença em ser turista em Nova York e em morar nela. A realidade econômica aparece. Eu não sou de entrar num lugar sabendo que não posso ter nada do que está ali disponível."

"Você é pragmática demais, maninha."

"Realista. É outra história. Eu não vivo mais no meio da alta sociedade, não sabe?"

"Infelizmente para você" – Frannie – "Você tem tudo para mudar a sua condição... é só arrumar um namorado... ou namorada rica, pelo seu caso."

"Rachel é rica. A família dela é rica, pelo menos. A diferença é que a gente vive do nosso suor em Nova York, o que, no meu modo de ver as coisas, é mais gratificante. Dou muito mais valor hoje às coisas que posso comprar do que os luxos que papai me dava quando tinha 15 anos."

"Você poderia usar melhor o seu orgulho" – ergui a sobrancelha e as mãos como se pedisse cautela – "Seu orgulho em viver dos próprios ganhos poderia ser usado no orgulho em saber aproveitar melhor o que se tem em mãos. Só dizendo, ok?"

"Está dizendo que eu deveria explorar a minha namorada?"

"Pelo menos você já viajou para o exterior com eles."

"Eu estou pagando a minha passagem, ok? Em prestações, mas estou."

"Viu, é isso que eu digo. Você é muito orgulhosa nesse sentido... orgulho machista. Aposto que se você dissesse para o seu sogro que não pagaria mais, ele nem se importaria."

"Eu não exploraria a minha namorada ou a família dela, ok? Assunto encerrado."

Olhei pela janela e achava estranha a paisagem aberta e quase bucólica da rua pouco movimentada. Lima era uma cidade que podia estimular a solidão. Claro que qualquer outro lugar poderia. Mas o excesso de espaços trazia essa forte impressão. Por muitas vezes me perguntei se conseguiria voltar a viver numa cidade como aquela. Não tinha a resposta reformulada. O fato era que achava esquisito. A impressão que tinha é que vivi uma vida inteira em Nova York.

"Papai pergunta sobre você... às vezes" – Frannie disse de forma inesperada e meu coração saltou. Apesar de tudo, amava meu pai – "Eu não queria falar dele porque sei que machuca mamãe."

"Eu sou uma decepção para ele."

"Verdade! O que não quer dizer que ele deixou de se importar. Só ter orgulho demais, entende? Essa virtude e maldição Fabray."

"Confesso que gostaria de voltar a falar com ele."

"De tempo ao tempo. Vai chegar uma hora em que vocês vão voltar a se verem."

"Tomara!" – olhei para Frannie. Estava incerta de faze a pergunta e também não sabia se queria ouvir a confirmação – "Ele... você... vocês..."

"O quê?"

"Ele sabe que eu sou gay?"

"Sabe" – Frannie respondeu seco – "Embora não compre muito a idéia. Para te ser sincera, nem eu acredito. Ainda acho que você só está passando por uma fase. Talvez papai te procure quando essa sua experimentação acabar."

"Não é uma fase. Sou mesmo gay. Gosto de vagina, não de pênis."

"Ok!" – Frannie enrugou a testa.

"Quando o vir, diga que eu o amo. Que apesar de tudo, que eu o amo."

"Darei o recado."

Ainda naquele dia, Rachel, Santana e eu fomos a uma reunião com nossos velhos amigos. A exceção de Brittany e Mike, todos estavam em Lima para o feriado. Puck estava namorando firme uma mulher mais velha, mas que tinha o feito sossegar. Pensava em montar uma loja especializada em piscinas: desde a instalação até a venda de brinquedinhos. Fiquei feliz por ele e até um pouco orgulhosa. Professor Schue estava novamente solteiro, treinadora Sue ainda tinha dificuldades em encontrar cheerios com a minha qualidade e de Santana e Britt. Kurt não estava sendo bem sucedido no curso de Moda e o relacionamento dele com Blaine havia entrado em crise. Dizia que estava pensando passar as festas de fim de ano com Mercedes. Os dois iriam para a Flórida junto com Júlio, namorado de Mercedes.

Finn assumiu a oficina, uma vez que Burt Hummel conquistou uma posição na câmara municipal, e fazia aulas na Community College. Estava no curso de Negócios, "exatamente como Santana e nem precisava de Columbia", como ele disse. Coitado. Mal sabe que enquanto ele está tentando administrar finanças de uma oficina, Santana aprendia a lidar com Wall Street e outros grandes centros internacionais de mercado. Eu quis explicar essa pequena diferença, mas Rachel não deixou. Sam vai virar biólogo. Coitado. Artie disse que seria publicitário e só se dava bem com mulheres submissas. Não estava interessada no futuro dele. Tina deixou de vez o visual Robert Smith. Bom para ela. Disse que estava inclinada a ser assistente social. Mercedes estava firme com Júlio e tinha impressão que eles acabariam se casando. O mais intrigante de tudo: nada daquilo me interessava mais. Segurei a mão de Rachel e a beijei. Mal esperava a hora de voltar a Nova York.