Capítulo 45- Amnésia
O olhar de Kate era extremamente desconfiado. Já há algum tempo que ela vinha notando algo estranho no comportamento de seu marido; na verdade, desde o retorno deles à Bexar County há seis semanas atrás.
Eles estavam juntos há muito tempo, casados há cinco anos, e Kate sempre confiara nele. Por mais que todos na ilha tivessem motivos para duvidar de Sawyer, ela não tinha. Era verdade que ele a enganara algumas vezes, mas havia certas coisas que James nunca conseguira e jamais conseguiria esconder dela. Por isso ela se sentia desconfiada, porque sabia que havia algo errado, só não conseguia saber o que poderia ser.
De todas as coisas que sofrera na vida, a amnésia parecia ser a pior de todas. Era terrível não saber o que acontecera entre o espaço de tempo em que ela deixara Bexar County com James para cuidar da mãe doente em LA até o momento em que ela acordara em um hospital na presença de Jack e do marido. Kate não conseguia se lembrar de meses de sua gravidez e nem de ter sofrido um acidente de carro. A única coisa que a consolava era a filha Lara. Uma criança tão linda que ela quase perdera. Era estranho, nem mesmo conseguia entender porque dera o nome de Lara à filha. Um nome que sempre lhe foi indiferente. Aliás, Kate não conseguia pensar em nenhum nome de menina que tivesse escolhido antes de Lara. Mas James insistia que fora ela quem escolhera este nome. Em sua cabeça só vinham nomes de meninos. Por que será que ela queria tanto ter um menino se estava feliz com uma menina?
- Eu estava falando com a minha mais nova cliente.- respondeu James, se afastando do telefone. – Ela está interessada naquela casa de praia que eu te falei.
- A de Beverly Hills?- Kate indagou.
- Essa mesmo! Estávamos combinando quando poderíamos nos encontrar em LA. Talvez em duas semanas.
- O Rodney não pode ir no seu lugar?- ela perguntou referindo-se ao sócio de James na imobiliária, voltando-se para uma das janelas da sala e observando Clementine passear com Lara em seu carrinho.
- Eu não sei.- disse James. – O Rod anda meio enrolado com umas questões pessoais. Se ele não puder ir, eu terei de ir no lugar dele, querida.
- Poderíamos ir juntos então.- Kate sugeriu. – Eu poderia ver minha mãe. Você sabe que por causa da amnésia eu não me lembro de ter falado com ela em LA. E nós partimos pra cá tão depressa depois que a Lara nasceu. Seria uma boa oportunidade para vê-la.
- Sardenta, embora você não tenha ido se despedir de sua mãe quando viajamos pra cá, eu cuidei de tudo para que ela continuasse sendo tratada e nós temos falado semanalmente com o Dr. Miller. A memória dela continua a mesma, ela não se lembra de você tanto quanto você não se lembra de ter estado com ela.
- Por isso mesmo seria bom que eu fosse. Seria bom que ela me visse. Ela poderia se lembrar e quem sabe eu também poderia me lembrar...
- Kate, já falamos disso. Você ainda não está bem e eu não gosto da ideia de viajarmos enquanto você ainda não recuperou sua memória.
- Ah, James.- disse Kate, abraçando o marido. Ele a abraçou de volta. – Não conseguir me lembrar das coisas é tão difícil e eu não quero ficar aqui sozinha com as meninas enquanto você vai para tão longe.
- Eu só demoraria alguns dias.- justificou-se ele. – Poderíamos pedir à Betty que venha dormir aqui com você enquanto eu estiver ausente.
Betty era uma amiga de infância de Kate, que por uma feliz coincidência estava morando em Bexar County quando ela e James se mudaram para lá após seu casamento. Ter sua melhor amiga lá tinha sido um consolo nos momentos mais difíceis e estava sendo um consolo agora durante seu estado de amnésia. As duas tinham aberto a butique juntas.
- Eu não sei, James. Não me sinto segura aqui sem você. Sabe que não consigo me lembrar de nada e isso é um tormento!- uma lágrima escapou dos olhos dela.
James a abraçou forte.
- Não se preocupe, sardenta, Tudo vai ficar bem. Eu prometo. Ainda não tenho certeza se vou mesmo viajar. Vou falar com o Rodney, que tal?
Ela sorriu e o beijou nos lábios.
- Fico feliz!- disse. – Vou dar uma olhada nas meninas. Coloquei biscoitos no forno, pode checar de vez em quando para que não queimem?
- Sim, senhora!- respondeu ele com seu sorriso de covinhas que Kate tanto adorava.
Mas quando ela saiu da sala para ver as meninas, James sentou-se no sofá e deixou a cabeça pender entre os joelhos enquanto suas mãos esfregavam as têmporas num gesto de nervosismo. Seis semanas já tinham se passado e ele ainda estava preso em Bexar County, longe de Ana-Lucia. Como poderia ser?
Jack lhe dissera que as lembranças de Kate poderiam voltar em dois dias, uma semana ou um mês. Mas muito tempo já tinha se passado e ele não agüentava mais mentir. Não apenas porque sentia falta desesperadamente de Ana, mas também porque era terrível ver o sofrimento de Kate em não conseguir se lembrar, e aquela mentira com a filhinha de Jack o fazia sentir-se tão culpado por ter concordado com aquilo. Mesmo que Kate se lembrasse, agora que ela cuidava de Lara como filha, ele achava que seria difícil que ela aceitasse devolver a menina a Jack.
De qualquer forma, ele precisava ganhar tempo. Mentira para Ana-Lucia novamente, e ela o mataria quando descobrisse que Kate ainda não estava curada da amnésia, porém, ele precisava retornar à LA e assegurar a Ana novamente de que eles ficariam juntos quando tudo isso terminasse. Pediria o divórcio à Kate, organizaria tudo e depois iria viver com Ana. Casar com ela? Quem sabe um dia. Viveriam juntos e a partir daí ambos decidiriam se aquele relacionamento seria para sempre. Ele não seria precipitado em se casar outra vez depois do fracasso de seu casamento com Kate, embora tivesse certeza agora de que amava Ana.
Ele falaria com Rodney sim, o mais breve possível. No entanto, não pediria ao amigo que fosse viajar para vender a falsa casa de praia em Beverly Hills, diria a ele que está precisando novamente de alguns dias fora para cuidar de questões pessoais relacionadas à sua filha. Rod era um bom profissional e amigo, não faria objeções. O próximo passo seria falar com Betty para ficar com Kate e Lara durante o tempo em que ele estivesse fora. A velha amiga de Kate não negaria um pedido desses já que se mostrava muito preocupada com a saúde dela.
Por fim, ele falaria com a diretora da escola onde Clementine estava estudando para conseguir alguns dias de folga para a menina também. Pretendia levá-la consigo porque ao contrário de Lara, esta era sua filha de verdade e sabia que a menina ficaria feliz em ver a amiguinha Érica. Uma vez em LA, James falaria com Jack pessoalmente. Eles vinham se comunicando por telefone ao longo daquelas seis semanas, mas seria muito melhor conversar sobre os detalhes da situação pessoalmente. Mesmo assim ele pretendia dar um telefonema ao médico antes avisando que o veria em breve.
- James, os biscoitos!- Kate gritou lá de fora. Ele correu até a cozinha. Mas sua mente continuava longe dali pensando em Ana-Lucia.
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- Mamãe, eu posso levar chocolate de castanha para a abuela? Ela adora esses chocolates!- pediu Érica mostrando um pacote de bombons para Ana-Lucia. Ela estava diante de uma prateleira onde havia diversas marcas de testes de gravidez e tentava escolher a melhor, mas ao mesmo tempo não queria que Érica visse o que ela estava comprando e a questionasse.
- Pode levar o que quiser, cariño.- Ana respondeu.
- Oba!- gritou Érica, saltitante se dirigindo novamente à sessão de doces.
Ana-Lucia voltou a mirar a prateleira. Não, seria absurdo demais que ela estivesse grávida novamente e do mesmo homem. Mas os sinais estavam tão claros que não poderia haver outra resposta. Mesmo assim precisava fazer o teste, depois que soubesse do resultado pensaria no que fazer. Ela então estendeu sua mão para pegar um dos testes que prometia 95% de certeza no resultado em 10 minutos quando alguém pronunciou seu nome:
- Ana? Ana-Lucia Cortez?
Ana voltou-se para a pessoa que falava com ela e ficou surpresa.
- Shannon?
Ela sorriu abertamente. Estava vestida de modo muito elegante, com um lenço transparente, revestido de fios dourados a enfeitar-lhe os longos cabelos loiros. Nos braço trazia uma menina moreninha de cabelos cacheados e escuros.
- Quanto tempo!- Shannon exclamou.
- Sim, muito tempo.- disse Ana, obviamente embaraçada. Embora o acidente com Shannon na ilha tivesse sido totalmente superado, afinal o tiro disparado por sua arma não a atingira, ela nunca se sentira à vontade perto dela. Quase a matara e isso era algo difícil de se esquecer.
- Por favor, não me olhe assim.- pediu Shannon. – Eu sei o que está pensando, mas está tudo bem. Eu vi você assim que entrei na farmácia, parecia aflita então decidi vir cumprimentá-la. Esta é a minha filha Jade.
Ana relaxou um pouco diante das palavras de Shannon.
- Sua filha é linda. Também estou com a minha filha, ela deve estar aqui em algum lugar.- disse ela procurando por Érica até avistar a menina enchendo um carrinho com doces. – Ela está ali!
Shannon sorriu observando a menina antes de voltar-se para Ana novamente.
- Então está achando que está grávida?
Ana-Lucia engoliu em seco. Shannon notou sua exasperação.
- Me desculpe, eu não quis ser indiscreta. Como eu disse, vi você aflita olhando para estes testes e resolvi me aproximar. Sempre que eu encontro alguém que esteve comigo na ilha é como encontrar um amigo de uma vida inteira, alguém que esteve presente em momentos muito difíceis.
Ana também se sentia assim em relação a algumas pessoas que conhecera na ilha, como Jack e Libby, mas nunca pensara desta maneira sobre Shannon, principalmente porque se sentia culpada pelo que tinha acontecido, no entanto, ela não pôde deixar de ser simpática. Se Shannon tinha superado o que acontecera, talvez ela devesse fazer o mesmo.
- Sim, eu estou com algumas suspeitas... – Ana contou balançando nas mãos a caixa do exame que finalmente tinha escolhido.
- Uau!- exclamou Shannon. – Eu espero que tenha sorte. Tenho dois bebês. Meu filho Jasper é o mais velho. Só dois anos mais velho do que a Jade.
Ana-Lucia sorriu. Conversar com Shannon daquela maneira tão amena e espontânea estava sendo bom, mas ela precisava sair daquela farmácia.
- Bem, foi bom ver você Shannon, mas eu preciso ir! Eu tenho que...você sabe...- ela balançou a caixa do teste de gravidez nas mãos.
- Ah, sim, claro – disse Shannon compreendendo a ansiedade dela. – Mas nós poderíamos nos encontrar de novo pra conversar se você quiser. Eu e o Sayid estamos há pouco tempo em Los Angeles e eu não tenho amigas com quem sair. Passei tanto tempo na Austrália que perdi o contato com as amigas que tinha nos Estados Unidos e parece que agora nós vamos ficar um bom tempo por aqui.
- Claro!- disse Ana, sem saber muito o que dizer, ainda parecia estranho, por mais que estivesse sendo simpática que Shannon realmente quisesse ser sua amiga.
Shannon retirou um pequeno cartão de visitas de sua elegante bolsa de marca e o entregou à Ana.
- Escola de balé Rutherford?.- ela leu no cartãozinho.
- Isso mesmo.- confirmou Shannon. – Abrimos há quatro semanas. Ter um estúdio de balé sempre foi o meu sonho e estou tão feliz que esteja dando tudo certo. Meu número pessoal está abaixo do comercial.- ela apontou para o cartãozinho feito de papel couchet cor de rosa. - Me ligue se precisar de alguma coisa ou se quiser apenas conversar. Se sua filha gostar de balé, eu ficaria feliz de fazer um teste com ela. Espero que você receba uma boa notícia ainda hoje, Ana.- ela apontou para o teste de gravidez.
- Obrigada.- disse Ana com sinceridade, mas suas palavras foram sucedidas de um longo suspiro.
- Ok, quer ouvir uma coisa estranha?- disse Shannon de repente, se aproximando mais de Ana e fingindo olhar as prateleiras com os testes de gravidez diante delas.
- O quê?- indagou Ana sem entender.
- Acho que tem um cara me seguindo. Foi por isso que eu entrei na farmácia. Agora parece que ele está muito interessado na nossa conversa.
- Que cara?
Shannon deu um passo para o lado e voltou-se discretamente. Ana-Lucia seguiu o olhar dela e viu um homem alto, usando roupas de corrida, diante da prateleira de suplementos vitamínicos para atletas. Ele era atraente e quando notou que Ana o examinava, sorriu simpático. Ana não teve outra alternativa senão sorrir de volta.
- Hum, acho que você olhou demais.- disse Shannon segurando uma risadinha.
Ana sorriu de lado.
- Bem, acho que ele só estava nos paquerando.
- Tem razão.- disse Shannon vendo o homem se dirigir ao caixa com os suplementos que tinha escolhido. – Acho que estou ficando paranóica.- confessou Shannon. – Desde que me casei com o Sayid que vez por outra fico achando que alguém está me seguindo. Como se um dia eu tivesse lutado na guerra também!
Ana-Lucia assentiu, compreendendo. Ela era policial e sabia muito bem o que era se sentir perseguida. No entanto, após suas experiências traumáticas na ilha este sentimento se acentuara ainda mais.
- Bem, boa sorte novamente, Ana-Lucia. Já que estou aqui aproveitarei para comprar as vitaminas que o médico receitou para o meu filho- falou Shannon se despedindo e se dirigindo ao balcão de medicamentos da farmácia.
- Tchau!- Jade disse alegre ao ver que a mãe se despedia de Ana.
- Tchau, querida.- respondeu Ana já indo atrás de Érica antes de passar no caixa. Balançou a cabeça negativamente ao ver todos os doces que a menina tinha colocado em um carrinho.
- Ok, mi hija, escolha apenas uma caixa de doce para a sua avó e vamos embora!
Érica encarou Ana e fez beicinho, cruzando os braços diante do peito:
- Mas só um, mamãe? Por quê?
- Porque a sua abuela não precisa ter uma overdose de açúcar.- explicou Ana pegando um pacote de chocolate com castanhas da pilha do carro e levando Érica pela mão para o caixa com ela.
- O que é overdose?- Érica perguntou.
- Algo que você vai me prometer nunca ter.- disse Ana.
Do balcão de medicamentos da farmácia, Shannon observou Ana com a filha e ficou muito surpresa com o que viu naquela criança.
- Mas ela se parece tanto com o...não posso acreditar!- sorriu pensando consigo mesma que talvez as fofocas que corriam na ilha tivessem algum fundo de verdade afinal.
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Londres, Inglaterra
15 de março de 2009
Jack sempre ouvira falar da famosa pontualidade dos britânicos, mas ver isso de perto era impressionante. Os relógios estavam sempre impecavelmente acertados de acordo com a hora local, e se algum evento estava marcado para ocorrer ao meio-dia em ponto, por exemplo, tal evento iniciaria exatamente ao meio-dia. Atrasos não eram tolerados, significavam falta de educação por parte daquele que acordara o horário. Por isso, Jack não pensara duas vezes quando Claire lhe telefonara há cerca de dois dias atrás lhe dizendo que seu obstetra em Londres havia marcado seu parto cesáreo para o dia 15 de março de 2009 às 4 da tarde; ele telefonara imediatamente para a companhia aérea e requisitara passagens de avião para a Inglaterra naquele mesmo dia. Desde o acidente de avião com a Oceanic, conseguir passagens era muito fácil, já que como parte da indenização os sobreviventes receberam cortesias ilimitadas para viajar de avião.
Claire retornara à Londres com Charlie e Aaron alguns dias depois de ter sido atendida por Juliet no hospital onde ela e Jack trabalhavam. Porém, a médica continuou acompanhando-a à distância, e informou o obstetra de Claire a respeito da síndrome que ela sofria. A princípio, o Dr. Albert Macfee ficou bastante intrigado com o quadro de sua paciente, principalmente porque ele a vinha acompanhando desde o início da gravidez. Juliet porém, conseguiu convencê-lo de que tão rara síndrome era muito difícil de ser detectada em exames de rotina.
Obviamente, ela não podia contar ao Dr. Macfee da onde vinha essa síndrome adquirida por Claire, entretanto, ela tinha olhos em todas as mulheres que estiveram na ilha e ficaram grávidas antes ou depois de deixá-la. Dessa forma ela podia assegurar que todas recebessem o tratamento indispensável à erradicalização da síndrome para que seus bebês pudessem nascer saudáveis, assegurando que suas mães também sobrevivessem. Era o mínimo que podia fazer para reparar os crimes que fora obrigada a cometer durante todo o tempo em que trabalhara para a Mittelos Biociência. Por isso, quando Jack a informara que estava indo para Londres porque Claire daria à luz em dois dias, ela apressou-se em fazer as próprias malas para ir com ele. Queria acompanhar o parto de Claire e ter certeza de que ela e o bebê ficariam bem.
Seus olhos se iluminaram quando depois de exatos vinte e cinco minutos, Claire deu à luz a uma linda e saudável garotinha.
- É uma menina.- disse o Dr. Macfee, orgulhoso em trazer mais uma criança ao mundo.
Claire sorriu, emocionada. Lágrimas deslizavam por seus olhos. Charlie estava ao lado dela segurando sua mão. Juliet auxiliava ao médico e assistia a tudo com o mesmo sentimento que envolvia a todos na sala de parto. Para ela não havia momento mais sublime do que o nascimento de uma criança.
- É uma menina, Charlie.- Claire repetia, ansiosa por segurar a filha enquanto o Dr. Macfee passava o bebê a enfermeira para que os primeiros cuidados fossem tomados.
Vendo que estava tudo bem, Juliet apressou-se em remover as luvas cirúrgicas e lavar as mãos. Ela queria dar a boa notícia do nascimento da filha de Claire e Charlie a Jack que esperava ansiosamente na sala de espera com Aaron.
Ela deixou a sala de parto e caminhou pelo corredor do hospital, retirando a máscara que recobria seu rosto. Encontrou Jack sentado em uma das poltronas de cor verde musgo da confortável sala de espera do hospital. Ele estava de braços cruzados, os olhos fechados e a cabeça recostada contra a parede. Em seu colo repousava a cabeça loira de seu sobrinho que dormia profundamente.
Juliet sorriu e pigarreou ficando diante de Jack. Ele abriu os olhos e os esfregou, um pouco confuso sobre onde estava até se dar conta de que estava no hospital em Londres, esperando por notícias de sua única irmã.
- Sabe, Dr. Shephard, se uma das suas inúmeras amigas o visse agora, assim tão paternal e tranquilo não diriam se tratar da mesma pessoa.- provocou Juliet se referindo ao passado mulherengo de Jack, não muito distante.
Ele sorriu e balançou a cabeça dizendo:
- As pessoas mudam.
- Certamente.- Juliet concordou.
- E então, como está a Claire?- Jack perguntou sem poder mais conter a ansiedade.
- Ela está ótima!- respondeu Juliet prontamente. Agora ela e Charlie são pais de uma linda menina.
- Uma menina?- Jack sorriu, encantado. – Mas isso é maravilhoso! Lara e ela vão crescer juntas.
Juliet franziu o cenho ao ouvir aquelas palavras e disse:
- Bem, isso se você conseguir resolver aquele problema com o Sawyer e a Kate. Sinceramente, Jack, eu acho que o que vocês dois estão fazendo com ela é uma loucura. Ela vai ficar muito ressentida quando se lembrar de tudo.
Jack deu um sorriso amargurado.
- Estamos fazendo isso pelo bem dela.
- Continue dizendo isso a si mesmo.- Juliet continuou sua crítica. – Mas pra mim ainda parece que está fazendo isso por você, Dr. Shephard.
Ela se afastou em direção à sala de parto para dar uma última olhada em Claire e no bebê antes que as duas fossem transferidas para o quarto. Jack ficou lá na sala de espera com o sobrinho, perdido em seus pensamentos. Talvez Juliet tivesse razão e ele tivesse sido muito egoísta ao armar todo aquele circo com Sawyer para enganar Kate e ainda por cima usando Lara. Mas Kate não estava bem e aumentar seu sofrimento contando a ela sobre a perda do filho seria terrível demais. Ela precisava de tempo para se lembrar e tudo o que Jack fizera foi dar-lhe esse tempo.
Ele fechou os olhos, sentindo-se angustiado. Kate estava levando tempo demais para se lembrar de tudo. Tocou os cabelos loiros e macios de Aaron tentando buscar algum conforto em sua família naquele momento. Claire acabara de dar à luz uma menina. Aquele era um dia especial.
O celular dele vibrou de repente dentro do bolso da calça jeans, despertando Aaron que ergueu-se do colo dele. Jack retirou o celular do bolso e olhou Aaron.
- Está tudo bem, campeão?- perguntou.
- Cadê a mamãe?- choramingou o menino.
- Ela ainda está com os médicos, mas está ótima. Eu tenho uma boa notícia pra você. Me dê apenas um minuto, ok?- disse Jack olhando para o número no visor do celular e franzindo o cenho. – Você quer comer alguma coisa? Que tal uma barra de chocolate?- ele apontou para uma máquina que havia no canto do corredor principal, perto deles. Aaron balançou a cabeça concordando. Jack deu ao menino algumas moedas e quando este se afastou, ele atendeu ao celular que não parava de vibrar.
- Sawyer.- disse ele um pouco nervoso ao telefone. – Aconteceu alguma coisa com a Kate? Ela está bem? E a Lara?
- Ela está do mesmo jeito.- respondeu uma voz enfadada do outro lado da linha. A Lara também está bem – Não houve nenhuma mudança. Precisamos falar.
- Sawyer, não cuidar disso agora- disse Jack. – Eu estou em Londres.
- Londres?
- Vim ver a Claire. O bebê nasceu esta noite.- ele fez uma pausa e então sorriu consigo mesmo antes de dizer: É uma menina.
- Meus parabéns, titio.- congratulou Sawyer.
- Obrigado.- respondeu Jack. – Sobre a Kate, eu posso ligar pra você quando retornar aos Estados Unidos.
- Nada disso, doutor, estou te ligando pra dizer que vou para LA em no máximo dois dias.
- Como assim vai pra LA? E a Kate?
- A Betty pode cuidar dela. Eu preciso ir para Los Angeles. Tenho negócios lá. Eu achei que a Kate fosse melhorar logo, mas já se passaram semanas, Jack. Não sei se vou aguentar continuar com esse acordo por muito tempo.
- Do que está falando, Sawyer?- contestou Jack, ficando muito preocupado com o que estava ouvindo. – A Kate precisa de você agora para se lembrar de tudo, não tem outro jeito!
- Você não entende!- protestou Sawyer. – Não é nada fácil ficar aqui bancando o marido feliz enquanto as coisas mudaram tanto. Se me deixasse contar a verdade a ela, Kate iria se lembrar.
- Isso pode acabar com ela.- Jack disse entre dentes. – A Kate pode não aguentar a verdade.
- Olha aqui, doutor, se quer que eu continue com esta farsa, vai ter que me deixar ir à LA ou vou contar tudo para a Kate hoje mesmo.
- Não!- Jack quase gritou as palavras. – Se chegar ao extremo de termos que fazer isso, eu quero estar presente. Isso é importante pra mim também!
- Está bem! Mas eu estou indo à LA e vou passar pelo menos uma semana lá com a minha filha.
- Você quer ver Ana-Lucia.- Jack concluiu o óbvio.
- Exatamente.- confirmou Sawyer. – Já passou muito tempo e eu preciso vê-la. Você a tem visto? Ela não atende os meus telefonemas e quando consigo falar com ela é arredia, desliga o telefone na minha cara. Eu não posso mais aguentar isso.
- Não, eu não a tenho visto.- respondeu Jack. – Eu entendo que você precise voltar, mas o que vai dizer à Kate?
- Eu disse a ela que iria resolver uns negócios, vender uma casa. Ela e a Lara vão ficar bem com a Betty.
- A amiga dela ainda não sabe de nada?
- Absolutamente nada. Se ela soubesse contaria tudo para a Kate.
- Está bem, Sawyer.Vá para LA se quiser. Estarei de volta lá em uns dois dias também. Podemos conversar com um especialista sobre o que fazer a respeito da Kate. Se contamos a verdade ou não.
- Eu já sei com quem poderíamos falar.- disse Sawyer.
- Quem?
- Libby.- respondeu ele.
- Libby?- retrucou Jack. – Não a vejo desde o funeral do marido de Ana.
- Foi ela quem cuidou do caso da minha filha. Ela é terapeuta, né? Talvez possa nos ajudar.
- Ok, está bem. Vejo você em dois dias.
Sawyer desligou o telefone. Clementine estava sentada no chão perto dele. Alguns livros abertos sobre a mesinha de centro da sala. Fazia o dever de casa. Ele sentou-se ao lado dela no chão e indagou, baixinho:
- Quer ir visitar a Ana e a Érica em LA?
A menina abriu um enorme sorriso.
- Podemos mesmo, papai? Kate e a nenê irão com a gente?
- Shhhhiiii...- pediu Sawyer olhando em direção ao quarto deles onde Kate estava com Lara naquele momento. – Sim, podemos. Mas a Kate não pode saber que vamos vê-las, entendeu Clemen?
- Por que, papai? Por que ela ainda não se lembrou?
- Isso mesmo.
- Mas como vamos viajar sem contar nada pra ela?
- Confie em mim.- disse ele levantando-se do chão e tocando carinhosamente o topo da cabeça da filha.
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Raquel colocou os pratos na mesa enquanto Érica pulava ao redor dela tagarelando sem parar sobre o último capítulo de sua novela preferida que ela assistira na tarde do dia anterior. A avó ouvia tudo com atenção e sorria diante do entusiasmo da neta. Ana-Lucia porém mantinha-se calada e pensativa desde que chegara à casa da mãe naquela manhã. Raquel queria saber o que tanto afligia a filha. Já podia imaginar que devia se tratar de algo relacionado a James Ford. Ela sabia que ele tinha viajado com a esposa de volta para Bexar County há algumas semanas, e também sabia através de Érica que ele ligava de vez em quanto para Ana. Mas sua filha nunca comentava nada sobre esses telefonemas. Isso deixava Raquel intrigada. Ela precisava descobrir o que estava acontecendo, principalmente agora ao ver Ana tão amudada.
Por isso, resolveu interrogá-la de uma vez por todas. Olhou para Érica que continuava falando sem parar sobre a novela e disse:
- Mi nieta (minha neta), que tal você ir ao quarto da abuela e procurar aquele doce que trouxe pra mim? Eu pus lá em algum lugar, acho que em cima da cômoda.
Érica sorriu.
- Sim, abuela.- disse a menina, alegremente, se afastando em direção às escadas que levavam ao andar de cima da casa da avó. Raquel morava em um antigo conjunto residencial longe do centro de Los Angeles. Todas as casas eram feitas de madeira com telhado de tijolos vermelhos e parte do piso de madeira rangia quando se caminhava por ele, mas a capitã adorava aquele lugar. Fora um presente de casamento de seus pais quando se casara com Manuel Cortez. Embora fosse viúva há anos e morasse sozinha desde que Ana-Lucia alugara seu primeiro apartamento aos 19 anos, Raquel nunca pensara em vender aquela casa. Era um lugar especial que ela pretendia deixar de herança para a neta.
- Sabe que ela vai querer que a senhora divida o doce com ela agora, antes do almoço. A senhora devia dar o exemplo.- disse Ana finalmente levantando-se da cadeira onde estivera sentada na última meia hora e procurando copos no armário para colocar junto dos pratos sobre a mesa. –
- Não importa!- disse Raquel. – Ás vezes uma pequena transgressão às regras faz bem.
- A senhora dizendo isso?- Ana deu uma risadinha. – Meio estranho para quem sempre odiou qualquer tipo de trasngressão, mama.
- Depende da trasngressão.- disse Raquel. – Comer um pedaço de doce antes do almoço não é como esconder segredos terríveis da própria mãe.- acrescentou.
Ana-Lucia ergueu uma sobrancelha e deu de ombros; então pôs-se a arrumar os três copos ao lado dos pratos mecanicamente. Raquel deu um suspiro e aproximou-se da filha, sacudindo-a levemente pelos ombros.
- Por Dios, Ana-Lucia! O que há de errado com você, niña? Há dias que te vejo assim tão distraída e hoje está ainda pior. O Hondo me contou que viu você no trabalho esta semana e a achou apática.
Ana revirou os olhos.
- Ora, essa! O sargento mal voltou ao trabalho e já está fazendo relatórios sobre mim? Pelo jeito a licença saúde não ajudou muito a melhorar o humor dele.
- Deixe de ser irônica, Ana. Você sabe muito bem do que eu estou falando. Até a Érica tem notado que há algo errado com você. Me diga o que está acontecendo. É algo com o Ford? Só pode ser isso! O que ele fez dessa vez? Ele descumpriu a promessa que fez a você e resolveu que vai voltar com a esposa? Ela se lembrou de tudo e eles vão reatar?
- Não é nada disso, madre! Eu apenas não estou passando por um bom momento, só isso!
- Mi hija, desde que esse homem voltou pra sua vida você não tem passado por bons momentos e isso já está me deixando muito preocupada. Sua filha precisa de você!
- Eu não estou negligenciado minha filha.- Ana retrucou.
- Mas está negligenciando a si mesma.
Ana-Lucia deu um longo suspiro, então retirou uma pequena caixa de sua bolsa. Raquel Cortez quase caiu para trás ao ver aquele teste de gravidez nas mãos da filha.
- Mas você está...
- Eu ainda não sei.- Ana falou baixinho. – Ainda não tive coragem de fazer o teste.
- Abuela, eu posso abrir o chocolate?- Érica gritou descendo as escadas depois de finalmente ter encontrado o doce junto do telefone no quarto da avó.
- Traga aqui, mi cielo.- disse Raquel para a neta. Érica começou a descer as escadas e ela aproveitou para sussurrar para Ana rapidamente: - Faça o teste quando estiver pronta e depois lidaremos com isso.
Ana balançou a cabeça, assentindo. Sentiu um frio na barriga diante do olhar alegre de sua mãe. Ela parecia muito feliz com a possibilidade de ser avó novamente e a própria Ana não queria admitir que gostaria muito que o resultado do exame fosse positivo, porém aquele não era o momento certo de ter outro bebê e principalmente naquelas circunstâncias. Ela e Danny tentaram por tanto tempo ter outro filho e nunca conseguiram. Danny não era estéril, ele fizera diversos exames para descobrirem o porquê que Ana não conseguia engravidar. No entanto, o tempo foi passando e eles acabaram deixando o assunto de lado, tinham Érica. Mas agora ela podia estar grávida novamente e de Sawyer. Como seria possível que após ter sido declarada estéril que ela conseguisse engravidar duas vezes do mesmo homem?
Sua mãe estava certa. Ela precisava fazer o teste quando estivesse pronta, e seria naquela noite quando estivesse a sós em seu quarto depois de colocar Érica na cama. Se o resultado desse positivo, aí sim Ana começaria a se preocupar em como lidar com aquele novo milagre.
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Kate viu o rosto de Ana-Lucia olhando muito sério para ela, quase desafiador. "Em que posso ajudá-la?"Indagou a latina. "Foi você!"Kate bradou. "Prove!"- Ana provocou, falando com suavidade, mas o tom era ameaçador. A ilha! Kate queria sair daquela maldita ilha mais do que tudo, mas não conseguia encontrar James. Tocou seu ventre grávido. Não se lembrava de ter estado grávida na ilha. "Onde está o James?"- perguntou a Ana-Lucia. "Eu não sei, não sou a babá dele."- Ana respondeu com petulância, mas de repente não estavam mais na ilha. Ela fitava Ana-Lucia em pé em frente a uma porta, os braços cruzados sobre o peito. Kate se sentia tão nervosa e Ana não estava ajudando. "Eu sei que está transando com o meu marido."- disse por fim, como se não pudesse segurar aquelas palavras." Ana nada respondeu. Kate gritou: "Por acaso você sabe o que nós fazemos na ilha quando alguém se recusa a falar?" Ana respondeu: "Não vou rolar na areia com você, Kate. Não estamos mais na selva."Kate exclamou: "Cínica!" Ana retrucou: "Você não é totalmente inocente nessa história, Kate. Onde está o seu filho?" "Meu filho." Kate murmurou. "É Kate! Onde está o seu filho? Você o perdeu!" "Perdi?"Indagou Kate num murmúrio. Mas eu..."
Então ela viu um carro e ouviu gritos. O carro bateu em outro r capotou uma vez. Kate sentiu falta de ar e uma pancada forte na cabeça. Se curvou de dor. "Me ajude, Ana!" "Só você pode ajudar a si mesma." Ana disse. Kate olhou para o chão. Havia sangue. Estava sangrando. "Mamãe!" Um garotinho gritou. Kate o viu de pé, junto do carro capotado. "Meu filho!"Ela gritou. "Venha me buscar, mamãe, venha!" "Meu filho!"Kate repetiu. "Ele não é seu filho!" Kate ouviu a voz de Jack dizendo e ficou confusa. "Ele é meu filho!" Ela gritou. "Não é mais! Você o deixou na ilha!"Jack disse. "Você o esqueceu!" "Não!" Kate gritou. "Lara é o meu bebê!Lara! Lara!"
- Kate!- James gritou sacudindo-a pelos ombros. – Acorde por favor! Foi só um sonho!
Kate abriu os olhos de repente e viu o teto branco do quarto. James a segurava pelos ombros e olhava para ela assustado.
- Meu Deus, Kate! Eu estou tentando te acordar há uns cinco minutos. Você estava gritando o nome do bebê sem parar. Que pesadelo foi esse?
Ela desvencilhou-se dos braços dele, enterrando a cabeça no travesseiro. Aquele sonho confuso a deixara muito abalada. Ficou sentindo um vazio dentro do peito lembrando do garoto que vira no sonho, o menino que a chamara de mamãe. E quanto a Ana-Lucia? Por que tinha sonhado com ela? A última vez em que a vira fora na reunião com a Oceanic sobre a indenização que iam receber e isso já fazia cinco anos. E quanto a Jack? O que ele quis dizer com "você deixou o seu filho?" Mas ela nunca deixara nenhum filho para trás. Lara, sua menininha estava com ela. Lágrimas quentes deslizavam por seu rosto e ela emitiu um soluço angustiado.
- Kate?- James a chamou com ternura, tocando seus cabelos. – Está tudo bem. Foi só um sonho. Quer me contou com o que sonhou? Você estava chamando pela Lara. Algo estava acontecendo com ela?
Ela tirou a cabeça do travesseiro e sentou-se na cama, limpando as lágrimas com as costas das mãos. Olhou para James e balançou a cabeça em resposta. Ela não queria falar daquele sonho naquele momento, mas mesmo assim, disse:
- Acho que sonhei com o acidente.
James arregalou os olhos.
- Conseguiu se lembrar de alguma coisa?- perguntou.
Kate notou uma certa ansiedade na voz dele.
- Não.- ela respondeu.
Nesse momento, Lara começou a chorar no quarto logo ao lado deles.
- Eu vou!- James ofereceu-se, Kate parecia muito abalada por aquele sonho e precisava descansar.
- Não, pode deixar que eu vou.- disse ela. – Eu preciso ficar um pouco com a minha filha agora.
Quando ela saiu do quarto, James amaldiçoou Jack mentalmente. Era terrível ver Kate sofrendo daquele jeito e acreditando naquela mentira. Aquilo defintivamente não a estava ajudando e era isso que ele pretendia dizer à Libby quando conversassem com ela. Aquela farsa tinha que acabar, pelo bem de Kate, pelo bem de Lara e principalmente pelo bem de Ana. James queria tanto poder voltar para ela e ficarem juntos sem que nenhum dos dois precisasse sentir nenhum tipo de culpa. E ele faria tudo o que fosse possível para tornar isso realidade muito em breve.
Clementine apareceu à porta deles, esfregando os olhos de cansaço. Tinha acordado com os gritos de Kate e ficou um pouco assustada.
- O que aconteceu, papai? A Kate está bem?
James balançou a cabeça assentindo.
- Ela teve um pesadelo.- explicou.
Clementine entrou no quarto e engatinhou pela cama do pai até estar junto dele. James a abraçou compreendendo como ela se sentia. Aquela situação toda com Kate a magoava também.
- Vai ficar tudo bem, minha querida. Eu prometo.
Enquanto isso, no quarto de Lara, Kate sentara-se com ela na cadeira de balanço, junto da janela cantando suavemente para que a pequena voltasse a dormir. Lara era perfeita e era toda sua. Se sentia tão feliz que aquele terrível acidente não a tivesse tirado dela. Mas a sensação de vazio que sentia desde que acordara naquele hospital em LA não passava nunca. E não era apenas porque ela não conseguia se lembrar de semanas de sua vida, mas porque havia algo que Kate sabia que precisava ser desvendado sobre o acidente.
A imagem do garoto do sonho veio à sua mente outra vez e ela teve a estranha sensação de que já o vira em algum lugar. Como podia ser? Talvez ela devesse voltar à LA e confrontar Jack sobre o que acontecera nas últimas semanas já que James pelo jeito não iria lhe dizer nada. Ela esperaria por enquanto. Esperaria mais um pouco. Sabia que as lembranças viriam mais cedo ou mais tarde, e ela estaria preparada para encarar os fatos quando acontecesse.
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A casa estava completamente silenciosa. Ana-Lucia desligara as luzes e acionara o alarme da casa. Érica já estava na cama há algum tempo. Era tarde, mas Ana não conseguia dormir. Quando decidiu por fim desligar a TV e ir para o seu quarto, lembrou-se de levar consigo o teste de gravidez que comprara na farmácia pela manhã.
Respirando fundo, ela rasgou o invólucro e retirou a pequena faixa de papel que em poucos minutos selaria o seu destino. Azul para negativo, rosa para positivo, leu na bula. "Como se nunca tivesse feito aquilo antes", exclamou consigo mesma e dirigiu-se ao seu banheiro dentro do quarto. Realizou o exame e então esperou sentada em sua cama. Sentia-se extremamente impaciente. Levaria apenas dez minutos; dez minutos que agora lhe pareciam uma eternidade.
Mexeu as pernas nervosas, esticou os braços e moveu o pescoço de um lado para o outro. Olhou para o relógio digital ao lado da cama e apenas dois minutos tinham se passado.
- Droga!- resmungou, levantando-se e andando pelo quarto. Seu coração batia acelerado. 5 minutos, 7 minutos, 9 minutos e ela achou que fosse gritar de tanta ansiedade. Quando o relógio deu dez minutos, ela voltou a sentar-se na cama. Apesar de estar ansiosa, ficou com medo da verdade. Sabia que havia a possibilidade do exame dar negativo mais do que o exame dar positivo e isso lá no fundo a entristecia. Mas Ana precisava saber a verdade. Por isso, encheu-se de coragem e caminhou decidida até o banheiro.
O exame estava sobre a pia. A cor na faixa de papel que antes fora branca agora brilhava. A resposta estava ali, clara como água. Ana soltou um soluço.
Continua...
